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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

INVENTE ALGUMA COISA, de Chuck Palahniuk, ou "A primeira regra na Zona Negativa é falar do Palahniuk SEMPRE QUE POSSÍVEL!"








Por EDUARDO CRUZ


FUCK YEAH! Após bastante tempo sem um bom livro novo do cultuado Chuck Palahniuk lançado no Brasil (Na-nã-não, Maldita, Condenada e Clímax não contam como bons livros do autor rs), finalmente a editora Leya soltou um material promissor de um dos nossos grandes favoritos aqui na Zona Negativa (apesar do Maldita, Condenada e Clímax heheheheh). Invente Alguma Coisa, de 2015, é uma coletânea de contos do autor, com toda aquela bile mega cáustica expurgando das páginas e com a mira sempre apontada para as patologias geradas pela sociedade de consumo, para as relações entre pessoas disfuncionais, para nossa realidade, que já alcançou um grau distópico de absurdos, tudo isso em histórias com muito sarcasmo, escatologia sem pena de qualquer sensibilidade que o leitor possa ter, humor negro da pesada e não raro com muitas passagens contendo detalhes um tanto gráficos demais para o público sensível e todas de uma intensidade perturbadora. Sim, ler um livro desse cara é uma experiência que marca o leitor de forma indelével. Acham exagero meu??? Pois perguntem aos milhares de malucos que participam ou já participaram de algum clube da luta clandestino heheheheheh...


O escritor Tom Spanbauer, com quem Palahniuk aprendeu seu ofício de escritor em oficinas literárias, afirma que o tamanho ideal de um conto é de cerca de cinco a seis páginas. Claro que isso pode variar muito, de acordo com o desenvolvimento e o rumo a ser dado ao conto, e como o autor trabalha as nuances, narrativas, etc. Tem gente que precisa de regras estritas em tudo para viver, outros, nem tanto. Cagação de regras à parte, dá pra concordar que, quando bem executado, um conto pode ser muito mais impactante e "bem no alvo" do que um calhamaço de 600 páginas. SE bem executado. O que nem sempre é o caso, e até mesmo Palahniuk pode derrapar, e muito, nessa execução.

"Compra aí moço, pra ajudar lá em casa..."

Invente Alguma Coisa não é o primeiro livro de contos do autor. Seu primeiro livro de contos foi Assombro (que já resenhamos AQUI), uma interessante experiência onde ele cria diversas vozes em torno de um tema central. Uma antologia recheada de um punhado de pseudônimos, cada um com o seu tom, e todos unidos por algo em comum: A prosa dodói do tio Chuck. Ali o leitor pode sentir o punch de uma história curta do autor e se preparar para possíveis traumas decorrentes da leitura de um conto como Tripas, por exemplo, história que ficou famosa por fazer alguns americanos desmaiarem em sessões de leitura em livrarias durante a turnê de divulgação de Assombro. Já a proposta de Invente Alguma Coisa é mais solta: O livro é composto por vinte e três contos, a maioria sem ligação entre si, alguns publicados previamente na Internet ou em revistas literárias, antologias e coletâneas, mas claro, todos sem perder de vista a veia da Ficção Transgressional com a qual estamos tão familiarizados.

Os contos que integram Invente Alguma Coisa são:

Toc-Toc - Um jovem, levado pela máxima do senso comum "Rir é o melhor remédio" tenta salvar seu pai doente terminal com o repertório de piadas do próprio velho. Repertório esse extremamente tóxico, recheado de piadas politicamente incorretas, sexistas,  xenófobas e ofensivas em geral, numa tentativa desesperada de cura através de humor doentio. Um conto sobre o politicamente incorreto acompanhado de uma descida em espiral rumo à demência. Bom aquecimento.

Eleanor - A história de um redneck que ganha uma bolada no seguro e se muda com sua pitbull, a tal Eleanor, para a Califórnia. Sério, não acontece lá muita coisa além disso, e até mesmo uma tentativa de assassinato não esquenta as coisas. Conto beeeeem fraquinho.

Como a macaca se casou, comprou casa e encontrou a felicidade em Orlando - Uma fábula contemporânea, onde apesar dos protagonistas todos serem retratados como animais, mostra uma situação bem humana: A macaca, uma exímia vendedora, enfrenta o desafio de sua vida ao ter que promover um produto impossível de ser consumido. Dá pra reconhecer a marca do autor, mas, sei lá, falta alguma coisa. Talvez eu tenha ficado (mal) acostumado demais às revelações impactantes no ato final, ou aos personagens estranhos. Esse conto parece alguém tentando imitar a prosa de Palahniuk.

Zumbis - A nova moda entre a garotada inteligente, de futuro promissor e descolada é fazer downgrade de QI. Pra quê viver num mundo tão complicado, com guerras, fome, doenças, desespero? É melhor "ser e não ser ao mesmo tempo". Como? Muito simples: Pegue um desfibrilador cardíaco, cole um eletrodo de cada lado da testa e ZAP! Eletrolobotomia caseira. Adeus problemas! Esse é o novo hype da garotada. Um conto sobre alienação juvenil e o medo de amadurecer.

Perdedor - Uma fraternidade universitária possui uma estranha tradição: Chapados de LSD, os estudantes competem em um game show de auditório na TV. Acompanhamos um desses calouros na disputa para adivinhar o preço de itens comuns de supermercado, enquanto o ácido o faz repensar sua vida durante a gravação do programa. Será que vai dar bad? Bom conto, que evoca uma reflexão sobre a inutilidade do entretenimento de massas.

O garotão do sultão - Aaaaaaaaaaahhhhhhh, agora achei o Palahniuk aqui! Um fazendeiro, após a morte do cavalo da filha, resolve comprar um animal substituto, só não sabe o que novo equino tem um passado negro... na indústria pornô! Aqui é Palahniuk de raiz, com tudo que tem direito: A construção lenta e envolvente, os detalhes escabrosos que deixam o leitor de queixo caído, a surpresa no final, o comentário ácido sobre a sociedade... check, check, check!

Romance - Um rapaz gordinho e nada atrativo, após levar um pé na bunda de sua namorada, conhece uma menina atraente e muito, digamos, intensa, impulsiva e estranha. Contrariando todas as expectativas, os dois se envolvem romanticamente, apesar das advertências dos amigos dele. Todos acham que há alguma coisa errada com a mulher perfeita que ele arrumou, e que pode ser mais sério que todo o álcool e drogas que a moça consome. Aqui Palahniuk subiu o nível. Sabe aqueles memes no estilo "quem rir vai pro inferno"? Pois é, quem ler este conto aqui também vai, direto e sem escalas!

Canibal - Um conto sobre jovens colegiais e seu preconceito estudantil de segmentar pessoas em grupos de acordo com sua popularidade, e os segredos sórdidos que os jovens "perfeitos" tentam manter escondidos no armário. Existe uma cena escatológica neste conto envolvendo uma sessão de sexo oral um tanto.... sangrenta. A construção e desenrolar da cena até que lembra o conto Tripas, mas não tão inspirado quanto. Bem morno.

Por que o Coiote nunca tinha dinheiro para o parquímetro? - Mais uma fábula. Aqui, o Coiote, que vive em um bairro barra pesada e trabalha em um subemprego para sustentar a família que ele não desejava ter formado, se vê às voltas com um dilema extra conjugal com a Flamingo, que se prostitui em sua vizinhança.

Fênix - Uma mãe, longe de casa a negócios, surta pelo telefone com o marido e a filha pequena. Bom suspense, desenvolvimento ok, conclusão ok... e pouco original para o padrão Palahniuk. Um conto de Chuck Palahniuk que soa mais como outro escritor querendo emular Chuck Palahniuk...

Fatos da vida - Um pai explica a seu filho aquela perguntinha que constrange a maioria dos pais: "Como eu nasci?". Só que esse pai em especial não se faz de envergonhado e conta com excesso de detalhes como foi que papai e mamãe fizeram a criança. Com todos os pormenores embaraçosos, em um drive in, e com direito a um acidente bizarro e muitas testemunhas. A história parece divertida, não? Mas na execução é apenas mais um conto onde Palahniuk foi no piloto automático. Pena...

Televendas - Uma história sobre vendas por telemarketing, racismo e xenofobia. Tio Chuck maneirou na bizarrice aqui, mas nem por isso é um conto ruim, muito pelo contrário. Tudo que os personagens falam aqui poderia ter saído da boca do seu vizinho, ou de um parente seu, e isso sim é aterrorizante...

O príncipe sapo - O conto abre singelamente com um casal de adolescentes dando uns malhos, ela já pronta pro sexo, enquanto ele, ainda vestido, insiste em falar com a menina sobre práticas de modificações genitais mundo afora - daquelas baseadas na nossa estranha realidade e que Palahniuk gosta de descrever de forma bem.... detalhada rs. Tudo para preparar a menina antes de baixar as calças e mostrar a ela seu próprio experimento caseiro de modificação genital, com o intuito de maximizar o prazer. E assim, do nada, caí no meio do conto de body horror mais grotesco que já li, com um final que evolui para sci-fi apocaliptico, como se viciados em krokodil escrevessem um roteiro de Rick & Morty. Se eu puder ser ainda mais descritivo, peguem a visão: Imaginem o braço do personagem Tetsuo na animação Akira.


Só que não é o braço, sacaram? Só esse conto aqui já vale o peso do livro em ouro, crianças. Surpreendente e perturbador ao extremo! Chamem Takashi Miike ou Shinya Tsukamoto para dirigir a adaptação disso! Palahniuk em sua melhor forma. Melhor conto do livro, e ouso dizer, um dos melhores do autor!


Fumaça - Aqui vemos Palahniuk brincando com uma idéia recorrente já há algum tempo em sua obra, como pudemos ver em Clube da Luta 2: As palavras (e por conseguinte as idéias) são contagiosas. Sim, são organismos que querem habitar em outros organismos: Nós! Elas estão vivendo dentro de nós nesse exato momento e sempre que abrimos a boca, um mero "bom dia" é um vetor de contágio! Por isso não escreva. Não leia. Não fale. Por precaução, melhor nem pensar. Comecem agora!

Tocha - Um assassinato ocorrido em um festival de cultura alternativa estilo Burning Man é investigado por um monitor e mediador de conflitos do evento. O homem, que é um Zé-ninguém no mundo lá fora, mas uma prestigiada figura de autoridade dentro do festival, descobre que o assassino está mais perto do que ele imaginava e que pode não haver apenas uma vítima... Uma história de mistério acompanhada de um interessante comentário a respeito destes festivais de cultura alternativa e as propostas de se reimaginar o mundo que ocorrem ali dentro.

Liturgia - O conto é estruturado como se fosse um relatório de uma companhia de seguros ou de uma associação de moradores, e versa sobre os eventos ocorridos em um condomínio de luxo envolvendo um misterioso material orgânico de origem humana, que desencavado por animais selvagens e por bichos de estimação dos moradores, acaba espalhado por toda parte, gerando transtornos para a vizinhança, não habituada a situações desconfortáveis e bizarras como esta. A idéia é a cara do autor, mas o conto é mais um daqueles em que faltou alguma coisa...

Por que o Porco-da-terra nunca chegou à lua? - O Coelho, Porco-da-terra e o Galo, cansados do bullying a que são repetidamente submetidos, resolvem adotar uma tática: Se tornar alunos que não irão mais destacar nos estudos. Quanto mais burro e indolente, melhor! Só que o plano dá terrivelmente errado... 
Mais uma das fábulas de Chuck, essa possui uma breve ligação com o conto Como a macaca se casou, comprou casa e encontrou a felicidade em Orlando, apenas um easter egg que situa as fábulas em um mesmo universo. Bom conto, com um final triste.

Pega - Uma história de fantasmas muito da sem graça que começa do nada e não vai a lugar nenhum. Isso é realmente um conto do Palahniuk ou entrou errado nesse livro? Sério, isso parece um rascunho inacabado...

Expedição - Aí vc pega o livro novo do Palahniuk e vai direto pro tal alardeado conto ambientado no universo de Clube da Luta, e mais: Que o próprio Tyler Durden daria as caras! Não sei se o que vou falar a seguir vai animar ou desesperar vocês: Expedição está mais para Clube da Luta 2. Ambientado na Hamburgo do início do século XX, o protagonista é um trabalhador com uma vida tediosa que empreende expedições à zona do baixo meretrício, investigando e catalogando as desventuras da humanidade, as histórias dos quebrados e abandonados. Até que um dia conhece um estranho que o leva a uma jornada de autoconhecimento e ao olho do furacão de uma crise geracional. Um conto cheio de camadas e pleno de simbologias do início ao fim, que aborda o abandono paterno, algo que hoje em dia está em voga chamar de "aborto masculino".

Mr. Elegante - Sabem aqueles contos que já se tornaram uma marca inconfundível do Palahniuk? Histórias abordando usos e costumes que jamais poderíamos imaginar para profissões e atividades incomuns? Dessa vez acompanhamos a dura rotina dos strippers masculinos: Os truques, segredos e armadilhas do ofício narrados pelo protagonista que, como em toda história do Palahniuk  que se preze, sofre de uma estranha condição médica e por conta dela acaba por criar uma situação bizarra, à qual fica eternamente acorrentado. Conto divertido, se você for levar em conta o humor dodói do autor heheheheh...

Túnel do amor - Nesse conto vemos um massoterapeuta que atende uma clientela muito específica, ainda que efêmera: O profissional é responsável por proporcionar conforto a doentes terminais, fazendo de qualquer eutanásia um spa relaxante! Palahniuk ainda dá uma de Stephen King e insere a já famosa história-dentro-da-história aqui. Bom conto, mas deixa uma impressão de que seria mais desenvolvido, e daí acaba! 

Inclinações - Jovens são internados por seus pais em uma clínica a fim de terem sua "inversão sexual" corrigida. Sim, um conto de Palahniuk abordando a polêmica cura gay! Fui cheio de expectativas aqui, imaginando o quão corrosivo e esmagador Palahniuk seria nessas páginas, mas infelizmente tudo parece meio no piloto automático: A construção dos personagens, as surpresas, a reviravolta, o obrigatório choque grotesco... Talvez se fosse um de seus primeiros trabalhos o impacto fosse maior, mas não há qualquer novidade ou reinvenção aqui, apenas uma fórmula, já conhecida do público, sendo (re)aplicada sem muita inspiração.

Como a judia salvou o natal - Um conto sobre um amigo oculto entre colegas de uma loja de departamentos que evolui para preconceito, paranóia e troca de presentes ofensivos. Mais um conto que poderia ter sido mais rico, mas que não cresceu muito...




E com esse lançamento a editora Leya dá mais um passo rumo a publicação de quase toda a bibliografia de Palahniuk por aqui na íntegra, faltando apenas os romances Rant (2007), Pigmy (2009), Tell-All (2010) e Adjustment Day (2018), ainda inéditos aqui, além de Cantiga de Ninar (2002), anteriormente publicado pela editora Rocco e que os fãs suplicam há anos por um reprint. A editora mantém o padrão das publicações anteriores do autor, em livros de capa cartão com um projeto gráfico enxuto e sem muitas das extravagâncias atuais, em que o acabamento luxuoso acaba supervalorizando um livro conteúdo questionável. A tradução fica por conta do onipresente Érico Assis. Esse cara não come nem dorme? Não é possível, ele tá em todas!!! rsrsrs.

Edição de bolso gringa de Invente Alguma Coisa

Invente Alguma Coisa  é bem irregular em termos de qualidade e, no decorrer de sua leitura, detectamos um certo desgaste na prosa de Palahniuk, dono de um texto único que conquistou uma base de fãs sólida desde sua estréia literária, mas que lamentavelmente em algumas histórias desse livro, consegue parecer um cover de si mesmo. O livro de contos anterior, o supramencionado Assombro, consegue render muito mais, entreter muito mais, chocar muito mais, carregar metáforas mais cirurgicamente precisas e poderosas. Entretanto isso não tira o brilho das (pouquíssimas) histórias realmente boas contidas no Invente Alguma Coisa, as quais irão ressoar muito tempo nas paredes do seu crânio, entrando na mente como um soco. Quantos vocês aguentam?




quarta-feira, 31 de maio de 2017

SOBREVIVENTE, de Chuck Palahniuk, ou "O Poder Comercial da Fé"


Por RICARDO CAVALCANTI

Quem é o melhor autor de livro de auto-ajuda que você conhece? Alguns podem dizer que é Augusto Cury, outros apontam Lair Ribeiro, enquanto outros ainda vêem no Paulo Coelho esse perfil. O que todos eles têm em comum, é o fato de mostrar para você que tudo pode ser superado com a sua força de vontade, pois você é uma estrela que nasceu para brilhar; só lhe faltando conseguir enxergar isso. A partir de então, tudo se tornará maravilhoso e belo.

Talvez isso possa parecer bastante tedioso para alguns (eu, por exemplo), causando uma repulsa de forma natural e inconsciente. Talvez você não precise que alguém te diga que você é especial. Não existe um segredo que faz as coisas darem certo para você. Não existem fórmulas mágicas que te façam ser mais do que você realmente é. Ouvir algo como “Vocês não são especiais. Vocês não são um belo ou único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como tudo no mundo.” faz um pouco mais de sentido que ouvir que você é especial. Bom, se tudo mundo é especial, isso significa que ninguém é especial.

Nada melhor do que esfregar a realidade na sua cara e te fazer reagir, pensar, te sacudir por dentro, destruindo sua visão bela e romantizada do mundo e de si mesmo. Quanto a isso, não existe ninguém melhor que Chuck Palahniuk para fazer esse papel. O responsável por sacudir os brios de uma geração vazia em Clube da Luta volta com sua narrativa afiada como uma faca, que acaba nos acertando em pontos sensíveis de nossas certezas.



Chuck Palahniuk é um dos autores preferidos do Zona Negativa; por isso que de vez em sempre quando falamos de seus livros. Já viraram post por aqui: Clube da Luta, Clube da Luta 2, Assombro e publicamos o conto Tripas, num dos nossos “Encheção de Lingüiça do Bem”. Em Sobrevivente, lançado em 1999 (mesmo ano da estréia nos cinemas do filme Clube da Luta), Palahniuk mais uma vez aproveita para demonstrar sua peculiar visão sobre a sociedade e a forma com que interagimos com ela. Com um humor ácido corrosivo, o autor vai destilando seu veneno e apontando a sua metralhadora giratória em várias direções. Inclusive para você.

Sentimos saudades daquilo que jogamos no lixo porque temos medo de evoluir. Crescer, mudar, perder peso, nos reinventar. Adaptar-nos” 

Enquanto em Clube da Luta o livro se inicia com o narrador sem nome com uma arma apontada para a boca; e vai te explicar como chegou até aquela situação, em Sobrevivente, o narrador, que nesse caso tem nome, Tender Branson, está em uma situação bastante semelhante. Rumando sem destino pilotando um avião que seqüestrou, pretende voar até acabar o combustível e cair. Enquanto isso, está gravando uma espécie de carta de suicídio para ser ouvida depois que encontrarem no meio dos destroços, a caixa-preta com toda a sua história. Branson era membro da Igreja do Credo, que entre suas doutrinas, dizia que só era possível encontrar a salvação através do trabalho; até chegar o momento em que receberiam um chamado de Deus e todos deveriam cometer suicídio.

Palahniuk está em plena forma, com toda acidez diluída em suas páginas; usando e abusando de seu cinismo mordaz, em uma sequência de pauladas, ganchos, socos, chutes e pancadas em forma de palavras. Nós acabamos nos sentindo como se estivéssemos servindo de sparring para algum boxeador peso pesado. Impossível não ficar tonto com tanta pancada.

“...você percebe que se não está no vídeo, ou melhor, ao vivo, via satélite, diante de todo o mundo, você não existe. Você é aquela árvore caindo na floresta para a qual todos estão pouco se fodendo. Não importa se você fez algo. Se ninguém viu, sua vida se torna um grande zero. Um nada.” 

Pode parecer uma questão existencialista um pouco distante e datada (quem hoje em dia liga muito para estar na TV? Mas podemos adaptá-la mais para a cara dos dias de hoje. Repare na imensa quantidade de gente que coloca toda sua vida nas redes sociais, como se ser aceito, fosse extremamente necessário para a própria sobrevivência. Uma forma moderna e patética de justificar a própria existência. Mesmo algumas sendo remuneradas para isso, mostram nada além de uma vida superficial e tola, baseado em um ideal de harmonia e felicidade que só existem na ficção.



De acordo com a Igreja do Credo, todos os filhos mais velhos eram os únicos que poderiam se casar e viver na aldeia; enquanto os outros filhos, assim que completassem dezessete anos, iriam todos embora. Adam era irmão gêmeo de Branson e um dos “anciões da aldeia, mesmo tendo trinta e poucos anos e tendo nascido cerca de três minutos antes. Seu irmão visitou o mundo fora da aldeia e passava sua peculiar leitura do que esperar fora da comunidade de Igreja do Credo. Acredito que em alguns momentos, era o próprio Palahniuk falando pela boca de Adam.

As pessoas usavam um negócio chamado telefone porque odiavam estar perto umas das outras, e porque morriam de medo de ficar sozinhas.” 

Hotel, ele me disse, era uma casa grande onde muitas pessoas moravam, comiam e dormiam, mas ninguém se conhecia. Ele disse que isso descreveria a maioria das famílias no mundo lá fora.”

"As igrejas no mundo lá fora, meu irmão disse, eram apenas lojas locais que vendiam mentiras feitas nas fábricas distantes das grandes religiões." 

Uma crítica ferrenha e cáustica, carregada com todo o cinismo contestador como só se via em um passado recente (hoje em dia, contestar é praticamente um crime). Antes de o mundo ter sido virado de cabeça para baixo, que fez com que os roqueiros, que sempre foram símbolos de contestação e rebeldia, se transformassem em pessoas tão retrógradas quanto o bisavô de seus pais, e o Papa ser a pessoa de mente mais aberta, propondo mudanças e quebra de paradigmas.


Estamos mais do que nunca, numa era de apatia em que contestar algo te transforma imediatamente num vilão. Onde estão os artistas que não seguem essa cartilha de bom-mocismo? Os que quebravam quarto de hotéis, os que viviam intensamente, pois só assim conseguiriam sobreviver. Antigamente os ídolos morriam jovens como Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Amy Winehouse, Cazuza. Não que eu aplauda a vida autodestrutiva desses personagens; só acho que eram visceralmente autênticos. Não acredito que alguém possa sempre falar as coisas certas o tempo inteiro e estar sempre com um sorriso no rosto, sem que esteja camuflando sua verdadeira vontade. Tenho medo dessas pessoas e do que elas escondem. Medo do que não é real. Mas deixa eu parar de reclamar como um velho rabugento. 
 



Tender Branson é meio gordinho e meio esquisito. Por conta de alguns eventos envolvendo a Igreja do Credo, acaba sendo transformado em uma espécie de novo messias; um profeta para uma nova geração. Para isso precisa se transformar em algo maior; em algo melhor. Precisa cuidar da sua saúde, precisa cuidar de sua aparência, tudo que é dito é minuciosamente pensado por seus agentes, seguindo uma programação para o sucesso. Passa a ter livros entre os mais vendidos, lotando estádios com pessoas esperando ouvir suas palavras; falando na TV no horário mais concorrido. Enquanto parece uma espécie de Forest Gump que na maior parte do tempo, parece não ter ideia do que realmente está acontecendo ao seu redor, só replicando o que foi “programado” para fazer.

Capa da primeira edição de Sobrevivente.
Editora Nova Alexandria

Um dos alvos, o principal na verdade, são as formas de exploração da fé das pessoas. Indivíduos desesperados e perdidos no mundo, em busca de um salvador que resolverá os seus problemas, ou um messias que trará sentido às suas vidas. Essas pessoas acabam se tornando presas fáceis em um mundo cada vez mais mercantilista. Tudo se torna objeto de consumo. Tudo está à venda. Tudo pode ganhar uma roupagem perfeita para que possa ser consumida com facilidade. Não podemos seguir e admirar alguém com falhas; alguém que não seja perfeito, de uma forma que nunca seremos. No fim das contas, não é nada além de um produto comercial que será explorado à exaustão. É claro, até um produto mais novo e com uma embalagem mais moderna aparecer e tornar o anterior descartável e ultrapassado.


O livro está sendo adaptado para se tornar uma série de TV. A boa notícia é que Jim Uhls, roteirista da adaptação de Clube da Luta para o cinema, está trabalhando no desenvolvimento da primeira temporada. Depois do 11 de setembro, imaginar a adaptação de uma história que já começa com um avião sendo seqüestrado, me parece bastante complicado de ser aprovada. Acredito que esta parte será suprimida. Mas vamos aguardar e esperar pelo pior.

Capa da nova edição.
Ed. Leya

Em Sobrevivente, existem momentos hilários cheios de humor negro, principalmente quando Branson se vê atendendo as ligações de pessoas que... Bom, é melhor não estragar as surpresas. Não espere um novo Clube da Luta (essa obra já saiu, foi em formato de HQ, e temos uma resenha sobre ele. Só posso adiantar que a continuação não chega perto da obra original), mas em Sobrevivente, vemos que, mesmo que em alguns momentos lembre um pouco sua obra mais conhecida, Palahniuk prova que ainda estava com muita lenha para queimar - o que acabou se provando ao longo do tempo. Esta é, certamente, uma obra que não pode faltar na sua lista, se você for fã do autor, ou se tiver interesse em conhecer. Ainda falaremos mais dele aqui no ZN. Enquanto isso, você pode mergulhar na história sem medo, mas esteja preparado para as pancadas que vai levar.


quinta-feira, 23 de março de 2017

CLUBE DA LUTA, de Chuck Palahniuk, ou “Como recebi o beijo cáustico de Tyler Durden em meu cérebro”, ou “O Manifesto Zen Budista Dinamite”, ou "NeoAnarcoNiilismoEsquizoSexual"

Por Eduardo Cruz





"Aviso: Se você está lendo isso, então isto é para você. Cada segundo perdido lendo este texto inútil é outro segundo a menos da sua vida. Você não tem outras coisas para fazer? A sua vida é tão vazia que você honestamente não consegue pensar numa maneira melhor de vivê-la? Ou você fica tão impressionado com a autoridade daqueles que a exercem sobre você? Você lê tudo o que deveria ler? Você pensa tudo o que deveria pensar? Compra tudo o que lhe dizem pra comprar? Saia do seu apartamento. Encontre alguém do sexo oposto. Pare de comprar tanto e se masturbar tanto. Peça demissão. Comece a brigar. Prove que está vivo. Se você não fizer valer pelo seu lado humano você se tornará apenas mais um numero. Você foi avisado."


Na introdução da mais recente edição “Clube da Luta” lançada aqui, Chuck Palahniuk compara sua prosa ao dinamismo musical e o pragmatismo agressivo do Punk Rock: 

“Toda música punk terminava antes de você se cansar, e todo mundo prestava atenção porque a pessoa tinha poucos segundos para chegar na pista. Enquanto (Billy) Idol explicava essa marca maior do punk, percebi que muitos dos meus contos e capítulos de livros parecem as músicas dele. (...) 
Isso explica por que os capítulos de Clube da Luta são tão curtos, e por que o livro em si termina tão depressa. Escrevi para ser uma coisa que ia ser lida e depois jogada fora. Escrevi quase no mesmo tempo que você vai levar para ler. É uma coisa da época que a gente viveu. Todo mundo estava pegando AIDS e morrendo. Não tinha como um escritor se demorar anos e anos num livro. A velocidade e a conclusão de Clube da Luta é culpa do punk, da AIDS, dos videoclipes. Nem eu, nem meus amigos achávamos que estaríamos vivos depois dos trinta."

Então, podemos inferir que “Clube da Luta” é o presente de uma geração desesperançada para outra. Uma idéia perigosa que está sendo propagada por aí agora mesmo, enquanto você lê esse texto. E, desculpem por isso, mas vamos dar uma mãozinha à essa idéia e propagá-la mais um pouquinho. Desculpem o transtorno, mas o aniversário de 20 anos da publicação do livro obrigou a Zona Negativa a quebrar de uma vez só as duas primeiras regras do Clube da Luta SIM!

Um brinde da Zona Negativa pra você: O jogo de tabuleiro de Clube da Luta!
Não importa quem alcança a linha de chegada primeiro - Tyler SEMPRE vence!!
Imprima e jogue com seu amiguinho imaginário.




É, eu sei que vocês já leram mil resenhas de clube da luta em mil sites diferentes, e não vamos enganar vocês: Não viemos trazer um novo enfoque à tona, reinventar a forma de ler essa obra, defecar uma regra nunca antes defecada, nem uma interpretação que já não tenha sido feita antes, até porque existem poucas coisas, seja na ficção ou na vida real, mais objetivas e de fácil compreensão do que os planos de Tyler Durden para “reescrever” a sociedade – com um grande apagador de nitroglicerina ;>) - e nossos leitores são inteligentes o suficiente para entender a mensagem do livro sem que alguém precise mastigá-la para vocês (exceto pelo final do livro, aquilo eu tive que ler umas quatro vezes pra ter a certeza de que entendi rs).



Pra ser franco, temos uma obrigação para com nós mesmos aqui na Zona, particularmente com relação a “Clube da Luta”. Esse blog, depois de tanto chão, não pode ficar sem uma menção sequer ao clássico da nossa geração, – e um de nossos favoritos de todos os tempos aqui na Zona! - que abriu nossas mentes a socos e pontapés. Como poderíamos não falar do filme / livro que ajudou a expandir nossas mentes e nossa visão da sociedade atual, nos imunizando dessa aceitação bovina e zumbificante de tudo, onde é cada vez mais normal se enquadrar na sociedade apenas sendo um aluno exemplar / empregado modelo / consumidor voraz? Em tempos onde a massificação dita o comportamento geral, o absurdo é visto como normal apenas pelo fato de todo mundo estar fazendo, por mais insano que seja o padrão. Todos fazem e consomem mais ou menos as mesmas coisas, mas interações humanas de verdade são cada vez mais escassas. Por esses motivos foi um despertar ler o mantra proferido pelo profeta da pós-modernidade, Tyler Durden:

"Você não é o seu emprego. Você não é quanto dinheiro você tem no banco. Você não é o carro que você dirige. Você não é o conteúdo da sua carteira. Você não é as calças cáqui que veste. Você é toda merda ambulante do mundo."


Tenha você uma predileção seja pelo livro ou pelo filme, “Clube da Luta” foi o manifesto que nossa geração precisava para não adoecer com esse estado de coisas. E, falando por mim, entre as obras que auxiliaram meu caráter para não cair nas armadilhas do comportamento de manada (bem, pelo menos na maioria das vezes, mas como eu fui um dos que gostou de “Logan”, parece que caí em mais uma rs) ele figura ao lado de “Os Invisíveis” com seu teor libertário e subversivo, isso para os padrões de uma obra de cultura pop. 

Palahniuk conta que teve a inspiração quando se envolveu em uma briga de verdade. Ele estava em um acampamento quando reclamou do volume da música ouvida por algumas pessoas nas barracas ao lado. A reclamação acabou virando uma briga e o escritor foi espancado. Ao voltar ao trabalho na segunda feira, com o rosto completamente arrebentado, ele percebeu como os colegas evitavam mencionar ou perguntar algo a respeito, como se nada tivesse acontecido, e a senhora da limpeza foi a única a lhe perguntar "O que aconteceu?". Pouco depois disso, ele escreveu um conto, que viria a ser o capítulo 6 do livro que conhecemos.




"Cara, eu vejo no clube da luta os homens mais fortes e inteligentes que já viveram. Vejo todo esse potencial, e vejo ele desperdiçado. Que droga, uma geração inteira enchendo tanques de gasolina, servindo mesas, ou escravos do colarinho branco. Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história, cara. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual... nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados."

“Clube da Luta” dissemina mensagens poderosas, como o poder das idéias e o quão destrutivo um indivíduo pode se tornar frente a um sistema que escraviza por meio da cultura do consumismo e do isolamento; o fardo do homem contemporâneo, que ao mesmo tempo em que oprime, é oprimido pelo conceito rígido e limitador do patriarcado milenar; pessoas querendo se conectar com outras pessoas - tema recorrente na obra de Palahniuk - além, é claro, de ser um livro divertidíssimo, com diversas passagens repletas de niilismo e muito humor negro, que são uma característica perene na escrita de Palahniuk. Esse humor negro foi perfeitamente transposto para o filme, e se você for só um pouquinho dodói da cabeça, sabe exatamente onde rir muito.
"A primeira regra do Clube da Luta é: você não fala sobre o Clube da Luta. A segunda regra do Clube da Luta é: você NÃO fala sobre o Clube da Luta. Terceira regra do Clube da Luta: se alguém gritar "Pára!", fraquejar, sinalizar, a luta está terminada. Quarta regra: apenas dois caras numa luta. Quinta regra: uma luta de cada vez, pessoal. Sexta regra: sem camisas, sem sapatos. Sétima regra: as lutas duram o tempo que for necessário. E a oitava e última regra: se esta for a sua primeira noite no Clube da Luta, você tem de lutar."

O livro é narrado de forma não linear e em primeira pessoa. Na história acompanhamos um protagonista sem nome, o que é bem sugestivo dado o estado de esvaziamento desse indivíduo: ele possui uma vida estéril e vazia, adquirindo móveis caros e itens domésticos, entre outros bens supérfluos, e trabalha no departamento jurídico de uma companhia de automóveis. Uma vida medíocre. Seu vazio existencial e sua insônia só são aplacados quando ele começa a freqüentar grupos de ajuda a doentes terminais semanalmente, se fazendo passar por um dos doentes, para conseguir estabelecer uma conexão com outras pessoas. 

Uma mulher chamada Marla passa a freqüentar vários destes encontros, ela também uma falsa doente, e sequer se esforça para parecer autêntica. Nosso narrador, irritado com Marla ameaçando seu monopólio por afeto nos grupos de apoio, não consegue mais se soltar nas sessões e volta a sofrer de insônia. Até o dia em que conhece Tyler Durden. Tyler é tudo que nosso protagonista não é: bonito, ousado, impulsivo e acima de tudo, LIVRE. A personificação da subversão, uma representação do Id

Uma noite, do lado de fora de um bar, Tyler pede que o narrador lhe dê um soco, e eles iniciam uma luta, que é notada por outras pessoas. Pouco tempo depois, o narrador, Tyler e alguns outros interessados, contagiados por esse espírito de "lutas consensuais” acabam formando uma espécie de clube – com regras e tudo! - que sob o pretexto das lutas, visa expurgar estes reflexos condicionados pela sociedade de consumo, e que logo evolui para algo muito maior e subversivo, ameaçando virar toda a civilização de pernas pro ar. Em paralelo acompanhamos os desdobramentos do triângulo Narrador / Tyler / Marla. E vou parar por aqui para evitar maiores spoilers para quem ainda não fez um favor a si mesmo(a) lendo ou assistindo a "Clube da Luta".

Parabéns, você achou um spoiler: Tyler Durden e o Narrador são a mesma pessoa! Suas definições de múltiplas personalidades foram atualizadas com sucesso!


"Todas as formas que você gostaria de ser, este sou eu. Eu tenho a aparência que você queria ter, eu fodo como você gostaria de foder, eu sou esperto, capaz, e o mais importante, eu sou livre de todas as maneiras que você não é."


Lançado em 1996, o livro dividiu a crítica e teve uma recepção inicial morna por parte do público, encalhando nas livrarias, porém mesmo assim despertando interesse o bastante para que uma adaptação cinematográfica fosse realizada. Em 1999, o estúdio 20th Century Fox lança sua adaptação, dirigida por David “Seven” Fincher, com Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter nos papéis de Tyler do Narrador (no filme intitulado “Jack”) e de Marla, respectivamente. O filme não lucrou o esperado nos cinemas, porém vendeu muito bem em DVDs, o que o fez atingir o status de cult movie. Era a publicidade de que o livro de Clube da Luta precisava para alcançar ele também status de cult e atingir o público nunca havia ouvido falar do livro. Daí para os clubes da luta clandestinos na vida real foi um pulo (sim, eles existem! Nunca foi em um? Eu já, mas não posso falar sobre isso ;>)). A vida adora imitar a arte de Palahniuk.

"Esta é a sua vida e ela está acabando, um minuto por vez."

Pouca gente sabe, mas “Clube da Luta” tem um prelúdio: “Excursão" é uma história curta passada antes dos acontecimentos de “Clube da Luta”, e foi publicada no livro “Make Something Up: Stories You Can't Unread”, que vai ser lançado no segundo semestre desse ano aqui no Brasil pela LeYa \o/.

"Escutem aqui, vermes. Vocês não são especiais. Vocês não são um belo ou único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como tudo no mundo."

Em 2004 saía “Fight Club – The Videogame” para Playstation 2 e Xbox, uma decepção gigantesca diante do potencial narrativo que poderia ser desenvolvido, o jogo foi mal recebido e teve críticas ruins por toda parte, tanto da crítica especializada quanto de jogadores domésticos, como eu ou vocês. Apesar de oferecer uma inovação em jogos de luta, onde havia um modo de raios-x (depois copiado em versões mais recentes de Mortal Kombat), em que víamos os ossos do jogador ou do adversário fraturando-se à medida que as lutas avançavam, isso não foi o suficiente para torná-lo sequer um jogo razoável. O game de Clube da Luta poderia ter sido um novo “Bully”, ou um “The Warriors”, ou um “GTA”, com um modo de história riquíssimo e missões relacionadas ao Projeto Desordem e Destruição, mais ou menos como vemos no livro e no filme. Pequenas ações de caos aleatórias para gerar instabilidade social. Mas infelizmente, não passa de um jogo bidimensional onde dois personagens se confrontam em meia dúzia de cenários, sem camisas e sem sapatos (Regra Nº6!), com uma péssima jogabilidade, cheio de bugs e sem nenhum traquejo pra desenvolver uma transmídia marota por parte da desenvolvedora Sierra. Um jogo ruim, inexpressivo, que não sustenta o legado do material de origem. Esqueçam. A regra número 1 da Zona Negativa é: A GENTE NÃO FALA SOBRE O GAME DE CLUBE DA LUTA!


Gameplay do jogo, ruim de doer...




"Apenas depois que você perder tudo é que você está livre para fazer qualquer coisa."

Entre as centenas de referências a Clube da Luta que já vimos por aí, circulando na cultura de massa, a maioria homenagens cômicas, o produto influenciado pela obra que talvez mais se destaque seja a série Mr. Robot. Percebe-se logo no piloto que esta série é uma grande homenagem ao legado subversivo da obra de Palahniuk, e inclusive a série tem seu próprio Tyler Durden, mas não vou estragar a surpresa de ninguém (como estragaram a minha heheh). Se vocês me pedissem para, grosseiramente, resumir “Mr. Robot” em apenas uma frase, acho que eu diria que “É como Clube da Luta, mas com hackers”.

Elliot Alderson é um engenheiro de cibersegurança e hacker brilhante, que sofre de transtorno social e depressão. Elliot não consegue se enquadrar na sociedade e não suporta o rumo que mundo está seguindo. Paralelamente, ele é recrutado por um grupo de hackers ativistas (em uma menção ao Annonymous) que pretende apagar o registro de devedores da maior corporação do mundo, a E Corp. Muito elogiada por público e crítica, a série ganhou um Globo de Ouro e se encaminha para sua terceira temporada. Assisti à primeira temporada, e apesar das semelhanças e homenagens escancaradas, Mr. Robot tem sua própria identidade, e acredito firmemente que pode ter uma longevidade razoável. Como sempre, tudo depende dos roteiristas.


Eu não dei spoilers, mas essa arte promocional deu. Ha-Ha!


"É fácil chorar quando você percebe que todos que ama o rejeitarão ou morrerão. Em uma linha do tempo longa o bastante, a taxa de sobrevivência de todos cairá a zero."
 
Na Comic-Com de San Diego de 2013, Palahniuk anunciou que publicaria Clube da Luta 2, e disse mais: Que não seria um livro em prosa, mas sim uma HQ! 


A editora Dark Horse – a casa do Hellboy! – publicou a mini série de 10 edições entre maio de 2015 e março de 2016. O encadernado, compilando as dez edições saiu aqui no ano passado pela LeYa.

“Clube da Luta 2” se passa dez anos após os acontecimentos do primeiro livro/filme, e nosso narrador agora tem um nome: Sebastian. Ele casou-se com Marla, que vive entediada, secretamente sabota sua medicação, e ambos têm um filho e uma vida muito semelhante a que o protagonista levava no primeiro Clube da Luta: uma rotina suburbana vazia. Até que o filho dos dois desaparece. Sebastian e Marla saem à procura da criança e descobrem que Tyler Durden está de volta, e todos são sugados novamente para a Desordem e Destruição e, bem... fizemos uma resenha completa do Clube da Luta 2 AQUI!

"Mas não vamos a discotecas. Tyler diz que as músicas são muito altas, especialmente as que têm uma base de baixo, que acabam ferrando o biorritmo dele. Na última vez que saímos, Tyler disse que a música alta o deixou constipado. Além disso, o som é tão alto que não dá pra conversar, então, depois de umas duas bebidas, todos se sentem o centro das atenções, mas completamente separados de todas as outras pessoas. Você vira um cadáver em um suspense policial britânico."


Por fim, ainda falando sobre continuações, Palahniuk já declarou que “Clube da Luta 3” está em desenvolvimento e também vai ter o formato de “Clube da Luta 2”: uma HQ serializada em partes. Me fiz a mesma pergunta quando ouvi a primeira notícia sobre a continuação anterior: Pra quê?? 
Mas enfim, vamos aguardar e conferir. Quem sabe dessa vez o sistemão cai geral...




Arte de Cameron Stewart

Arte de Lee Bermejo

“Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá e por um par de anos fica satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois precisa de um bom aparelho de jantar. E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que antes lhe pertenciam passam a possuir você”

Após uma versão com encadernação em brochura e uma encadernação em capa dura, no fim do ano passado, a LeYa lançou uma nova edição de Clube da Luta, dessa vez uma edição de colecionador. O livro, com tiragem limitada de 10.000 exemplares, numerados individualmente, vem em uma capa dura de papel Paraná não revestido, com a arte de capa serigrafada diretamente sobre o papel e contém, além da história original, um prefácio inédito escrito pelo autor, o roteiro original da adaptação cinematográfica (e isso é o que transforma a edição naquele tijolão de 470 páginas! ;>)), bem como a transcrição de uma entrevista, feita em um painel na Comic Con de San Diego de 2014 com Palahniuk, o diretor do filme, David Fincher, Scott Allie, editor-chefe da editora Dark Horse, Gerald Howard, editor de Palahniuk e Cameron Stewart, artista da HQ Clube da Luta 2. 

As edições de Clube da Luta já lançadas no Brasil

Fechando a edição, um ensaio sobre o impacto de “Clube da Luta” na cultura pop até os dias atuais, por Natália Bridi, redatora do site Omelete. 

Sim, eu sei o que você está pensando: "Uma edição de Clube da Luta gourmet???". É uma edição pros entusiastas mais xiitas, daqueles que enxergam e riem da ironia em se comprar uma edição especial mais cara de uma história que propõe um rompimento com a sociedade de consumo. Mas ei, o filme foi produzido pela megacorporação Fox e isso não te impediu de comprar o DVD e dar seu suado $$$ pra eles, certo?

 

"A filosofia de vida de Marla é que ela pode morrer a qualquer momento. A tragédia, ela dizia, é que ela não morrera."

Expoente máximo da Ficção Transgressional, como o próprio Palahniuk denomina seu estilo literário, “Clube da Luta” parece ser o alerta final de que estamos caminhando cada vez mais em direção a uma distopia. A encruzilhada está logo ali, e que direção vamos escolher? Será o Projeto Desordem e Destruição um recurso a ser considerado pelo cidadão como reação a esses tempos cada vez mais opressivos? Será que Tyler está certo e é preciso destruir as posses para que não sejamos possuídos por elas? Sei lá, olhem aí dentro da cabecinha de vocês e me respondam... mas antes, me façam um favor? Algum de vocês poderia me dar um soco? O mais forte que vocês puderem??



"WHERE’S MY MIND?"
Um clássico dos Pixies, eternizado por Tyler Durden, Bob Paulsen e Cia...