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domingo, 14 de janeiro de 2018

CREEPSHOW, de Stephen King e Bernie Wrightson, ou "Mais uma colaboração entre três monstros, digo, três MESTRES!"




Por EDUARDO CRUZ


Então, aproveitando a deixa do último post, que trazia uma parceria improvável de dois pesos pesados na HQ Espíritos dos Mortos, a improvável, mas bem vinda dobradinha Edgar Allan Poe + Richard Corben, o ano de 2017 nos trouxe (com só três décadas de atraso, mas ei, antes tarde do que nunca!) outra parceria impressionante: Stephen King e Bernie Wrightson. Me recuso a falar sobre King por razões óbvias. Quem não conhece Stephen King, o autor de horror mais vendido de todos os tempos? Quem não conhece o palhaço Pennywise ou a cidade de Castle Rock, onde são ambientadas a maioria das histórias de King? Carrie, a Estranha? Conta Comigo? À Espera de Um Milagre? Um Sonho de Liberdade? A Dança da Morte? Louca Obsessão? quem não conhece nada disso que eu citei aí em cima pode ir embora.

Old Stephen had a farm... IA IA IO!

OK, agora que aquele pessoal que estava lá no cantão com o dedo no nariz e que não conhece Stephen King foi embora, vamos continuar. Creepshow é um empreendimento transmídia: em 1982 saíram, quase que simultaneamente, uma HQ, roteirizada pelo próprio King, nosso monstro nº1, e ilustrada pelo co-criador do Monstro do Pântano, Bernie Wrightson, nosso monstro nº2; além disso foi também lançado um filme adaptando a HQ (ou seria a HQ a quadrinização do filme? hmmm...), também roteirizado por King e dirigido por George Romero, nosso monstro nº3. Uma brincadeira transmídia no início dos anos 80.


Da esquerda para a direita: King, Romero, e à frente Tom Savini, o eterno Sex Machine.

Uma curiosidade: O menino do filme, que tem seu gibi jogado no lixo pelo pai, é ninguém menos que Joe Hill, filho do Próprio Stephen King! Hoje em dia Hill também escreve, e tem bons trabalhos como A Estrada da Noite, O Pacto e NOS4A2, e a HQ Locke and Key, que já resenhamos aqui na Zona.




 Como não encontrei o filme no YouTube pra postar aqui, 
fiquem só com o trailer mesmo...

 ... e com o Ed Harris (ainda com cabelos!) e dançando Disco!

A HQ Creepshow é uma homenagem a um gênero consagrado já perdido no passado: as antologias de horror. Revistas em quadrinhos como Creepy, Crime SuspenStories e Eerie, só pra mencionar as mais famosas, que traziam histórias curtas pavorosas, que iam de "simples" homicidas insanos a horrores sobrenaturais. Esse gênero fez a cabeça da garotada nos anos 50, até que a histeria coletiva provocada pelo psiquiatra Fredric Wertham, que alegava um desejo de sanear moralmente a população, acabou provocando a extinção do gênero, com a ajuda do famigerado Comics Code Authority. Somente as revistas que portassem esse selinho, através de regulamentação governamental, poderiam ser comercializadas. Obviamente, histórias com sexo, violência, e qualquer outra coisa que ofendesse a sensibilidade exacerbada dos delicados censores era vetada. Hoje em dia temos reedições desse material na íntegra, lá fora pela Dark Horse, que publica volumes de Creepy. Aqui no Brasil, tanto a Mythos quanto a Devir estão republicando material da Creepy e da Cripta, como era conhecida aqui no Brasil a publicação mais famosa do gênero.



Se não quiser ir para o inferno, só leia gibis com esse selinho na capa!
Edição da RGE
Edição da Record
Reedição da Devir
Reedição da Mythos

Ao que parece, o juvenil King foi criado lendo justamente as famigeradas revistinhas de horror (e isso explica muita coisa hehehehe), e é disso que se trata Creepshow: uma saudosa homenagem aos bons tempos em que a molecada podia ver esquartejamentos, estrangulamentos e outras atrocidades nos seus inocentes gibizinhos. Jack Kamen, artista oriundo da EC Comics, editora responsável por muitos destes títulos, assina a capa de Creepshow, só para deixar a homenagem mais descarada.






A HQ, assim como o filme, tem cinco histórias curtas. Pra quem já assistiu o filme, nenhuma novidade aqui. São os contos:

Dia dos Pais


O conto que abre a HQ é uma história de relações familiares um tanto... drásticas. 


 

A Morte Solitária de Jordy Verrill


Um fazendeiro (interpretado no filme pelo próprio Stephen King) presencia a queda de um meteoro em seu terreno e acha que se deu bem. Ele não poderia estar mais enganado...


 

A Caixa


Neste conto vemos que a curiosidade mata muito mais do que apenas gatos, quando empregados de uma universidade decidem mexer em um caixote que estava intocado há décadas. 


 

Indo Com a Maré


Marido traído decide aprontar com a esposa e seu amante, mas claro, as coisas não saem como o planejado...


 


Vingança Barata


Um milionário germófobo passa por um problema de infestação de baratas em seu apartamento aparentemente estéril. As consequências são grotescas. Tenho uma tia que desenvolveu fobia de baratas depois de assistir a esta história adaptada no filme do Romero. É sério! rsrsrsrsrsrsrs...




Não dá pra negar que as situações de horror contidas na HQ estão um tanto quanto datadas para essa geração perversa do leite com pêra de hoje em dia, mas o valor histórico do gibi é inegável: a parte gráfica a cargo de Wrightson, que nunca decepcionou, e o fato de ser a primeira incursão de King em histórias em quadrinhos fazem de mais esse lançamento da coleção DarkSide Graphic Novel um clássico instantâneo, um registro documental de um tipo de HQ que não se produz mais. Seus cinco contos estão mais para o divertido, em vários momentos dialogando com um certo humor negro - por vezes involuntário - e o trash rasgado do que para o assustador-de-tirar-o-sono.





Então, fica o aviso: Fãs de Stephen King podem se decepcionar se estiverem esperando um trabalho mais sofisticado do escritor. Creepshow é uma espécie de cápsula do tempo, um lembrete de como eram as HQs de horror no tempo de nossos avós. Mas é uma emulação perfeita dos gibizinhos que o Wertham tanto quis erradicar da face da Terra, só que muito, mas muito bem ilustrados...




 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

EU SOU A LENDA, de Richard Matheson, ou "George Romero Begins"





Por RICARDO CAVALCANTI



No último dia 16 de julho o mundo perdeu George A. Romero, um dos maiores e mais importantes nomes do cinema. O diretor que definiu a mitologia dos zumbis como conhecemos hoje, influenciou e continua influenciando cineastas mundo afora. Nesses momentos, o que mais se vê são homenagens dissecando a sua obra: sua filmografia comentada, indicações sobre “o que você precisa saber”, listas definitivas dos filmes que você não pode deixar de ver, etc. No entanto, no meio de tanta obviedade, nós do Zona Negativa resolvemos fazer uma homenagem um pouco diferente. Ao invés de comentarmos suas obras, ou falar sobra sua influência, ou indicar seus filmes, resolvemos falar do livro que foi a pedra fundamental que ajudou o diretor a desenvolver o conceito de morto-vivo apresentado em seu “Night of The Living Dead” (A Noite dos Mortos Vivos) de 1968. Se você já gostou de algum filme ou série envolvendo morto-vivo/zumbi, agradeça a estes dois homens: George A. Romero e, antes dele, Richard Matheson. 
EU sou a lenda

Richard Matheson
 

Mas quem é esse autor e que obra é essa que influenciou tanto Romero? Richard Matheson, além de muitos romances e contos, flertou bastante com o cinema e a TV. Escreveu, por exemplo, alguns episódios da série clássica Twilight Zone (Além da Imaginação) e para a série Night Galery (ambos de Rod Sterling). Algumas de suas obras se transformaram em filmes. Dentre elas, podemos destacar "A Casa da Noite Eterna", de 1973 com o nosso macaco Cesar preferido, Roddy McDowell;



Além disso, escreveu o livro sobre viagem no tempo+romance, “Bid Time Return” que foi adaptado para o cinema em 1980 com o nome “Somewere in Time” (Em Algum Lugar do Passado), protagonizado pelo Superman que vale, Christopher Reeve.  


Richard Matheson lançou em 1954 "Eu Sou A Lenda" (sim, aquele mesmo que deu origem ao filme com o Will Smith). O livro se tornou logo um grande sucesso e, além da adaptação de 2007 (que previu que o mundo com o filme Batman v Superman seria caótico e sem esperanças) recebeu outras duas adaptações. 


Seria essa a origem da praga na adaptação de 2007?



A primeira foi "Mortos Que Matam" (The Last Man on Earth) de 1964, com um dos mestres do terror, Vincent Price. O filme tentou, em muitos pontos, ser bastante fiel ao livro. No entanto, toda a essência do personagem pareceu se perder, além de a história se desenvolver de forma bastante arrastada, muito diferente do clima do livro, que em nenhum momento nos dá essa sensação. 


Em 1971 estreia “The Omega Man” (A Última Esperança da Terra). Para quem reclama que os filmes com o Will Smith acabam sempre se tornando um filme do Will Smith (sempre iguais), saiba que antes dele existia Charlton Heston. Mesmo sendo um grande canastrão que parece estar sempre interpretando mesmo papel, o presidente da NRA (Associação Nacional do Rifle), está do jeito que se sente mais a vontade: atirando para todos os lados. Em alguns momentos, parece mais como uma propaganda de armas inserida no meio do filme. Com um sorriso no rosto, mostrando que estava de certa forma, se divertindo com tudo aquilo, Charlton Heston entrega uma atuação “mais do mesmo” em um filme sem alma. Ok, admito que esse comentário pode ter uma boa dose de implicância minha. Assista e tire suas próprias conclusões.  
 



No livro "Eu Sou a Lenda", entramos na vida de um homem que se vê solitário num mundo em que todos foram contaminados por alguma praga desconhecida. Seu nome é Robert Neville. O personagem perdeu todos os seus amigos, parentes, esposa e filha e se vê no mundo em que as pessoas foram infectadas por um vírus desconhecido e estão retornando da morte, sedentos por sangue. De alguma forma que Neville não entende, ele é imune àquela "contaminação".


A princípio imagina que todos haviam sido transformados em vampiros, pois o comportamento das pessoas remete às lendas que giram em torno do morador mais conhecido da Romênia: só aparecem durante a noite, o alho os afugenta e só morrem com uma estaca de madeira enfiada no peito. Com o passar do tempo, constata que não são necessariamente vampiros, pois algumas coisas passam a não fazer muito sentido. As pessoas se movimentam de uma forma em que ficam todos vagando de maneira lenta e desordenada, buscando alimento e agindo por instinto ao sentir o cheiro de sangue; momento este em que atacam em grupos, se comportando como lobos em uma matilha. Para melhor conceituar a leitura, apesar de o comportamento dessas pessoas ser hoje facilmente identificado como sendo o de zumbis, na época esse conceito ainda não existia.



Numa narrativa que vai avançando para níveis cada vez mais claustrofóbicos, num ritmo ágil em que a sensação de perigo iminente está presente o tempo todo, Richard Matheson vai nos levando para dentro da psique do personagem, numa espiral descendente de insanidade. Recluso em sua casa a maior parte do tempo, sem ter como sair após o sol se pôr e imerso em uma vida solitária, estaria o Robert Neville ficando louco (e nos levando junto), ou o mundo todo se transformou? Vamos descobrindo e entendendo essa realidade junto com o personagem. Sua ansiedade e medo vão nos contaminando e nos jogando no centro de suas paranóias. Sua luta pela sobrevivência passa a ser a nossa luta também.


Durante a leitura, é como se o livro te pegasse pela mão, vendasse os seus olhos e te conduzisse por algum lugar desconhecido e cheio de perigos pelo caminho. Em alguns momentos, podemos sentir o desespero, angustia e pavor do personagem.
 


De todas as adaptações da obra de Richard Matheson, quem mais soube aproveitar os elementos e criar algo novo e com identidade própria, foi George A. Romero, que fincou os alicerces e abriu um novo gênero a ser explorado. Se quiser entender as origens do conceito de zumbi inserido e disseminado na cultura pop, essa é a obra seminal.



Agora tranque as portas e janelas, mantenha as luzes apagadas e tente não fazer movimentos bruscos para não ser localizado pela horda de mortos-vivos que estão te esperando do lado de fora.