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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Genealogia Lovecraftiana #001: A BALADA DO BLACK TOM, de Victor Lavalle






Por EDUARDO CRUZ



"Através do portal, em meio às ruínas da cidade afundada, Malone percebeu a figura de enormes feições - um rosto, ou a distorção de um rosto. As partes superiores daquela face eram lisas como a cúpula de um crânio humano, mas embaixo dos olhos, o rosto pulsava e se enrodilhava entre tentáculos. As pálpebras do tamanho de velas desfraldadas permaneciam fechadas, felizmente, mas tremiam como se fossem abrir."


Um assunto um tanto quanto batido mas inevitável de se abordar é o fato de a obra de H. P. Lovecraft possuir tons de racismo e xenofobia que podem ser (adequadamente) taxados como muito errados nesses tempos atuais em qualquer época. Talvez o cavalheiro de Providence, no período em que residiu em Brooklyn, Nova York, sendo um provinciano dono de uma personalidade bucólica, ficasse deveras incomodado com o caldeirão de diferentes povos e culturas que afluíam na cidade, imigrantes vindos de todas as partes do mundo. O preconceito pode ser percebido como bastante explícito em histórias como Herbert West: Reanimador, O Chamado de Cthulhu, A Rua, A Sombra de Innsmouth e O Horror em Red Hook, e mesmo levando-se em conta que Lovecraft agiu meramente como um homem de seu tempo, onde tais idéias eram veiculadas como 'normais', sua leitura é bastante controversa. Obviamente, revisões são necessárias, seja ela realizada na própria cabeça do leitor, seja em obras como A Balada do Black Tom.


Victor Lavalle

"- Carrego um inferno dentro de mim - rosnou Black Tom. - E quando descobri que ninguém tinha compaixão por mim, quis arrancar árvores, espalhar o caos e a destruição ao meu redor e depois me sentar e desfrutar da ruína.
 - Então, você é um monstro - comentou Malone.
 - Fizeram de mim um monstro."

A Balada do Black Tom é uma releitura de O Horror em Red Hook, mas vista de outro ângulo, o dos supostos vilões da história de Lovecraft. Esse, digamos, 'remix' de O Horror em Red Hook funciona em dois níveis: como homenagem e como crítica à obra de Lovecraft, dando voz e imprimindo alguma humanidade aos párias e excluídos que são retratados como aberrações no conto original. Se, segundo alguns estudiosos, as criaturas indefiníveis presentes nas histórias de Lovecraft eram claramente uma representação de sua xenofobia e de seu racismo, em A Balada de Black Tom Lavalle mantém os monstros em segundo plano e escancara todo esse racismo em muitos momentos dolorosos, como, por exemplo, o destino do pai do protagonista, que é o estopim para a transformação do personagem principal. Se Donald Glover aponta a distopia que seu país se tornou para o povo negro no vídeo de This Is America, Lavalle utiliza sua própria história para sinalizar que estes monstros sempre estiveram por aí: a intolerância, o preconceito e o descaso não são novidade.

"- Agora, quanto você disse que o branco vai te pagar?
 - Quatrocentos dólares.
 - Tudo isso só pra tocar na festa dele? (...)
 - Foi o que ele disse.
Otis ergueu as mãos e as manteve separadas no ar o máximo que pôde.
 - Essa é a distância entre o que um homem branco diz a um preto e o que ele realmente quer dizer."

Na história, acompanhamos a trajetória de Tommy Tester, um músico medíocre que vive de pequenos trambiques e sustenta seu pai Otis, impossibilitado de trabalhar. Em uma sociedade ainda mais desigual que a atual, com os negros tendo perspectivas de vida desalentadoras, quase nulas, Tommy sobrevive em meio às poucas oportunidades e ao preconceito brutal que sempre paira sobre sua existência. Após negociar um velho livro com uma estranha senhora, Tommy conhece Robert Suydam, um misterioso homem que o contrata para tocar violão em uma reunião particular em sua mansão. Após essa reunião, e após uma tragédia pessoal na vida de Tommy, ele é enredado nos bizarros planos de Suydam, que incluem acordar um "Rei adormecido que vive no fundo do mar".E nós sabemos a quem ele se refere, certo...?


"Agora, não sei o que mais acrescentar à próxima parte, pois vou dizer que gostei do que vi. Certo? ela saiu, e o preto ficou parado lá, paciente como ele só, e então foi como se uma porta se abrisse. Veja o senhor, bem ali, onde o portão da casa funerária encosta na propriedade dela? alguma coisa se abriu bem ali. Digo que é uma porta, mas não era mesmo uma porta. Era como um buraco, ou um bolsão, e dentro do bolsão estava vazio, preto. Não sei o que mais dizer disso. Como o céu noturno, mas sem nenhuma estrela. E o tempo todo minha Elizabeth ficou gritando na cozinha."
 
Esta edição conta também com o conto original de Lovecraft, como extra, e com uma tradução o mais fiel possível do texto original, ou sejE, a editora Morro Branco optou por não atenuar o texto, o que sempre é acertadíssimo, seja a obra qual for. Nesse caso em especial, era imprescindível que o teor politicamente incorreto fosse preservado, em contraste ao revisionismo de Lavalle. Incluir a história original no mesmo livro foi uma decisão acertada da editora, que assim entregou todos os subsídios que o leitor precisa para formular suas próprias conclusões a respeito da obra original e a história em questão. Quando vemos um trecho na história de Lavalle que parece tão preconceituoso quanto o original, imediatamente captamos sua crítica ao racismo embutido na prosa Lovecraftiana.

"Quem poderia culpar a mente de Malone por devastar a verdade? Robert Suydam, aquele arqui-inimigo - havia matado o senhor Howard e seis policiais, além de causar danos dolorosos a Malone. No entanto, como um sinal da natureza justa de Deus, o próprio lacaio preto de Suydam virou-se contra ele e cortou a garganta do mestre. Por mais horrível que fosse, não era essa a verdade? Os pretos simplesmente não são tão malignos, explicou o especialista. Sua simplicidade era seu dom e sua maldição."
Racismo esse que, anos depois, 'evoluiu' para uma espécie de elitismo, um noção de predileção pela alta cultura anglo-saxônica, a única cultura refinada e sofisticada o suficiente para ser apreciada e reverenciada - segundo Lovecraft. Lavalle também se dá conta desta percepção que Lovecraft embutiu em sua obra em seus últimos anos de vida, tão errônea quanto a anterior, e sutilmente também comenta a respeito em sua história:


"Quem mais além de um homem nascido na riqueza e com educação poderia estar naturalmente preparado para liderar?"


Além do diálogo entre as duas obras, também existem easter eggs em A Balada do Black Tom, como essa singela homenagem abaixo, quando Lavalle insere o autor dento da releitura da obra. Adivinharam quem é???


"Um homem de Rhode Island, mas que vivia no Brooklyn com sua mulher, mostrou-se tão persistente que dois policiais foram enviados à sua casa para deixar claro que não era bem-vindo à Nova York. Talvez sua disposição fosse mais adequada a Providence. O homem saiu da cidade pouco depois, e nunca mais voltou."


Por fim, pra quem se interessa por esse aspecto antropológico das histórias de Lovecraft, deixo aqui mais uma recomendação: O Horror Cósmico de HP Lovecraft - Teoria e Prática. O livro é baseado na tese do professor Daniel I. Dutra e é uma análise profunda da obra de Lovecraft e suas correspondências, e ajuda bastante a elucidar toda esta questão do racismo implícito em suas obras. Mais uma publicação magnífica da editora Clock Tower, os cultistas mais alucinados do território nacional. Assim que for devidamente lido, claro que a resenha vai integrar essa série que criamos aqui na Zona. Nossa seção Genealogia Lovecraftiana só vai abordar livros que tenham alguma relação com a  mitologia criada por Lovecraft, sejam eles obras que influenciaram o cosmicismo de Lovecraft ou homenagens de autores publicadas após sua morte. Material pra isso não falta, já que o Lovecas está longe de ser esquecido à medida que o tempo passa...


A história talvez não satisfaça ao leitor que está atrás de uma história do cânone Lovecraftiano cheia de fan service e grandes pirotecnias. Já o leitor que procura uma boa história de mistério/horror com comentários sociais incisivos vai curtir essa reinterpretação. A Balada do Black Tom não é (apenas) uma história de horror cósmico, e sim uma revisão do passado recente. E Cthulhu sabe o quanto estamos precisando de revisões do passado...




terça-feira, 5 de junho de 2018

MONSTRESS - DESPERTAR, de Marjorie Liu e Sana Takeda, ou "O novo candidato a ser o próximo Saga."





Por Ray Jr.


"Uma vez, quando éramos escravos e estávamos famintos, comemos o conteúdo do estômago de um menino morto. Dissemos que era diferente de comer o menino. Mas agora eu sei a verdade. Era a mesma coisa."



Vencedora do prêmios Hugo Awards e British Fantasy Awards de melhor história em quadrinhos de 2017, a série da Image Comics criada pela roteirista Marjorie Liu (NYX, X-23) e a desenhista Sana Takeda (X-Men, Ms. Marvel, X-23) é uma das gratas surpresas publicadas no Brasil em 2018. Em um mundo alternativo que mistura elementos de fantasia épica e steampunk, a Federação Humana e os Reinos Arcânicos entraram em guerra após anos de coexistência amistosa. Uma frágil trégua é estabelecida após a Batalha de Constantine, que ceifou inúmeras vidas de ambos os lados. Acompanhamos o início da jornada da protagonista, Maika Halfwolf, passados cinco anos desde o início do período de trégua.


O esquecimento é amigo da barbárie.




Maika Halfwolf é uma arcânica de aparência bem similar a humana, que após sobreviver a guerra, decidiu ir atrás de respostas sobre seu passado. Boa parte da memória de sua infância foi perdida, depois de uma expedição com sua mãe e alguns outros estudiosos ao deserto a procura de um antigo artefato. Algo deu tremendamente errado por lá ao fazerem experimentos com o artefato, o que vitimou a mãe de Maika e marcou a própria de forma permanente. Encontrada por saqueadores no deserto, foi vendida como escrava e mantida em um campo de concentração por uma senhora de escravos que leiloava crianças arcânicas  para a alta sociedade humana. Durante o violento período de guerra, foi libertada mas a  inquietante vontade de descobrir sobre si mesma e as incomuns habilidades que adquiriu após o evento no deserto a faz partir em uma jornada extremamente arriscada.


A fome que anseia por alimento é a mesma que impulsiona a busca por algo que nos complete como indivíduo.


A primeira edição desse volume, que tem um número maior de páginas, já captura o leitor mostrando a grande habilidade narrativa da dupla para desenvolvimento de cenário e personagens, criando um mundo onde o leitor não demora a emergir, e abordando temas como preconceito racial, escravidão, estado teocrático opressor, enfrentamento de monstros internos e os problemas de uma geração pós-guerra alimentada pelo ódio e preconceito em um mundo onde muros dividem territórios Humanos e Arcânicos. Enquanto Maika tenta entender e controlar a criatura obscura que vive em seu interior e se manifesta através do seu antebraço amputado, ela coloca seu arriscado plano inicial em prática e as consequências poderão desencadear o reinício da guerra. Ambos os lados buscam conhecimento e acesso a poderes de deuses antigos adormecidos (Alô, Lovecraft!), e a linhagem da jovem pode ser a chave para o controle desses poderes.


As parceiras no crime, Sana Takeda e Marjorie Liu respectivamente, afiadíssimas na execução dessa bela obra.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn.


Praticamente todas as personagens de destaque e coadjuvantes são femininas, mulheres de personalidades marcantes, física e mentalmente diferentes, algumas ocupando cargos de poder, sendo elas militares de variadas patentes, líderes religiosas, um esquadrão de inquisidoras, uma primeira-ministro, chefes-guerreiras, rainhas e conselheiras, o que denota neste mundo uma forte característica de sociedade matriarcal, tanto do lado humano quanto do Arcânico. Além disso, apêndices ao fim de cada edição trazem trechos de palestras do Professor Tam Tam, um gato falante erudito contemporâneo, que elucidam questões históricas e conectam ainda mais o leitor ao mundo conhecido. E há de se concordar com Neil Gaiman, que diz que Monstress traz alguns dos melhores gatos dos quadrinhos, como o Mestre Ren. 


O audaz Mestre Ren ,com seu par de caudas, nunca perde uma oportunidade de citar os poetas.




Monstress é uma bela mistura dos estilos e tradição dos quadrinhos ocidentais e orientais com uma sinergia vibrante entre roteiro e arte. A edição da Pixel tem um belo acabamento gráfico que já impressiona na capa dura texturizada em verniz. A série está em seu terceiro volume nos EUA e ficamos na torcida para que o ótimo tratamento dado a esse título promissor continue por aqui.

Uma das estupendas capas de Sana Takeda


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

H. P. LOVECRAFT - MEDO CLÁSSICO VOLUME 1, ou "Manda mais Lovecraft que tá pouco!!!"




Por EDUARDO CRUZ


E eis que o gigante, ou melhor, a caveira, finalmente acordou!!! Desde seu surgimento, a editora Darkside Books nos deu algumas belas surpresas e se firmou, com muita justiça, como A editora de livros do gênero horror do atual cenário editorial nacional. Mas lá no fundo, faltavam algumas coisas ainda. Faltava, para a editora que nos apresentou tantos bons nomes do horror e fantasia com teor mais dark, um retorno às raízes, ao clássico. Aí, esses caras, que realmente têm um contato bem mais estreito com seu público alvo do que a maioria das editoras por aí, leram nossos pensamentos e iniciaram a coleção Medo Clássico, que já conta com Frankenstein, de Mary Shelley e um volume com contos de Edgar Allan Poe. 


Os primeiros volumes da coleção Medo Clássico já chegaram assustando! Mas era só o começo...

Mas assim como eu, vocês também tinham aquela sensação de que faltava mais alguém? pois é, não falta mais. O novo volume da coleção Medo Clássico é com ele mesmo, o nosso ídalo aqui na Zona, Agapê Lovecraft!

Quem acompanha a gente sabe que nem precisamos de desculpas pra falar do Lovecraft, e já falamos de outras edições da obra desse autor fantástico AQUI e AQUI, além de comentar uma ótima HQ que homenageia seu legado literário, a fantástica Providence, de Alan Moore. 

Alan Moore, um monstro reverenciando outro monstro, que escrevia histórias de monstro...
Ao contrário do que acontece lá fora, aqui no Brasil nenhuma editora realizou a façanha de publicar toda a obra de Lovecraft na íntegra, embora os dois tijolos que já resenhamos sejam bem superiores ao tratamento editorial que esse autor tinha há duas ou três décadas atrás. Pelo fato de a obra de Lovecraft ser de domínio público, de vez em quando tem pintado uma edição aqui, outra ali de diversas editoras, como a Hedra, a Clock Tower, Martin Claret, ex Machina. E dessa vez foi a vez da Darkside. E eles fizeram. E fizeram à moda Darkside Books! O primeiro volume de H. P. Lovecraft - Medo Clássico vem em duas edições: A Edição Cósmica, que é essa ilustração em cores fluorescentes e uma lombada que brilha, digamos, blasfemamente (heheh não resisti) no escuro, e a Edição Miskatonic, que lembra um livro profano, com relevos e detalhes rebuscados, além da arte monstruosa da capa. O conteúdo interno é absolutamente O MESMO, por isso não se desesperem, não é que a Darkside tenha lançado dois livros do Lovecraft ao mesmo tempo: é o MESMO livro, mas com capas variantes.

EDIÇÃO PSICODÉLICA CÓSMICA
EDIÇÃO MISKATONIC
Mas e o conteúdo? bom, como o relapso Lovecraft não tem produzido nada de novo desde... 1937, não há grandes surpresas na seleção de contos. Acho que a intenção aqui foi servir de leitura introdutória para os neófitos do autor, porque é o feijão com arroz que encontramos nos 9 contos selecionados para esse primeiro volume, entre eles: Dagon, O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, Herbert West Reanimator, O Depoimento de Randolph Carter... enfim, o obrigatório. O diferencial fica por conta dos extras, que incluem, entre outras coisas, algumas anotações e originais de Lovecraft e um texto de autoria de Robert Bloch (autor de Psicose) intitulado Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. instigante, não? Além disso, a edição conta com sensacionalmente grotescas ilustrações do artista gaúcho Walter Pax, que em 2014 lançou, via financiamento coletivo, o livro Love - A arte Que Não Deveria Ser.




O sumário deste primeiro volume.
Eu diria que é um ótimo começo.

Essa edição da Darkside serve mais como uma porta de entrada (ou um portal, como Yog Sothoth) pra quem quer conhecer Lovecraft e não sabe por onde começar, ou para os fanáticos que não resistem a um belo acabamento gráfico, e por uma edição com anotações no rodapé, e textos extras - que são sempre bem vindos. Essa é mais uma edição que trata a obra desse autor com o primor e reconhecimento que ele merecia em vida, mas nunca teve, infelizmente. Será que dessa vez Lovecraft vai ter toda sua obra publicada na íntegra por uma editora brazuca? Só Azatoth pode responder, mas é melhor deixar ele quieto...

Que venha o segundo volume!!!!


 


quinta-feira, 6 de julho de 2017

CONTOS REUNIDOS DO MESTRE DO HORROR CÓSMICO H. P. LOVECRAFT





Por EDUARDO CRUZ


E aí macacada cultista de Cthulhu??? 
Estamos de volta, depois de um longo e tenebroso inverno (quer dizer, na verdade ainda estamos no meio do inverno, mas me deixem em paz com minhas figuras de linguagem, vá!) sem postar nada durante todo o mês de junho (fora o post de Injection! já leu??). Agora estamos de volta com desculpas, explicações e justificativas. Nossas desculpas e explicações são razões pessoais mesmo. De minha parte, tenho trabalhado muito ultimamente, o que aniquilou o tempo que normalmente eu tenho para escrever aqui, e o Ricardo estudando feito um condenado (se não me engano ele cursa História da pornografia agrária do século XIV, e junho é época de provas). Mas não conseguir tempo para escrever não é o mesmo que não conseguir ler nada aqui na Zona! E isso, pelo menos, eu não deixei de fazer. Fora um ou outro gibi esporádico, desde o post dissecando o primeiro volume de Providence, mergulhei fundo na leitura da produção textual de H. P. Lovecraft (mais uma vez! só preciso de uma desculpa pra (re)ler Lovecraft :)))), e só tenho conseguido agora, em julho, sair aos poucos desse estado catatônico literário, pegando finalmente os outros livros que estão aqui na fila de leitura, para fazer os próximos posts da Zona Negativa, e assim, aos poucos vamos voltando àquela rotina que estávamos acostumados por aqui ;>).  


Quem acompanha o blog há algum tempo já sabe que aqui somos leitores doentes de Lovecraft meeeeeerrrrrrmo, e não vamos descansar enquanto os mitos de Cthulhu não estiverem todos armazenados em nossas mentes, corações e estantes heheheh. Mas não precisa acreditar na gente se não quiser. O que Neil Gaiman declarou a respeito de Lovecraft sintetiza toda a importância e reverência em torno desse grande escritor: 

"Ele definiu os temas e obssessões de horror do século XX, e ao entrarmos no século XXI ele se mantém presente."

As editoras brasileiras têm dado um tratamento cada vez mais digno à obra de Lovecraft por aqui. Da editora Iluminuras, passando pela Clock House, não podemos esquecer daquelas edições belíssimas da Hedra, e mais recentemente o tijolo monstruoso da Martin Claret; enfim, o pai do horror cósmico tem recebido cada vez mais destaque no mercado editorial brasileiro, e o novo tributo à obra de HPL a sair por aqui é o volumão "H. P. Lovecraft - Contos reunidos do Mestre do Horror Cósmico", da editora Ex Machina. O projeto foi bancado via financiamento coletivo no Catarse e é o mais novo objeto de desejo dos aficionados por Lovecraft. O livro simplesmente abarca toda a prosa curta de Lovecraft, ou sejE, todos os seus contos e noveletas, com exceção de obras mais extensas, como as novelas "Nas Montanhas da Loucura", "A sombra Vinda do Tempo", "Um Sussurro nas Trevas", entre outros, excetuando-se também textos em que escreveu em colaboração ou como ghost writer. O livro já mostra a que veio na introdução escrita por S. T. Joshi, o maior especialista e pesquisador de H. P. Lovecraft da atualidade (também autor da biografia), e que também supervisionou a divisão dos contos em blocos temáticos. Em pouco mais de 600 páginas, o livro apresenta 61 histórias(!!!), cada uma precedida de uma pequena sinopse, e divididas em ciclos:

  • Ciclo de Cthulhu, com as histórias relacionadas ao seu panteão de entidades horrendas, os mitos de Cthulhu; 
  • Ciclo dos Sonhos, com os contos relacionados ao viajante do sonhar Randolph Carter, além de outros de seus contos com aquela mescla perfeita entre fantasia e horror; 
  • Miscelânea, que reúne contos diversos em vários momentos diferentes de sua (curtíssima!) carreira literária (Sim, aqui tem "Herbert West: Reanimador"!!!!); 
  • Juvenília, seção que reúne algumas histórias escritas por HPL ainda em sua adolescência. 

Como se isso já não bastasse, essa edição ainda conta com apêndices incríveis, como ensaio biográfico, ensaios críticos, filmografia, iconografia, um bestiário lovecraftiano, tudo com a colaboração dos maiores estudiosos de literatura fantástica e da obra de H. P. Lovecraft do Brasil, como Nathalia Scotuzzi, Guilherme da Silva Braga, Marcello Branco, Silvio Alexandre, entre outros. A organização do volume é de Bruno Costa, o mesmo responsável pelas edições da Hedra.





Com preguiça de digitar isso tudo, acabei tirando fotos do sumário mesmo rs.

Inexplicavelmente, o conto "A Coisa na Soleira da Porta" ficou de fora dessa edição. Uma história excelente e curtinha, como era a proposta do livro. Mas ainda assim é de fato a mais ambiciosa publicação de H. P. Lovecraft já lançada em língua portuguesa, um item de colecionador fantástico, e com extras igualmente impressionantes. Mais do que apenas para fãs de Lovecraft, indispensável para qualquer fã de literatura fantástica e horror. 


"Lovecraft - Fear of the Unknown", excelente documentário sobre a vida e obra do escritor, com participações de Neil Gaiman, Stuart Gordon, John Carpenter e outros. Completo e legendado.

E vocês acham que parou por aí? A Darkside Books, aquela editora com o catálogo deliciosamente dark e as capas incríveis, também já anunciou que vai publicar algo do escritor ainda em 2017, pela linha Medo Clássico - que já publicou uma coletânea de Edgar Allan Poe e "Frankenstein", de Mary Shelley -, mas até o momento ainda não há detalhes sobre como vai ser esta publicação. Aguardamos ansiosos por mais uma coletânea de HPL nas livrarias...



Como eu disse anteriormente sobre "Neuromancer", e o raciocínio se aplica com perfeição também a H. P. Lovecraft: estivemos expostos a vida inteira a produtos da indústria do entretenimento que foram derivados direta e indiretamente da literatura de Lovecraft, então que tal dar uma chance ao material original que inspirou obras diversas como "O Enigma do Outro Mundo", "Re-animator", "Stranger Things", "Hellboy", "Uzumaki", "The Void", entre outras dúzias de filmes, séries, HQs, jogos, mangás, músicas, etc?



E aí? foi ou não uma boa desculpa pra passar um mês sem postar? Eu faria tudo de novo. E farei. Então, quando eu sumir de novo, vocês já sabem que mais uma vez fui tragado pelos Mi-Go para um tour por Kadath, Carcosa, R'lyeh, Dunwich, Salem, Innsmouth.... Quando Cthulhu chama, você tem que atender!


domingo, 28 de maio de 2017

UM PASSEIO EM PROVIDENCE! Via Innsmouth, Red Hook, Dunwich, Carcosa, R’lyeh......


Por EDUARDO CRUZ




Quem não estava escondido embaixo de uma pedra em uma caverna subterrânea ou filosofando com o Dr. Manhattan na superfície de Marte provavelmente já sabe que a Panini finalmente lançou nesse mês de maio a primeira terça parte de Providence, uma mini série em 12 edições que saiu lá fora pela Avatar Press, e que aqui vai sair em 3 encadernados. Ansiosos? 

Podem apostar que eu sim! Pra quem não sabe, Providence é, ao mesmo tempo, prelúdio e continuação de Neonomicon, uma HQ onde Moore presta homenagem a toda a mitologia criada por esse escritor norte americano. E não é segredo nenhum que esse autor, que criou o subgênero de horror cósmico, Howard Phillips Lovecraft, é um de nossos grandes favoritos aqui na Zona Negativa! 






Em Providence acompanhamos a jornada de Robert Black, um repórter nova iorquino, homossexual, que logicamente, devido às pressões da sociedade da época, é obrigado a esconder sua condição, vivendo uma vida diferente sob a superfície. Robert trabalha em um jornal, o New York Herald, porém, sempre se sentiu compelido a escrever seu próprio grande romance, aquele que iria captar e cristalizar com precisão a essência e a época de seu país e seu povo, na América de 1919, às vésperas da Lei Seca e a poucos anos do Crash da Bolsa de Valores que assolaria a nação de um modo sem precedentes.





Em busca de um artigo para seu jornal a respeito de um misterioso livro supostamente amaldiçoado, e ainda abalado com a morte repentina de um ex amante, Robert acaba pondo o pé na estrada e pouco a pouco desbrava todo um submundo de indivíduos à margem da sociedade que trocam informações e conhecimentos sobre ciências ocultas, pessoas atípicas, excêntricos e freaks em geral, e em alguns casos até mesmo indivíduos que não poderíamos classificar exatamente como pessoas. Black, sem se dar conta, acaba empreendendo uma viagem por toda uma América oculta sob a superfície, em uma analogia nada sutil ao próprio universo encoberto a que o protagonista pertence, em uma época em que a palavra “gay” significava apenas “alegre”. A grande diversão nessa homenagem de Moore ao legado Lovecraftiano é acompanhar Black em busca de sua reportagem, peregrinando pelas cidades onde Lovecraft ambientou muitas de suas grandes histórias, se encontrando com os personagens chave dessas histórias, edição a edição, em uma romaria profana, que sabe-se lá como vai ser concluída. Aí, é ter paciência e torcer para que a Panini não demore muito a publicar o restante da série <coff, coff, coff PROMETHEA coff, coff, coff, coff...>.





E aí vem a pergunta: Dá pra ler Providence sem conhecer a obra de H.P. Lovecraft? Olha, até dá, mas devo avisar que MUITAS referências legais vão se perder, e com um trabalho assim fantástico, isso não é nada legal. Um desperdício, eu diria. Por isso, fizemos uma pequena relação das histórias de Lovecraft que o leitor teria que conhecer previamente para aproveitar ao máximo a mini série de Moore. Reitero que isso não é obrigatório e Providence ainda funciona como uma ótima história de mistério/terror por si só. Porém como se trata de uma mini série que é essencialmente referencial, como A Liga Extraordinária, outro grande título de Moore, muitos outros significados e leituras se revelam ao leitor atento que investir só mais um pouquinho de tempo pra ler alguma coisa do material de onde a HQ foi inspirada.







Não fiz uma varredura ampla como aquele gringo maluco que destrinchou o “Dossiê Negro” da Liga Extraordinária TODO, por exemplo. Em cada edição de Providence Moore passeia por um conto ou romance específico de Lovecraft, ou sejE, cada conto de Lovecraft é a espinha dorsal de uma edição, com a mitologia geral Lovecraftiana amarrando tudo. Claro que há muitas outras referências menores entre os diálogos, e não apenas de H. P. Lovecraft, mas não vamos passar um pente tão fino assim, amiguinhos. Nesse post vou indicar somente essas histórias chave, e quem se interessar em se aprofundar mais que fique à vontade. Os cata-piolhos que encontrarem alguma coisa que valha a menção e que porventura eu não tenha citado aqui, por favor, sintam-se à vontade para comentar lá embaixo!





Então arrumem um canto sombrio pra se acomodar para a leitura, preparem sua coletânea de contos de H. P. Lovecraft (Nesse link tem todos os contos citados no post) do lado do encadernado de Providence, entoem uma pequena oração para Yog-Sothoth, acendam os incensos certos, tracem os símbolos apropriados e vamos começar, ou sejam condenados para sempre...







PROVIDENCE #1


Na primeira edição, ainda em Nova York, Black localiza e entra em contato com um certo Dr. Alvarez, que lhe dá algumas pistas para seguir seu caminho. O conto “Vento Frio”, escrito em 1926 e publicado em 1928 na revista Tales of Magic and Mystery, é a história relacionada a este misterioso personagem, que no conto chama-se Dr. Muñoz, um médico que, alegando sofrer de uma rara doença, precisa manter-se resfriado a temperaturas muito baixas. No conto conheceremos um pouco mais do elusivo Dr. Muñoz e como ele ludibriou a morte...







PROVIDENCE #2


Seguindo a história, nessa edição vemos Black se relacionando com personagens como o detetive de polícia Thomas Malone e o comerciante de textos ocultistas Robert Suydam, ambos oriundos do conto “O Horror em Red Hook”, escrito em 1925 e publicado em 1927 na revista Weird Tales. Um mistério policial – onde vemos a xenofobia de Lovecraft vir à tona: o escritor morou por um tempo em Nova York e o grande volume de estrangeiros e imigrantes o incomodava – envolvendo cultos obscuros, sacrifícios de crianças e criaturas estranhas escondidas nos porões do bairro...








PROVIDENCE #3


Continuando a jornada de Black, chegamos a um estranho vilarejo portuário que não consta nos mapas, onde seus habitantes, bastante reservados, têm, em sua grande maioria, feições que se assemelham a peixes, e até mesmo a sapos... e o que são aqueles vultos nadando no mar a que Robert se refere como “focas”? Em “A Sombra de Innsmouth”, história escrita em 1931 e publicada em 1936, conheceremos mais detalhes a respeito deste desolado e malcheiroso vilarejo à beira mar, e os segredos pavorosos escondidos por detrás das portas e janelas fechadas...






PROVIDENCE #4


Fechando este primeiro encadernado nacional de Providence, Robert, no encalço das pistas de sua investigação, conhece a família Whateley. A origem dos Whateley é o conto “O Horror de Dunwich”, escrito em 1928 e publicado em 1929. A bizarra família é composta pelo velho patriarca, sua filha albina, Lavinia (Na HQ de Moore renomeada para “Leticia”), e seus dois filhos: Wilbur (na HQ é conhecido como Willard), um rapaz com feições de bode e uma estranha avidez por conhecimento oculto, e seu irmão gêmeo, que é invisível, e acreditem, talvez seja melhor não ver sua real aparência. Algumas coisas não podem ser esquecidas depois de vistas...






Ainda nesta edição, uma rápida referência ao conto "A Cor Que Caiu do Espaço", a história de invasão alienígena mais estranha, maligna e repugnante já escrita. Esse conto é de 1927, publicado no mesmo ano na revista Amazing Stories





BÔNUS:

Além das óbvias referências e homenagens ao próprio Lovecraft, consegui pescar mais algumas pequenas pérolas nessa primeira leitura de Providence, como uma menção a outro mestre do suspense e horror na literatura: Edgar Allan Poe.



Também há algumas menções ao Rei de Amarelo, livro de 1895, criação de Robert Chambers, uma das influências do próprio Lovecraft como escritor. Quem assistiu à primeira temporada de True Detective faz uma idéia do que vem a ser essa obra de horror cósmico pré-Lovecraft.

O rei de Amarelo

Os apêndices entre as edições, com textos diversos relacionados à trama, como o diário do protagonista, ou um panfleto de igreja, ou um tratado de ocultismo ajudam a imergir o leitor ainda mais na história. Ou pelo menos deveriam: em Providence os apêndices podem ser um tanto cansativos em alguns momentos. Os conteúdos extras que Moore costuma produzir para suas histórias já foram bem melhores, como os de Watchmen, ou O Dossiê Negro da Liga Extraordinária, muito mais interessantes e funcionais para a própria trama principal são OK. Mas entre esses textos, destaco a menção a O Livro dos Lobisomens, do inglês Sabine Baring-Gould, um tratado sobre licantropia publicado em 1889, do qual há uma breve menção, e recomendo a leitura. Afinal, nunca se sabe quando ser capacitado a identificar alguém que se transforme na lua cheia pode vir a ser conhecimento útil ;>).


Enfim, isso é só um ponto de partida para vocês terem uma mínima idéia do que se passa em Providence! Nessas primeiras quatro edições do encadernado, Moore mal arranhou a superfície do vasto cânone de Cthulhu e Cia, e estamos ansiosos por mais!



Quanto mais você se dispuser a chafurdar na bibliografia de Lovecraft, e também de seus colegas escritores, como Robert Bloch, Robert E. Howard, August Derleth e outros, mais e mais referências serão captadas, porque acreditem, se Moore não perdeu a mão, Providence está carregada de referências em suas páginas! A partir daí é você quem decide se vai se aventurar assim tão fundo nesses horrores inomináveis e blasfemos, ou se vai ficar só boiando na superfície mesmo, onde é mais seguro... ou não?



P.S.: Para quem sabe inglês e quiser uma relação enorme das referências contidas na HQ, se aventure nesse site!