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segunda-feira, 3 de abril de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #005 - "A ÚLTIMA PERGUNTA", de Isaac Asimov





Salve pessoinhas!

Sim, estamos com um "Encheção de Linguiça..." essa semana, mas dessa vez pra abrir o mês Asimov, onde vamos falar de algumas ótimas obras do Bom Doutor. O conto de hoje é o grandioso "A Última Pergunta".

"Senhoras e senhores, desculpem interromper o silêncio da viagem de vocês, mas hoje tenho uma novidade, bem baratinho, só aqui na mão do amigo!"


Publicado originalmente em 1956, esse conto pode ser encontrado em compilações como "Nove Amanhãs" (1959), "Sonhos de Robô" (1969) e "O Melhor de Isaac Asimov" (1973). É um de vários contos estrelando supermegahipercomputador chamado Multivac.  

Considerado um dos melhores e mais ambiciosos contos do autor, "A Última Pergunta" é um instigante misto de religião, ciência e filosofia, com um final surpreendente.

Então, sem mais encheção de linguiça, vamos ao conto!






A ÚLTIMA PERGUNTA
 Isaac Asimov, 1956


 

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma...


Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.

A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida.

"É incrível quando você pára pra pensar…," disse Adell. Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. "Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente."

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios. "Eternamente não," ele disse.

"Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert."

"Isso não é eternamente."

"Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?"

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida. "Dez bilhões de anos não é a eternidade"

"Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?"

"O carvão e o urânio também iriam."

"Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac."

"Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso"

"Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós," disse Adell nervosamente, "Ele fez tudo certo".

"E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?" Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. "E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol"

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, "Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?"

"Não, não estou pensando."

"É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra."

"Entendi," disse Adell. "Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado."

"Pode estar certo que sim" murmurou Lupov. "Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo."

"Eu sei tudo sobre a entropia," disse Adell, mantendo a sua dignidade.

"Duvido que saiba."

"Eu sei tanto quanto você."

"Então você sabe que um dia tudo terá um fim."

"Está certo. E quem disse que não terá?"

"Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`."

Era a vez de Adell contrariar. "Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia," ele disse.

"Nunca."

"Por que não? Algum dia."

"Nunca"

"Pergunte a Multivac."

"Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito."

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude mesmo depois de sua morte?

Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam.

E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: "DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

* * *

Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

"Este é X-23," disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando, "Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!"

"Quietas, crianças." Disse Jerrodine asperamente. "Você tem certeza Jerrodd?"

"E por que não teria?" Perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras "ac" na extremidade de Microvac significavam "automatic computer" em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor. "Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra."

"Por que, meu deus?" inquiriu Jerrodd. "Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado." E, depois de uma pausa reflexiva, "No ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar."

"Eu sei, eu sei", disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente, "Nosso Microvac é o melhor de todos."

"Eu também acho," disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.
"Tantas estrelas, tantos planetas," pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. "Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora."

"Não para sempre," disse Jerrodd, com um sorriso. "A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar."

"O que é entropia, papai?" Jerrodette II perguntou, interessada.

"Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?"

"Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?"

"As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas."

Jerrodette I se prontificou a responder. "Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem."

"Olha o que você fez," sussurrou Jerrodine, exasperada.

"Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?" Jerrodd sussurrou de volta.

"Pergunte ao Microvac," propôs Jerrodette I. "Pergunte a ele como acender as estrelas de novo."

"Vá em frente," disse Jerrodine. "Ele vai aquietá-las." (Jerrodette II já estava começando a chorar.)

Jerrodd se mostrou incomodado. "Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar."

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, "Imprima a resposta".

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, "Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar."

Jerrodine disse, "E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar."

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

* * *

VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse, "Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão."

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. "Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos."

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

"Ainda assim," disse VJ-23X, "hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico."

"Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco."

VJ-23X suspirou. "O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais."

"Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos…"

VJ-23X interrompeu. "Devemos agradecer à imortalidade por isso."

"Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas."

"No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida."

"Nem um pouco." Respondeu MQ-17J, emendando. "Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?"
"Duzentos e vinte e três, e você?"

"Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?

VJ-23X disse, "Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra."

"Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano."

"Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas."

"Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão."

"Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar."

"Ou a partir do calor dissipado?" perguntou MQ-17J, sarcástico.

"Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico."

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.
"Parece-me uma boa idéia," ele disse. "É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia."

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.

De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, "Poderá um dia a entropia ser revertida?"

VJ-23X disse, surpreso, "Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta."

"Por que não?"

"Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas."

"Existem árvores no seu mundo?" Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X disse, "Viu!"

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.

* * *

A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

"Sou Zee Prime, e você?"

"Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?"

"Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?"

"Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?"

"Verdade, já que todas as Galáxias são iguais."

"Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente."

Zee Prime disse, "Em qual delas?"

"Não posso responder. O AC Universal deve saber."

"Vamos perguntar? Estou curioso."

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: "AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?"

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

"Como pode o AC Universal ser apenas isso?" Zee Prime perguntou.

"A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções."

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.

Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. "ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM."

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.

"Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, "E alguma dessas é a estrela original do homem?"

O AC Universal disse, "A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA."

"Os homens que lá viviam morreram?" perguntou Zee Prime, sem pensar.

"UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO."

"Sim, é claro," disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, "O que houve?"

"As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta."

"Todas devem morrer, não?"

"Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles."

"Vai levar bilhões de anos."

"Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?"

Dee Sub Wun disse perplexo, "Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!"

E o AC Universal respondeu: "AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.

Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

* * *

O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.
"O Universo está morrendo."

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse, "Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos."

"Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo."

"Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico."

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

"AC Cósmico," disse o Homem, "como é possível reverter a entropia?"

O AC Cósmico disse, "AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

O Homem disse, "Colete dados adicionais."

O AC Cósmico disse, "EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDECESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES."

"Haverá um dia," disse o Homem, "em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?"

O AC Cósmico disse, "NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS."

"Você vai continuar trabalhando nisso?"

"VOU."

O Homem disse, "Nós iremos aguardar."

* * *

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.

Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.

A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse, "AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?"

O AC disse, "AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.

* * *

A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.

No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.

Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.

Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

E AC disse:

"FAÇA-SE A LUZ!"

E fez-se a luz.


 

terça-feira, 28 de março de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #006 - "MATÉRIA CINZENTA", de Stephen King







Salve galera! Estamos de volta, enrolando com estilo enquanto fazemos os posts novos no capricho, mas sempre deixando algum conto bacana pra vocês não entrarem em depressão por sentirem nossa falta ;>).


Pra bancar o polemicão, escolhi o conto de hoje inspirado na situação da indústria alimentícia pela qual estamos passando. Nós sempre comemos carne imprópria até pra cães, e não tem novidade nenhuma nisso, infelizmente. Mas a Lei de Murphy parece agir com mais intensidade em nosso território nacional, e SEMPRE pode piorar ainda mais, como temos visto nos últimos dias.


Aí você pensa “Ótimo momento pra virar vegano!”. Bem, desculpem por mijar em suas limonadas, ou mais especificamente, em suas cervejas, mas esse conto do Stephen King mostra que não dá pra confiar nem no malte, no lúpulo e na cevada! E olha que a cerveja dos americanos nem leva milho e arroz transgênicos e deu ruim, deu muito ruim... Mas como eu disse ali em cima, pairamos sob uma falha global eletromagnética que intensifica as atividades da Lei de Murphy, por isso:
Tudo.
SEMPRE.
Pode.
Piorar!

“Matéria Cinzenta” é um dos contos que integra a antologia “Sombras da Noite”, publicado em 1978, e vários de seus 20 contos já foram adaptados para a TV ou cinema. É um dos melhores livros de Stephen King, com um aproveitamento alto de boas histórias!
Desse livro saíram algumas pérolas do arrepio, como “Último Turno”, “As Crianças do Milharal”, “Campo de Batalha”, “Ex-Fumantes LTDA”, “A Máquina de Passar Roupa”, “O Bicho Papão”.... A Zona indica fortemente, mesmo para os não fãs de King, como eu. Para amantes de suspense e horror!
 


“Matéria Cinzenta” tem um desfecho pessimista e em escala imensa, à moda Lovecraft, possui uma “História contada dentro da história” (uma participação especial do palhaço Pennywise, de “It”, em sua forma real, pelo que eu conheço da obra de King), numa demonstração de maestria narrativa, e sua crítica ao estilo de vida sedentário do americano médio, estilo esse que com o passar dos anos foi exportado e incorporado à maior parte do mundo. Essa é a criatura do conto, na verdade. O conto termina em um clímax subentendido, mas se vocês estão realmente curiosos em saber o que aconteceu após o final, é só olhar em volta rs.


Ou então, se vocês estiverem passando pelo processo de cissiparidade nesse exato momento, e não é o melhor momento pra sentar e ler, fiquem com o link do conto narrado no youtube, e continuem seus planos de infestação mundial sem perder essa história arrepiante....





Então abram uma cerveja bem gelada, e tentem não pensar no gosto estranho enquanto lêem ou ouvem a “Matéria Cinzenta”, e até o próximo post, sem enrolação hehehe.







MATÉRIA CINZENTA
 Stephen King, 1978


Durante toda a semana vinham prevendo uma tempestade do norte e ela chegou por volta de quinta-feira, uma nevasca violenta, com ventos uivantes, que deixou uma camada de dez centímetros de neve às quatro da tarde e não deu sinal de arrefecer. Os quatro ou cinco de costume estavam reunidos em torno do Confiável no Coruja Noturna de Henry, que é o único estabelecimento para cá de Bangor que fica aberto dia e noite.
Henry não faz grandes negócios ― o movimento, em grande parte, resulta de vender cerveja e vinho aos universitários ―, mas ganha o suficiente para viver bem e o bar é um bom lugar para nós, velhos aposentados, nos reunirmos e falarmos de quem morreu e de como o mundo está indo para o brejo.
Nessa tarde, Henry estava ao balcão; Bill Pelham, Bertie Connors, Carl Littlefield e eu estávamos perto do fogão. Lá fora, nenhum carro se movimentava na Ohio Street e os tratores de limpar neve trabalhavam como loucos. O vento soprava forte, formando montinhos de neve que pareciam o dorso de um dinossauro.
Henry só tivera três fregueses a tarde inteira ― isto é, sem contar o cego Eddie. Eddie tem cerca de setenta anos e não é totalmente cego. Mas vive esbarrando nas coisas.
Aparece uma ou duas vezes por semana, enfia um pão embaixo do braço e sai com uma expressão no rosto que parece dizer: aí está, seus estúpidos filhos da puta, enganeis outra vez.
Certa feita, Bertie perguntou a Henry por que motivo não colocava um ponto final naquilo.
― Vou-lhe contar ― respondeu Henry. ― Alguns anos atrás, a Força Aérea queria vinte milhões de dólares para construir o protótipo de um avião que havia projetado. Bem, custou-lhe setenta e cinco milhões e não conseguiu voar. Isso aconteceu há dez anos, quando o cego Eddie e eu éramos consideravelmente mais moços, e eu votei na mulher que apoiou a lei em favor da construção do avião. Eddie votou contra ela. Desde então, eu pago o pão dele.
Bertie pareceu não entender muito bem a resposta, mas recostou-se na cadeira para refletir a respeito.
Agora, a porta tornou a se abrir, deixando entrar uma lufada do gelado e cinzento lá de fora, e um garoto entrou, batendo os pés no chão para tirar a neve das botas. Identifiquei-o num segundo. Era o filho de Richie Grenadine e parecia ter acabado de beijar a extremidade errada de um bebe. Seu pomo-de-adão subia e descia sem parar e o rosto estava da cor de oleado velho e desbotado.
― Sr. Parmalee ― disse ele a Henry, os olhos girando na cabeça como rolamentos de esferas. ― O senhor tem que vir. Tem que pegar a cerveja e vir comigo. Não posso voltar lá fora. Estou com medo.
― Vamos com calma ― disse Henry, tirando o avental branco de açougueiro e dando a volta ao balcão. ― O que há? Seu pai tomou um pileque?
Quando ele disse aquilo, dei-me conta de que Richie não aparecia há algum tempo.
Geralmente, vinha uma vez por dia apanhar uma caixa da cerveja que fosse mais barata no momento ― um homenzarrão gordo, com bochechas como bunda de porco e braços como presuntos. Richie sempre foi um porco em matéria de cerveja, mas sabia controlar-se quando trabalhava na serraria em Clifton. Então, algo aconteceu ― uma empilhadeira funcionou mal, ou o erro foi do próprio Richie ― e ele ficou desempregado, na maior boa vida, tendo recebido uma indenização da serraria. Algum problema com suas costas. De qualquer forma, engordou como um capado. Não aparecera ultimamente, embora eu de vez em quando visse o garoto vir buscar sua caixa diária de cerveja. Henry vendia a cerveja, pois sabia que o menino apenas cumpria as ordens do pai.
― Ele tem estado de pileque ― respondeu o garoto, agora. ― Mas não é esse o problema. É... é... oh, Deus, é horrível!
Henry percebeu que ia chorar, de modo que se apressou em dizer:
― Carl, quer cuidar das coisas aqui por um minuto?
― Claro.
― Agora, Timmy, venha comigo ao depósito e conte-me o que há.
Foi na frente do menino e Carl contornou o balcão, sentando-se no tamborete de Henry.
Ninguém disse nada durante bastante tempo. Podíamos escutá-los lá nos fundos, a voz grave e lenta de Henry e as respostas agudas de Timmy Grenadine, falando muito depressa. Então, o garoto começou a chorar e Bill Pelham pigarreou, começando a encher o cachimbo.
― Faz uns dois meses que não vejo Richie ― comentei.
Bill resmungou:
― Não perdeu nada com isso.
― Ele esteve aqui... oh, perto do final de outubro ― disse Carl. ― Na época da Noite das Bruxas. Comprou uma caixa de cerveja Sclitz. Estava enorme de gordo.
Não havia muito mais a dizer. O menino continuava a chorar, mas não parava de falar.
Lá fora, o vento ainda uivava e o rádio anunciou que teríamos mais quinze centímetros de neve pela manhã. Estávamos em meados de janeiro e tentei adivinhar se alguém vira Richie desde outubro isto é, excetuando o menino.
A conversa prosseguiu durante bastante tempo, mas, afinal, Henry e o garoto voltaram.
O menino tirara o casaco, mas Henry vestira o seu. O garoto respirava fundo, como a gente costuma fazer quando o pior já passou, mas tinha os olhos vermelhos e logo que lançava um olhar a alguém, tornava a baixá-los para o chão.
Henry parecia preocupado.
― Acho que vou mandar o Timmy, aqui, lá para cima e mandar minha mulher preparar um queijo quente ou coisa assim. Talvez uns dois de vocês queiram ir comigo à casa de Richie. Timmy diz que ele quer mais cerveja e já me deu o dinheiro.
Tentou sorrir, mas o resultado foi ruim e ele desistiu logo.
― Claro ― disse Bertie. ― Que marca de cerveja? Eu vou buscar.
― Pegue Harrow's Supreme ― respondeu Henry. ― Ainda temos algumas caixas a preço antigo.
Levantei-me também. Teríamos que ser Bertie e eu. A artrite de Carl piorava muito em dias como aquele e Billy Pelham praticamente perdeu o uso do braço direito.
Bertie pegou quatro embalagens de seis latas de Harrow's e eu as arrumei numa caixa, enquanto Henry subiu ao apartamento do sobrado para levar o garoto.
Bem, ele acertou tudo com a patroa e tornou a descer, olhando por cima do ombro para certificar-se de que a porta do apartamento estava fechada.
Billy perguntou, quase explodindo de curiosidade:
― O que há? Richie anda espancando o garoto?
― Não ― replicou Henry. ― Prefiro não dizer nada, por enquanto. Poderia parecer maluquice. Mesmo assim, vou-lhes mostrar uma. coisa: o dinheiro que Timmy trouxe para pagar a cerveja.
Tirou quatro notas de um dólar do bolso, segurando-as por um dos cantos. Não o censurei. O dinheiro estava coberto por uma coisa cinzenta e pegajosa, que parecia a espuma que se forma nos vidros de conservas estragadas. Henry colocou as botas sobre o balcão e, com um sorriso esquisito, disse a Carl:
― Não deixe ninguém tocar nelas. Não se metade do que o garoto disse for verdade!
E foi até a pia do balcão de carnes lavar as mãos.
Vesti o casaco e o cachecol, abotoando-me bem. Não adiantava pegar um carro; Richie morava num prédio de apartamentos na Curve Street, que é tão íngreme quanto a lei permite, de modo que é o último lugar onde os tratores de neve iriam trabalhar.
Quando estávamos saindo, Bill Pelham disse:
― Tomem cuidado.
Henry limitou-se a assentir com a cabeça e colocamos a cerveja no carrinho de entregas que ele mantém junto à porta. E lá fomos nós.
O vento nos atingiu como uma lâmina de serra e puxei o cachecol para proteger as orelhas. Paramos um instante à porta, enquanto Bertie calçava as luvas. Tinha uma careta de dor no rosto e bem sei como se sentia. Os mais jovens podem esquiar o dia inteiro e andar naqueles malditos carrinhos de neve, que zumbem como vespas, até tarde da noite; mas quando a gente chega aos setenta anos sem trocar o óleo, sente o vento nordeste no coração.
― Não quero assustar vocês ― disse Henry, ainda com aquele esquisito sorriso de repulsa nos lábios. ― Mesmo assim, vou-lhes mostrar isto. E, enquanto andamos até lá, vou contar o que o garoto me disse... porque quero que vocês saibam, entendem?
E tirou do bolso do casaco um revólver calibre 45 ― a arma que ele sempre mantinha carregada e pronta sob o balcão desde que começara a funcionar vinte e quatro horas por dia, nos idos de 1958. Não sei onde ele arranjou o revólver, mas sei que uma vez exibiu-o a um assaltante e o sujeito deu meia-volta depressa, tratando de fugir pela porta. Henry era um cara frio, no duro. Vi-o jogar na rua um universitário que entrou na loja e o aborreceu com a estória de descontar um cheque. O rapaz saiu andando como se estivesse com a bunda fora do lugar e quisesse ir ao banheiro.
Bem, só lhes conto isso porque Henry queria que Bertie e eu soubéssemos que falava sério. E nós sabíamos.
Portanto, começamos a avançar contra o vento dobrados como mulheres lavando o chão, Henry empurrando o carrinho e contando-nos o que o garoto lhe dissera. O vento tentava levar as palavras antes que pudéssemos escutá-las, mas conseguimos captara maior parte ― mais do que desejávamos. Fiquei muito satisfeito por saber que Henry levava o trabuco no bolso do casaco.
O garoto disse que deve ter sido a cerveja ― todo mundo encontra uma lata estragada de vez em quando. Choca, ou fedorenta, ou esverdeada, ou pestilenta como as cuecas de um irlandês. Certa vez, um sujeito me disse que basta um furinho na lata para permitir a entrada das bactérias que causam essas coisas estranhas. O buraco pode ser tão pequeno que a cerveja nem chega a sair, mas as bactérias conseguem entrar. E cerveja é um ótimo alimento para os tais bichinhos.
De qualquer maneira, o garoto contou que Richie levou para casa uma caixa de Golden Light, como sempre costumava fazer, naquela noite de outubro. Sentou-se para dar cabo da cerveja enquanto Timmy fazia os deveres de casa que trouxera da escola.
Timmy já ia deitar-se quando escutou Richie dizer:
― Jesus Cristo, isto está ruim!
E Timmy perguntou:
― O que, Papai?
― Esta cerveja ― respondeu Richie. ― Deus, foi o pior gosto que já tive na boca!
A maioria das pessoas ficaria admirada por Richie ter bebido a cerveja, já que tinha um gosto tão ruim, mas acontece que a maioria das pessoas nunca viu Richie Grenadine atacar uma lata de cerveja. Uma tarde, estive em Wally's Spa e vi Richie ganhar a aposta mais estranha. Apostou com um sujeito que seria capaz de beber vinte e dois copos pequenos de cerveja em um minuto. Nenhum dos locais topou a aposta, mas um vendedor de Montpellier colocou sobre o balcão uma nota de vinte dólares e Richie cobriu a aposta. Bebeu todos os copos com sete segundos de sobra ― embora mal conseguisse ficar em pé quando saiu. Portanto, calculo que a maior parte daquela lata de cerveja já estivesse no estômago de Richie antes que seu cérebro conseguisse dar o alarme.
― Vou vomitar ― disse Richie ao menino. ― Cuidado!
Mas quando chegou ao banheiro já tinha botado tudo para fora e ele deu o caso por encerrado. O menino disse que cheirou a lata e teve a impressão de que havia algum bicho morto lá dentro. Havia um pouco de espuma cinzenta na tampa.
Dois dias depois, o garoto voltou da escola e encontrou Richie sentado diante da televisão, assistindo às novelas da tarde, com todas as cortinas do apartamento fechadas.
― O que há? ― indagou Timmy, pois Richie nunca costumava chegarem casa antes das nove da noite.
― Estou vendo a televisão ― replicou Richie. ― Não tive vontade de sair hoje.
Timmy acendeu a lâmpada sobre a pia e Richie berrou:
― Apague essa maldita luz!
Timmy obedeceu, sem perguntar como iria fazer os deveres de casa no escuro. Quando Richie fica irritado, a gente não lhe faz perguntas.
― E vá comprar uma caixa de cerveja ― acrescentou Richie. ― O dinheiro está em cima da mesa.
Quando o garoto voltou com a cerveja, o pai ainda estava sentado no escuro; só que lá fora também já estava escuro. E a televisão desligada. O menino começou a sentir medo ― bem, quem não sentiria? Nada senão um apartamento escuro e o pai sentado a um canto, como um monte de carne inanimada.
Portanto, Timmy colocou a cerveja em cima da mesa, sabendo que Richie não tomava cerveja muito gelada porque lhe provocava pontadas na testa, e quando se aproximou do pai começou a notar uma espécie de cheiro podre, como queijo velho que alguém deixou fora da geladeira durante o fim de semana. Todavia, não se preocupou muito, porque o pai nunca foi o que se pudesse chamar de primor de higiene. Em vez disso, foi para seu quarto, fechou a porta e começou a fazer os deveres de casa. Depois de algum tempo, escutou a televisão voltar a funcionar e o barulho de Richie abrindo a primeira lata de cerveja daquela noite.
E foi assim que as coisas correram durante cerca de duas semanas. O menino acordava de manhã, ia para a escola e, quando voltava para casa, Richie estava diante da televisão e o dinheiro da cerveja em cima da mesa.
O apartamento cheirava cada vez mais a azedo. Richie se recusava a abrir as cortinas e, por volta de meados de novembro, proibiu Timmy de estudar no quarto, alegando que não suportava a luz que saía por baixo da porta. Assim sendo, Timmy passou a estudar na casa de um colega, após levar a cerveja para o pai.
Então, certo dia Timmy voltou da escola ― às quatro horas, quando já estava quase anoitecendo no inverno ― e Richie disse:
― Acenda a luz.
O garoto acendeu a luz sobre a pia e diabos se Richie não estava todo enrolado num cobertor.
― Veja ― disse Richie.
E estendeu uma das mãos para fora do cobertor. Só que não era uma mão. Uma coisa cinzenta, foi tudo que o menino conseguiu dizer a Henry. Não parecia uma mão. Apenas uma massa informe cinzenta.
Bem, Timmy Grenadine ficou assustado de verde. Perguntou:
― Papai, o que está acontecendo com você?
E Richie respondeu:
― Não sei. Mas não dói. É até... meio agradável.
Então, Timmy disse:
― Vou chamar o Dr. Westphail.
E o cobertor começou a tremer todo, como se alguma coisa horrível tremesse ― toda ― por baixo dele. Richie replicou:
― Não se atreva. Se fizer isso, encosto em você e vai acabar ficando igual a mim.
E baixou o cobertor por um instante, deixando a cabeça à mostra.
A essa altura, tínhamos chegado à esquina de Harlow e Curve Street; eu estava ainda mais frio que a temperatura marcada no termômetro de propaganda da Crush ria loja de Henry quando saíamos. Ninguém deseja acreditar em tais coisas, mas, mesmo assim, existe muita coisa esquisita neste mundo.
Conheci um sujeito chamado George Kelso, que trabalhava para o Departamento de Obras Públicas de Bangor. Passou quinze anos consertando encanamentos de água, emendando fios elétricos e assim por diante; de repente, a menos de dois anos de completar o tempo de aposentadoria, pediu demissão. Frank Haldeman, que o conhecia, disse que George desceu para uma tubulação de esgoto na Essex Street, rindo e pilheriando como sempre, e tomou a subir quinze minutos depois com o cabelo branco como neve e os olhos esbugalhados como se tivesse espiado pela janela do inferno. Foi diretamente à garagem do Departamento de Obras Públicas, bateu o cartão de ponto, correu à Wally's Spa e começou a beber. Morreu dois anos depois, por causa da bebida.
Frank contou que tentara conversar com ele a respeito e que George disse alguma coisa em certa ocasião, quando estava completamente embriagado. George virou-se no tamborete do bar e perguntou a Frank Haldeman se este já tinha visto uma aranha grande como um cão de bom tamanho, sentada no centro de uma teia cheia de gatinhos e outros pequenos animais presos nos fios de seda. Bem, que poderia Frank responder?
Não estou querendo dizer que isto seja verdade, mas afirmo que existem coisas pelos cantos deste mundo capazes de enlouquecer qualquer pessoa que as veja.
Portanto, ficamos parados na esquina durante um minuto, a despeito do vento que uivava na rua.
― O que viu o garoto? ― indagou Bertie.
― Ele disse que ainda conseguia ver o pai ― respondeu Henry. ― Mas Richie parecia coberto de geléia cinzenta... e estava todo amassado. Timmy disse que as roupas penetravam no corpo do pai, dando a impressão de se fundirem com a carne.
― Santo Deus! ― exclamou Bertie.
― Então, Richie tornou a cobrir-se e começou a berrar para que o menino apagasse a luz.
― Como se fosse um fungo ― disse eu.
― Sim ― concordou Henry. ― Mais ou menos isso.
― Fique com o revólver à mão ― aconselhou Bertie.
― Sim, acho melhor.
E, com isso, começamos a subir a ladeira de Curve Street.
O prédio onde ficava o apartamento de Richie Grenadine estava situado quase no topo da ladeira, um daqueles enormes monstros em estilo victoriano que foram construídos pelos magnatas da madeira na virada do século. Atualmente, quase todos eles estão transformados em casas de cômodos, divididas em pequenos apartamentos. Quando Bertie recuperou o fôlego, informou que Richie morava no terceiro andar, abaixo da empena superior que se projetava do telhado como um supercílio. Aproveitei a oportunidade para perguntar a Henry o que acontecera ao menino depois daquilo.
Na terceira semana de novembro, o garoto voltou para casa e descobriu que Richie fora além de fechar as cortinas: pregara cobertores em todas as janelas do apartamento. O fedor piorava ainda mais ― uma espécie de cheiro de mofo, como o produzido por frutas postas a fermentar com lêvedo.
Cerca de uma semana depois disso, Richie passou a mandar o filho esquentar a cerveja no fogão. Podem imaginar tal coisa? O garoto sozinho naquele apartamento, com o pai se transformando em bem, em alguma coisa... esquentando cerveja para ele e sendo obrigado a escutá-lo beber com um barulho horrível, como um velho desdentado tomando sopa podem imaginar?
E assim correram as coisas até aquele dia, quando as aulas do menino terminaram mais cedo por causa da nevasca.
― Timmy contou que foi direto para casa ― disse-nos Henry. ― Não há lâmpada no corredor ― o garoto alega que o pai deve ter saído às escondidas do apartamento, numa noite dessas, e quebrado a lâmpada ― de modo que ele foi obrigado a tatear até encontrar a porta.
― Então, escutou alguma coisa se movimentando lá dentro e, de repente, veio-lhe à mente o fato de não saber o que Richie faz o dia inteiro, uma semana após outra. Há quase um mês ele não via o pai se mover da cadeira e um homem precisa dormir e ir ao banheiro de vez em quando.
― Existe um olho-mágico bem no centro da porta, ou melhor, uma espécie de portinhola, que tinha um fecho por dentro. Mas o fecho está quebrado desde que eles moram lá.
Portanto, o garoto se esgueirou até a porta e entreabriu a portinhola com o dedo, a fim de espiar para o interior.
A essa altura, estávamos no pé da escada e a casa se erguia acima de nós como uma enorme carranca, as janelas do terceiro andar fazendo as vezes de olhos. Olhei para cima e, realmente, as duas janelas estavam negras como piche. Como se alguém as tivesse tapado com cobertores ou pintado as vidraças de preto.
― Levou algum tempo até que os olhos de Timmy se acostumassem à escuridão. Então, ele viu uma grande massa disforme cinzenta, em nada semelhante a um homem, rastejando pelo chão e deixando atrás de si um rastro cinzento e pegajoso. Então, aquela coisa esticou um braço ― ou algo parecido com um braço ― e retirou uma das tábuas da parede. E tirou um gato de dentro do buraco.
Henry fez uma pausa. Bertie batia as mãos uma na outra e fazia um frio dos diabos ali na rua, mas nenhum de nós ainda estava pronto para subir.
― Um gato morto ― disse Henry. ― Putrefacto. Timmy disse que o animal parecia todo duro e inchado... e coberto de vermes brancos...
― Pare ― disse Bertie. ― Pelo amor de Deus.
― Então, Richie comeu o gato.
Tentei engolir e senti uma coisa pegajosa na garganta.
― Foi então que Timmy fechou a portinhola ― concluiu Henry em voz baixa. ― E fugiu.
― Acho que não conseguirei subir ― declarou Bertie.
Henry ficou calado, limitando-se a olhar de Bertie para mim e vice-versa.
― Acho melhor subirmos ― disse eu. ― Trouxemos a cerveja de Richie.
Bertie não protestou, de modo que galgamos a escada e passamos pela porta do vestíbulo. Senti imediatamente o cheiro.
Conhecem o cheiro de uma fábrica de cidra no verão? É impossível eliminar o cheiro das maçãs, mas no outono não é tão ruim, porque o odor é bastante forte e penetrante para entupir o nariz da gente. Mas no verão, apenas fede. Era um cheiro assim, só que ainda pior.
Havia uma lâmpada no corredor do térreo, fraca e amarela, coberta por um globo fosco e produzindo uma luz pálida como creme de leite. E os degraus subiam para as sombras.
Henry parou o carrinho e enquanto ele retirava a caixa de cerveja eu apertei o interruptor junto à escada, que controlava a lâmpada do andar superior. Mas, como dissera o menino, a lâmpada estava quebrada.
Bertie disse com voz trêmula:
― Eu levo a cerveja. Pegue o revólver.
Henry não discutiu. Entregou a caixa a Bernie e começamos a subir. Henry na frente, depois eu, finalmente Bertie carregando a caixa. Quando chegamos ao patamar de cima, o cheiro estava muito pior. Fedor de maçãs podres, fermentadas, e um odor ainda mais fétido.
Quando eu morava em Levant, tive um cachorro ― chamava-se Rex ―, um bom cão, mas não muito esperto em relação a automóveis. Uma tarde, quando eu estava no trabalho, ele foi atropelado e se arrastou para baixo da casa, onde morreu. Meu Deus, que fedor!
Afinal, fui obrigado a rastejar até lá e retirá-lo com uma vara. Aquele outro cheiro era igual: pútrido, cheio de moscas, imundo.
Até então, eu pensava que talvez fosse algum tipo de pilhéria, mas agora percebi que não era.
― Cristo! Por que os vizinhos não chamam Harry? ― perguntei.
― Que vizinhos? ― retrucou Henry, exibindo outra vez aquele sorriso esquisito.
Olhei em volta e percebi que o corredor estava empoeirado, com ar de abandonado, e que as portas dos três apartamentos naquele andar se achavam fechadas e trancadas com cadeados.
― Quem é o dono da casa? ― perguntou Bertie, descansando a caixa na extremidade do corrimão e recobrando o fôlego. ― Gaiteau? Espantame que não tenha expulsado Richie daqui.
Quem subiria até lá para expulsá-lo? ― quis saber Henry. ― Você?
Bertie ficou calado.
Afinal, começamos a subir o lance seguinte, cujos degraus eram ainda mais estreitos e íngremes que o anterior. Estava ficando mais quente, também. Parecia que todos os radiadores do local silvavam e estalavam. O cheiro era terrível. Comecei a sentir-me como se alguém me remexesse as tripas com uma vara.
Lá em cima, um pequeno corredor e uma porta com uma portinhola à guisa de olhomágico.
Bertie emitiu um grito abafado e sussurrou:
― Vejam no que estamos pisando!
Olhei para o chão e vi toda aquela gosma, formando pequenas poças. Parecia ter existido um tapete, mas aquela matéria cinzenta o devorara.
Henry andou até a porta e fomos atrás dele. Não sei quanto a Bertie, mas eu tremia da cabeça aos pés. Henry, porém, não hesitou: ergueu o revólver e bateu com a coronha na porta.
― Richie? ― chamou ele; embora pálido, sua voz não dava sinais de medo. ― Aqui é Henry Parmalee, do Coruja Noturna. Trouxe sua cerveja.
Durante um minuto, talvez, não houve resposta. Então, uma voz perguntou:
― Onde está Timmy? Onde está meu filho?
Quase fugi, então. Aquela voz não era humana. Era esquisita, baixa e borbulhante, como alguém falando através de um bocado de sebo.
― Está na minha loja, fazendo uma refeição decente ― respondeu Henry. ― O garoto está magro como um gato de rua, Richie.
Nada durante algum tempo. Então, um horrível barulho molhado, como um homem de botas de borracha andando num atoleiro. Depois, aquela voz podre falou do outro lado da porta.
― Abra a porta e empurre a cerveja para dentro ― disse ela. ― Só que você vai ter que puxar o anel do trinco, primeiro. Eu não posso.
― Num instante ― replicou Henry. ― Como está você, Richie?
― Não interessa ― respondeu a voz, horrivelmente ansiosa. ― Empurre a cerveja e vá embora!
― Já não são só gatos mortos, hem? ― disse Henry, parecendo triste.
Já não segurava o revólver pelo cano, mas empunhava-o pela coronha, pronto para atirar.
Então, num relance, fiz a associação mental que Henry já fizera, talvez até mesmo enquanto Timmy relatava o caso. O cheiro de putrefação dobrou em minhas narinas quando estabeleci a ligação. Durante as últimas três semanas, duas garotas e um velho pau-d'água do Exército da Salvação haviam desaparecido ― todos depois do anoitecer.
― Empurre a cerveja para dentro ou sairei para buscá-la ― disse a voz.
Henry fez sinal para que recuássemos e obedecemos.
― Acho melhor você vir buscar, Richie.
E engatilhou o revólver.
Nada. Nada durante longo tempo. Para dizer a verdade, tive a impressão de que tudo terminara. Então, a porta se abriu com violência, tão de repente e com tanta força que chegou a estofar-se antes de ser atirada contra a parede. E Richie saiu.
Numa fração de segundo, apenas uma fração de segundo, Bertie e eu descemos as escadas como meninos de escola, quatro ou cinco degraus de cada vez, e saímos pela porta principal para a neve da rua, escorregando e derrapando.
Enquanto descíamos, escutamos Henry atirar três vezes, os estampidos reboando como granadas nos corredores fechados daquela casa deserta e mal-assombrada.
O que vimos naquela fração de segundo ficará comigo a vida inteira ― ou o que resta dela. Foi como uma imensa onda de geléia cinzenta, geléia que parecia um homem, deixando atrás de si um rastro pegajoso.
Mas isso não foi o pior. Os olhos eram chatos, amarelos e selvagens, desprovidos de alma humana. Só que não eram apenas dois ― eram quatro. E na entrada daquela coisa, entre os dois pares de olhos, havia uma linha branca e fibrosa, através da qual aparecia uma espécie de carne pulsante e rosada, como um corte na barriga de um porco.
A coisa se dividia, entendem? Dividia-se em duas.
No caminho de volta à loja, Bertie e eu não trocamos uma só palavra. Não sei o que lhe ia na mente, mas sei muito bem o que ia na minha: a tabuada de multiplicação. Dois vezes dois são quatro, quatro vezes dois são oito, oito vezes dois são dezesseis, dezesseis vezes dois são...
Chegamos. Carl e Bill Pelham levantaram-se de um pulo e começaram de imediato a fazer perguntas. Bertie e eu não respondemos, nenhum dos dois. Simplesmente nos viramos para porta, a fim de vermos se Henry ia entrar da rua coberta de neve. Eu já estava em 32.768 vezes dois é o fim da raça humana, de modo que tratamos de tomar cerveja e esperar para ver qual dos dois voltaria finalmente. E ainda estamos sentados aqui.