Então, aproveitando a deixa do último post, que trazia uma parceria improvável de dois pesos pesados na HQ Espíritos dos Mortos, a improvável, mas bem vinda dobradinha Edgar Allan Poe + Richard Corben, o ano de 2017 nos trouxe (com só três décadas de atraso, mas ei, antes tarde do que nunca!) outra parceria impressionante: Stephen King e Bernie Wrightson. Me recuso a falar sobre King por razões óbvias. Quem não conhece Stephen King, o autor de horror mais vendido de todos os tempos? Quem não conhece o palhaço Pennywise ou a cidade de Castle Rock, onde são ambientadas a maioria das histórias de King? Carrie, a Estranha? Conta Comigo? À Espera de Um Milagre? Um Sonho de Liberdade? A Dança da Morte? Louca Obsessão? quem não conhece nada disso que eu citei aí em cima pode ir embora.
Old Stephen had a farm... IA IA IO!
OK, agora que aquele pessoal que estava lá no cantão com o dedo no nariz e que não conhece Stephen King foi embora, vamos continuar. Creepshow é um empreendimento transmídia: em 1982 saíram, quase que simultaneamente, uma HQ, roteirizada pelo próprio King, nosso monstro nº1, e ilustrada pelo co-criador do Monstro do Pântano, Bernie Wrightson, nosso monstro nº2; além disso foi também lançado um filme adaptando a HQ (ou seria a HQ a quadrinização do filme? hmmm...), também roteirizado por King e dirigido por George Romero, nosso monstro nº3. Uma brincadeira transmídia no início dos anos 80.
Da esquerda para a direita: King, Romero, e à frente Tom Savini, o eterno Sex Machine.
Uma curiosidade:
O menino do filme, que tem seu gibi jogado no lixo pelo pai, é ninguém
menos que Joe Hill, filho do Próprio Stephen King! Hoje em dia Hill também escreve, e tem bons trabalhos como A Estrada da Noite, O Pacto e NOS4A2, e a HQ Locke and Key, que já resenhamos aqui na Zona.
Como não encontrei o filme no YouTube pra postar aqui,
fiquem só com o trailer mesmo...
... e com o Ed Harris (ainda com cabelos!) e dançando Disco!
A HQ Creepshow é uma homenagem a um gênero consagrado já perdido no passado: as antologias de horror. Revistas em quadrinhos como Creepy, Crime SuspenStories e Eerie, só pra mencionar as mais famosas, que traziam histórias curtas pavorosas, que iam de "simples" homicidas insanos a horrores sobrenaturais. Esse gênero fez a cabeça da garotada nos anos 50, até que a histeria coletiva provocada pelo psiquiatra Fredric Wertham, que alegava um desejo de sanear moralmente a população, acabou provocando a extinção do gênero, com a ajuda do famigerado Comics Code Authority. Somente as revistas que portassem esse selinho, através de regulamentação governamental, poderiam ser comercializadas. Obviamente, histórias com sexo, violência, e qualquer outra coisa que ofendesse a sensibilidade exacerbada dos delicados censores era vetada. Hoje em dia temos reedições desse material na íntegra, lá fora pela Dark Horse, que publica volumes de Creepy. Aqui no Brasil, tanto a Mythos quanto a Devir estão republicando material da Creepy e da Cripta, como era conhecida aqui no Brasil a publicação mais famosa do gênero.
Se não quiser ir para o inferno, só leia gibis com esse selinho na capa!
Edição da RGE
Edição da Record
Reedição da Devir
Reedição da Mythos
Ao que parece, o juvenil King foi criado lendo justamente as famigeradas revistinhas de horror (e isso explica muita coisa hehehehe), e é disso que se trata Creepshow: uma saudosa homenagem aos bons tempos em que a molecada podia ver esquartejamentos, estrangulamentos e outras atrocidades nos seus inocentes gibizinhos. Jack Kamen, artista oriundo da EC Comics, editora responsável por muitos destes títulos, assina a capa de Creepshow, só para deixar a homenagem mais descarada.
A HQ, assim como o filme, tem cinco histórias curtas. Pra quem já assistiu o filme, nenhuma novidade aqui. São os contos:
Dia dos Pais
O conto que abre a HQ é uma história de relações familiares um tanto... drásticas.
A Morte Solitária de Jordy Verrill
Um fazendeiro (interpretado no filme pelo próprio Stephen King) presencia a queda de um meteoro em seu terreno e acha que se deu bem. Ele não poderia estar mais enganado...
A Caixa
Neste conto vemos que a curiosidade mata muito mais do que apenas gatos, quando empregados de uma universidade decidem mexer em um caixote que estava intocado há décadas.
Indo Com a Maré
Marido traído decide aprontar com a esposa e seu amante, mas claro, as coisas não saem como o planejado...
Vingança Barata
Um milionário germófobo passa por um problema de infestação de baratas em seu apartamento aparentemente estéril. As consequências são grotescas. Tenho uma tia que desenvolveu fobia de baratas depois de assistir a esta história adaptada no filme do Romero. É sério! rsrsrsrsrsrsrs...
Não dá pra negar que as situações de horror contidas na HQ estão um tanto quanto datadas para essa geração perversa do leite com pêra de hoje em dia, mas o valor histórico do gibi é inegável: a parte gráfica a cargo de Wrightson, que nunca decepcionou, e o fato de ser a primeira incursão de King em histórias em quadrinhos fazem de mais esse lançamento da coleção DarkSide Graphic Novel um clássico instantâneo, um registro documental de um tipo de HQ que não se produz mais. Seus cinco contos estão mais para o divertido, em vários momentos dialogando com um certo humor negro - por vezes involuntário - e o trash rasgado do que para o assustador-de-tirar-o-sono.
Então, fica o aviso: Fãs de Stephen King podem se decepcionar se estiverem esperando um trabalho mais sofisticado do escritor. Creepshow é uma espécie de cápsula do tempo, um lembrete de como eram as HQs de horror no tempo de nossos avós. Mas é uma emulação perfeita dos gibizinhos que o Wertham tanto quis erradicar da face da Terra, só que muito, mas muito bem ilustrados...
No
último dia 16 de julho o mundo perdeu George A. Romero, um dos maiores e
mais importantes nomes do cinema. O diretor que definiu a mitologia
dos zumbis como conhecemos hoje, influenciou e continua influenciando
cineastas mundo afora. Nesses momentos, o que mais se vê são
homenagens dissecando a sua obra: sua filmografia comentada,
indicações sobre “o que você precisa saber”, listas definitivas
dos filmes que você não pode deixar de ver, etc. No entanto, no
meio de tanta obviedade, nós do Zona Negativa resolvemos fazer uma
homenagem um pouco diferente. Ao invés de comentarmos suas obras, ou
falar sobra sua influência, ou indicar seus filmes, resolvemos falar
do livro que foi a pedra fundamental que ajudou o diretor a
desenvolver o conceito de morto-vivo apresentado em seu “Night of
The Living Dead” (A Noite dos Mortos Vivos) de 1968. Se você já
gostou de algum filme ou série envolvendo morto-vivo/zumbi, agradeça
a estes dois homens: George A. Romero e, antes dele, Richard
Matheson.
EU sou a lenda
Richard Matheson
Mas
quem é esse autor e que obra é essa que influenciou tanto Romero?
Richard Matheson, além de muitos romances e contos, flertou bastante
com o cinema e a TV. Escreveu, por exemplo, alguns episódios da
série clássica Twilight Zone (Além da Imaginação) e para a série
Night Galery (ambos de Rod Sterling). Algumas de suas obras se
transformaram em filmes. Dentre elas, podemos destacar "A Casa
da Noite Eterna", de 1973 com o nosso macaco Cesar preferido,
Roddy McDowell;
Além
disso, escreveu o livro sobre viagem no tempo+romance, “Bid Time
Return” que foi adaptado para o cinema em 1980 com o nome “Somewere
in Time” (Em Algum Lugar do Passado), protagonizado pelo Superman
que vale, Christopher Reeve.
Richard
Matheson lançou em 1954 "Eu Sou A Lenda" (sim, aquele mesmo que deu
origem ao filme com o Will Smith). O livro se tornou logo um
grande sucesso e, além da adaptação de 2007 (que previu que o
mundo com o filme Batman v Superman seria caótico e sem esperanças)
recebeu outras duas adaptações.
Seria essa a origem da praga na adaptação de 2007?
A
primeira foi "Mortos Que Matam" (The Last Man on Earth) de
1964, com um dos mestres do terror, Vincent Price. O filme tentou,
em muitos pontos, ser bastante fiel ao livro. No entanto, toda a
essência do personagem pareceu se perder, além de a história se
desenvolver de forma bastante arrastada, muito diferente do clima do
livro, que em nenhum momento nos dá essa sensação.
Em
1971 estreia “The Omega Man” (A Última Esperança da Terra).
Para quem reclama que os filmes com o Will Smith acabam sempre se
tornando um filme do Will Smith (sempre iguais), saiba que antes dele
existia Charlton Heston. Mesmo sendo um grande canastrão que parece
estar sempre interpretando mesmo papel, o presidente da NRA
(Associação Nacional do Rifle), está do jeito que se sente mais a
vontade: atirando para todos os lados. Em alguns momentos, parece
mais como uma propaganda de armas inserida no meio do filme. Com um
sorriso no rosto, mostrando que estava de certa forma, se divertindo
com tudo aquilo, Charlton Heston entrega uma atuação “mais do
mesmo” em um filme sem alma. Ok, admito que esse comentário pode
ter uma boa dose de implicância minha. Assista e tire suas próprias
conclusões.
No
livro "Eu Sou a Lenda", entramos na vida de um homem que se
vê solitário num mundo em que todos foram contaminados por alguma
praga desconhecida. Seu nome é Robert Neville. O personagem perdeu
todos os seus amigos, parentes, esposa e filha e se vê no mundo em
que as pessoas foram infectadas por um vírus desconhecido e estão
retornando da morte, sedentos por sangue. De alguma forma que Neville
não entende, ele é imune àquela "contaminação".
A
princípio imagina que todos haviam sido transformados em vampiros,
pois o comportamento das pessoas remete às lendas que giram em
torno do morador mais conhecido da Romênia: só aparecem durante a
noite, o alho os afugenta e só morrem com uma estaca de madeira
enfiada no peito. Com o passar do tempo, constata que não são
necessariamente vampiros, pois algumas coisas passam a não fazer
muito sentido. As pessoas se movimentam de uma forma em que ficam
todos vagando de maneira lenta e desordenada, buscando alimento e
agindo por instinto ao sentir o cheiro de sangue; momento este em que
atacam em grupos, se comportando como lobos em uma matilha. Para
melhor conceituar a leitura, apesar de o comportamento dessas pessoas
ser hoje facilmente identificado como sendo o de zumbis, na época
esse conceito ainda não existia.
Numa
narrativa que vai avançando para níveis cada vez mais
claustrofóbicos, num ritmo ágil em que a sensação de perigo
iminente está presente o tempo todo, Richard Matheson vai nos
levando para dentro da psique do personagem, numa espiral descendente
de insanidade. Recluso em sua casa a maior parte do tempo, sem ter como
sair após o sol se pôr e imerso em uma vida solitária, estaria o
Robert Neville ficando louco (e nos levando junto), ou o mundo todo
se transformou? Vamos descobrindo e entendendo essa realidade junto
com o personagem. Sua ansiedade e medo vão nos contaminando e nos
jogando no centro de suas paranóias. Sua luta pela sobrevivência
passa a ser a nossa luta também.
Durante
a leitura, é como se o livro te pegasse pela mão, vendasse os seus
olhos e te conduzisse por algum lugar desconhecido e cheio de perigos
pelo caminho. Em alguns momentos, podemos sentir o desespero,
angustia e pavor do personagem.
De
todas as adaptações da obra de Richard Matheson, quem mais soube
aproveitar os elementos e criar algo novo e com identidade própria,
foi George A. Romero, que fincou os alicerces e abriu um novo gênero
a ser explorado. Se quiser entender as origens do conceito de zumbi
inserido e disseminado na cultura pop, essa é a obra seminal.
Agora
tranque as portas e janelas, mantenha as luzes apagadas e tente não
fazer movimentos bruscos para não ser localizado pela horda de
mortos-vivos que estão te esperando do lado de fora.