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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AS FONTES DO PARAÍSO, de Arthur C. Clarke ou “Um Elevador Para as Estrelas"



Por RICARDO CAVALCANTI






Nesse ano se comemora o centenário do nascimento de Sir Arthur C. Clarke (falecido em 2008). Seu nome é muito atrelado à ficção científica, muito por conta de seus livros que abordam o assunto, ou (indiretamente) pela adaptação cinematográfica de 2001: Uma Odisseia no Espaço - imortalizada no cinema por Stanley Kubrick. No entanto, ele foi muito mais que um simples escritor.




Várias vezes premiado por suas obras, é até hoje um dos nomes mais respeitados, não só na literatura, mas também no campo da astronomia, sendo inclusive nomeado presidente do British Interplanetary Society (uma espécie de NASA da terra da rainha). É considerado também o pai da comunicação por satélites, por ter definido o conceito que proporcionou o desenvolvimento dessa tecnologia, que é utilizada até hoje. 

O autor foi de extrema importância em boa parte do êxito dos Estados Unidos na corrida espacial. Além disso, o presidente JFK foi convencido por um de seus cientistas de que o homem poderia chegar à lua usando como argumento de convencimento um dos livros de Clarke: “The Exploration of Space”.





Arthur C. Clarke era, além de tudo, um visionário (não no sentido Zack Snyder, é claro...). Em uma entrevista de 1974, falava com naturalidade - e uma certeza espantosa - exatamente como seria o futuro em que as pessoas se comunicariam por computadores pessoais, tendo acesso a toda informação que precisassem e teriam acesso a facilidades que hoje, para nós, já estão inseridas em nosso dia a dia.




Caso acredite que nesse vídeo anterior, suas previsões foram apenas um chute de sorte, gaste um pouco do seu inglês nórdico e veja como ele, em 1960, achava que seria o futuro.



Fico imaginando o quanto soava absurdo falar em inteligência artificial nos anos 60, por exemplo. Algumas dessas teorias já fazem parte da nossa realidade, enquanto outras ainda são episódios de Black Mirror. Ou será que não?





No livro "As Fontes do Paraíso", lançado aqui pela Aleph, recebemos mais uma aula de toda sua capacidade imaginativa e argumentativa ao descrever o futuro.

A Terra agora já possui colônias em Marte, na Lua e em Mercúrio. Mesmo assim, o alto custo e a poluição produzidos pelos foguetes espaciais acabam limitando uma exploração ainda maior do espaço. Na trama, acompanhamos o projeto de Vannevar Morgan que, depois de ser o responsável pela construção da chamada Ponte Suprema (também chamada de Ponte de Gibraltar, a maior já feita pelo homem, com quinze quilômetros de extensão, ligando a Europa ao continente africano), achou que havia chegado a hora de construir um novo caminho; dessa vez, em direção ao espaço. A Torre Orbital, um sistema como um metrô vertical (ou elevador), que serviria como estilingue cósmico, enviando cargas para a Lua e para os planetas sem o uso de foguete.


"Se as leis da mecânica celeste possibilitam a um objeto permanecer fixo no céu, não seria possível baixar um cabo até a superfície... de modo a criar um sistema de elevadores ligando a Terra ao espaço?”





Acompanhamos a construção da Torre Orbital desde sua concepção e elaboração, até o seu pleno funcionamento. Mesmo com a reputação de grande projetista da “Ponte Suprema”, Vannevar Morgan precisa convencer determinados grupos a acreditarem em seu projeto, passando pela busca de investidores que pudessem “comprar” a idéia, conversas e negociações sobre o local onde seria construída a base do elevador na terra, propostas para que, ao invés da terra, o elevador fosse construído em Marte, além de uma boa dose de demonstração de força dos interesses políticos e econômicos, inclusive, propondo algo como “um grande pacto para estancar a sangria”:

 " - Definitivamente, precisamos de uma decisão judicial da Corte Mundial. Se a Corte decidir que é uma questão de interesse público inapelável, nossos amigos reverendos terão de sair de lá... mas, se eles decidirem ser teimosos, haverá uma situação desagradável. Talvez você devesse enviar um pequeno terremoto, para ajudá-los a se decidir."

O elevador poderia ser utilizado também para fins de turismo, proporcionando a milhares de pessoas a possibilidade de contemplar a terra diretamente da estratosfera (está aí uma coisa que eu gostaria muito de fazer!).

Durante o desenvolvimento do projeto, consegue-se estabelecer contato com uma civilização alienígena: uma sonda espacial autônoma chamada Sideronauta, que colhe informações sobre civilizações por todo o universo. Chegando por aqui, consegue decodificar com facilidade a linguagem terrestre e rapidamente se torna capaz de entender e analisar que tipo de civilização somos, estando em condições de discutir sobre nossa filosofia, nossos valores e sobre as diversas religiões do mundo.

O local perfeito para ser a base da Torre Orbital na Terra é no alto da Montanha Sagrada, onde existe um mosteiro budista. Este local realmente existe e se chama Sri Pada (ou Pico de Adão), assim como Sigiriya, chamada no livro de Yakkagala. Ambos localizam-se no Sri Lanka, local onde o autor viveu por muitos anos, até o fim da vida.


Sri Pada, a Montanha Sagrada

Sigiriya


A riqueza de detalhes com que as situações e os procedimentos são descritos nos deixam na dúvida se ele não está falando de algo já existente. O leitor fica ciente de todos os procedimentos como se estivesse ali ao lado dos protagonistas do livro. Mas não esperem por naves em combate pelo espaço, tiros de raio laser ou lutas com sabres de luz. Ao invés disso, o autor não só nos brinda com toda sua capacidade de imaginar e nos explicar um mundo muito mais avançado tecnologicamente, mas também explora aspectos mais humanos, como a relação do homem com as suas crenças religiosas, negociações comerciais e uma boa dose de ego e vaidade.

O homem é um ser que sempre procura romper limites. Buscar o impossível através de grandes construções e desenvolvimentos tecnológicos fazem parte de sua natureza. Ao longo da história da humanidade vemos desde grandes obras que desafiam nossa compreensão - como as pirâmides do Egito, o Colosso de Rodes, a muralha da China - até avanços mais recentes como a aviação, submarinos e sondas espaciais. O homem prova sempre que o limite não é nada além de algo a ser ultrapassado. Se pensarmos nos saltos tecnológicos dos últimos vinte anos e compararmos com os dos vinte anos anteriores, podemos perceber que avançamos a uma velocidade espantosa.
Ao ler As Fontes do Paraíso, talvez lhe soe como algo irreal por ser “ficção científica demais” (provavelmente, a mesma sensação que as pessoas tiveram ao ouvi-lo falar nos vídeos acima), mas para o desenvolvimento da história, o autor se baseou num conceito teorizado pelo engenheiro russo Yuri Arstutanov nos anos 60, em que um cabo partindo do solo, é içado ao espaço dando acesso a uma plataforma flutuante que gira na órbita da terra (Yuri Arstutanov é mencionado no livro), o chamado “Elevador Espacial”. Com ele, seria possível chegar ao espaço sem a necessidade de um foguete, além de viabilizar o transporte de toneladas de equipamentos para o espaço e com um custo muito reduzido. Em "Guerra do Velho", o autor John Scalzi cria um elevador orbital semelhante, o "pé de feijão", muito provavelmente uma homenagem a Arthur C. Clarke.

Segundo o autor, o projeto da Torre Orbital é uma realidade. Caso não tivesse ocorrido o acidente com o ônibus espacial Challenger em 1986, o desenvolvimento dessa tecnologia já estaria bastante adiantada e teriam ocorrido suas primeiras tentativas para colocá-la em prática. Além disso, Arthur C. Clarke discursou no congresso da Federação Astronáutica Internacional em 1979, defendendo a ideia de que o Elevador Espacial não era uma apenas uma fantasia, mas poderia ser considerada uma “chave para o universo”.

Agora apertem os cintos e embarquem no elevador panoramico com a melhor vista possível, e apreciem o próximo andar; onde  encontraremos o céu, a lua e as estrelas.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O PERFURANEVE, de Lob + Rochette + LeGrand, ou "Próxima parada: Extinção. Observe atentamente o vão entre o trem e a plataforma."








Por EDUARDO CRUZ



"Percorrendo a branca imensidão de um eterno e congelante inverno de solidão, corre, de uma ponta à outra da Terra, um trem cujo movimento nunca se encerra...
É o Expresso Perfuraneve, com seus mil e um vagões.
É o último bastião da civilização!" 


Ninguém sabe ao certo como começou: se foi por causa da guerra, se foi um acidente, ou um cataclismo natural. De repente, em uma tarde de verão, um vento gelado varreu tudo, e o mundo mergulhou em uma nova era glacial, matando toda a vida na Terra. Os únicos sobreviventes agora residem em um trem, que permanece em movimento perpétuo. E dentro dele, as últimas pessoas da Terra tentam seguir com algum tipo de vida, confinados entre os vagões, mas ainda agarrados a estruturas do velho mundo. 


"Neste mundo fechado e dividido tanto os abastados quanto os perdidos têm como horizonte, única e somente, as paredes e limites de vagões e mentes."

A sociedade deste trem se divide entre os "Vagões Dourados", onde vive a elite, com poderes e privilégios plenos, os vagões centrais, onde residem cidadãos de uma espécie de classe média, e os vagões do fundo, onde os habitantes vivem à míngua, completamente isolados num gueto, sem comunicação com o restante do trem. Uma divisão social rígida e opressora, e que dispõe de muitos artifícios para que o status quo seja perpetuado, tais como religião, jogos de azar, prostíbulos e vagões de lazer, e em última instância, até mesmo uma força militar! sim, o trem é um microcosmo perfeito de nossa sociedade, e só não vê isso quem não quer, logo nas primeiras páginas da HQ.



Técnicas de controle de massas...

... de uma ponta à outra do espectro comportamental individual.

Essa é uma breve descrição de "O Perfuraneve", uma memorável HQ européia - da França, para ser mais exato - um excelente conto sobre um futuro distópico. E, por se tratar de uma distopia, a Aleph não poderia ficar sem lançar isso por aqui. A editora, já conhecida por seu catálogo recheado de clássicos da literatura de ficção científica compilou as três histórias - "O Perfuraneve", "O Explorador" e "A Travessia" - nesse belíssimo volumão, com um papel LWC de gramatura altíssima. De grandes dimensões (21,5x29cm) e pesando mais de 1kg, essa edição nacional é um livraço, o que me fez demorar a terminar a leitura, já que era impossível abrir no ônibus ou ler na cama, por exemplo. Mas muito bonito e caprichado, brincadeiras à parte.


As três HQs, compiladas em volume único aqui no Brasil

Em "O Perfuraneve", HQ lançada em 1984 (que coincidência, não? rs), acompanhamos Proloff, um habitante dos vagões dos fundos que tenta avançar para a frente do trem. Durante sua jornada vemos um pouco, ainda que de forma apressada, do funcionamento dessa sociedade do trem: como os alimentos são processados/cultivados, a organização religiosa, que substituiu Deus pela Santa Locomotiva, e as fontes de diversão da elite, hedonista e decadente. Lá ele descobre que há um problema com a propulsão da locomotiva. A máquina está perdendo sua velocidade gradualmente. Proloff também descobre o que a elite acha ser a causa do problema e os planos para resolver isso, ambas as conclusões monstruosas.


"Percorrendo a branca imensidão de um eterno e congelante inverno de solidão, corre, de uma ponta à outra da Terra, um trem cujo movimento nunca se encerra."

Nas duas histórias seguintes, "O Explorador" e "A Travessia", produzidas mais de uma década depois da original, devido à morte de Jacques Lob, quem escreve os roteiros é Benjamin LeGrand. Dessa vez a máquina onde se passam as duas histórias não é o Perfuraneve, e sim o Desbrava-gelo, uma locomotiva ainda maior, e que é regida por um conselho de líderes, tendo como integrantes o líder político, o líder religioso, o chefe da segurança, entre outras autoridades. As questões sobre autoritarismo, estratificação social e manipulação continuam, e são até mais bem desenvolvidas. Vemos inclusive uma força de controle que não havia na primeira história: a mídia. Existe uma emissora de tevê, que além de doutrinar, sorteia viagens de realidade virtual, o único escape fugaz das massas para a miséria em que estão enfiadas. A religião é cheia de dogmas, que engessam as pessoas nas posições exatas que o sistema deseja que elas permaneçam. Além disso existem os desbravadores, equipes de trabalhadores que saem do trem com pesados trajes de proteção, para realizarem reparos, exploração e quaisquer outros motivos que a liderança do trem alegue para utilizá-los. Puig Vallès, um desbravador que questionou demais a respeito de uma dessas missões é preso, e a partir daí vemos uma série de desdobramentos que colocarão o delicado equilíbrio social do Desbrava-gelo por um fio! 


Escolha seu veneno: a mídia...

... a religião...

... ou o estado totalitário mesmo!
Ainda bem que não vivemos nesse trem. Não, pera...


Em 2013 foi lançada uma adaptação da HQ, que só chegou aos cinemas brasileiros mais de um ano depois. Roteirizada e dirigida pelo coreano Joon Ho Bong (mesmo diretor de "O Hospedeiro", o filme mais lucrativo já produzido na Coréia do Sul), "O expresso do amanhã" é o primeiro filme ocidental do diretor. Estrelado por Chris "Capitão América" Evans, mas também com bons nomes como John Hurt (R.I.P.), Ed Harris e Tilda Swinton. Apesar das diferenças em relação à HQ o filme funciona, e foi um dos melhores que eu assisti em 2014. Mesmo com um final diferente, com direito à plot twist e cenas de ação à exaustão, um vício das produções ocidentais atuais, a essência da HQ se faz sentir e a cenografia e caracterização da produção fazem as duas horas do filme valerem muito a pena. Como eu sempre digo pra minha mulher: "Nunca vi um filme coreano realmente ruim" rsrsrs. 






"O expresso do amanhã" a.k.a Snowpiercer (2013)
CompReto e dubRado


Pra quem gosta de distopias, tanto a HQ quanto o filme são um prato cheio. Quem aprecia HQs Européias, vai curtir o estilo de Jean-Marc Rochette, que inclusive tem uma evolução da primeira para as outras duas histórias, perceptível não só em seu traço, mas principalmente na fluidez narrativa, no ato de contar a história de um quadro para outro. Além das três HQs, essa edição nacional tem um posfácio do cartunista Jean-Pierre Dionnet, onde ele fala um pouco a respeito da HQ e da adaptação cinematográfica, com imagens de produção da adaptação.




Uma alegoria que mostra o vício da humanidade em repetir os próprios erros, ao criar um microcosmo idêntico ao que foi responsável pela destruição do mundo, "O perfuraneve" começa lento, mas engrena a leitura rapidamente, e à medida que a trama se desenrola, não dá mais pra parar de ler, como uma locomotiva sem freios, até suas páginas finais. Uma história sobre o egoísmo incorrigível do ser humano, e como pessoas inventam hierarquias e castas até em situações limite.

E é por isso que eu prefiro os macacos.











FUI!!! até a próxima!!




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

NÓS, de Evgeny Zamiatin, ou "Manual de Instruções para se Criar Uma Distopia"

Por RICARDO CAVALCANTI



A arte está em constante movimento e se transformando em algo novo, através de influências, inspirações e releituras; assim como “Os Livros da Magia” de Neil Gaiman, inspirando J.K Rowling a criar “Harry Potter”; “Battle Royale” ajudando Suzanne Collins a compor o mundo de “Jogos Vorazes”; “Eusou a Lenda” de Richard Matheson inspirando George A. Romero em seu “A Noite dos Mortos Vivos”. Mas você já se perguntou o que inspirou obras como “Admirável Mundo Novo”, ou “1984”? Trata-se do livro “Nós”, do russo Evgeny Zamiatin (Евгений Замятин). Apesar de pouco conhecida até então (e de difícil acesso), a obra é de extrema importância e influenciou diretamente autores como Aldous Huxley, Anthony Burgess e George Orwell em suas obras mais icônicas.



Considerado um dos maiores autores russos do século XX, Zamiatin ganhou sua primeira biografia somente em 2013, pelas mãos da autora J.A.E. Curtis, intitulada “The Englishman From Lebedian: A Life of Evgeny Zamiatin”. O livro faz um apanhado desde a sua infância até seus últimos dias, passando por toda sua formação cultural, revelando o homem, suas preocupações e seus fortes princípios.



Evgueny ZamIatin se definia como um herege e costumava desagradar as sociedades retratadas em seus contos, livros e peças de teatro, mostrando o que ninguém queria ou gostaria de ver - sempre enfiando o dedo na ferida e sofrendo as consequências por conta disso. Durante o período que viveu na Inglaterra (supervisionando a construção de um navio para seu país), escreveu “Os Ilhéus”, que era uma crítica à sociedade inglesa. A obra ofendeu tanto aos ingleses, que não foi possível sua publicação na terra da Rainha. Antes disso, na Rússia, teve seu romance “Au bout Du Monde” censurado pelo órgão de repressão do Czar, por ser considerada ofensiva.



“Nós” foi escrito entre 1920 e 1921, pouco depois da revolução russa (ocorrida em 1918) e lançado em inglês no ano de 1925; como um alerta para os perigos do totalitarismo que o autor estava presenciando logo nos primeiros anos de criação da antiga União Soviética. Depois que o livro foi “descoberto” pelos membros do partido comunista, Evgueny Zamiatin acabou se vendo obrigado a pedir exílio à Stalin para fugir de represálias, indo viver na França até a sua morte. A primeira edição russa do livro só saiu em 1988, durante a abertura política e econômica promovida pela Perestroika de Gorbachev. O livro já havia sido lançado por aqui em 1963 com o nome “A Muralha Verde” e posteriormente pela editora Alpha Omega, já batizada como “Nós”.



No mundo criado pelo autor, nos deparamos com uma sociedade distópica em que todo o individualismo some por completo. Os nomes também são abolidos e os membros da sociedade são identificados apenas por números. A palavra “eu” foi extinta, pois tudo é realizado para a coletividade; tudo se resume a “nós” (daí o nome do livro). Após uma grande guerra que durou 200 anos e dizimou 80% da população mundial, surge a figura do Benfeitor: O Grandioso Estado Unifcado. Travestido num discurso de “bem estar para todos” e sob o argumento de expandir a felicidade, o governo impõe goela abaixo sua fórmula matemática para a perfeita felicidade - que também se tornou apenas mais um processo burocrático estatal. O Estado decide quando e como você come, quando dorme, do que você gosta e com quem se relaciona. O amor, os sonhos, a fé em um ser divino e as dúvidas também passam a não mais existir. As paredes e portas são transparentes para facilitar a vigilância e “proteger” a todos, como no Grande Irmão de George Orwell. Tudo é definido a partir de cálculos matemáticos - inclusive o sexo. Existem dias específicos para a prática de tal ato. Além disso, todos têm direito ao corpo do outro para fins sexuais, bastando apenas cumprir as formalidades de preencher alguns formulários e requisições.


O livro é contado através das anotações do D-503, um construtor da nave Integral, que levará esses escritos como relatos dessa sociedade perfeita, para que as civilizações em outros planetas tenham acesso ao
"maravilhoso mundo matematicamente feliz, proporcionado pelo magnífico Estado Unificado". Caso não sejam convencidos por palavras, o Estado Unificado se verá obrigado a usar a força para torná-los felizes, usando todo o arsenal bélico (caso seja necessário). Impor a força para te fazer o bem, mesmo contra a sua vontade, é um contra-senso absurdo, mas que ainda é usado à exaustão. É com esse tipo de argumento que se invadem alguns países hoje em dia e se impõe um determinado regime político à força.


Enquanto toda a humanidade se rende a Henry Ford em "Admirável Mundo Novo" (mudando, inclusive a forma de dividir a história do mundo entre "antes e depois de Ford"), em "Nós", Taylor é considerado um profeta. A conclusão que podemos tirar com isso é que: os conceitos da administração científica podem acabar com o mundo como conhecemos, transformando todo comportamento humano em movimentos robóticos, calculados e programados, nos mergulhando em uma imensa distopia.




Já nas primeiras páginas, podemos notar muitos elementos que depois seriam explorados também em livros como "Laranja Mecânica" de Antony Burgess, ou no "Farenheit 451" de Ray Bradbury - além das obras já citados acima. Durante a leitura, você pode, como num jogo, tentar descobrir em quais partes as histórias foram influenciadas por este livro. Para os fãs dos autores mencionados até aqui, digo que certamente é uma obra que não pode faltar na sua lista de leitura. Para quem nunca leu nenhum desses livros, sinta-se privilegiado por ter a oportunidade de conhecer a “pedra fundamental” que deu origem a todas essas obras. Enquanto muitos usaram “Nós” como influência e inspiração, outros preferiram nem se dar ao trabalho de disfarçar que estavam copiando descaradamente, como é o caso de Any Rand no livro Cântico. Mas isso não vem ao caso agora.



Poucas adaptações foram feitas da obra de Zamiatin. O livro ganhou uma adaptação para a TV alemã em 1982, batizada de “Wir” (nós, em alemão) e dirigida pelo checo Vojtech Jasny. Estamos esperamos uma boa alma que faça as legendas deste filme.


Uma outra adaptação, um curta metragem francês de 2016, está completo no youtube. Dirigido por Alain Bourret, recebeu o nome de “The Glass Fortress”.

Apesar de a ideia de se viver num mundo distópico possa parecer algo muito distante de nós (pensando bem, nem tanto), no caso de Evgueny Zamiatin, ele estava vendo acontecer diante de seus olhos. O que parecia óbvio e assustador para o autor, não era perceptível para a maioria das pessoas. Fica a pergunta: Será que todos que vivem em uma distopia, sabem que estão inseridos em uma?


A arte não é feita somente para agradar aos sentidos e nos deixar extasiados com sua beleza. Serve também para contestar o status quo. Segundo o próprio autor, “a arte deve ser feira por loucos, hereges e visionários”. Quando a arte se torna subversiva por apontar para uma outra direção - ajudando a fazer cair as vendas dos olhos, derrubando conceitos, tabus e "verdades absolutas" - talvez ela esteja cumprindo bem o seu papel. Para perceber se o objetivo foi alcançado, basta notar se o alvo se incomoda, e observar como reage quando isso acontece.



A edição da Aleph lançada em março deste ano, além de dar um tratamento caprichado em capa dura, digno de sua importância, traz entre seus extras uma resenha de George Orwell, em que ele faz o paralelo entre “Nós” e “Admirável Mundo Novo”. Certamente “Nós” estava naquele momento, ao lado de sua cabeceira, cheia de rabiscos e anotações enquanto escrevia 1984.

Só Admirável Mundo Novo, senhor Orwell?

Além disso, a edição traz a comovente carta de Zamiatin enviada a Stálin, solicitando exílio devido à constante perseguição que vinha sofrendo por conta de suas obras. Mais que uma mera curiosidade, trata-se de um importante documento histórico.



Como já foi dito, a obra é um excelente manifesto e um alerta para os perigos do totalitarismo, além de suas discussões no seu aspecto filosófico, antropológico, religioso e histórico. Atualmente, além deste livro, só temos de Zamiatin o conto “A Caverna” traduzido para o português. Esperamos que esta seja uma nova porta se abrindo para as outras obras do autor que, mesmo após um século, ainda continua sendo tão influente e se mostrando mais atual que nunca.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O PLANETA DOS MACACOS, de Pierre Boulle, ou "Quem é o Primata Irracional?"




Por RICARDO CAVALCANTI



O Planeta dos Macacos desperta lembranças diferentes em cada um. Enquanto alguns se lembram do filme com Charlton Heston, outros já se recordam do realizado por Tim Burton em 2001. Os mais velhos ainda podem lembrar da série de TV, ou dos desenhos animados. Mas pouco se fala sobre a obra original. Aquela que foi responsável por nos apresentar a essa sociedade dominada pelos macacos. De certa forma, os filmes acabaram ofuscando um pouco o livro. Mas será que alguém precisaria ler o livro, depois de tantas adaptações para o cinema e TV? Será que alguma coisa de interessante ainda tinha a ser lida sobre o tema? A dificuldade em se conhecer a obra original, também ajudou a deixá-la perdida no tempo. Para nos salvar, a Editora Aleph resgatou o livro no limbo do esquecimento. Mas ainda existia a dúvida: será que mesmo assim vale a pena?


Será?

O francês Pierre Boulle escreveu uma história que se passa durante a segunda guerra mundial no livro A Ponte do Rio Kwai (lançado em 1952) tendo como base a sua experiência como combatente, quando atuou contra o avanço do exército nazista. Cinco anos após o lançamento, acabou ganhando uma respeitada adaptação para o cinema, vencedora de sete Oscar, incluindo os de melhor filme, melhor diretor e melhor ator. (Sim, você está certo. A inspiração para o nome daquela “brincadeira” que passa naquele rasteiro programa dominical, veio desse filme sim. A música assoviada durante o quadro, também é do filme).



Agora já consagrado, Pierre Boulle resolveu mudar de gênero literário, optando por contar uma história de ficção científica e o fez com uma facilidade (e qualidade) espantosa. Era nada mais, nada menos que "O Planeta dos Macacos". O livro fez um enorme sucesso e rapidamente atraiu mais uma vez a atenção de Hollywood, que não poderia deixar de se aproveitar do êxito de mais essa obra. Mas não vamos falar sobre as adaptações para outras mídias agora: Estamos elaborando um dossiê com tudo de relevante relacionado universo símio na cultura pop, em breve no Zona Negativa.


Dr. Gori e Karas nos ameaçaram, caso o dossiê não saia.


Por hora, vamos direto ao livro:


A história é narrada através da leitura de uma mensagem encontrada numa garrafa perdida no meio do espaço, escrita por Ulysse Mérou, tripulante de uma nave que está em uma missão de exploração espacial. Nela, ele conta suas experiências ao pousar no planeta Betelgeuse, junto com outros dois tripulantes. Pousando na superfície do planeta, percebem que é possível respirar normalmente e resolvem fazer o reconhecimento do local. Notam que existem muitas semelhanças com a Terra e logo descobrem um grupo de humanos com comportamento animalesco. Enquanto tentam se familiarizar com os nativos, são surpreendidos por gorilas agindo de uma maneira, até então, surpreendente. Montados a cavalos e com armas em punho, capturam alguns humanos (além de dois dos tripulantes). Após a confusão inicial, podemos perceber que, naquele planeta, quem evoluiu foram os macacos, enquanto os humanos não passavam de bestas selvagens.

Aos poucos, descobrem que nosso viajante espacial é um humano diferente dos outros. Enquanto vários cientistas o estudam para saber o seu grau de evolução e inteligência, Zira, uma das cientistas, acaba lhe dando um pouco mais de atenção, percebendo que ele é mais que um animal um pouco mais evoluído, ou apenas bem adestrado. Com o passar do tempo, os dois conseguem manter um contato maior, enquanto aprendem a se comunicar um com o outro. Sua existência é mantida em segredo para que seja revelado somente no momento certo. Nosso personagem principal acaba se encantando por uma humana selvagem, passando a chamá-la de Nova. Seus constantes pensamentos nela acabam, por vezes, influenciando em suas atitudes

Quando finalmente é revelada a existência de um humano que fala, com inteligência e capacidade de raciocínio, acaba desencadeando uma onda de conflitos de interesses, inveja, intriga e medo por parte de alguns. Enquanto uns consideram tal descoberta uma ameaça real à existência da sociedade dos símios, outros acreditam que ele pode ser o elo perdido na cadeia de evolução dos macacos.



Invertendo o ponto de vista, o autor aproveita para mostrar a crueldade com que os animais são tratados, colocando os humanos no lugar dos macacos como cobaias nos experimentos científicos. Seguindo a linha de raciocínio dos símios: “Não existe nada de errado em usar pessoas para os experimentos. Afinal de contas, são só humanos. Eles não pensam, não possuem sentimentos e só agem por instinto.”

O que nos define como humanos? A capacidade de raciocínio? A consciência da própria existência? Possuir uma alma? Caso tivéssemos um contato com um ser tão inteligente e desenvolvido quanto nós, como será que reagiríamos? Será que os aprisionaríamos e os trataríamos como aberração? Certamente não viveríamos em harmonia, pois não conseguimos fazer isso nem com nossos semelhantes.

Mesmo que você acredite que conhece bem a história e já sabe o final do filme, eu te digo: É bem diferente e vale muito a pena. As situações criadas passam muito mais credibilidade que nas várias adaptações que só utilizaram alguns (poucos) elementos apresentados no livro. A maioria só pegou o cenário de um mundo dominados por macacos sem explorar muito o potencial do argumento. A impressão que se tem é de que o “cenário” lhe parece familiar, mas a história é totalmente nova. Principalmente por conta do final, que me soa muito mais impactante e interessante que o do filme. O livro acaba nos deixando com um gostinho de quero mais. Infelizmente o autor não voltou ao planeta Betelgeuse. Pensando bem, talvez isso possa ter sido uma boa idéia.


ALERTA!!

Caso leia o livro, fique um bom tempo longe do filme de 1969. Chega a ser embaraçoso toda a transformação que fizeram com a história. Ver o personagem ser transformado no estereotipo de um típico americano - arrogante, sarcástico, valentão, bom de briga, garanhão e que é bom com armas de fogo - deixa a gente com um gosto ruim na boca. Ou será que eu estou errado e todos os astronautas são assim? Vai ver estou mal informado. Afinal de contas, se precisar pousar em algum planeta e tiver que sair na mão com alguns seres que vivem por lá, é bom estar preparado mesmo. O Capitão Kirk já mostrou diversas vezes que isso é necessário. Mas podemos encaminhar essa pergunta ao astronauta brasileiro Marcos Pontes. Ele saberia confirmar.

Cenas de perigos reais encontrados no espaço

Agora junte-se ao orangotango Clyde, à chimpanzé Chita e ao gorila Grodd, para acompanhar as aventuras nessa excelente história de ficção científica e torça para que eles não se unam contra você para te escravizar.






sexta-feira, 4 de novembro de 2016

NEUROMANCER, de William Gibson, ou “Matrix versão 0.5”

Por EDUARDO CRUZ




“A matrix tem suas raízes em games de fliperama primitivos.”



William Gibson é um sujeitinho peculiar. Não entende a fundo de informática, sistemas computacionais e derivados, como ele mesmo admite, e ainda assim escreveu um livro cuja trama descreve indivíduos que utilizam máquinas para invadir sistemas de dados e que se passa em boa parte no ciberespaço. E o fez de forma envolvente e muito consistente. E de quebra ainda ajudou a fundar um nicho na literatura de ficção científica. Esse livro ganhou alguns prêmios, entre eles um Hugo, um Nebula e um Philip K. Dick, prêmios máximos da literatura de FC e fantasia. O livro? Neuromancer. Se você não conhece nem nunca ouviu falar, deveria. Muitos dos conceitos que vou expor adiante e que você certamente já viu por aí em cinema, quadrinhos, animação e até na música já são produtos de mentes que absorveram este impacto inicial da obra de Gibson e seus congêneres, e nos devolveram na forma de obras como “Matrix”, “Ghost in the Shell”, "Transmetropolitan" etc, em uma espécie de
retroalimentação antropofágica cultural. Parece que a realidade e a cultura popular têm cada vez mais se inspirado na obra prima de Gibson (ou será que a ficção de Gibson é que tem se infiltrado cada vez mais em nossa realidade? Hmmmmmm....), que com “Neuromancer” ajudou a criar uma vertente na cultura popular contemporânea que conhecemos como Cyberpunk.

Cyberpunk é o conceito que exprime, sob uma ótica pessimista, comentários a respeito da relação do homem com sua tecnologia, da natureza humana, a expansão da percepção da realidade com o auxílio da tecnologia, o caráter subversivo da relação do indivíduo frente ao sistema, a exploração do ciberespaço como ambiente de interação entre seres humanos e inteligências artificiais, entre outros pontos.

Arte de Josan Gonzalez
Os “heróis” das histórias sempre são indivíduos centrados em seus próprios interesses, párias nesta sociedade
que, se promovem o bem comum, é apenas por efeito colateral involuntário da realização das próprias maquinações. A conectividade é onipresente e as grandes
corporações desempenham o papel dos governos no controle absoluto desse sistema e, portanto, invariavelmente, são os grandes vilões.
"Transmetropolitan", de Ellis e Robertson
Gibson não foi o autor a cunhar esse termo, mas ajudou muito a popularizá-lo em sua obra, ao lado de outros escritores, como Bruce Sterling, John Shirley, Neal Stephenson,
entre outros. Se pudéssemos resumir o cyberpunk em uma frase, seria “Alta tecnologia, baixo custo de vida” (high tech, low life).


Arte conceitual da adaptação cinematográfica de "Neuromancer", projeto abandonado

Pimeiro livro de uma trilogia (composta pelas sequências Count Zero e Mona lisa Overdrive), em Neuromancer, acompanhamos o anti-herói Case, um ex-cowboy (cowboy=hacker) impossibilitado de exercer seu ofício, envenenado por seus patrões após uma tentativa malfadada de roubá-los. Case foi envenenado com uma micotoxina, que danificou seu sistema nervoso central e o impossibilitou de conectar-se à Matrix, a alucinação virtual coletiva gerada por computador, onde cowboys saqueiam sistemas de informação de empresas e bancos, atrás de lucro e fama.


Capa de uma edição americana de Neuromancer
Seus antigos chefes o deixam escapar com o dinheiro roubado, pois sabiam que Case o gastaria completamente, sem conseguir se curar. Desde então, Case passa seus dias em Chiba City, consumindo drogas, financeiramente quebrado, praticando crimes e trapaças para sustentar seus vícios, em uma espiral descendente previsível, que mais cedo ou mais tarde o levaria à morte, e é nessa condição que Molly o encontra e a trama se inicia, com uma cura para os danos de Case em vista.
Molly Millions, uma samurai urbana com implantes de lâminas sob as unhas, é contratada por Armitage, um veterano de guerra, para auxiliá-lo em uma missão: formar uma equipe que consiga realizar um serviço de infiltração e roubo de um item misterioso em Villa Straylight, onde residem os Tessier-Ashpool, um clã tecnológico fundador da megacorporação homônima. Um detalhe: Villa Straylight encontra-se na parte mais protegida de Freeside, uma estação espacial orbitando ao redor da Terra. Com a adição de Peter Riviera, um junkie psicótico com implantes holográficos que podem projetar qualquer imagem em três dimensões, que ele utiliza tanto para performances artísticas como para táticas diversivas, e um construto simulando a personalidade e perícia do falecido Pauley McCoy, vulgo Dixie Flatline, antigo mentor de Case, um lendário cowboy que o ensinou os truques da profissão, e que agora não é mais do que uma ROM confinada em um cartucho.
Dixie Flatline, um "personagem" que só existe
dentro de um cartucho. Simulacros,
construtos de memória...
Um fantasma na máquina.
Equipe completa, partem rumo a Freeside para completar sua missão, mas nada é tão simples quanto parece e forças ocultas podem pôr tudo a perder.

Case e Molly, arte de Juan "Metabarões" Gimenez

Talvez a melhor parte da experiência de ler Neuromancer, apesar seus 32 aninhos de idade seja essa sensação de estranhamento e familiaridade que sentimos simultaneamente enquanto passeamos por suas páginas. Temas como interações via realidade virtual, drones assassinos, ataques de hackers, inteligências artificiais, modificações prostéticas, implantes cibernéticos, interação entre homem e máquina, subculturas desconhecidas da grande massa, grandes corporações e sindicatos criminosos exercendo poder acima do estado.... ou sejE, nem dá mais pra considerar “Neuromancer” uma ficção especulativa, pelo contrário: o lixo, as ruas sujas, tecnologia descartada por todos os cantos, máquinas obsoletas, cabos de fibra ótica pelo chão, os restos que a sociedade de consumo descarta, ansiosa pela próxima novidade a ser adquirida, caos social, o meio ambiente à beira de um colapso... são muitos os elementos abordados na trama que já são parte integrante de nosso quotidiano.
Ou será que uma cena como pessoas andando apressadas de lá para cá, em uma metrópole suja e perigosa, com seus dispositivos modernos de comunicação, conectadas com o mundo, mas ignorando moradores de rua dormindo na calçada” é algo distante demais, pertencente exclusivamente ao gênero cyberpunk da ficção? Isso me remete a um diálogo que li em “Os invisíveis”: “O futuro constantemente manda fragmentos seus ao passado, infiltrando-se em nosso presente. Logo não saberemos mais o que é passado, presente e futuro.” A tecnologia que Gibson nos oferece nas suas descrições é deliciosamente low-tech em relação à nosso momento atual, com algumas exceções, como por exemplo os implantes holográficos de Peter Riviera e o próprio Wintermute, a inteligência artificial, autônoma até um certo ponto (mas ei, não somos todos autônomos até um certo limite? ;>).
Essa tecnologia que Gibson nos apresenta em Neuromancer é puro retrofuturismo: ambientada em um futuro possível, porém tão anacrônica e até obsoleta em alguns aspectos em relação a nosso estágio tecnológico atual, como podemos ver em alguns momentos, por exemplo, no uso de fitas cassete para armazenamento de dados, ou um ou outro dispositivo descrito ao longo do livro.


Cena de "Johnny Mnemonic"

Tão rico, cheio de detalhes – e até flertes com o surrealismo em sua prosa! - e desorientador quanto caminhar nas ruas de Night City, Chiba City, Istambul e outros cenários do próprio livro, alguns leitores reclamam que a narrativa é confusa demais em certas partes.
Sim, pode ser uma leitura bem intensa e caótica, e tenho certeza que essa era justamente a intenção de Gibson, quando ele nos leva por passagens que transitam da Matrix para o mundo real, para logo em seguida cairmos de pára quedas em uma vivência de SimStim (Simulated Stimuli = Estímulos Simulados), um dispositivo que Case utiliza que o permite ver e sentir em tempo real as ações de outra pessoa, numa espécie de link telepático criado por tecnologia, tudo separado apenas por parágrafos diferentes, sem maiores explicações.

Minha primeira leitura do livro foi marcada por essa confusão e desorientação, mas
estejam avisados: esse é o ritmo de Neuromancer em sua quase totalidade, e talvez uma segunda leitura, ou uma leitura beeeeem lenta e atenta aos detalhes, sem pressa de virar a próxima página seja o ideal para o aproveitamento máximo da história sem perder o fio da meada apenas porque em algum momento da história, do nada, Case “flipa” da Matrix para o dispositivo de SimStim compartilhado com Molly, alterando bruscamente o cenário e o ponto de vista da história, enxergando pelos olhos dela, como num game em primeira pessoa. Isso é parte da experiência anfetamínica que é ler esse clássico da literatura cyberpunk!

"Johnny Mnemonic", de 1995
reproduz com perfeição a estética Cyberpunk.
Não, eu não disse que o filme é ótimo, eu só disse que
reproduz com perfeição a estética do Cyberpunk.

A edição de aniversário de 30 anos de Neuromancer, publicada pela editora Aleph inclui três contos de Gibson, publicados pouco antes de Neuromancer, no início da década de 80. São eles: Johnny Mnemonic (primeira aparição da “samurai das ruas”, Molly Millions), “Hotel New Rose” e “Queimando Cromo”. O livro também traz uma longa entrevista concedida pelo escritor em 1986, onde ele detalha a concepção de “Neuromancer”. Em 2016 a Aleph reeditou “Neuromancer”, desta vez com uma capa magnífica de Josan Gonzalez, um artista em sintonia perfeita com o espírito cyberpunk da obra. Porém esta edição não possui os extras da edição anterior, somente a história principal, um posfácio de Adriana Amaral, jornalista e conselheira científica da ABRCiber - Associação Brasileira dos Pesquisadores em Cibercultura, onde comenta a potência do imaginário de “Neuromancer” nas origens da cibercultura, e um pequeno glossário ao final do livro.


Se isso não remete a Cyberpunk,
experimente escutar vendo as imagens do post rs


De qualquer forma, essa é a chance de se expurgar do pecado que é não ter lido "Neuromancer" e conhecer uma ótima história, onde a leitura vai forçar links em sua cabeça o tempo todo, ecos de familiaridade, "vi coisa parecida em algum filme...". Talvez você até lembre dos nomes na referência cruzada... talvez até dê pra fazer uma lista! "Matrix", "Elysium", "A Origem", "Blade Runner", "Estranhos Prazeres", "Freejack"...

Você conhece uma vida inteira de derivados, alguns bons, outros nem tanto.

É hora de acessar a fonte.









Indicações da Zona: Cyberpunk

  • Literatura:
Além das continuações de “Neuromancer, que são “Count Zero” e “Mona Lisa Overdrive”, podemos encontrar algumas obras desse gênero traduzidos em português, como “Snow Crash”, de Neal Stephenson, e alguns livros de Philip K. Dick, como “Andróides sonham com ovelhas elétricas?” e “Fluam minhas lágrimas, disse o policial. Como exemplares da literatura cyberpunk nacional, temos o "Piritas Siderais", de Guilherme Kujawski, e "Santa Clara Poltergeist", de Fausto Fawcett (pois é, aquele mesmo!).




  • Cinema:
No cinema, além dos onipresentes “Matrix” e “Blade Runner”, podemos indicar também “Johnny Mnemonic”, “964 Pinocchio”, “Rubber’s Lover”, “Electric Dragon 80000v” e o sensacional "Tetsuo, the Iron Man".


  • Mangá/anime:
Em mangá/anime, ótimos exemplares de cyberpunk: “Ghost in the Shell”, "Biomega", "Battle Angel Alita" e “Akira” (Que resenhamos AQUI!!!).


  • HQs:
"Transmetropolitan", "Ronin", "100%" (Vertigo), "Hard Boiled", "Tank Girl".