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domingo, 24 de junho de 2018

MESSIAS DE DUNA, de Frank Herbert, ou "A especiaria tem que fluir!"





Por EDUARDO CRUZ



“Fazendo uma estimativa conservadora, matei sessenta e um bilhões, esterilizei noventa planetas, desmoralizei completamente outros quinhentos. Eliminei os seguidores de quarenta religiões que existiam.”


Dando continuidade à grande Saga (com "S" maiúsculo mesmo!) de Duna, recebemos o exemplar do segundo volume, Messias de Duna, e como a especiaria precisa continuar fluindo, estamos de volta para continuar a análise dessa epopéia cósmico-feudal-messiânico-futurista aqui na Zona Negativa! Não temos o mau hábito de ficar jogando spoilers aqui, mas nesse caso é inevitável, já que Messias de Duna é continuação direta de Duna. Vamos tentar manter spoilers no mínimo aqui pra preservar todas as boas surpresas do livro. Então sigam em frente por sua conta e risco.


A história desse livro se passa cerca de doze anos após o final de Duna, volume anterior e primeiro de uma série de seis livros. Paul Atreides, ou Paul Muad'Dib, como foi nomeado pelos Fremen, agora é o Imperador do Universo, após um levante dado contra a hegemonia do Imperador anterior. Arrakis se torna a capital do Império e Paul sente, figurativamente, todo o peso da coroa, enfrentando politicagens, intrigas, subornos, chantagens, traições, e para piorar, sua habilidade de visualizar possíveis futuros o tempo todo sempre o levando ao limite da sanidade. Imagine cada ação que você desempenha, cada mínimo gesto, causando milhares de possíveis desdobramentos, e você ser capaz de ver cada possibilidade, uma a uma... É, não é mole ser o Muad'dib, mas alguém precisa fazê-lo. Para complicar ainda mais, vemos o retorno de um personagem dado como morto no volume anterior, alguém com quem Paul tinha um forte laço fraterno, porém agora retornando como um desconhecido, talvez até mesmo como inimigo...



"(...) O poder costuma isolar aqueles que o detêm em demasia. Por fim, acabam perdendo o contato com a realidade... e tombam."



Por ser a capital do Imperium, o povo de Arrakis, mais especificamente os Fremen, difundem suas crenças religiosas Universo afora, e claro, elas não são bem aceitas por todos. E falando em insatisfeitos, é lógico que existem os descontentes com essa mudança na balança de poder, cuja chave é o controle do Mélange, a substância mais valiosa do Universo. Conspiradores tramam a queda de Paul, e.... será que é por isso que ele anda tendo tantas visões de seus filhos sofrendo de mortes trágicas? para piorar, também surgem visões de um jihad cósmico, um verdadeiro banho de sangue ao redor do Universo, tudo em nome de Muad'Dib, contra aqueles que não aceitam o Imperador-deus de Arrakis. Paul Atreides é escravo da própria lenda que criou em torno de si mesmo, escravo de seu imenso poderio, atrelado ao volátil fervor messiânico. É claro que isso não vai acabar bem. Além disso, mais uma vez vemos o dilema determinismo x causalidade sendo magistralmente trabalhado por Herbert aqui. 


Messias de Duna pode não ter o escopo épico ou as cenas de ação e batalhas intensas do livro anterior, mas as tramas são tão cuidadosamente construídas aqui que a sensação que fica é de esse segundo volume ser uma espécie de prelúdio para o próximo volume da saga, dada a quantidade de situações orquestradas e pontas soltas deixadas aqui e que se encaminham para a sequência, e também por uma tensão crescente ao longo do livro, que prenuncia que algo catastrófico vai acontecer a qualquer momento. O primeiro livro foi ótimo por motivos diferentes, mas este não fica devendo em nada. Então, lá vamos nós FRENETICAMENTE direto para o próximo volume... Até a resenha de Filhos de Duna!




sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

CAMA DE GATO, de Kurt Vonnegut, ou "Sarcasmo em Doses Cavalares"





Por RICARDO CAVALCANTI



Kurt Vonnegut é o sarcasmo em pessoa. Suas obras estão sempre permeadas de críticas ácidas e engraçadas, que nos fazem se dar conta do absurdo em que vivemos. O autor escreveu obras como “Café da Manhã dos Campeões” (uma história em que aproveita para satirizar questões como guerra, sexo, racismo, sucesso, política, etc.), “Um Homem Sem Pátria” (reunindo várias crônicas do autor, sobre sua indignação com seus compatriotas norte americanos) e seu maior sucesso “Matadouro 5” (em que o personagem viaja no tempo em vários momentos de sua própria história e que chegou a ganhar uma adaptação para o cinema em 1972), que é um livro que aguardo o relançamento ansiosamente em uma versão que não seja aquela famigerada versão pocket. Cama de Gato, que estava fora de catálogo há alguns anos (como grande parte da obra do autor no Brasil), recebe agora uma nova edição pela editora Aleph.







Existem momentos marcantes na história da humanidade e que todos se lembram do que estavam fazendo e onde estavam nesse determinado dia. Todos os que viveram estes momentos, se lembram dos detalhes e das sensações vivenciadas. O 11 de setembro de 2001; a chegada do homem à Lua em 1969; a queda do Muro de Berlim em 1989; a Tragédia do Sarriá em 1982, ou a histórica goleada de 7 x 1 que fez até uma Presidente da República cair (Não! Agora me lembrei... Ela caiu num golpe, com o Supremo e tudo). 





Cama de Gato parte também de um dia marcante que mudou a história da humanidade e nos mergulhou por décadas no terror da guerra fria. No dia 6 de agosto de 1945, colocando em prática o seu Projeto Manhattan, os Estados Unidos nos mostraram como se matar (em apenas um dia) 160 mil civis inocentes de forma totalmente injustificada para forçar a rendição do Japão e ainda conseguir posar de mocinho na história (três dias depois foi lançada outra bomba, em Nagasaki, matando cerca de 80 mil pessoas... UM SUCESSO!!).


Parecem pessoas comuns, mas são terroristas assassinos.


Harry Truman. Um simpático senhor que ordenou a morte de 240 mil pessoas



No livro, acompanhamos Jonah (ou John), que quando mais jovem pensou em escrever um livro sobre o que os americanos ilustres estavam fazendo no fatídico dia do lançamento da primeira bomba no Japão, em Hiroshima. Essa busca inclui tentar conhecer quem eram os cientistas responsáveis pela construção da bomba atômica. Durante esse percurso, John vai esbarrando com personagens que acabam, de muitas formas, mudando completamente sua vida.



Suas buscas acabam levando-o a conhecer uma nova arma e o direciona a um país caribenho comandado por um ditador que declara a proibição de uma inusitada religião. John acaba se deparando com essa nova religião chamada Bokonismo, que apresenta logo na primeira frase de “Os Livros de Bokonon”: Todas as verdades que estou prestes a contar são mentiras descaradas.”




Sem contar que é uma religião que nos mostra a resposta definitiva para grandes questionamentos como: O que um homem sensato espera da humanidade na Terra, dada a experiência dos últimos milhões de anos?”. Para saber a resposta, só lendo o livro mesmo. Só posso adiantar que é de uma simplicidade e uma genialidade sem igual.



Conhecido por sempre usar o discurso antibélico em suas obras e aproveitando para satirizar o mundo ao nosso redor, Vonnegut conheceu a realidade (e a estupidez) da guerra enquanto serviu ao exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, chegando a ser feito prisioneiro pelo exército nazista. Essa experiência, certamente mudou (ou aguçou) sua visão sobre esse tipo de conflito. 


O jovem Vonnegut



E proponho a vocês, para prestarmos nossos sinceros respeitos às cem crianças perdidas de San Lourenzo, que passemos o dia desprezando justamente aquilo que as matou: a estupidez e a violência de toda humanidade.

Talvez, para manter viva a lembrança das guerras, devêssemos tirar nossas roupas, pintar o corpo de azul e grunhir como porcos, permanecendo assim durante os quatro dias. Certamente isso seria mais apropriado do que nobres discursos e exibições de bandeiras e armas polidas.”



Não se trata de um livro com uma simplória mensagem pacifista, mas sim uma criativa e forte crítica à política de guerra, causadora de tanta destruição, tanta morte, desgraça e que ainda é responsável por financiar políticos pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Ou você acha que quando algum deputado defende o porte de armas para os “cidadãos de bem se defenderem de vagabundos”, fazem isso de graça? Lamento lhe informar, mas a mão invisível que controla o fantoche é a da indústria de armas.




Esteja preparado para altas doses de sarcasmo e ironias acidamente corrosivas. Uma excelente sátira, engraçada e alarmista sobre absurdos que o homem pode desenvolver ao não se preocupar com as consequências de seus atos. Ou será que um cientista, por exemplo, pode fazer tudo em nome de um “progresso”? Tire suas próprias conclusões e aproveite essa ótima obra antiguerra. Se você achar que esse não é o tipo de argumento que você quer, certamente é a obra que você precisa.




terça-feira, 26 de dezembro de 2017

OS PRÓPRIOS DEUSES, de Isaac Asimov, ou "A humanidade estaria mais segura sem a presença do homem"


  Por RICARDO CAVALCANTI

 

A humanidade necessita de novas fontes de energia. Hoje dependemos muito do petróleo e seus derivados, que nada mais é que um recurso limitado de energia e que é consumida em escala cada vez maior. Responsável por guerras, golpes, assassinatos, disputas políticas e econômicas, o “ouro negro” é fonte de imensurável riqueza para um grupo muito restrito. A melhor solução é buscar outras fontes de energia, de preferência, renováveis. No último século, buscaram-se novas fontes de energia que pudessem ser usadas em grande escala. Energia eólica, solar, hidrelétrica e biomassa, por exemplo, não são capazes de substituir o petróleo. A energia nuclear poderia assumir esse papel, mas sabemos que costuma causar sérios problemas. Pegando como base a questão energética que é um tema tão preocupante para a humanidade, Isaac Asimov nos traz o que é considerado um dos clássicos do autor: Os Próprios Deuses. Lançado originalmente em 1972, foi o vencedor do prêmio Nebula daquele ano e do Hugo Award no ano seguinte. De toda obra do Bom Doutor, este é um dos livros em que o sexo está mais presente. 

 

 

Antes da edição lançada pela Aleph, Os Próprios Deuses já havia sido lançado por aqui anteriormente com o nome de “O Despertar dos Deuses”, e sai agora com o seu título traduzido literalmente (The Gods Themselves). Este título se origina de uma frase do alemão Friedrich Von Schiller “Contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” em sua obra A Donzela de Orleans, que trazia uma diferente versão para a vida e morte de Joana d’Arc (Donzela de Orleans, ou Virgem de Orleans também são formas de se referir à heroína e mártir francesa). A história é dividida em três partes e cada uma recebe como título, um fragmento da expressão de Von Schiller. 

 

 

Na primeira parte, chamada de “Contra a estupidez...”, conhecemos Frederick Hallan, um físico nada excepcional, que se depara com a transmutação da matéria se transformando em energia diante de seus olhos. Por estar no local certo na hora certa, não precisou fazer nada, a não ser pegar para si a descoberta, aproveitando para ganhar fama, poder e dinheiro com a chamada Bomba de Elétrons - uma fonte de energia limpa, com custo muito baixo e que poderia suprir as necessidades da terra por centenas de anos. Benjamin Allan Denison, que trabalhava no escritório em frente, sabia das limitações de Hallan como cientista, acompanhou de perto a ascensão daquele cientista medíocre ao status de grande nome de seu tempo e ganhador do Prêmio Nobel, simplesmente por estar no lugar certo na hora certa. Peter Lamont, um até então admirador do Pai da Bomba Eletrônica, tenta provar que tal bomba pode ser muito perigosa e acaba encontrando muita resistência por parte de quem poderia fazer algo, mesmo que essas pessoas não se simpatizassem com Hallan, por conta de sua postura de arrogância e prepotência. 

 

 

Na segunda parte, chamada de “...os próprios deuses...” entendemos o motivo de este livro ser tão admirado. Com a primeira parte bastante ágil, a segunda gera certo estranhamento inicial. Mas logo esse sentimento se dissipa, ao entendermos um pouco os para-seres daquela realidade paralela. Asimov nos apresenta e desenvolve seres que são, principalmente, conceitos. Os Racionais, os Parentais, os Emocionais e os Duros são alguns dos seres que fogem do senso comum em retratar outros serem com característica humanoide. São seres que não possuem forma definida; podem transpassar a matéria e se fundir a um outro ser, por exemplo. São estes para-Seres que desenvolvem a maneira de trocar energia entre os universos. Também naquele universo, encontram um cenário parecido com o da terra. Enquanto uns se beneficiam da troca de energia entre as duas realidades, um desses seres sente o perigo dessa troca aparentemente inofensiva de energia entre as terras paralelas. A forma com que é feita a comunicação entre as terras paralelas, é praticamente uma poesia com toques de fantasia e ficção científica. 

 

Na terceira parte, estamos de volta à nossa realidade, no capítulo que recebe o nome de “...lutam em vão?”. A Lua já estava sendo colonizada, tendo pessoas que já nasceram em solo lunar e que nunca chegaram a pisar na Terra. Os Terráqueos são considerados uma civilização ultrapassada e de serem dotados de inteligência inferior. Esta nova sociedade que se firmou desenvolvendo costumes próprios foi ficando cada vez mais distante culturalmente da Terra. Benjamin Alan Denison, que foi desprezado e humilhado por Hallan, encontra na Lua uma forma de encontrar isolamento e distanciamento de tudo que havia acontecido, buscando um novo começo e encarando como uma oportunidade de esquecer tudo. Logo que chega conhece Selene, uma espécie de “garçonete-sensual-inteligente-cientista” (que parece mais uma personagem criada pela mente fantasiosa de algum adolescente, ou uma espécie de fetiche para satisfazer os sonhos secretos do próprio autor). Paralelamente, grupos clandestinos conspiradores que buscam fomentar a independência da Lua em relação à Terra (em tempos de Catalunha querendo se separar da Espanha ou sul do Brasil querendo se separar do resto do país e raciocínios sendo desenvolvidos separando argumentos de lógica, conseguimos contextualizar bem a sociedade em solo lunar). 

 

 

São três historias que se passam em momentos distintos, que se ligam pela influência de Hallan e sua Bomba Eletrônica através do tempo (e mundos), repletas de ambição, vaidade, egoísmo, arrogância e ganância, ignorando os riscos em lidar com uma energia tão poderosa. 

 

 

Asimov tratou de alguns temas em seu livro Escolha a Catástrofe (que pode ser encontrado com facilidade em qualquer sebo virtual) e entre eles, fala um pouco sobre a energia atômica. Não se trata de uma ficção, mas sim de uma reflexão sobre as várias formas com que a humanidade pode se extinguir e mostrando que algumas delas podem ser causadas pelo próprio homem. No capítulo em que ele classifica como “Catástrofes do Quinto Grau”, menciona os riscos de uma energia atômica. Mesmo o homem sabendo de todo o risco e potencial destrutivo deste tipo de energia, isso não o impediu de desafiar os limites provocando acidentes com efeitos devastadores, como em Chernobyl, o vazamento na usina de Angra e mais recentemente, em Fukushima, no Japão. Com tantas situações semelhantes, continuamos com a pergunta: “contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” 

 

Chernobyl

 



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

PIQUENIQUE NA ESTRADA, de Arkádi Strugátski + Boris Strugátski, ou "A dura vida dos catadores de lixo alienígena! Como vivem? O que comem? como se reproduzem?"




Por EDUARDO CRUZ


"Um piquenique. Imagine uma estrada no interior, uma clareira na mata, perto da estrada. Abrem-se as portas, e sai uma turma de jovens. Começam a tirar do porta-malas cestas com mantimentos, armam as tendas, acendem a fogueira. Churrasco, música, fotos... De manhã eles vão embora. Animais, pássaros e insetos da floresta, que assistiram horrorizados àquele evento noturno, saem de seus esconderijos. E o que eles encontram? Manchas do óleo que pingou do radiador, uma lata com um pouco de gasolina, velas e filtros usados. Do lado, estão jogados os panos sujos de óleo, as lâmpadas queimadas, uma chave de fenda que alguém esqueceu na grama. Nos rastros deixados pelo carro sobrou um pouco de lama que veio grudada de algum brejo no caminho... E, claro, há cinzas de fogueira, restos de comida, embalagens de chocolate, latas e garrafas de bebida, guardanapos amassados, bitucas, um lenço perdido, um velho jornal rasgado, um canivete de bolso derrubado por alguém, moedas, flores murchas do campo vizinho..."




A maioria das pessoas no mundo tem uma certa curiosidade a respeito daquela grande pergunta: "Estamos sós no universo?". 

Eu, pessoalmente, acho que não, e citando Carl Sagan, seria um tremendo desperdício de espaço se apenas a humanidade fosse a única espécie "inteligente" em todo o Universo conhecido. O Universo certamente produziu muita coisa melhor do que nós, e a julgar pelo fato de sermos os únicos neste sistema solar e em vários outros próximos, acho que alguém nos colocou de castigo, sozinhos com nós mesmos até que paremos de ser uma espécie tão idiota e até que estejamos maduros o suficiente para brincar com as crianças maiores. Mas ei, isso é só a minha opinião, uma insignificante hélice de DNA que vive entre outras bilhões de hélices de DNA nessa pedra isolada na Via Láctea...

Enfim, dados os problemas inerentes da natureza humana, não seria de se surpreender que ninguém lá fora faça contato com a gente. Do ponto de vista cósmico, devemos ser uma piada. Ou no mínimo irrelevantes.

A literatura de ficção científica tentou por décadas responder - por meio de muita especulação - a esta pergunta, e são muitíssimas as concepções de contatos com outras civilizações alienígenas, que vão dos belicosos marcianos de H. G. Wells em A Guerra dos Mundos aos benevolentes seres de 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Arthur C. Clarke. Maniqueísmos à parte, a maioria do que foi pensado neste sentido tem como fundamento uma certa motivação relacionável com a psicologia humana, seja para o bem ou para o mal. Mas e se nossos irmãozinhos do espaço fossem absolutamente insondáveis para nossa forma de pensar?

Os irmãos Strugatski, o tesouro do Sci Fi russo!

Os irmãos Arkádi e Boris Strugátski são os autores de ficção científica mais populares da Rússia. Escreveram a maioria de seus trabalhos a quatro mãos e não eram muito bem vistos pelo camaradinhas do regime porque sua prosa resvalava na crítica social. Muitos de seus trabalhos sofreram pesadas censuras dos burocratas que vivem de canetadas, inclusive Piquenique na Estrada, que é o livro mais popular dos irmãos Strugátski. Seus primeiros trabalhos tiveram bastante influência de outro notório autor: Stanislaw Lem, autor de Polaris (que qualquer dia desses a gente resenha aqui ;>)), mas depois de um tempo encontraram a própria voz, um estilo único de contar histórias. 

Piquenique na Estrada aborda o tema das visitações alienígenas de uma forma única e primorosa. Existem certos locais no planeta que foram visitados por alienígenas. Ninguém os viu, ninguém chegou a saber o que eles queriam, se vão voltar... Mas depois da Visitação, como ficou conhecido o fenômeno, os locais onde ocorreram estes contatos ficaram... estranhos. Dentro de uma área delimitada, existem anomalias físicas bastante peculiares, algumas inofensivas, outras bastante perigosas: Nestas áreas afetadas pela Visitação, ocorrem fenômenos bizarros, como a refração da luz e a projeção de sombras não obedecerem às leis da física, pequenos pontos com gravidade tão intensa que podem esmagar qualquer coisa que entre no perímetro onde a anomalia ocorre, bem como áreas onde a temperatura é tão alta que pode carbonizar quem tenha o azar de entrar na área em questão, entre muitos outros perigos bizarros inexplicáveis. 

Com a Zona é assim: voltou com mercadoria, milagre; voltou vivo, sorte; foi ferido à bala pela patrulha, que bênção; e o resto é destino...

Logo, circular dentro da Zona é morte quase certa a cada passo dado. E quem iria querer se aventurar em um lugar assim? Isolem e evacuem a área e vida que segue, certo? 

Errado!

Além das anomalias físicas os estranhos visitantes deixaram para trás estranhos objetos, e alguns deles a humanidade não consegue nem começar a compreender para que servem ou como funcionam. Outros, mesmo sem se ter certeza de sua função original, propiciaram pequenos saltos tecnológicos à humanidade. Os governos dos países onde ocorreram as Visitações criaram institutos com o objetivo de estudar tais artefatos, mas como é da natureza humana, sempre tem alguém passando algo por debaixo dos panos. Por isso existem os Stalkers, indivíduos que arriscam a vida (e a própria capacidade de gerar descendentes saudáveis em alguns casos!) entrando ilegalmente dentro das Zonas para subtrair alguns desses objetos e vendê-los a quem pagar mais.
E, de repente, do nada, uma sensação de desespero tomou conta de seu interior. Nada adiantava. Tudo era em vão.  Meu Deus, pensou ele. Nós não vamos conseguir nada! Não vamos conseguir segurar, nem sequer parar essa onda! Não há força capaz de conter uma inundação, compreendeu, apavorado. E não porque trabalhamos mal ou porque o inimigo seja mais hábil ou mais esperto. Não. É porque o mundo é assim. O ser humano é assim! É da natureza humana. Se não fosse a Visitação, seria outra coisa qualquer. O porco sempre achará lama para chafurdar...

Apesar de isso ter ocorrido uma meia dúzia de vezes ao redor do planeta, o livro foca a Zona na cidade de Harmont, no Canadá, e em Redrick Schuhart, um desses Stalkers. Existem breves relatos de outras Zonas no livro, mas bem vagos, apenas o suficiente para saber que o clima de medo e incerteza é o mesmo, não importa onde seja a Zona. Os riscos também são os mesmos. E os Stalkers sempre tentam a sorte em troca de $$$. Falando em vago, os Strugátski cultivam uma prosa com o pé justamente nesta condição, o que deixa muitas perguntas a serem respondidas pelo próprio leitor, como o porquê das Visitações; os objetos foram abandonados ou deixados de propósito, como se estivéssemos sendo estudados? será o início de uma invasão? ou sequer fomos notados como "fauna local" nessa breve visita de habitantes de mundos distantes? Aliás, essa última pergunta faz até uma breve ponte com o Cosmicismo de H. P. Lovecraft, uma vez que o desprezo e irrelevância da humanidade neste universo de Piquenique na Estrada são bem semelhantes à humanidade retratada por Lovecraft...




E sobre o "Inteligente" entre aspas lá em cima, no começo do texto? o livro tem uma passagem bastante interessante onde dois personagens tentam definir o que é Inteligência, sem sucesso. Deve ser porque são humanos, e humanos não têm lá muita intimidade com esse conceito rs.

(...) E quanto à idéia de que o ser humano, diferentemente de outros animais, sente uma incontrolável necessidade de adquirir novos conhecimentos? Li sobre isso em algum lugar.
 - Eu também. O problema é que o ser humano, pelo menos um ser humano comum, facilmente supera essa sua necessidade de adquirir conhecimentos. A meu ver, essa necessidade nem mesmo existe. Há uma necessidade de entender, mas para isso são necessários conhecimentos. A hipótese da existência de Deus, por exemplo, é uma excelente oportunidade de entender absolutamente tudo sem adquirir qualquer conhecimento. Oferece para o ser humano um sistema simplificado de mundo e explica tudo com base nesse modelo simplificado. e há certas fórmulas decoradas junto com a assim chamada intuição, a boa e velha esperteza cotidiana e um pouco de bom senso...

Com relação a adaptações, há duas dignas de menção: o filme e o game inspirados em Piquenique na Estrada. O filme inspirado pelo livro foi dirigido pelo cineasta russo Andrei Tarkovski com o título de Stalker, embora o roteiro, feito pelos próprios Strugátski, tenha muitas modificações em relação ao livro, mas mantendo alguns diálogos e a idéia de uma "Zona de Exclusão", onde há algo que poderia realizar desejos (no filme, seria um quarto). O filme tem uma fotografia memorável e cores sensacionais, em algumas cenas chegando a lembrar uma pintura em sépia. Belíssimo!




Stalker (1979), de Andrei Tarkovski.
Completo e legendado.


Nos anos 2000 foi feita uma série de jogos de tiro em primeira pessoa e survival horror chamada S.T.A.L.K.E.R., inspirada tanto no livro dos Strugátski quanto no filme de Tarkovski, mas com algumas pequenas diferenças: as tais Zonas de Exclusão seriam decorrentes do acidente nuclear de Chernobil, e dentro delas estranhos fenômenos ocorrem. Existem cerca de quatro jogos da série S.T.A.L.K.E.R.    

 Gameplay de S.T.A.L.K.E.R. : Shadow of Chernobyl 

O melhor de tudo é esta edição que a Aleph lança aqui em solo brasileiro este ano é o livro NA ÍNTEGRA, sem os estúpidos cortes das edições russas originais. O livro tem um prefácio de Ursula K. Le Guin, e um posfácio de 20 páginas por Boris Strugátski, onde ele explica o tortuoso processo de publicação de Piquenique na Estrada, com os sucessivos cortes e censuras impostos pelos órgãos burocráticos do governo russo.

A FC se presta facilmente à subversão imaginativa de qualquer status quo. Burocratas e políticos, que não podem se dar ao luxo de cultivar a imaginação, tendem a presumir que são só bobagens e armas de raios, coisas de criança. Para atrair a fúria do censor, talvez um escritor precise ser tão obviamente crítico da utopia quanto Zamiátin em Nós. Os irmãos Strugátski não eram óbvios, e nunca (até onde vai meu conhecimento limitado) diretamente críticos das políticas do seu governo. O que eles fizeram, que na época achei tão admirável e ainda acho, foi escrever como se fossem indiferentes à ideologia - algo que muitos de nós, escritores nas democracias ocidentais, tínhamos dificuldade de fazer. Eles escreviam como homens livres escrevem.
 Ursula K. Le Guin, no prefácio da edição da Aleph

Quem espera um livro cheio de pirotecnias, artefatos e raças alienígenas estranhas deve reavaliar suas expectativas: o foco aqui é apenas o ser humano, frente a um universo inteiro de conceitos que ele sequer é capaz de começar a compreender, e o impacto de objetos alienígenas na sociedade humana. A crítica ao capitalismo fica evidente no próprio fato de existirem Stalkers e todo um mercado negro de interessados em adquirir tais artefatos. Piquenique na Estrada é um livro que, estranhamente, parece sofrer o efeito de algum estranho campo de distorção temporal: rápido de se ler, mas bem denso nas questões abordadas. Mais um clássico da ficção científica que finalmente ganha uma bela versão nacional. Aprecie sem moderação, mas muito cuidado onde pisa enquanto vaga por essa Zona, e cuidado com a esfera dourada: você pode conseguir exatamente o que deseja...



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

AS BRIGADAS FANTASMA, de John Scalzi, ou "A guerra continua!!!"







Por EDUARDO CRUZ





"A tecnologia humana era boa, e no quesito arsenal os seres humanos estavam tão bem equipados quanto a grande maioria de seus adversários. Mas a arma que importa no fim das contas é aquela que fica atrás do gatilho."


E A GUERRA CONTINUA!

Depois de um hiato grande demais pra quem amou o Guerra do Velho logo nos primeiros capítulos, a Aleph finalmente publicou o segundo volume da série, As Brigadas Fantasma. O livro retoma a premissa principal da série, onde acompanhamos um conflito travado entre a humanidade e diversas espécies alienígenas pelo controle do maior número possível de planetas com condições propícias para colonização. Como não há muitos planetas desse tipo espalhados pelo universo, cada espécie quer garantir que aquele território conquistado permaneça seu! Então já sabem, né? É GUERRA!



Neste segundo volume da série acompanhamos o soldado das Forças Especiais Jared Dirac, desde o momento de seu nascimento. Clonado a partir das células de um possível traidor, a Federação Galática de Defesa cria Dirac a princípio para tentar descobrir o paradeiro e as intenções do dono do genoma original, na perspectiva de que a personalidade do doador se replique em seu clone, assim emulando o raciocínio do traidor a fim de localizá-lo e capturá-lo. Como a princípio isso não sai como o esperado, Dirac termina por ser incorporado a um pelotão das Forças Especiais liderado por ninguém menos que Jane Sagan, uma das protagonistas do livro anterior. Em As Brigadas Fantasma vemos um lado do conflito que foi abordado apenas perifericamente em Guerra do Velho: A rotina e treinamento dos soldados das Forças Especiais, clones modificados, gerados a partir do material genético dos recrutas idosos que morrem antes de ganharem seus corpos modificados para travarem as batalhas das FCD. Esses corpos, pelo fato de seus doadores originais morrerem antes que a transferência de consciência seja realizada, são verdadeiras tabulas rasas, criaturas sem passado engendradas com apenas um objetivo: proteger os colonizadores humanos universo afora. Lutar e morrer. No decorrer do livro, esse detalhe da trama evoca questões éticas semelhantes às que Mary Shelley aponta em Frankenstein, no que diz respeito à responsabilidade quanto à criação de vida artificial - aliás, a obra de Mary Shelley, bem como seus derivados pela cultura pop são brevemente citados em As Brigadas Fantasma


"Depois de assistir a Star Wars, todo mundo queria um sabre de luz e ficou irritado ao saber que na verdade a tecnologia para produzi-los não existia. Todos concordaram que os Ewoks deveriam morrer."


Scalzi referencia e homenageia suas influências de forma muito pontual desde Guerra do Velho, chegando a mencionar neste segundo livro o Tropas Estelares - o livro E o filme! -, notória influência do autor na criação da série, o que é algo bastante honesto da parte de Scalzi, visto que, fora alguns conceitos científicos que ele desenvolve ao longo da série, nada ali é exatamente original, mas o seu trunfo está em como opta por contar sua história. Apesar de Dirac não ter o carisma de John Perry, o protagonista do livro anterior, ele é interessante a seu modo e carrega a reboque questões filosóficas acerca de livre arbítrio, a natureza da consciência e do "eu".

 "As Forças Coloniais de Defesa descobriram, para seu intenso desgosto, que muitos de seus seres humanos levemente modificados ("levemente" sendo relativo) não ficavam muito felizes ao descobrir que eram criados como uma plantação de buchas de canhão e se recusavam a lutar, apesar dos melhores esforços de doutrinação e propaganda possíveis para persuadi-los. Humanos não modificados ficavam igualmente escandalizados, pois a decisão parecia mais outra medida eugênica por parte do governo humano, e o curículo de governos amantes da eugenia na experiência humana não era exatamente estelar."




Assim como em Guerra do Velho, Scalzi continua a desenvolver sua ciência maluca, e entre tantas raças alienígenas, armas, tecnologioas e biomodificações o destaque da vez fica para os Gameranos (sim, uma homenagem ao Kaiju japonês Gamera!).

À direita Gamera, e à esquerda, um tal de.... Gojira?

Essa geração de soldados das Forças Especiais foi projetada para sobreviver no vácuo espacial sem nenhum tipo de aparato, sendo inclusive a primeira geração de soldados a possuírem seus BrainPals, o computador interno que os soldados das Forças Coloniais de Defesa utilizam, em forma orgânica! O design desses humanos modificados lembrou muito algo que o geólogo e paleontólogo escocês Dougal Dixon já havia concebido em seu livro Man After Man: An Anthropology of the Future. O livro, que é um bestiário especulativo sobre os caminhos evolutivos do ser humano daqui a alguns milhões de anos trazia, entre vários outros exercícios de imaginação O Vacuumorph, um derivado do já distante Homo sapiens biologicamente apto a viver no espaço!

"Se conseguirem encontrar uma maneira de procriarmos naturalmente, teremos uma nova espécie: Homo astrum, que pode viver entre os planetas. Não teremos de lutar com ninguém por propriedade. E isso quer dizer que os seres humanos vão vencer."

Ilustração de Man After Man: An Anthropology of the Future





Como eu disse lá em cima, Scalzi pode não ser o cara mais original da Ficção Científica atual, mas compensa isso com uma narrativa divertida!


Ilustração de Man After Man: An Anthropology of the Future


Como no livro anterior, a escrita de Scalzi continua bastante leve e fluida, um verdadeiro vira páginas! eu li  Guerra do Velho em três dias, mesmo com toda a minha rotina e as leituras paralelas, e com As Brigadas Fantasma não foi muito diferente, apesar de alguns momentos que perdem o fôlego, e são um pé no freio em uma leitura que estava a 100 por hora minutos antes. Nada que faça o leitor abandonar antes de terminar, mas o ritmo mais lento da continuação em relação ao primeiro é evidente. John Scalzi - pelo menos nessa série da Guerra do Velho, não li mais nenhum outro livro do autor - consegue contar uma história com um bom ritmo e ao mesmo tempo manter a profundidade de seus temas: questionamentos como ética no uso de tecnologias avançadas, bem como questionamentos a respeito de bioética e transhumanismo, os elementos que fizeram de Guerra do Velho um livro tão singular e inteligente, permanecem aqui, aprofundando questões como os corpos clonados e/ou radicalmente modificados do primeiro livro, e também iniciando novas discussões, como "Que senso de identidade de alguém clonado pode desenvolver?", quase como se Scalzi estivesse ajudando a preparar a humanidade para problemas que ela ainda não tem. AINDA. Mas ei, foi exatamente isso que Mary Shelley fez em Frankenstein! e olhem pra gente agora, clonando humanos em segredo enquanto o resto da humanidade olha para o outro lado, assistindo Master Chef e Ídolos ovelhas!




"– […] Não vá me dizer que você é feliz de ser consciente. Consciente de que foi criado para um objetivo que não era a própria existência. Consciente das lembranças da vida de outra pessoa. Consciente de que seu objetivo é apenas matar pessoas e coisas que a União Colonial aponta para você. Você é uma arma com um ego. Seria muito melhor sem o ego."

Pra quem ainda não conhece, vale a pena dar uma olhada na nossa resenha de Guerra do Velho também. Quem curte ficção científica, ou mesmo quem apenas procura uma boa história com situações limite e muita ação para passar o tempo, saibam que ainda dá pra ingressar nesse pelotão! a Aleph publicou apenas dois volumes da série no Brasil até o momento (num total de seis), e o primeiro ainda é fácil de encontrar por aí. Então, não sei vocês, mas eu permaneço nessa guerra até o fim! QUEM ESTÁ COMIGO????  


EU NÃO OUVI VOCÊS, VERMES!!!!

 




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?, de Philip K Dick, ou "Você Realmente É Quem Pensa Que É?""






Por RICARDO CAVALCANTI


Philip K. Dick é O CARA! Não é a toa que ele é um dos autores “preferidos da casa” aqui na Zona Negativa (como diria o “Reverendo” Fabio Massari, nos bons tempos da MTV). Além disso, é um dos autores de ficção científica com mais adaptações de suas obras para o cinema. Mesmo quem nunca leu nenhum de seus livros ou contos, mesmo sem saber certamente já teve contato com algumas das inúmeras produções cinematográficas que saíram das páginas e da mente criativa do autor. Duvida? O Vingador do Futuro, Minority Report, O Pagamento e O Homem Duplo são apenas alguns desses exemplos. 
 



Como se não bastasse o cinema, agora a TV está começando a descobrir que as histórias de PKD podem também ser adaptadas em formato de série. Já está na segunda temporada a série The Man in the High Castle, baseado no livro O Homem do Castelo Alto, que mostra uma realidade alternativa em que os nazistas venceram a segunda guerra mundial. Além disso, uma nova série acabou de estrear, chamada Philip K. Dick’s Eletric Dreams, em que os episódios são baseados em alguns de seus contos. Pelos primeiros episódios, a série se mostrou bastante promissora. 
 



Apesar de Philip K. Dick ser um dos nossos autores favoritos aqui no Zona Negativa, não entendo o por quê de não termos falado sobre ele ainda. Uma omissão inexplicável e imperdoável que se resolve agora trazendo um dos livros mais conhecidos do autor e que também serve muito bem como porta de entrada para esse mundo que Dick construiu. Seu livro Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? ficou famoso por ganhar uma excelente adaptação nas mãos do diretor Ridley Scott, batizada de Blade Runner – O Caçador de Andróides. Blade Runner, juntamente com 2001: Uma Odisséia no Espaço, se tornou umas das mais respeitadas obras de ficção científica da história do cinema. Assim como o livro de Arthur C. Clarke e o filme de Stanley Kubrick se fundem e se completam, o mesmo ocorre com o universo estabelecido por Philip K. Dick, que se amalgama com a visão do diretor Ridley Scott.




Em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas acompanhamos Rick Deckard, que é um caçador de recompensas que trabalha para a polícia. Seu sonho de consumo é poder comprar um animal de verdade, que lhe renderia status perante a sociedade. Sua esposa passa boa parte do tempo no emulador de emoções (seria uma forma de camuflar seu notório quadro depressivo, ou uma maneira de programar o seu “cérebro” de androide?), além de ficar boa parte do tempo assistindo Buster Gente Fina, que é uma espécie de programa de variedades em que o apresentador parece tudo, menos humano (assim como se vê em qualquer programa de auditório dominical, por exemplo ;>)). 
 



A história se situa depois da Guerra Mundial Terminus, que ninguém mais lembrava quem venceu ou quem perdeu. A Terra ficou coberta por uma poeira tóxica, fazendo com que aos poucos os animais começassem a morrer até se tornarem praticamente extintos. Marte é colonizado e a alta casta da sociedade é incentivada a migrar para colônias interplanetárias, recebendo um androide orgânico (como os modelos T-800 de O Exterminador do Futuro) como forma de incentivo e para lhes auxiliar no que for necessário. Lá, quem faz o trabalho pesado são os imigrantes ilegais, digo, os androides construídos para este fim.




Os androides não são permitidos na Terra, relegados a realizar os trabalhos a que forem designados nas colônias. Com a chegada ao mercado de um novo modelo batizado de Nexus 6, muito mais avançados tecnologicamente, a tarefa de distinguir entre humanos e robôs fica muito mais complicada, por conta de sua impressionante semelhança física com os humanos. Quando começam a tomar consciência de suas reais capacidades e a perceber e entender a realidade em que vivem, alguns fogem para a Terra a fim de viver como humanos, se beneficiando dessas características físicas. Após a fuga de alguns desses andróides, Deckard é designado para caçá-los, e é quando a história de desenrola.




Durante todo o desenrolar da narrativa, o que pulsa em nossas cabeças são questionamentos do tipo: O que diabos, exatamente, é a humanidade? Ela pode ser emulada? ser humano é nascer humano? Gostos, vontades, desejos, sonhos, ambições... Se somos a soma das coisas que vivemos e experimentamos, no que nos transformaríamos se memórias artificiais fossem implantadas em nossas mentes? Não teríamos como saber que não são lembranças verdadeiras! Você saberia afirmar com certeza absoluta que você é um ser humano, e não um androide com memórias implantadas para pensar que é um humano??? Você saberia distinguir o que é real? ou melhor, saberia definir O QUE é realidade? Esses são os questionamentos que costumam permear as histórias de Philip K. Dick e isso é justamente o que torna suas histórias tão fascinantes (e indigestas!).
 


Seria Deckard um androide tentando ser cada vez mais humano? Seria ele um humano que não tem mais certezas de sua própria humanidade? A pergunta do título, que no primeiro momento soa um pouco estranha e sem sentido, faz com que durante a leitura, criem-se mais questionamentos que respostas. Não se pode afirmar categoricamente que Deckard é um androide, nem que ele é humano. O próprio personagem não tem essa convicção. Seria a consequência de novas memórias implantadas? Seriam por conta de uma nova programação? Ou será que ele estava simplesmente esgotado demais, física e mentalmente, para não conseguir distinguir entre o que é real e o imaginário? Estaria ele, como androide, emulando o comportamento humano? Pode-se dizer que sim. Estaria ele, como humano, se aproximando mais do comportamento de um androide? Também pode-se dizer que sim! Independentemente da resposta, o que vemos é um ser com suas convicções abaladas. Seja ele humano ou androide. 
 



Para aqueles que buscam uma história cheia de tiros, explosões, com muita ação e correrias vertiginosas pelo futuro, tendo um protagonista sendo a síntese do conceito de super-herói, esse não é o livro para você. Ou melhor: talvez esse não seja o autor para você. As ações e correrias vertiginosas acontecem dentro da psique dos personagens. Philip K. Dick nos tira da nossa zona de conforto, nos entregando uma história sensacional de um homem em seu labirinto psicológico e sua fuga constante para evitar conseguir descobrir quem é (ou o que é).




Este é o tipo de livro que cresce a cada leitura. Cada vez você volta àquele cenário, pode perceber mais sutilezas e nuances do texto, te fazendo imergir cada vez mais naquele ambiente e, consequentemente, na mente do autor. Questões filosóficas, ideologias religiosas, desejo por uma ascensão social, inconformismo com situação degradante que lhe é imposta, a busca por uma nova vida em um outro lugar são algumas das questões fazem pano de fundo para a história. Talvez a única coisa que possa ser considerada essencialmente errada na obra (não por culpa de PKD), é que Deckard identifica quem é e quem não é humano através da capacidade de mostrar empatia. Hoje está cada vez mais claro que conseguimos identificar o humano através do ódio. Afinal, o ser humano é o único animal capaz de odiar. O ódio que segrega e agride covardemente é o mesmo que une alguns grupos, como vimos em Charlottesville ou na reação a qualquer postagem no Facebook relacionada a questões de direitos humanos, por exemplo. Mas isso não é discussão para o momento.



Para comemorar os 50 anos do lançamento de uma das obras mais icônicas de Philip K Dick, a Editora Aleph resolveu dar um tratamento caprichado nesta nova edição. Com acabamento em capa dura, com uma bela sobrecapa envernizada e recheado de extras e ilustrações de diversos artistas (como Dave Mckean, Elena Gumeniuk, Bianca Pinheiro, Danilo Beyruth e Gustavo Duarte, por exemplo), além de um texto analisando os vários cenários pós-apocalípticos criados por PKD. Certamente vai fazer a alegria dos admiradores do autor e vai servir como um ótimo cartão de visita para os que ainda não o conhecem. 
 



Neste ano se comemoram também os 35 anos do lançamento da adaptação cinematográfica e por conta disso, foi lançada a continuação da história do filme de 1982. Confesso que encarei com muito ceticismo essa ideia. Mas felizmente acabou se mostrando um ponto fora da curva, revelando uma obra como se vê pouco hoje em dia. Além de possuir uma fotografia de encher os olhos, o filme é cheio de sutilezas e chega a tocar temas delicados, como escravidão e trabalho infantil. O que se pode dizer é que o filme é no mínimo corajoso, por escapar da armadilha de tornar a continuação uma franquia seguindo uma fórmula de fácil assimilação pelo grande público. Assim como o filme anterior, Blade Runner 2049 não foi bem nas bilheterias. O que não é nenhum demérito, pois o melhor filme de 2015, Mad Max: Estrada da Fúria, também foi um fiasco nas bilheterias, principalmente se compararmos com o seu custo. Mas como diria Marty McFly: “Acho que vocês ainda não estão preparados para isso, mas seus filhos vão adorar!






Agora corra para contemplar os Rios-C cintilando na escuridão junto ao Portal de Tannhauser, antes que tudo se perca no tempo, como lágrimas na chuva.