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sexta-feira, 3 de março de 2017

ASSOMBRO, de Chuck Palahniuk, ou "A câmera atrás da câmera atrás da câmera..."

Por EDUARDO CRUZ







"Ela dizia que algumas histórias vão se desgastando ao serem contadas. Esse tipo de história perde logo o efeito dramático, e cada versão parece mais boba e insossa. Já histórias de outro tipo vão desgastando a gente. Quanto mais são contadas, mais fortes ficam. Esse tipo de história só nos lembra de como fomos idiotas. Somos. Sempre seremos."



Existe um livro de Chuck Palahniuk intitulado "Mais estranho que a ficção" (Editora Rocco, 2011), que traz uma série de ensaios, crônicas e perfis com enfoque jornalístico, ou sejE, somente casos 100% reais em suas páginas, inclusive sobre o próprio autor. Pois bem, em um desses ensaios, chamado "Você está aqui", Palahniuk fala sobre eventos realizados em saguões de hotéis, conferências de escritores onde por módicos 50 dólares você dispõe de um tempo que pode variar de 7 a 10 minutos de frente para um agente literário, ou editor, ou executivo de TV ou cinema, e tentar vender seu livro ou roteiro de filme, para capitalizar em cima de uma história de sofrimento pessoal, porque afinal de contas as pessoas adoram uma história de superação "baseada em fatos reais". Uma história de desafio e triunfo sobre as adversidades. E você pode vender os direitos para a Fox, Warner, ou Netflix. Pode ser que Meryl Streep ou Tom Cruise sejam escalados para lhe representar na história da sua vida. E você tem de convencer o executivo na mesa em apenas sete minutos que sua história de abuso sexual durante sua infância ou seu relacionamento de 10 anos com um marido violento valem o investimento. Como naquele programa de antiguidades da TV por assinatura: Pode ser que você tenha um tesouro... ou apenas lixo.

Chuck Palahniuk

Em "Assombro", Palahniuk - é, aquele mesmo de "Clube da Luta"! - parece pegar esse fato e distorcê-lo um pouquinho (mentira, bastante!) em seu mote, onde alguns aspirantes a escritores, após responder a um anúncio misterioso, ingressam em um retiro para artistas, com a promessa de, em 3 meses, saírem de lá com sua obra prima! sem as distrações do mundo real e da rotina do trabalho ou família, todos poderiam focar em produzir um lindo pedaço comercializável de suas próprias almas, na forma de uma história, uma canção, uma pintura... 

Acontece que os internos do retiro acham tudo que produzem muito aquém do esperado, e decidem sabotar sua estada no retiro, criando sua própria história de dificuldade e superação, isolando-se a ponto de fazer o retiro se tornar um cativeiro, seus monitores serem descritos como carrascos, e por aí vai. A coisa escala até um ponto em que, imaginando o melhor e mais impactante modo de conquistar seu futuro público, os escritores em potencial começam a jejuar, não tomar mais banho e chegam às raias do canibalismo e automutilação, tudo na intenção de, quando forem "resgatados", conseguirem passar o máximo possível de credibilidade na história do calvário pelo qual passaram, o que culmina em passagens repletas do humor negro grotesco e violência, além do niilismo e visceralidade, que são as marcas registradas do autor. 

À medida que as semanas passam e as penúrias autoimpostas aumentam, os contos também evoluem no teor de macabro e grotesco, e por isso os dizeres "Um romance de contos" na capa, percebem? Palahniuk delineia crônicas de nossos tempos de loucura globalizada entre as diversas camadas dos contos de "Assombro", e nos mostra até onde as pessoas são capazes de ir em busca de sucesso, seja lá o que essa palavra signifique para cada um. Através dos contos narrados descobrimos também como cada personagem foi parar no retiro de escritores, sua própria derrocada pessoal.


Os Contos são:

  • Tripas (por São Sem-Pança) - Um conto sobre os perigos do amor próprio quando executado de forma excessivamente criativa, e imprudente, e como o poder do tabu pode acabar com a poupança da faculdade de um adolescente curioso. Conto completo nesse post. Quem tiver estômago para ler esse conto, aguenta o restante do livro rs...
  • Pé ante pé (por Mãe Natureza) - Um conto sobre como qualquer coisa da Nova Era pode ser transformada em uma ferramenta mortífera, desde o feng shui e a cristaloterapia até a acupuntura, e sobre como até massagens nos pés podem te fazer gozar... ou te matar.
  • Sala Verde (por Miss América) - Esse conto pisa um pouco no freio ao esmiuçar a realidade de vendedores itinerantes de produtos inúteis em programas de TV locais, desses que ficam anunciando suas tranqueiras em um bloco de programa de TV, e sobre como uma manchete inesperada em rede nacional pode arruinar seu jogo. Parece chato, mas tem todos aqueles detalhes crus que Palahniuk costuma retratar, em uma profissão aparentemente banal. Esse conto é meio morno, mas serviu para contextualizar a personagem dentro da trama principal.
  • Favelando (por Lady Mendiga) - Um conto sobre milionários entediados que se disfarçam de moradores de rua porque, segundo eles, "A pobreza é a nova nobreza", em uma espécie de alpinismo social às avessas. Mas como é um livro do Palahniuk, claro que algo horrível vai acontecer no final...
  • Canção de despedida (por Conde Calúnia) - Um repórter sensacionalista em dificuldades leva seu cão doente para tratamento e descobre que o veterinário era um astro mirim de uma série de TV famosa, vivendo feliz no ostracismo. Em busca de um furo de reportagem, o Conde Calúnia faz algo monstruoso com o pobre doutor...
  • Idade de cachorro (por Brandon Whittier) - Um conto sobre donas de casa de classe média que se voluntariam para cuidar de idosos em asilos, sobre como pessoas são levadas a crer em algo que não é exatamente aquilo que aparenta, e sobre Palahniuk pesquisando sobre doenças raras e estranhas para entregar um plot twist que é um soco no estômago, ao mesmo tempo em que desenvolve e revela mais da trama principal.
  • Ambição (por Duque dos Vândalos) - Um artista medíocre recebe uma proposta irrecusável para atingir a consagração: ele precisa matar outros artistas, com o intuito de manipular o mercado, valorizando assim obras do acervo de certos colecionadores. Até chegar a vez de ele próprio ter seu portfólio supervalorizado. Um bom conto sobre a necrofilia da arte.
  • Pós-produção (por Sra. Clark) - Desenvolvendo um pouco mais um dos personagens - a Senhora Clark - e indiretamente a trama principal, Palahniuk nos mostra os bastidores broxantes de uma produção pornográfica caseira, e como uma câmera pode destruir um relacionamento.
  • Êxodo (por Diretora Negação) - Uma funcionária do serviço social de uma cidade, cansada dos abusos sexuais sofridos pela boneca de treinamento de ressuscitação cardiopulmonar (!?!?!) resolve punir os depravados quando seu departamento recebe mais duas bonecas, dessa vez um menino e uma menina, extremamente realistas anatomicamente, usadas para reconstituição de casos de abuso sexual. Outro conto não indicado para ler durante o almoço e que vai provocar arrepios na espinha, ainda mais quando você ler a palavra "gilete"...
  • Pileque (por Reverendo Ímpio) - Esse conto é uma espécie de gêmeo espiritual de "Clube da Luta", e aqui vemos como alguns militares veteranos pretendem acabar com todas as disputas religiosas do mundo usando batons, perucas, vestidos e muitos, muitos muitos explosivos. Um dos melhores contos do livro! Pros fanboys de "Clube da Luta", é um regalo do autor rs.
  • Ritual (por Casamenteiro) - O narrador desse conto faz uma reminiscência de uma antiga história de  sua família, contada por tios veteranos da Segunda Guerra Mundial, passada em um campo de concentração, e envolvia um oficial alemão, sexo oral forçado e uma navalha. O final traz um inevitável frio na... barriga.
  • Caixa pesadelo (por Sra. Clark) - Continuamos seguindo a Sra. Clark, e o desaparecimento de sua filha Cassandra, que muda radicalmente após olhar pelo visor de um aparato exibido em uma vernissage, uma antiguidade conhecida como "Caixa pesadelo". Seguindo pistas da história do misterioso objeto, o conto coloca mais pulgas atrás da orelha do leitor, por suas relações com a história principal do livro.
  • Crepúsculo civil (por Irmã Justiceira) - O conto mais fraco do livro. Pessoas são mortas no meio da rua por alguém que arremessa bolas de boliche ladeira abaixo. Um conto de bicho papão em sua essência, mas com um desenvolvimento que deixa a desejar. Felizmente é bem curto.
  • Colocação de produto (por Chef Assassin) - Um conto em forma de uma carta escrita pelo protagonista, um cozinheiro que tem como hábito estripar os críticos gastronômicos que porventura falem algo negativo de seu trabalho. A carta é endereçada à marca fabricante de facas favorita do cozinheiro, e nela ele faz uma proposta ao fabricante.... Humor negro na medida!
  • Fala amarga (por Camarada Escárnia) - Quando uma transexual feminina tenta fazer parte de uma reunião de feministas, as oprimidas viram opressoras. Um conto a respeito de gênero e identidade sexual, com aquela dose de humor negro e agressividade que a gente já conhece...
  • Inválido (por Agente Fuxico) - Um conto sobre detetives particulares investigando pessoas que dão o golpe no seguro social, e falsos inválidos que acabam se tornando detetives particulares para investigar outros falsos inválidos. 
  • Dissertação (por Elo Perdido) - Uma história de lobisomem. Por Chuck Palahniuk. A cena da menina de treze anos virando um bichão faminto em pleno vôo quadruplicou minha fobia de avião. Sem mais.
  • Menina dos Olhos (por Sra. Clark) - Esse conto segue mostrando a história da Sra. Clark e sua filha desaparecida, e vemos aqui a relação direta com toda a trama principal se entrelaçando ainda mais.
  • Something's Got to Give (por Condessa da Antevidência) - Uma vidente capaz de ver eventos passados refletidos em objetos antigos entra em um antiquário, onde o vendedor lhe oferece uma memorabília bizarra relacionada a Marilyn Monroe. Idéia interessante, mas o desenrolar deixa um pouco a desejar.
  • Fondue (por Baronesa Congelada) - Nesse conto a personagem da Baronesa relembra um episódio de sua juventude, quando trabalhava no bar de uma pousada meia boca, localizada próximo a poços de águas termais ferventes. Acrescente um cozinheiro bêbado vagando pela área e temos aí um dos contos mais repugnantes do livro. Considero mais grotesco que vísceras, até!
  • Cassandra (por Sra. Clark) - A história da Sra. Clark e sua filha avança mais um pouco, inclusive com uma importante revelação da trama no final do conto. Mas fora essa revelação, o conto serve para Palahniuk exibir todo o seu vasto conhecimento de tanatologia. Bom apetite.
  • Espíritos do mal (por Miss Espirro) - Era uma vez uma menina que era obrigada a viver isolada em uma instalação secreta do governo, pois ela carregava uma doença tão terrível que poderia provocar uma pandemia em nível global. Mas no fundo, o que ela mais queria era ter um namorado. Até que chega o dia em que a instalação recebe outro hóspede assintomático, como ela, e com exatamente a mesma moléstia virulenta que ela! Será a chance da Miss Espirro beijar na boca sem matar alguém?
  • Obsoletos (por Sr. Whittier) - Em uma expedição espacial, a humanidade descobre que, no processo evolutivo espiritual, Vênus é o próximo degrau. E é um lugar maravilhoso e paradisíaco. A humanidade então decide tomar um atalho e emigrar pra lá, não importando se ainda não é o momento certo para a maioria das almas na Terra, e assim o suicídio vira a nova moda mundial. Menos para Adam e Eve, um casal de adolescentes revoltados . O conto mais WTF do livro. Destoa de todo o restante, mas ainda assim é ótimo, pleno de interpretações.


Além dos contos, "Assombro" é entremeado pela história principal, que amarra tudo entre essa avalanche de contos, e também por diversos poemas sobre os personagens. Pessoalmente, não sou grande fã de poemas, mas foi muito bacana ver  um Chuck Palahniuk desenvolvido e seguro a ponto de incluir poemas em um livro de sua autoria! Em minha opinião pessoal, na proposta principal de "Assombro",  Palahniuk não consegue sustentar o tempo todo esta pluralidade de vozes narrativas, e em vários momentos o que temos são os personagens criados por Palahniuk escrevendo exatamente igual a Palahniuk. Se "Assombro" tenta ser um livro esquizofrênico, até conseguiu, isto é, se você considerar que possa existir um tipo de esquizofrenia onde as vozes são todas iguais, apesar de dizerem coisas diferentes rs. Acredito que os fãs do escritor não chegam a se incomodar com isso, e tampouco isso afasta leitores eventuais. Isso não me incomodou de verdade, é somente uma observação de uma limitação de "Assombro", talvez sua única limitação, não conseguir imprimir uma voz mais particular a cada um dos 18 personagens do livro. Dado o tamanho do desafio, não peguemos pesado com o autor. Nem de longe isso prejudicou a experiência de leitura, já que "Assombro" tem uma história principal cheia de suspense, que arrasta o leitor por suas páginas até o final, e também vários contos de horror, porém sem (quase) nenhum apelo sobrenatural, recheado de horrores cotidianos, sem filtros. 
Sempre algo que o amigo de um amigo te contou. 
Algo muito absurdo, mas possível. 
Coisas que médicos vêem nas salas de emergência às 2 da manhã.
Algo que poderia acontecer com você.

O livro, que originalmente havia saído pela editora Rocco aqui no Brasil em 2007, estava esgotado há anos e valia seu peso em ouro na internet, até que a editora LeYa, que já detém os direitos de publicação da obra de Palahniuk por aqui há alguns anos (uma dica, dona LeYa: relancem "Cantiga de Ninar" e "Monstros Invisíveis" pra garotada da geração leite com pêra, ovomaltine e nutella conhecer!!!), o relançou no final do ano passado com uma nova capa. Agora é correr para catar um antes que esgote de novo. "Assombro" é um ótimo livro, com contos curtos que podem ser lidos em apenas um dia ou menos, uma história principal com muito suspense e um bom desfecho. Enfim, um ótimo livro para revisitar daqui a um, dois anos para uma releitura. 


Capa da primeira edição brasileira de "Assombro" (Ed. Rocco)

"Assombro" ainda é uma experiência única. Existem poucos livros com uma proposta semelhante e esse é a evidência de que, ao contrário de muitos outros escritores, Chuck Palahniuk não é um escritor de um livro só. Terminada essa resenha, "Assombro" volta para a minha estante. Mas já temos um encontro marcado ano que vem.


"Quando conseguirmos perdoar o que foi feito a nós...
 Quando conseguirmos perdoar o que fizemos a outros...
Quando conseguirmos deixar todas as nossas histórias para trás, junto com nossos papéis de vilões ou vítimas.
Só então, talvez, consigamos salvar o mundo.
Mas nós continuamos sentados aqui, esperando ser salvos. Continuamos sendo vítimas, na esperança de sermos descobertos enquanto sofremos."


sábado, 17 de setembro de 2016

CLUBE DA LUTA 2, de Chuck Palahniuk e Cameron Stewart, ou "Desculpe o transtorno, precisamos falar sobre Clube da Luta 2"

Por EDUARDO CRUZ








Sejam sinceros: quando Chuck Palahniuk anunciou a sequência de seu livro mais conhecido, “Clube da luta”, vocês sentiram um arrepio de medo, se perguntando “Pra quê?”, ou foi só eu? seria mais uma obra sofrendo do mal dessa década, essa urgência em se revisitar obras (comercialmente ou não) bem sucedidas da cultura pop e extrair mais algumas gotinhas de sangue da obra em questão, seja ela uma HQ, um filme ou um livro? ou ainda haveria sim algo mais a ser dito?


Calma, já respondo isso ali embaixo. Sigam comigo.


De volta à Paper Street...


Seja seu primeiro contato com Tyler Durden e sua sombra (ou seria o inverso?) através do livro, ou como no meu caso, do filme, “Clube da luta” foi uma obra explosiva, recebida com a intensidade de um soco no estômago, ou melhor seria dizer, um murro bem no meio do nariz, daqueles que enchem os olhos de lágrimas involuntárias, forçando a reavaliar a situação e repensar o terreno onde se está pisando, antes que o inevitável próximo murro chegue. O teor anarco-niilista da história cai como uma luva nesses tempos, onde o homem comum é cada vez mais esmagado e desumanizado por regras arbitrárias e sem sentido, e as instituições que guiam as massas nada têm a oferecer ao indivíduo senão modos de vida pré fabricados, que o encerram em seu próprio casulo de alienação, consumismo imponderado e conformidade. O personagem Tyler Durden, seu clube da luta, e um pouco mais à frente, seu projeto caos e destruição, partilham da mesma motivação: criar um mundo melhor a partir da destruição do mundo capitalista. Uma ruptura violenta. Para que o novo se instale, é preciso destruir o antigo. Uma alegoria que não poupa na violência e humor negro para transmitir sua mensagem: o homem precisa repensar a maneira com que se relaciona com o planeta, com o próximo e com si mesmo para continuar seu caminho evolucionário, seja ele qual for. Ou então não haverá caminho algum para ninguém. Niilismo, eu repito.





É ano de eleição!


“Clube da luta 2” se situa dez anos após os eventos do primeiro livro - ou filme - e o narrador/protagonista, sem nome na história original, agora conhecido como Sebastian é casado com Marla, a louca dos grupos de apoio. Os dois têm um filho, Júnior. Voltamos ao início do ciclo do primeiro “Clube da luta”: suas vidas são enfadonhas e sem sentido. A persona de Tyler Durden é mantida sob controle com muitos medicamentos. Muitos mesmo. A todo momento vemos pílulas e comprimidos “espalhados” nas páginas por sobre os desenhos, um recurso visual bacana para ilustrar a rotina química na cabeça de Sebastian. Porém, sem o conhecimento de Sebastian, Marla sabota sua medicação, e vemos que Tyler Durden nunca foi realmente embora, e ainda comanda suas ações do Projeto Desordem e Destruição mundo afora “cinquenta minutos, três vezes por semana, nos últimos dez anos…”, durante as consultas a seu psiquiatra, que libera Tyler com o auxílio de hipnose. Um belo dia dentro dessa rotina, acontece um incêndio criminoso, e lá se vão a casa, a mobília, e o Júnior. Exceto por um detalhe: o corpo encontrado nos escombros do incêndio não é o de Júnior, e sim de um dos seguidores de Tyler. Sebastian sabe disso porque Tyler sabe disso. Isso faz com que Sebastian volte à velha casa caindo aos pedaços na Paper Street, esperando na varanda junto a outros candidatos até ser admitido a se tornar um macaco do espaço, um dos recrutas de Tyler no Projeto Desordem e Destruição, se tornando um infiltrado na organização criada por seu alter ego, em busca do paradeiro de Júnior.





Paralelamente a isso, Marla também empreende sua busca por Júnior com o auxílio dos membros do grupo de apoio que ela frequenta, de portadores de síndrome de progeria (crianças com envelhecimento precoce, uma referência ao conto “Anos de cão”, de seu livro “Assombro” - conto esse com uma reviravolta igual ou mais intensa que a do famigerado “Vísceras”!), seguindo os rastros da organização de Tyler.


******** ATENÇÂO: Spoiler aqui!!!


Uma coisa bem interessante, se formos falar do lado bom de existir um “Clube da luta 2”, seria falar do que exatamente seria Tyler Durden. No primeiro livro, fica bem claro que Tyler é um transtorno mental desenvolvido pelo protagonista, uma segunda personalidade, que agia sem conhecimento ou consentimento dele. Em “Clube da luta 2”, Palahniuk foi mais além e lançou um conceito ousado, fazendo uma espécie de retcon de sua obra: Tyler seria um arquétipo, uma idéia transmitida de pai para filho dentro da família de Sebastian, um conceito tão forte, que sobreviveu à gerações de pessoas de carne e osso, indo parar no fim da linhagem, o filho de Sebastian! Tyler Durden é um meme vivo, uma idéia que cultiva pessoas para se perpetuar, e não o contrário.






Chuck reforça uma verdade que vemos por aí em muitas obras: idéias têm mais longevidade que seres humanos, personagens duram mais que seus criadores. Certamente a obra mais popular de Palahniuk suplantou seu criador - dizem que existem clubes da luta de verdade por toda parte! mas você não ouviu isso de mim rs - e ele brinca com isso em uma sequência à la Homem Animal de Grant Morrison, onde a criação encontra o criador, numa cena que é pura metalinguagem.





Criatura vs. Criador: onde já vi isso antes?

********* FIM DOS SPOILERS



Em “Clube da luta 2”, vemos uma sequência de situações, inclusive que se repetem ciclicamente em relação ao primeiro “Clube da luta”, como, além da destruição do lar do protagonista para marcar o início da jornada, os atos de destruição de patrimônio público e particular perpetrados pelos macacos espaciais (aqui veremos uma maneira simples e barata de profanar obras de arte em galerias com seus próprio fluidos corporais 8>0), e várias outras que, sem entregar tudo aqui, vão dar uma sensação de déjà vu em relação ao “Clube da luta” original. Foi como assistir ao novo filme das Caça fantasmas, e perceber que é basicamente a mesma história do original, com poucas diferenças, ou assistir o episódio VII de Star Wars e ver que é uma repaginação do episódio IV, com algumas modificações.





No primeiro livro, a revolução de Durden pregava a transformação do meio, mesmo que através de métodos radicais. Em “Clube da luta 2”, a revolução de Palahniuk nos convoca a uma transformação interna, subjetiva, o que denota-se pela quantidade de metáforas e sequências metalinguísticas e surreais, e que certamente não vão agradar à maioria dos leitores que esperavam a visceralidade e o texto cru do primeiro livro. Porém, a quem se propuser a passar por cima de quaisquer expectativas pré concebidas, pode encontrar suas próprias soluções e respostas em uma obra assim tão aberta. O retorno de personagens do primeiro livro, alguns aparentemente liquidados na trama do primeiro livro, como Robert Paulson, a paciente em estado terminal Chloe e o Cara de Anjo (no filme interpretado por Jared Leto) também é algo que levantou mais um “por quê??” durante a leitura, sinto dizer. No pior de tudo, valeu também pela experiência de, após ler tantos livros do Palahniuk, reconhecer a narrativa dele em uma HQ, sem perder sua característica e ver como ele aproveitou bem as possibilidades que uma HQ permite. Vejamos se ele volta a escrever algum roteiro de HQ no futuro. Em uma forma de arte complexa, em que o criador tem que controlar tanto as palavras quanto cada detalhe visual da cena, ele se saiu bem pra um novato na mídia.

A arte do excelente Cameron Stewart é um show à parte. Criou a caracterização de cada um dos personagens sem se ater aos traços físicos dos atores que os interpretaram no filme. Você sabe quem é cada um deles sem muito esforço. O que a Panini está fazendo que ainda não publicou “Seaguy” por aqui, a HQ que Stewart desenha em conjunto com o roteiro de Grant Morrison?


Jovem! se você compra gibis para ver tetas balançantes, essa é pra você!

Destaque também para as capas de David Mack, ilustrador conhecido principalmente por seu projeto autoral, “Kabuki”, e que fez as capas das séries “Demolidor” e “Alias” da Marvel Comics. Mack, com seu estilo único, é um desses artistas sui generis, aqueles impossíveis de imitar e que ao batermos o olho automaticamente sabemos de quem se trata, como ver um trabalho de Bill Sienckiewicz.


Capas de David Mack


A edição brasileira, da editora Leya, é o que eu e alguns amigos convencionamos chamar de “formato paraguaio”, algo maior que as dimensões de um livro comum e menor que o formato americano, 23cm x 15,5cm, pra ser exato. Capa cartonada e um papel couchê fosco. Além da mini série completa, essa edição nacional tem uma espécie de adendo ao primeiro clube da luta, onde algumas cenas chave são quadrinizadas, e o final do livro, mostrado em imagens pela primeira vez. Pra quem ficou confuso com aquele último capítulo na primeira vez em que leu o livro (como eu hehe ;>) ), falando sobre estar no “Céu” e “Deus” e seus diplomas na parede, agora está tudo ali, mastigado.


Eu particularmente vejo “Clube da luta”, tanto o livro quanto o filme, como o primeiro “Matrix”: uma história perfeitamente autocontida, com um final em aberto excelente, em que soube-se a hora exata de parar de contar a história. Na minha “cronologia pessoal”, assim como existe apenas “Matrix”, sem levar as continuações em conta, creio que vou adotar o mesmo protocolo com relação a “Clube da luta” heheheh


Entendeu ou quer que desenhe?

Então, respondendo à pergunta lá em cima, aqui na Zona disputamos em uma lutinha amigável pra ver quem faria essa resenha. Depois de perder 6 dentes, quebrar o dedo anelar da mão esquerda, fraturar três costelas, estirar o ligamento da patela, além de muitas luxações e hematomas, e de uma provável concussão, a honra da tarefa ficou para mim, o vencedor. Vendo por esse ângulo, acho que não valeu muito a pena. Mas, de qualquer forma, vocês deviam ver como ficou o outro cara...





Então é isso meus macaquinhos do espaço! para quem se dispuser a dar um confere em “Clube da luta 2”, não se esqueçam de raspar suas cabeças, preparar a mala com duas camisetas pretas, dois pares de calças pretas, um par de coturnos pretos, dois pares de meias pretas e um casaco preto pesado. Ah, e não se esqueçam também dos $300 para o seu funeral, e de não falar sobre isso.