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segunda-feira, 22 de maio de 2017

CORAÇÃO SATÂNICO, de William Hjortsberg, ou “Um Hellblazer Noir com a melhor história de John Constantine jamais produzida pela Vertigo/DC Comics"




Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA






Não se pode enganar o Diabo.

Isso é um fato. Ou pelo menos, um fato dentro dos universos ficcionais rs. As melhores histórias sobre o assunto são aquelas que comprovam a máxima acima. Não dá pra ter uma história que envolva o próprio Chifrudo como personagem central E ter um final feliz ao mesmo tempo.

O Tinhoso está aí desde sempre. Segundo os teólogos, o Cramulhão é muito mais antigo que o próprio homem, então seria muita presunção crer que uma pessoa, por mais inteligente e experiente que seja, fosse capaz de passar a perna no Pai da Mentira. E é também por causa desse adágio que eu acho perfeitamente compreensível quando alguém não concorda, por exemplo, com o rumo que Garth Ennis deu ao personagem John Constantine, sempre às voltas com ocorrências demoníacas em suas histórias, quando livrou o personagem de um câncer terminal bolando uma trama intrincada onde Constantine ludibria três grandes entidades infernais e ainda lava a alma dando o dedo médio para o Primeiro dos Caídos, no já clássico arco “Hábitos Perigosos”, láááááá nos anos 90, na falecida revista "Vertigo", da editora Abril.


Foi divertido? Foi! 
Foi Massavéio? À beça! 
Ainda me lembro de quando era garoto juvenil e vibrei com essa saída para uma situação que parecia levar ao fim do personagem e ao encerramento do título, mas analisando friamente, quais são as chances de uma pessoa que viveu trinta e poucos anos, ou sessenta, ou mesmo cem, de ter qualquer vantagem estratégica sobre uma inteligência não humana, e que em escala de poder fica abaixo apenas de seu próprio criador que, dizem, é o criador de todo o resto também? rs

Agora, se você admite essa possibilidade, ou melhor, a IMpossibilidade de uma história em que o protagonista engane o Cabrunco e saia inteiro pra se gabar, e fica se perguntando que rumo uma história assim pode tomar, tenho uma ótima recomendação: Coração Satânico, de William Hjortsberg!

"É como se Raymond Chandler tivesse escrito 'O Exorcista'. Fabuloso. Nunca li nada igual."
Stephen King

Na verdade, Coração Satânico foi uma recomendação do Ricardo C., o outro zelador da Zona Negativa. Ele adora tanto o livro quanto o filme, e insistiu que eu lesse a história. Eu conhecia apenas o filme, como 90% das pessoas que ouvem falar em Coração Satânico. “Mas então porque é você escrevendo essa resenha, e não ele, que conhece o livro há muito mais tempo que você?”, vocês vão perguntar. Bem, se a vida fosse justa, seria um texto dele, mas fui tentado pelo Pé-de-Bode, e bati com uma pedra em sua cabeça enquanto ele estava distraído trabalhando em algum outro texto. E assim Caim matou Abel.



A trama de Coração Satânico é ambientada na década de 1950, e a história é narrada em primeira pessoa por seu protagonista, Harry Angel, um detetive particular que é contratado pelo enigmático Louis Cyphre (sacaram?? sacaram????) para localizar o paradeiro de um músico, Johnny Favorite. A princípio, o que parecia ser mais um caso rotineiro degenera lentamente, à medida que a história avança, para mistérios, mortes, rituais sangrentos e tenebrosos de vodu no Central Park à noite, muitos pentagramas invertidos, magia negra e o que parece ser a mão do próprio Príncipe das Trevas encadeando cada vez mais acontecimentos macabros, que culminam em... bem, não vou me estender nos detalhes nem dar spoilers, ou corro o risco de acabar sufocado com meus próprios genitais decepados ;>)

E não se deixem enganar pelo clima de romance policial noir à primeira vista: o que começa como um romance de Mike Hammer, com ruelas escuras, becos esfumaçados, intrigas, mulheres fatais e crimes violentos rapidamente toma contornos  dignos de um arco de John Constantine: Hellblazer à medida que a investigação de Angel avança e ele desvela pouco a pouco o mistério de Johnny Favorite, e paralelamente, mistérios sobre si próprio. O detetive particular da história segue à risca a cartilha do típico detetive do gênero American Crime Novel: durão, fumante inveterado, beberrão, bom de briga e que muitas vezes recorre a métodos e recursos à margem da lei para levar seu trabalho a cabo. 

A revelação do mistério e o clímax da história são superiores e muito mais diabólicos do que muitas das fases de Hellblazer, que em suas 300 edições publicadas, teve seus altos (Jamie Delano, Andy Diggle, Warren Ellis) e baixos (Mike Carey, Denise Mina). É uma história cuja leitura é um deleite, num ritmo nem muito lento, nem corrido demais. A impressão que se tem desde as primeiras páginas é que Hjortsberg tem perfeito controle do ritmo da história que está contando. Eu mesmo li bem mais devagar que o de costume, apenas para que o livro não acabasse tão rápido rs.

Em 1987 foi produzida uma adaptação cinematográfica, roteirizada e dirigida pelo competentíssimo Alan Parker (Mississipi em chamas, Pink Floyd – The Wall, O expresso da meia noite). O roteiro de Parker, apesar das pequenas modificações (como por exemplo, transpor parte da história para o estado da Louisiana, provavelmente para legitimar ainda mais o contexto das religiões africanas na trama, ou mais provavelmente porque certas cenas chave do livro são infilmáveis, como a cena da missa negra que Angel presencia em uma estação de metrô abandonada, onde acontece TUDO que se pode esperar de uma verdadeira missa negra!), conserva com perfeição o ritmo do livro no que tange à investigação de Angel e todos os eventos tétricos que acontecem pelo caminho, bem como mantém o final macabro, que escancara o inferno bem na nossa cara. Se não tiver paciência para ler o livro, - o que eu acho um pecado, até mesmo no inferno – o filme também não decepciona. Muito pelo contrário. O Louis Cyphre interpretado por Robert De Niro é magnífico, com doses cavalares de mordacidade, sarcasmo e deboche pela criação divina, e seu joguinho com Angel lembra muito um gato brincando com uma barata: sádico, atrevido e agindo como se tivesse todo o tempo do mundo. A cena em que Harry Angel, (interpretado pelo galã hoje deformado Mickey Rourke) encontra Cyphre em uma igreja dá o tom de um dos melhores Cramulhões já interpretados no cinema. Nota 10! AdEvogado do Diabo??? Al Pacino se cagaria de medo do Cabrunco do Robert De Niro! 

"Há religiões suficientes para os homens se odiarem, mas não o bastante para se amarem."
Louis Cyphre



 

Robert De Niro como Louis Cyphre e Mickey Rourke no papel de Harry Angel

No Brasil, Coração Satânico foi publicado em 1987 pela editora Best Seller e estava esgotado há vários anos, sendo considerado uma raridade entre os colecionadores. Mas uma nova edição foi lançada pela Darkside Books, atualmente uma das editoras mais expressivas nesse nicho de horror, que resgatou o livro do Fosso Sem Fundo para publicá-lo em mais uma magnífica edição, com acabamento e projeto gráfico irrepreensíveis, o que já é uma marca registrada da editora. Eis uma edição pra Sete-Peles nenhum botar defeito!

Capa da primeira edição brasileira de Coração Satânico, de 1987

Uma história fantástica, poderosa e carregada de simbolismos. Um híbrido perfeito entre os gêneros policial e horror. Não se esqueçam de matar uma galinha e acender umas velas pretas para dar graças por essa bênção, pessoal.





sexta-feira, 31 de março de 2017

HELLBOY NO MÉXICO, de mike Mignola + Richard Corben + Mick McMahon + Fábio Moon + Gabriel Bá, ou "Y en la esquina izquierda, el campeón invicto del infierno, defendiendo el título, La Bestia del Apocalipsis, La Mano Derecha de la Condenación…… HEEEEEELLLLBOOOOOOY!!!!!!!!"


Por EDUARDO DE LA CRUZ





Hola, pendejos y pendejas!!!

Digam a verdade: quantos aqui já embarcaram em uma bebedeira que durou o fim de semana inteiro? Sabe como é, você decide ir tomar umas com o pessoal na sexta feira depois do trabalho, dali encontra alguns conhecidos do nada, e aparece mais uma festa ou reuniãozinha pra ir, daí você volta pra casa sábado pela manhã, só querendo pôr o fígado pra descansar, mas recebe uma mensagem que te intima a ir a um churrasco da irmã de um amigo, que vai começar à tarde, e sem hora pra acabar. Domingo pela manhã, com uma ressaca descomunal, você segue o conselho daquele seu tio bandalha e toma mais um porre, pra curar a ressaca.



Bem, imagine um “fim de semana perdido” assim, mas nos moldes do Hellboy, a criação máxima do artista Mike Mignola. Apenas substitua as festinhas por duelos em ringues de lucha libre mexicanos e os bate papos e risadas por caçadas a bruxas, vampiros, demônios e monstros em geral. Substitua também o fim de semana por um período de 5 meses. Mantenha apenas as quantidades prodigiosas de álcool consumidas e mantenha também as ressacas épicas. Isso é “Hellboy no México”.

 
A Mythos Books lança essa edição especial, que compila todas as histórias passadas durante esses 5 meses no México, no ano de 1956, em que o Vermelhão vai atender uma ocorrência sobrenatural, e acaba se envolvendo com três irmãos, luchadores que, após uma epifania religiosa, se tornam caçadores de monstros. Hellboy se junta aos irmãos, farreando à noite e caçando monstros de dia. Acontece que após o desfecho trágico desta primeira história, Hellboy fica tão abalado que se envolve em um estupor alcoólico que dura por meses, e é exatamente aí que Mignola se diverte e conta as mais loucas histórias durante esse “fim de semana perdido”, em que Hellboy chega até mesmo a se casar (!?!?!).



Arte de Richard Corben

Arte de Mick McMahon

Tudo começou, como a própria criação do Hellboy, como uma grande diversão: o projeto original previa apenas “Hellboy no México”, com arte de Richard Corben, mas Mignola se deu conta de que a existência de uma época completamente esquecida na vida de seu personagem abria uma janela para uma lacuna cronológica a ser preenchida. Assim, Mignola e Corben poderiam reatar sua parceria mais uma vez. Porém, o que era pra ser um repeteco da parceria com Corben se tornou um pequeno ciclo de histórias ilustradas por outros magníficos artistas. A “Jornada Mexicana” de Hellboy, se preferirem ;>).




Uma das grandes diversões em se ler histórias de Hellboy é ver como Mignola brinca com o folclore de vários países. Pelo fato de Hellboy trabalhar para o Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal e realizar missões ao redor de todo o mundo, geralmente vemos o cuidado de Mignola na transposição de mitos e lendas de diferentes povos para as histórias do Vermelhão, que é o grande charme e diversão das histórias do personagem. O autor já disse anteriormente que sempre pesquisa o folclore dos países onde ele ambienta suas histórias, e essa é a razão daquele peru (eu disse PERU!) diabólico na história “Hellboy no México” rs:

“(...) Quanto ao tradicional mito do vampiro, minhas pesquisas me levaram a descobrir que ele também existe no folclore mexicano, tendo inclusive o poder muito bizarro de se transformar em um peru. Resolvi incluir esse detalhe no roteiro, porém, deixei avisado que Richard Corben teria toda a liberdade criativa para trocar o peru por algum animal mais funesto, talvez um abutre. Richard, no entanto, preferiu manter o mito mexicano, e ainda conseguiu a proeza de ilustrar um peru surpreendentemente funesto.”

O diabólico peru vampiro

Sem mencionar, é claro, a cronologia amigável das HQs do Hellboy: Com exceção dos últimos arcos - onde o personagem se envolve em uma guerra mística, morre e vai parar no inferno - basta saber quem é o Hellboy, não exigindo toda uma bagagem de décadas de histórias previamente lidas <coff, coff, MARVEL, coff, coff, DC, coff, coff, coff...> para se divertir. Mignola ainda tem as manhas de manter a leveza, em termos de carga cronológica, coisa que as editoras grandonas esqueceram como fazer.



Ainda no aspecto cultural, como amante de filmes B em geral, não pude deixar de sentir o clima dos filmes do El Santo, Blue Demon, entre outros, das películas de lutadores mascarados contra monstros, e também produções como “Alucarda”, de Juan López Moctezuma, entre outros filmes de terror mexicanos produzidos entre as décadas de 60 e 70. Mignola afirma nunca ter assistido a um filme desses sequer. Imagino como teriam ficado essas histórias se ele os tivesse assistido...

Muitas homenagens em uma só história!
Hellboy bate de frente com a criatura de Frankenstein...

... o Lobisomem, Drácula (só dando uma passada rápida rs) ...

... y las mujeres vampiro!

“E acho que também é justo homenagear as películas “Classe B” mexicanas, nas quais heróis mascarados de luta livre enfrentam monstros – obras como “Mulheres Vampiro”. Nunca assisti realmente a nenhuma delas, mas certamente adoro o conceito.”

Santo vs. las mujeres Vampiro

 Alucarda

The Robot vs. The Aztec Mummy

La Mujer Murcielago

Mike Mignola, apesar de ser o criador do personagem, tem assumido cada vez menos a arte das histórias, preferindo dar atenção total aos roteiros e delegando as artes a outros desenhistas. Para nossa sorte, ele sempre soube escolher bem os artistas cujo estilo “casam” com sua criação. “Hellboy no México” e “A Casa dos Mortos-Vivos” (ambas publicadas em encadernados anteriores pela Mythos) são desenhadas pelo monstro Richard Corben (ame-o ou odeie-o!); “A Múmia Asteca” é a única história desenhada pelo próprio Mike Mignola; “O Casamento do Hellboy” é desenhado por Mick McMahon (conhecido aqui no Brasil pela HQ “O Último Americano"); “O saqueador de Cadáveres” tem arte de Fábio Moon, e por fim “O Saqueador de Cadáveres: A Revanche” é desenhada por Gabriel Bá. Um dream team. “Hellboy” sempre teve o privilégio de ser representado por artistas magníficos.

Arte de Gabriel Bá

Arte de Fábio Moon 
Arte de Richard Corben
“Hellboy no México” é um encadernado em capa dura e com um belo detalhe em dourado no logotipo do título, e traz, além das histórias mencionadas, um pequeno prefácio de Mignola antes de cada história, onde ele discorre um pouco a respeito do desenvolvimento daquela história específica. No final do encadernado, uma sessão de esboços e estudos de personagens e um glossário, elucidando muitas referências que surgem ao longo da leitura. Em minha opinião, um belo trabalho que a Mythos faz pelo leitor nos encadernados de Hellboy que eles vêm publicando. Mesmo que não seja exigido do leitor conhecer todas as histórias de Hellboy anteriores, essas notas explicativas no final do volume tampam alguns buracos aqui e ali sobre certos eventos e personagens mencionados por alto nas histórias. Não conhecer esses eventos não prejudica a leitura do encadernado, mas uma nota explicativa acaba com qualquer sensação de estar perdido, o que preserva o máximo de divertimento durante a leitura das histórias.



Agora, terminem seus burritos, ponham suas máscaras de luchador, dêem um beijo nas señoritas, mas não se esqueçam de secar uma garrafa de tequila antes de subirem no ringue!!!
Vámonos!!!! AAAAAARRRIBAAAA!!!!!
 



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ED & LORRAINE WARREN: DEMONOLOGISTAS, ou "Como saber a diferença entre fantasma, aparição, poltergeist e demônio ainda vai salvar sua vida um dia!"

Por EDUARDO CRUZ








"Um fantasma pode assustá-lo", responde Ed. "Um espírito demoníaco vai assustá-lo - e acabará ameaçando a sua vida. Nos estágios iniciais, os fenômenos associados a espíritos tanto humanos quanto inumanos podem ser os mesmos. Ambos os tipos de espírito vão manipular o ambiente físico na tentativa de fazer com que a presença deles seja notada. A diferença é a natureza da atividade associada a cada tipo. Em regra, fantasmas farão coisas à casa, enquanto espíritos demoníacos farão coisas às pessoas. Um tenta assustá-lo para que você saia da casa. O outro tenta assustá-lo para que você enlouqueça (...)"


Sabem, tenho uma confissão a fazer. Nada mais justo, depois desse tempo todo recebendo vocês aqui na Zona, que eu compartilhe alguma intimidade, algo de particular com vocês. Afinal, vocês já são de casa. Então lá vai: Eu tenho uma espécie de compulsão bizarra (não, não é nada sexual, tratem de manter essa mãozinha aí quieta!). Algumas pessoas achariam que seria o caso de, no mínimo, me encher de remédios por conta disso, para que eu tivesse uma vida "normal". Mas é um impulso que me persegue desde que senti pela primeira vez ainda criança, quando ouvia algumas histórias, assistia a certos filmes ou realizava certas "brincadeiras", como o jogo do copo

Eu gosto de sentir medo.

Não qualquer tipo de medo, como "Será que hoje vou ser assaltado no ônibus?" ou "E se alguma coisa caísse do alto desse prédio em construção direto na minha cabeça?". 
Não. Nada tão mundano assim.
Na verdade, só o que satisfaz essa minha compulsão é um pavor intenso, irracional, e de preferência impulsionado por um fato ou evento que a mente racional não consiga explicar. Algo não mensurável ou palpável. Algo como estar sozinho em casa, acordado de madrugada e ouvir barulhos estranhos, ou ter que passar na frente do cemitério à noite. Ah sim, e tem também as histórias de possessão demoníaca.

A possessão demoníaca é algo impressionante e assustador, acredite você ou não na autenticidade do fenômeno. A idéia de ser arrebatado e perder o controle de seu próprio corpo para uma inteligência supostamente autônoma e externa é algo que apavora qualquer pessoa normal, independentemente de qual religião ela pratique, ou até mesmo se não tem nenhum tipo de crença. Muitos preferem não acreditar que algo tão sinistro costuma acontecer, e que nos tempos atuais não há espaço para crenças retrógradas em fantasmas ou espíritos demoníacos, que tudo tem uma explicação racional, científica. Mas não o casal Warren. Eles sabiam bem que a coisa não funcionava desse jeito, e que a realidade que se esconde por baixo da superfície do dia a dia é bem mais sinistra.


Lorraine e Ed Warren

Edward (falecido em 2006) e Lorraine Warren têm investigado estas ocorrências paranormais/sobrenaturais desde a década de 40, e fundaram em 1952 a The New England Society For Psychic Research (A Sociedade de Pesquisas Psíquicas da Nova Inglaterra) para se aprofundarem em suas pesquisas do oculto, e assim se tornaram os primeiros "Caçadores de fantasmas" do século XX. Lorraine é uma médium sensitiva, ou sejE, ela consegue detectar energias no ambiente e determinar se se trata de fato de um espírito de uma pessoa desencarnada ou algo mais sinistro. Edward é um demonologista, que seria algo como um expert em espíritos não humanos. Segundo os Warren, as entidades sobrenaturais se dividem em espíritos de pessoas que um dia foram vivas e entidades espirituais que nunca tiveram uma existência física e existem com o único intuito de se expressarem através de manifestações negativas contra pessoas, incluindo, em último caso a possessão demoníaca. Os Warren os classificavam como "espíritos demoníacos inumanos", no vocábulo popular, "demônios". "Estudar o que esse espírito é, o que ele pode fazer e o que sua existência pode significar é, em última análise, o trabalho e a incumbência do demonologista", nas palavras de Ed. Um demonologista precisa saber identificar o espírito demoníaco, e se for o caso, auxiliar um clérigo ou sacerdote, provendo as condições para que o exorcismo da entidade do local transcorra sem atribulações. O que, pelo que podemos notar em detalhes de alguns casos ao longo da carreira dos Warren (os números de casos assistidos pelo casal varia de 3.500 a 10.000 ocorrências registradas!), nem sempre é possível, e muitas vezes a coisa fica feia. 

Entre as ocorrências investigadas pelo casal, algumas se destacam pela proporção da notoriedade, chegando mesmo a terem sido amplamente divulgadas pela imprensa na época, como o caso Amityville, do qual até nossos avós já ouviram falar, o caso da boneca Anabelle, a assombração de Enfield, entre outros casos escabrosos. Tanta atividade que acabou despertando a atenção de Hollywood e vários desses casos foram adaptados para cinema, em filmes como "Invocação do mal", "Invocação do mal 2", "Annabelle", e uma dúzia de filmes sobre o que diabos aconteceu em Amityville


"(...) como afirma Ed: "Eu e outras testemunhas já vimos as feições de pessoas possuídas se transformarem naquelas de um lobo, de um porco e, mais comumente, de um gorila. Já vi indivíduos possuídos assumirem as feições dos mortos, bem como se transformarem em coisas que poderiam ser descritas apenas como grotescas e macabras. E todas essas mudanças são físicas. A pele e os ossos realmente mudam de forma, depois voltam ao normal, quando o episódio de possessão passa."




Alguns dos casos que o narrador de inglês ruim mostra nesse vídeo 
constam no livro, e com detalhes suficientes para tirar o sono...

Claro que uma carreira tão atípica e tão extensa gera muita informação, a longo prazo. Além de um arquivo composto de registros em escrito, testemunhos, reportagens, milhares de fotos de aparições, gravações em vídeo e fitas com milhares de horas de gravações de vozes de espíritos e pessoas sob possessão demoníaca, os Warren acumularam ao longo de sua carreira objetos através dos quais as pessoas fizeram uso para inadvertidamente ou irresponsavelmente estabelecer contato com entidades demoníacas, trazendo o problema para dentro de suas próprias casas. O tal "Museu do Oculto" dos Warren é uma parafernália sem fim composta de tabuleiros de Ouija, adagas rituais, velas negras, livros de magia negra, máscaras, capas cerimoniais, bolas de cristal, estatuetas de demônios, um caixão, e até a própria Annabelle. Enfim, tudo que se puder imaginar que eles levam embora da cena onde ocorreu a atividade sobrenatural/demoníaca provocada por meros curiosos, na maioria das vezes. Cada objeto é um caso, e conta uma história. Alguns dos objetos guardados no museu são tão impregnados de energia negativa que o simples ato de tocá-los pode desencadear uma manifestação ou até mesmo uma possessão. Os Warren mantém os objetos em sua custódia para que não caiam em mãos incautas novamente. Esse é o acervo do museu.



"Se há uma mensagem que Ed e Lorraine Warren tentam transmitir com clareza é que o oculto é basicamente um acidente esperando para acontecer."


Um tour pelo "museu do Oculto" do casal Warren.
Toque em qualquer objeto e leve como souvenir para casa uma entidade agarrada em você.
Talvez o único museu que não desperte interesse de ladrões.



Em 1980 saía nos EUA o livro "The Demonologist", onde o leitor poderia acompanhar a rotina dos Warren e conhecer mais a fundo os detalhes dos casos pavorosos citados acima, investigados pelo casal: assombrações, possessões... enfim, o dia a dia normal do casal Warren rs. Infelizmente, como muitos outros livros relevantes mas ignorados pelas editoras, não sei por qual razão, "The Demonologist" nunca havia sido lançado no Brasil. Até que no fim do ano passado a Darkside Books fez bonito de novo e o lançou aqui, com o título "Ed & Lorraine Warren: Demonologistas". A edição segue o padrão gráfico muito bem elaborado e sempre alinhado com a temática do livro, um padrão da editora da caveirinha, que consegue lançar bons livros com belíssimas capas. O design do livro simula uma encadernação antiga e desgastada, e conseguiu enganar minha tia, que viu a capa e me perguntou se "Eles mandaram o livro assim estragado pra você???". Então, ao Retina 78, responsáveis pela capa e projeto gráfico da edição, deixo meu mais sincero "Missão cumprida!", amigos ;>)


Projeto gráfico impecável da Darkside Books



Essa é Annelise Michel, possuída por 6 entidades diferentes:
Hitler, Caim, Nero, Fleischmann, Judas e Lúcifer, como cada uma das vozes se denominou. 

Claro, também não estou ignorando as montanhas de evidências que investigadores céticos levantaram contra os Warren ao longo dos anos, afirmando que eles não passavam de charlatões e embusteiros. Nesse campo de estudo, há décadas percebe-se uma constante: todos aqueles que se propõem a comprovar a autenticidade dessas ocorrências conseguem comprová-la, e aqueles  que se propõem a comprovar que causas sobrenaturais não existem também o conseguem. O impasse permanece. Por isso, na pior das hipóteses, "Ed & Lorraine Warren: Demonologistas" é um livro que agrada aos que crêem e também aos céticos, basta decidir lê-lo como um bom terror, ou como um manual de proteção, dependendo da sua inclinação à credulidade ou ceticismo. O livro funciona bem das duas formas. Um excelente livro de terror, daqueles que você lê antes de dormir, mas que vai te fazer hesitar em levantar no meio da madrugada para uma ida ao banheiro. Ótimo também para levar quando for acampar sozinho, ou para passar o tempo naquela viagem de semana santa a parentes que moram no interior, para ler com a janela aberta enquanto espera o sono chegar. Isto é, se você é como eu e gosta de sentir um medo saudável do desconhecido. Agora me dêem licença um instante, vou ali no quarto ao lado verificar porque minha mulher começou a falar aramaico com uma voz cavernosa e está batendo boca com minha sobrinha de 3 anos, que por sua vez está agarrada na parede como uma aranha e falando em grego igual a um velho com asma...


"Qual é o pior caso que Ed e Lorraine já investigaram?
"Isso é uma coisa que eu nunca, nunca falo", admite Ed, ficando de repente muito sério. "O caso foi quase o nosso fim, isso eu garanto. Nós nos vimos levados a um lugar fora deste mundo, um lugar que você nunca acreditaria existir, mesmo que eu o descrevesse. Cada minuto, cada segundo daquelas longas horas foi tão inacreditável, tão incompreensivelmente horrível, que acho que agora conheço o verdadeiro significado de inferno e o valor da vida na Terra."



Um áudio de uma das entidades residentes na casa de Enfield falando com o investigador. 
Ouça às 3 da manhã para conseguir escutar melhor. Boa noite.







Ficou com medinho???
Então, quem você vai chamar???





domingo, 22 de janeiro de 2017

ULTRA CARNEM, de César Bravo, ou "Tudo que eu quiser, o cara lá de baixo vai me dar!"









Por EDUARDO "A BESTA" CRUZ



"Na disputa entre o Céu e o Inferno nós somos o prato principal"



Quem gosta do gênero de horror sofre. Encontrar, independente da nacionalidade, um bom autor de histórias de horror, e eu digo horror com tutano (grafismo e violência - dentro do contexto, claro), dentes (mais gore e violência por favor!) e espinhos (uma dose de crítica social, sempre!) é um tanto quanto trabalhoso. Quem, como eu, está sempre procurando novidades nesse gênero, às vezes esbarra em becos sem saída, falsas promessas e narrativas que estão aquém das expectativas e hypes. Frustrante? Bastante. Ninguém gosta de chegar ao final de um livro (ou uma HQ) e se dar conta que as horas investidas passeando por aquela obra poderiam ser bem melhor empregadas lendo alguma outra. Mesmo assim, seja na música, cinema, literatura, os tiros no escuro têm que ser dados, o empreendedorismo para conhecer as novidades não pode morrer. Aos teimosos que não têm medo de arriscar pegar algo para ler, escutar ou assistir, conhecendo pouco ou nada a respeito da obra/autor, a recompensa às vezes chega na forma de excelentes surpresas.

Peguemos como exemplo o autor César Bravo: Esse paulista  de Monte Alto publica seus contos há bastante tempo de forma independente (mais em facebook.com/cesarbravoautor, ou no blog coisasdobravo.blogspot.com.br), mas "Ultra Carnem" é seu primeiro livro físico. Não que ele precisasse disso para obter reconhecimento e estabelecer uma base de fãs, coisas que Bravo já conquistou há bastante tempo. Com seu estilo que reverencia mestres como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Clive Barker, mas ao mesmo tempo situa o leitor num cotidiano bem brasileiro, e sem maneirar na violência e em imagens intensas e pavorosas, não é de se admirar que esse autor esteja cada vez mais em evidência. Com este primeiro lançamento do autor pela Darkside Books, César Bravo dá um sopro de vida em um subgênero pra lá de esgotado e batido do horror - o satanismo e a demonologia - e devolve todo o grafismo, crueldade e perversidade que esse nicho da literatura de horror exige - e merece.




1 - O ABANDONO:
"Havia alguém ali. A figura conseguia ser mais negra que a noite. Era alta, ocupava toda a abertura do vão da porta. A coisa também tinha olhos. Eram intensos, brilhavam como brasa. Notando o padre mais perto, o visitante recuou um passo para fugir da luz. Apesar do medo que sentia, do coração aos pulos dentro do peito, Giordano avançou em sua direção"

Ultra Carnem (do latim "além da carne") se passa na cidade de Três Rios, interior de São Paulo. o livro é estruturado em quatro partes, mais um epílogo que amarra toda a trama. Tudo começa quando Vladimir Lester, um menino cigano, é enviado ao orfanato da cidade, aos cuidados do Padre Giordano. O menino foi expulso de sua tribo por razões desconhecidas para o padre, porém nada aparenta para ter merecido tal sina. Lester é introspectivo e não se integra com os outros meninos, e prefere ficar confinado em um quarto, com suas pinturas e esculturas. O menino utiliza uma misteriosa tinta para produzir suas pinturas, e o sentimento de xenofobia por parte de outras crianças do orfanato acaba culminando em um trágico episódio de bullying onde tomamos conhecimento do Mal que Vladimir Lester traz consigo. As consequências deste conto de abertura, um flashback no início do século XIX, irão reverberar através de todo o restante da história. 


2 - GÊNESIS:
"Nôa ainda estava à janela. Olhava para o lado de fora, para as formigas proletárias que trafegavam esperando um pé divino vir pisoteá-las. Crianças, velhos, adultos - eram todos feitos da mesma argamassa: aceitação e agonia."

No conto seguinte, já nos dias atuais, conhecemos Nôa, um jovem pintor sem talento, obcecado com a história do menino cigano pintor. Nôa roubou um livro em uma loja de curiosidades que contava fragmentos da  tenebrosa história de Vladimir Lester, e no ápice de sua obsessão, (digna de um personagem de H.P. Lovecraft, daqueles que só param quando já viram demais, e já estão à beira da insanidade), empreende uma caça aos artefatos do menino: as pinturas, a escultura da ciganinha - a relíquia favorita do garoto, e sua tinta especial. Seguindo pistas e investigando os fatos do passado, Nôa segue em uma caça ao tesouro diabólica neste conto, que flui ainda melhor que a abertura do livro, com um clímax que não deixa a desejar.


3 - O PAGAMENTO:
"Ele a usou como lata de lixo, santo Deus!
O tórax era mantido separado por uma trava de volante. Lá dentro, havia papel, latas de cerveja e guimbas de cigarros. O Açougueiro até defecou dentro dela. "

Neste terceiro conto acompanhamos Marcos, um técnico de informática à beira da falência, que mal consegue sustentar sua mulher, com a qual já não se entende mais, e seu filho Randy (em homenagem ao guitarrista Randy Rhoads), portador de necessidades especiais. Após realizar um serviço de reparos para uma lojinha de curiosidades - a mesma onde Nôa rouba o livro no conto anterior - sua dona, não tendo o dinheiro que Marcos lhe pede pelo serviço prestado, o paga de outra forma. Logo, Marcos consegue tudo que sempre desejou. Mas suspeita que o preço seja alto demais. Nessa história, Bravo exercita seu lado Clive Barker e nos dá cenas repugnantes, perpetradas pelo personagem conhecido como "O açougueiro". Cada vez que O Açougueiro aparece, o livro sobe para censura 90 anos, como se pode constatar no trecho ali em cima. Mais um conto onde não paramos de virar as páginas até chegar a seu ápice sangrento e arrepiante.


4 - O INFERNO:
"- Quem são eles? - perguntou, notando que os homens dentro da cela continuavam acuados.
- Negociantes.  Estão aqui embaixo porque passaram a perna em todo mundo lá em cima. Aqui você tem corruptos,  advogados inescrupulosos, investidores da bolsa, traficantes de mulheres... Não os borra-botas que sujam as mãos. Eles são os cabeças, se é que você me entende. Lá em cima, eles só tinham ouro e poder, aqui embaixo só tem uns aos outros. Eles discutem o tempo todo. Quase sempre a discordância evolui para a violência. É quando fica mais engraçado. Eles se mordem, furam os próprios olhos com suas canetas caras, depois acordam e fazem tudo outra vez. De novo, de novo e de novo."

Na quarta e última parte do livro vemos que os três contos anteriores se entrelaçam e desembocam neste aqui. Lucrécia, uma garçonete que escuta uma conversa que não deveria ser escutada por ninguém deste mundo, acaba sendo cooptada pelo próprio Diabo para auxiliar o Inferno a angariar almas e voltar a equilibrar a disputa com a concorrência. Lucrécia, que teve uma vida amarga e plena de sofrimentos, tragédias pessoais e escolhas erradas, aceita servir a Lúcifer por não simpatizar com o outro lado, por se sentir abandonada por Deus a sua vida inteira. Aprendemos que temos que nos levantar e recomeçar quando caímos, mas Lucrécia teve uma vida inteira de quedas brutais, até esta queda derradeira ao inferno. Nesse conto, Bravo solta a imaginação e vemos infernos dentro de infernos, amálgamas culturais do submundo, como funcionam as hierarquias, suas criaturas, a motivação de Lúcifer e suas legiões para desempenharem seu trabalho sem fim e até o destino de alguns personagens que apareceram nos contos anteriores.


5 - OS TRÊS REINOS:

O epílogo de "Ultra Carnem" fecha as pontas soltas dos protagonistas restantes, porém deixando um gancho sem forçar a barra para um possível retorno. Se foi intenção do autor, aguardemos por isso com prazer. Afinal, o Inferno está sempre querendo aumentar o número de seus ocupantes...



Apesar de certos momentos um tanto quanto previsíveis - como a identidade do personagem Lúcio, a narrativa é bastante fluida e o autor constrói com facilidade e desenvoltura tanto seus personagens quanto cenários extremamente críveis, o que facilita ainda mais a imersão nesse mistério macabro de quase 400 páginas. Do hotel barato de periferia sujo, insalubre e perigoso, e acredite, Bravo descreveu um com perfeição (não pergunte como sei disso - Ok, só digo uma coisa: Rua das Marrecas, RJ kkk) até o Inferno multicultural e amalgamado com muita competência no último conto, César Bravo nos leva com tremenda facilidade ao longo de sua história, suas linhas de tempo, dimensões infernais ou uma árida cidadezinha "no cu do mundo" sem se perder, nem perder o interesse do leitor. Os personagens são desenvolvidos ao ponto de este não ser um livro de horror gratuito. Ou melhor, o horror se passa em níveis diversos que não só o horror gráfico descrito em suas páginas. Vemos horror na história de Lester, que reflete a xenofobia, em especial o preconceito com o povo cigano, ou o horror do abandono infantil na realidade do orfanato, ou ainda a dificuldade que é viver de arte em nosso país, dilema que Nôa enfrenta antes de ser tocado pelo inferno. Ou ainda Lucrécia, que reflete a profunda descrença, desânimo e cinismo frente às porradas que a vida dá. Não raro as motivações dos protagonistas esbarram diversas vezes nos pecados capitais da Divina Comédia, de Dante, o que gera um sentimento ambíguo durante a leitura, já que apesar de haver a possibilidade de se apegar a esse ou aquele personagem, talvez todos estejam invariavelmente condenados.

A parte gráfica do livro é o "Padrão Darkside": muito capricho e tudo pensado em perfeito alinhamento com a temática da história, com símbolos pagãos e desenhos que parecem saídos de manuais medievais de demonologia entre os contos, e na parte interna das capas uma pintura que lembra Bosch, com seu "Jardim das delícias terrenas", mas só a parte do Inferno, claro rs. O simples manuseio de "Ultra Carnem" não é para os fracos de estômago ou de espírito. 




Bosch feelings...
Por um instante achei que tinha o livro de São Cipriano nas mãos. De novo.


Aceitem um conselho: não leiam nada dessas páginas intermediárias em voz alta


E se você acha que o Diabo não é tão feio quanto pintam, é porque não viu o Diabo pintado por Vladimir Lester, ou melhor, pelo César Bravo!

Ah, e quando for começar a leitura, não esqueça de ligar na playlist do Spotify, elaborada pelo próprio autor, para uma imersão completa em sua viagem ao inferno...




Por hoje é só, pe-pe-pessoal!!!