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quinta-feira, 1 de junho de 2017

INJECTION, de Warren Ellis + Declan Shalvey + Jordie Bellaire, ou “O Black Mirror de Warren Ellis”






Por EDUARDO CRUZ



Era uma vez cinco loucos que envenenaram o século XXI....

É, macacada.... Deus tá vendo vocês nesse hype aí com a terceira temporada de Black Mirror, hein? A internet ficou um pouquinho mais pentelha uns meses atrás por causa de uma série inglesa que explodiu cabeças por aí, e atingiu até pessoas que não costumam consumir esses produtos audiovisuais com temática fortemente sci-fi. De nerds a “civis”, de bazingueiros até os vítimas de todas as modas, Black Mirror virou um fenômeno de audiência, e grande parte disso se deve muito ao alcance do Netflix. A série, que aborda questões como ética, relacionamentos interpessoais afetados pela tecnologia, inteligências artificiais, desumanização, entre outros temas muito em voga no momento atual, está alcançando pessoas que eu não imaginaria ver discutindo esses temas, por exemplo, na fila do banco. E isso é muito bom. Qualquer coisa que gere reflexões fora do convencional e suscite conversas para além da santíssima trindade “futebol + novela de ontem + o clima” que rege a cartilha de papo furado no Brasil; isso precisa urgentemente de um upgrade mesmo. Ponto para Black Mirror por essa. Mas e aí? Acabou por aí pra quem curtiu a série e as questões que ela aborda ou tem mais disso escondido por aí, pra quem curtiu enveredar por essa senda de ficção científica hard? E se eu dissesse que existe uma HQ sendo publicada atualmente com essa temática, que esse título pertence à editora Image (Nova Vertigo para os íntimos ;>)) e ainda por cima com roteiro de Warren Ellis? Guardem bem esse nome: Injection.


Da mesma equipe do fantásticomagníficosensacional Cavaleiro da Lua, da Marvel – O trio Warren Ellis, Declan Shalvey e Jordie Bellaire - Injection conta a história de cinco especialistas, todos geniais, cada um deles um excêntrico, cada um deles um mestre em sua área de atuação. O grupo, criado para conceber (e realizar) o futuro da cultura humana, é bancado por uma espécie de empreendimento conjunto entre o governo britânico e uma nebulosa multinacional conhecida como FPI Cursus. É formada então a Unidade de Contaminação Cultural Cruzada, uma espécie de think tank onde seus membros têm carta branca para desenvolver novos conceitos e patentes.

Cavaleiro da Lua, da mesma equipe criativa.
É Marvel, mas é bom rs.






A unidade, composto pela cientista Maria Killbride, o especialista em estratégia e geopolítica Simeon Winters, a hacker e tecnologista Brigid Roth, o investigador e consultor em segurança Vivek Headland e o folclorista e... mago (???) Robin Morel, coordenada por Killbride, decide, nas palavras dela, “Fazer o futuro chegar mais rápido”. Para isso, cada um contribuiu com os conhecimentos de suas respectivas áreas e acabaram criando algo estranho. Entretanto, nessa tentativa de tornar o século XXI melhor, mais estranho e mais propício a grandes avanços, algo dá muito errado e após um tempo separado, o grupo é obrigado a se reunir para dar cabo da loucura que eles  próprios criaram e puseram à solta no mundo, antes que as conseqüências terríveis afetem a humanidade.






É sério isso, seu Ellis? Uma referência ao quadro...

"Caminhante sobre o mar de névoa", de Caspar David Friedrich???

Mas o que vem a ser a tal “Injeção” da HQ? Já ouvi algumas pessoas falando que apesar de terem lido a HQ, não entenderam ao certo o que vem a ser o trabalho que a equipe de Killbride desenvolveu e que deu terrivelmente errado. Pois bem: a tal Injection é uma inteligência artificial, projetada utilizando tecnologia e magia xamanística, e jogada na Internet. “Injetada” no mundão, por assim dizer, para se desenvolver, acumular conhecimento e atender às expectativas da equipe de Killbride. A entidade provoca o grupo que a criou, gerando caos e desordem inspirados por mitologia e superstição. Ellis mantém uma newsletter, a Orbital Operations, onde ele deixa mensagens aos assinantes que variam do espirituoso ao estranho – vamos combinar, Ellis é um cara estranho. Não acredita em mim? Assista a esse documentário! – e em uma dessas mensagens Ellis explicou que Injection se trata de uma grande história sobre folclore bretão, magia, tecnologia e futurismo que, além disso, ainda evoca arquétipos literários e da cultura pop britânica, como James Bond, Doctor Who, Bernard Quatermass e Sherlock Holmes. Está tudo lá, de um jeito ou de outro. Pode conferir!


E o que esperar de Injection? Bem, lá fora a série está em sua décima quinta edição, e passando por um pequeno hiato desde setembro de 2016. Ellis tem desenvolvido os personagens com a loucura e competência de sempre, mas mantendo alguns mistérios, como pro exemplo quem está por trás e quais as reais intenções do consórcio FPI Cursus, e o que a entidade Injeção vai fazer a seguir, e mais qualquer outra pedra que ele jogue no caminho, pra dificultar ainda mais a vida dos protagonistas rs. Ou sejE, ainda tem muito background a ser explorado, e Ellis é competente a ponto de não sinalizar, nem voluntária, nem involuntariamente qualquer direção que o leitor possa prever para a trama. A série é vaga e críptica desde seu início. Ellis já começa sem se preocupar em ser didático com o leitor, deixando muita coisa aberta a especulações e interpretações, ou por muitas vezes joga uma série de flashbacks impactantes de um único quadrinho, para logo em seguida voltar à linha narrativa principal. Não muito diferente de qualquer boa série de TV da atualidade, que começa uma cena sem maiores explicações ou recordatórios, e pode demorar um tempo até você se dar conta de que está vendo um flashback. A dupla Declan Shalvey/Jordie Bellaire esbanja competência, e muitas vezes identificamos a época em que certa cena se passa apenas pelo olhar ou pela expressão facial dos personagens, mostrando versatilidade também na construção de cenários, composição das páginas, tudo de uma forma um pouco mais limpa e polida do que a dupla exercitou em Cavaleiro da Lua, por exemplo.
 


Vivek Headland é, de longe, o personagem mais interessante até agora, dentro uma galeria de bons personagens.


O sentimento de acompanhar uma trama tão rica de potencial, imprevisível e empolgante, com diálogos tão inteligentes, pra mim, é igual à época em que eu acompanhava Planetary, outra série incrível do autor. Só espero que não demore a concluir tanto quanto Planetary, que levou uma década para entregar 27 edições, atraso gerado por problemas de saúde de Ellis e a montanha de compromissos profissionais do desenhista John Cassaday.


 
Talvez esse tipo de HQ não excite muito a imaginação da turminha que se contenta com o mais do mesmo das HQs mensais, mas pros que sempre estão atrás de uma história inteligente, com bons diálogos, personagens ao mesmo tempo estranhos e carismáticos (como Vivek Headland, que é o foco do segundo encadernado de Injection, em um arco onde vemos os atípicos métodos do investigador para adquirir todo e qualquer conhecimento possível, tornando-o uma espécie de Sherlock Holmes do século XXI), vale o sacrifício para ficar de olho nas baixas do dólar e pegar os dois encadernados importados que já saíram até agora ou comprar as edições digitais no Comixology. Ou, se você anda com o inglês enferrujado, fique de olho quando isso sair por aqui. Injection é uma das melhores séries em circulação na atualidade, e ouso especular que é só questão de tempo até alguma editora começar a publicar isso por aqui. Por isso, guardem bem esse nome: Injection...


terça-feira, 2 de maio de 2017

MINISTÉRIO DO ESPAÇO, de Warren Ellis + Chris Weston + Laura Martin






Por RICARDO CAVALCANTI





Warren Ellis é um dos autores preferidos do Zona Negativa. Ainda teremos muito para falar por aqui sobre esse britânico com cara de poucos amigos. Já falamos aqui da trilogia composta por Supergod, No Hero e Black Summer. Este último, por sinal, além de dar uma boa apresentação de quem é Warren Ellis, foi um dos que colocou o ZN na condição de “monitorados”. Mas é melhor não tocarmos no assunto. “Eles” estão de olho
 
Warren Ellis sensualizando pra você

O último século foi bastante conturbado. Grandes mudanças ocorreram e influenciaram todo o planeta. Nações disputando domínio sobre as outras através de seus exércitos; ideologias sendo disseminadas; radicalismo sendo propagado, além de conflitos que tomaram proporções globais.

Durante a segunda guerra mundial, o exército alemão mostrou todo o seu potencial de fogo. Com uma forte estrutura criada para o combate, suas armas eram admiradas pela sua eficiência (como toda a engenharia alemã é admirada até hoje). Uma das armas mais perigosas desenvolvidas pelos engenheiros do Führer foi o V2, um foguete com alto poder de destruição e que, sendo lançado a partir da Alemanha, seria capaz de atingir a Inglaterra. Posteriormente, acabou servindo muito como base para os primeiros foguetes que levaram o homem ao espaço.

O pai da exploração espacial foi uma arma balística de destruição em massa.
Seria cômico se não fosse loucura. E me refiro à vida real, não à HQ.

Após o fim do conflito, Estados Unidos e União Soviética disputavam todo o intelecto usado na construção das “maravilhosas” armas de guerra alemã. Todo aquele potencial era valioso demais para ser destruído. Os engenheiros responsáveis foram extremamente úteis no pós-guerra (pouco importa que tenham sido responsáveis por milhares de mortes, né? Afinal de contas, eles eram disputados para criar mais armas que poderiam causar ainda mais mortes). Todo o intelecto e a máquina de guerra alemã serviram aos interesses de americanos e soviéticos durante toda a guerra fria.



Em Ministério do Espaço, Ellis usa todo esse cenário como pano de fundo para desenvolver uma história que parte do ponto em que, a Inglaterra consegue sozinha, tomar posse de todo intelecto dos responsáveis pela máquina de guerra nazista, deixando os americanos e os russos para trás.

O que aconteceria se apenas um país se apoderasse de todo aquele intelecto, que criou todo arsenal de guerra alemão? Jacko Dashwood se torna o responsável pelo sucesso de tal operação para “captar” as mentes criativas dos engenheiros nazistas, sem que houvesse a intervenção de EUA ou URSS. Para dar continuidade aos seus planos, solicita aprovação para aproveitar todo o potencial dos “melhores construtores de mísseis do mundo” para desenvolver um projeto grandioso: Colocar um satélite artificial na órbita da terra munido de bombas atômicas que pudessem atingir qualquer alvo na terra. Esse era apenas o início do que seria a grande dominação do Reino Unido sobre o resto do mundo. No entanto, para que tudo isso fosse possível, precisaria de recursos. O grande mistério fica por conta da origem desses recursos. Um segredo que, a todo tempo, volta para assombrar Dashwood.



A Inglaterra se transforma em uma grande potência militar e tecnológica, abrindo caminho para a exploração também do espaço, criando-se assim - além do ministério do exército, da aeronáutica e da marinha - o Ministério do Espaço. Os avanços tecnológicos alcançam também toda a população, que acaba inserindo novas tecnologias em seu dia a dia. A todo instante, somos apresentados visualmente ao quanto o mundo evoluiu tecnologicamente, nos deixando maravilhados com aquela realidade.

Todo isso graças ao “visionário” Dashwood. Um cara arrogante, pretensioso e ambicioso que, mesmo sendo responsável pelo engrandecimento do Reino Unido e o surgimento do Ministério do Espaço, consegue ser odiado por todos a sua volta.


A arte de Chris Weston é um caso a parte. Weston iniciou sua carreira desenhando o Juiz Dredd para a 2000AD, tendo trabalhado também para a Image, DC, Marvel, sendo ainda responsável pela arte de The Filth, de Grant Morrison. Em Ministério do Espaço, Weston tem seu excelente traço engrandecido pela colorista Laura Martin que usa a mudança de tonalidade das cores para nos ambientar entre as diferentes épocas, sem que fosse necessária uma legenda para isso. Laura Martin - que se chamava Laura Depuy - já mostrou o seu talento em Planetary/Authority (também do Ellis) e Terra 2 da dupla Morrison/Quitely.


A história foi publicada originalmente em três edições, que a Devir nos traz integral em capa dura, papel de ótima qualidade (que valoriza bastante a arte) e com o prefácio do “arroz de festa”, Mark Millar. O que podemos dizer de "Ministério do Espaço" sem entregar algo de relevante, é que acompanhamos uma história de ficção científica com uma boa dose de suspense e que nos surpreende no final com um soco no estômago na última página. Não tem como ser mais atual. Por mais que acreditemos que estamos avançando de alguma forma, no fim da HQ a pergunta que fica é: “Será que estamos realmente evoluindo?”. Se olharmos a nossa volta, vamos perceber que, fora os jetpacks, aquela realidade não está tão distante da nossa.

 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

SUPERDEUS, de Warren Ellis e Garrie Gastonny, ou "O MEU Deus desce a porrada no seu Deus!!!"







Por EDUARDO CRUZ

E finalmente chegamos a Superdeus, fechando a trilogia de mini séries (as outras duas partes são Verão Negro e Herói Nenhum, sem ligação entre si, unidas apenas pelo tema em comum: Superhumanidade, política e religião) de desconstrução do arquétipo do super herói de Warren Ellis, a terceira de três mini séries publicadas pela editora americana Avatar Press entre 2007 a 2009. Como se as mini séries anteriores não fossem bombásticas o suficiente, com a violência em profusão, presidentes mortos e muitos comentários ácidos sobre política internacional, em Superdeus, Ellis sente que pode ir além e ofender ainda mais gente elevando o super herói a um nível divino. Literalmente. Nas palavras do próprio Ellis:


"Verão Negro era sobre super humanos que eram humanos demais. Herói Nenhum era sobre super humanos que eram inumanos. Superdeus é sobre super humanos que não são mais humanos em nenhum aspecto, mas algo mais. O apêndice de uma trilogia temática, se vocês preferirem." 

Warren Ellis

Em Superdeus, percorremos um século XX que aconteceu de forma um pouco diferente do nosso em um detalhe: a corrida armamentista se deu não com o desenvolvimento e produção de armamento termonuclear, e sim com a criação de seres superpoderosos, divindades tecnológicas de imenso poder, no clima paranóico que pontuou os anos da Guerra Fria

Narrada do ponto de vista de Simon Reddin, um cientista britânico sentado em meio às ruínas de uma devastada Londres pós apocalíptica, Reddin faz um relato oral a Tommy, um cientista Americano abrigado em um bunker do outro lado do oceano. Reddin conta a Tommy que tudo começou em 1955, quando o governo britânico enviou 3 astronautas ao espaço em uma nave experimental com o intuito de estudar os efeitos da radiação espacial no corpo humano. Quando o foguete retorna à Terra, os cientistas descobrem que os três astronautas foram fundidos em um único organismo, graças aos esporos de um fungo alienígena. A entidade é batizada de Morrigan Lugus,  em homenagem a duas divindades celtas (mas peraí, uma divindade tríplice? o cristianismo também tem uma dessas!). 


O nada sutil Morrigan Lugus
A posse de Lugus pelo governo Britânico faz com que outras nações corram atrás do prejuízo para desenvolverem seus próprios programas de super humanos. Tem início aí a corrida armamentista: Os EUA criam Jerry Craven, um ciborgue projetado a partir dos restos do corpo de um piloto da força aérea (numa referência maneiríssima ao seriado O Homem de 6 milhões de dólares), enquanto a Rússia cria Novaya Goraj, com mais ou menos a mesma matéria prima: um cosmonauta morto. Nações como Irã, China e até mesmo Venezuela também criam seus próprios "Superdeuses". E sim, alguns vão acabar em rota de colisão...


Mesma guerra fria, armamentos diferentes

O estopim do conflito se dá no século XXI com a ativação de Krishna, um superser indiano. Krishna é construído com tecnologia de ponta, possui controle absoluto sobre matéria e energia, e é governado por um programa simples de inteligência artificial cuja diretriz principal é "salvar a Índia". Levando a diretriz a uma lógica extrema, Krishna resolve os problemas de poluição e superpopulação da Índia dizimando a população e destruindo o país. O caos na Índia leva seu vizinho Paquistão a lançar seu arsenal nuclear inteiro contra Krishna, mas Krishna simplesmente devolve o ataque, obliterando o Paquistão. A partir daí, outras nações ativam seus "protetores" e as consequências são devastadoras.


Krishna, um Doutor Manhattan de calças!

Em Superdeus, Ellis aborda um tema que poucas histórias de Super-Heróis chegam a tocar: a ligação entre entidades superpoderosas dos quadrinhos com a parte da natureza humana que impele a adoração a divindades. Na HQ, o Dr. Reddin divaga a respeito da compulsão psicológica que o ser humano possui, de criar e venerar deuses para protegê-lo, um hábito que vem sendo repetido ao longo de toda a história humana. 



Dajjal, tão poderoso que consegue enxergar através da quarta parede!

Matreya, da China, pode manipular carne humana para criar formas complexas e aterradoras!

A maneira como Ellis opta por contar a história aqui lembra bastante outro trabalho seu, Ministério do Espaço, que nos mostra uma história alternativa a respeito de como se deu a corrida espacial. Na realidade alternativa de Ministério do Espaço, a primeira nação a ter um programa espacial plenamente desenvolvido é a Inglaterra, e não os pólos Rússia - EUA, e temos uma história contada a partir da perspectiva dos britânicos. Mais uma ótima história do Ellis para você formar seu próprio top 10 de histórias dele. Como eu cansei de dizer, difícil mesmo é elencar só 10 HQs do Ellis para fazer uma lista... 


Ministério do espaço

Desconstrução do mito do super herói também não é nenhuma novidade no currículo de Ellis. Os mais velhacos vão lembrar da mini série Ruínas, que ele escreveu para a Marvel, onde ele reavalia vários heróis da editora a partir de uma ótica muito mais cruel e cínica. Ruínas está disponível para baixar nesse link.

Abordando temas como religião, a natureza destrutiva do ser humano, humanismo e transhumanismo, Superdeus é um pouco diferente na levada narrativa em relação a Verão Negro e Herói Nenhum, que têm uma ritmo mais análogo a um blockbuster, frenético e violento. Mas essa impressão, em minha opinião, se deve bastante à arte de Garrie Gastonny, que não é um artista ruim, mas em Superdeus está bastante inferior a Juan Jose Ryp, artista das mini séries anteriores. Gastonny está apenas razoável, mas tudo bem. Poderiam ter entregue isso nas mãos de algum outro artista bem ruim, como (insira desenhista ruim aqui) ou (insira desenhista REALMENTE ruim de doer aqui!), por exemplo. Teria sido ótimo se Ryp também fosse responsável pela arte de Superdeus. Ficaria uniforme, mas possivelmente ele não pôde assumir por causa do maior arquivilão de um artista de HQs: os prazos. De qualquer maneira, pra quem é acostumado com o padrão "Vertigueiro" de histórias em quadrinhos, vai ser fácil abstrair isso e mergulhar na excelente história. 

Warren Ellis fez seu próprio Watchmen. Ele achou necessário, após a virada do século, desconstruir o conceito de super herói, adequando-o ao o zeitgeist atual - onde a razão vem sendo cada vez mais ferozmente rejeitada em favor do misticismo, fundamentalismo e fanatismo - e se deu três mini séries conectadas conceitualmente para realizar a tarefa. Foi muito bem sucedido na empreitada. Nos mostrou que a pretensão do ser humano - extremamente imperfeito por natureza - em criar Deuses para salvá-lo de si mesmo utilizando a ciência se mostrou um equívoco fatal, e essa contradição foi a semente de sua própria ruína. 

Não aprendemos nada lendo Frankenstein.  

Agora, me dê a mão e vamos juntos à extinção.  


Toma uma referência bíblica aí, fera!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

HERÓI NENHUM, de Warren Ellis e Juan Jose Ryp, ou "Heroísmo: agora também em xarope e pastilhas"







Por EDUARDO CRUZ

Dando sequência à trilogia da superhumanidade de Warren Ellis (Já comentamos sobre a primeira mini série, Verão Negro aqui), um conjunto de três mini séries sem nenhuma relação entre si, e que partilham de apenas uma temática em comum entre elas: a condição super-humana e seus desdobramentos e contrastes dentro de vários aspectos da sociedade humana, sobretudo no campo da política e também na religião. Uma tentativa de abordagem realista sobre seres com poderes sobre-humanos interagindo no "mundo real". Herói Nenhum foi originalmente lançada em 8 partes (das edições #0 à #7) entre 2008 e 2009 pela Avatar Press, editora que publica bastante material autoral de Warren Ellis, Garth Ennis, Alan Moore, entre outros distintos roteiristas que fizeram parte da já histórica Invasão Britânica.







Assim como em Verão Negro, podemos resumir o mote filosófico da história em apenas uma pergunta, a pergunta que Ellis joga pro leitor logo na capa da HQ:
"O QUANTO VOCÊ QUER SER UM SUPER-HUMANO?"
Herói Nenhum se passa em um mundo onde super-humanos existem desde os anos 60 nos EUA, época da efervescência da contracultura, das lutas por igualdade e pelos direitos civis. O grupo conhecido como "Os Niveladores" surge para proteger a população da violência policial e do crime de rua, em crescimento desde o fim da guerra do Vietnã. O mentor do grupo é Carrick Masterson, um químico visionário, misto de Timothy Leary e Lex Luthor, que promove a revolução da Era de Aquário riponga à maneira bicho grilo: através das drogas. Porém, com uma diferença: O FX7, a substância que Masterson desenvolve, com base na Triptamina, possui algumas alterações, que ele guarda em segredo do resto do mundo. Sua droga, além de alucinações violentamente realistas e pesadelos vívidos, entre outros efeitos colaterais bem adversos, também concede capacidades super-humanas ao seu usuário, como superforça, poder de vôo, mudança de densidade corporal, projeção de raios de calor, etc. Enfim, o pacote completo. 



Pense numa droga que só dá bad trip... além disso, uma droga que faz ver Ctulhu em pessoa na sua frente é uma droga da qual eu jamais vou chegar perto!!! kkk
Entendeu agora porque o Ellis faz aquela pergunta logo na capa da HQ?

Alguns anos depois, Carrick rebatiza seus Niveladores de A Linha de Frente, mas aparentemente ainda mantendo o mesmo propósito. As décadas passam, gerações de membros do grupo vão e vêm, e nos dias atuais, seus membros estão sendo assassinados misteriosamente. Agora Carrick precisa correr contra o tempo para remontar sua equipe, fragmentada com os sucessivos atentados e descobrir quem está fazendo isso.



Esquina da Haight com a Ashbury, o berço da contracultura sessentista.

É aí que entra em cena Joshua Carver. Josh é jovem, idealista, vegano, tem um condicionamento físico impecável, lê bastante sobre política e sociologia. Ah, e sai à noite para fazer justiça com as próprias mãos, espancando marginais. Joshua está fazendo de tudo para chamar a atenção de Carrick Masterson. E finalmente consegue. Convidado a abrir mão de sua vida e integrar as fileiras da Linha de Frente, Joshua passa pelo "sacramento" e toma o FX7. Apesar de reações adversas horríveis e desfigurantes, a droga funciona e Josh se torna um super-humano. Agora, dentro desse turbilhão que a Linha de Frente se tornou, Joshua (e nós também!) descobre que nada é o que parece, e assim como em Verão Negro, presenciamos uma torrente de morte, caos e destruição como poucas vezes se vê em uma HQ de super heróis... 


"Olha só isso! É como acertar aquele truque da toalha de mesa na primeira tentativa!"

Herói Nenhum, na proposta dos assuntos abordados, é riquíssima: além de trazer mais uma vez para a mesa de debates o transhumanismo, Ellis traça um paralelo entre Os Niveladores/Linha de Frente com o movimento da contracultura, que azedou e teve seus ideais desvirtuados e corrompidos. Além disso, a HQ enfoca questões como justiça e vigilantismo: é considerado justiça apenas o que é realizado pelas autoridades estabelecidas? e se o cidadão resolve praticar justiça por iniciativa própria? 




Apesar de todos esses questionamentos, Herói Nenhum é uma grande promessa não cumprida em sua plenitude. Seu andamento por vezes é apressado, principalmente em sua conclusão, e faltou mais um pouco de desenvolvimento de personagens, mais flashbacks de outras formações da Linha de Frente e mais desenvolvimento no final da trama, apesar do excelente plot twist e seu final apocalíptico. Não estou dizendo que Herói Nenhum é ruim. Muito pelo contrário, é a minha favorita da trilogia super-heróica (talvez por causa da elevada dose de cinismo, onde não há um personagem realmente ético, e é repleta de tons de cinza), mas na minha opinião talvez o problema tenha sido apenas o formato de mini série. Herói Nenhum merecia bem mais que suas oito edições, para ser desenvolvida sem pressa e todos os temas abordados serem entregues de forma mais orgânica na trama. Mesmo assim, é tão divertida quanto Verão Negro, um blockbuster muito bem desenhado - por Juan Jose Ryp, artista de Verão Negro - e recheado de ação, violência e loucura, tudo à moda Warren Ellis de contar histórias.


As capas variantes de Herói Nenhum prestam tributo a algumas HQs já consagradas em vários momentos chave da história dos quadrinhos, como algumas dessas que eu pincei aí embaixo:


















Enfim, a segunda das três mini-séries que engloba o Watchmen de Ellis esmiuçada aqui na Zona. E AQUI a resenha da última mini dessa fantástica trilogia, Superdeus. Até +!!  



FX7 ou "Jujuba de Nietzsche", como é conhecido nas ruas rsrs