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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

THE WICKED + THE DIVINE, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie, ou "Em nome da Minaj, do Bieber e do cínico Kanye, Amém!"







Por EDUARDO CRUZ



"A cada noventa anos, aproximadamente, doze deuses reencarnam no corpo de jovens adultos. Eles são carismáticos, perspicazes e atraem grandes multidões. São capazes de levar qualquer um ao êxtase. Há rumores de que podem realizar milagres. Eles salvam vidas, seja metafórica ou concretamente. Eles são amados. Eles são odiados. Eles são incríveis. E em menos de dois anos estarão todos mortos. Isso já aconteceu uma vez. E vai acontecer de novo..."


Então vamos lá... UM, DOIS, TRÊS, QUATRO!



Um estalo de dedos e estou de volta, digitando e pesquisando em livros grandes e empoeirados sobre divindades obscuras, mesmo com esse gesso de 5kg no braço. Um chamado divino (só não sei qual deus ao certo rs) me fez sair do repouso e escrever sobre essa série fantástica, que de 2014 pra cá já ganhou um British Comics Award e foi indicada para três Eisners! O selo Geektopia, da editora Novo Século, acaba de lançar o primeiro encadernado por aqui, com o arco inicial da série, contendo as 5 primeiras edições de The WicDiv, que lá fora é publicada pela Image, que seria uma espécie de Vertigo renascida e mais forte, feroz e inteligente. A encarnação anterior da Vertigo continua na DC Comics e respirando com a ajuda de aparelhos, sem demonstrar melhoria em seu quadro até o fechamento desse post.

Da esquerda para a direita: A deusa Amaterasu, a protagonista Laura e Lúcifer, o demônio judaico cristão, a estrela da manhã, o adversário, o caluniador, a serpente, o pai da mentira...

Andy Warhol profetizou que no futuro, todos teríamos nossos quinze minutos de fama, uma notoriedade fugaz, notoriedade essa que vemos muitas pessoas desfrutando sem realmente aparentar talento para nada além do próprio talento de estar sempre presente nos meios de comunicação em massa, nas redes sociais e nos trend topics do Twitter. Era de se esperar que após duas gerações vivendo sob essa condição estabelecida nos últimos anos do século XX, isso evoluiria para um estado de fetichização tão grande que hoje em dia a molecada quer ser famosa. Pelo quê exatamente, não importa. Ponto. Porque essa colocação? achei importante contextualizar esse estado de coisas antes de começar a falar da HQ. Sigamos.



De autoria da mesma equipe criativa de "Phonogram", o roteirista Kieron Gillen e o artista Jamie McKelvie, em The WicDiv seguimos os passos de Laura, uma jovem do sul de Londres. Laura é fã de um desses deuses reencarnados, Amaterasu. Em uma apresentação de Amaterasu, Laura entra em êxtase, e ao despertar, conhece Lúcifer (esse mesmo! mas em um corpo feminino) e é convidada a ir aos bastidores do show da deusa. Ali, acontecimentos dramáticos ligam sua vida ao Panteão, o grupo de jovens que subitamente se tornaram avatares vivos de deuses e vivem uma vida badalada de fama e poder (no sentido literal e metafísico mesmo!), alçando status de ídolos pop, com multidões de fãs, amados, idolatrados e também odiados, tudo isso com data para acabar: em dois anos todos eles estarão mortos, para em noventa anos reiniciarem este ciclo, no que é conhecido como "A Recorrência". Através do olhos de Laura, passamos a conhecer algumas dessas divindades do panteão à medida que a história avança para sua conclusão (sim, o autor vai cobrir esse período de dois anos da Recorrência atual e a série está caminhando para a edição 30; Gillen já afirmou que a série vai fechar até no máximo a edição 60, ou sejE, lá fora The WicDiv já está praticamente na metade). Porém, como ainda só li este primeiro encadernado, só vou falar inicialmente das divindades do panteão que dão as caras nesses arco inicial. Não são deuses óbvios como Thor, Zeus ou Shiva. Gillen usa deuses mais obscuros em sua narrativa, o que provoca no leitor um pequeno comichão para fazer uma pesquisa mais profunda. Pra mim, que sempre curti mitologia, foi uma diversão extra além da HQ. São eles(as):



  • Ananke - Não exatamente uma deusa, mas uma entidade poderosa e antiga, responsável pela manutenção das recorrências do Panteão através dos séculos. Demonstra afeto e uma ligação íntima com todos eles.























  • Amaterasu - Anteriormente a inglesa Hazel Greenaway, foi revelada por Ananke como sendo a deusa xintoísta do universo e da luz. Seu símbolo no panteão é o desenho de um sol, a personagem é baseada na cantora Florence Welch, vocalista da banda Florence + The Machine, e Stevie Nicks, do Fleetwood Mac.








    • Baal - Baseado no deus semítico das tempestades, Baal-Hadad. Baal é bissexual e já teve um caso com Inanna, até ele o trair com Lúcifer,. Seu estilo é baeado em astros do R&B, como P. Diddy e Kanye West. Seu símblo no panteão é um bode.











    • Baphomet - Bafomet já conhecia a deusa Morrígan antes da revelação de sua divindade, tendo com ela uma relação conturbada de amor. A inspiração para o personagem vem de MorriseyAndrew Eldritch (do Sisters of Mercy) e Nick Cave. Seu símbolo é o bode com duas espadas. 











    • Inanna - Apesar de Inanna ser a deusa suméria do amor, do erotismo, da paixão, é representada, na série por um rapaz bissexual que tem a estrela de oito pontas como símbolo. Baseado no artista andrógino Prince, Inanna é extravagante em suas roupas, mas tem uma das melhores personalidades do Panteão.


















    • Minerva -  A membro mais nova do Panteão, tem 12 anos e representa a deusa romana da inteligência e astúcia. Tem uma coruja robô que sempre a segue e esse animal é seu símbolo (só consigo lembrar da coruja de "Fúria de Titãs" heheh) . Sua jaqueta nos remete aos Beatles, My Chemical Romance, e no Queen. Sim, me recuso a falar do Coldplay rs.












    • Morrígan - Uma divindade tríplice, aparece em 3 formas: Macha, Badb e Annie. Tem como símbolo uma caveira com máscara de corvo, ela pode curar pessoas e controlar corvos, é um espírito celta que representa a batalha, luta e soberania. É apaixonada por Bafomet e é insirada em Patti SmithSiouxsie SiouxSinéad O'ConnorKate Bush.












    • Sakhmet - A deusa leoa egípcia era uma furiosa guerreira do exército do deus sol Rá. Baseada em Rihanna, ela se comporta como um gato a maior parte do tempo. Seu símbolo é uma leoa.










    • Wōden - Representando o rei da mitologia Nórdica, Odin, Woden sempre está acompanhado de seu séquito de Valquírias. Ele consegue dar poderes a elas e seu estilo é baseado na dupla do Daft Punk.













    • Tara - Não se sabe de qual mitologia Tara vem, mas a budista é a principal opção. Tara é odiada pela maior parte dos fãs do Panteão e os próprios membros não confiam muito nela. Ela é representada elas máscara do teatro e foi baseada em Nicki Minaj e Lady Gaga.












    Se estiver a fim de uma imersão mais profunda, é só conferir a playlist do Spotify, onde Gillen disponibiliza as músicas que o inspiram na criação do título.


    Não, não tem só diálogos. A porrada come solta!!

    Além da inspiração óbvia em cima da música pop atual e seus ídolos, Gillen se inspirou no câncer terminal de seu pai para criar The WicDiv, segundo ele próprio "uma história sobre vida e morte". Mas além disso fica bem claro o comentário a respeito da própria sociedade e este sistema que a indústria do entretenimento construiu para si, que carece sempre de uma nova estrela, um grande messias pop que vai salvar as massas com sua arte. Em nossa sociedade, que tem como base o consumo e o materialismo, é óbvio que a maioria das pessoas, principalmente a juventude, está desligada de qualquer espiritualidade, mas um instinto atávico move as pessoas a procurar um substituto para saciar esta necessidade, tão inerente quanto o próprio impulso gregário do ser humano: construir ídolos para si. Dependendo de seu ponto de vista e sistema de crença pessoal, The WicDiv pode mostrar que estes ídolos pop são o novo bezerro de ouro, em alusão ao episódio bíblico, ou são o nível seguinte desta necessidade do homem de construir para si ídolos que validem seu estilo de vida, a fim de justificar sua própria existência. Neste último caso, os deuses acompanharam os passos da humanidade, sempre em evolução (esperamos que sim!), ao invés de morrerem soterrados nas areias do tempo ou se tornarem mobília empoeirada num canto do inconsciente coletivo, e se transformaram, com o intuito de continuar a serem idolatrados e devotados.





    Além disso, identifiquei um elemento em comum com outra HQ que dispensa quaisquer apresentações: "Sandman", de Neil Gaiman. Essa jogada narrativa, de se pegar um elemento completamente deslocado de nossa realidade, algo místico, divino ou mitológico e inseri-lo na vida quotidiana, como Gillen faz com seus deuses da antiguidade andando e interagindo com as pessoas nos dias atuais, nos moldes atuais, já foi explorado em diversos momentos na HQ Sandman. É algo que quem já teve contato com a HQ de Gaiman identifica logo nas primeiras páginas de The WicDiv, porém, não é o mesmo tom, veja bem. Roteiristas diferentes, épocas diferentes, mas repito: isso foi algo bem bacana durante a leitura. Tive a mesma sensação de quando li Sandman a primeira vez, de que tinha em mãos uma história rica, vibrante e cheia de camadas. E isso, amiguinhos, para um leitor de HQ velhaco, cansado e quase sem fé nas HQs atuais como eu, é um sopro de ar nos pulmões. Mais do que restaurar a fé em deuses esquecidos, esse título restaurou minha fé na safra atual de HQs autorais.


    Aquele ali deitado era eu, esperando alguma coisa tipo The Wicked + The divine para me ressuscitar do meu coma de releitura de velhos gibis. A última vez que isso aconteceu foi com "Injection", e já faz um tempo...


    Quanto à edição nacional do encadernado, não tem do que se reclamar: papel couché envernizado, uma bela capa dura, formato um pouco maior que o americano. Achei uns dois erros de digitação aqui e ali, por falta de uma revisão mais atenta, mas isso não incomoda nem compromete de jeito nenhum. A Geektopia começou com muito mais acertos do que erros e a iniciativa de lançar este título é louvável! Agora é rezar para um deus qualquer (qualquer um mesmo, pode escolher! vale até o diabo!) para a periodicidade de The WicDiv seja amigável com seus leitores aqui, e que não fiquemos até dois anos aguardando o lançamento de um volume (cof cof DEVIR cof cof coff), como acontece com outras duas ou três séries em publicação atualmente no Brasil.





    P.S.: Ah, e pra quem se interessar por uma leitura complementar nesses aspectos que abordei aqui de leve, esbarrei nesse texto enquanto pesquisava um pouco sobre a cara atual de um astro pop. Bem interessante, recomendo a leitura!


    P.S. 2: Meus mais sinceros agradecimentos ao amiguinho Fabrício Rocha por ter me indicado essa HQ, e acima de tudo, por ter insistido que eu lesse rsrsrsrs

    quarta-feira, 26 de outubro de 2016

    ZÉ DO CAIXÃO, MALDITO - A BIOGRAFIA, de André Barcinski e Ivan Finotti, ou “Coffin Joe é o meu pastor e horror não me faltará”



    Por EDUARDO “A BESTA” CRUZ







    ''O que é a vida?

    É o princípio da morte.

    O que é a morte?

    É o fim da vida.''


    Se eu tivesse que definir em apenas uma palavra o cidadão José Mojica Marins, bem, eu não conseguiria! Uma palavra só? Nada justo! Melhor seria se me dessem um estoque ilimitado de adjetivos, isso sim faria maior justiça a Mojica: Paixão, resiliência, garra (com trocadilho mesmo!), criatividade, determinação, coragem, astúcia.... só mesmo essa soma de qualidades para explicar a longevidade da carreira de um cineasta em um país que não valoriza a cultura de um modo geral, ainda menos quando falamos em uma arte tão cara quanto o cinema. Mojica tem uma filmografia extensa, e mesmo assim provavelmente poderíamos somar os orçamentos de todos os filmes em que ele produziu, dirigiu, atuou.... ainda assim essa soma não ultrapassaria o orçamento do último filme dos Transformers. Nesse quesito, deveria ser inaugurada uma cadeira em universidades ensinando o método Mojica de realizar longas metragens com valores irrisórios.

    O lado humano de Zé do Caixão....

    Lembro do primeiro contato que eu tive com a persona fictícia de Mojica Marins, um personagem que acabou ficando maior e, de certa forma, mais real que o próprio Mojica: O Zé do Caixão. Eu era garoto, e ele participava de um programa do Gugu ou Silvio Santos, um desses programas de TV de domingo à tarde que exploram de forma sensacionalista seus convidados “exóticos”, na guerra para ganhar alguns pontos de audiência. Eu não fazia idéia de quem era aquele maluco de cartola, bradando pragas sinistras para os telespectadores, usando uma capa de Exu caveira e unhas compridas, que mais lembravam garras, mas os mais velhos lá em casa reconheceram a figura, o tal “Zé do Caixão”. Fiquei intrigado com aquela criatura, nunca tinha visto nada parecido com aquilo em minha curta vida antes. Tentei descobrir o máximo possível daquela figura perguntando aos meus tios e avós, mas basicamente, as pessoas só se lembram do José Mojica Marins enquanto Zé do Caixão, e não de seu trabalho, sua filmografia. Esse meu primeiro contato com Mojica, como figura pitoresca - e imagino que eu não seja o único a ter tido esse primeiro contato dessa forma - só demonstra o ostracismo em que se encontrava o cineasta no início dos anos 90, pouco antes de seu reconhecimento no exterior. Zé do Caixão sempre fascinou adultos e crianças, e embora esse nosso lindo país de memória curta não consiga enxergar com acuidade seu imenso valor e contribuição para a cultura popular nacional, uma coisa é certa: ele soube se fazer enxergar. Ponto. Até porque, como o próprio Mojica diz: "Quem não aparece, praticamente desaparece!".

    A Lenda e eu
    Alguns anos depois, ainda na era do VHS (a maioria dos que lêem esse texto não faz idéia do que foi um VHS rs), esbarrei com “O estranho mundo de Zé do Caixão” escondido em uma locadora (a maioria dos que lêem esse texto nem sabe o que é uma locadora rs) e finalmente consegui ter uma fração de idéia do que era o Zé do Caixão. Mas ainda era uma época de internet discada (a maioria que lê isso nem sabe é internet discada rs), e muito pouca informação atravessava o fio telefônico até o meu PC, comparado com a velocidade e abundância de informação de hoje. Avance mais uns 6 anos e, novamente, em outra locadora empoeirada, encontrei a obra máxima de Mojica: “À meia noite levarei sua alma”, ode suprema à iconoclastia e desobediência do indivíduo perante as normas opressivas da sociedade, o filme que te faz compreender porque Mojica é comparado à Luis Buñuel, e que dá orgulho de ter sido produzido no Brasil.

     À meia noite levarei sua alma (1963)

    O estranho mundo de Zé do Caixão (1968)
     
    Em “À meia noite levarei a sua alma” vemos o surgimento do personagem Zé do Caixão, o indivíduo que não se conforma com o pensamento de rebanho, um monstro tipicamente brasileiro, que se crê superior à massa, numa distorção Nietzschiana do conceito de Übermensch, com um mantra que tenta executar a qualquer preço: A CONTINUIDADE DO SANGUE! Na busca por gerar o sucessor perfeito, Zé do Caixão era o homem tornado monstro por meio das barbáries que perpetrava em nome de seu objetivo supremo.

    José Mojica "Zé do Caixão" Marins e Christopher "Drácula Saruman" Lee

    Depois disso, e de alguns anos já usufruindo o reconhecimento no estrangeiro – enquanto aqui a maioria das pessoas ainda o enxergavam apenas como “pitoresco” – foi lançado um Box com 6 filmes altamente relevantes de sua filmografia (como o destruidor “Ritual dos sádicos” ou “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, a continuação do “À meia noite...”) e, paralelamente a isso, a internet melhorou o suficiente para possibilitar o download de mais alguns filmes, e os que não achávamos online, encomendávamos de sites de colecionadores, como o falecido site Putrescine, com um acervo que era uma mina de ouro do cinema nacional. 

    À meia noite beberei tua pinga!

    Aí, um dia você acorda, passa tudo isso em retrospecto na memória e PAH! se descobre fã de José Mojica Marins. Um fã? Melhor dizendo, um seguidor ávido, fascinado com a visão desse diretor autodidata, que aprendeu cinema assistindo filmes, de dentro da cabine de projeção do cinema de bairro onde seu pai trabalhava como projecionista no subúrbio de São Paulo.

    Seguindo o rastro da obra de Mojica assim tão obsessivamente, era evidente que uma hora eu esbarraria em “Maldito”, a biografia de José Mojica Marins, de André Barcinski e Ivan Finotti, outros dois Mojicólatras aficionados (é preciso um para reconhecer um), e foi exatamente o que aconteceu! Era mais uma excelente aquisição para quem estava “estudando” Zé do Caixãologia há quase uma década sem nem se dar conta disso. Não contente em assistir ao máximo de seus filmes que eu pudesse pôr as mãos, eu queria conhecer os percalços dessa vida, o que motivou essa imaginação sem amarras e, quem sabe, conhecer o segredo de sua persistência na execução de sua obra. Os autores fizeram um trabalho de pesquisa bem abrangente, e é uma das biografias mais completas em que já tive o prazer de pôr as mãos.

    Capa da primeira edição de "Maldito"

    Consegui um autógrafo do Mestre, claro...

    Nada contra quem costuma ler biografias de artistas, mas eu sempre preferi apreciar diretamente a arte produzida a ler a respeito dos acontecimentos da vida do artista em questão, com raras exceções, e Mojica é “A” exceção: os esquemas rocambolescos bolados para arrecadar verba para realizar seus filmes, os casos hilários e pitorescos por trás das filmagens, como o roubo das árvores plantadas ao longo do Largo do Arouche, roubadas de madrugada pela equipe de Mojica para compor o cenário da floresta de “À meia noite...”, ou quando Glauber Rocha levanta da cadeira no meio de uma sessão de "À meia noite..." berrando "Putaquipariu, esse cara é um gênio!", seus rolos com mulheres (Mojica chegou a ter 4 mulheres simultaneamente, uma verdadeira maratona de casa em casa para “bater o ponto”!), o infarto sofrido por conta da dieta em época de filmagens (cachaça, salame e alguns comprimidos para se manter acordado), o tardio e merecido reconhecimento da crítica internacional, os prêmios recebidos no exterior.... tudo estava lá, para quem quisesse conhecer mais a fundo o “Mestre” (como era carinhosamente chamado pelos alunos do curso de artes dramáticas fundado e administrado por ele, uma maneira de sempre ter elenco barato à disposição), além da sua obra cinematográfica, os percalços de uma vida que sempre foi febril no tocante a fazer cinema. O livro cobre desde a chegada de seus pais, imigrantes espanhóis, ao Brasil, passando pela infância e adolescência de Mojica, os tempos bons e os ruins, as dificuldades financeiras, a fase em que o diretor teve que trabalhar em produções pornográficas da boca do lixo para sobreviver... enfim, muitas histórias dentro de histórias, e tudo verdade, mesmo que algumas sejam absurdas de acreditar! Tudo isso embalado em um texto ágil e envolvente.

    Trecho de 24 horas de sexo explícito (1985)

    Em 2015, o canal Space produziu uma mini série em seis episódios adaptando alguns dos principais acontecimentos da vida de José Mojica Marins descritos na biografia. A mini série, intitulada simplesmente “Zé do Caixão”, cobre o início das primeiras experimentações com cinema, passando pelos maiores sucessos, o pesadelo que inspirou Mojica a criar Zé do Caixão, a fase de dificuldades financeiras, onde Mojica só conseguiu trabalhos como diretor em produções eróticas, entre outros causos da vida do diretor, com Matheus Nachtergaele no papel principal. Semelhança estarrecedora. O próprio Mojica declarou ter ficado impressionado ao entrar no set de filmagens e ver Nachtergaele trajado à caráter, como Zé do Caixão. Aproveitando o espaço, deixo aqui uma entrevista com a lenda conduzida pelo pessoal do Podtrash, um podcast altamente especializado em comentar filmes trash e congêneres. Aposto que para o pessoal do podcast, foi um sonho realizado. Inveja branca de vocês, guys heheheh.....


    Caracterização perfeita



     A minissérie Zé do Caixão

    Infelizmente para as novas gerações, esse fantástico livro, da Editora 34, publicado originalmente em 1998, já estava esgotado havia alguns anos, até que a Darkside Books entra na jogada e apronta novamente. Sim, a editora da caveira não dormiu no ponto e adquiriu os direitos de publicação da biografia para editar um tijolo fantástico de 666 (!!!) páginas. Zé do Caixão, nosso próprio bicho papão bem brasileiro, estava em casa! A diferença do número de páginas em relação à edição anterior permitiu que o livro fosse ainda mais ricamente ilustrado do que sua versão anterior, com fotos ampliadas e muitas outras fotos inéditas. Na verdade, não somente as fotos, mas toda a parte gráfica do livro é impressionante, com uma capa belíssima, que captura seu olhar por muitos minutos. Um pacote à altura para um livro excelente e um tributo mais que apropriado à vida e obra do Mestre, com todo o conceito visual da edição perfeitamente alinhado com a obra de Mojica, ou seja, é um livro dark, imponente, assustador, de meter medo já na capa, e que lembra um grimório de magia. Além disso, “Maldito, a biografia” possui uma extensa seção, esforço hercúleo dos autores em catalogar TODA A OBRA de mojica: seus filmes, curtas metragens, programas de TV, novelizações, histórias em quadrinhos... Todas as produções com um grau de envolvimento de José Mojica Marins constam lá.  Com esse guia em mãos, só posso desejar uma coisa: Bom garimpo!

    Fui obrigado a comprar pela segunda vez o mesmo livro rs. Obrigado, Darkside.


    Mais um livraço de respeito da Darkside Books...
    Termino esse texto rogando uma singela praga aos leitores da Zona: QUE VOCÊ SEJA ACORRENTADO(A) A UMA CADEIRA DE PREGOS DE FERRO FERVENTE, E UMA TEVÊ REPRISANDO O ESPECIAL DE NATAL DO ROBERTO CARLOS COM PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE SIMONE, CANTANDO “ENTÃO É NATAL” ... POR TODA A ETERNIDADE!!!!, caso não corra atrás de seu exemplar de “Maldito – A biografia”.......


    Fica aí duvidando de praga do Zé, fica....


    BRINCADEIRINHA!!! SEM PRAGAS, VAMOS SÓ PULAR NO SALÃO, ATÉ CAIR!!!!!