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terça-feira, 5 de junho de 2018

MONSTRESS - DESPERTAR, de Marjorie Liu e Sana Takeda, ou "O novo candidato a ser o próximo Saga."





Por Ray Jr.


"Uma vez, quando éramos escravos e estávamos famintos, comemos o conteúdo do estômago de um menino morto. Dissemos que era diferente de comer o menino. Mas agora eu sei a verdade. Era a mesma coisa."



Vencedora do prêmios Hugo Awards e British Fantasy Awards de melhor história em quadrinhos de 2017, a série da Image Comics criada pela roteirista Marjorie Liu (NYX, X-23) e a desenhista Sana Takeda (X-Men, Ms. Marvel, X-23) é uma das gratas surpresas publicadas no Brasil em 2018. Em um mundo alternativo que mistura elementos de fantasia épica e steampunk, a Federação Humana e os Reinos Arcânicos entraram em guerra após anos de coexistência amistosa. Uma frágil trégua é estabelecida após a Batalha de Constantine, que ceifou inúmeras vidas de ambos os lados. Acompanhamos o início da jornada da protagonista, Maika Halfwolf, passados cinco anos desde o início do período de trégua.


O esquecimento é amigo da barbárie.




Maika Halfwolf é uma arcânica de aparência bem similar a humana, que após sobreviver a guerra, decidiu ir atrás de respostas sobre seu passado. Boa parte da memória de sua infância foi perdida, depois de uma expedição com sua mãe e alguns outros estudiosos ao deserto a procura de um antigo artefato. Algo deu tremendamente errado por lá ao fazerem experimentos com o artefato, o que vitimou a mãe de Maika e marcou a própria de forma permanente. Encontrada por saqueadores no deserto, foi vendida como escrava e mantida em um campo de concentração por uma senhora de escravos que leiloava crianças arcânicas  para a alta sociedade humana. Durante o violento período de guerra, foi libertada mas a  inquietante vontade de descobrir sobre si mesma e as incomuns habilidades que adquiriu após o evento no deserto a faz partir em uma jornada extremamente arriscada.


A fome que anseia por alimento é a mesma que impulsiona a busca por algo que nos complete como indivíduo.


A primeira edição desse volume, que tem um número maior de páginas, já captura o leitor mostrando a grande habilidade narrativa da dupla para desenvolvimento de cenário e personagens, criando um mundo onde o leitor não demora a emergir, e abordando temas como preconceito racial, escravidão, estado teocrático opressor, enfrentamento de monstros internos e os problemas de uma geração pós-guerra alimentada pelo ódio e preconceito em um mundo onde muros dividem territórios Humanos e Arcânicos. Enquanto Maika tenta entender e controlar a criatura obscura que vive em seu interior e se manifesta através do seu antebraço amputado, ela coloca seu arriscado plano inicial em prática e as consequências poderão desencadear o reinício da guerra. Ambos os lados buscam conhecimento e acesso a poderes de deuses antigos adormecidos (Alô, Lovecraft!), e a linhagem da jovem pode ser a chave para o controle desses poderes.


As parceiras no crime, Sana Takeda e Marjorie Liu respectivamente, afiadíssimas na execução dessa bela obra.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn.


Praticamente todas as personagens de destaque e coadjuvantes são femininas, mulheres de personalidades marcantes, física e mentalmente diferentes, algumas ocupando cargos de poder, sendo elas militares de variadas patentes, líderes religiosas, um esquadrão de inquisidoras, uma primeira-ministro, chefes-guerreiras, rainhas e conselheiras, o que denota neste mundo uma forte característica de sociedade matriarcal, tanto do lado humano quanto do Arcânico. Além disso, apêndices ao fim de cada edição trazem trechos de palestras do Professor Tam Tam, um gato falante erudito contemporâneo, que elucidam questões históricas e conectam ainda mais o leitor ao mundo conhecido. E há de se concordar com Neil Gaiman, que diz que Monstress traz alguns dos melhores gatos dos quadrinhos, como o Mestre Ren. 


O audaz Mestre Ren ,com seu par de caudas, nunca perde uma oportunidade de citar os poetas.




Monstress é uma bela mistura dos estilos e tradição dos quadrinhos ocidentais e orientais com uma sinergia vibrante entre roteiro e arte. A edição da Pixel tem um belo acabamento gráfico que já impressiona na capa dura texturizada em verniz. A série está em seu terceiro volume nos EUA e ficamos na torcida para que o ótimo tratamento dado a esse título promissor continue por aqui.

Uma das estupendas capas de Sana Takeda


sexta-feira, 4 de maio de 2018

THE BLACK MONDAY MURDERS, de Jonathan Hickman e Tomm Coker, ou "E se o Tio Patinhas fosse satanista???"









Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA


"Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro".
Mateus 6:24




Falar de economia e entender de economia parece algo críptico, vedado, um conhecimento arcano restrito a uma pequena elite. Aquisição, downsizing, ativo financeiro, Dow Jones, debêntures, dumping, holding, joint venture... essa parte do conhecimento humano parece murada e gradeada por termos que beiram o hermetismo, impossibilitando sua plena compreensão às massas. Mais ou menos como sempre se fez com... a magia. Mas e se os rumos de todos os mercados do mundo, o fluxo das riquezas, sempre indo com mais intensidade em certas direções do que em outras mais necessitadas... e se tudo isso fosse assegurado porque realmente há uma influência metafísica por trás dos bastidores, ditando os rumos do mundo e em quais mãos o poder - e por conseguinte a riqueza - se concentra?

























A trama de The Black Monday Murders, um título da Nova Vertigo Image Comics aborda estas questões, tudo em um tom de mistério, conspiração e misticismo, muitas vezes flertando abertamente com o horror. A HQ nos traz a história de uma conspiração secreta, onde aristocratas e oligarcas manipulam a humanidade por meio do controle econômico, venerando Mammon, uma entidade pagã citada na bíblia, frequentemente associada ao dinheiro. Mammon é a personificação do poder. E qual é a mais intensa e quantificável manifestação de poder que existe nesse nosso meio material, no mundo em que vivemos?
Isso mesmo, O DINHEIRO!


A premissa de "A-história-por-trás-da-história-que-aprendemos-na-escola" lembra outro excelente título de Hickman, Projeto Manhattan. O autor costuma pegar fatos históricos e recontá-los à luz da HQ, por mais absurda que seja a proposta. Hickman pega a realidade e adiciona a ela sua camada de absurdo criativo. E fica assustadoramente crível. Em The Black Monday Murders, por exemplo, há a fantástica reinterpretação acerca dos suícidios fomentados pelo Crash da bolsa de valores de 1929. Os supostos suicídios não passaram de sacrifícios coletivos com o intuito de apaziguar a crise econômica e retomar as rédeas do mercado. Na verdade, há várias intervenções pseudo históricas de Hickman, essa camada extra atribuída a este grande enclave de bruxos financeiros, que vai desde a criação da nomisma, a moeda corrente do período Bizantino, passando pela criação de grandes cartéis financeiros, sempre reverenciando o deus dinheiro e sua personificação, Mammon.


Representação medieval de Mammon

 Alternando entre flashbacks e eventos ocorridos no presente, a HQ começa a engrenar quando um figurão de Wall Street - e descendente de uma dessas famílias dominantes - é assassinado, com estranhos rituais e símbolos presentes por toda a cena do crime. O detetive Theodore Dumas, encarregado da investigação, começa a seguir e decifrar as pistas, e todo um horrível submundo vai se descortinando lentamente, para Dumas e para nós, leitores. Acompanhamos o progresso da investigação de Dumas ao mesmo tempo em que vemos flashbacks expondo estas famílias e seus relacionamentos no passado.






"O primeiro milhão de dólares que vocês fazem é auto financiado. Vocês o conquistam com seu próprio sangue. O custo é sua saúde, sua família, seus amigos. Vocês pagam, compreendem? O erro mais comum é acreditar que se pode acumular ainda mais simplesmente continuando com esse comportamento.
Não podem. Se vocês querem lucrar ainda mais... se querem fazer dinheiro de verdade... acumular poder de verdade... então isso terá de ser feito apoiado nas costas dos outros.
Chamem eles de trabalhadores, chamem de proletários, até mesmo de escravos. Eu não me importo. Apenas saibam, são eles que vocês sacrificarão pelo ganho."


O ritmo da HQ pode ser considerado um tanto lento, mas Hickman não parece ter a menor pressa em desenvolver esse épico dark. A narrativa e a composição de cada edição tem páginas desenhadas, como qualquer HQ convencional, mostrando os acontecimentos nas diferentes linhas temporais, e entre estas páginas existem diagramas de magia, atas de reuniões secretas e alguns relatórios e arquivos com palavras censuradas, no melhor estilo "quem matou Kennedy?", auxiliando na contextualização da história e desdobrando eventos fora da linha narrativa principal, o que não é novidade para quem já leu alguma HQ do Hickman, que adora gráficos e outras formas não convencionais para conduzir a história. A arte de Tomm Coker (Undying Love - Amor Imortal, lançado pela Mythos uns anos atrás) lembra uma mescla de Tommy Lee Edwards com Alex Maleev, e seu traço sombrio não poderia ser mais adequado à trama, ajudando - e muito -, o leitor a absorver todo o tom sombrio e conspiratório da HQ.






Ah, e como não há a menor indicação de que alguma editora vá lançar isso aqui no Brasil, dá pra deixar um link pra ler as scans traduzidas online AQUI. De nada.


*** Um breve parêntese aqui: Eu queria muito saber por que a equipe criativa da HQ resolveu retratar a personagem Grigoria Rotschild com a cara da Casey Calvert, uma das atrizes pornô mais conhecidas em atividade atualmente. Isso atrapalha demais para manter a  concentração na história, mas foi um belo fan service rs...












Então é isso aí: Dinheiro e magia. Conspirações mundiais. A manipulação do mercado através da grande mão invisível da magia. Reflexões sobre o que vem a ser o capital e o possível futuro do sistema capEtalista. Vampiros russos oligarcas. Vodu. Demônios. Mammon. O Código da Vinci para adultos rs. Se vocês estão procurando uma série nova pra chamar de sua, The Black Monday Murders é genial, sem sombra de dúvida, mas não é pra qualquer leitor. É um daqueles gibis que certamente vai desagradar quem está querendo ver ação com uniformes coloridos ou horror escancarado e gratuito demais. Tudo aqui nesse gibi é construído em camadas densas e sem a menor pressa - a HQ começou a ser publicada em 2016 e não saíram nem dez edições ainda - Um argumento fantástico, onde a cada página lida você se pergunta "Por que ninguém pensou nisso antes???". Bom, Jonathan Hickman pensou. O resultado é esse aí. Agora, vão conhecer mais desse título e não fiquem aí lerdando. Afinal, tempo é dinheiro. E dinheiro.... bom, vocês já entenderam...

"A história de Wall Street é escrita em sangue... É uma indústria construída à base de sacrifício humano."






quinta-feira, 1 de junho de 2017

INJECTION, de Warren Ellis + Declan Shalvey + Jordie Bellaire, ou “O Black Mirror de Warren Ellis”






Por EDUARDO CRUZ



Era uma vez cinco loucos que envenenaram o século XXI....

É, macacada.... Deus tá vendo vocês nesse hype aí com a terceira temporada de Black Mirror, hein? A internet ficou um pouquinho mais pentelha uns meses atrás por causa de uma série inglesa que explodiu cabeças por aí, e atingiu até pessoas que não costumam consumir esses produtos audiovisuais com temática fortemente sci-fi. De nerds a “civis”, de bazingueiros até os vítimas de todas as modas, Black Mirror virou um fenômeno de audiência, e grande parte disso se deve muito ao alcance do Netflix. A série, que aborda questões como ética, relacionamentos interpessoais afetados pela tecnologia, inteligências artificiais, desumanização, entre outros temas muito em voga no momento atual, está alcançando pessoas que eu não imaginaria ver discutindo esses temas, por exemplo, na fila do banco. E isso é muito bom. Qualquer coisa que gere reflexões fora do convencional e suscite conversas para além da santíssima trindade “futebol + novela de ontem + o clima” que rege a cartilha de papo furado no Brasil; isso precisa urgentemente de um upgrade mesmo. Ponto para Black Mirror por essa. Mas e aí? Acabou por aí pra quem curtiu a série e as questões que ela aborda ou tem mais disso escondido por aí, pra quem curtiu enveredar por essa senda de ficção científica hard? E se eu dissesse que existe uma HQ sendo publicada atualmente com essa temática, que esse título pertence à editora Image (Nova Vertigo para os íntimos ;>)) e ainda por cima com roteiro de Warren Ellis? Guardem bem esse nome: Injection.


Da mesma equipe do fantásticomagníficosensacional Cavaleiro da Lua, da Marvel – O trio Warren Ellis, Declan Shalvey e Jordie Bellaire - Injection conta a história de cinco especialistas, todos geniais, cada um deles um excêntrico, cada um deles um mestre em sua área de atuação. O grupo, criado para conceber (e realizar) o futuro da cultura humana, é bancado por uma espécie de empreendimento conjunto entre o governo britânico e uma nebulosa multinacional conhecida como FPI Cursus. É formada então a Unidade de Contaminação Cultural Cruzada, uma espécie de think tank onde seus membros têm carta branca para desenvolver novos conceitos e patentes.

Cavaleiro da Lua, da mesma equipe criativa.
É Marvel, mas é bom rs.






A unidade, composto pela cientista Maria Killbride, o especialista em estratégia e geopolítica Simeon Winters, a hacker e tecnologista Brigid Roth, o investigador e consultor em segurança Vivek Headland e o folclorista e... mago (???) Robin Morel, coordenada por Killbride, decide, nas palavras dela, “Fazer o futuro chegar mais rápido”. Para isso, cada um contribuiu com os conhecimentos de suas respectivas áreas e acabaram criando algo estranho. Entretanto, nessa tentativa de tornar o século XXI melhor, mais estranho e mais propício a grandes avanços, algo dá muito errado e após um tempo separado, o grupo é obrigado a se reunir para dar cabo da loucura que eles  próprios criaram e puseram à solta no mundo, antes que as conseqüências terríveis afetem a humanidade.






É sério isso, seu Ellis? Uma referência ao quadro...

"Caminhante sobre o mar de névoa", de Caspar David Friedrich???

Mas o que vem a ser a tal “Injeção” da HQ? Já ouvi algumas pessoas falando que apesar de terem lido a HQ, não entenderam ao certo o que vem a ser o trabalho que a equipe de Killbride desenvolveu e que deu terrivelmente errado. Pois bem: a tal Injection é uma inteligência artificial, projetada utilizando tecnologia e magia xamanística, e jogada na Internet. “Injetada” no mundão, por assim dizer, para se desenvolver, acumular conhecimento e atender às expectativas da equipe de Killbride. A entidade provoca o grupo que a criou, gerando caos e desordem inspirados por mitologia e superstição. Ellis mantém uma newsletter, a Orbital Operations, onde ele deixa mensagens aos assinantes que variam do espirituoso ao estranho – vamos combinar, Ellis é um cara estranho. Não acredita em mim? Assista a esse documentário! – e em uma dessas mensagens Ellis explicou que Injection se trata de uma grande história sobre folclore bretão, magia, tecnologia e futurismo que, além disso, ainda evoca arquétipos literários e da cultura pop britânica, como James Bond, Doctor Who, Bernard Quatermass e Sherlock Holmes. Está tudo lá, de um jeito ou de outro. Pode conferir!


E o que esperar de Injection? Bem, lá fora a série está em sua décima quinta edição, e passando por um pequeno hiato desde setembro de 2016. Ellis tem desenvolvido os personagens com a loucura e competência de sempre, mas mantendo alguns mistérios, como pro exemplo quem está por trás e quais as reais intenções do consórcio FPI Cursus, e o que a entidade Injeção vai fazer a seguir, e mais qualquer outra pedra que ele jogue no caminho, pra dificultar ainda mais a vida dos protagonistas rs. Ou sejE, ainda tem muito background a ser explorado, e Ellis é competente a ponto de não sinalizar, nem voluntária, nem involuntariamente qualquer direção que o leitor possa prever para a trama. A série é vaga e críptica desde seu início. Ellis já começa sem se preocupar em ser didático com o leitor, deixando muita coisa aberta a especulações e interpretações, ou por muitas vezes joga uma série de flashbacks impactantes de um único quadrinho, para logo em seguida voltar à linha narrativa principal. Não muito diferente de qualquer boa série de TV da atualidade, que começa uma cena sem maiores explicações ou recordatórios, e pode demorar um tempo até você se dar conta de que está vendo um flashback. A dupla Declan Shalvey/Jordie Bellaire esbanja competência, e muitas vezes identificamos a época em que certa cena se passa apenas pelo olhar ou pela expressão facial dos personagens, mostrando versatilidade também na construção de cenários, composição das páginas, tudo de uma forma um pouco mais limpa e polida do que a dupla exercitou em Cavaleiro da Lua, por exemplo.
 


Vivek Headland é, de longe, o personagem mais interessante até agora, dentro uma galeria de bons personagens.


O sentimento de acompanhar uma trama tão rica de potencial, imprevisível e empolgante, com diálogos tão inteligentes, pra mim, é igual à época em que eu acompanhava Planetary, outra série incrível do autor. Só espero que não demore a concluir tanto quanto Planetary, que levou uma década para entregar 27 edições, atraso gerado por problemas de saúde de Ellis e a montanha de compromissos profissionais do desenhista John Cassaday.


 
Talvez esse tipo de HQ não excite muito a imaginação da turminha que se contenta com o mais do mesmo das HQs mensais, mas pros que sempre estão atrás de uma história inteligente, com bons diálogos, personagens ao mesmo tempo estranhos e carismáticos (como Vivek Headland, que é o foco do segundo encadernado de Injection, em um arco onde vemos os atípicos métodos do investigador para adquirir todo e qualquer conhecimento possível, tornando-o uma espécie de Sherlock Holmes do século XXI), vale o sacrifício para ficar de olho nas baixas do dólar e pegar os dois encadernados importados que já saíram até agora ou comprar as edições digitais no Comixology. Ou, se você anda com o inglês enferrujado, fique de olho quando isso sair por aqui. Injection é uma das melhores séries em circulação na atualidade, e ouso especular que é só questão de tempo até alguma editora começar a publicar isso por aqui. Por isso, guardem bem esse nome: Injection...


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

THE WICKED + THE DIVINE, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie, ou "Em nome da Minaj, do Bieber e do cínico Kanye, Amém!"







Por EDUARDO CRUZ



"A cada noventa anos, aproximadamente, doze deuses reencarnam no corpo de jovens adultos. Eles são carismáticos, perspicazes e atraem grandes multidões. São capazes de levar qualquer um ao êxtase. Há rumores de que podem realizar milagres. Eles salvam vidas, seja metafórica ou concretamente. Eles são amados. Eles são odiados. Eles são incríveis. E em menos de dois anos estarão todos mortos. Isso já aconteceu uma vez. E vai acontecer de novo..."


Então vamos lá... UM, DOIS, TRÊS, QUATRO!



Um estalo de dedos e estou de volta, digitando e pesquisando em livros grandes e empoeirados sobre divindades obscuras, mesmo com esse gesso de 5kg no braço. Um chamado divino (só não sei qual deus ao certo rs) me fez sair do repouso e escrever sobre essa série fantástica, que de 2014 pra cá já ganhou um British Comics Award e foi indicada para três Eisners! O selo Geektopia, da editora Novo Século, acaba de lançar o primeiro encadernado por aqui, com o arco inicial da série, contendo as 5 primeiras edições de The WicDiv, que lá fora é publicada pela Image, que seria uma espécie de Vertigo renascida e mais forte, feroz e inteligente. A encarnação anterior da Vertigo continua na DC Comics e respirando com a ajuda de aparelhos, sem demonstrar melhoria em seu quadro até o fechamento desse post.

Da esquerda para a direita: A deusa Amaterasu, a protagonista Laura e Lúcifer, o demônio judaico cristão, a estrela da manhã, o adversário, o caluniador, a serpente, o pai da mentira...

Andy Warhol profetizou que no futuro, todos teríamos nossos quinze minutos de fama, uma notoriedade fugaz, notoriedade essa que vemos muitas pessoas desfrutando sem realmente aparentar talento para nada além do próprio talento de estar sempre presente nos meios de comunicação em massa, nas redes sociais e nos trend topics do Twitter. Era de se esperar que após duas gerações vivendo sob essa condição estabelecida nos últimos anos do século XX, isso evoluiria para um estado de fetichização tão grande que hoje em dia a molecada quer ser famosa. Pelo quê exatamente, não importa. Ponto. Porque essa colocação? achei importante contextualizar esse estado de coisas antes de começar a falar da HQ. Sigamos.



De autoria da mesma equipe criativa de "Phonogram", o roteirista Kieron Gillen e o artista Jamie McKelvie, em The WicDiv seguimos os passos de Laura, uma jovem do sul de Londres. Laura é fã de um desses deuses reencarnados, Amaterasu. Em uma apresentação de Amaterasu, Laura entra em êxtase, e ao despertar, conhece Lúcifer (esse mesmo! mas em um corpo feminino) e é convidada a ir aos bastidores do show da deusa. Ali, acontecimentos dramáticos ligam sua vida ao Panteão, o grupo de jovens que subitamente se tornaram avatares vivos de deuses e vivem uma vida badalada de fama e poder (no sentido literal e metafísico mesmo!), alçando status de ídolos pop, com multidões de fãs, amados, idolatrados e também odiados, tudo isso com data para acabar: em dois anos todos eles estarão mortos, para em noventa anos reiniciarem este ciclo, no que é conhecido como "A Recorrência". Através do olhos de Laura, passamos a conhecer algumas dessas divindades do panteão à medida que a história avança para sua conclusão (sim, o autor vai cobrir esse período de dois anos da Recorrência atual e a série está caminhando para a edição 30; Gillen já afirmou que a série vai fechar até no máximo a edição 60, ou sejE, lá fora The WicDiv já está praticamente na metade). Porém, como ainda só li este primeiro encadernado, só vou falar inicialmente das divindades do panteão que dão as caras nesses arco inicial. Não são deuses óbvios como Thor, Zeus ou Shiva. Gillen usa deuses mais obscuros em sua narrativa, o que provoca no leitor um pequeno comichão para fazer uma pesquisa mais profunda. Pra mim, que sempre curti mitologia, foi uma diversão extra além da HQ. São eles(as):



  • Ananke - Não exatamente uma deusa, mas uma entidade poderosa e antiga, responsável pela manutenção das recorrências do Panteão através dos séculos. Demonstra afeto e uma ligação íntima com todos eles.























  • Amaterasu - Anteriormente a inglesa Hazel Greenaway, foi revelada por Ananke como sendo a deusa xintoísta do universo e da luz. Seu símbolo no panteão é o desenho de um sol, a personagem é baseada na cantora Florence Welch, vocalista da banda Florence + The Machine, e Stevie Nicks, do Fleetwood Mac.








    • Baal - Baseado no deus semítico das tempestades, Baal-Hadad. Baal é bissexual e já teve um caso com Inanna, até ele o trair com Lúcifer,. Seu estilo é baeado em astros do R&B, como P. Diddy e Kanye West. Seu símblo no panteão é um bode.











    • Baphomet - Bafomet já conhecia a deusa Morrígan antes da revelação de sua divindade, tendo com ela uma relação conturbada de amor. A inspiração para o personagem vem de MorriseyAndrew Eldritch (do Sisters of Mercy) e Nick Cave. Seu símbolo é o bode com duas espadas. 











    • Inanna - Apesar de Inanna ser a deusa suméria do amor, do erotismo, da paixão, é representada, na série por um rapaz bissexual que tem a estrela de oito pontas como símbolo. Baseado no artista andrógino Prince, Inanna é extravagante em suas roupas, mas tem uma das melhores personalidades do Panteão.


















    • Minerva -  A membro mais nova do Panteão, tem 12 anos e representa a deusa romana da inteligência e astúcia. Tem uma coruja robô que sempre a segue e esse animal é seu símbolo (só consigo lembrar da coruja de "Fúria de Titãs" heheh) . Sua jaqueta nos remete aos Beatles, My Chemical Romance, e no Queen. Sim, me recuso a falar do Coldplay rs.












    • Morrígan - Uma divindade tríplice, aparece em 3 formas: Macha, Badb e Annie. Tem como símbolo uma caveira com máscara de corvo, ela pode curar pessoas e controlar corvos, é um espírito celta que representa a batalha, luta e soberania. É apaixonada por Bafomet e é insirada em Patti SmithSiouxsie SiouxSinéad O'ConnorKate Bush.












    • Sakhmet - A deusa leoa egípcia era uma furiosa guerreira do exército do deus sol Rá. Baseada em Rihanna, ela se comporta como um gato a maior parte do tempo. Seu símbolo é uma leoa.










    • Wōden - Representando o rei da mitologia Nórdica, Odin, Woden sempre está acompanhado de seu séquito de Valquírias. Ele consegue dar poderes a elas e seu estilo é baseado na dupla do Daft Punk.













    • Tara - Não se sabe de qual mitologia Tara vem, mas a budista é a principal opção. Tara é odiada pela maior parte dos fãs do Panteão e os próprios membros não confiam muito nela. Ela é representada elas máscara do teatro e foi baseada em Nicki Minaj e Lady Gaga.












    Se estiver a fim de uma imersão mais profunda, é só conferir a playlist do Spotify, onde Gillen disponibiliza as músicas que o inspiram na criação do título.


    Não, não tem só diálogos. A porrada come solta!!

    Além da inspiração óbvia em cima da música pop atual e seus ídolos, Gillen se inspirou no câncer terminal de seu pai para criar The WicDiv, segundo ele próprio "uma história sobre vida e morte". Mas além disso fica bem claro o comentário a respeito da própria sociedade e este sistema que a indústria do entretenimento construiu para si, que carece sempre de uma nova estrela, um grande messias pop que vai salvar as massas com sua arte. Em nossa sociedade, que tem como base o consumo e o materialismo, é óbvio que a maioria das pessoas, principalmente a juventude, está desligada de qualquer espiritualidade, mas um instinto atávico move as pessoas a procurar um substituto para saciar esta necessidade, tão inerente quanto o próprio impulso gregário do ser humano: construir ídolos para si. Dependendo de seu ponto de vista e sistema de crença pessoal, The WicDiv pode mostrar que estes ídolos pop são o novo bezerro de ouro, em alusão ao episódio bíblico, ou são o nível seguinte desta necessidade do homem de construir para si ídolos que validem seu estilo de vida, a fim de justificar sua própria existência. Neste último caso, os deuses acompanharam os passos da humanidade, sempre em evolução (esperamos que sim!), ao invés de morrerem soterrados nas areias do tempo ou se tornarem mobília empoeirada num canto do inconsciente coletivo, e se transformaram, com o intuito de continuar a serem idolatrados e devotados.





    Além disso, identifiquei um elemento em comum com outra HQ que dispensa quaisquer apresentações: "Sandman", de Neil Gaiman. Essa jogada narrativa, de se pegar um elemento completamente deslocado de nossa realidade, algo místico, divino ou mitológico e inseri-lo na vida quotidiana, como Gillen faz com seus deuses da antiguidade andando e interagindo com as pessoas nos dias atuais, nos moldes atuais, já foi explorado em diversos momentos na HQ Sandman. É algo que quem já teve contato com a HQ de Gaiman identifica logo nas primeiras páginas de The WicDiv, porém, não é o mesmo tom, veja bem. Roteiristas diferentes, épocas diferentes, mas repito: isso foi algo bem bacana durante a leitura. Tive a mesma sensação de quando li Sandman a primeira vez, de que tinha em mãos uma história rica, vibrante e cheia de camadas. E isso, amiguinhos, para um leitor de HQ velhaco, cansado e quase sem fé nas HQs atuais como eu, é um sopro de ar nos pulmões. Mais do que restaurar a fé em deuses esquecidos, esse título restaurou minha fé na safra atual de HQs autorais.


    Aquele ali deitado era eu, esperando alguma coisa tipo The Wicked + The divine para me ressuscitar do meu coma de releitura de velhos gibis. A última vez que isso aconteceu foi com "Injection", e já faz um tempo...


    Quanto à edição nacional do encadernado, não tem do que se reclamar: papel couché envernizado, uma bela capa dura, formato um pouco maior que o americano. Achei uns dois erros de digitação aqui e ali, por falta de uma revisão mais atenta, mas isso não incomoda nem compromete de jeito nenhum. A Geektopia começou com muito mais acertos do que erros e a iniciativa de lançar este título é louvável! Agora é rezar para um deus qualquer (qualquer um mesmo, pode escolher! vale até o diabo!) para a periodicidade de The WicDiv seja amigável com seus leitores aqui, e que não fiquemos até dois anos aguardando o lançamento de um volume (cof cof DEVIR cof cof coff), como acontece com outras duas ou três séries em publicação atualmente no Brasil.





    P.S.: Ah, e pra quem se interessar por uma leitura complementar nesses aspectos que abordei aqui de leve, esbarrei nesse texto enquanto pesquisava um pouco sobre a cara atual de um astro pop. Bem interessante, recomendo a leitura!


    P.S. 2: Meus mais sinceros agradecimentos ao amiguinho Fabrício Rocha por ter me indicado essa HQ, e acima de tudo, por ter insistido que eu lesse rsrsrsrs