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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DEADLY CLASS, de Rick Remender e Wes Craig, ou "O Clube dos Cinco versão sementes do Mal."







Por EDUARDO CRUZ



Antes de começarmos, gostaria que você respondesse um pequeno teste. Durante sua adolescência você:



( ) Já fez dramalhão por um problema frívolo;

( ) Já foi enrolado(a) / enganado(a) por um(a) crush;

( ) Já ficou com alguém que você nem queria ficar e até chegou a se arrepender;

( ) Já ficou com alguém por vingança ou despeito;

( ) Já bebeu até perder os sentidos (e provavelmente foi zoados pelos amigos);

( ) Já achou que ninguém nunca iria te querer e você morreria sozinho(a);

( ) Já quebrou a cara confiando em amizades que decepcionaram;

( ) Já desapontou amigos e por pura birra não voltou atrás;

( ) Já ficou de saco cheio da porra toda, com vontade de fugir de casa, da escola, do planeta;

( ) Já se sentiu feio(a) e extremamente inadequado(a).



Se você marcou pelo menos duas dessas acima, parabéns, você teve uma adolescência perfeitamente normal, e além disso, está apto(a) para ler - e provavelmente curtir muito - Deadly Class! A HQ começou a ser publicada esse ano pela Devir, e eu deveria aqui falar um pouco sobre a qualidade da edição, acabamento gráfico, tradução, qualidade do papel, etc, mas não saberia opinar sobre nada disso porque tenho aproveitado algumas promoções de importados que pipocam aqui e ali, e acabei acompanhando a série pelos encadernados gringos - mais baratos do que a edição nacional - , então nesse post vou me ater apenas à obra em si, que lá fora já se encontra na oitava compilação. Mas confiem nesse que vos fala, que já chegou ao quinto volume e afirma: É uma das melhores histórias em quadrinhos em publicação atualmente!
 


Reagan Youth - Reagan Youth (O título do primeiro encadernado)

Já vou começar essa resenha marretando na comparação mais óbvia: Deadly Class é uma espécie de Clube dos Cinco, o filme mais popular e cultuado do diretor John Hughes, o cara que definiu as comédias (e os dramas) teen na década de 80. Mas para além dessa comparação, Deadly Class é ainda mais do que uma mera homenagem. Mais do que reverenciar a um filme oitentista icônico (inclusive o quinto episódio da série live action é uma homenagem DESCARADA a Clube dos Cinco!), é também uma HQ acima da média e com bastante originalidade dentro de sua própria mídia. A comparação inevitável é facilmente justificada: Ambas as obras tratam da vida escolar na adolescência e a chegada da maturidade (e todos os erros que podem ser cometidos até isso acontecer - quando acontece rs). A diferença é que em Deadly Class os estudantes se matam DE VERDADE.

O Clube dos Cinco (The Breakfast Club 1985)

Adolescents - Kids of the Black Hole

Em Deadly Class acompanhamos os alunos da King’s Dominion Atelier of Deadly Arts, uma escola diferente das outras, que ministra aulas como Combate Não Convencional, Produção e Administração de Venenos, Fundamentos da Psicopatia, Uso de Zarabatana, entre outras disciplinas bastante específicas. A finalidade da escola é muito mais do que educar os filhos dos chefes dos sindicatos do crime organizado de todo o mundo. A instituição foi originalmente concebida com um objetivo bastante subversivo: Formar assassinos, anarquistas e desordeiros sim, porém com o intuito de fazer com que "o camponês possa se levantar contra seus senhores abusivos, dando ao Zé Ninguém uma chance de nivelar as coisas", nas palavras de Mestre Lin, diretor da escola. A trama se passa em São Francisco no ano de 1987 e vemos o jovem Marcus Lopez Arguello, que perdeu os pais devido a um acidente bizarro acarretado por uma medida do então presidente Ronald Reagan, sendo admitido na King's Dominion. Diferente da maioria dos alunos, ele não tem um legado, ou sejE, seus pais não eram líderes de facções criminosas. Na King's Dominion estes alunos são conhecidos como "ratos". Os mais impopulares entre os impopulares.


Aqui, mais do que se preocupar (apenas) com popularidade ou com os bullies, os alunos precisam se preocupar com as panelinhas: Filhotes de Yakuzas, de russos comunistas, do cartel mexicano, de Gangstas de Los Angeles, de mafiosos de New Jersey, de rednecks white power ou até mesmo filhos de membros da CIA. Marcus não se enquadra em nenhum dos grupos nessa panela de pressão em ebulição, o que torna sua sobrevivência na escola ainda mais difícil do que o normal. Motivado a se vingar pela perda dos pais, será que ele vai conseguir realizar seu objetivo de se formar e matar o presidente Reagan antes de ele próprio ser eliminado?


Agora, sei que vocês devem estar pensando que essa é mais uma série de adolescentes fodões altamente treinados que matam exércitos inteiros só com uma faca, mas não é o caso aqui. Lembrem-se que os alunos da King's Dominion são adolescentes. Garotos(as).
E mané, como essa garotada garoteia...
Pensem em todas as garoteadas e vacilos que vocês deram dos 14 aos 20 anos e multipliquem por dez, adicionando metralhadoras, venenos, explosivos e katanas no meio. Todos os elementos típicos de uma adolescência cheia de sofrências (a maioria frívolas, mesmo para os alunos dessa escola barra pesada), todos os clichês e dramas adolescentes são representados de forma muito natural pelo texto de Remender, com o melhor complemento possível: a arte de Wes Craig. Com um traço dinâmico que confere uma vibe única à história, Craig é um excelente fisionomista, construindo dezenas de personagens diversos entre si, mas o que realmente faz cair o cu da bunda são as composições de certas páginas, riquíssimas em detalhes. Ah, além disso Craig ilustra uma viagem de ácido como poucos rs.



Homenagem ao falecido Frank Miller detected!



Deadly Live Action!

Deadly Class foi adaptada para a TV com distribuição da Sony Pictures Television, e enquanto vocês lêem este texto, a primeira temporada já se encaminha para seu final. A série é exibida lá fora pelo canal Syfy e, apesar das necessárias e inevitáveis adaptações, o material original foi preservado em sua grande parte, e o que foi alterado não compromete: Diferente de Preacher, por exemplo, que difere da HQ ao ponto de ser completamente descaracterizada em pontos chave, o live action de Deadly Class chega em muitos momentos até mesmo a complementar a trama da HQ original! Sim, vemos mais das aulas bizarras, cenas de ação tão bem produzidas quanto as retratadas na HQ e o desenvolvimento dos personagens, o tempo de tela de cada um, muito bem distribuído, o que faz com que não seja uma daquelas séries morosas de assistir, onde não acontece quase nada em 45 minutos de episódio. Além disso, a série tem o tom um pouco mais sombrio do que a HQ, que tinha muitos momentos à la John Hughes, mas sem perder o humor em certos momentos... Sendo direto e reto, ficou tão bom quanto o material original, o que não é nenhuma surpresa, visto que o próprio Remender está envolvido nos roteiros e na produção. Além disso, os irmãos Russo (da série Community, Capitão América: Guerra Civil (2016), Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019)) também têm um dedo nessa série. Ou sejE, está tudo em boas mãos.





"You came to the Wong place, kid."

E é isso aí pe-pe-pe-pe-pessoal! Não canso de ficar surpreso com como a Image consegue publicar material muito superior à Vertigo atualmente. Se eu tivesse que escolher entre dar uma chance a uma série nova da Image ou uma da Vertigo, tipo Sala Imaculada ou Os Nomes, daria novamente esse tiro no escuro, que foi exatamente como vim a descobrir Deadly Class. E não me arrependi.



Eu só queria um pretexto pra botar 'Love Like Blood' do Killing Joke pra tocar em um post desde que começamos o blog. Senhor Remender, obrigado por me dar essa desculpa batizando o sétimo encadernado com o título de uma das músicas mais fodas dos ricos anos 80!





terça-feira, 5 de junho de 2018

MONSTRESS - DESPERTAR, de Marjorie Liu e Sana Takeda, ou "O novo candidato a ser o próximo Saga."





Por Ray Jr.


"Uma vez, quando éramos escravos e estávamos famintos, comemos o conteúdo do estômago de um menino morto. Dissemos que era diferente de comer o menino. Mas agora eu sei a verdade. Era a mesma coisa."



Vencedora do prêmios Hugo Awards e British Fantasy Awards de melhor história em quadrinhos de 2017, a série da Image Comics criada pela roteirista Marjorie Liu (NYX, X-23) e a desenhista Sana Takeda (X-Men, Ms. Marvel, X-23) é uma das gratas surpresas publicadas no Brasil em 2018. Em um mundo alternativo que mistura elementos de fantasia épica e steampunk, a Federação Humana e os Reinos Arcânicos entraram em guerra após anos de coexistência amistosa. Uma frágil trégua é estabelecida após a Batalha de Constantine, que ceifou inúmeras vidas de ambos os lados. Acompanhamos o início da jornada da protagonista, Maika Halfwolf, passados cinco anos desde o início do período de trégua.


O esquecimento é amigo da barbárie.




Maika Halfwolf é uma arcânica de aparência bem similar a humana, que após sobreviver a guerra, decidiu ir atrás de respostas sobre seu passado. Boa parte da memória de sua infância foi perdida, depois de uma expedição com sua mãe e alguns outros estudiosos ao deserto a procura de um antigo artefato. Algo deu tremendamente errado por lá ao fazerem experimentos com o artefato, o que vitimou a mãe de Maika e marcou a própria de forma permanente. Encontrada por saqueadores no deserto, foi vendida como escrava e mantida em um campo de concentração por uma senhora de escravos que leiloava crianças arcânicas  para a alta sociedade humana. Durante o violento período de guerra, foi libertada mas a  inquietante vontade de descobrir sobre si mesma e as incomuns habilidades que adquiriu após o evento no deserto a faz partir em uma jornada extremamente arriscada.


A fome que anseia por alimento é a mesma que impulsiona a busca por algo que nos complete como indivíduo.


A primeira edição desse volume, que tem um número maior de páginas, já captura o leitor mostrando a grande habilidade narrativa da dupla para desenvolvimento de cenário e personagens, criando um mundo onde o leitor não demora a emergir, e abordando temas como preconceito racial, escravidão, estado teocrático opressor, enfrentamento de monstros internos e os problemas de uma geração pós-guerra alimentada pelo ódio e preconceito em um mundo onde muros dividem territórios Humanos e Arcânicos. Enquanto Maika tenta entender e controlar a criatura obscura que vive em seu interior e se manifesta através do seu antebraço amputado, ela coloca seu arriscado plano inicial em prática e as consequências poderão desencadear o reinício da guerra. Ambos os lados buscam conhecimento e acesso a poderes de deuses antigos adormecidos (Alô, Lovecraft!), e a linhagem da jovem pode ser a chave para o controle desses poderes.


As parceiras no crime, Sana Takeda e Marjorie Liu respectivamente, afiadíssimas na execução dessa bela obra.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn.


Praticamente todas as personagens de destaque e coadjuvantes são femininas, mulheres de personalidades marcantes, física e mentalmente diferentes, algumas ocupando cargos de poder, sendo elas militares de variadas patentes, líderes religiosas, um esquadrão de inquisidoras, uma primeira-ministro, chefes-guerreiras, rainhas e conselheiras, o que denota neste mundo uma forte característica de sociedade matriarcal, tanto do lado humano quanto do Arcânico. Além disso, apêndices ao fim de cada edição trazem trechos de palestras do Professor Tam Tam, um gato falante erudito contemporâneo, que elucidam questões históricas e conectam ainda mais o leitor ao mundo conhecido. E há de se concordar com Neil Gaiman, que diz que Monstress traz alguns dos melhores gatos dos quadrinhos, como o Mestre Ren. 


O audaz Mestre Ren ,com seu par de caudas, nunca perde uma oportunidade de citar os poetas.




Monstress é uma bela mistura dos estilos e tradição dos quadrinhos ocidentais e orientais com uma sinergia vibrante entre roteiro e arte. A edição da Pixel tem um belo acabamento gráfico que já impressiona na capa dura texturizada em verniz. A série está em seu terceiro volume nos EUA e ficamos na torcida para que o ótimo tratamento dado a esse título promissor continue por aqui.

Uma das estupendas capas de Sana Takeda


sexta-feira, 4 de maio de 2018

THE BLACK MONDAY MURDERS, de Jonathan Hickman e Tomm Coker, ou "E se o Tio Patinhas fosse satanista???"









Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA


"Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro".
Mateus 6:24




Falar de economia e entender de economia parece algo críptico, vedado, um conhecimento arcano restrito a uma pequena elite. Aquisição, downsizing, ativo financeiro, Dow Jones, debêntures, dumping, holding, joint venture... essa parte do conhecimento humano parece murada e gradeada por termos que beiram o hermetismo, impossibilitando sua plena compreensão às massas. Mais ou menos como sempre se fez com... a magia. Mas e se os rumos de todos os mercados do mundo, o fluxo das riquezas, sempre indo com mais intensidade em certas direções do que em outras mais necessitadas... e se tudo isso fosse assegurado porque realmente há uma influência metafísica por trás dos bastidores, ditando os rumos do mundo e em quais mãos o poder - e por conseguinte a riqueza - se concentra?

























A trama de The Black Monday Murders, um título da Nova Vertigo Image Comics aborda estas questões, tudo em um tom de mistério, conspiração e misticismo, muitas vezes flertando abertamente com o horror. A HQ nos traz a história de uma conspiração secreta, onde aristocratas e oligarcas manipulam a humanidade por meio do controle econômico, venerando Mammon, uma entidade pagã citada na bíblia, frequentemente associada ao dinheiro. Mammon é a personificação do poder. E qual é a mais intensa e quantificável manifestação de poder que existe nesse nosso meio material, no mundo em que vivemos?
Isso mesmo, O DINHEIRO!


A premissa de "A-história-por-trás-da-história-que-aprendemos-na-escola" lembra outro excelente título de Hickman, Projeto Manhattan. O autor costuma pegar fatos históricos e recontá-los à luz da HQ, por mais absurda que seja a proposta. Hickman pega a realidade e adiciona a ela sua camada de absurdo criativo. E fica assustadoramente crível. Em The Black Monday Murders, por exemplo, há a fantástica reinterpretação acerca dos suícidios fomentados pelo Crash da bolsa de valores de 1929. Os supostos suicídios não passaram de sacrifícios coletivos com o intuito de apaziguar a crise econômica e retomar as rédeas do mercado. Na verdade, há várias intervenções pseudo históricas de Hickman, essa camada extra atribuída a este grande enclave de bruxos financeiros, que vai desde a criação da nomisma, a moeda corrente do período Bizantino, passando pela criação de grandes cartéis financeiros, sempre reverenciando o deus dinheiro e sua personificação, Mammon.


Representação medieval de Mammon

 Alternando entre flashbacks e eventos ocorridos no presente, a HQ começa a engrenar quando um figurão de Wall Street - e descendente de uma dessas famílias dominantes - é assassinado, com estranhos rituais e símbolos presentes por toda a cena do crime. O detetive Theodore Dumas, encarregado da investigação, começa a seguir e decifrar as pistas, e todo um horrível submundo vai se descortinando lentamente, para Dumas e para nós, leitores. Acompanhamos o progresso da investigação de Dumas ao mesmo tempo em que vemos flashbacks expondo estas famílias e seus relacionamentos no passado.






"O primeiro milhão de dólares que vocês fazem é auto financiado. Vocês o conquistam com seu próprio sangue. O custo é sua saúde, sua família, seus amigos. Vocês pagam, compreendem? O erro mais comum é acreditar que se pode acumular ainda mais simplesmente continuando com esse comportamento.
Não podem. Se vocês querem lucrar ainda mais... se querem fazer dinheiro de verdade... acumular poder de verdade... então isso terá de ser feito apoiado nas costas dos outros.
Chamem eles de trabalhadores, chamem de proletários, até mesmo de escravos. Eu não me importo. Apenas saibam, são eles que vocês sacrificarão pelo ganho."


O ritmo da HQ pode ser considerado um tanto lento, mas Hickman não parece ter a menor pressa em desenvolver esse épico dark. A narrativa e a composição de cada edição tem páginas desenhadas, como qualquer HQ convencional, mostrando os acontecimentos nas diferentes linhas temporais, e entre estas páginas existem diagramas de magia, atas de reuniões secretas e alguns relatórios e arquivos com palavras censuradas, no melhor estilo "quem matou Kennedy?", auxiliando na contextualização da história e desdobrando eventos fora da linha narrativa principal, o que não é novidade para quem já leu alguma HQ do Hickman, que adora gráficos e outras formas não convencionais para conduzir a história. A arte de Tomm Coker (Undying Love - Amor Imortal, lançado pela Mythos uns anos atrás) lembra uma mescla de Tommy Lee Edwards com Alex Maleev, e seu traço sombrio não poderia ser mais adequado à trama, ajudando - e muito -, o leitor a absorver todo o tom sombrio e conspiratório da HQ.






Ah, e como não há a menor indicação de que alguma editora vá lançar isso aqui no Brasil, dá pra deixar um link pra ler as scans traduzidas online AQUI. De nada.


*** Um breve parêntese aqui: Eu queria muito saber por que a equipe criativa da HQ resolveu retratar a personagem Grigoria Rotschild com a cara da Casey Calvert, uma das atrizes pornô mais conhecidas em atividade atualmente. Isso atrapalha demais para manter a  concentração na história, mas foi um belo fan service rs...












Então é isso aí: Dinheiro e magia. Conspirações mundiais. A manipulação do mercado através da grande mão invisível da magia. Reflexões sobre o que vem a ser o capital e o possível futuro do sistema capEtalista. Vampiros russos oligarcas. Vodu. Demônios. Mammon. O Código da Vinci para adultos rs. Se vocês estão procurando uma série nova pra chamar de sua, The Black Monday Murders é genial, sem sombra de dúvida, mas não é pra qualquer leitor. É um daqueles gibis que certamente vai desagradar quem está querendo ver ação com uniformes coloridos ou horror escancarado e gratuito demais. Tudo aqui nesse gibi é construído em camadas densas e sem a menor pressa - a HQ começou a ser publicada em 2016 e não saíram nem dez edições ainda - Um argumento fantástico, onde a cada página lida você se pergunta "Por que ninguém pensou nisso antes???". Bom, Jonathan Hickman pensou. O resultado é esse aí. Agora, vão conhecer mais desse título e não fiquem aí lerdando. Afinal, tempo é dinheiro. E dinheiro.... bom, vocês já entenderam...

"A história de Wall Street é escrita em sangue... É uma indústria construída à base de sacrifício humano."






quinta-feira, 1 de junho de 2017

INJECTION, de Warren Ellis + Declan Shalvey + Jordie Bellaire, ou “O Black Mirror de Warren Ellis”






Por EDUARDO CRUZ



Era uma vez cinco loucos que envenenaram o século XXI....

É, macacada.... Deus tá vendo vocês nesse hype aí com a terceira temporada de Black Mirror, hein? A internet ficou um pouquinho mais pentelha uns meses atrás por causa de uma série inglesa que explodiu cabeças por aí, e atingiu até pessoas que não costumam consumir esses produtos audiovisuais com temática fortemente sci-fi. De nerds a “civis”, de bazingueiros até os vítimas de todas as modas, Black Mirror virou um fenômeno de audiência, e grande parte disso se deve muito ao alcance do Netflix. A série, que aborda questões como ética, relacionamentos interpessoais afetados pela tecnologia, inteligências artificiais, desumanização, entre outros temas muito em voga no momento atual, está alcançando pessoas que eu não imaginaria ver discutindo esses temas, por exemplo, na fila do banco. E isso é muito bom. Qualquer coisa que gere reflexões fora do convencional e suscite conversas para além da santíssima trindade “futebol + novela de ontem + o clima” que rege a cartilha de papo furado no Brasil; isso precisa urgentemente de um upgrade mesmo. Ponto para Black Mirror por essa. Mas e aí? Acabou por aí pra quem curtiu a série e as questões que ela aborda ou tem mais disso escondido por aí, pra quem curtiu enveredar por essa senda de ficção científica hard? E se eu dissesse que existe uma HQ sendo publicada atualmente com essa temática, que esse título pertence à editora Image (Nova Vertigo para os íntimos ;>)) e ainda por cima com roteiro de Warren Ellis? Guardem bem esse nome: Injection.


Da mesma equipe do fantásticomagníficosensacional Cavaleiro da Lua, da Marvel – O trio Warren Ellis, Declan Shalvey e Jordie Bellaire - Injection conta a história de cinco especialistas, todos geniais, cada um deles um excêntrico, cada um deles um mestre em sua área de atuação. O grupo, criado para conceber (e realizar) o futuro da cultura humana, é bancado por uma espécie de empreendimento conjunto entre o governo britânico e uma nebulosa multinacional conhecida como FPI Cursus. É formada então a Unidade de Contaminação Cultural Cruzada, uma espécie de think tank onde seus membros têm carta branca para desenvolver novos conceitos e patentes.

Cavaleiro da Lua, da mesma equipe criativa.
É Marvel, mas é bom rs.






A unidade, composto pela cientista Maria Killbride, o especialista em estratégia e geopolítica Simeon Winters, a hacker e tecnologista Brigid Roth, o investigador e consultor em segurança Vivek Headland e o folclorista e... mago (???) Robin Morel, coordenada por Killbride, decide, nas palavras dela, “Fazer o futuro chegar mais rápido”. Para isso, cada um contribuiu com os conhecimentos de suas respectivas áreas e acabaram criando algo estranho. Entretanto, nessa tentativa de tornar o século XXI melhor, mais estranho e mais propício a grandes avanços, algo dá muito errado e após um tempo separado, o grupo é obrigado a se reunir para dar cabo da loucura que eles  próprios criaram e puseram à solta no mundo, antes que as conseqüências terríveis afetem a humanidade.






É sério isso, seu Ellis? Uma referência ao quadro...

"Caminhante sobre o mar de névoa", de Caspar David Friedrich???

Mas o que vem a ser a tal “Injeção” da HQ? Já ouvi algumas pessoas falando que apesar de terem lido a HQ, não entenderam ao certo o que vem a ser o trabalho que a equipe de Killbride desenvolveu e que deu terrivelmente errado. Pois bem: a tal Injection é uma inteligência artificial, projetada utilizando tecnologia e magia xamanística, e jogada na Internet. “Injetada” no mundão, por assim dizer, para se desenvolver, acumular conhecimento e atender às expectativas da equipe de Killbride. A entidade provoca o grupo que a criou, gerando caos e desordem inspirados por mitologia e superstição. Ellis mantém uma newsletter, a Orbital Operations, onde ele deixa mensagens aos assinantes que variam do espirituoso ao estranho – vamos combinar, Ellis é um cara estranho. Não acredita em mim? Assista a esse documentário! – e em uma dessas mensagens Ellis explicou que Injection se trata de uma grande história sobre folclore bretão, magia, tecnologia e futurismo que, além disso, ainda evoca arquétipos literários e da cultura pop britânica, como James Bond, Doctor Who, Bernard Quatermass e Sherlock Holmes. Está tudo lá, de um jeito ou de outro. Pode conferir!


E o que esperar de Injection? Bem, lá fora a série está em sua décima quinta edição, e passando por um pequeno hiato desde setembro de 2016. Ellis tem desenvolvido os personagens com a loucura e competência de sempre, mas mantendo alguns mistérios, como pro exemplo quem está por trás e quais as reais intenções do consórcio FPI Cursus, e o que a entidade Injeção vai fazer a seguir, e mais qualquer outra pedra que ele jogue no caminho, pra dificultar ainda mais a vida dos protagonistas rs. Ou sejE, ainda tem muito background a ser explorado, e Ellis é competente a ponto de não sinalizar, nem voluntária, nem involuntariamente qualquer direção que o leitor possa prever para a trama. A série é vaga e críptica desde seu início. Ellis já começa sem se preocupar em ser didático com o leitor, deixando muita coisa aberta a especulações e interpretações, ou por muitas vezes joga uma série de flashbacks impactantes de um único quadrinho, para logo em seguida voltar à linha narrativa principal. Não muito diferente de qualquer boa série de TV da atualidade, que começa uma cena sem maiores explicações ou recordatórios, e pode demorar um tempo até você se dar conta de que está vendo um flashback. A dupla Declan Shalvey/Jordie Bellaire esbanja competência, e muitas vezes identificamos a época em que certa cena se passa apenas pelo olhar ou pela expressão facial dos personagens, mostrando versatilidade também na construção de cenários, composição das páginas, tudo de uma forma um pouco mais limpa e polida do que a dupla exercitou em Cavaleiro da Lua, por exemplo.
 


Vivek Headland é, de longe, o personagem mais interessante até agora, dentro uma galeria de bons personagens.


O sentimento de acompanhar uma trama tão rica de potencial, imprevisível e empolgante, com diálogos tão inteligentes, pra mim, é igual à época em que eu acompanhava Planetary, outra série incrível do autor. Só espero que não demore a concluir tanto quanto Planetary, que levou uma década para entregar 27 edições, atraso gerado por problemas de saúde de Ellis e a montanha de compromissos profissionais do desenhista John Cassaday.


 
Talvez esse tipo de HQ não excite muito a imaginação da turminha que se contenta com o mais do mesmo das HQs mensais, mas pros que sempre estão atrás de uma história inteligente, com bons diálogos, personagens ao mesmo tempo estranhos e carismáticos (como Vivek Headland, que é o foco do segundo encadernado de Injection, em um arco onde vemos os atípicos métodos do investigador para adquirir todo e qualquer conhecimento possível, tornando-o uma espécie de Sherlock Holmes do século XXI), vale o sacrifício para ficar de olho nas baixas do dólar e pegar os dois encadernados importados que já saíram até agora ou comprar as edições digitais no Comixology. Ou, se você anda com o inglês enferrujado, fique de olho quando isso sair por aqui. Injection é uma das melhores séries em circulação na atualidade, e ouso especular que é só questão de tempo até alguma editora começar a publicar isso por aqui. Por isso, guardem bem esse nome: Injection...