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quinta-feira, 6 de julho de 2017

CONTOS REUNIDOS DO MESTRE DO HORROR CÓSMICO H. P. LOVECRAFT





Por EDUARDO CRUZ


E aí macacada cultista de Cthulhu??? 
Estamos de volta, depois de um longo e tenebroso inverno (quer dizer, na verdade ainda estamos no meio do inverno, mas me deixem em paz com minhas figuras de linguagem, vá!) sem postar nada durante todo o mês de junho (fora o post de Injection! já leu??). Agora estamos de volta com desculpas, explicações e justificativas. Nossas desculpas e explicações são razões pessoais mesmo. De minha parte, tenho trabalhado muito ultimamente, o que aniquilou o tempo que normalmente eu tenho para escrever aqui, e o Ricardo estudando feito um condenado (se não me engano ele cursa História da pornografia agrária do século XIV, e junho é época de provas). Mas não conseguir tempo para escrever não é o mesmo que não conseguir ler nada aqui na Zona! E isso, pelo menos, eu não deixei de fazer. Fora um ou outro gibi esporádico, desde o post dissecando o primeiro volume de Providence, mergulhei fundo na leitura da produção textual de H. P. Lovecraft (mais uma vez! só preciso de uma desculpa pra (re)ler Lovecraft :)))), e só tenho conseguido agora, em julho, sair aos poucos desse estado catatônico literário, pegando finalmente os outros livros que estão aqui na fila de leitura, para fazer os próximos posts da Zona Negativa, e assim, aos poucos vamos voltando àquela rotina que estávamos acostumados por aqui ;>).  


Quem acompanha o blog há algum tempo já sabe que aqui somos leitores doentes de Lovecraft meeeeeerrrrrrmo, e não vamos descansar enquanto os mitos de Cthulhu não estiverem todos armazenados em nossas mentes, corações e estantes heheheh. Mas não precisa acreditar na gente se não quiser. O que Neil Gaiman declarou a respeito de Lovecraft sintetiza toda a importância e reverência em torno desse grande escritor: 

"Ele definiu os temas e obssessões de horror do século XX, e ao entrarmos no século XXI ele se mantém presente."

As editoras brasileiras têm dado um tratamento cada vez mais digno à obra de Lovecraft por aqui. Da editora Iluminuras, passando pela Clock House, não podemos esquecer daquelas edições belíssimas da Hedra, e mais recentemente o tijolo monstruoso da Martin Claret; enfim, o pai do horror cósmico tem recebido cada vez mais destaque no mercado editorial brasileiro, e o novo tributo à obra de HPL a sair por aqui é o volumão "H. P. Lovecraft - Contos reunidos do Mestre do Horror Cósmico", da editora Ex Machina. O projeto foi bancado via financiamento coletivo no Catarse e é o mais novo objeto de desejo dos aficionados por Lovecraft. O livro simplesmente abarca toda a prosa curta de Lovecraft, ou sejE, todos os seus contos e noveletas, com exceção de obras mais extensas, como as novelas "Nas Montanhas da Loucura", "A sombra Vinda do Tempo", "Um Sussurro nas Trevas", entre outros, excetuando-se também textos em que escreveu em colaboração ou como ghost writer. O livro já mostra a que veio na introdução escrita por S. T. Joshi, o maior especialista e pesquisador de H. P. Lovecraft da atualidade (também autor da biografia), e que também supervisionou a divisão dos contos em blocos temáticos. Em pouco mais de 600 páginas, o livro apresenta 61 histórias(!!!), cada uma precedida de uma pequena sinopse, e divididas em ciclos:

  • Ciclo de Cthulhu, com as histórias relacionadas ao seu panteão de entidades horrendas, os mitos de Cthulhu; 
  • Ciclo dos Sonhos, com os contos relacionados ao viajante do sonhar Randolph Carter, além de outros de seus contos com aquela mescla perfeita entre fantasia e horror; 
  • Miscelânea, que reúne contos diversos em vários momentos diferentes de sua (curtíssima!) carreira literária (Sim, aqui tem "Herbert West: Reanimador"!!!!); 
  • Juvenília, seção que reúne algumas histórias escritas por HPL ainda em sua adolescência. 

Como se isso já não bastasse, essa edição ainda conta com apêndices incríveis, como ensaio biográfico, ensaios críticos, filmografia, iconografia, um bestiário lovecraftiano, tudo com a colaboração dos maiores estudiosos de literatura fantástica e da obra de H. P. Lovecraft do Brasil, como Nathalia Scotuzzi, Guilherme da Silva Braga, Marcello Branco, Silvio Alexandre, entre outros. A organização do volume é de Bruno Costa, o mesmo responsável pelas edições da Hedra.





Com preguiça de digitar isso tudo, acabei tirando fotos do sumário mesmo rs.

Inexplicavelmente, o conto "A Coisa na Soleira da Porta" ficou de fora dessa edição. Uma história excelente e curtinha, como era a proposta do livro. Mas ainda assim é de fato a mais ambiciosa publicação de H. P. Lovecraft já lançada em língua portuguesa, um item de colecionador fantástico, e com extras igualmente impressionantes. Mais do que apenas para fãs de Lovecraft, indispensável para qualquer fã de literatura fantástica e horror. 


"Lovecraft - Fear of the Unknown", excelente documentário sobre a vida e obra do escritor, com participações de Neil Gaiman, Stuart Gordon, John Carpenter e outros. Completo e legendado.

E vocês acham que parou por aí? A Darkside Books, aquela editora com o catálogo deliciosamente dark e as capas incríveis, também já anunciou que vai publicar algo do escritor ainda em 2017, pela linha Medo Clássico - que já publicou uma coletânea de Edgar Allan Poe e "Frankenstein", de Mary Shelley -, mas até o momento ainda não há detalhes sobre como vai ser esta publicação. Aguardamos ansiosos por mais uma coletânea de HPL nas livrarias...



Como eu disse anteriormente sobre "Neuromancer", e o raciocínio se aplica com perfeição também a H. P. Lovecraft: estivemos expostos a vida inteira a produtos da indústria do entretenimento que foram derivados direta e indiretamente da literatura de Lovecraft, então que tal dar uma chance ao material original que inspirou obras diversas como "O Enigma do Outro Mundo", "Re-animator", "Stranger Things", "Hellboy", "Uzumaki", "The Void", entre outras dúzias de filmes, séries, HQs, jogos, mangás, músicas, etc?



E aí? foi ou não uma boa desculpa pra passar um mês sem postar? Eu faria tudo de novo. E farei. Então, quando eu sumir de novo, vocês já sabem que mais uma vez fui tragado pelos Mi-Go para um tour por Kadath, Carcosa, R'lyeh, Dunwich, Salem, Innsmouth.... Quando Cthulhu chama, você tem que atender!


domingo, 28 de maio de 2017

UM PASSEIO EM PROVIDENCE! Via Innsmouth, Red Hook, Dunwich, Carcosa, R’lyeh......


Por EDUARDO CRUZ




Quem não estava escondido embaixo de uma pedra em uma caverna subterrânea ou filosofando com o Dr. Manhattan na superfície de Marte provavelmente já sabe que a Panini finalmente lançou nesse mês de maio a primeira terça parte de Providence, uma mini série em 12 edições que saiu lá fora pela Avatar Press, e que aqui vai sair em 3 encadernados. Ansiosos? 

Podem apostar que eu sim! Pra quem não sabe, Providence é, ao mesmo tempo, prelúdio e continuação de Neonomicon, uma HQ onde Moore presta homenagem a toda a mitologia criada por esse escritor norte americano. E não é segredo nenhum que esse autor, que criou o subgênero de horror cósmico, Howard Phillips Lovecraft, é um de nossos grandes favoritos aqui na Zona Negativa! 






Em Providence acompanhamos a jornada de Robert Black, um repórter nova iorquino, homossexual, que logicamente, devido às pressões da sociedade da época, é obrigado a esconder sua condição, vivendo uma vida diferente sob a superfície. Robert trabalha em um jornal, o New York Herald, porém, sempre se sentiu compelido a escrever seu próprio grande romance, aquele que iria captar e cristalizar com precisão a essência e a época de seu país e seu povo, na América de 1919, às vésperas da Lei Seca e a poucos anos do Crash da Bolsa de Valores que assolaria a nação de um modo sem precedentes.





Em busca de um artigo para seu jornal a respeito de um misterioso livro supostamente amaldiçoado, e ainda abalado com a morte repentina de um ex amante, Robert acaba pondo o pé na estrada e pouco a pouco desbrava todo um submundo de indivíduos à margem da sociedade que trocam informações e conhecimentos sobre ciências ocultas, pessoas atípicas, excêntricos e freaks em geral, e em alguns casos até mesmo indivíduos que não poderíamos classificar exatamente como pessoas. Black, sem se dar conta, acaba empreendendo uma viagem por toda uma América oculta sob a superfície, em uma analogia nada sutil ao próprio universo encoberto a que o protagonista pertence, em uma época em que a palavra “gay” significava apenas “alegre”. A grande diversão nessa homenagem de Moore ao legado Lovecraftiano é acompanhar Black em busca de sua reportagem, peregrinando pelas cidades onde Lovecraft ambientou muitas de suas grandes histórias, se encontrando com os personagens chave dessas histórias, edição a edição, em uma romaria profana, que sabe-se lá como vai ser concluída. Aí, é ter paciência e torcer para que a Panini não demore muito a publicar o restante da série <coff, coff, coff PROMETHEA coff, coff, coff, coff...>.





E aí vem a pergunta: Dá pra ler Providence sem conhecer a obra de H.P. Lovecraft? Olha, até dá, mas devo avisar que MUITAS referências legais vão se perder, e com um trabalho assim fantástico, isso não é nada legal. Um desperdício, eu diria. Por isso, fizemos uma pequena relação das histórias de Lovecraft que o leitor teria que conhecer previamente para aproveitar ao máximo a mini série de Moore. Reitero que isso não é obrigatório e Providence ainda funciona como uma ótima história de mistério/terror por si só. Porém como se trata de uma mini série que é essencialmente referencial, como A Liga Extraordinária, outro grande título de Moore, muitos outros significados e leituras se revelam ao leitor atento que investir só mais um pouquinho de tempo pra ler alguma coisa do material de onde a HQ foi inspirada.







Não fiz uma varredura ampla como aquele gringo maluco que destrinchou o “Dossiê Negro” da Liga Extraordinária TODO, por exemplo. Em cada edição de Providence Moore passeia por um conto ou romance específico de Lovecraft, ou sejE, cada conto de Lovecraft é a espinha dorsal de uma edição, com a mitologia geral Lovecraftiana amarrando tudo. Claro que há muitas outras referências menores entre os diálogos, e não apenas de H. P. Lovecraft, mas não vamos passar um pente tão fino assim, amiguinhos. Nesse post vou indicar somente essas histórias chave, e quem se interessar em se aprofundar mais que fique à vontade. Os cata-piolhos que encontrarem alguma coisa que valha a menção e que porventura eu não tenha citado aqui, por favor, sintam-se à vontade para comentar lá embaixo!





Então arrumem um canto sombrio pra se acomodar para a leitura, preparem sua coletânea de contos de H. P. Lovecraft (Nesse link tem todos os contos citados no post) do lado do encadernado de Providence, entoem uma pequena oração para Yog-Sothoth, acendam os incensos certos, tracem os símbolos apropriados e vamos começar, ou sejam condenados para sempre...







PROVIDENCE #1


Na primeira edição, ainda em Nova York, Black localiza e entra em contato com um certo Dr. Alvarez, que lhe dá algumas pistas para seguir seu caminho. O conto “Vento Frio”, escrito em 1926 e publicado em 1928 na revista Tales of Magic and Mystery, é a história relacionada a este misterioso personagem, que no conto chama-se Dr. Muñoz, um médico que, alegando sofrer de uma rara doença, precisa manter-se resfriado a temperaturas muito baixas. No conto conheceremos um pouco mais do elusivo Dr. Muñoz e como ele ludibriou a morte...







PROVIDENCE #2


Seguindo a história, nessa edição vemos Black se relacionando com personagens como o detetive de polícia Thomas Malone e o comerciante de textos ocultistas Robert Suydam, ambos oriundos do conto “O Horror em Red Hook”, escrito em 1925 e publicado em 1927 na revista Weird Tales. Um mistério policial – onde vemos a xenofobia de Lovecraft vir à tona: o escritor morou por um tempo em Nova York e o grande volume de estrangeiros e imigrantes o incomodava – envolvendo cultos obscuros, sacrifícios de crianças e criaturas estranhas escondidas nos porões do bairro...








PROVIDENCE #3


Continuando a jornada de Black, chegamos a um estranho vilarejo portuário que não consta nos mapas, onde seus habitantes, bastante reservados, têm, em sua grande maioria, feições que se assemelham a peixes, e até mesmo a sapos... e o que são aqueles vultos nadando no mar a que Robert se refere como “focas”? Em “A Sombra de Innsmouth”, história escrita em 1931 e publicada em 1936, conheceremos mais detalhes a respeito deste desolado e malcheiroso vilarejo à beira mar, e os segredos pavorosos escondidos por detrás das portas e janelas fechadas...






PROVIDENCE #4


Fechando este primeiro encadernado nacional de Providence, Robert, no encalço das pistas de sua investigação, conhece a família Whateley. A origem dos Whateley é o conto “O Horror de Dunwich”, escrito em 1928 e publicado em 1929. A bizarra família é composta pelo velho patriarca, sua filha albina, Lavinia (Na HQ de Moore renomeada para “Leticia”), e seus dois filhos: Wilbur (na HQ é conhecido como Willard), um rapaz com feições de bode e uma estranha avidez por conhecimento oculto, e seu irmão gêmeo, que é invisível, e acreditem, talvez seja melhor não ver sua real aparência. Algumas coisas não podem ser esquecidas depois de vistas...






Ainda nesta edição, uma rápida referência ao conto "A Cor Que Caiu do Espaço", a história de invasão alienígena mais estranha, maligna e repugnante já escrita. Esse conto é de 1927, publicado no mesmo ano na revista Amazing Stories





BÔNUS:

Além das óbvias referências e homenagens ao próprio Lovecraft, consegui pescar mais algumas pequenas pérolas nessa primeira leitura de Providence, como uma menção a outro mestre do suspense e horror na literatura: Edgar Allan Poe.



Também há algumas menções ao Rei de Amarelo, livro de 1895, criação de Robert Chambers, uma das influências do próprio Lovecraft como escritor. Quem assistiu à primeira temporada de True Detective faz uma idéia do que vem a ser essa obra de horror cósmico pré-Lovecraft.

O rei de Amarelo

Os apêndices entre as edições, com textos diversos relacionados à trama, como o diário do protagonista, ou um panfleto de igreja, ou um tratado de ocultismo ajudam a imergir o leitor ainda mais na história. Ou pelo menos deveriam: em Providence os apêndices podem ser um tanto cansativos em alguns momentos. Os conteúdos extras que Moore costuma produzir para suas histórias já foram bem melhores, como os de Watchmen, ou O Dossiê Negro da Liga Extraordinária, muito mais interessantes e funcionais para a própria trama principal são OK. Mas entre esses textos, destaco a menção a O Livro dos Lobisomens, do inglês Sabine Baring-Gould, um tratado sobre licantropia publicado em 1889, do qual há uma breve menção, e recomendo a leitura. Afinal, nunca se sabe quando ser capacitado a identificar alguém que se transforme na lua cheia pode vir a ser conhecimento útil ;>).


Enfim, isso é só um ponto de partida para vocês terem uma mínima idéia do que se passa em Providence! Nessas primeiras quatro edições do encadernado, Moore mal arranhou a superfície do vasto cânone de Cthulhu e Cia, e estamos ansiosos por mais!



Quanto mais você se dispuser a chafurdar na bibliografia de Lovecraft, e também de seus colegas escritores, como Robert Bloch, Robert E. Howard, August Derleth e outros, mais e mais referências serão captadas, porque acreditem, se Moore não perdeu a mão, Providence está carregada de referências em suas páginas! A partir daí é você quem decide se vai se aventurar assim tão fundo nesses horrores inomináveis e blasfemos, ou se vai ficar só boiando na superfície mesmo, onde é mais seguro... ou não?



P.S.: Para quem sabe inglês e quiser uma relação enorme das referências contidas na HQ, se aventure nesse site!


quinta-feira, 4 de maio de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #006: “SÍNDROME”, de Cesar Bravo




Salve, seus alucinados!!



Demos uma breve parada nas resenhas pra dar aquela enchida de lingüiça que deixa a turminha feliz, porque Encheção de lingüiça na Zona Negativa é uma pausa pra ler um conto, e sempre de alto nível!




O alvo da vez é nosso chégas, o escritor César Bravo. O autor do excelente Ultra Carnem resenha completa aqui já era conhecido há bastante tempo na rede por ter lançado vários contos em algumas coletâneas. “Síndrome” é um de seus contos mais recentes, e que temos orgulho de publicar aqui, saído do forno! Deliciosamente insano e violento, - e os freaks leitores de HQs vão sentir uma pegada do "Crossed" de Garth Ennis nele -  o conto mostra a facilidade de Bravo para criar cenários extremamente perturbadores e situações sem saída ou qualquer esperança de uma resolução feliz. Otimistas, estejam  avisados!


Um livro infernal.



Então sem mais delongas, fiquem com essa pérola sangrenta do cancioneiro nacional, e até o próximo post!




Síndrome
César Bravo, 2017



Não sei ao certo como cheguei até aqui. Meu estômago está embrulhado, minha boca está seca e pastosa. Meus olhos não enxergam com clareza. Cada pedaço da vida se tornou tortuoso, permeado por perseguições, revolta e fúria. Não confio em ninguém, minhas costas doem, às vezes perco o controle da bexiga. Quando penso no futuro, vejo um poço sem fundo, um caminho sem luz, uma miséria sem volta.


A cidade cheirando à fuligem e lixo não parece capaz de me ajudar. Suas esquinas sequestram desesperados desabrigados; cães, gatos e ratos são o novo alimento das ruas. Os arranha-céus sorriem de minha insignificância, albergando os homens ricos que têm a triste (?) sorte de se manterem ilesos.


Como muitos, desde o início do que pareceu um quadro depressivo, estive em todos os consultórios médicos da cidade. Cardiovasculares, Neurologistas, Psiquiatras, Psicólogos. Frequentei todas as igrejas, templos e terreiros, usei os medicamentos que pude comprar, gastei meu estômago e meus joelhos no chão; exatamente como me orientaram a fazer. Meu desespero aumentou há dois meses, quando percebi que não era o único. 

Em meu trabalho, meu melhor amigo perdeu a capacidade de dormir. Esse foi o primeiro passo. Em seguida ele se tornou violento, por fim, em um surto da Síndrome, atacou nosso chefe e o enviou ao ambulatório, com a mandíbula quebrada em dois lugares. Não sendo um homem violento (não naquela época), eu preferi o que era certo: procurei ajuda.


Benzodiazepínicos, Clonazepam, Litium, Valium, Lexapro. 


Os medicamentos me levaram a uma espécie de torpor, onde o ontem e o hoje se misturavam, condenando o amanhã. Anestesiado como estava, perdi a confiança de meus amigos, perdi meu emprego — ainda sem imaginar que todos os meus colegas teriam um mesmo diagnóstico em poucos dias.


Ninguém sabe ao certo como a Síndrome começou a afetar a cidade toda — pelas notícias da TV, o mundo todo.


Pessoas se arrastam, as contas do estado estão no vermelho. A violência dá o tom da mudança. 


Semana passada, meu vizinho destruiu um carro de propagandas que o acordou antes do relógio. O “homem das pamonhas” tentou reagir, apanhando um bastão escondido sob um dos bancos. Meu vizinho tinha uma arma, não é difícil supor o resto da história.


Longe das ruas, as casas de repouso e presídios estão abarrotados de corpos confusos e instáveis. Quem tem dinheiro ocupa a primeira, o segundo é o hotel dos pobres. Estima-se que 32% da cidade esteja encarcerado, sob o domínio da Síndrome.


Surgiram várias hipóteses sobre o que parece ser um surto global de estresse e violência. Agrotóxicos, um novo vírus, vibriões; eu acredito na hipótese mais aceitável: a dificuldade em se adequar a uma sociedade fatigada pela pressão. Alguém sugeriu, em uma revista de pouca expressão, que pode ser culpa do alinhamento de alguns planetas, da regência de Saturno, e que uma dessas besteiras de algum modo afetou a maneira que as pessoas enxergam o mundo. Eu penso que só agora enxergamos a verdade — e ela existe em nós desde que o primeiro macaco falou.


As empresas e instituições seguem aos tropeços, com um quadro de funcionários cada vez menor; há fome e desemprego em todos os cantos. Exércitos igualmente adoecidos ocupam as ruas há meses, o consumo de drogas ilícitas superou o tabaco e o álcool.


Estamos em 2028. O sol brilha como um inferno suspenso nos ares, transpiramos o tempo todo, nossas casas não têm energia, a água tratada foi dividida por cotas.



Estou sentado em um praça aqui da cidade, respirando profundamente. A igreja destruída ainda rui à minha frente. Observo seis ou sete pessoas (é difícil contar à distância, meus olhos não enxergam muito bem) entrando em uma discussão. O motivo, não sei claramente, mas duvido que exista algum. A verdade é que todos querem um rosto para bater, uma carne para rasgar. Querem, de algum modo, transferirem parte da dor e agonia que sentem para outra pessoa.


Seguido do estado de apatia inicial, surge a histeria. É o que está acontecendo com aqueles caras. O motivo pode ser um olhar atravessado, uma sensação de perseguição, o rosto feliz de quem ainda não foi afetado pela Síndrome.


Todos estão furiosos.


Daqueles seis — seis não, sete (agora consigo enxergar) —, dois estão no chão. Suas cabeças são pisoteadas pelos outros cinco. Um dos agressores é uma menina, não deve ter mais de quinze anos. Mas ela tem saliva pelo queixo e uma corrente ensanguentada nas mãos. Ela bate contra o homem caído ao chão e rasga sua pele, o outro se levanta e foge. Um dos outros agressores, um homem com a farda da polícia, se afasta e sorri, ciente que um corpo em sete é um bom número nos últimos tempos. Mas ele não resiste, e logo se junta aos outros para golpear o homem que não conseguiu se levantar e correr. O infeliz ao chão não tem mais um rosto. Seu terno está rasgado e sujo de sangue, sua virilha, molhada de urina. Tem algo vazando pela parte de trás de sua cabeça.


Sinto um impulso repugnante de sorrir, e eu bem sei o que significa.


Quando você tem a Síndrome, quando sua vida perdeu o cheiro e a graça, tudo o que resta é a dor dos outros. Porque dói menos quando alguém sobre mais. Procuro em meus bolsos alguma medicação que nunca serviu para merda nenhuma. Antes, encontro minha pistola, presente do meu avô, que nunca a usou para nada melhor que encher uma gaveta. Eu resisto, mas então sinto uma dor aguda no canto direito da cabeça. Golpeio o ponto algumas vezes, sentindo que a dor só aumenta. Um silvo agudo toca e supera os gritos e gemidos da praça. Mas quando envolvo a arma com minhas mãos trêmulas, meu cérebro quase sorri, tudo vai embora, o mundo se cala.


Penso no policial, penso na garota com a corrente ensanguentada nas mãos, penso no homem tatuado que está ao lado, arqueado, recuperando o fôlego com as mãos apoiadas nos joelhos. Os outros não são interessantes, eles parecem satisfeitos com o espancamento e começam a se afastar. Mas os olhos dos três restantes ainda têm traços de sangue, hipervascularizados, isso sempre acontece quando a Síndrome te pega de jeito. Escondendo minha arma na cintura, assovio para eles. Meu cérebro sorri, minha apatia me deixa em paz por alguns segundos. Sei do que preciso agora. Uma canção antiga começa a tocar dentro de mim. Pode ser One in A Million, do Guns and Roses. Penso na minha esposa. Minha pequena também tem a Síndrome, ela está trancada no porão da minha casa há duas semanas, fui obrigado a isso quando ela tentou me esfaquear.


“Depressão”, eles disseram.


“Estresse”, eles disseram.


“Ansiedade”, eles disseram.


Mas eu sei o que a Síndrome significa. Apatia, ódio, involução, extinção. Imagino que a humanidade tenha seguido a direção errada, que nossas mentes estejam poupando a terra mãe de nossa influência cancerígena. E nós sabemos o que deve ser corrigido, chamem de empatia se quiserem. Mas a dor é mais forte; o ímpeto, a vontade de prevalecer e ser mais forte.


Eles estão vindo, e é como se a dor e a ansiedade fossem substituídas por serotonina. De repente minha arma torna-se um Deus. E eu, seu anjo vingador. Hora de executar uma decisão, penso. E me preparo para matar ou ser morto, voltando a essência selvagem da qual fomos feitos. A Síndrome vence outra vez. Sem alarde, sem resistência, sem diagnósticos precisos ou curas possíveis. Seus únicos analgésicos são o ódio e o suicídio, e consigo ser grato por não ter vocação à morte.


As armas disparam, a corrente voa pelos ares, alguém perde meia dúzia de dentes.


No fim, não importa o resultado final.


Estamos sorrindo.