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quinta-feira, 6 de julho de 2017

CONTOS REUNIDOS DO MESTRE DO HORROR CÓSMICO H. P. LOVECRAFT





Por EDUARDO CRUZ


E aí macacada cultista de Cthulhu??? 
Estamos de volta, depois de um longo e tenebroso inverno (quer dizer, na verdade ainda estamos no meio do inverno, mas me deixem em paz com minhas figuras de linguagem, vá!) sem postar nada durante todo o mês de junho (fora o post de Injection! já leu??). Agora estamos de volta com desculpas, explicações e justificativas. Nossas desculpas e explicações são razões pessoais mesmo. De minha parte, tenho trabalhado muito ultimamente, o que aniquilou o tempo que normalmente eu tenho para escrever aqui, e o Ricardo estudando feito um condenado (se não me engano ele cursa História da pornografia agrária do século XIV, e junho é época de provas). Mas não conseguir tempo para escrever não é o mesmo que não conseguir ler nada aqui na Zona! E isso, pelo menos, eu não deixei de fazer. Fora um ou outro gibi esporádico, desde o post dissecando o primeiro volume de Providence, mergulhei fundo na leitura da produção textual de H. P. Lovecraft (mais uma vez! só preciso de uma desculpa pra (re)ler Lovecraft :)))), e só tenho conseguido agora, em julho, sair aos poucos desse estado catatônico literário, pegando finalmente os outros livros que estão aqui na fila de leitura, para fazer os próximos posts da Zona Negativa, e assim, aos poucos vamos voltando àquela rotina que estávamos acostumados por aqui ;>).  


Quem acompanha o blog há algum tempo já sabe que aqui somos leitores doentes de Lovecraft meeeeeerrrrrrmo, e não vamos descansar enquanto os mitos de Cthulhu não estiverem todos armazenados em nossas mentes, corações e estantes heheheh. Mas não precisa acreditar na gente se não quiser. O que Neil Gaiman declarou a respeito de Lovecraft sintetiza toda a importância e reverência em torno desse grande escritor: 

"Ele definiu os temas e obssessões de horror do século XX, e ao entrarmos no século XXI ele se mantém presente."

As editoras brasileiras têm dado um tratamento cada vez mais digno à obra de Lovecraft por aqui. Da editora Iluminuras, passando pela Clock House, não podemos esquecer daquelas edições belíssimas da Hedra, e mais recentemente o tijolo monstruoso da Martin Claret; enfim, o pai do horror cósmico tem recebido cada vez mais destaque no mercado editorial brasileiro, e o novo tributo à obra de HPL a sair por aqui é o volumão "H. P. Lovecraft - Contos reunidos do Mestre do Horror Cósmico", da editora Ex Machina. O projeto foi bancado via financiamento coletivo no Catarse e é o mais novo objeto de desejo dos aficionados por Lovecraft. O livro simplesmente abarca toda a prosa curta de Lovecraft, ou sejE, todos os seus contos e noveletas, com exceção de obras mais extensas, como as novelas "Nas Montanhas da Loucura", "A sombra Vinda do Tempo", "Um Sussurro nas Trevas", entre outros, excetuando-se também textos em que escreveu em colaboração ou como ghost writer. O livro já mostra a que veio na introdução escrita por S. T. Joshi, o maior especialista e pesquisador de H. P. Lovecraft da atualidade (também autor da biografia), e que também supervisionou a divisão dos contos em blocos temáticos. Em pouco mais de 600 páginas, o livro apresenta 61 histórias(!!!), cada uma precedida de uma pequena sinopse, e divididas em ciclos:

  • Ciclo de Cthulhu, com as histórias relacionadas ao seu panteão de entidades horrendas, os mitos de Cthulhu; 
  • Ciclo dos Sonhos, com os contos relacionados ao viajante do sonhar Randolph Carter, além de outros de seus contos com aquela mescla perfeita entre fantasia e horror; 
  • Miscelânea, que reúne contos diversos em vários momentos diferentes de sua (curtíssima!) carreira literária (Sim, aqui tem "Herbert West: Reanimador"!!!!); 
  • Juvenília, seção que reúne algumas histórias escritas por HPL ainda em sua adolescência. 

Como se isso já não bastasse, essa edição ainda conta com apêndices incríveis, como ensaio biográfico, ensaios críticos, filmografia, iconografia, um bestiário lovecraftiano, tudo com a colaboração dos maiores estudiosos de literatura fantástica e da obra de H. P. Lovecraft do Brasil, como Nathalia Scotuzzi, Guilherme da Silva Braga, Marcello Branco, Silvio Alexandre, entre outros. A organização do volume é de Bruno Costa, o mesmo responsável pelas edições da Hedra.





Com preguiça de digitar isso tudo, acabei tirando fotos do sumário mesmo rs.

Inexplicavelmente, o conto "A Coisa na Soleira da Porta" ficou de fora dessa edição. Uma história excelente e curtinha, como era a proposta do livro. Mas ainda assim é de fato a mais ambiciosa publicação de H. P. Lovecraft já lançada em língua portuguesa, um item de colecionador fantástico, e com extras igualmente impressionantes. Mais do que apenas para fãs de Lovecraft, indispensável para qualquer fã de literatura fantástica e horror. 


"Lovecraft - Fear of the Unknown", excelente documentário sobre a vida e obra do escritor, com participações de Neil Gaiman, Stuart Gordon, John Carpenter e outros. Completo e legendado.

E vocês acham que parou por aí? A Darkside Books, aquela editora com o catálogo deliciosamente dark e as capas incríveis, também já anunciou que vai publicar algo do escritor ainda em 2017, pela linha Medo Clássico - que já publicou uma coletânea de Edgar Allan Poe e "Frankenstein", de Mary Shelley -, mas até o momento ainda não há detalhes sobre como vai ser esta publicação. Aguardamos ansiosos por mais uma coletânea de HPL nas livrarias...



Como eu disse anteriormente sobre "Neuromancer", e o raciocínio se aplica com perfeição também a H. P. Lovecraft: estivemos expostos a vida inteira a produtos da indústria do entretenimento que foram derivados direta e indiretamente da literatura de Lovecraft, então que tal dar uma chance ao material original que inspirou obras diversas como "O Enigma do Outro Mundo", "Re-animator", "Stranger Things", "Hellboy", "Uzumaki", "The Void", entre outras dúzias de filmes, séries, HQs, jogos, mangás, músicas, etc?



E aí? foi ou não uma boa desculpa pra passar um mês sem postar? Eu faria tudo de novo. E farei. Então, quando eu sumir de novo, vocês já sabem que mais uma vez fui tragado pelos Mi-Go para um tour por Kadath, Carcosa, R'lyeh, Dunwich, Salem, Innsmouth.... Quando Cthulhu chama, você tem que atender!


domingo, 28 de maio de 2017

UM PASSEIO EM PROVIDENCE! Via Innsmouth, Red Hook, Dunwich, Carcosa, R’lyeh......


Por EDUARDO CRUZ




Quem não estava escondido embaixo de uma pedra em uma caverna subterrânea ou filosofando com o Dr. Manhattan na superfície de Marte provavelmente já sabe que a Panini finalmente lançou nesse mês de maio a primeira terça parte de Providence, uma mini série em 12 edições que saiu lá fora pela Avatar Press, e que aqui vai sair em 3 encadernados. Ansiosos? 

Podem apostar que eu sim! Pra quem não sabe, Providence é, ao mesmo tempo, prelúdio e continuação de Neonomicon, uma HQ onde Moore presta homenagem a toda a mitologia criada por esse escritor norte americano. E não é segredo nenhum que esse autor, que criou o subgênero de horror cósmico, Howard Phillips Lovecraft, é um de nossos grandes favoritos aqui na Zona Negativa! 






Em Providence acompanhamos a jornada de Robert Black, um repórter nova iorquino, homossexual, que logicamente, devido às pressões da sociedade da época, é obrigado a esconder sua condição, vivendo uma vida diferente sob a superfície. Robert trabalha em um jornal, o New York Herald, porém, sempre se sentiu compelido a escrever seu próprio grande romance, aquele que iria captar e cristalizar com precisão a essência e a época de seu país e seu povo, na América de 1919, às vésperas da Lei Seca e a poucos anos do Crash da Bolsa de Valores que assolaria a nação de um modo sem precedentes.





Em busca de um artigo para seu jornal a respeito de um misterioso livro supostamente amaldiçoado, e ainda abalado com a morte repentina de um ex amante, Robert acaba pondo o pé na estrada e pouco a pouco desbrava todo um submundo de indivíduos à margem da sociedade que trocam informações e conhecimentos sobre ciências ocultas, pessoas atípicas, excêntricos e freaks em geral, e em alguns casos até mesmo indivíduos que não poderíamos classificar exatamente como pessoas. Black, sem se dar conta, acaba empreendendo uma viagem por toda uma América oculta sob a superfície, em uma analogia nada sutil ao próprio universo encoberto a que o protagonista pertence, em uma época em que a palavra “gay” significava apenas “alegre”. A grande diversão nessa homenagem de Moore ao legado Lovecraftiano é acompanhar Black em busca de sua reportagem, peregrinando pelas cidades onde Lovecraft ambientou muitas de suas grandes histórias, se encontrando com os personagens chave dessas histórias, edição a edição, em uma romaria profana, que sabe-se lá como vai ser concluída. Aí, é ter paciência e torcer para que a Panini não demore muito a publicar o restante da série <coff, coff, coff PROMETHEA coff, coff, coff, coff...>.





E aí vem a pergunta: Dá pra ler Providence sem conhecer a obra de H.P. Lovecraft? Olha, até dá, mas devo avisar que MUITAS referências legais vão se perder, e com um trabalho assim fantástico, isso não é nada legal. Um desperdício, eu diria. Por isso, fizemos uma pequena relação das histórias de Lovecraft que o leitor teria que conhecer previamente para aproveitar ao máximo a mini série de Moore. Reitero que isso não é obrigatório e Providence ainda funciona como uma ótima história de mistério/terror por si só. Porém como se trata de uma mini série que é essencialmente referencial, como A Liga Extraordinária, outro grande título de Moore, muitos outros significados e leituras se revelam ao leitor atento que investir só mais um pouquinho de tempo pra ler alguma coisa do material de onde a HQ foi inspirada.







Não fiz uma varredura ampla como aquele gringo maluco que destrinchou o “Dossiê Negro” da Liga Extraordinária TODO, por exemplo. Em cada edição de Providence Moore passeia por um conto ou romance específico de Lovecraft, ou sejE, cada conto de Lovecraft é a espinha dorsal de uma edição, com a mitologia geral Lovecraftiana amarrando tudo. Claro que há muitas outras referências menores entre os diálogos, e não apenas de H. P. Lovecraft, mas não vamos passar um pente tão fino assim, amiguinhos. Nesse post vou indicar somente essas histórias chave, e quem se interessar em se aprofundar mais que fique à vontade. Os cata-piolhos que encontrarem alguma coisa que valha a menção e que porventura eu não tenha citado aqui, por favor, sintam-se à vontade para comentar lá embaixo!





Então arrumem um canto sombrio pra se acomodar para a leitura, preparem sua coletânea de contos de H. P. Lovecraft (Nesse link tem todos os contos citados no post) do lado do encadernado de Providence, entoem uma pequena oração para Yog-Sothoth, acendam os incensos certos, tracem os símbolos apropriados e vamos começar, ou sejam condenados para sempre...







PROVIDENCE #1


Na primeira edição, ainda em Nova York, Black localiza e entra em contato com um certo Dr. Alvarez, que lhe dá algumas pistas para seguir seu caminho. O conto “Vento Frio”, escrito em 1926 e publicado em 1928 na revista Tales of Magic and Mystery, é a história relacionada a este misterioso personagem, que no conto chama-se Dr. Muñoz, um médico que, alegando sofrer de uma rara doença, precisa manter-se resfriado a temperaturas muito baixas. No conto conheceremos um pouco mais do elusivo Dr. Muñoz e como ele ludibriou a morte...







PROVIDENCE #2


Seguindo a história, nessa edição vemos Black se relacionando com personagens como o detetive de polícia Thomas Malone e o comerciante de textos ocultistas Robert Suydam, ambos oriundos do conto “O Horror em Red Hook”, escrito em 1925 e publicado em 1927 na revista Weird Tales. Um mistério policial – onde vemos a xenofobia de Lovecraft vir à tona: o escritor morou por um tempo em Nova York e o grande volume de estrangeiros e imigrantes o incomodava – envolvendo cultos obscuros, sacrifícios de crianças e criaturas estranhas escondidas nos porões do bairro...








PROVIDENCE #3


Continuando a jornada de Black, chegamos a um estranho vilarejo portuário que não consta nos mapas, onde seus habitantes, bastante reservados, têm, em sua grande maioria, feições que se assemelham a peixes, e até mesmo a sapos... e o que são aqueles vultos nadando no mar a que Robert se refere como “focas”? Em “A Sombra de Innsmouth”, história escrita em 1931 e publicada em 1936, conheceremos mais detalhes a respeito deste desolado e malcheiroso vilarejo à beira mar, e os segredos pavorosos escondidos por detrás das portas e janelas fechadas...






PROVIDENCE #4


Fechando este primeiro encadernado nacional de Providence, Robert, no encalço das pistas de sua investigação, conhece a família Whateley. A origem dos Whateley é o conto “O Horror de Dunwich”, escrito em 1928 e publicado em 1929. A bizarra família é composta pelo velho patriarca, sua filha albina, Lavinia (Na HQ de Moore renomeada para “Leticia”), e seus dois filhos: Wilbur (na HQ é conhecido como Willard), um rapaz com feições de bode e uma estranha avidez por conhecimento oculto, e seu irmão gêmeo, que é invisível, e acreditem, talvez seja melhor não ver sua real aparência. Algumas coisas não podem ser esquecidas depois de vistas...






Ainda nesta edição, uma rápida referência ao conto "A Cor Que Caiu do Espaço", a história de invasão alienígena mais estranha, maligna e repugnante já escrita. Esse conto é de 1927, publicado no mesmo ano na revista Amazing Stories





BÔNUS:

Além das óbvias referências e homenagens ao próprio Lovecraft, consegui pescar mais algumas pequenas pérolas nessa primeira leitura de Providence, como uma menção a outro mestre do suspense e horror na literatura: Edgar Allan Poe.



Também há algumas menções ao Rei de Amarelo, livro de 1895, criação de Robert Chambers, uma das influências do próprio Lovecraft como escritor. Quem assistiu à primeira temporada de True Detective faz uma idéia do que vem a ser essa obra de horror cósmico pré-Lovecraft.

O rei de Amarelo

Os apêndices entre as edições, com textos diversos relacionados à trama, como o diário do protagonista, ou um panfleto de igreja, ou um tratado de ocultismo ajudam a imergir o leitor ainda mais na história. Ou pelo menos deveriam: em Providence os apêndices podem ser um tanto cansativos em alguns momentos. Os conteúdos extras que Moore costuma produzir para suas histórias já foram bem melhores, como os de Watchmen, ou O Dossiê Negro da Liga Extraordinária, muito mais interessantes e funcionais para a própria trama principal são OK. Mas entre esses textos, destaco a menção a O Livro dos Lobisomens, do inglês Sabine Baring-Gould, um tratado sobre licantropia publicado em 1889, do qual há uma breve menção, e recomendo a leitura. Afinal, nunca se sabe quando ser capacitado a identificar alguém que se transforme na lua cheia pode vir a ser conhecimento útil ;>).


Enfim, isso é só um ponto de partida para vocês terem uma mínima idéia do que se passa em Providence! Nessas primeiras quatro edições do encadernado, Moore mal arranhou a superfície do vasto cânone de Cthulhu e Cia, e estamos ansiosos por mais!



Quanto mais você se dispuser a chafurdar na bibliografia de Lovecraft, e também de seus colegas escritores, como Robert Bloch, Robert E. Howard, August Derleth e outros, mais e mais referências serão captadas, porque acreditem, se Moore não perdeu a mão, Providence está carregada de referências em suas páginas! A partir daí é você quem decide se vai se aventurar assim tão fundo nesses horrores inomináveis e blasfemos, ou se vai ficar só boiando na superfície mesmo, onde é mais seguro... ou não?



P.S.: Para quem sabe inglês e quiser uma relação enorme das referências contidas na HQ, se aventure nesse site!


domingo, 9 de abril de 2017

GRANDES CONTOS, de H. P. Lovecraft, ou “Meu amor, o Horror Rastejante”





Por EDUARDO CRUZ






A literatura de horror ocidental teve um ponto de virada no início do século XX, quando houve uma transição do horror gótico para o horror cósmico, e isso se deu quase que graças a um escritor somente: Howard Philips Lovecraft (ou agápê Lovecraft pros íntimos rs). Essa virada aconteceu a partir do momento em que alguns autores de horror passaram a não mais basear suas histórias em mitos e lendas, no folclore ou em qualquer outra base já existente, mas sim criar do zero toda uma cosmogonia onde o ser humano tinha muito pouca ou nenhuma relevância, e onde criaturas de proporções e poderes incomensuráveis, comparáveis a deuses eram o horror absoluto, ampliando em muito o escopo e o alcance do gênero, levando o horror a um direcionamento impensado até então. Nas palavras do próprio Lovecraft: "As efabulações sobre temas mundanos e o lugar-comum não satisfazem as mentes mais criativas e sequiosas de novos estímulos".



Como muitos artistas que não tiveram reconhecimento em vida, mas postumamente se tornaram referências incontestáveis em suas respectivas áreas, como Van Gogh, Oscar Wilde, Edgar Allan Poe, Rembrandt, entre outros, o legado de H. P. Lovecraft está cada vez mais popular. Considerado um dos escritores mais influentes do século XX, foi um dos fundadores do nicho de Horror Cósmico, ou Cosmicismo, junto com autores como August Derleth, Robert Bloch, Frank Belknap Long e Robert E. Howard, com quem trocava muitas correspondências, e ajudou originar uma espécie de universo compartilhado que hoje conhecemos como “Os Mitos de Cthulhu”. A popularidade de Lovecraft só cresce, apesar de já termos deixado o século XX para trás faz alguns anos, mas sua presença ainda se faz sentir, direta ou indiretamente no cinema, videogames, quadrinhos, RPGs, card games e até na música! Se não o era antes, nos dias atuais H. P. Lovecraft é leitura obrigatória em matéria de horror, a fonte onde muitos nichos da cultura pop bebem até hoje para produzir horror impactante e de qualidade.

Cthulhu, o filho mais famoso de Lovecraft
O Horror Cósmico é um nicho literário que retrata o universo como um lugar vasto e hostil, ou na melhor das hipóteses, indiferente ao ser humano. Conceitos como civilização, amor, democracia, IPTU, religião, família, hambúrguer gourmet, guerra, ascensão profissional, gasolina barata, amor verdadeiro, política, sexo.... esqueça! Em uma história de Lovecraft percebemos a total indiferença a qualquer crença, ideologia ou atividade humana, e o próprio lugar do ser humano no universo é irrelevante. Tais conceitos e construtos sociais são como uma pequena jangada no oceano turbulento e caótico que é o universo. Por essa mesma razão Lovecraft não é indicado para qualquer pessoa que simplesmente goste de ler. Suas histórias geralmente são carregadas de cinismo, nada romantizadas e com um alto teor de pessimismo, onde além do horror gráfico, não raro vivenciamos situações de horror psicológico nas tramas, e sua ambientação lenta que conduz a um ápice (melhor dizendo, à beira do abismo ;>)) quase sempre desastroso e com muito terror psicológico são mais uma razão para afirmarmos que a prosa de Lovecraft não é para qualquer leitor.


É claro que não estamos sozinhos em um universo Lovecraftiano tão vasto e hostil: essa oposição direta a valores como o Iluminismo e o Humanismo traz a reboque a noção de que dividimos nosso espaço neste universo com entidades, seres e monstros ancestrais, um verdadeiro panteão de criaturas extradimensionais - a maioria delas com propósitos insondáveis à nossa compreensão - algumas mais antigas do que a própria humanidade, algumas tão poderosas que foram cultuadas como deuses por humanos no passado, tendo reinado sobre a Terra há milhões de anos atrás. Algumas apenas dormentes, esperando o momento de retornar e reclamar nosso mundo para si novamente. Essas sim as verdadeiras responsáveis por intervenções tanto entre os humanos, quanto no restante do universo. Não somos donos de nossos próprios destinos, e segundo Lovecraft, até mesmo a criação de nossa espécie é trabalho desses seres! Seus protagonistas, geralmente jogados de encontro a revelações dessa amplitude acabam enlouquecendo ou recorrendo ao suicídio, tamanho o abalo que tais conhecimentos provocam na psique frágil dos indivíduos.



E por falar em conhecimentos que podem destruir, não posso esquecer de mencionar a criação mais famosa de Lovecraft, depois do próprio Cthulhu, o livro profano Necronomicon. O antigo tomo cheio de conhecimento blasfemo que incautos costumam usar para invocar essas entidades, e cujo desfecho sempre é trágico foi mais uma contribuição para a construção dos Mitos de Cthulhu, termo cunhado após a morte de Lovecraft pelo escritor August Derleth. Posteriormente, o Necronomicon deixou de ser um elemento usado apenas por Lovecraft e seus amigos escritores, e hoje encontra-se agregado na cultura pop, com maior destaque para os filmes de “Evil Dead”, de Sam “Homem Aranha que vale” Raimi. O Necronomicon foi tão bem inserido nos Mitos de Cthulhu, e posteriormente na cultura pop (Lovecraft inclusive escreveu um falso ensaio sobre as origens do livro!) que até hoje alguns acreditam que este livro realmente existe, e sendo autêntico ou não, pode-se comprar um exemplar no Ebay e até mesmo no Mercado Livre.










Acima, alguns dos Necronomicon "legítimos" que circulam pelas internetes...

O Necronomicon de "Evil Dead"

Essas são as principais razões para o trabalho de Lovecraft ser considerado tão singularmente sólido em termos técnicos e em qualidade também, com muita consistência e atenção aos elementos inseridos nas tramas, principalmente os de cunho psicológico, a grande cartada na obra do escritor.

Esse meme resume bem o que é uma história de H. P. Lovecraft:
"E eles viveram felizes par... BRINCADEIRA, ELES TODOS MORRERAM OU ENLOUQUECERAM"

No exterior, o reconhecimento póstumo a Lovecraft já existe há décadas, e cada vez que eu entrava no site da Amazon ou dava uma olhada na seção de livros importados da Livraria Cultura, me batia uma certa tristeza, afinal lá fora existem edições imensas e completas da obra de Lovecraft, algumas com anotações de rodapé que oferecem informações que enriquecem muito o entendimento do leitor com relação a detalhes obscuros, inclusive em relação ao contexto sócio cultural da época em que a história foi escrita. Entre as mais impressionantes, posso citar “The New Annotaded H. P. Lovecraft”, com prefácio de Alan Moore! Já aqui no Brasil a situação é um pouco mais limitada. Fora a Editora Iluminuras, que lançou alguns volumes no final dos anos 90, a independente Clock House, que lançou um livrão robusto de contos do autor, porém com uma divulgação pequena, já esgotado, e mais recentemente os livros da editora Hedra, com belos acabamentos gráficos, nunca tivemos tanto H. P. Lovecraft quanto gostaríamos em nossas prateleiras.

Uma compilação norte-americana com introdução do Barbruxão em pessoa!
Isso me lembra que "Providence" vai sair esse ano!!! \o/





Mas ao que parece, alguma mente iluminada por Azatoth na editora Martin Claret se deu conta dessa carência, e em um único lançamento retificou essa mancada do mercado editorial brasileiro com essa magnífica compilação. A antologia “Grandes Contos” é um tijolo impressionante, seja pelo seu número de páginas (quase 1100!), seja pelo seu acabamento em capa dura, seja pelo nível na seleção das histórias. Muito do que Lovecraft produziu de relevante, inclusive vários poemas e alguns ensaios, constam nesta edição, num total de 45 trabalhos do autor. Além da capa, com uma ilustração bem adequada ao tema, onde predomina um tom de amarelo doentio e com os indefectíveis tentáculos de Cthulhu se insinuando pelos cantos e pelas sombras da ilustração, as páginas internas - com um papel de gramatura excelente - são tingidas de verde nas extremidades, o que provoca uma associação imediata aos tais livros arcanos e blasfemos que vez por outra Lovecraft cita em suas histórias. Nota 10 para esse acabamento gráfico!


Os contos que integram esse tijolão monstruoso são:

A fera na caverna
O alquimista
A tumba
Dagon
Além das muralhas do sono
Old Bugs
A transição de Juan Romero
A Nau Branca
A Rua
A maldição que atingiu Sarnath
A árvore
Os gatos de Ulthar
Do além
Nyarlathotep
O pântano da Lua
Os outros deuses
A música de Erich Zann
Hipnos
O que vem com a Lua
Azathoth
Entre as paredes de Eryx
O cão de caça
O medo à espreita
O festival
Debaixo das Pirâmides
O horror em Red Hook
O chamado de Cthulhu
A chave de prata
A estranha casa alta na névoa
A busca onírica da desconhecida Kadath
O caso de Charles Dexter Ward
A cor que veio do espaço
O descendente
A história do Necronomicon
O povo antigo
O horror em Dunwich
Nas montanhas da loucura
A sombra sobre Innsmouth
Através dos portais da chave de prata
O perverso clérigo
O livro
A sombra vinda do tempo
O Assombrador das trevas
O navio misterioso
O horror sobrenatural na literatura


Eu poderia até reclamar um pouco, dizendo que ficaram de fora contos sensacionais, como por exemplo “Herbert West – Reanimator” e “O modelo de Pickman”, mas com um livro caprichado assim, com essa quantidade de contos reunida em um único volume e com esse acabamento gráfico belíssimo, sinto até uma ponta de culpa. Então esqueçam que eu disse isso! “O horror de Dunwich”, “A sombra sobre Innsmouth”, “A sombra vinda do tempo”, “Nas montanhas da loucura”, “O caso de Charles Dexter Ward” e “A cor que veio do espaço” compilados em um mesmo tomo já fazem dessa coletânea algo excepcional!



Então é isso aí, seus Shoggoths!! SejE você um mero curioso que conhece a reputação do Lovecraft, mas nunca teve acesso ao material dele, ou mesmo um leitor já iniciado, mas que porventura tem pouca coisa do escritor em sua estante, “Grandes Contos” é indicado para ambos os casos. Um bom começo pros iniciantes, e um volume respeitável na estante pros freaks que curtem horror clássico de qualidade. Uma antologia com um escritor desse calibre, com esse número de páginas e essa seleção de contos? Não precisa nem pensar a respeito! Caia dentro de uma promoção bacana e entregue suas alma para todas as blasfêmias e horrores inomináveis saídos da mente (mas será que seriam só imaginação mesmo???) de um dos maiores - na minha opinião pessoal o maior! – autores de horror de todos os tempos!!!



Obs.: Pra quem quiser se aprofundar em uma visão geral da obra de Lovecraft e os Mitos de Cthulhu, sugiro esse blog, que foi uma das minhas fontes para essa resenha. É um post um pouco extenso, mas rico o suficiente para que mesmo os novatos tenham uma compreensão básica e abrangente do legado Lovecraftiano na literatura e na cultura pop.