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quarta-feira, 19 de abril de 2017

AS CAVERNAS DE AÇO, de Isaac Asimov, ou "O Blade Runner do Bom Doutor"



Por RICARDO CAVALCANTI


Isaac Asimov é um dos grandes nomes da ficção científica clássica, ao lado de Arthur C. Clarke, e isso não tem como negar. Suas obras popularizaram o gênero, angariando milhões de fãs ao redor do mundo. Dono das costeletas mais famosas da ficção científica, Asimov é russo de nascença, mas migrou com sua família aos três anos de idade para os Estados Unidos, se naturalizando por lá (Em 1981, um cometa foi batizado com seu nome). Mestre e doutor em bioquímica, possui mais de 500 obras publicadas, entre história, matemática, ficção científica, fantasia, astronomia, biologia e química. Neste mês de abril, completam-se vinte e cinco anos de seu falecimento. Por conta disso, nós do Zona Negativa, resolvemos prestar uma homenagem, trazendo algumas obras deste autor que é tão importante para a FC. Iniciamos o mês com o excelente conto “A Última Pergunta” e agora damos sequência trazendo uma obra que trata de um assunto que o autor adora: robôs! As Cavernas de Aço, que é o primeiro livro da chamada “Série dos Robôs!”. Fazem parte ainda da série: “O Sol Desvelado”, “Robôs da Alvorada” e “Robôs e o Império”. De todos, somente o último ainda não foi relançado pela Editora Aleph. Mas ao que tudo indica, deve sair agora no segundo semestre de 2017. A última edição havia saído em 1985 pela editora Record.




As três leis da robótica são:



1ª Lei: - Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja ferido.



2ª Lei: – Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei.



3ª Lei – Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou com a Segunda lei.



Asimov usou e abusou das três leis da robótica que ele mesmo criou. Apesar de ter utilizado tais leis em alguns contos, acabou tomando uma maior dimensão a partir do momento que os juntou, transformando em um livro: “Eu, Robô”. Depois disso, a cada conto, a cada livro, a cada história, parecia que ele estava tentando testar os limites de tais leis. Depois de algum tempo, ainda resolveu incluir mais uma lei, que viria antes das anteriores. A chamada “Lei Zero”:
 

Um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.”



As três leis ainda foram utilizadas na “adaptação” para o cinema de “Eu, Robô”, com Will Smith. Provavelmente, a única coisa da obra de Asimov que está no filme. De resto, não tem mais nada. As leis estão também presentes no conto O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man), que virou filme em 2000 com Robin Williams. Mas não estamos aqui para falar de adaptações para o cinema. Vamos ao que interessa!


Para situar do que se trata “As Cavernas de Aço”, imagine uma história em que dois policiais se vêem obrigados a trabalhar em parceria e que um deles já demonstra insatisfação, mesmo antes de conhecê-lo. Eu sei, eu sei que você já viu isso em Máquina Mortífera, Bad Boys, Tango e Cash, O Último Boy Scout e até em O Último Grande Herói, que utilizam essa mesma premissa (Tudo bem que nesse último o parceiro é uma criança. Mas acho que já deu para entender). A gente já imagina logo o que vai acontecer: os dois se odeiam, mas aprendem a trabalhar juntos, fazendo uma dupla imbatível e resolvem não se separar mais. Já vimos essa dinâmica milhares de vezes e nada poderia nos deixar mais entediados com tanta obviedade. Mas agora imagine que essa história sendo contada a partir da mente de Isaac Asimov. Adicione o fato de que um desses investigadores é um robô e o outro é uma pessoa que odeia os robôs. Acrescente como pano de fundo uma população com um enraizado preconceito contra os robôs por, entre outras coisas, estarem tomando o emprego dos humanos. Além disso, temos uma elite que não quer nem um pouco se misturar com os terráqueos, insatisfeita com os rumos tomados pela Terra, estando disposta a cortar laços, se necessário for. Pronto! Temos os ingredientes iniciais para mais uma grande obra do Bom Doutor.



Estamos no futuro e a Terra sofre com a superpopulação. Quase toda a vida natural foi extinta e cães e gatos só são vistos em zoológicos. Os habitantes vivem em grandes aglomerados em que mal vêem a luz do sol; sofrem com a escassez e o racionamento de alimentos; fazem suas refeições em grandes salões coletivos (uma espécie de bandejão) recebendo somente o suficiente para a própria sobrevivência. Todos vivem com o sonho de um dia poder subir um pouco na escala social e ter algumas regalias e privilégios do tipo: “poder fazer suas refeições em sua própria residência três vezes na semana”. Os robôs são responsáveis por grande parte da mão de obra na Terra, fazendo com que os humanos sejam cada vez mais substituídos por máquinas. Cidades inteiras que são, nada além de enormes bolhas populacionais ou, simplesmente, cavernas de aço. Essas cidades lembram muito a Mega City One dos quadrinhos do Juiz Dredd ou mesmo do filme (estou falando o de 2012 e não aquilo que o Stallone cometeu em 1995).


Enquanto isso, os Mundos Siderais, ex-colônias da Terra que deixaram muito tempo de se sujeitar a seus antigos colonizadores, não estão nem um pouco satisfeitos com os rumos tomados pelos terráqueos. Essas colônias alcançaram a plena independência e se tornaram muito mais avançadas cultural e tecnologicamente; livres de doenças e com baixa densidade populacional. O uso de robôs para o trabalho é visto de forma positiva pelos siderais. Para manter seu modo de vida, são impostas grandes restrições a entrada de humanos nesses mundos. Essas restrições contribuem muito para o aumento do nível de rejeição por parte da população terrestre, causando um clima de tensão constante.



O principal personagem é Elijah Baley, um competente e dedicado investigador de polícia da cidade de Nova York, que recebe a incumbência de investigar o assassinato de um embaixador dos Mundos Siderais. Baley possui suas convicções e, como todo morador das grandes cidades da Terra, não gosta de robôs. Os Siderais exigem que o assassino seja encontrado e para auxiliar e acompanhar a investigação, enviam um robô chamado R. Daneel Olivaw (Um andróide, na verdade. Praticamente um replicante modelo Nexus 6. Mas vamos chamar de robô para deixar o Asimov feliz). Apesar de suas convicções, o detetive se mostra incapaz de não cumprir um dever profissional. Os Siderais, por serem culturalmente incapazes de cometer qualquer ato de violência, acreditam que o culpado só poderia ser um terráqueo. Diante de uma realidade em que os nervos estão constantemente à flor da pele, qualquer pessoa se torna um potencial suspeito. O que seu superior mais quer é que Baley resolva logo o caso, não deixando que o robô desvende o crime antes dele.




Para escrever As Cavernas de Aço, Asimov aceitou uma espécie de desafio proposto durante um brainstorm com seu editor. Como era de se esperar, pouco se explora sobre a discussão mais aprofundada dos problemas na sociedade causados pela convivência com os robôs em nosso mundo e a substituição da mão de obra humana pelas dos autômatos (Assunto, aliás, que poderia dar uma discussão bastante interessante. Para se ter uma ideia de como teria terreno para explorar, se fizermos um paralelo com outras obras de ficção científica mais recente como o filme Distrito 9, ou até mesmo no Robocop do José Padilha, vemos que a discussão pode se tornar bastante ampla. Tudo bem, você pode não ter gostado do filme do Padilha e que o que vale mesmo é o do Paul Verhoeven, mas não se pode negar que as discussões sobre o uso de robôs eram muito interessantes; sem contar que mostrava de forma direta como o uso da “informação” pode ser utilizado para a manipulação da opinião pública. Para mim, o filme já valeu por conta disso) Apesar de tais discussões não estarem presentes no livro, não diminui nem um pouco a sua importância. 

 

O livro é uma ótima história policial, que se passa em um mundo pessimista e desprovido de esperança, que poderia tranquilamente estar situado na caótica realidade do mundo criado por Philip K. Dick em “Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, ou sua versão cinematográfica: “Blade Runner: O Caçador de Andróides” de Ridley Scott. Asimov pega um tema que já foi explorado à exaustão e nos presenteia com uma nova visão, nos guiando por caminhos inesperados, nos encantando com a sua capacidade de nos surpreender.



Nessa história, são apresentados pela primeira vez os personagens Elijah Baley e R. Daneel Olivaw, que ainda seriam utilizados mais vezes pelo autor. Ambos aparecem nas sequências da Série de Robôs. Além disso, R. Daneel tem uma grande importância na mega-saga Fundação. Mas vamos deixar para falar de Fundação em outro post. A história de As Cavernas de Aço teve uma adaptação para a TV inglesa em 1964 no programa BBC2 da série Story Parade. Nada mais, nada menos que um dos mestres do Terror, Peter Cushing (o de verdade, não o digital que você viu em "Rogue One") fazia o papel do detetive Elijah Baley. 
 



Muitas pessoas que não tiveram contato com a obra de Asimov e não sabem ainda por onde começar, podem considerar esta como uma boa porta de entrada para conhecer o autor. O gênero “ficção científica policial” dá muito certo em “As Cavernas de Aço”. Mistérios, conspirações e segredos permeiam a história de forma a te prender, desejando saber o que acontece na próxima página. Mais uma boa história do Bom Doutor que parecia uma máquina na hora de escrever. Seria ele também um robô? Nunca saberemos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O PERFURANEVE, de Lob + Rochette + LeGrand, ou "Próxima parada: Extinção. Observe atentamente o vão entre o trem e a plataforma."








Por EDUARDO CRUZ



"Percorrendo a branca imensidão de um eterno e congelante inverno de solidão, corre, de uma ponta à outra da Terra, um trem cujo movimento nunca se encerra...
É o Expresso Perfuraneve, com seus mil e um vagões.
É o último bastião da civilização!" 


Ninguém sabe ao certo como começou: se foi por causa da guerra, se foi um acidente, ou um cataclismo natural. De repente, em uma tarde de verão, um vento gelado varreu tudo, e o mundo mergulhou em uma nova era glacial, matando toda a vida na Terra. Os únicos sobreviventes agora residem em um trem, que permanece em movimento perpétuo. E dentro dele, as últimas pessoas da Terra tentam seguir com algum tipo de vida, confinados entre os vagões, mas ainda agarrados a estruturas do velho mundo. 


"Neste mundo fechado e dividido tanto os abastados quanto os perdidos têm como horizonte, única e somente, as paredes e limites de vagões e mentes."

A sociedade deste trem se divide entre os "Vagões Dourados", onde vive a elite, com poderes e privilégios plenos, os vagões centrais, onde residem cidadãos de uma espécie de classe média, e os vagões do fundo, onde os habitantes vivem à míngua, completamente isolados num gueto, sem comunicação com o restante do trem. Uma divisão social rígida e opressora, e que dispõe de muitos artifícios para que o status quo seja perpetuado, tais como religião, jogos de azar, prostíbulos e vagões de lazer, e em última instância, até mesmo uma força militar! sim, o trem é um microcosmo perfeito de nossa sociedade, e só não vê isso quem não quer, logo nas primeiras páginas da HQ.



Técnicas de controle de massas...

... de uma ponta à outra do espectro comportamental individual.

Essa é uma breve descrição de "O Perfuraneve", uma memorável HQ européia - da França, para ser mais exato - um excelente conto sobre um futuro distópico. E, por se tratar de uma distopia, a Aleph não poderia ficar sem lançar isso por aqui. A editora, já conhecida por seu catálogo recheado de clássicos da literatura de ficção científica compilou as três histórias - "O Perfuraneve", "O Explorador" e "A Travessia" - nesse belíssimo volumão, com um papel LWC de gramatura altíssima. De grandes dimensões (21,5x29cm) e pesando mais de 1kg, essa edição nacional é um livraço, o que me fez demorar a terminar a leitura, já que era impossível abrir no ônibus ou ler na cama, por exemplo. Mas muito bonito e caprichado, brincadeiras à parte.


As três HQs, compiladas em volume único aqui no Brasil

Em "O Perfuraneve", HQ lançada em 1984 (que coincidência, não? rs), acompanhamos Proloff, um habitante dos vagões dos fundos que tenta avançar para a frente do trem. Durante sua jornada vemos um pouco, ainda que de forma apressada, do funcionamento dessa sociedade do trem: como os alimentos são processados/cultivados, a organização religiosa, que substituiu Deus pela Santa Locomotiva, e as fontes de diversão da elite, hedonista e decadente. Lá ele descobre que há um problema com a propulsão da locomotiva. A máquina está perdendo sua velocidade gradualmente. Proloff também descobre o que a elite acha ser a causa do problema e os planos para resolver isso, ambas as conclusões monstruosas.


"Percorrendo a branca imensidão de um eterno e congelante inverno de solidão, corre, de uma ponta à outra da Terra, um trem cujo movimento nunca se encerra."

Nas duas histórias seguintes, "O Explorador" e "A Travessia", produzidas mais de uma década depois da original, devido à morte de Jacques Lob, quem escreve os roteiros é Benjamin LeGrand. Dessa vez a máquina onde se passam as duas histórias não é o Perfuraneve, e sim o Desbrava-gelo, uma locomotiva ainda maior, e que é regida por um conselho de líderes, tendo como integrantes o líder político, o líder religioso, o chefe da segurança, entre outras autoridades. As questões sobre autoritarismo, estratificação social e manipulação continuam, e são até mais bem desenvolvidas. Vemos inclusive uma força de controle que não havia na primeira história: a mídia. Existe uma emissora de tevê, que além de doutrinar, sorteia viagens de realidade virtual, o único escape fugaz das massas para a miséria em que estão enfiadas. A religião é cheia de dogmas, que engessam as pessoas nas posições exatas que o sistema deseja que elas permaneçam. Além disso existem os desbravadores, equipes de trabalhadores que saem do trem com pesados trajes de proteção, para realizarem reparos, exploração e quaisquer outros motivos que a liderança do trem alegue para utilizá-los. Puig Vallès, um desbravador que questionou demais a respeito de uma dessas missões é preso, e a partir daí vemos uma série de desdobramentos que colocarão o delicado equilíbrio social do Desbrava-gelo por um fio! 


Escolha seu veneno: a mídia...

... a religião...

... ou o estado totalitário mesmo!
Ainda bem que não vivemos nesse trem. Não, pera...


Em 2013 foi lançada uma adaptação da HQ, que só chegou aos cinemas brasileiros mais de um ano depois. Roteirizada e dirigida pelo coreano Joon Ho Bong (mesmo diretor de "O Hospedeiro", o filme mais lucrativo já produzido na Coréia do Sul), "O expresso do amanhã" é o primeiro filme ocidental do diretor. Estrelado por Chris "Capitão América" Evans, mas também com bons nomes como John Hurt (R.I.P.), Ed Harris e Tilda Swinton. Apesar das diferenças em relação à HQ o filme funciona, e foi um dos melhores que eu assisti em 2014. Mesmo com um final diferente, com direito à plot twist e cenas de ação à exaustão, um vício das produções ocidentais atuais, a essência da HQ se faz sentir e a cenografia e caracterização da produção fazem as duas horas do filme valerem muito a pena. Como eu sempre digo pra minha mulher: "Nunca vi um filme coreano realmente ruim" rsrsrs. 






"O expresso do amanhã" a.k.a Snowpiercer (2013)
CompReto e dubRado


Pra quem gosta de distopias, tanto a HQ quanto o filme são um prato cheio. Quem aprecia HQs Européias, vai curtir o estilo de Jean-Marc Rochette, que inclusive tem uma evolução da primeira para as outras duas histórias, perceptível não só em seu traço, mas principalmente na fluidez narrativa, no ato de contar a história de um quadro para outro. Além das três HQs, essa edição nacional tem um posfácio do cartunista Jean-Pierre Dionnet, onde ele fala um pouco a respeito da HQ e da adaptação cinematográfica, com imagens de produção da adaptação.




Uma alegoria que mostra o vício da humanidade em repetir os próprios erros, ao criar um microcosmo idêntico ao que foi responsável pela destruição do mundo, "O perfuraneve" começa lento, mas engrena a leitura rapidamente, e à medida que a trama se desenrola, não dá mais pra parar de ler, como uma locomotiva sem freios, até suas páginas finais. Uma história sobre o egoísmo incorrigível do ser humano, e como pessoas inventam hierarquias e castas até em situações limite.

E é por isso que eu prefiro os macacos.











FUI!!! até a próxima!!