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terça-feira, 3 de julho de 2018

O CORVO, de James O'Barr: Neogótico em alta fervura!






Por EDUARDO CRUZ


"Se as pessoas que amamos são roubadas de nós, o jeito de mantê-las vivas é continuar amando-as. Os prédios queimam, as pessoas morrem, mas o amor verdadeiro é para sempre."



E eis que assim, meio que de repente, finalmente sai no Brasil um clássico das HQs independentes: O Corvo, de James O'Barr! Essa HQ, originalmente publicada em 1989 lá fora, e após algumas tentativas malfadadas de outras editoras para publicação aqui no Brasil, finalmente ganha uma edição definitiva peloo selo Darkside Graphic Novel, da Darkside Books, com introdução do próprio autor e 30 páginas extras que, como O'Barr explica na introdução, simplesmente não possuía a perícia técnica para fazê-las como ele queria na época. O Corvo é mais um daqueles gibis essenciais, uma verdadeira injeção de ânimo em termos de quadrinhos autorais, em uma época em que os autorais ainda eram relegados ao underground, e por que não dizer, uma das obras que ajudou a elevar o nível - e muito! - nesse segmento das HQs autorais.


Calma! Não me enganei e tirei foto da HQ errada não!
Os anos 80 foram assim mesmo, amiguinhos...

Mas do que trata o enredo desse clássico das HQs independentes? O Corvo narra a vingança além-túmulo empreendida por Eric Draven, um jovem assassinado por uma gangue de criminosos viciados, tão perversos que beiram o caricato, não fosse a crueldade desmedida que cada um deles é capaz de executar. Draven é morto, mas antes presencia a gangue violentando sua noiva Shelly, para, por fim também acabarem com a vida da moça. Tempos depois, Draven está de volta do mundo dos mortos, guiado por um misterioso corvo, e em busca de vingança. Draven assume uma pintura de guerra baseado nas máscaras teatrais gregas da comédia e tragédia e começa seu acerto de contas, no melhor estilo John Woo, com muitas balas, facadas e golpes de katana, matando membro por membro da gangue de marginais, num crescendo de violência que culmina no cabeça da gangue, T-Bird. Tudo isso embebido em um clima gótico, com direito a citações a torto e à direito de letras de bandas de pós-punk e autores como Baudelaire e Rimbaud. Então, antes de começar a leitura, sugiro que vocês coloquem sua playlist de Darkwave para rolar, a melhor ambientação possível para esse gibi.








 "Eric grita e grita e bate a cabeça contra a parede
até que sirenes fantasmas cruzam sua visão.
Tudo que ele quer é dor.
Dor e ódio
Sim, o ódio.
Mas nunca o medo. O medo é para o inimigo.
O medo e os tiros."




"Tive a esperança de que, se botasse toda a minha fúria assassina no nanquim e no papel, de algum jeito, por mágica, toda a dor, toda mágoa e toda tendência autodestrutiva que se seguiu iam virar fumaça."

James O'Barr
A premissa básica parece um tanto simplória e meio batida, mas como toda obra de arte que vale a pena ser analisada e apreciada, O Corvo nasceu de um bocado de dor e sofrimento. Na introdução escrita por O'Barr nesta edição da Darkside Books, ele explica que a idéia da HQ surgiu de uma tragédia pessoal que o assombrou por muito tempo: Quando jovem, ele pediu carona a uma namorada, que acabou morrendo atropelada por um motorista bêbado antes de encontrá-lo. Atormentado por dor, culpa, mágoa, e pensamentos autodestrutivos, produzir esse gibi foi a maneira de O'Barr se purgar de todo o sofrimento e desespero da perda. Além, é claro, da culpa esmagadora... Para mim, essa história pessoal por trás da HQ justifica toda a ultraviolência contida na história. A maneira que Eric Draven se porta, tanto na HQ como no filme, com todo aquele deboche e jocosidade, como se para disfarçar toda a imensurável dor de ser ceifado antes da hora e de forma injusta e seguir em frente, reflete a dor de O'Barr ali, estampada em cada página. Nas palavras de Nietzsche: "A arte existe para que a verdade não nos destrua", e O Corvo é um bom exemplo da validade dessa citação.



Em 1994, O Corvo ganhou uma adaptação cinematográfica, que em minha opinião, é pouco lembrada e bastante subestimada. Dirigido pelo cineasta australiano Alex Proyas (do também subestimado Cidade das Sombras, que na época infelizmente foi ofuscado pelo de tema similar, porém muito mais pirotécnico Matrix), esse filme foi minha semi obsessão na época de seu lançamento, tanto pela história quanto pelo trágico acidente ocorrido durante a produção: O protagonista, interpretado por Brandon Lee, filho da lenda viva Bruce Lee, morreu durante as filmagens do longa metragem, alvejado por uma arma de festim mal regulada. Sim, também acho que foi tão estranho quanto o que aconteceu com o próprio Bruce Lee, o que me fez pensar a vida inteira se a maldição dos Lee não seria real. 

Brandon Lee (01/02/1965 - 31/03/1993)
Ao rever o filme para escrever essa resenha, já com a leitura da HQ fresca na memória, dá pra perceber o quanto O Corvo foi um filme importante nessa trajetória das adaptações de histórias em quadrinhos para cinema e merece ser mencionado com mais frequência. Bastante fiel ao plot da HQ, não há demonstrações ostensivas de que se tratava de uma adaptação de quadrinhos. Muitos diretores entendiam erroneamente, em uma era pré Marvel Studios - salvo pouquíssimas exceções, como esta - que um filme oriundo de uma HQ não precisava de seriedade nem carga dramática. Aqui não há situações que desprezam a inteligência da audiência. Os efeitos especiais são datados, afinal já fazem 24 aninhos, né? E, mesmo assim, isso não compromete o filme de forma alguma.  Apenas um filme honesto, contando uma história da melhor maneira possível. E foi o que bastou. Uma pérola cult, que inclusive consegue fluir melhor que a própria HQ em vários momentos. Tudo com as bênçãos de O'Barr, que também assina o roteiro da adaptação.



O filme conserva todo o clima dark de tristeza e violência oriundos da HQ, além de ser visualmente belíssimo, com recursos que a mídia cinema pode criar de uma forma única: Enquadramentos fora do convencional; sets riquíssimos em detalhes, compondo uma cidade suja, escura e desolada que faria Gotham City parecer a Barra da Tijuca; uma estética neogótica que permeia o filme do começo ao fim e que em vários momentos cria cenas de beleza soturna na tela. Ah, e uma trilha sonora fabulosa, composta por nomes como The Cure, Nine Inch Nails, Rage Against The Machine e The Jesus And Mary Chain. Numa época em que a gente ainda frequentava lojas de discos e consumia música por meio de suporte material, a trilha sonora do O Corvo era um dos CDs mais disputados lá por 1995, 1996...

Uma das trilhas sonoras mais cobiçadas dos anos 90...

Voltando à HQ, uma curiosidade é que a arte é totalmente à mão, apenas lápis, nanquim e retículas para fazer os tons de cinza. Algo cada vez mais raro nos dias de hoje, em que muitos artistas já possuem seus portfólios totalmente em suporte digital. O Corvo é uma HQ 100% artesanal, com um pé no fanzine, sem computadores em nenhuma etapa de sua feitura. O traço de O'Barr é preciso e detalhista, algo entre Vince Locke e Michael Zulli, para fins de comparação. Retratando a cidade  suja e violenta, como não poderia deixar de ser. Mas esse traço sujo e rascante tem como contraponto algumas sequências oníricas, um simbolismo típico de sonhos, onde Eric observa um cavalo preso em arame farpado, sem nada poder fazer para salvá-lo, uma poderosa metáfora para a impotência frente à tragédia, tanto de Eric quanto do próprio James. Nessas sequências o traço é suavizado, quase como uma aguada em tons de cinza, porém a suavização só ocorre em nível visual mesmo. A angústia, melancolia e tristeza permanecem presentes ao longo de cada página, e nem sempre sutil. Quem já ouviu Joy Division conhece a sensação...


Uma história sobre a aceitação da inevitabilidade da morte e sobre o perdoar a si próprio, O Corvo é um daqueles trabalhos viscerais, feito não só com as mãos, mas com muito coração e alma. Pode conferir, está tudo no papel...




quinta-feira, 24 de maio de 2018

O LIVRO DA LEI + ALEISTER CROWLEY, a biografia quadrinizada + O Legado da Besta na Cultura Pop.








Por EDUARDO CRUZ



"O tolo bebe, e se embebeda; o covarde não bebe. O homem sábio, bravo e livre bebe, e dá glórias ao Mais Alto Deus."



Edward Alexander Crowley, ou Aleister Crowley, como era mais conhecido fez de (quase) tudo: Enxadrista, alpinista, dramaturgo, poeta, ocultista nato, viajante andarilho, divulgador da Ioga no ocidente, estudioso da Cabala, viciado em cocaína e heroína, suposto espião a serviço da Coroa Britânica, taxado pela imprensa da época como o homem mais depravado de sua época, fundador da filosofia da Thelema, mago invocador de demônios e espíritos, arauto do Novo Aeon, um mero charlatão dado a escândalos... Digam o que disserem do Crowley, aí está um cara que certamente vivenciou a vida ao máximo! "Todo homem e toda mulher é uma estrela", ele afirmava em seus tratados, e tentou atingir o potencial máximo que lhe foi permitido, seja para o bem ou para o mal. Embora eu suspeite que conceitos como "Bem" e "Mal" não se apliquem a Crowley. Sua concepção de prática mágica, ou “Magick”, como “a ciência e arte de causar mudanças de acordo com a vontade” é estudada por iniciantes e iniciados e são incontáveis as ordens místicas que utilizam seus conceitos e postulados como base. Além disso, sua esfera de influência atinge lugares inusitados até os dias de hoje: Considerado uma celebridade antes mesmo do termo existir, o mago é citado, referenciado e reverenciado dentro da cultura de massas, seja na música, nas histórias em quadrinhos, filmes, livros... Isso sim é poder, bitches!!!


Crowley nasceu no seio de uma família cristã e sempre teve problemas com uma criação nesses padrões. Era obrigado a ler um capítulo da bíblia por dia. Perdeu o pai, dono de uma cervejaria, aos 11 anos de idade e tinha uma péssima relação com a mãe, que chegava ao cúmulo de chamá-lo de "A Besta", alcunha que acabou perdurando pelo resto de sua vida. A característica mais marcante de Crowley sempre foi bater de frente com os valores morais e religiosos do seu tempo, sendo um proto-libertarianista, defendendo a liberdade sexual, pessoal e espiritual, e a sua regra de "Faz o que tu queres" posteriormente se tornaria o mantra da filosofia Thelêmica. Em 1897, impelido por aquelas questões maiores da existência humana, Crowley abandona Cambridge para se dedicar ao ocultismo. No ano seguinte, ingressa na Ordem da Aurora Dourada, onde, após iniciado, aprende os fundamentos da magia ritualística e como utilizar drogas em rituais. Logo, uma dissidência o leva a entrar em choque com o mestre da ordem, o ocultista S. L. MacGregor Mathers, considerado muito autoritário por alguns membros. Após algumas tentativas de conciliação, o choque de egos entre Crowley e Mathers o leva a abandonar a Aurora Dourada em definitivo.


Encruzilhadas, reais ou simbólicas, são um dos elementos essenciais para os praticantes de magia. E é aqui que Crowley atinge a sua encruzilhada: Em 1904, um dos momentos chave de sua vida, em uma viagem de lua de mel ao Cairo acompanhado de sua esposa, Rose Edith Kelly, ele entrou em contato com uma entidade chamada Aiwass, que afirmava ser o porta voz de Hórus. Durante três dias, entre 8 e 10 de abril de 1904, entre o meio-dia e as 13 horas, Aiwass ditou para Crowley o que viria a ser conhecido como o Liber Al Vel Legis, ou O Livro da Lei. Crowley relatou que a voz vinha por sobre seu ombro esquerdo, como se Aiwass estivesse posicionado em um dos cantos da sala, com um timbre firme e expressivo, mas ao mesmo tempo tenro.



Crowley com sua primeira esposa, Rose Edith Kelly, e sua filha
Nuit Ma Ahathoor Hecate Sappho Jezebel Lilith Crowley
O Hexagrama Unicursal, principal símbolo da Thelema

Mas o que vem a ser o Livro da Lei? dividido em três partes, a primeira ditada por Nuit, a deusa egípcia do céu noturno, a segunda por Hadit, autodenominado o complemento de Nuit, sua noiva, e a terceira por Ra-Hoor-Khuit, a Criança Coroada e Conquistadora, o livro seria um poderoso grimório, que fala sobre a vindoura Era de Aquário, o Aeon de Hórus, uma era que supostamente se iniciaria com a queda das religiões patriarcais e com uma compreensão maior acerca do (auto)conhecimento espiritual e autogovernança do indivíduo. Seu conteúdo é extremamente críptico, enigmático, deixando abertura para as mais diversas interpretações. Isto é plenamente intencional: O Liber Al Vel Legis é para ser lido individualmente, e a apreensão de seu conteúdo, a forma como ele será compreendido vai depender exclusivamente das percepções e vivências pessoais de cada um que o ler. É um mesmo livro que se torna tantos livros quanto existem leitores para ele. Os Thelemitas não encorajam textos explicativos ou assembléias e reuniões para se interpretar passagens do mesmo, a fim de evitar a criação de dogmas em cima dele, um vício de todas as grandes religiões. Assim sendo, não há interpretação incorreta do Livro da Lei e seu "sacramento", na falta de um termo melhor, se dá na esfera pessoal de cada um. O único autorizado a fazer alguns comentários a respeito do livro foi o próprio Crowley, que utilizou a Cabala como uma espécie de pedra de Roseta para interpretar os versos crípticos. 




No final do ano passado, a editora Chave lançou uma belíssima edição do Liber Al Vel Legis, que traz um ótimo prefácio, rico em informações complementares, páginas de reproduções dos manuscritos originais de Crowley, os comentários dele quanto ao Liber Al Vel Legis e um poema de Crowley traduzido por Fernando Pessoa, um notório entusiasta da obra do magista. Coisa fina. O livro, que possuía uma edição anterior rara e esgotada no Brasil há muitos anos, é uma segunda chance para aqueles, que como eu, andavam loucos atrás de um exemplar físico. A edição é incontestavelmente produzida com muita atenção a cada detalhe, desde a capa até a tradução. Além disso, é uma edição bilíngue Português/inglês.


"Observem por si mesmos a deterioração do sentido de pecado, o crescimento da inocência e da irresponsabilidade, as estranhas modificações do instinto reprodutivo com a tendência de transformar-se em bissexual ou epiceno, a confiança infantil no progresso combinada com medo apavorante da catástrofe, contra a qual ainda pouco desejamos tomar precauções.

Considere o afloramento das ditaduras, apenas possível quando o crescimento moral está em seus estágios iniciais, e a prevalência de cultos infantis como o Comunismo, o Fascismo, o Pacifismo, dos Modismos da Saúde do Ocultismo em quase todas as suas formas, religiões sentimentalizadas ao ponto da extinção na prática.

Considere a popularidade do cinema, do rádio, da loteria esportiva e das competições de adivinhação, todos instrumentos para confortar crianças intratáveis, sem semente de propósito neles.

Considere o esporte, os entusiasmos e raivas infantis que ele desperta, nações inteiras perturbadas por disputas entre meninos.

Considere a guerra, as atrocidades que acontecem diariamente e não nos comovem e pouco nos preocupam.

Somos crianças.

Como este novo Éon de Hórus se desenvolverá, como a Criança irá crescer, isso cabe a nós determinar (...)"
O Livro da Lei, página 37 


 


Ainda relacionado a Crowley, a Chave lançou pouco tempo depois, no início desse ano, em parceria com a editora Veneta, uma biografia em quadrinhos do mago inglês. A HQ, intitulada simplesmente Aleister Crowley, tem um projeto gráfico similar à edição do Liber Al, e mostra a história de Crowley desde o nascimento em sua família rica família de fanáticos religiosos, a sofrida infância e adolescência nas escolas de elite, a descoberta da magia e a vida de escândalos que o transformaram em uma das maiores celebridades de seu tempo e o alvo favorito dos tabloides ingleses que o definiram como “O homem mais perverso do mundo”. De autoria de Martin Hayes e RH Stewart, a HQ lembra muito Do Inferno, de Alan Moore, mais precisamente nos remete ao artista de Do Inferno, Eddie Campbell, uma arte em preto e branco "suja", hachurada, de linhas fortes. Uma ressalva que eu tenho com a biografia quadrinizada é pelo fato de Crowley, que teve uma vida tão diversa, viajou muito, exerceu incontáveis atividades e experimentos místicos ter tudo isso resumido a cento e poucas páginas. É o resumo do resumo. O atenuante aqui é que metade do livro é de notas explicativas, mais uma similaridade com Do Inferno. As notas explicativas maximizam o aproveitamento da leitura e contextualizam muitos fatos que poderiam passar em branco se só lêssemos a HQ.








"A evolução promove suas mudanças de maneiras antissocialistas. O homem "anormal" que prevê as tendências do tempo e adapta as circunstâncias de modo inteligente é motivo de riso, é perseguido, e frequentemente destruído pelo rebanho; mas ele e seus herdeiros, quando a crise vem, são sobreviventes."

O Livro da Lei, página 39



UMA BESTA POP

Por fim, Crowley morreu em 1947 (mesmo ano da queda do objeto voador em Roswell. Coincidência??? Desculpe, não trabalhamos com coincidências aqui hehehehe), pobre e quase sem seguidores. Mas a sua grande obra já havia sido concluída: A maneira como ele praticava Magia inspirou muitos outros estudantes e diletantes e possibilitou a formação do neopaganismo como o conhecemos hoje, além de deixar profundas marcas na cultura. Para uma figura tão peculiar, Aleister Crowley se tornou uma presença perene e bem influente na cultura pop. Não dá pra ler uma dúzia de livros, HQs ou filmes, ou mesmo escutar músicas sem esbarrar em uma menção direta ou indireta, homenagem ou referência ao Crowley real, tamanho é o fascínio que a Besta exerce em quem estuda sua vida e obra. Abaixo temos alguns exemplos bem famosos, e outros nem tanto. Essas referências pinçadas aqui não são sequer a ponta do iceberg, e uma pesquisa mais extensa faria o post ficar umas cinco vezes maior do que é, então vamos parar por aqui rs. “A influência de Crowley na cultura moderna é tão disseminada quanto a de Freud ou Jung”, diz o jornal inglês The Guardian, e os exemplos abaixo comprovam a influência da Besta dentro do panorama das artes.

Crowley na montagem da capa do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.


HISTÓRIAS EM QUADRINHOS:

Por ter sido vilipendiado por tantos anos pela imprensa de seu país natal, Crowley acabou se tornando quase uma figura folclórica. Uma espécie de Toninho do Diabo, mas com o charme britânico que o nosso representante do Cramulhão não possui. Por isso, nada mais natural do que a profusão de citações a Crowley se concentrar com mais frequência em obras da cultura popular britânica. A Invasão Britânica, que nos anos 80 apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinhistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana ;>). 

“No mundo das ciências ocultas do século XX, Crowley é uma espécie de Einstein”   
Alan Moore

  • Sandman - Logo primeira história do Sandman de Neil Gaiman, o personagem-título da série, Sonho, é capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, Burgess é rival). 



  • Belas Maldições - Ainda de autoria de Gaiman, no divertidíssimo Belas Maldições, livro escrito a quatro mãos com Terry Pratchett, Crowley é o nome de um dos protagonistas. O demônio se junta ao anjo Aziraphale na tentativa de impedir o fim dos tempos.

David Tennant e Michael Sheen caracterizados como Crowley e Aziraphale na vindoura adaptação de Belas Maldições

  • John Constantine: Hellblazer - Crowley aparece também em Hellblazer, mais precisamente na fase de Paul Jenkins. No arco Massa Crítica, o mago está há anos vivendo em um local ermo, à beira de um rio, tendo um espaço de deslocamento limitadíssimo, pois só pode andar em cima de pentagramas de proteção traçados no chão para protegê-lo de ser arrastado para o inferno pelo Primeiro dos Caídos. John, é claro, acaba com a pouca alegria que ainda restava ao coitado...




  • Requiem - Cavaleiro Vampiro - Na HQ escrita pelo inglês Pat Mills e ilustrada por Olivier Ledroit (que já resenhamos AQUI!), em uma espécie de pós-vida bizarro e maligno, Crowley é o responsável pelo Banco de Sangue em uma sociedade governada por vampiros, e aparece em toda a sua glória com uma aparência que faz jus à alcunha de A Besta...

Crowley retratado na HQ Requiem - Cavaleiro Vampiro.
Arte por Olivier ledroit


  • Asilo Arkham - Falando de  outro expoente da Invasão Crowleyana, digo, Britânica, não posso esquecer de mencionar Grant Morrison, que assume que boa parte de sua obra tem influência nos escritos de Crowley e o considera o Picasso da Magia. Em sua graphic novel Asilo Arkham, Crowley é mencionado explicitamente. Na história, Amadeus Arkham, fundador do manicômio mais famoso de Gotham City, se encontra com Carl Gustav Jung e Aleister Crowley em suas viagens quando jovem. Além disso vemos o Tarô de Toth, concebido pelo próprio Crowley, sendo manuseado por um personagem. Morrison também escreveu uma peça de teatro sobre Crowley em 1990, intitulada Depravity.

Arte por Dave McKean

 
  • A Liga Extraordinária - Século - E não poderíamos deixar de linkar Alan Moore, a ponta de lança da Invasão Britânica, bruxo de Northampton a Aleister Crowley! Em Século, história da Liga Extraordinária, o mago negro Oliver Haddo, personagem criado pelo escritor W. Somerset Maugham para o livro The Magician, é baseado em Aleister Crowley e reutilizado por Moore na HQ, dando trabalho para Mina Harker e seus companheiros por um século inteiro!


Arte por Kevin O'Neill


Arte por Kevin O'Neill


  • Do Inferno - Moore também cita Crowley em Do Inferno, HQ semi fictícia que discorre a respeito dos crimes de Jack, O Estripador. O garoto juvenil Aleister dá as caras como um menino bem insolente em uma rápida aparição.


Arte por Eddie Campbell


  • Promethea - Nessa série, que um crítico já definiu como “um gibi da Mulher-Maravilha escrito por Aleister Crowley”, Aleister aparece em alguns momentos, entre eles em uma edição dedicada ao Tarô, onde Crowley conta, no rodapé das páginas, uma piada que segundo Moore, sintetiza o que é a Magia. Mais à frente, enquanto a protagonista explora a Árvore da Vida na Cabala, Crowley aparece transfigurado como mulher, em uma esfera metafísica superior.


Arte por J. H. Williams III


  • Herói Nenhum - Nessa HQ de Warren Ellis e Juan Jose Ryp, há uma breve menção à Crowley e sua Abadia de Thelema, em uma de minhas leituras recentes, enquanto fazia esse post. Deve ser só coincidência...



CINEMA:

  • The Devil Rides Out -  Esse livro de Dennis Wheatley foi adaptado para o cinema em 1968. As Bodas de Satã, título nacional, é uma produção britânica, dirigida por Terence Fisher e roteirizado por Richard Matheson (autor de Eu sou A Lenda, que já resenhamos AQUI), tem Christopher "Drácula Saruman" Lee como o "mocinho" e o ator Charles Gray no papel de Mocata, um perverso aristocrata mestre em magia negra, o Crowley da vez...

 As Bodas de Satã (1968). Completo e legendado.

  • La Herencia Valdemar - Esse filme espanhol de 2010, além de brincar com os Mythos Lovecraftianos, tem uma participação muito especial: Aleister Crowley é retratado no filme como um mago embusteiro que executa um ritual que acaba dando muito, muito errado... Tão errado que no final o próprio Cthulhu aparece!


  • Perdurabo (Where Is Aleister Crowley?) - Esse média metragem escrito e dirigido por Carlos Atanes se passa na Abadia de Thelema, na Sicília, durante o ano de 1939.



MÚSICA:

  • Led Zeppelin - O guitarrista Jimmy Page era aficionado pela obra de Crowley, a ponto de o vinil do álbum Led Zeppelin III trazer inscrito "Faz o que tu queres". Além disso, Page comprou uma mansão que já pertenceu a Crowley e onde gravaram algumas cenas do filme-concerto The Song Remains The Same.




  • Ozzy Osbourne - Mr. Crowley - A letra diz tudo. A homenagem do Príncipe das Trevas Ozzy à Besta Crowley. Coisa Linda. até rolou uma lagriminha de sangue aqui...



  • David Bowie - Quicksand - O Camaleão também se rendeu à Besta e canta nos versos iniciais: "I'm closer to the Golden Dawn...". Mais direto, impossível...



  • Marilyn Manson - Holly Wood (In The Shadow Of The Valley Of Death) - O quarto álbum de Manson tem o mesmo teor de qualquer álbum de sua carreira: O artista está sempre atacando a hipocrisia da sociedade em que vive, criticando a idolatria às armas, o culto à violência, a cultura do medo, e os demais perigos do conservadorismo extremo. Tio Crowley ficaria orgulhoso, mas piraria mesmo é com as fotos do encarte deste álbum, onde Manson e banda encenam as cartas do tarô, uma das obsessões de Crowley, que chegou a desenvolver seu próprio tarô.



  • Klaxons - Magick - O título dispensa explicações. O primeiro álbum dos Klaxons é recheado de temas de ficção científica hard e um pouco de Thelema também. É, eu sei que eu já recomendei os Klaxons no post de The Filth, que é uma HQ de ficção científica insana do Morrison. Mas não foi o Arthur C. Clarke quem disse que "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia"? Touché!





  • Def FX - (I'll Be Your) Majick - Essa banda australiana é cheia de diversas influências, que vão do eletrônico noventista a guitarras de metal, passando por vocais de Riot Grrls dos anos 90, carregado de psicodelia, rock industrial e... bem, ouçam e tirem suas próprias conclusões sobre esse som anárquico. Apesar da palavra "Majick" estar grafada de forma diferente do termo cunhado por Crowley, não há dúvidas quanto à referência, concordam?



E, claro, não posso deixar jamais de citar onde a influência de Aleister Crowley mais se faz sentir na cultura popular brasileira, embora as gerações mais novas não façam idéia disso: As letras das músicas de Raul Seixas! O roqueiro baiano, em parceria com nosso Constantine tapuia, o "mago" Paulo Coelho, não compuseram uma, nem duas canções baseadas na filosofia Thelêmica, mas VÁRIAS! Entre elas, Sociedade Alternativa, Novo Aeon e A Lei.

Sociedade Alternativa

Novo Aeon
Nos quadrinhos, a principal forma narrativa ficcional da contracultura, Crowley começou a aparecer aqui e ali a partir dos anos 1970. Mas a chamada Invasão Britânica, que, nos anos 1980, apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana. O “Sandman” de Neil Gaiman surge nos quadrinhos ao ser capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, é um rival). E em “Belas Maldições”, de Gaiman e Terry Pratchett, Crowley é o nome de um dos protagonistas: o demônio que se junta ao anjo Aziraphale na tentativa de impedir o fim dos tempos.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2017/11/30/%E2%80%98O-Livro-da-Lei%E2%80%99-marco-do-ocultismo-e-da-cultura-pop

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A Lei

Excluindo-se o aspecto da Magia, para o benefício dos céticos, Aleister Crowley, para além de qualquer julgamento moralista, seja sob o padrão moral de seu tempo ou dos dias de hoje, estava décadas à frente do tempo em que viveu e personificou o pioneiro em várias atitudes e conceitos que seriam posteriormente associados a diversos movimentos ao longo dos séculos XX e XXI, como a afronta a valores pequeno-burgueses típica do punk; a auto imagem como sendo a própria obra do artista, uma característica de diversos performers contemporâneos; o advento do acesso da Ioga às massas; a liberação sexual, que eclodiu décadas após a morte de Crowley e reverbera até os dias de hoje. Aleister Crowley parece realmente ter sido o precursor de novos valores, de uma maré de mudança pela qual a humanidade vai passar, e que parece estar cada vez mais próxima. Ele bem que nos avisou...




E finalizando, não poderia deixar de citar os teoremas! Dentro da filosofia Thelêmica, foram elaborados certos teoremas para a prática da Magia. Esses teoremas, expostos de forma clara e sucinta, são um dentre as muitas pequenas revoluções que o inglês provocou no ato de se praticar Magia. Que tal experimentá-los? Verdadeiras palavras mágicas. Comentem lá embaixo como foram suas invocações a Glycon, Asmodeu e Choronzon hehehehe... 


TEOREMAS:
1. Todo ato intencional é um Ato Mágico.

2. Todo ato bem sucedido obedeceu ao postulado.

3. Todo fracasso prova que um ou mais dos requisitos do postulado não foram preenchidos.

4. O primeiro requisito para se causar qualquer mudança é preenchido através do entendimento qualitativo e quantitativo das condições.

5. O segundo requisito para se causar qualquer mudança é a habilidade prática de direcionar corretamente as forças necessárias.

6. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”.

7. Todo homem e toda mulher têm um curso, dependendo parcialmente de si próprios e parcialmente do ambiente, curso esse que é natural e necessário para cada um. Qualquer pessoa que seja forçada para fora de seu próprio curso, quer através do não entendimento de si própria, ou por meio de oposição externa, entra em conflito com a ordem do universo e, assim, sofre.

8. Um homem cuja vontade consciente esteja em choque com a Verdadeira Vontade está desperdiçando sua força. Ele não pode esperar influenciar o seu ambiente eficientemente.

9. Um homem que esteja realizando a sua Verdadeira Vontade tem a inércia do Universo a lhe assistir.

10. A Natureza é um fenômeno contínuo, apesar de nós não sabermos, em todos os casos, como as coisas são conectadas.

11. A Ciência nos capacita a tomar vantagem da continuidade da Natureza, pela aplicação empírica de certos princípios, cuja interação envolve diferentes ordens de idéias, conectadas entre si de uma maneira além de nossa atual compreensão.

12. O homem é ignorante da natureza de seu próprio ser e poderes. Mesmo a idéia que ele próprio tem sobre suas limitações é baseada na experiência passada, e, em seu progresso, todo passo estende seu império. Não há, portanto, razão alguma para que se assinalem limites teóricos para o que ele possa ser, ou para o que ele possa fazer.

13. Todo homem está mais ou menos ciente de que sua individualidade compreende diversas ordens de existência, mesmo quando ele acredita que seus princípios mais sutis são meramente sintomas de mudanças ocorridas no seu veículo grosseiro. Pode-se assumir que uma ordem similar seja estendida a toda a natureza.

14. O homem é capaz de ser e de usar tudo aquilo que ele percebe, pois tudo o que ele percebe é, de um certo modo, uma parte do seu ser. Ele pode, assim, subjugar todo o Universo do qual ele esteja consciente à sua Vontade individual.

15. Toda força no Universo é capaz de ser transformada em qualquer outro tipo de força, através do uso dos meios adequados. Há, portanto, um suprimento inexaurível de qualquer tipo particular de força de que venhamos precisar.

16. A aplicação de qualquer força afeta todas as ordens de existência que há no objeto ao qual é aplicada, quaisquer dessas ordens sejam diretamente afetadas.

17. Um homem pode aprender a usar qualquer força de modo a servir a qualquer propósito, tirando vantagem dos teoremas acima.

18. Ele pode atrair a si mesmo qualquer força do Universo, tornando-se um receptáculo apropriado a ela, estabelecendo uma conexão com ela e arranjando condições tais que a natureza dela a compila a fluir até ele.

19. O senso do homem acerca de si próprio, como separado de, e oposto a, o Universo, é uma barreira para que ele conduza as correntes universais. Isto o deixa ilhado.

20. O homem somente pode atrair e empregar as forças para as quais ele esteja realmente preparado.

21. Não há limites para o número de relações de qualquer homem com o Universo em essência; pois, tão logo o homem se torne uno com qualquer idéia, os meios de medida deixam de existir. Mas o seu poder para utilizar essa força é limitado por sua força e capacidade mentais, bem como pelas circunstâncias de sua condição humana.

22. Todo indivíduo é essencialmente suficiente para si mesmo. Mas ele é insatisfatório para si mesmo, até que estabeleça a sua relação correta com o Universo.

23. Magia é a Ciência de entender-se a si próprio e suas condições. É a Arte de aplicar este entendimento à ação.

24. Todo homem tem o direito incontestável de ser o que é.

25. Todo homem deve fazer Magia cada vez que ele age, ou mesmo pensa, posto que um pensamento é um ato interno, cuja influência acaba afetando a ação, mesmo que não seja assim naquele momento.

26. Todo homem tem um direito, o direito à autopreservação, a completar-se ao máximo.

27. Todo homem deveria fazer da Magia a chave mestra da sua vida. Deveria aprender suas leis e viver por elas.

28. Todo homem tem o direito de preencher a sua própria vontade sem ter medo de que isto possa vir a interferir com a vontade dos outros; pois se ele estiver em seu próprio lugar, será culpa dos outros, se interferirem com ele.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

MULTIVERSO, de Grant Morrison + vários artistas, ou "Um passeio clandestino a bordo da Ultima Tul!"



Por EDUARDO CRUZ




Quem me conhece um pouquinho sabe que dos quadrinhos mainstream, o que eu mais curto são as histórias de realidades alternativas. Seja Marvel ou DC, desde moleque sempre fui fissurado nas histórias que recontavam continuidades e reimaginavam o status quo de personagens familiares a nossa vida inteira, mas de formas radicalmente diferentes. Fosse o "O que aconteceria se...", da Marvel, o "Túnel do tempo" na DC, ou até mesmo a horrorosa iniciativa conjunta "Amálgama", eu não perdia um, independente da qualidade das histórias, que sempre flutuou bastante. Sei lá, essa coisa de mesmo personagem, background diferente sempre foi uma das coisas que eu considerei - e ainda considero, se bem executado - um dos melhores exercícios de
Batman + Wolverine + Anos 90 = Garra Sombria
imaginação nos quadrinhos. Por isso, quando Grant Morrison anunciou The Multiversity há uns anos atrás, por volta de 2010, e não se tocou mais no assunto por um bom tempo, os leitores se conformaram em tratar a HQ como uma lenda. Ou melhor, como se fosse um dos muitos projetos do Guillermo Del Toro que nunca chegam a sair do papel. Mas por fim The Mutiversity acabou saindo em 2014 e concluído em 2015.

















"'The Multiversity'  tem sido um trabalho de amor por quase oito anos de produção, e traz consigo um irrefreável supergrupo de artistas – Reis, Sprouse, Oliver, Quitely, Stewart e outros – com um elenco de personagens inesquecíveis das 52 terras alternativas do Multiverso conhecido da DC!
Prepare-se para conhecer a Liga Da Justiça Vampira da Terra-43, os Cavaleiros da Justiça da Terra-18, Superdemônio, Doc Destino, os super-filhos de Superman e Batman, os furiosos Retaliadores da Terra-8, os Cavaleiros Atômicos da Justiça, Dino-Cop, Irmã Milagre, Lady Quark, a legião de Silvanas, os Novos Nazistas Reichsmen da Terra-10 e o mais recente, o maior super-herói da Terra Primordial – VOCÊ!
Composta por sete aventuras completas – cada uma em um universo paralelo diferente – uma história em duas partes, e um guia compreensível para os muitos mundos do Multiverso, ‘The Multiversity’ é mais do que apenas uma série em quadrinhos em várias partes, é a expansão de um cosmos, uma experiência de abalar a alma que coloca você na linha de frente da batalha por toda a Criação, contra os destruidores demoníacos conhecidos como A Aristocracia!
Mas cuidado! Poder tem um preço, e no coração deste conto épico aguarda o amaldiçoado e maligno gibi chamado ‘Ultra Comics’…
Quão segura é a SUA cabeça?
Junte-se a nós, se for ousado, por ‘The Multiversity’ 

Grant Morrison
 
Tenho que confessar pra vocês que apesar de ter lido as scans cópias digitais desse ótimo trabalho do escocês pirado na época em que as edições saíram, eu queria mesmo era manusear uma edição que coletasse toda a mini série Multiverso. Pegar nas mãos, ler na sequência, de trás pra frente, pular duas edições para trás ou pra frente para conferir os detalhes e 'coincidências', decifrar símbolos ocultos e pistas escondidas à plena vista... enfim, ler esse gibi do jeito que ele foi concebido pra ser lido! Então, SIM, posso dizer, na minha opinião, que foi a HQ mas esperada para se ter um exemplar físico em mãos nos últimos dois anos. E pelo menos a mim não decepcionou! Não me sinto tão ansioso e animado assim para ter uma HQ em mãos desde O Dossiê Negro da Liga Extraordinária, uma bela HQ escrita pelo melhor amigo de Morrison, um tal de Alan Moore...



Mas por se tratar de uma HQ do Morrison, certamente tem um monte de leitores loucos para ler isso, mas ao mesmo tempo morrendo de medo de entender bulhufas. O que é natural, visto a fama de Grant Morrison como contador de histórias. Sim, não vou mentir, ele é um tanto quanto... complicado. Ele utiliza recursos narrativos que a maioria dos roteiristas não costuma utilizar e eleva seus roteiros a um grau de complexidade e detalhismo maníacos, e em Multiverso ele se superou! Sim, a HQ exige que se conheça alguma coisa da cronologia da DC, exige que se leiam alguns trabalhos anteriores de Morrison e principalmente, exige muita atenção aos detalhes espalhados ao longo das nove edições que compõem a mini série. O que pretendo fazer aqui nesse post é só pegar você, leitor, pela mão e guiar pelo Multiverso, mostrar que apesar de complexa, é uma excelente história, e até mesmo os haters do Morrison precisam admitir, foi feita com muito esmero e dedicação, do jeito que só um verdadeiro fã da DC poderia montar! Em linhas gerais, e sem spoilers, claro, vou mostrar o quão fortemente esta história amarra a atual cronologia multiversal da DC Comics. 

 


 


Para aqueles que são famintos por cada referência em cada balão, recordatório e quadrinho, recomendo muito o trabalho que o site Terra Zero desenvolveu em cima da mini série, um estudo profundo página a página, esmiuçando o máximo de observações e referências da mini série. Além desse e desse artigos, a equipe do site gravou vários podcasts enfocando as edições de Multiverso, totalizando várias horas de informações utilíssimas e pontuais que fazem sua releitura ser ainda mais gratificante. Mas se vocês não tiverem paciência pra desbravar tão a fundo assim o multiverso por agora, continuem comigo aqui. Se você só quer mesmo um empurrãozinho pra tirar as dúvidas sobre quanto ter ou não esse encadernado, cola aqui comigo, e em linhas gerais vamos ver do que se trata?






Leitura prévia recomendada:


O RUN DE MORRISON EM HOMEM ANIMAL

A Panini publicou na íntegra um dos primeiros trabalhos de Morrison na DC, e na proposta do título Morrison já começa a desgastar a grande muralha do pós-crise, sinalizando ainda existir dimensões fora do continuum regular da DC, como o limbo, onde personagens esquecidos ou apagados da cronologia ainda existiam. Basicamente, é o aquecimento, a obra que determinou o tom de Grant Morrison em todos os seus anos na DC. Tão seminal quanto o Monstro do Pântano de Alan Moore.


CRISE FINAL

Particularmente, acho uma história mediana, e isso se deve em grande parte aos desencontros editoriais dentro da própria DC, que fez com que o destino de Batman no fim da mini série fosse confuso, e até mesmo divergisse de outras publicações que saíram na época. Quase como erros de continuidade, mas em uma HQ rs. Mas o importante a ser observado aqui é o monitor Nix Uotan, que desempenha um papel fundamental em Multiverso, e a primeira aparição do Capitão Átomo da Terra 4, que ressurge em Multiverso no capítulo Pax Americana.


SUPERMAN - À PROVA DE BALAS
Esse encadernado da Panini reúne as edições #0 a #18 de Action Comics da fase Novos 52, que recontava a origem de Clark Kent/Superman. Mas esse NÃO É o Superman que interessa, e sequer aparece em Multiverso! Em Action Comics #9, Morrison interrompe o arco de Clark Kent e nos apresenta uma Terra paralela na história 'A Maldição do Superman'. Ali conhecemos Calvin Ellis, presidente dos EUA daquela Terra, e sua identidade secreta.... Superman!!! Note que em Multiverso, o arquétipo do Superman sempre vai estar presente nas histórias, e cada Terra paralela tem o seu, mesmo que não dê pra identificar de forma tão óbvia (Minha dica é: olhem para a essência do personagem, e não para o "S" no peito!), mas o Superman que vale na mini série toda é o presidente Ellis, uma dupla homenagem ao ex presidente Barack Obama e ao roteirista Warren Ellis, amigo de Morrison, e que ajudou a criar e consolidar alguns conceitos hoje largamente usados na cronologia da DC, como a Sangria, o espaço interdimensional que permeia o multiverso.
Calvin Ellis, o Superhomão da porra que vale em The Multiversity
Ah, também é nessa edição de Action Comics que vemos pela primeira vez um Cubo de Transmatéria, um dispositivo de viagem interdimensional que desempenha um papel fundamental em Multiverso!



Essa edição de Multiverso encadernada pela Panini Books se divide em:



MULTIVERSO #1


A primeira edição de Multiverso nos introduz à trama principal, além de apresentar os antagonistas e os heróis de várias Terras que irão se unir para descobrir a extensão da ameaça e combatê-la, formando uma espécie de Liga da Justiça Multiversal, que possui entre seus membros Calvin Ellis, o Superman da Terra 23, o Trovejante, um aborígene que faz as vezes de Thor em seu universo original, e o Capitão Cenoura, uma versão cartoon do Superman. Destaque para as Terras 7 e 8, que são versões dos universos Marvel, tanto o regular quanto a Ultimate. E sim, é claro que Morrison aproveitou pra devastar essas Terras, talvez como vingança pela sua amarga estada como empregado da Marvel Comics heheheheh...





SOCIEDADE DOS SUPER-HERÓIS: CONQUISTADORES DO CONTRAMUNDO


Essa edição se passa na Terra 20, um mundo de heróis com uma pegada de história pulp muito marcante, vide as versões do Senhor Destino, Sinestro e Parallax, entre outros, que figuram nesta edição. Aqui vemos a Sociedade dos Super-Heróis, uma espécie de versão  pulp da Sociedade da Justiça da América, às voltas com sua contraparte maligna da Terra 40. A impressão é de se estar lendo uma aventura do Indiana Jones, mas na DC Comics. Uma homenagem ao período das revistas pulp tão bacana quanto o que Ellis fez em Planetary, com seu Doc Brass e companhia. Os artistas dessa edição são a dupla Chris Sprouse/Karl Story, que também foram responsáveis pela arte da série Tom Strong, um gibi de Alan Moore que homenageava... as HQS PULP!!! Assim fica difícil te defender, ô Morrison rsrsrsrs... 
Paralelo a isso, percebemos a Aristocracia se infiltrando nesse mundo, através das revistas "amaldiçoadas". E em quantos outros mais?

Pura mágica... veja as estrelinhas!




OS JUSTOS 


Essa história aparentemente não tem relação alguma com a trama principal, mas aqui também nota-se infecção multiversal da Aristocracia, logo abaixo da superfície da história principal, causando confusão e desorientação entre alguns personagens ao longo da trama. Nessa Terra alternativa, a Terra 16, os filhos dos maiores super heróis do mundo são uma geração mimada, egocêntrica e frívola, que sequer podem ser considerados heróis, já que o legado do falecido Superman, um exército de robôs, resolve toda e qualquer crise, fazendo qualquer ameaça e mega evento parecerem tão perigosos quanto uma breve chuva passageira. Em meio a isso também temos um triângulo envolvendo os filhos do Batman, Superman e Lex Luthor dessa Terra. E note as HQs da Aristocracia se infiltrando nesta realidade também... Os Justos é uma crítica de Morrison à geração dos Millennials, jovens superprotegidos a vida inteira que entram na vida adulta despreparados para lidar para praticamente tudo à sua volta.





PAX AMERICANA: NO QUAL QUEIMAMOS


E aqui está a grande polêmica de Multiversity! ou pelo menos, uma delas heheheh. O momento da vingança de Morrison, o prato que ele saboreou frio, colherada a colherada, ou melhor, página a página! Passada na Terra 4, a trama de Pax Americana, sem mais delongas, nada mais é do que a versão de Watchmen, obra de Alan Moore (a obsessão suprema de Morrison), numa releitura feita por Morrison e ilustrada por Frank Quitely, utilizando os personagens da Charlton, como não foi possível para Moore em 1986, por questões legais. Aqui, em uma legítima situação de "faz-melhor-então", Morrison "melhora" a trama, deslocando o contexto de Guerra Fria para o contexto atual de terrorismo internacional e conspirações governamentais, com direito ao assassinato de ninguém menos que o presidente dos EUA.
A trama, fora uma cena onde o Capitão Átomo segura uma Ultra Comics #1 na mão, mostra pouca ligação com o arco principal - a invasão da Aristocracia - o que só reforça a impressão de que Morrison já tinha esse roteiro pronto há bastante tempo, tendo feito algumas poucas modificações para que Pax Americana se adequasse e se interligasse ao restante da mini série. 

Página de Pax Americana.

Página de Promethea, de Alan Moore.
A alfinetada em Moore se torna completa na composição das páginas em relação a Watchmen: Enquanto em Watchmen a maioria das páginas é organizada em uma grade de nove painéis, Morrison optou por organizar Pax Americana em grades de oito painéis. Como explica o artista Frank Quitely: "Música, e vibração.... vibrações musicais, as oitavas, a repetição do número oito ao longo da história, e padrões de criação que conduzem os olhos do leitor pela página em uma direção específica.".

Página de Pax Americana

Página de Pax Americana

Página de Promethea, de Alan Moore




NOVAS AVENTURAS NO MUNDO DO TROVÃO


Esta história se passa na Terra 5, e envolve os integrantes da família Shazam, e tem um clima mais, digamos, puro, mas sem ser piegas ou datado. Nessa realidade, um exemplar de Sociedade dos Super-Heróis cai nas mãos do Dr. Silvana, o que o inspira a entrar em contato com suas traiçoeiras contrapartes ao longo do Multiverso, recrutando um exército de Doutores Silvana. Juntos, arquitetam um plano que culmina no aprisionamento do Mago Shazam, na Pedra da Eternidade, e o roubo de seus poderes. Cabe à Família Marvel Resgatar O Mago Shazam e Fawcett City.
Uma história bem mais leve que as outras edições da mini série, com um clima super heróico, nostálgico e otimista, que conta com a arte do competentíssimo Cameron Stewart (Seaguy, Clube da Luta 2), essa edição coloca os mortais mais poderosos do universo DC no olho do furacão, lá no clímax, em Multiverso #2. Mas estou me adiantando...






LIVRO-GUIA


Em mais um show de metalinguagem, Morrison nos premia com uma história-dentro-da-história: Na Terra 51 vemos Kamandi, Tuftan e Ben Boxer investigando uma misteriosa tumba, e dentro dela, encontram o tal guia do Multiverso. Enquanto isso, na Terra 42, a legião dos Silvanas ataca a Liga da Justiça desta Terra, só restando o Batman deste mundo e uma outra versão, da Terra 17. Enquanto ambos tentam ativar um cubo de transmatéria para pular para outra Terra e escapar do exército de robôs-Silvana, eles encontram o guia do Multiverso, que contém, além do mapa do Multiverso e um guia com todas as 52 Terras, uma história onde vemos... Kamandi, Tuftan e Ben Boxer investigando uma misteriosa tumba!!!
Entendeu? Não? Bom, leia, mas coloque algodão no nariz pro seu cérebro não escorrer para fora rs. No momento em que os personagens que acompanhamos abrem o livro guia do Multiverso, nós acessamos exatamente o que eles estão lendo. Sim, o careca maluco nos transforma em voyeurs e lemos o guia por cima dos ombros de Kamandi e dos Batmen!

Página do Livro Guia de Multiverso

Página do Livro Guia de Multiverso

Página de A Liga Extraordinária: O Dossiê Negro, de Alan Moore

Página de A Liga Extraordinária: O Dossiê Negro, de Alan Moore




MASTERMEN


Seria essa edição mais uma vingança Morrisoniana? Essa história se passa na Terra 10, onde um certo foguete com um certo bebê Kriptoniano cai em um país ocupado pelos alemães, e acaba, naturalmente, sendo criado pelo próprio Hitler. Overman, como é conhecido nesta Terra, mantém a supremacia do regime ariano, mas tem uma pedra em seu sapato: o grupo de terroristas conhecidos como Tio Sam e os Combatentes da Liberdade
Outra edição que parece não ter relação nenhuma com o plot principal, e sim uma alfinetada no (ex) amigo de Morrison, Mark Millar, que escreveu a já clássica Superman - Entre a Foice e o Martelo, uma história de realidade alternativa onde o bebê Kal-El cai na Rússia comunista. Diz a lenda que apesar de ser assinada por Millar, quem propôs boa parte da história e desenvolveu o final foi Morrison, que não recebeu crédito algum. Só restou a ele se vingar, plagiando uma história roubada dele mesmo rs.





ULTRA COMICS



Olha, não sei se sou capaz de elaborar decentemente uma descrição dessa edição aqui, então fiquem com a minha conversa com o Ricardo assim que terminei a primeira leitura de Multiverso, ainda bastante impactado, como dá pra perceber:

E: Bicho, que viagem! Primeiro, não se pegam todos os detalhes em uma única leitura. Da segunda vez q vc lê percebe q certos balões de fala eram atribuídos a personagens q vc não notou da primeira vez!
Segundo: Toda Terra tem um Superman, mesmo que você não reconheça ele de cara, e é SEMPRE o conceito de Superman que ajuda as Terras doentes.
Terceiro: A tal Ultra Comics, o penúltimo gibi do encadernado, que viagem!!! o Morrison conseguiu algo inédito. Você REALMENTE faz parte da história! O Intellectron, da Aristocracia fala diretamente com você! O tempo todo você é avisado para não virar as páginas mas você já foi infectado, e esse gibi é uma ponte pra essas criaturas invadirem a NOSSA realidade! Um grau assustador de interação com o que deveria ser apenas um gibi!! Tudo gira em torno da Ultra Comics! O resto é o Morrison brincando de "Túnel do Tempo" e porradaria super heróica, além é claro, das alfinetadas no Moore kkkkkkkkk

R: Que maneiro! Só comprei o meu ontem!

E: Velho, eu até que entendi a proposta na primeira vez que li, mas só fiquei impactado na segunda leitura ontem! Pareceu uma droga! Realmente mexeu com minha cabeça hauahuahuahua. Metaficção. História dentro da história. E em fractais, do jeito q o Morrison gosta! Aí hoje de manhã o que eu fiz, além de terminar a Y volume 4? Li o tal do gibi amaldiçoado de novo! rs
Mané, depois que eu terminar esse post, vou ler alguma coisa leve, tipo Promethea. Huahuahuahuahauahuahua!!!

R: kkkkkk
R: Qual gibi amaldiçoado?

E: O Ultra Comics! A oitava edição da Multiverso!!

R: Ah sim...

E: Por deus, homem, você não prestou atenção em nada do que eu falei lá em cima???
ELES JÁ PEGARAM VOCÊ!!!
ESTÃO BATENDO NA PORTA!! NÃO DEIXE ELES ENTRAREM!!!

R: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!!!!!!!!!!!!





Nessa edição, ocorre "apenas" a batalha épica entre a Aristocracia e os super heróis combinados do Multiverso DC. Porradaria. Porradaria. Porradaria. E será que a Aristocracia é a única ameaça a ser combatida? Ou tem algo mais ameaçando o Multiverso? Só lendo pra descobrir...


Depois dessa sobrevoada, parece muito complicado e rocambolesco toda essa montanha russa através de 52 mundos paralelos e tal, mas Multiverso pode ser resumida a: A Aristocracia é uma raça de parasitas cósmicos (por isso aquela alusão aos cupins no começo e no final da história, supostamente ao acaso. Mas espere! Essa é uma HQ do Morrison, então nada é coincidência nessas 500 páginas hehehe) que invade o multiverso DC. Eles são oriundos de alguma parte fora do multiverso e foram atraídos por emanações de idéias negativas e sonhos arruinados. A Aristocracia deseja clamar a posse de todas as mentes do multiverso, o que os levará a controlar todos os pensamentos e histórias da existência. Controle absoluto. Para isso, eles usam a tal HQ amaldiçoada, Ultra Comics #1 como um vetor para infectar o Multiverso, e simultaneamente lançam um ataque ao Planetário dos Monitores. Por conta disso, vários heróis de universos diferentes são forçados a se unir para encarar esta ameaça multidimensional. E basicamente é isso. O resto são digressões Morrissonianas, toneladas de referências e aquela teoria bacana, já citada em sua autobiografia, Superdeuses, onde Morrison postula que as revistas em quadrinhos são vitrines onde vislumbramos outros universos, dimensões inferiores, tudo existe, e a ficção de um mundo é a realidade de outro.




E é só isso. Mas como toda boa viagem, o passeio é muito mais gratificante que o destino em si. E ao longo da nove edições teremos um tour pelo multiverso DC, recheado de simbologias, arquétipos (principalmente do Superman e Flash, mas não restrito apenas a eles), metalinguagem, metaficção, legado e muitos embates grandiosos, porque afinal de contas a gente compra gibizinho é pra ver a porrada comer solta hehehehe. 



Alguns diriam que Multiverso é mais uma declaração de amor de Morrison pela DC, além de uma sofisticadíssima crítica a todo o mercado de quadrinhos contemporâneo: lança farpas para a indústria, o corpo editorial, os leitores que querem só mais do mesmo, os fanboys babacas que odeiam tudo.... pouca coisa escapou da metralhadora de Morrison nesse trabalho, e está tudo lá, espalhado nas camadas, e quem tem olhos pra ver, verá! rs. Outros diriam que é um grande fan service, um Túnel do Tempo/Elseworlds de 500 páginas, sob o pretexto de Morrison poder produzir sua própria versão de Watchmen, marcando assim mais um ponto na eterna treta Moore/Morrison.





Acredito que o mais gratificante para o Morrison mesmo foi fazer seu remake de Watchmen, e me processem por isso, mas ele melhorou a proposta de Moore na parte da execução formal, além de REALMENTE integrar seu Watchmen ao multiverso da DC, o que Moore não pôde fazer na época, por uma questão legal.


Mas tenha você a bagagem necessária ou não para entender todas as referências, acho que dá pra gente concordar que é uma HQ bem acima da média, e a única coisa que chegou perto disso nas grandes editoras foram os Vingadores/Novos Vingadores do Jonathan Hickman nesses últimos tempos. Uma pena. Mas tenho certeza que em alguma outra Terra se produzem gibis assim todos os meses. Só espero conseguir vibrar na frequência certa para conseguir me transportar pra lá. Ou.... alguém me empresta uma esteira cósmica?