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sexta-feira, 8 de junho de 2018

DESOLATION JONES, de Warren Ellis + J. H. Williams III + Danijel Zezelj, ou "A melhor HQ jamais finalizada que você vai ler na sua vida!"








Por EDUARDO CRUZ



Alguém aqui já leu Sandman

Não??? Então vão lá, peguem as 75 edições, leiam e voltem a esse post. Vou ficar esperando aqui. 

Prontos? 

Então vamos lá:
Quem lembra da biblioteca do Sonhar? A biblioteca onde estão armazenados todos os livros que foram sonhados, mas nunca chegaram a ser escritos, que nunca vieram a existir no tal do "mundo real". O reino de Morpheus tinha neste espaço o receptáculo perfeito para tudo que poderia ter sido, mas não foi, artisticamente falando. Por N motivos, projetos podem afundar, dar errado ou nunca acontecer. Parcerias azedam e inviabilizam a realização ou conclusão do trabalho. Artistas morrem antes de concluir suas obras. Empresas vão à falência e publicações são abruptamente interrompidas. Algumas coisas nunca chegam a atingir seu pleno potencial e são finalizadas prematuramente. Um (péssimo) exemplo é o Grandes Astros Batman & Robin, de Frank Miller e Jim Lee. Que poderia nem ter sido concebido, para começo de conversa. Ainda assim, esse aborto da natureza respirou e se arrastou por nove edições até finalmente alguém na DC finalmente ter o bom senso de desligar os aparelhos dele. E olha que eu sou fã do Bátemã rs!!!. Agora, um exemplo de uma ótima HQ que morreu antes da conclusão - bem mais agradável do que falarmos de um gibi onde a Morcega derrota o Lanterna Verde pintando um quarto todo de amarelo - é Desolation Jones.

O Absolute Desolation Jones está na prateleira de baixo, ao lado do Omnibus de Grandes astros Batman & Robin :>P


Michael "Desolation" Jones é um agente aposentado do MI6, o Serviço secreto Britânico, que após cair em desgraça por embriaguez em serviço e má conduta, não tem outra escolha senão servir como cobaia em um projeto secreto, o Teste Desolação. Ele é, aparentemente, o único sobrevivente de um experimento que o obrigou, entre outras coisas, a ficar sem dormir e assistindo a cenas de morte e violência por um ano inteiro. O experimento deveria aprimorá-lo, mas dá terrivelmente errado, e Michael é "aposentado", sendo exilado pelo resto de sua vida em um local designado para outros como ele. E qual o melhor lugar para esconder ex operativos de agências de inteligência que foram cobaias de experimentos de aprimoramento mal sucedidos? Qual cidade do mundo tem a maior concentração de esquisitões por metro quadrado??? Isso mesmo, Los Angeles, Califórnia! Existe toda uma comunidade de ex espiões de diversas agências com aprimoramentos bizarros vivendo na Cidade dos Anjos, todos legalmente invisíveis, mas sem permissão de abandonar a cidade. Michael presta serviços de investigação particular entre os de sua comunidade. Esse primeiro (e único) arco aborda um dos serviços de Jones: Ele é contratado por um coronel para investigar quem teria roubado de sua coleção particular um item de valor inestimável, o Santo Graal da sacanagem cinematográfica: Os filmes pornográficos caseiros de... Adolf Hitler!

"Isso é L. A., querido. É com os de aparência normal que a você precisa ficar esperto."


Admito que também não acho a trama lá muito original, já que ela segue a manjada cartilha noir do investigador durão, com mulheres fatais, o McGuffin cobiçado por todos, reviravoltas inesperadas e etc, mas o que faz de Desolation Jones genial é a criatividade de Ellis, que sempre tende ao bizarro, para enriquecer essa trama, acrescido à doses brutais de realismo, violência explícita e temas contemporâneos: Jones investiga o submundo pornográfico de Los Angeles em busca do tal filme pornô roubado, e por conta disso há uma cena interessantíssima com uma atriz pornô explicando para Jones um lado de sua profissão que poucos conhecem, os bastidores da indústria, e que poderia ter sido extraído de uma entrevista, de tão cru que é o diálogo. 



Outro ponto que não poderia deixar de mencionar fica por conta dos ex operativos exilados em Los Angeles: Eles não possuem poderes úteis e impressionantemente glamourosos como vemos em X-Men, por exemplo. São todos vítimas de experimentos que deram terrivelmente errado, e que não passam de uma grande inconveniência para seus portadores. Alguns variam do extremamente bizarro ao pateticamente inútil, como por exemplo Jeronimus Corneliszoon, empresário de Jones, que deveria ser o soldado perfeito, com necessidade de se alimentar apenas quatro vezes ao ano. Seu estômago, modificado pela CIA, o obriga a consumir vastas quantidades de proteína, e por isso ele é o único operativo autorizado a sair de L.A. para comer vacas. Inteiras e em pleno campo aberto, ajudando assim a perpetuar as bizarras lendas de mutilação de gado América afora. Também há Emily Crowe, que como resultado de um experimento da CIA para criar a armadilha sexual definitiva, emite o tempo inteiro feromônios que provocam repulsa e medo irracional em todos à sua volta, com exceção de Jones, que não é afetado, provavelmente por causa do Teste Desolação. O cárcere de Emily é bem menor que o dos outros agentes, já que ela mal sai de sua casa. Uma personagem que desperta consternação no leitor.




O próprio Jones é um amontoado de problemas: O experimento fez com que ele tivesse uma compleição frágil, cheio de cicatrizes, pele cinzenta e cabelos brancos. Jones evita luz solar e sofre de dores crônicas e impotência sexual. Ainda assim, é bastante perigoso, com reflexos acima do normal e seu treinamento do MI6. Psicologicamente, ele é incapaz de sentir medo ou remorso, e se necessário, recorre ao homicídio sem maiores problemas, às vezes de mãos nuas. Além disso, Jones sofre de alucinações, vendo anjos seminus ou ensanguentados pairando sobre a cidade. "Soldadinhos quebrados", como Corneliszoon se refere à sua comunidade em um determinado momento. Esses agentes descartados são uma pequena faceta do abuso de poder e os absurdos a que a corrida armamentista pode chegar. Por conta de sua condição, Jones acha que mais nada pode feri-lo, e descobre da pior maneira que ainda pode se machucar um pouco mais.




"Ganhar uma luta não se trata de ser o mais forte ou o boxeador mais esperto, se trata de ser o mais disposto a foder permanentemente com o outro cara." Amém, brother...



Desolation Jones durou oito edições, sendo que as primeiras seis compõem o arco Made In England, com arte de J. H. Williams III e Jose Villarrubia e o arco seguinte, To Be In England, do qual só saíram as duas primeiras edições, com arte de Danijel Zezelj. O motivo disso foi a perda dos roteiros originais: O computador de Ellis deu pau e ele perdeu vários roteiros sem backup, incluindo Desolation Jones e alguns outros trabalhos. Depois disso, o desânimo foi tão grande que ele nem tentou reescrever. A série foi descontinuada na oitava edição. O encadernado lançado pela DC não inclui as edições #7 e #8, as duas primeiras do arco incompleto, apenas as seis edições do arco Made In England.




A arte de J. H. Williams III (Promethea, Batwoman, Sandman: Prelúdio) é um show à parte. Seus layouts de páginas são alucinantes e sobrenaturalmente criativos, tornando a tarefa de virar cada página um esforço. O colorista é Jose Villarrubia, colaborador de longa data de Williams, e em perfeita sintonia com o traço do desenhista. Ellis foi presenteado por ter esses dois frente à arte de Desolation Jones. O título chegou a ser indicado a seis prêmios Eisner (Melhor nova série, melhor arco de história, melhor escritor, melhor desenhista, melhor colorista e melhor letreirização). Apenas Villarrubia ganhou o Eisner de melhor colorista, mas Desolation Jones merecia bem mais...

Lembra daquela página fodástica de Promethea? Coisa do Williams...


Uma mescla entre romances detetivescos do Mike Hammer de Mickey Spillane e do Sam Spade de Dashiell Hammett, somado ao clima weirdo da Los Angeles de Vício Inerente de Thomas Pynchon e ainda uma pegada de jornalismo gonzo, que também é a cara de Los Angeles. Adicione a isso pornografia (L.A. é a capital do pornô mundial!) e drogas (segundo Marilyn Manson, L.A. é a capital mundial das drogas) e, lógico, toda a inventividade, insanidade e violência que um Warren Ellis extremamente inspirado pode entregar, e dá pra ter uma boa idéia do que esperar de Desolation Jones. Não podemos esquecer de mencionar a parceria com Williams, os dois afinadíssimos para fazer essa Los Angeles tão bizarra ser tão crível. Ellis é um cara que escreve a história das HQs agora, nesse exato momento, enquanto eu escrevo esse texto e enquanto vocês o lêem. Então, não esperem pelo cinquentenário da morte dele para atestar sua genialidade. Vá atrás de uma boa história do Ellis AGORA! Acredite, até os gibis incompletos desse cara valem muito a leitura...

"Essa cidade encontra uma nova maneira de partir meu coração todo fuckin' dia..."

domingo, 21 de janeiro de 2018

NOITE DE TREVAS - UMA HISTÓRIA REAL DO BATMAN, de Paul Dini + Eduardo Risso, ou "Eu TAMBÉM tenho uma história real com o Batman!!!"





Por EDUARDO CRUZ



Se preparem, porque por incrível que pareça essa HQ me obrigou a botar pra fora. A alma, eu quis dizer! Noite de Trevas - Uma História Real do Batman é um relato autobiográfico do roteirista Paul Dini, mais conhecido pela já clássica série animada do Batman, o desenho animado Tiny Toons e aquela série de graphic novels dos principais heróis da DC ilustradas por Alex Ross e compiladas aqui no encadernado Os Maiores Super Heróis do Mundo pela Panini. A sinopse de Noite de Trevas é a seguinte:
Nos anos 1990, o roteirista Paul Dini tinha uma carreira em ascensão escrevendo para os desenhos incrivelmente populares BATMAN: A SÉRIE ANIMADA e TINY TOONS. Era uma fase áurea para roteiristas de televisão, e Dini e seus amigos autores estavam na vanguarda dos holofotes de Hollywood. Em uma noite, tudo mudaria.
Caminhando para casa num fim de noite, Dini foi cercado e cruelmente espancado. Com vários ossos quebrados e o rosto destruído, Dini passou por um processo árduo de recuperação, dificultado pelas excentricidades dos vilões imaginários sobre os quais escrevia para a televisão, incluindo o Coringa, Arlequina e o Pinguim. Mas apesar de ser uma situação desoladora, ou talvez por causa disso, Dini também imaginava sempre o Batman ao seu lado, constantemente incentivando-o durante os seus momentos mais sombrios.
Embora a maioria das pessoas conheça o Cavaleiro das Trevas como o ícone perseverante de justiça e autoridade, nesta história surpreendente, vemos o Batman sob um novo olhar. Não mais como o vingador noturno, mas como o salvador que ajudou um homem abatido a se recuperar mentalmente de um ataque brutal que o deixou incapaz de enfrentar o mundo.
NOITE DE TREVAS: UMA HISTÓRIA REAL DO BATMAN é o conto autobiográfico angustiante e eloquente da luta corajosa de Dini para superar uma situação realmente desesperadora. É uma história do Batman diferente de todas as outras, e uma que irá ressoar de verdade entre os fãs, com a arte do incrível e talentoso Eduardo Risso (100 Balas, Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior).



Assim como Dini, eu também tenho uma história pessoal com o Bátemã. Tão pessoal que ao ler a sinopse dessa HQ e constatar o que é a tal história real de Batman, não pude evitar um arrepio e um pouco de sudorese ocular, por essa história do Dini ser tão similar à minha própria experiência pessoal em muitos aspectos, tornando o Noite de Trevas talvez o produto de cultura pop com o qual eu mais tive identificação em toda a minha vida até hoje. Então senta que lá vem história:
Como todo mundo da minha geração que aprendeu a gostar da Morcega, tive os filmes do Tim Burton como referencial de Batman, e foram tão marcantes que ficaram associados nas minhas memórias de infância ao período de festas de fim de ano, e até hoje quando jogo Arkham Asylum, Arkham City, etc, bate aquela sensação de "Natal de 90/91". "I'M BATMAN!" era o mantra da molecada da época e essa predileção pelo personagem é uma coisa que eu já carrego na pele. Uma semi obsessão saudável, ou pelo menos é no que quero acreditar rs...


Agora avancemos uma década e meia. Em 2014 eu praticava Krav Maga, e tudo ia muito bem até que numa bela noite de treinamento fiz um movimento banal de forma errada e estilhacei minha clavícula. Vejam bem, não fraturei, fissurei ou quebrei em duas partes. 

ESFACELEI. MINHA. CLAVÍCULA. 

Beirando uma fratura exposta. Só isso. Depois disso passei a dizer "Se sou capaz de fazer isso comigo mesmo, imagine o que posso fazer com você...". Claro que falo isso com aquela voz de Batman rs.
Estando nessa situação delicadíssima, a partir daí foram 13 meses de licenças médicas, duas cirurgias (na primeira tive uma breve parada cardíaca, mas não, não cheguei a ver nenhum túnel de luz, nem gente morta, nem meu corpo na mesa de cirurgia. Não, peraí! Nessa última estou mentindo: meu tio era amigo do médico que me operou e teve acesso ao centro cirúrgico, onde morbidamente filmou alguns momentos da cirurgia para a família assistir depois de um almoço de domingo. Eu sei... WTF, né? Vocês não imaginam o som de uma broca furando um osso, e nem vão querer saber como é. Eu mesmo queria poder apagar aquele barulho meio molhado e quebradiço da memória rs...), um enxerto ósseo feito de forma errada, o que acarretou uma segunda cirurgia que seria desnecessária se não fosse por esse erro, o pós operatório sempre doloroso, típico de cirurgias ósseas, e meses de fisioterapia. Em momento nenhum em meio a tudo isso, senti (muito) medo, desanimei, ou entrei em depressão. 

"Ai, isso deve doer!" E sim, doeu mesmo. Mas você nunca vai encontrar uma certidão de óbito com "Dor" como causa da morte...
O que aconteceu, por conta do acidente, somado ao meu background cultural de leitor voraz de gibis, foi uma transição da minha visão do Batman: de vigilante mascarado e personificação catártica do homem comum que batalha por um pouco de justiça em meio a uma sociedade cada vez mais caótica e violenta, a essência do Batman em minha visão pessoal se transfigurou em outra faceta, a do humano comum que ignora e supera suas limitações porque, bom, simplesmente porque a alternativa é se entregar e morrer. Em resumo, e para ficar um pouquinho mais polêmico: Tanto eu quanto Paul Dini passamos por um momento de dificuldade e sofrimento extremos em nossas vidas e buscamos forças em um conceito que apesar de imaginário, é poderoso o suficiente para surtir resultado. As pessoas fazem isso todos os dias no mundo todo. Algumas buscam Deus nesse momento de perrengue. Nós buscamos o Batman. E fomos tocados pela Sua graça. Mas não tinha pomba branca, e sim um grande morcego negro rs. Vejam bem, não se trata de acreditar na possibilidade de o Batman ser real, e sim visualizar o arquétipo que ele representa e as características desse arquétipo adequadas àquele momento em questão, e dali extrair a força necessária para alcançar a tal da superação. Alguns chamam isso de fé, eu acho. E foi assim que virei devoto de Nossa Senhora de Bátimã.



E aqui termina o meu testemunho. Bizarro, não? Mas gosto de pensar que o Grant Morrison entenderia heheheh...



Voltando à HQ, onde o próprio Dini apresenta sua história aos leitores prendendo ilustração por ilustração em um grande quadro, como se construísse um storyboard de sua vida, viajamos por flashbacks, desde sua infância como uma criança "invisível" para os coleguinhas de escola, e por isso muito voltado para a própria imaginação, sempre em devaneios - uma característica que ele carregaria por toda a sua vida - passando por sua juventude, sua vida pessoal, até a época em que começou a trabalhar no estúdio de animações da Warner, onde emplaca junto com toda a equipe de que fazia parte, as animações de sucesso já citadas lá em cima. E é por volta dessa época que a agressão acontece, enquanto andava em uma rua próxima de sua casa à noite. 







A partir daí, presenciamos Dini catando os cacos, literal e figurativamente, de sua própria vida (e de seu rosto, ugh...), e onde vemos todo esse povo imaginário de Gotham interagindo subjetivamente com Dini em momentos muito delicados de sua vida real, cada personagem representando uma faceta da consciência do próprio Dini perante toda essa situação, como procrastinação e indolência (Coringa), autodepreciação (Duas Caras), medo (Espantalho), inclinação para recorrer à saída fácil do álcool (Pinguim) e claro, o Batman sempre dando aquela força, mesmo que de um jeito ríspido. O Morcego, durante todo esse difícil período, era aquela parte da mente de Dini  responsável por gritar "FORÇA! VAMOS SAIR DESSA FOSSA E TOCAR A VIDA!". 















Funcionou. Dini eventualmente voltou pro eixo, retomou sua vida pessoal, casou-se e continua trampando como roteirista de filmes para TV, jogos e animações até os dias atuais. 



A HQ é extremamente agradável de ler. Certamente deixará os fãs do Batman satisfeitos com seu desenvolvimento, mesmo não sendo uma história habitual do Homem Morcego. Os entusiastas de histórias padrão Vertigo, com teor mais adulto, também não têm do que reclamar, com as situações e o enredo entregues aqui. Dini mostra, mais uma vez, que é um mestre da narrativa e nos enreda forte desde as primeiras páginas. As suas 120 e poucas páginas se esvaem em uma hora, isso lendo sem pressa e parando pra admirar o trabalho do artista argentino Eduardo "100 Balas" Risso, que não mostra grandes surpresas aqui, conduzindo a arte com a competência de sempre, que nos deixou mal acostumados esses anos todos. Entretanto, fica difícil recomendar positivamente essa HQ, de uma leitura fluida e redonda, muito bem casada com a arte, por conta de um fator: o preço. Que o material em si é ótimo, não há dúvidas! O problema aqui é o preço. Desde o final do ano passado, a Panini tem reajustado os preços de suas publicações de luxo de forma drástica, o que tem desagradado muito os consumidores. O que se vê nas redes sociais é cada vez mais um coro gritando por boicotes à editora, muito compreensivelmente. 130 páginas por R$72,00 (preço de capa, sem descontos!), sendo que encontramos muitos encadernados similares em bancas de jornais, com o mesmo número de páginas e o mesmo acabamento em capa dura por cerca de R$30,00!! (Preço de capa!). Cumassim? Panini, explica essa matemática pra gente, que nós não entendemos! Eu também estava boicotando, mas consegui um exemplar por outros meios. Caso contrário, vocês não leriam esse texto nem tão cedo rs.





Ah, um destaque especial para as aparições de Sandman e sua irmã Morte, num flashback de uma conversa de com o produtor Alan Burnett, onde Dini tenta emplacar um roteiro com estes dois personagens em um episódio na série animada do Batman, mas que acabou sendo vetado por Burnett. Além de mostrar com inteligência e sagacidade a essência do Batman, Dini brincou com os brinquedos de Neil Gaiman e não fez feio. Muito pelo contrário: o que Dini apresenta em três páginas encaixaria o Batman com perfeição no universo de Sandman!!! Este conceito que Dini desenvolve para o roteiro, nunca utilizado, associando Batman com o universo onírico... Como o Gaiman não pensou nisso antes, em 75 edições de Sandman????



Hoje, surpreendentemente, fora uma dorzinha chata de vez em quando, o que é normal para quem passou por um procedimento cirúrgico dessa magnitude DUAS vezes, não tenho nenhuma sequela que comprometa minha força ou meus movimentos nesse braço. Faço tudo que fazia antes do acidente. Busquei a MINHA força interior e achei o suficiente para me arrastar pra fora do buraco novamente. Só quem passou por um momento de fragilidade extrema para em seguida se reerguer sabe a sensação de empoderamento e autoconfiança que vem ao fim de uma jornada tortuosa assim. Acima de tudo, Noite de Trevas é recomendadíssimo pra quem está passando por uma barra difícil, como um tratamento, uma cirurgia, um processo de reabilitação ou qualquer outro perrengue pessoal. O Batman, o Grilo Falante, o Coelhinho da Páscoa ou o que for pode até estar ali sussurrando no seu ouvido, mas no final das contas, o triunfo é seu. Foi VOCÊ quem venceu a batalha. Com uma ajudinha do Cavaleiro das Trevas? Você decide. Eu e Paul Dini garantimos que, real ou não, ele vai estar lá por você. É só querer.




E essa sequência de 5 quadros aí em cima resume bem meu 2014...


PALAVRA DA SALVAÇÃO!


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

MULTIVERSO, de Grant Morrison + vários artistas, ou "Um passeio clandestino a bordo da Ultima Tul!"



Por EDUARDO CRUZ




Quem me conhece um pouquinho sabe que dos quadrinhos mainstream, o que eu mais curto são as histórias de realidades alternativas. Seja Marvel ou DC, desde moleque sempre fui fissurado nas histórias que recontavam continuidades e reimaginavam o status quo de personagens familiares a nossa vida inteira, mas de formas radicalmente diferentes. Fosse o "O que aconteceria se...", da Marvel, o "Túnel do tempo" na DC, ou até mesmo a horrorosa iniciativa conjunta "Amálgama", eu não perdia um, independente da qualidade das histórias, que sempre flutuou bastante. Sei lá, essa coisa de mesmo personagem, background diferente sempre foi uma das coisas que eu considerei - e ainda considero, se bem executado - um dos melhores exercícios de
Batman + Wolverine + Anos 90 = Garra Sombria
imaginação nos quadrinhos. Por isso, quando Grant Morrison anunciou The Multiversity há uns anos atrás, por volta de 2010, e não se tocou mais no assunto por um bom tempo, os leitores se conformaram em tratar a HQ como uma lenda. Ou melhor, como se fosse um dos muitos projetos do Guillermo Del Toro que nunca chegam a sair do papel. Mas por fim The Mutiversity acabou saindo em 2014 e concluído em 2015.

















"'The Multiversity'  tem sido um trabalho de amor por quase oito anos de produção, e traz consigo um irrefreável supergrupo de artistas – Reis, Sprouse, Oliver, Quitely, Stewart e outros – com um elenco de personagens inesquecíveis das 52 terras alternativas do Multiverso conhecido da DC!
Prepare-se para conhecer a Liga Da Justiça Vampira da Terra-43, os Cavaleiros da Justiça da Terra-18, Superdemônio, Doc Destino, os super-filhos de Superman e Batman, os furiosos Retaliadores da Terra-8, os Cavaleiros Atômicos da Justiça, Dino-Cop, Irmã Milagre, Lady Quark, a legião de Silvanas, os Novos Nazistas Reichsmen da Terra-10 e o mais recente, o maior super-herói da Terra Primordial – VOCÊ!
Composta por sete aventuras completas – cada uma em um universo paralelo diferente – uma história em duas partes, e um guia compreensível para os muitos mundos do Multiverso, ‘The Multiversity’ é mais do que apenas uma série em quadrinhos em várias partes, é a expansão de um cosmos, uma experiência de abalar a alma que coloca você na linha de frente da batalha por toda a Criação, contra os destruidores demoníacos conhecidos como A Aristocracia!
Mas cuidado! Poder tem um preço, e no coração deste conto épico aguarda o amaldiçoado e maligno gibi chamado ‘Ultra Comics’…
Quão segura é a SUA cabeça?
Junte-se a nós, se for ousado, por ‘The Multiversity’ 

Grant Morrison
 
Tenho que confessar pra vocês que apesar de ter lido as scans cópias digitais desse ótimo trabalho do escocês pirado na época em que as edições saíram, eu queria mesmo era manusear uma edição que coletasse toda a mini série Multiverso. Pegar nas mãos, ler na sequência, de trás pra frente, pular duas edições para trás ou pra frente para conferir os detalhes e 'coincidências', decifrar símbolos ocultos e pistas escondidas à plena vista... enfim, ler esse gibi do jeito que ele foi concebido pra ser lido! Então, SIM, posso dizer, na minha opinião, que foi a HQ mas esperada para se ter um exemplar físico em mãos nos últimos dois anos. E pelo menos a mim não decepcionou! Não me sinto tão ansioso e animado assim para ter uma HQ em mãos desde O Dossiê Negro da Liga Extraordinária, uma bela HQ escrita pelo melhor amigo de Morrison, um tal de Alan Moore...



Mas por se tratar de uma HQ do Morrison, certamente tem um monte de leitores loucos para ler isso, mas ao mesmo tempo morrendo de medo de entender bulhufas. O que é natural, visto a fama de Grant Morrison como contador de histórias. Sim, não vou mentir, ele é um tanto quanto... complicado. Ele utiliza recursos narrativos que a maioria dos roteiristas não costuma utilizar e eleva seus roteiros a um grau de complexidade e detalhismo maníacos, e em Multiverso ele se superou! Sim, a HQ exige que se conheça alguma coisa da cronologia da DC, exige que se leiam alguns trabalhos anteriores de Morrison e principalmente, exige muita atenção aos detalhes espalhados ao longo das nove edições que compõem a mini série. O que pretendo fazer aqui nesse post é só pegar você, leitor, pela mão e guiar pelo Multiverso, mostrar que apesar de complexa, é uma excelente história, e até mesmo os haters do Morrison precisam admitir, foi feita com muito esmero e dedicação, do jeito que só um verdadeiro fã da DC poderia montar! Em linhas gerais, e sem spoilers, claro, vou mostrar o quão fortemente esta história amarra a atual cronologia multiversal da DC Comics. 

 


 


Para aqueles que são famintos por cada referência em cada balão, recordatório e quadrinho, recomendo muito o trabalho que o site Terra Zero desenvolveu em cima da mini série, um estudo profundo página a página, esmiuçando o máximo de observações e referências da mini série. Além desse e desse artigos, a equipe do site gravou vários podcasts enfocando as edições de Multiverso, totalizando várias horas de informações utilíssimas e pontuais que fazem sua releitura ser ainda mais gratificante. Mas se vocês não tiverem paciência pra desbravar tão a fundo assim o multiverso por agora, continuem comigo aqui. Se você só quer mesmo um empurrãozinho pra tirar as dúvidas sobre quanto ter ou não esse encadernado, cola aqui comigo, e em linhas gerais vamos ver do que se trata?






Leitura prévia recomendada:


O RUN DE MORRISON EM HOMEM ANIMAL

A Panini publicou na íntegra um dos primeiros trabalhos de Morrison na DC, e na proposta do título Morrison já começa a desgastar a grande muralha do pós-crise, sinalizando ainda existir dimensões fora do continuum regular da DC, como o limbo, onde personagens esquecidos ou apagados da cronologia ainda existiam. Basicamente, é o aquecimento, a obra que determinou o tom de Grant Morrison em todos os seus anos na DC. Tão seminal quanto o Monstro do Pântano de Alan Moore.


CRISE FINAL

Particularmente, acho uma história mediana, e isso se deve em grande parte aos desencontros editoriais dentro da própria DC, que fez com que o destino de Batman no fim da mini série fosse confuso, e até mesmo divergisse de outras publicações que saíram na época. Quase como erros de continuidade, mas em uma HQ rs. Mas o importante a ser observado aqui é o monitor Nix Uotan, que desempenha um papel fundamental em Multiverso, e a primeira aparição do Capitão Átomo da Terra 4, que ressurge em Multiverso no capítulo Pax Americana.


SUPERMAN - À PROVA DE BALAS
Esse encadernado da Panini reúne as edições #0 a #18 de Action Comics da fase Novos 52, que recontava a origem de Clark Kent/Superman. Mas esse NÃO É o Superman que interessa, e sequer aparece em Multiverso! Em Action Comics #9, Morrison interrompe o arco de Clark Kent e nos apresenta uma Terra paralela na história 'A Maldição do Superman'. Ali conhecemos Calvin Ellis, presidente dos EUA daquela Terra, e sua identidade secreta.... Superman!!! Note que em Multiverso, o arquétipo do Superman sempre vai estar presente nas histórias, e cada Terra paralela tem o seu, mesmo que não dê pra identificar de forma tão óbvia (Minha dica é: olhem para a essência do personagem, e não para o "S" no peito!), mas o Superman que vale na mini série toda é o presidente Ellis, uma dupla homenagem ao ex presidente Barack Obama e ao roteirista Warren Ellis, amigo de Morrison, e que ajudou a criar e consolidar alguns conceitos hoje largamente usados na cronologia da DC, como a Sangria, o espaço interdimensional que permeia o multiverso.
Calvin Ellis, o Superhomão da porra que vale em The Multiversity
Ah, também é nessa edição de Action Comics que vemos pela primeira vez um Cubo de Transmatéria, um dispositivo de viagem interdimensional que desempenha um papel fundamental em Multiverso!



Essa edição de Multiverso encadernada pela Panini Books se divide em:



MULTIVERSO #1


A primeira edição de Multiverso nos introduz à trama principal, além de apresentar os antagonistas e os heróis de várias Terras que irão se unir para descobrir a extensão da ameaça e combatê-la, formando uma espécie de Liga da Justiça Multiversal, que possui entre seus membros Calvin Ellis, o Superman da Terra 23, o Trovejante, um aborígene que faz as vezes de Thor em seu universo original, e o Capitão Cenoura, uma versão cartoon do Superman. Destaque para as Terras 7 e 8, que são versões dos universos Marvel, tanto o regular quanto a Ultimate. E sim, é claro que Morrison aproveitou pra devastar essas Terras, talvez como vingança pela sua amarga estada como empregado da Marvel Comics heheheheh...





SOCIEDADE DOS SUPER-HERÓIS: CONQUISTADORES DO CONTRAMUNDO


Essa edição se passa na Terra 20, um mundo de heróis com uma pegada de história pulp muito marcante, vide as versões do Senhor Destino, Sinestro e Parallax, entre outros, que figuram nesta edição. Aqui vemos a Sociedade dos Super-Heróis, uma espécie de versão  pulp da Sociedade da Justiça da América, às voltas com sua contraparte maligna da Terra 40. A impressão é de se estar lendo uma aventura do Indiana Jones, mas na DC Comics. Uma homenagem ao período das revistas pulp tão bacana quanto o que Ellis fez em Planetary, com seu Doc Brass e companhia. Os artistas dessa edição são a dupla Chris Sprouse/Karl Story, que também foram responsáveis pela arte da série Tom Strong, um gibi de Alan Moore que homenageava... as HQS PULP!!! Assim fica difícil te defender, ô Morrison rsrsrsrs... 
Paralelo a isso, percebemos a Aristocracia se infiltrando nesse mundo, através das revistas "amaldiçoadas". E em quantos outros mais?

Pura mágica... veja as estrelinhas!




OS JUSTOS 


Essa história aparentemente não tem relação alguma com a trama principal, mas aqui também nota-se infecção multiversal da Aristocracia, logo abaixo da superfície da história principal, causando confusão e desorientação entre alguns personagens ao longo da trama. Nessa Terra alternativa, a Terra 16, os filhos dos maiores super heróis do mundo são uma geração mimada, egocêntrica e frívola, que sequer podem ser considerados heróis, já que o legado do falecido Superman, um exército de robôs, resolve toda e qualquer crise, fazendo qualquer ameaça e mega evento parecerem tão perigosos quanto uma breve chuva passageira. Em meio a isso também temos um triângulo envolvendo os filhos do Batman, Superman e Lex Luthor dessa Terra. E note as HQs da Aristocracia se infiltrando nesta realidade também... Os Justos é uma crítica de Morrison à geração dos Millennials, jovens superprotegidos a vida inteira que entram na vida adulta despreparados para lidar para praticamente tudo à sua volta.





PAX AMERICANA: NO QUAL QUEIMAMOS


E aqui está a grande polêmica de Multiversity! ou pelo menos, uma delas heheheh. O momento da vingança de Morrison, o prato que ele saboreou frio, colherada a colherada, ou melhor, página a página! Passada na Terra 4, a trama de Pax Americana, sem mais delongas, nada mais é do que a versão de Watchmen, obra de Alan Moore (a obsessão suprema de Morrison), numa releitura feita por Morrison e ilustrada por Frank Quitely, utilizando os personagens da Charlton, como não foi possível para Moore em 1986, por questões legais. Aqui, em uma legítima situação de "faz-melhor-então", Morrison "melhora" a trama, deslocando o contexto de Guerra Fria para o contexto atual de terrorismo internacional e conspirações governamentais, com direito ao assassinato de ninguém menos que o presidente dos EUA.
A trama, fora uma cena onde o Capitão Átomo segura uma Ultra Comics #1 na mão, mostra pouca ligação com o arco principal - a invasão da Aristocracia - o que só reforça a impressão de que Morrison já tinha esse roteiro pronto há bastante tempo, tendo feito algumas poucas modificações para que Pax Americana se adequasse e se interligasse ao restante da mini série. 

Página de Pax Americana.

Página de Promethea, de Alan Moore.
A alfinetada em Moore se torna completa na composição das páginas em relação a Watchmen: Enquanto em Watchmen a maioria das páginas é organizada em uma grade de nove painéis, Morrison optou por organizar Pax Americana em grades de oito painéis. Como explica o artista Frank Quitely: "Música, e vibração.... vibrações musicais, as oitavas, a repetição do número oito ao longo da história, e padrões de criação que conduzem os olhos do leitor pela página em uma direção específica.".

Página de Pax Americana

Página de Pax Americana

Página de Promethea, de Alan Moore




NOVAS AVENTURAS NO MUNDO DO TROVÃO


Esta história se passa na Terra 5, e envolve os integrantes da família Shazam, e tem um clima mais, digamos, puro, mas sem ser piegas ou datado. Nessa realidade, um exemplar de Sociedade dos Super-Heróis cai nas mãos do Dr. Silvana, o que o inspira a entrar em contato com suas traiçoeiras contrapartes ao longo do Multiverso, recrutando um exército de Doutores Silvana. Juntos, arquitetam um plano que culmina no aprisionamento do Mago Shazam, na Pedra da Eternidade, e o roubo de seus poderes. Cabe à Família Marvel Resgatar O Mago Shazam e Fawcett City.
Uma história bem mais leve que as outras edições da mini série, com um clima super heróico, nostálgico e otimista, que conta com a arte do competentíssimo Cameron Stewart (Seaguy, Clube da Luta 2), essa edição coloca os mortais mais poderosos do universo DC no olho do furacão, lá no clímax, em Multiverso #2. Mas estou me adiantando...






LIVRO-GUIA


Em mais um show de metalinguagem, Morrison nos premia com uma história-dentro-da-história: Na Terra 51 vemos Kamandi, Tuftan e Ben Boxer investigando uma misteriosa tumba, e dentro dela, encontram o tal guia do Multiverso. Enquanto isso, na Terra 42, a legião dos Silvanas ataca a Liga da Justiça desta Terra, só restando o Batman deste mundo e uma outra versão, da Terra 17. Enquanto ambos tentam ativar um cubo de transmatéria para pular para outra Terra e escapar do exército de robôs-Silvana, eles encontram o guia do Multiverso, que contém, além do mapa do Multiverso e um guia com todas as 52 Terras, uma história onde vemos... Kamandi, Tuftan e Ben Boxer investigando uma misteriosa tumba!!!
Entendeu? Não? Bom, leia, mas coloque algodão no nariz pro seu cérebro não escorrer para fora rs. No momento em que os personagens que acompanhamos abrem o livro guia do Multiverso, nós acessamos exatamente o que eles estão lendo. Sim, o careca maluco nos transforma em voyeurs e lemos o guia por cima dos ombros de Kamandi e dos Batmen!

Página do Livro Guia de Multiverso

Página do Livro Guia de Multiverso

Página de A Liga Extraordinária: O Dossiê Negro, de Alan Moore

Página de A Liga Extraordinária: O Dossiê Negro, de Alan Moore




MASTERMEN


Seria essa edição mais uma vingança Morrisoniana? Essa história se passa na Terra 10, onde um certo foguete com um certo bebê Kriptoniano cai em um país ocupado pelos alemães, e acaba, naturalmente, sendo criado pelo próprio Hitler. Overman, como é conhecido nesta Terra, mantém a supremacia do regime ariano, mas tem uma pedra em seu sapato: o grupo de terroristas conhecidos como Tio Sam e os Combatentes da Liberdade
Outra edição que parece não ter relação nenhuma com o plot principal, e sim uma alfinetada no (ex) amigo de Morrison, Mark Millar, que escreveu a já clássica Superman - Entre a Foice e o Martelo, uma história de realidade alternativa onde o bebê Kal-El cai na Rússia comunista. Diz a lenda que apesar de ser assinada por Millar, quem propôs boa parte da história e desenvolveu o final foi Morrison, que não recebeu crédito algum. Só restou a ele se vingar, plagiando uma história roubada dele mesmo rs.





ULTRA COMICS



Olha, não sei se sou capaz de elaborar decentemente uma descrição dessa edição aqui, então fiquem com a minha conversa com o Ricardo assim que terminei a primeira leitura de Multiverso, ainda bastante impactado, como dá pra perceber:

E: Bicho, que viagem! Primeiro, não se pegam todos os detalhes em uma única leitura. Da segunda vez q vc lê percebe q certos balões de fala eram atribuídos a personagens q vc não notou da primeira vez!
Segundo: Toda Terra tem um Superman, mesmo que você não reconheça ele de cara, e é SEMPRE o conceito de Superman que ajuda as Terras doentes.
Terceiro: A tal Ultra Comics, o penúltimo gibi do encadernado, que viagem!!! o Morrison conseguiu algo inédito. Você REALMENTE faz parte da história! O Intellectron, da Aristocracia fala diretamente com você! O tempo todo você é avisado para não virar as páginas mas você já foi infectado, e esse gibi é uma ponte pra essas criaturas invadirem a NOSSA realidade! Um grau assustador de interação com o que deveria ser apenas um gibi!! Tudo gira em torno da Ultra Comics! O resto é o Morrison brincando de "Túnel do Tempo" e porradaria super heróica, além é claro, das alfinetadas no Moore kkkkkkkkk

R: Que maneiro! Só comprei o meu ontem!

E: Velho, eu até que entendi a proposta na primeira vez que li, mas só fiquei impactado na segunda leitura ontem! Pareceu uma droga! Realmente mexeu com minha cabeça hauahuahuahua. Metaficção. História dentro da história. E em fractais, do jeito q o Morrison gosta! Aí hoje de manhã o que eu fiz, além de terminar a Y volume 4? Li o tal do gibi amaldiçoado de novo! rs
Mané, depois que eu terminar esse post, vou ler alguma coisa leve, tipo Promethea. Huahuahuahuahauahuahua!!!

R: kkkkkk
R: Qual gibi amaldiçoado?

E: O Ultra Comics! A oitava edição da Multiverso!!

R: Ah sim...

E: Por deus, homem, você não prestou atenção em nada do que eu falei lá em cima???
ELES JÁ PEGARAM VOCÊ!!!
ESTÃO BATENDO NA PORTA!! NÃO DEIXE ELES ENTRAREM!!!

R: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!!!!!!!!!!!!





Nessa edição, ocorre "apenas" a batalha épica entre a Aristocracia e os super heróis combinados do Multiverso DC. Porradaria. Porradaria. Porradaria. E será que a Aristocracia é a única ameaça a ser combatida? Ou tem algo mais ameaçando o Multiverso? Só lendo pra descobrir...


Depois dessa sobrevoada, parece muito complicado e rocambolesco toda essa montanha russa através de 52 mundos paralelos e tal, mas Multiverso pode ser resumida a: A Aristocracia é uma raça de parasitas cósmicos (por isso aquela alusão aos cupins no começo e no final da história, supostamente ao acaso. Mas espere! Essa é uma HQ do Morrison, então nada é coincidência nessas 500 páginas hehehe) que invade o multiverso DC. Eles são oriundos de alguma parte fora do multiverso e foram atraídos por emanações de idéias negativas e sonhos arruinados. A Aristocracia deseja clamar a posse de todas as mentes do multiverso, o que os levará a controlar todos os pensamentos e histórias da existência. Controle absoluto. Para isso, eles usam a tal HQ amaldiçoada, Ultra Comics #1 como um vetor para infectar o Multiverso, e simultaneamente lançam um ataque ao Planetário dos Monitores. Por conta disso, vários heróis de universos diferentes são forçados a se unir para encarar esta ameaça multidimensional. E basicamente é isso. O resto são digressões Morrissonianas, toneladas de referências e aquela teoria bacana, já citada em sua autobiografia, Superdeuses, onde Morrison postula que as revistas em quadrinhos são vitrines onde vislumbramos outros universos, dimensões inferiores, tudo existe, e a ficção de um mundo é a realidade de outro.




E é só isso. Mas como toda boa viagem, o passeio é muito mais gratificante que o destino em si. E ao longo da nove edições teremos um tour pelo multiverso DC, recheado de simbologias, arquétipos (principalmente do Superman e Flash, mas não restrito apenas a eles), metalinguagem, metaficção, legado e muitos embates grandiosos, porque afinal de contas a gente compra gibizinho é pra ver a porrada comer solta hehehehe. 



Alguns diriam que Multiverso é mais uma declaração de amor de Morrison pela DC, além de uma sofisticadíssima crítica a todo o mercado de quadrinhos contemporâneo: lança farpas para a indústria, o corpo editorial, os leitores que querem só mais do mesmo, os fanboys babacas que odeiam tudo.... pouca coisa escapou da metralhadora de Morrison nesse trabalho, e está tudo lá, espalhado nas camadas, e quem tem olhos pra ver, verá! rs. Outros diriam que é um grande fan service, um Túnel do Tempo/Elseworlds de 500 páginas, sob o pretexto de Morrison poder produzir sua própria versão de Watchmen, marcando assim mais um ponto na eterna treta Moore/Morrison.





Acredito que o mais gratificante para o Morrison mesmo foi fazer seu remake de Watchmen, e me processem por isso, mas ele melhorou a proposta de Moore na parte da execução formal, além de REALMENTE integrar seu Watchmen ao multiverso da DC, o que Moore não pôde fazer na época, por uma questão legal.


Mas tenha você a bagagem necessária ou não para entender todas as referências, acho que dá pra gente concordar que é uma HQ bem acima da média, e a única coisa que chegou perto disso nas grandes editoras foram os Vingadores/Novos Vingadores do Jonathan Hickman nesses últimos tempos. Uma pena. Mas tenho certeza que em alguma outra Terra se produzem gibis assim todos os meses. Só espero conseguir vibrar na frequência certa para conseguir me transportar pra lá. Ou.... alguém me empresta uma esteira cósmica?