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sexta-feira, 17 de março de 2017

Trilogia "A SAGA DOS BRUTOS", de Ana Paula Maia


Por  RICARDO CAVALCANTI


Se tem uma coisa que a equipe do Zona Negativa sempre gostou, foi de procurar algo interessante fora do badalado mainstream. A satisfação em descobrir algo escondido embaixo de um monte de obras pasteurizadas que obedecem a uma fórmula de sucesso sempre foi recompensador.

Nem sempre tudo foi muito fácil de se conseguir como hoje em dia. Para se ter uma idéia, se você quisesse ouvir algo que não era tocado nas rádios, ou que aparecia nos programas dominicais na TV, você tinha que encarnar o seu espírito desbravador e sair à caça de lojas de discos que oferecesse algo além das obviedades.
Matéria sobre "De Gados e Homens", lançado na Itália


Com os filmes era a mesma coisa. Caso a locadora mais próxima da sua casa não te oferecesse opções além dos filmes que viriam a ser futuros títulos de Sessão da Tarde, o processo de descoberta era o mesmo. Isso, numa época em que as únicas opções eram as oferecidas pela TV aberta e a TV por assinatura era um privilégio para poucos.

Ler então... Se você não tivesse um bom faro e um bom sebo para garimpar, pouca coisa se conseguia encontrar de relevante. Não existia um caminho das pedras a ser seguido; cada um desenvolvia seu próprio caminho. Além do mais, era preciso usar muita sabedoria para gastar o pouco dinheiro em alguma coisa, já que na maioria das vezes, a gente acabava apostando no escuro. Não era um simples gasto, era como um investimento de alto risco.

Com o aumento do acesso à internet, tivemos um novo mundo se abrindo diante de nossos olhos. Conseguimos acesso a obras dos mais remotos cantos do mundo. Nesse sentido, muito nos ajudou o falecido Putrescine, que era uma fonte inesgotável de pérolas, prontas para serem descobertas, seja qual for o seu gosto. Tivemos a sorte de conseguir grande parte da filmografia sangrenta de Takashi Miike, da crueza do cinema de Takeshi Kitano, além de uma gama gigantesca de coisas sem noção, que é até difícil definir como o Batman filipino, Superman Turco, além de toda picaretagem do cinema produzido na Turquia e na Índia, que copiavam descaradamente as produções de Hollywood.
Matéria sobre "A Guerra dos Bastardos", lançado na Sérvia.


Hoje, graças ao Google, temos uma facilidade maior para encontrar qualquer coisa. Imaginamos que seria o fim da cultura de massa, que a polarização seria a nova forma de consumo de entretenimento, e que tudo estaria caindo no nosso colo, nos cabendo apenas o trabalho de escolher entre as diversas opções. Mas a sensação que se tem é de que sempre aparecem as mesmas coisas, ficando cada vez mais difícil encontrar algo que te impacte e valha realmente a pena.

Mas apesar de o espírito desbravador andar meio velho, cansado e um bocado preguiçoso, a empolgação de descobrir algo bom e que fuja das obviedades com que somos bombardeados, ainda está mais viva do que nunca. Nesse sentido, surgiu um nome de uma autora brasileira que me surpreendeu, não só pela sinopse de seus livros, mas também da reação de seus leitores.




Ana Paula Maia acabou atiçando minha curiosidade e resolvi conferir do que se tratava. Logo fui surpreendido por sua forma de escrita poderosa e extremamente pessoal. Na trilogia "A Saga dos Brutos", temos três histórias divididas em dois livros – "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos", de 2009 (que também tem a história “O Trabalho Sujo dos Outros") e "Carvão Animal", de 2011 - ambos pela editora Record. Seus personagens são embrutecidos pela vida. Não possuem questionamentos que os consomem; não fazem planos para a própria vida. São os bestializados, os excluídos, os marginalizados, os invisíveis perante a sociedade. Aquele que recolhe o lixo da sua casa por anos e anos e você não sabe nem o nome. Os que desentopem os bueiros e de quem ninguém quer chegar perto porque fedem.
Edição francesa de "Carvão Animal"

Ela possui uma escrita direta, sem floreios, sem rodeios, sem pudores. Suas histórias não possuem um final apoteótico, nem uma trama rebuscada que te dá um plot twist no final. Mas não significa que também não seja extremamente impactante.

A autora te insere em uma realidade dura e sem perspectivas. Em comum, seus personagens possuem o mesmo objetivo: sobreviver.
O juízo de valor, mostrando o quanto é reprovável como os personagens conduzem suas vidas e suas decisões (ou suas formas de pensar), poderia ser um caminho fácil a ser trilhado pela autora, mas Ana Paula não te induz, em nenhum momento, o que achar e o que sentir sobre os acontecimentos. Essa função fica a cargo do próprio leitor.

É uma leitura desaconselhável a pessoas sensíveis e que esperam sempre o lado bom da vida, ignorando as mazelas do dia a dia e tudo que não agrada aos sentidos. Como um aperitivo, segue um pequeno trecho de Carvão Animal, para se ter uma idéia do que se trata:

“A gordura funciona como combustível e aumenta a intensidade do fogo, sendo assim, uma pessoa magra demora mais para ser reduzida a cinzas do que uma gorda. O forno crematório atinge uma temperatura de até 1.000°C. Inclusive para os dentes é impossível resistir ao insuportável calor. A fila de corpos a serem cremados é sempre longa. São mantidos congelados até assarem no forno, e moídos os restos empedrados que são finalizados em cinzas de grãos uniformes e suaves.
Enquanto o corpo é carbonizado, as extremidades se contorcem e encolhem. O que já foi humano parece voltar-se para o lado de dentro. A boca escancara e se contrai. Os dentes saltam. “O rosto murcha e torna-se um grito suspenso de horror.”
Edição Sérvia de "De Gados e Homens"


Por conta de suas descrições de situações que podem gerar incômodo, algumas pessoas a comparam com Chuck Palahniuk. Apesar de suas histórias se encaixarem perfeitamente nos contos de Assombro, por exemplo, não acho que seria uma comparação justa. Acabaria a reduzindo a uma cópia; um pastiche. Mas se for para comparar, diria que suas histórias seriam algo como se Beto Brant filmasse com a violência dos filmes dirigidos por Mel Gibson e um bocado de Ruggero Deodato em Holocausto Canibal.


Edição alemã de "A Guerra dos Bastardos"
O personagem Edgar Wilson (recorrente em suas histórias) é a junção de Edgar Alan Poe com do personagem William Wilson, que dá nome a um dos contos do autor, revelando uma de suas influências.

Imagino como deva ser complicado para um autor nacional conseguir publicar alguma coisa por uma grande editora. É mais fácil investir no óbvio, que vai trazer lucro certo, do que apostar num novo nome e apresentá-lo aos seus leitores. Sem contar que o fato de ser mulher deve complicar ainda mais essa situação, enfrentando o machismo cada vez mais forte de homens inseguros e que vêem na mulher uma ameaça a.... sei lá o quê. Principalmente depois de constatarmos que estamos regredindo como sociedade nos últimos anos. Para se ter uma idéia dos obstáculos que uma mulher enfrenta, J. K. Rowling assinava assim para não saberem que era uma mulher escrevendo (só para citar um exemplo!).

Ana Paula Maia conquista seu espaço de forma imponente, com muito sangue e violência. Suas obras já foram publicadas em vários países como, Alemanha, Estados Unidos, Sérvia, França, Itália e Argentina. Mas apesar disso, ainda é relativamente pouco conhecida por aqui. Ou é pelos motivos mencionados no parágrafo anterior, ou é o nosso complexo de vira-latas falando mais alto. Talvez seja um bocado dos dois.

Em 2017 ainda teremos mais de Ana Paula Maia. O
filme Deserto - que foi roteirizado por ela - do diretor Guilherme Weber - e que já coleciona prêmios em vários festivais, deve entrar em circuito comercial ainda esse ano.  


No final de abril sai o seu novo livro, “Assim na Terra como Embaixo da Terra” - também pela editora Record - tratando do sistema carcerário. Com a sua maneira densa e forte de escrever, me expliquem: como não ficar ansioso para vê-la tocando nesse assunto?

Uma última pergunta... Onde eu estava que não a conheci antes?


sexta-feira, 3 de março de 2017

ASSOMBRO, de Chuck Palahniuk, ou "A câmera atrás da câmera atrás da câmera..."

Por EDUARDO CRUZ







"Ela dizia que algumas histórias vão se desgastando ao serem contadas. Esse tipo de história perde logo o efeito dramático, e cada versão parece mais boba e insossa. Já histórias de outro tipo vão desgastando a gente. Quanto mais são contadas, mais fortes ficam. Esse tipo de história só nos lembra de como fomos idiotas. Somos. Sempre seremos."



Existe um livro de Chuck Palahniuk intitulado "Mais estranho que a ficção" (Editora Rocco, 2011), que traz uma série de ensaios, crônicas e perfis com enfoque jornalístico, ou sejE, somente casos 100% reais em suas páginas, inclusive sobre o próprio autor. Pois bem, em um desses ensaios, chamado "Você está aqui", Palahniuk fala sobre eventos realizados em saguões de hotéis, conferências de escritores onde por módicos 50 dólares você dispõe de um tempo que pode variar de 7 a 10 minutos de frente para um agente literário, ou editor, ou executivo de TV ou cinema, e tentar vender seu livro ou roteiro de filme, para capitalizar em cima de uma história de sofrimento pessoal, porque afinal de contas as pessoas adoram uma história de superação "baseada em fatos reais". Uma história de desafio e triunfo sobre as adversidades. E você pode vender os direitos para a Fox, Warner, ou Netflix. Pode ser que Meryl Streep ou Tom Cruise sejam escalados para lhe representar na história da sua vida. E você tem de convencer o executivo na mesa em apenas sete minutos que sua história de abuso sexual durante sua infância ou seu relacionamento de 10 anos com um marido violento valem o investimento. Como naquele programa de antiguidades da TV por assinatura: Pode ser que você tenha um tesouro... ou apenas lixo.

Chuck Palahniuk

Em "Assombro", Palahniuk - é, aquele mesmo de "Clube da Luta"! - parece pegar esse fato e distorcê-lo um pouquinho (mentira, bastante!) em seu mote, onde alguns aspirantes a escritores, após responder a um anúncio misterioso, ingressam em um retiro para artistas, com a promessa de, em 3 meses, saírem de lá com sua obra prima! sem as distrações do mundo real e da rotina do trabalho ou família, todos poderiam focar em produzir um lindo pedaço comercializável de suas próprias almas, na forma de uma história, uma canção, uma pintura... 

Acontece que os internos do retiro acham tudo que produzem muito aquém do esperado, e decidem sabotar sua estada no retiro, criando sua própria história de dificuldade e superação, isolando-se a ponto de fazer o retiro se tornar um cativeiro, seus monitores serem descritos como carrascos, e por aí vai. A coisa escala até um ponto em que, imaginando o melhor e mais impactante modo de conquistar seu futuro público, os escritores em potencial começam a jejuar, não tomar mais banho e chegam às raias do canibalismo e automutilação, tudo na intenção de, quando forem "resgatados", conseguirem passar o máximo possível de credibilidade na história do calvário pelo qual passaram, o que culmina em passagens repletas do humor negro grotesco e violência, além do niilismo e visceralidade, que são as marcas registradas do autor. 

À medida que as semanas passam e as penúrias autoimpostas aumentam, os contos também evoluem no teor de macabro e grotesco, e por isso os dizeres "Um romance de contos" na capa, percebem? Palahniuk delineia crônicas de nossos tempos de loucura globalizada entre as diversas camadas dos contos de "Assombro", e nos mostra até onde as pessoas são capazes de ir em busca de sucesso, seja lá o que essa palavra signifique para cada um. Através dos contos narrados descobrimos também como cada personagem foi parar no retiro de escritores, sua própria derrocada pessoal.


Os Contos são:

  • Tripas (por São Sem-Pança) - Um conto sobre os perigos do amor próprio quando executado de forma excessivamente criativa, e imprudente, e como o poder do tabu pode acabar com a poupança da faculdade de um adolescente curioso. Conto completo nesse post. Quem tiver estômago para ler esse conto, aguenta o restante do livro rs...
  • Pé ante pé (por Mãe Natureza) - Um conto sobre como qualquer coisa da Nova Era pode ser transformada em uma ferramenta mortífera, desde o feng shui e a cristaloterapia até a acupuntura, e sobre como até massagens nos pés podem te fazer gozar... ou te matar.
  • Sala Verde (por Miss América) - Esse conto pisa um pouco no freio ao esmiuçar a realidade de vendedores itinerantes de produtos inúteis em programas de TV locais, desses que ficam anunciando suas tranqueiras em um bloco de programa de TV, e sobre como uma manchete inesperada em rede nacional pode arruinar seu jogo. Parece chato, mas tem todos aqueles detalhes crus que Palahniuk costuma retratar, em uma profissão aparentemente banal. Esse conto é meio morno, mas serviu para contextualizar a personagem dentro da trama principal.
  • Favelando (por Lady Mendiga) - Um conto sobre milionários entediados que se disfarçam de moradores de rua porque, segundo eles, "A pobreza é a nova nobreza", em uma espécie de alpinismo social às avessas. Mas como é um livro do Palahniuk, claro que algo horrível vai acontecer no final...
  • Canção de despedida (por Conde Calúnia) - Um repórter sensacionalista em dificuldades leva seu cão doente para tratamento e descobre que o veterinário era um astro mirim de uma série de TV famosa, vivendo feliz no ostracismo. Em busca de um furo de reportagem, o Conde Calúnia faz algo monstruoso com o pobre doutor...
  • Idade de cachorro (por Brandon Whittier) - Um conto sobre donas de casa de classe média que se voluntariam para cuidar de idosos em asilos, sobre como pessoas são levadas a crer em algo que não é exatamente aquilo que aparenta, e sobre Palahniuk pesquisando sobre doenças raras e estranhas para entregar um plot twist que é um soco no estômago, ao mesmo tempo em que desenvolve e revela mais da trama principal.
  • Ambição (por Duque dos Vândalos) - Um artista medíocre recebe uma proposta irrecusável para atingir a consagração: ele precisa matar outros artistas, com o intuito de manipular o mercado, valorizando assim obras do acervo de certos colecionadores. Até chegar a vez de ele próprio ter seu portfólio supervalorizado. Um bom conto sobre a necrofilia da arte.
  • Pós-produção (por Sra. Clark) - Desenvolvendo um pouco mais um dos personagens - a Senhora Clark - e indiretamente a trama principal, Palahniuk nos mostra os bastidores broxantes de uma produção pornográfica caseira, e como uma câmera pode destruir um relacionamento.
  • Êxodo (por Diretora Negação) - Uma funcionária do serviço social de uma cidade, cansada dos abusos sexuais sofridos pela boneca de treinamento de ressuscitação cardiopulmonar (!?!?!) resolve punir os depravados quando seu departamento recebe mais duas bonecas, dessa vez um menino e uma menina, extremamente realistas anatomicamente, usadas para reconstituição de casos de abuso sexual. Outro conto não indicado para ler durante o almoço e que vai provocar arrepios na espinha, ainda mais quando você ler a palavra "gilete"...
  • Pileque (por Reverendo Ímpio) - Esse conto é uma espécie de gêmeo espiritual de "Clube da Luta", e aqui vemos como alguns militares veteranos pretendem acabar com todas as disputas religiosas do mundo usando batons, perucas, vestidos e muitos, muitos muitos explosivos. Um dos melhores contos do livro! Pros fanboys de "Clube da Luta", é um regalo do autor rs.
  • Ritual (por Casamenteiro) - O narrador desse conto faz uma reminiscência de uma antiga história de  sua família, contada por tios veteranos da Segunda Guerra Mundial, passada em um campo de concentração, e envolvia um oficial alemão, sexo oral forçado e uma navalha. O final traz um inevitável frio na... barriga.
  • Caixa pesadelo (por Sra. Clark) - Continuamos seguindo a Sra. Clark, e o desaparecimento de sua filha Cassandra, que muda radicalmente após olhar pelo visor de um aparato exibido em uma vernissage, uma antiguidade conhecida como "Caixa pesadelo". Seguindo pistas da história do misterioso objeto, o conto coloca mais pulgas atrás da orelha do leitor, por suas relações com a história principal do livro.
  • Crepúsculo civil (por Irmã Justiceira) - O conto mais fraco do livro. Pessoas são mortas no meio da rua por alguém que arremessa bolas de boliche ladeira abaixo. Um conto de bicho papão em sua essência, mas com um desenvolvimento que deixa a desejar. Felizmente é bem curto.
  • Colocação de produto (por Chef Assassin) - Um conto em forma de uma carta escrita pelo protagonista, um cozinheiro que tem como hábito estripar os críticos gastronômicos que porventura falem algo negativo de seu trabalho. A carta é endereçada à marca fabricante de facas favorita do cozinheiro, e nela ele faz uma proposta ao fabricante.... Humor negro na medida!
  • Fala amarga (por Camarada Escárnia) - Quando uma transexual feminina tenta fazer parte de uma reunião de feministas, as oprimidas viram opressoras. Um conto a respeito de gênero e identidade sexual, com aquela dose de humor negro e agressividade que a gente já conhece...
  • Inválido (por Agente Fuxico) - Um conto sobre detetives particulares investigando pessoas que dão o golpe no seguro social, e falsos inválidos que acabam se tornando detetives particulares para investigar outros falsos inválidos. 
  • Dissertação (por Elo Perdido) - Uma história de lobisomem. Por Chuck Palahniuk. A cena da menina de treze anos virando um bichão faminto em pleno vôo quadruplicou minha fobia de avião. Sem mais.
  • Menina dos Olhos (por Sra. Clark) - Esse conto segue mostrando a história da Sra. Clark e sua filha desaparecida, e vemos aqui a relação direta com toda a trama principal se entrelaçando ainda mais.
  • Something's Got to Give (por Condessa da Antevidência) - Uma vidente capaz de ver eventos passados refletidos em objetos antigos entra em um antiquário, onde o vendedor lhe oferece uma memorabília bizarra relacionada a Marilyn Monroe. Idéia interessante, mas o desenrolar deixa um pouco a desejar.
  • Fondue (por Baronesa Congelada) - Nesse conto a personagem da Baronesa relembra um episódio de sua juventude, quando trabalhava no bar de uma pousada meia boca, localizada próximo a poços de águas termais ferventes. Acrescente um cozinheiro bêbado vagando pela área e temos aí um dos contos mais repugnantes do livro. Considero mais grotesco que vísceras, até!
  • Cassandra (por Sra. Clark) - A história da Sra. Clark e sua filha avança mais um pouco, inclusive com uma importante revelação da trama no final do conto. Mas fora essa revelação, o conto serve para Palahniuk exibir todo o seu vasto conhecimento de tanatologia. Bom apetite.
  • Espíritos do mal (por Miss Espirro) - Era uma vez uma menina que era obrigada a viver isolada em uma instalação secreta do governo, pois ela carregava uma doença tão terrível que poderia provocar uma pandemia em nível global. Mas no fundo, o que ela mais queria era ter um namorado. Até que chega o dia em que a instalação recebe outro hóspede assintomático, como ela, e com exatamente a mesma moléstia virulenta que ela! Será a chance da Miss Espirro beijar na boca sem matar alguém?
  • Obsoletos (por Sr. Whittier) - Em uma expedição espacial, a humanidade descobre que, no processo evolutivo espiritual, Vênus é o próximo degrau. E é um lugar maravilhoso e paradisíaco. A humanidade então decide tomar um atalho e emigrar pra lá, não importando se ainda não é o momento certo para a maioria das almas na Terra, e assim o suicídio vira a nova moda mundial. Menos para Adam e Eve, um casal de adolescentes revoltados . O conto mais WTF do livro. Destoa de todo o restante, mas ainda assim é ótimo, pleno de interpretações.


Além dos contos, "Assombro" é entremeado pela história principal, que amarra tudo entre essa avalanche de contos, e também por diversos poemas sobre os personagens. Pessoalmente, não sou grande fã de poemas, mas foi muito bacana ver  um Chuck Palahniuk desenvolvido e seguro a ponto de incluir poemas em um livro de sua autoria! Em minha opinião pessoal, na proposta principal de "Assombro",  Palahniuk não consegue sustentar o tempo todo esta pluralidade de vozes narrativas, e em vários momentos o que temos são os personagens criados por Palahniuk escrevendo exatamente igual a Palahniuk. Se "Assombro" tenta ser um livro esquizofrênico, até conseguiu, isto é, se você considerar que possa existir um tipo de esquizofrenia onde as vozes são todas iguais, apesar de dizerem coisas diferentes rs. Acredito que os fãs do escritor não chegam a se incomodar com isso, e tampouco isso afasta leitores eventuais. Isso não me incomodou de verdade, é somente uma observação de uma limitação de "Assombro", talvez sua única limitação, não conseguir imprimir uma voz mais particular a cada um dos 18 personagens do livro. Dado o tamanho do desafio, não peguemos pesado com o autor. Nem de longe isso prejudicou a experiência de leitura, já que "Assombro" tem uma história principal cheia de suspense, que arrasta o leitor por suas páginas até o final, e também vários contos de horror, porém sem (quase) nenhum apelo sobrenatural, recheado de horrores cotidianos, sem filtros. 
Sempre algo que o amigo de um amigo te contou. 
Algo muito absurdo, mas possível. 
Coisas que médicos vêem nas salas de emergência às 2 da manhã.
Algo que poderia acontecer com você.

O livro, que originalmente havia saído pela editora Rocco aqui no Brasil em 2007, estava esgotado há anos e valia seu peso em ouro na internet, até que a editora LeYa, que já detém os direitos de publicação da obra de Palahniuk por aqui há alguns anos (uma dica, dona LeYa: relancem "Cantiga de Ninar" e "Monstros Invisíveis" pra garotada da geração leite com pêra, ovomaltine e nutella conhecer!!!), o relançou no final do ano passado com uma nova capa. Agora é correr para catar um antes que esgote de novo. "Assombro" é um ótimo livro, com contos curtos que podem ser lidos em apenas um dia ou menos, uma história principal com muito suspense e um bom desfecho. Enfim, um ótimo livro para revisitar daqui a um, dois anos para uma releitura. 


Capa da primeira edição brasileira de "Assombro" (Ed. Rocco)

"Assombro" ainda é uma experiência única. Existem poucos livros com uma proposta semelhante e esse é a evidência de que, ao contrário de muitos outros escritores, Chuck Palahniuk não é um escritor de um livro só. Terminada essa resenha, "Assombro" volta para a minha estante. Mas já temos um encontro marcado ano que vem.


"Quando conseguirmos perdoar o que foi feito a nós...
 Quando conseguirmos perdoar o que fizemos a outros...
Quando conseguirmos deixar todas as nossas histórias para trás, junto com nossos papéis de vilões ou vítimas.
Só então, talvez, consigamos salvar o mundo.
Mas nós continuamos sentados aqui, esperando ser salvos. Continuamos sendo vítimas, na esperança de sermos descobertos enquanto sofremos."


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #002 – “TRIPAS”, de Chuck Palahniuk





Sim, amiguinhos, esse post é pra avisar que essa semana não vai ter post na Zona. Mas calma, que temos uma boa desculpa: como vocês já sabem, estaRAremos na CCXP, mais precisamente no terceiro dia do evento, também conhecido como sábado, 03/12, e faremos uma pequena cobertura para este humilde blog. Esperem por um post com muitas fotos e tudo que conseguirmos apurar de informações relevantes e novidades anunciadas nesse dia! Quer dizer, eu digo que não vai ter post essa semana, mas surpresas podem acontecer heheheh. Só não prometemos nada....

Mas pra vocês não se sentirem abandonados, deixamos um conto de Chuck Palahniuk, o autor de “Clube da Luta”, nesse post. “Tripas” faz parte do livro “Assombro”, em minha opinião um dos melhores livros do autor. “Assombro” estava esgotado há muito tempo no Brasil, mas a editora Leya, que publica atualmente a obra de Palahniuk no Brasil o relançou agora, no fim de 2016.

Nos Estados Unidos, durante a turnê de promoção do livro, em diversas livrarias, Palahniuk optou por fazer a leitura deste conto para o público, como forma de divulgar a obra. Conclusão: mais de 70 pessoas passando mal ou desmaiando, saindo em ambulâncias, tamanho o desconforto da situação a que o autor submete o protagonista do conto, e nem mesmo aquele toque de sarcasmo típico da prosa de Palahniuk deu um jeito de aliviar o impacto da história nos mais sensíveis. Exagero??? Frescura excessiva??? Ou apenas mais uma jogada de marketing da indústria do entretenimento??? Leiam e tirem suas próprias conclusões. Como aqui na Zona não damos ponto sem nó, considere essa edição de “Encheção de Lingüiça do Bem uma prévia de nosso review de “Assombro”, que vamos soltar em breve...



Fiquem então com “Tripas”, um conto sobre os perigos do amor próprio quando executado de forma imprudente e, digamos, criativa; e como o poder do tabu pode acabar com a poupança da faculdade de um adolescente curioso, e até o próximo post!

Um pequeno vídeo sobre as reações à leitura de "Tripas" lá nos States...





TRIPAS

Chuck Palahniuk, 2005

Inspire.
Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.
Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.
Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.
Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.
Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.
Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.
Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.
Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.
Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.
As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….
Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.
Esse é o espírito da escada.
O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.
Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.
Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.
Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.
Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.
Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.
Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.
Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.
Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.
Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.
O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.
Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.
Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.
O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.
Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.
O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.
No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.
Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.
Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.
O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.
Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.
Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.
Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.
A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.
Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.
Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.
Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.
Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.
Faço isso de novo, e de novo.
Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.
E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.
Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.
As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.
Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.
As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.
Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.
Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.
Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.
Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.
Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.
Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.
O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.
Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.
Deus proíba que meus pais vejam meu pau.
Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.
Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.
Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.
Você então vê contra o que eu lutava.
Se eu largo, sai tudo.
Se eu nado para a superfície, sai tudo.
Se eu não nadar, me afogo.
É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.
O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.
Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.
Algo sobre o qual nem os franceses falam.
Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú……
Mne eto nado kak zuby v zadnitse.
Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.
Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.
Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.
Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.
É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.
Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….
Precisava disso como precisaria de dentes no cú.
Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.
Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.
Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”
Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”
E então a menstruação da minha irmã atrasou.
Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.
Nunca.
Essa é a nossa cenoura invisível.
Você. Agora você pode respirar.
Eu ainda não.

Boa noite.