Olá,
macacos da Terra! Viemos em paz para informar que a invasão foi concluída com
sucesso pela Mythos! A editora acaba de lançar o encadernado Choques
Alienígenas, que compila as séries D.
R. & Quinch, juntamente com Skizz,
encerrando a publicação dos trabalhos mais relevantes do início da carreira de
Moore para a revista 2000AD nos anos 80.
Mas
do que se tratam essas duas séries?
Bom,
no mercado britânico de HQs, é de praxe que roteiristas iniciantes entreguem
trabalhos curtos (afinal, que editor seria louco a ponto de comprometer espaço
em um título com uma série longeva feita por um roteirista/artista que ainda
não se provou apto ou experiente para segurar um título seqüencial por um tempo
prolongado ou indefinido???), e com Moore não foi diferente: após se tornar um
dos famigerados robôs-roteiristas da equipe da 2000AD, ele ficou por muito tempo a cargo dos Future Shocks, uma seção
que trazia histórias curtas dentro da revista, sempre com o foco na ficção científica, a alma da 2000AD. Deveria ser só aquela história curta (aliás, a primeira desse encadernado) mas a popularidade foi tão grande que ganharam uma série semi regular.
Após
várias histórias curtas divertidíssimas dentro dos Future Shocks (que inclusive, também já foi publicado completo no Brasil,
também pela Mythos, e que já resenhamos AQUI!), que tinham de 4 a 6 páginas, Moore já ansiava
por uma série um pouco mais longa, onde pudesse esticar seu fio narrativo ao
máximo e desenvolver melhor, tanto os personagens quanto as situações em que ele
os colocaria. Até que no ano de 1983 seu desejo foi atendido e a 2000AD deu início à publicação de duas
das três séries semi regulares que ele desenvolveu para a revista: D.R. & Quinch, Skizz – Contato Imediato - ambas em 1983. A terceira série é A Balada de Halo Jones, também já publicada
na íntegra pela Mythos.
D.R. & Quinch narra, com muito humor, as presepadas destruidoras de
dois adolescentes alienígenas, delinqüentes juvenis, Waldo "D. R." (um acrônimo para "Diminished Responsibility", ou "Deficiente de Responsabilidade", como foi traduzido aqui) Dobbs, um gênio do crime cheio dos esquemas, e seu parceiro de crimes, Ernest Errol Quinch, um brutamontes de pele rosada, que com seus atos de vandalismo ao longo do tempo e do espaço influenciaram a história na Terra das formas mais caóticas. As histórias lembram sketches de comédia, com episódios como D.R & Quinch em Hollywood, D.R. & Quinch no exército, e outras situações onde a dupla conduz os acontecimentos às raias do absurdo. A inspiração segundo Moore, veio de alguns dos filmes produzidos pela revista National Lampoon, como O. C. & Stiggs e O Clube dos Cafajestes.
O
artista de D.R. & Quinch dispensa
apresentações: a HQ é desenhada por Alan Davis, que também trabalhou em
colaboração com Moore em
Capitão Britânia e
em Miracleman, antes de cortarem
relações até hoje, por causa da guerra dos direitos no imbróglio Marvelman/Miracleman. Os últimos episódios de D.R. & Quinch têm roteiro de Jamie Delano e Alan Davis, e são uma seção de conselhos para ferrar com a vida dos leitores, mantendo a veia violenta, anárquica e cheia de humor negro de Moore.
Já
Skizz – Contato Imediato, digamos que
é uma versão adulta de “E. T. – O Extraterrestre”, é a
história do intérprete Zhcchz, um alienígena que cai na Terra, mais precisamente em Birmingham. Sua
nave se auto-destrói para que não caia em mãos erradas, e agora, à deriva neste
planeta primitivo e perigoso, sua única esperança é a estudante Roxy e seus dois amigos, Loz e Cornelius, que auxiliam Roxy na empreitada para impedir Skizz de ser capturado pelo governo. Considerado pelo próprio Moore como um de seus trabalhos mais fracos, a série tem alguns pontos legais, como o momento em que Roxy é ridicularizada em sua escola após a história do contato alienígena, o que a torna uma alienígena em sua própria cidade. Também não tem como não se divertir com o personagem Cornelius Cardew, um técnico de tubulações que passou por um colapso nervoso após perder seu emprego (uma óbvia alusão de Moore à política austera de Margaret Thatcher na época) e tem rompantes de fúria cômicos ao longo da história.
O artista dessa série é Jim Baikie,
que no começo da década de 2000 voltou a colaborar com Moore em seu selo America’s Best Comics desenhando o personagem First American.
Ambas
as séries evidenciavam um traço na narrativa de Moore cada vez mais raro nos
dias de hoje: o humor. E era um humor anárquico! D.R. & Quinch
tem esse humor em maior proporção do que Skizz, mas
ainda assim leituras mais leves do que o turbilhão que viria a seguir, em
histórias como A Piada Mortal, o run
em Monstro do Pântano e, é claro, Watchmen, que todo mundo leu e pouca
gente entendeu (inclusive o Zack Snyder rs), e que acabou se tornando involuntariamente a HQ precursora
de uma era de trevas e responsável por
uma safra quase infinita de heróis cínicos nos comics. Moore viria a recuperar
a leveza e o revisionismo juvenis somente quando criou seu selo de quadrinhos,
ressuscitando o nostálgico Americas’s Best Comics, que resgatava o espírito das histórias pulp com Tom Strong, homenageava Will Eisner e sua criação máxima, o Spirit, com o personagem Greyshirt, entre outras obras referenciais, mas isso é papo para outro post...
E
com mais esse encadernado, em capa dura e com 212 páginas, nos aproximamos dos catálogos das editoras gringas,
com a bibliografia desse importante artista cada vez mais completa por aqui, e quase tudo que Moore produziu na 2000AD traduzido para o português e em edições caprichadas. Apesar de Moore não gostar muito dessas duas séries, por achá-las simplórias demais, ou excessivamente violentas sem justificativa razoável, segundo ele próprio, tenho certeza que essa opinião não é partilhada pelos seus fãs, que sempre aguardam com apreensão cada novo trabalho do Bruxão de Northampton, seja ele material recente, como Providence, ou reedições como essas, que datam do início de sua carreira.
A invasão britânica certamente não começou aqui, mas este material é um registro de um pequeno ramo das suas origens, de alguns dentre vários talentos, que juntos capitanearam uma revolução nesta mídia, revolução essa que reverbera até os dias de hoje...
“A experiência que eu tenho de vida não é dividida em gêneros; ela
é um romance policial faroeste sci-fi
horripilante e tragicômica, com um tiquinho de pornografia, se você der sorte.”
(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore,
Ed. Marsupial, 2016, p.194)
“Flash-Curiosidade: nosso universo é apenas um de muitos, sendo
gestado em hipertempo amniótico. Ele pode até ser um holograma, projetado numa
megamembrana chata, a qual, por sua vez, está presa, junto a várias outras
iguais, num espaço dimensional superior que alguns cientistas chamaram de “o
todo”. No modelo das branas, toda história é uma camada fina como a emulsão de
um tecido celestial que flutua em um imenso oceano brahmânico de... metacoisas.
Entendeu?
Hoje
vamos fazer algo um pouquinho diferente aqui na Zona. Queria falar não sobre um livro nesse
post, mas DOIS. Sim, vai ser um post duplo, e tem uma boa razão pra isso, já
que - por mais que os fãs xiitas de um ou do outro roteirista detestem admitir
- existem tantos paralelos entre Alan Moore e Grant Morrison que nada mais
justo que colocar os livros pra brigarem entre si rs. Ambos os roteiristas são
britânicos; ambos foram ponta de lança da invasão britânica de roteiristas, realizada
através da DC Comics, que levou ao nascimento do selo Vertigo, especializado em quadrinhos direcionados ao público adulto; ambos alegam mexer com experimentos de.... bom, não tem
jeito de dizer isso sem soar insano, então lá vai: Magia!; ambos já foram retratados pelo artista Frank Quitely (como se pode ver nesse post rs); ambos escreveram Watchmen
(mas o do Morrison se chama Pax Americana rs), e os dois
inspiraram o visual do personagem Spider Jerusalém, o protagonista da série Transmetropolitan...
De Moore a Morrison em apenas uma visita ao barbeiro!
Talvez esse tenha sido o jeito que o Ellis arrumou para deixar claro que "Ei, eu sou amigo dos dois, me deixem fora da treta de vocês, porra!"
Do
início dessa década pra cá, o mercado editorial brasileiro tem lançado muitas
publicações/republicações de alto valor histórico para os pesquisadores e
entusiastas de HQs britânicas, para ser mais específico com foco nos primeiros
trabalhos tanto de Alan Moore quanto de Grant Morrison. A editora Mythos,
por exemplo, tem publicado atualmente tanto os primeiros trabalhos de Moore
quanto de Morrison na 2000AD, revista britânica que é
passagem obrigatória dos talentos nascidos na terra da Rainha. Junte isso a
publicações anteriores, pulverizadas em várias outras editoras, como Panini e
Devir, e o leitor brasileiro é capaz, como nunca antes, de montar uma bela
bibliografia de ambos os roteiristas, que só tem crescido e se equiparado pouco
a pouco ao volume do que foi lançado lá fora.
Em
2012, além de boa parte de suas bibliografias já publicadas por aqui, vimos
também as biografias do Barbruxão de Northampton e do Carequinha Superstar dos
Comics serem lançadas no Brasil. Alan Moore: O mago das histórias, da
Mythos, e Superdeuses, da editora Seoman, vieram preencher mais uma
lacuna, já que são poucas as biografias de artistas ou roteiristas de HQs
lançadas no Brasil. Pois bem, deixemos um pouco de lado a biografia Alan
Moore: O mago das histórias, que é muito mais um guia visual sobre a
obra de Moore. Uma biografia da bibliografia rs. Não é um livro ruim. Muito pelo
contrário! Mas se vamos fazer biografia VS. biografia aqui no post, precisaremos
de um livro que aborde vida E obra do artista, e Mago das Palavras: A vida
extraordinária de Alan Moore, se enquadra muito melhor nessa Book
Battle hehehe. Então, vamos lá?
X
A
mais recente biografia de Alan Moore a ser lançada por aqui, Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de
Alan Moore (PARKIN, Lance, Ed. Marsupial, 2016), mais do que um apanhado
geral detalhado da vida e obra do roteirista de HQs / escritor / performer / mago,
é uma linha do tempo muito rica que envolve outros roteiristas britânicos e o
panorama geral dos quadrinhos britânicos, especialmente por volta do fim dos
anos 70, época em que Alan Moore, Steve Moore, Jamie Delano, Alan Davis, Steve
Dillon, David Lloyd e muitos outros começavam a se fazer notar em seus
primeiros trabalhos em revistas como 2000AD, Warrior, Eagle,
entre outras publicações, a maioria delas já finada. Vemos também as primeiras
rusgas de Moore no mercado de quadrinhos britânico, relacionadas a direitos
autorais, uma bandeira que o escritor viria a agitar por toda a sua carreira.
“Considero escrever quadrinhos uma coisa tremendamente fácil... num
dia normal, trabalhando em ritmo muito tranquilo, consigo fechar um roteiro
para cinco páginas. Num dia mais complicado, consigo fazer duas e ainda encerro
o expediente de tardezinha... Adoro o que eu faço. O que não é surpresa, pois
já limpei latrinas... Creio que sou bem pago. Na verdade, cá entre nós, acho
que pagam grosseiramente mais do que eu merecia... Fecho um roteiro para quatro
ou cinco páginas em um dia e esse serviço rende entre sessenta e noventa paus.
Ainda por cima eu posso comprar uma quantidade absurda de gibi por mês.”
(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore,
Ed. Marsupial, 2016, p.82)
Seguindo
cronologicamente, acompanhamos o êxito inicial de Moore no mercado norte
americano, quando ele foi “importado” pela DC Comics para dar um tratamento a
personagens da casa, com destaque para a revista do Monstro do Pântano, título
que assumiu por 45 edições, onde fez cair o fatídico selo de do Comics
Code Authority, que censurava e regulamentava os comics desde os anos
50 (obrigado Dr. Fredric Wertham, o Sergio Moro dos quadrinhos na década de
50!), viabilizando assim a ascensão do Vertigo, selo da DC de quadrinhos
pensados para adultos. Além disso, sua briga por direitos devidos aos criadores
tomou proporções ainda maiores na DC Comics, de onde saiu para nunca mais se
envolver com nenhuma outra grande editora. Posterior a isso, acompanhamos a
última tentativa de Moore com um projeto de grande porte, o selo America’s
Best Comics, que foi fagocitado pela DC Comics alguns anos após sua
criação, o que exacerbou anda mais a velha briga com a editora. Por fim, vemos
o retorno de Moore às editoras pequenas, com obras autorais e independentes, seus
projetos paralelos envolvendo música, performances multimídia e magia, entre outras
idéias que o ermitão barbudo concebeu nesses quase quarenta anos de carreira.
“Esqueçam Watchmen,
esqueçam os anos 1980. A
gente não precisa de crueza desgraçada e deprê daqui até o fim dos tempos. Foi
só um gibi, diabos. Não era pena capital. (...) Hoje, onde quer que eu olhe, há
vigilantes psicóticos que matam sem dó nem piedade! Sabe? Sem um pingo da
ironia que eu colocava nos meus personagens. E me sinto um pouco deprimido
quando parece que eu, sem querer, encetei uma nova era das trevas... agora as
HQs passam por uma espécie de niilismo. E tudo bem se você for um adulto
inteligente e cínico: você dá risada com tanta violência. Mas se você tiver
nove, dez anos, que tipo de valor elas passam?” (PARKIN, Lance. Mago
das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016,
p.195,196)
“Não teria como ser sempre pessoas sadias. Há quem faria isso
puramente pela empolgação sexual de se fantasiar, outros pela euforia de
espancar. Há quem faça por motivações políticas, muitos fazem por altruísmo,
mas é certo que haveria uma porcentagem que teria problemas psicológicos dos
mais bizarros... Gente que se fantasia de máscara e uniforme tem alguma coisa
que não é muito normal.” (PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida
Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.204)
“A Piada Mortal é outra coisa da qual tenho certa vergonha. Quer
dizer, é uma belíssima obra de Brian Bolland, mas, da minha parte, não acho que
a história tenha algo de espetacular.” (PARKIN, Lance. Mago das
Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.134)
Além
de relacionar toda a obra escrita de Moore, “Mago das Palavras” aborda outros
aspectos da vida de Moore: os principais acontecimentos de sua vida pessoal,
como sua expulsão da escola por porte de drogas, seu envolvimento com performances
artísticas nos Arts Labs nos anos 70, sua crise da meia idade, que resultou em
suas experiências com magia, as brigas com os estúdios de Hollywood (é fato
notório que Moore alega nunca ter assistido a nenhuma adaptação de suas HQs
para o cinema, e odeia todas. O famoso “Não-vi-e-não-gostei” rs), e a polêmica em cima da HQ Marvelman (depois renomeada Miracleman), uma série de acontecimentos tão espinhosa - o autor chegou a se referir ao título com o amigo Neil Gaiman como "Um cálice de veneno", responsável por cortar relações com o artista Alan Davis - que francamente, é um milagre que esse gibi tenha voltado a ver a luz do dia novamente, agora que pertence à Marvel (aliás, vale dizer que esse é um clássico da Marvel? acho que sim, afinal ela pagou por ele rsrsrsrs).
“Minhas lembranças do processo criativo ficaram maculadas pela
disputa política mesquinha, pelos egos inflados e, no fim das contas, pelo fato
de que meus trabalhos com Marvelman
foram publicados contra a minha vontade pela Eclipse Comics. O fato de nunca
ter sido pago é secundário ao fato de que pessoas em quem eu confiava
comportaram-se de maneira tão miserável. (...) perderam-se amizades ao longo de
Miracleman. Aconteceram muitas coisas que azedaram o projeto.”
(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de
Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.190)
Depois da divulgação dessa foto, Moore perdeu 168.392 fãs no Brasil XD
Como se isso não bastasse, em ambas as biografias, vemos a versão de cada um para o desafeto entre eles, que já dura décadas. Para os polêmicos de plantão, estão aí as peças desse quebra cabeças hehehe:
“Marvelman
(posteriormente rebatizada de Miracleman) não ficou totalmente parada. Moore
disse a Skinn (Dez Skinn, editor da Warrior) que, por enquanto, não escreveria
mais roteiros de Marvelman. Isso em
si não era problema – ele já havia entregado roteiros para várias edições -,
mas agora Alan Davis adotava a mesma jogada, segurando suas páginas porque não
havia sido pago pela última remessa. Skinn estava tentado a explorar pelo menos
um outro recurso: um jovem escritor escocês chamado Grant Morrison enviara um
roteiro de teste de Kid Marvelman, e
Skinn sondou-o a respeito de tornar-se o roteirista regular de Marvelman. Muitos anos depois, Morrison
lembraria:
Eu não queria fazer sem permissão de Moore,
então entrei em contato com ele e disse: “Pediram para eu fazer isso, mas é
óbvio que respeito seu trabalho e não quero fazer besteira, mas também não
quero que entre outra pessoa e faça besteira.” E aí ele me mandou uma carta
muito bizarra, que lembro que dizia no início: “Não quero que pareça aquele tom
sussurrado de assassino da máfia, mas: cai fora.” E a carta era puramente, não,
você não pode, entende, nós fazemos muito mais sucesso que você, e se você
fizer isso, sua carreira vai acabar, era uma ameaça séria...”
(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de
Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p. 172,173)
“Aclamada por público externo ao leitorado tradicional, a HQ (Asilo
Arkham) foi muitas vezes descrita como incompreensível, sem sentido e
pretensiosa por muitos do lado de dentro, com sua tendência para ficar
espinhento quando eu insistia que não havia regras para fazer quadrinhos de
super-herói. Alan Moore teve sua revanche quando elogiou o trabalho de Dave
McKean mas descreveu o resultado final como um “cocô banhado em ouro”. Isso foi
depois, devo dizer, de eu rechaçar Watchmen
com crueldade, dizendo que era o “equivalente de 300 páginas a um poema de
ensino médio” numa entrevista semissatírica com a revista de moda i-D, portanto
me senti impelido a aceitar aquela com um sorriso.”
O
livro tem uma leitura ágil e dinâmica, e o leitor consegue virar de 50 a 70
páginas por dia sem se dar conta disso. A tradução ficou por conta de Érico
Assis - aliás, Assis traduziu os dois livros! -, que já traduziu muitas e muitas HQs nesses últimos anos, então não
poderia haver tradutor mais gabaritado para trabalhar neste livro. Os capítulos
que discorrem a respeito do processo de produção desta ou aquela HQ são bem
interessantes. Ler, por exemplo, sobre como V de Vingança foi criado,
todos os percalços e obstáculos que a dupla criativa Moore/Lloyd teve de
enfrentar para produzir a história só deu vontade de dar um pequeno intervalo na
leitura da biografia e pegar a HQ na estante para relê-la mais uma vez.
Uma
única ressalva: alguns pequenos erros de grafia. Uma revisão cuidadosa
resolveria. Esses são pequenos tropeços em uma leitura muito agradável, mas
nada que comprometa a experiência.
No
geral, uma ótima fonte, tanto para os fãs do Moore quanto para pesquisadores de
quadrinhos em geral.
“Rob Liefeld. Olha só o nome que você me traz. Eu lembro de quando
eu trabalhava para a Awesome Comics – e penso que o nome da editora já devia
ter me dado algumas dicas quanto ao que me esperava assim que topei passar da
soleira. Lembro que Rob Liefeld me perguntou por meio de um intermediário o que
eu achava da arte dele... Tentei ser o mais sincero possível: “Bom, é certo que
tem algo na arte que chama a atenção dos leitores, mas a meu ver parece
preguiçosa, nunca se vê planos de fundo, todos os personagens parecem iguais,
parece que não houve contato algum entre o desenhista e o roteiro a partir do
qual ele trabalha. Não há fundos em quadro algum, só um bando de personagens
fazendo pose, rangendo os dentes, com cara de determinação.” E acho que a
resposta dele foi “(suspiro) Ah, quem dá bola para janelas?”. E acho que isso
resume bem a abordagem que ele tem da narrativa em quadrinhos.” (PARKIN,
Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed.
Marsupial, 2016, p.136)
Eu particularmente, me diverti muito com o trecho em que Moore destrincha a tal da "Fórmula Marvel", que pelo jeito, sempre existiu:
““(...) a partir de personagens unidimensionais, cuja única
característica era se emperiquitar e fazer o bem, Stan Lee fez a grande
revolução: personagens bidimensionais.
Ou seja, eles se emperiquitam, saem a fazer o bem, mas o coração deles é fraco.
Ou são mancos. Cheguei a pensar por muito tempo que ser manco era traço de
personalidade”. Como ele disse em outra ocasião, o sucesso da Marvel devia-se à
“fórmula popularesca de Stan Lee, de transformar o medíocre em onipotente.””
(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore,
Ed. Marsupial, 2016, p.19,20)
Arte de Frank Quitely
Já
Superdeuses,
de Grant Morrison, é uma biografia do escocês maluco, mas traçando um paralelo com sua personagem
Lord Fanny, é um livro de historiografia da DC Comics travestido
de autobiografia do carequinha. Morrison, que enriqueceu escrevendo Asilo
Arkham, criador de Os Invisíveis, a série autoral mais heterogênea, inteligente e divertida já pensada por um cerumano, é meio pancada das
idéias. Não sabemos se foi um ki-suco estragado que ele bebeu, ou um orégano
fora da validade que ele fumou. O fato é que o cérebro de Morrison foi (sei lá
para onde) e voltou desse jeito aí, escrevendo histórias como Nameless
e Flex
Mentallo, que te obrigam a ser insano como ele próprio para conseguir
entendê-las. Quando leio a maioria das coisas que o Morrison escreveu, me sinto
como um detetive que para capturar o serial killer, fica por horas olhando os
arquivos, tentando pensar como o assassino pensaria para conseguir resolver o
caso. Qualquer hora dessas eu também vou e não volto mais rs.
“Embora cada quadro isolado parecesse posado e anguloso, os
personagens eram cheios de vida e carregados de significado. Eles interagiam
conosco: nos faziam rir, chorar, sentir medo, ansiedade, entusiasmo. Eram
personagens vivos, e sua realidade era o papel e a tinta. Que mundo real era
essa fatia de papel do universo DC vivo? Um universo 2D, escondido às vistas de
todos, crescendo e respirando numa estranha relação simbiótica com seu público
no mundo “não ficcional” logo acima.
Do pouco que havia lido sobre o assunto,
concluí que possivelmente estivesse ativando uma espécie de holograma.
Materiais inertes preparados por artistas e ativados pelos leitores faziam esse
universo ganhar vida e lhe permitiam seguir mais uma semana, mais um mês, mais
um ano. Toda vez que interagia com ele, você estava diferente e a reação dele
também era ficar diferente. Você via coisas novas, ganhava novas perspectivas.
As melhores histórias em quadrinhos nunca deixavam de nos surpreender.
Eu segurava nas minhas
mãos 3D uma fatia 2D rebobinável do continuum presente do universo DC em forma
de módulo. Parecia haver toda uma nova cosmologia a ser explorada. Minha
dedicação ao realismo absoluto era indiscutível, e exigiria dos leitores que
reconhecessem o objeto em suas mãos e seu papel participativo em gerar o
sentido da história.”
Morrison
inicia Superdeuses falando um pouco sobre suas lembranças de infância,
seus pais ativistas pacifistas, seu medo da bomba atômica (o medo de todo
moleque nascido no meio da Guerra Fria) e como foi seu contato com os super
heróis e a Ficção científica. Daí Morrison parte para as eras de ouro e de
prata dos quadrinhos, a criação dos maiores personagens da DC comics: Batman,
Superman, Mulher Maravilha, Capitão Marvel, bem como todas as transformações
ocorridas no meio: a criação da Marvel, a era das trevas, Watchmen, O
Cavaleiro das Trevas, o advento do selo Vertigo, o surgimento da Image
Comics, e é claro, Morrison também discorre bastante sobre suas
criações, autorais ou não: Homem Animal, Asilo Arkham, Os Invisíveis e até
mesmo sobre os X-Men, em sua curta e atribulada passagem pela Marvel, além do tipo de reflexões que só Morrison poderia tecer, como por exemplo, a virtual imortalidade dos personagens 2D:
“Os super-heróis eram de verdade, claro. Eles existiam. Viviam em
universos de papel, suspensos no continuum
pulp em que nunca envelheciam e morriam a não ser que fosse para renascer,
melhores do que nunca, de uniforme novo. Super-heróis de verdade viviam no
plano da segunda dimensão. A vida de verdade de super-heróis de verdade podia
ser contida em duas mãos. Eles eram tão reais que tinham vida mais longa do que
a de qualquer ser humano. Eram mais reais do que eu. Dizem que a maioria dos
nomes e biografias humanos é esquecida depois de quatro gerações, mas até o
super-herói mais obscuro da Era de Ouro tem chance de ter vida e renome
enquanto durar a marca registrada.”(MORRISON, Grant. Superdeuses, Ed. Seoman, 2016, p.255)
A cereja
do bolo são suas experiências com magia, haxixe e cogumelos mágicos, que
culminaram em seu contato com entidades de uma dimensão superior, durante uma
ingestão de cogumelos em Katmandu, e que segundo o próprio Morrison, lhe
revelaram a natureza da realidade. Posteriormente, essa experiência rendeu a HQ
semi-autobiográfica Flex Mentallo (Isso mesmo! Não entendeu Flex Mentallo? Morrison explica na biografia. Não passe mais vergonha rs). Isso explica bastante coisa a respeito de Morrison, em especial para os leitores superficiais que optam por enxergar este roteirista como apenas um Zé Droguinha que escreve
quadrinhos:
“Para descobrir como são as dimensões superiores, só precisamos
estudar a relação entre nosso mundo 3D e os quadrinhos 2D. Uma criatura 4D
poderia olhar “para” nós através das paredes, das nossas roupas, até de nossos
esqueletos. Nosso mundo seria um raio X cubista, e talvez até nossos
pensamentos ficariam desnudados ao olhar dela.
Como leitores de quadrinhos olhando de uma dimensão superior
perpendicular à superfície da página, nós podemos
realmente espreitar os pensamentos dos personagens com balões e recordatórios
com narração contínua. Também podemos controlar o tempo num universo de
quadrinhos. Podemos parar na página 12 e voltar para a página 5 para conferir
um detalhe perdido na trama. Os personagens em si vão continuar a encenar seus
dramas na mesma sequência linear, indiferentes à nossa perspectiva. Eles só
conseguem voltar no tempo com a ajuda de supermáquinas, como a esteira cósmica
do Flash, mas podemos ver o Superman de 1938 próximo ao Superman de 1999 sem
que as duas histórias entrem em choque, exceto na nossa mente.”
“(...) Individualmente, humanos não são super, mas o organismo do
qual todos fazemos parte como células minúsculas certamente é. A forma de vida
que é tão imensa que esquecemos que está aí, transforma minerais de seu planeta
em ferramentas para tocar o grande hiato escuro e infinito entre as estrelas ou
sonda as pressões aniquiladoras do fundo dos oceanos. Já somos parte de um
superser, um monstro, um deus, um processo vivo que é tão abrangente que se
torna para uma vida individual o que a água é para os peixes. Somos células no
corpo de uma forma de vida singular com três bilhões de anos, cujas raízes
estão nos oceanos pré-cambrianos e cuja fiação genética estende-se pelas
estruturas vivas de tudo no planeta, conectando tudo que já foi vivo num único
e imenso sistema nervoso.”
“Os super heróis podem ter seu valor maior num futuro em que seres
super-humanos de verdade estiverem buscando modelos de conduta. Quando os
super-homens do amanhã saírem capengando do tanque, nada melhor do que buscar
orientação com Superman. Os quadrinhos de super heróis ainda podem encontrar
seu propósito com o realismo social das ficções de amanhã.”
Superdeuses não faz muito esforço para dissociar os momentos
autobiográficos de Morrison ou a história da DC Comics, provavelmente porque para
Morrison a DC sempre foi parte integrante de sua própria vida, sendo assim um
elemento indivisível de sua própria biografia. Mais do que apenas um relato
contendo a vida e obra do escritor, em Superdeuses Morrison
nos elucida o porquê de os super heróis norte-americanos trajarem colantes de
cores berrantes com as sungas por cima das calças (caso queiram saber, é por
causa dos artistas de circo: os homens fortes, acrobatas, contorcionistas,
enfim, os verdadeiros portadores de habilidades sobre humanas da época foram a
influência visual por trás dos primeiros heróis dos comics no início do século passado), a evolução das
histórias em quadrinhos – o foco de Morrison é nos norte-americanos, diferente
da biografia do Moore – até os dias atuais, e o reflexo dos ataques de 11 de
setembro de 2001 na indústria de quadrinhos. Morrison também fala um pouco
sobre o maior inimigo que os quadrinhos já tiveram: o Dr. Fredric Wertham (olha ele aí de novo! o desprezo pelo psiquiatra é o elo de ligação Moore/Morrison) e seu
livro, o infame A Sedução do Inocente.
Também discorre um pouco a respeito de como a ficção influencia as mentes de
quem a consome no mundo real, e sobre como os ciclos solares influenciam nas
revoluções da juventude a cada não sei quantos anos (Ei, não avisei que o
Morrison era pirado???)
“(...) Há evidências observáveis que sugerem que o que acreditamos
ser verdade afeta diretamente o modo como vivemos. Com o passar dos primeiros
anos do século XXI, eu me perguntava como as pessoas, principalmente os jovens,
estavam sendo afetados negativamente pelas narrativas da mídia de massa
avassaladoramente alarmistas, assustadoras e niilistas, que pareciam cozinhar
imagens de morte, terror, guerra, humilhação e dor a ponto de excluir
praticamente tudo o mais, com base presumida no fato de que esses tipos de
história seriam as que excitam as sensibilidades saturadas dos dementes que
consomem entretenimento massivo. Confortáveis em nossas telas sob o olho que
tudo vê de Odin, decidimos criar em nossos filhos um gosto por estupros,
degradações, violências e assassinos em massa interpretados como heróis
“fodões” enlatados e medianos.”
No
fim das contas, só dá pra concluir que a relação Moore/Morrison é uma relação
de amor mal resolvida: Os dois se amam, mas não são capazes de admitir rs.
Cada vez que eu olho a capa original de Superdeuses, me dá uma dor no coração pela capa nacional...
Ou
na verdade os dois são a mesma pessoa. Se retirar toda a cabeleira e a barba do
Moore, se transforma no Morrison. Os dois lados da moeda, as metades da laranja
;>).
Ok, é só uma montagem, mas como John Lennon conclamou um dia: Imagine rs
Enfim,
brincadeiras à parte, eu acho qualquer polarização extrema uma bobagem e
imaturidade enormes, prova que o indivíduo não é capaz de apreciar duas coisas
diferentes ao mesmo tempo, vide os chorumes que se é obrigado a ler no facebook
quando grupinhos de Marvel versus DC trocam farpas e insultos coletivos. Tanto
Moore quanto Morrison já deixaram sua marca na história da mídia, tanto com projetos
nas grandes editoras quanto em escala autoral, assim como ambos já lançaram
algumas coisas... chamemos de duvidosas, pra manter o nível da conversa rs.
Malandro mesmo é o(a) leitor(a) que lê um sem necessariamente rechaçar o outro,
e ainda sabe distinguir o melhor dos dois. Esse sim é um(a) leitor(a) de HQs
realmente consciente e feliz.
“(...) são os adultos que têm mais dificuldade de separar fato e
ficção. Uma criança sabe que os caranguejos de praia não cantam nem falam como
os caranguejos d’A Pequena Sereia. A
criança aceita todo tipo de criatura estranha e fatos bizarros numa história
porque entende que as histórias têm regras diferentes que permitem que
praticamente tudo aconteça. Os adultos, por outro lado, debatem-se desesperados
com a ficção, sempre exigindo que ela se conforme com as normas da vida
cotidiana. Adultos exigem, ridiculamente, saber como o Superman poderia voar,
ou como o Batman pode cuidar de um
império de negócios multibilionário de dia e enfrentar o crime à noite, quando
a resposta é óbvia até para uma criancinha: porque não é de verdade.”
Então,
resumindo, quem ganha essa Book Battle??? VOCÊ, se parar com essa
bazingagem de ficar estipulando “Quem é o melhor, Moore ou Morrison?”, e simplesmente
começar a ler as histórias, construir seu gosto pessoal, e por favor,
porfavorzinho, não ficar esfregando ele na cara dos outros como se existisse uma
resposta certa pra essa pergunta...
Me despeço dedicando uma música a estes dois gênios loucos. Até o próximo post!