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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O FANTÁSTICO ALFABETO LOVECRAFT, ou "Lovecraft só para baixinhos"





Por EDUARDO CRUZ


Ensina a criança no Caminho que se deve andar,
e mesmo quando for idoso não se desviará dele!

Provérbios 22:6


Eu sei, parece estranho uma citação bíblica em plena Zona Negativa, mas essas palavras caem feito uma luva quando se trata do evangelho do nosso Senhor e Salvador Howard Philips Lovecraft! Ainda mais com esse lançamento da DarkSide Books, que resolveu dar um 2 hit combo na gente nesse final de 2017, lançando o volume 1 da coleção Medo Clássico - H. P. Lovecraft, junto com essa coisinha fofa aqui! O Fantástico Alfabeto Lovecraft, de autoria da dupla Jason Ciaramella e Greg Murphy.


Capa da edição original




Primeiro livro do Caveirinha, a linha infantil da DarkSide que vai se especializar em alimentar as mentes dos nossos pequenos com doses homeopáticas de fantasia, O Fantástico Alfabeto Lovecraft é um livro infantil... se livros infantis usassem os Grandes Antigos e outros horrores e bestas inomináveis da ficção Lovecraftiana para ensinar o alfabeto para crianças.




A Caveirinha vai ajudar essas criaturinhas a darem seus primeiros passos no mundo mágico da fantasia e da imaginação. Afinal de contas, não é do berço que a gente aprende a amar os livros? Não tenha medo de começar a ler os mestres para eles. Não tenha medo de mostrar a força cativante dos livros. Não tenha medo de criar um leitor voraz em casa. [Fonte: newsletter DarkSide Books]






 
O livro dispõe as 26 letras do alfabeto, de A a Z (duh!), associadas a alguma criatura ou local da obra literária de Lovecraft, tudo muito colorido e fofinho, pra criança não morrer de pavor ou enlouquecer antes de chegar à letra N (que no livro, evidentemente, corresponde a... NECRONOMICON!).






Com essa belezinha você vai ser o pai ou a mãe modelo, alfabetizando ao mesmo tempo que ensina o Mythos de Cthulhu para os pequerruchos, com um arco íris negro de fofura escorrendo enquanto o bebê fala o nome de Hastur, o Inominável.




Achei justo.
Achei foda.
Já comprei um pro meu Shoggotinho, que ainda nem existe. Mentira, comprei pra mim mesmo hauhauhauhauhas.


Então vocês já sabem, minhas cabras negras da floresta. Esse é um ótimo livro pra introduzir a fantástica literatura do HPL nas suas mil crias, que adiciona camadas e camadas de fofura aos pesadelos mais negros da imaginação humana...



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

FRAGMENTOS DO HORROR, de Junji Ito: o Horôru gurôtesuku do Japão








Por EDUARDO CRUZ


O que se percebe imediatamente ao olhar a capa de Fragmentos do Horror - fora a referência à pintura O Grito, de Edvard Munch - é a expressão que a figura que ilustra a capa ostenta. O rapaz com a expressão de horror vazio, um sentimento que ultrapassou o pavor absoluto e acabou por penetrar na catatonia e na reclusão dentro de si mesmo frente a um horror intenso demais para ser processado racionalmente. Isso resume bem o infortúnio dos personagens de Ito em suas histórias. Conhecido pelos mangás Gyo e o já clássico Uzumaki, o autor japonês é conhecido por suas histórias de horror grotesco, e podemos inferir que Junji Ito é mais um filho espiritual de H. P. Lovecraft, pagando tributo ao autor com sua obra saturada de influências do escritor norte americano, e carregando a bandeira do horror cósmico nos dias atuais.

O pai orgulhoso e sua cria pavorosa
A Darkside Books, dando continuidade à sua linha Darkside Graphic Novel, continua a publicar obras de horror - o território onde a caveirinha manda! - porém com foco nas histórias em quadrinhos/mangás. E nessa primeira leva, inaugurando a linha, entre outros títulos, temos Fragmentos do Horror, a segunda publicação de Junji Ito no Brasil após bastante tempo sem lançamentos do autor (a Conrad publicou Uzumaki no Brasil em meados da década passada). 

E como a Darkside Graphic Novel debutou bem! Fragmentos do Horror é uma coletânea de oito contos macabros do mestre do horror japonês. São oito histórias onde Junji Ito explora o horror psicológico, thrillers sobrenaturais e muito, mas muito gore! Além é claro, de horror nonsense, inclassificável, porque afinal é dos japoneses que estamos falando aqui heheheh...

Uzumaki, um mangá onde os monstros são... espirais????

Os contos são:

  •  Futon: um jovem leva dias inteiros sem sair debaixo do seu cobertor. Ele jura que a casa está cheia de criaturas bizarras determinadas a pegá-lo.




  • Monstro de Madeira: uma mulher chega a uma magnífica casa antiga de madeira e pede  aos residentes, um pai e sua filha, para ficar uma temporada, sob o pretexto de estudá-la. Logo descobrimos que sua paixão pela casa vai além do interesse arquitetônico...




  • Tomio Gola Rolê Vermelha: Um casal em crise recorre a uma vidente para auxiliá-los em seu relacionamento. Após uma noite de romance com a bruxa, Tomio - nosso garoto propaganda da capa do mangá! - descobre que uma estranha maldição paira sobre ele...



  • Suave Adeus: uma jovem, após o casamento, vai viver na casa da família do noivo, onde conhece seus sogros e outros familiares. Porém, a menina logo descobre que a família esconde um grande segredo...



  • Dissecação-chan: uma jovem, obcecada desde criança a dissecar coisas, tem por desejo ser dissecada ainda viva. Ela fará de tudo para realizar seu objetivo...



  • Pássaro Negro: um rapaz perdido na mata por semanas é resgatado e levado ao hospital. Lá, ele relata ao jovem que o encontrou que uma presença misteriosa lhe dava comida na boca todos os dias. À medida que os dias passam, o jovem vai desvendar o que era essa estranha criatura...




  • Magami Nanakuse: uma jovem leitora é completamente obcecada com os romances da autora Magami Nanakuse, a ponto de contatar a escritora para saber se pode visitar sua casa. A autora concorda, mas a jovem fã não sabe o segredo que a romancista esconde para ter a inspiração necessária para criar suas obras...


  • A Mulher que Sussura: a história de uma menina rica, que devido a um trauma é incapaz de tomar qualquer decisão sozinha. Seu pai precisa contratar alguém que sempre fique ao seu lado para lhe orientar continuamente sobre o que ela tem que fazer, porém a carga de trabalho faz com que as acompanhantes da menina sempre se demitam, exaustas. Um dia, finalmente seu pai consegue contratar uma empregada com quem ela passa os dias. Algum progresso na condição da menina começa a ser observado, até que a situação toma rumos inesperados...




Fragmentos do Horror é uma boa porta de entrada para quem, como eu, não conhecia esse mestre do horror. O mangá é um bom começo para iniciar o leitor para as outras obras do autor, que são ainda mais desconcertantes e perturbadoras. Imagens e conceitos extremamente bizarros, que podem causar traumas e pesadelos recorrentes aos mais sensíveis...







 




Segundo o posfácio no final da edição, o autor, em um ataque de modéstia, disse não serem essas as suas histórias mais inspiradas, após retornar de um hiato produzindo nada além de um mangá sobre... gatos (?!?!?!). Eu, pessoalmente, com exceção do filme que adapta Uzumaki, nunca li nada de Junji Ito até pôr as mãos em Fragmentos do Horror. Se ele considera o que produziu para essa coletânea como "fraco", espero que a Darkside lance o que Ito considera seus trabalhos mais pesados por aqui. Eu já virei fã: a temática perturbadora de suas histórias e sua arte, que difere dos mangás tradicionais sem perder a identidade dos artistas pop orientais, parecem ter sido feitas sob medida pro meu coraçãozinho negro, e a julgar pelas imagens aleatórias abaixo, de outros mangás dele, acho que vou fazer uma petição pra ver se a Darkside publica Uzumaki, Gio ou Tomie por aqui o quanto antes... vamos nessa???







Enfim, ficam aqui meus agradecimentos (mais uma vez!) à Darkside Books, por trazer esse material sensacional, que vai satisfazer os fãs mais ardorosos de horror... e deixá-los implorando por mais! Fragmentos do Horror pode não ser a obra mais impactante de Junji Ito, mas, para mim serviu para ficar de olho vivo no material desse autor e agarrar sem medo os próximos a serem lançados por aqui!




quinta-feira, 6 de julho de 2017

CONTOS REUNIDOS DO MESTRE DO HORROR CÓSMICO H. P. LOVECRAFT





Por EDUARDO CRUZ


E aí macacada cultista de Cthulhu??? 
Estamos de volta, depois de um longo e tenebroso inverno (quer dizer, na verdade ainda estamos no meio do inverno, mas me deixem em paz com minhas figuras de linguagem, vá!) sem postar nada durante todo o mês de junho (fora o post de Injection! já leu??). Agora estamos de volta com desculpas, explicações e justificativas. Nossas desculpas e explicações são razões pessoais mesmo. De minha parte, tenho trabalhado muito ultimamente, o que aniquilou o tempo que normalmente eu tenho para escrever aqui, e o Ricardo estudando feito um condenado (se não me engano ele cursa História da pornografia agrária do século XIV, e junho é época de provas). Mas não conseguir tempo para escrever não é o mesmo que não conseguir ler nada aqui na Zona! E isso, pelo menos, eu não deixei de fazer. Fora um ou outro gibi esporádico, desde o post dissecando o primeiro volume de Providence, mergulhei fundo na leitura da produção textual de H. P. Lovecraft (mais uma vez! só preciso de uma desculpa pra (re)ler Lovecraft :)))), e só tenho conseguido agora, em julho, sair aos poucos desse estado catatônico literário, pegando finalmente os outros livros que estão aqui na fila de leitura, para fazer os próximos posts da Zona Negativa, e assim, aos poucos vamos voltando àquela rotina que estávamos acostumados por aqui ;>).  


Quem acompanha o blog há algum tempo já sabe que aqui somos leitores doentes de Lovecraft meeeeeerrrrrrmo, e não vamos descansar enquanto os mitos de Cthulhu não estiverem todos armazenados em nossas mentes, corações e estantes heheheh. Mas não precisa acreditar na gente se não quiser. O que Neil Gaiman declarou a respeito de Lovecraft sintetiza toda a importância e reverência em torno desse grande escritor: 

"Ele definiu os temas e obssessões de horror do século XX, e ao entrarmos no século XXI ele se mantém presente."

As editoras brasileiras têm dado um tratamento cada vez mais digno à obra de Lovecraft por aqui. Da editora Iluminuras, passando pela Clock House, não podemos esquecer daquelas edições belíssimas da Hedra, e mais recentemente o tijolo monstruoso da Martin Claret; enfim, o pai do horror cósmico tem recebido cada vez mais destaque no mercado editorial brasileiro, e o novo tributo à obra de HPL a sair por aqui é o volumão "H. P. Lovecraft - Contos reunidos do Mestre do Horror Cósmico", da editora Ex Machina. O projeto foi bancado via financiamento coletivo no Catarse e é o mais novo objeto de desejo dos aficionados por Lovecraft. O livro simplesmente abarca toda a prosa curta de Lovecraft, ou sejE, todos os seus contos e noveletas, com exceção de obras mais extensas, como as novelas "Nas Montanhas da Loucura", "A sombra Vinda do Tempo", "Um Sussurro nas Trevas", entre outros, excetuando-se também textos em que escreveu em colaboração ou como ghost writer. O livro já mostra a que veio na introdução escrita por S. T. Joshi, o maior especialista e pesquisador de H. P. Lovecraft da atualidade (também autor da biografia), e que também supervisionou a divisão dos contos em blocos temáticos. Em pouco mais de 600 páginas, o livro apresenta 61 histórias(!!!), cada uma precedida de uma pequena sinopse, e divididas em ciclos:

  • Ciclo de Cthulhu, com as histórias relacionadas ao seu panteão de entidades horrendas, os mitos de Cthulhu; 
  • Ciclo dos Sonhos, com os contos relacionados ao viajante do sonhar Randolph Carter, além de outros de seus contos com aquela mescla perfeita entre fantasia e horror; 
  • Miscelânea, que reúne contos diversos em vários momentos diferentes de sua (curtíssima!) carreira literária (Sim, aqui tem "Herbert West: Reanimador"!!!!); 
  • Juvenília, seção que reúne algumas histórias escritas por HPL ainda em sua adolescência. 

Como se isso já não bastasse, essa edição ainda conta com apêndices incríveis, como ensaio biográfico, ensaios críticos, filmografia, iconografia, um bestiário lovecraftiano, tudo com a colaboração dos maiores estudiosos de literatura fantástica e da obra de H. P. Lovecraft do Brasil, como Nathalia Scotuzzi, Guilherme da Silva Braga, Marcello Branco, Silvio Alexandre, entre outros. A organização do volume é de Bruno Costa, o mesmo responsável pelas edições da Hedra.





Com preguiça de digitar isso tudo, acabei tirando fotos do sumário mesmo rs.

Inexplicavelmente, o conto "A Coisa na Soleira da Porta" ficou de fora dessa edição. Uma história excelente e curtinha, como era a proposta do livro. Mas ainda assim é de fato a mais ambiciosa publicação de H. P. Lovecraft já lançada em língua portuguesa, um item de colecionador fantástico, e com extras igualmente impressionantes. Mais do que apenas para fãs de Lovecraft, indispensável para qualquer fã de literatura fantástica e horror. 


"Lovecraft - Fear of the Unknown", excelente documentário sobre a vida e obra do escritor, com participações de Neil Gaiman, Stuart Gordon, John Carpenter e outros. Completo e legendado.

E vocês acham que parou por aí? A Darkside Books, aquela editora com o catálogo deliciosamente dark e as capas incríveis, também já anunciou que vai publicar algo do escritor ainda em 2017, pela linha Medo Clássico - que já publicou uma coletânea de Edgar Allan Poe e "Frankenstein", de Mary Shelley -, mas até o momento ainda não há detalhes sobre como vai ser esta publicação. Aguardamos ansiosos por mais uma coletânea de HPL nas livrarias...



Como eu disse anteriormente sobre "Neuromancer", e o raciocínio se aplica com perfeição também a H. P. Lovecraft: estivemos expostos a vida inteira a produtos da indústria do entretenimento que foram derivados direta e indiretamente da literatura de Lovecraft, então que tal dar uma chance ao material original que inspirou obras diversas como "O Enigma do Outro Mundo", "Re-animator", "Stranger Things", "Hellboy", "Uzumaki", "The Void", entre outras dúzias de filmes, séries, HQs, jogos, mangás, músicas, etc?



E aí? foi ou não uma boa desculpa pra passar um mês sem postar? Eu faria tudo de novo. E farei. Então, quando eu sumir de novo, vocês já sabem que mais uma vez fui tragado pelos Mi-Go para um tour por Kadath, Carcosa, R'lyeh, Dunwich, Salem, Innsmouth.... Quando Cthulhu chama, você tem que atender!


segunda-feira, 22 de maio de 2017

CORAÇÃO SATÂNICO, de William Hjortsberg, ou “Um Hellblazer Noir com a melhor história de John Constantine jamais produzida pela Vertigo/DC Comics"




Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA






Não se pode enganar o Diabo.

Isso é um fato. Ou pelo menos, um fato dentro dos universos ficcionais rs. As melhores histórias sobre o assunto são aquelas que comprovam a máxima acima. Não dá pra ter uma história que envolva o próprio Chifrudo como personagem central E ter um final feliz ao mesmo tempo.

O Tinhoso está aí desde sempre. Segundo os teólogos, o Cramulhão é muito mais antigo que o próprio homem, então seria muita presunção crer que uma pessoa, por mais inteligente e experiente que seja, fosse capaz de passar a perna no Pai da Mentira. E é também por causa desse adágio que eu acho perfeitamente compreensível quando alguém não concorda, por exemplo, com o rumo que Garth Ennis deu ao personagem John Constantine, sempre às voltas com ocorrências demoníacas em suas histórias, quando livrou o personagem de um câncer terminal bolando uma trama intrincada onde Constantine ludibria três grandes entidades infernais e ainda lava a alma dando o dedo médio para o Primeiro dos Caídos, no já clássico arco “Hábitos Perigosos”, láááááá nos anos 90, na falecida revista "Vertigo", da editora Abril.


Foi divertido? Foi! 
Foi Massavéio? À beça! 
Ainda me lembro de quando era garoto juvenil e vibrei com essa saída para uma situação que parecia levar ao fim do personagem e ao encerramento do título, mas analisando friamente, quais são as chances de uma pessoa que viveu trinta e poucos anos, ou sessenta, ou mesmo cem, de ter qualquer vantagem estratégica sobre uma inteligência não humana, e que em escala de poder fica abaixo apenas de seu próprio criador que, dizem, é o criador de todo o resto também? rs

Agora, se você admite essa possibilidade, ou melhor, a IMpossibilidade de uma história em que o protagonista engane o Cabrunco e saia inteiro pra se gabar, e fica se perguntando que rumo uma história assim pode tomar, tenho uma ótima recomendação: Coração Satânico, de William Hjortsberg!

"É como se Raymond Chandler tivesse escrito 'O Exorcista'. Fabuloso. Nunca li nada igual."
Stephen King

Na verdade, Coração Satânico foi uma recomendação do Ricardo C., o outro zelador da Zona Negativa. Ele adora tanto o livro quanto o filme, e insistiu que eu lesse a história. Eu conhecia apenas o filme, como 90% das pessoas que ouvem falar em Coração Satânico. “Mas então porque é você escrevendo essa resenha, e não ele, que conhece o livro há muito mais tempo que você?”, vocês vão perguntar. Bem, se a vida fosse justa, seria um texto dele, mas fui tentado pelo Pé-de-Bode, e bati com uma pedra em sua cabeça enquanto ele estava distraído trabalhando em algum outro texto. E assim Caim matou Abel.



A trama de Coração Satânico é ambientada na década de 1950, e a história é narrada em primeira pessoa por seu protagonista, Harry Angel, um detetive particular que é contratado pelo enigmático Louis Cyphre (sacaram?? sacaram????) para localizar o paradeiro de um músico, Johnny Favorite. A princípio, o que parecia ser mais um caso rotineiro degenera lentamente, à medida que a história avança, para mistérios, mortes, rituais sangrentos e tenebrosos de vodu no Central Park à noite, muitos pentagramas invertidos, magia negra e o que parece ser a mão do próprio Príncipe das Trevas encadeando cada vez mais acontecimentos macabros, que culminam em... bem, não vou me estender nos detalhes nem dar spoilers, ou corro o risco de acabar sufocado com meus próprios genitais decepados ;>)

E não se deixem enganar pelo clima de romance policial noir à primeira vista: o que começa como um romance de Mike Hammer, com ruelas escuras, becos esfumaçados, intrigas, mulheres fatais e crimes violentos rapidamente toma contornos  dignos de um arco de John Constantine: Hellblazer à medida que a investigação de Angel avança e ele desvela pouco a pouco o mistério de Johnny Favorite, e paralelamente, mistérios sobre si próprio. O detetive particular da história segue à risca a cartilha do típico detetive do gênero American Crime Novel: durão, fumante inveterado, beberrão, bom de briga e que muitas vezes recorre a métodos e recursos à margem da lei para levar seu trabalho a cabo. 

A revelação do mistério e o clímax da história são superiores e muito mais diabólicos do que muitas das fases de Hellblazer, que em suas 300 edições publicadas, teve seus altos (Jamie Delano, Andy Diggle, Warren Ellis) e baixos (Mike Carey, Denise Mina). É uma história cuja leitura é um deleite, num ritmo nem muito lento, nem corrido demais. A impressão que se tem desde as primeiras páginas é que Hjortsberg tem perfeito controle do ritmo da história que está contando. Eu mesmo li bem mais devagar que o de costume, apenas para que o livro não acabasse tão rápido rs.

Em 1987 foi produzida uma adaptação cinematográfica, roteirizada e dirigida pelo competentíssimo Alan Parker (Mississipi em chamas, Pink Floyd – The Wall, O expresso da meia noite). O roteiro de Parker, apesar das pequenas modificações (como por exemplo, transpor parte da história para o estado da Louisiana, provavelmente para legitimar ainda mais o contexto das religiões africanas na trama, ou mais provavelmente porque certas cenas chave do livro são infilmáveis, como a cena da missa negra que Angel presencia em uma estação de metrô abandonada, onde acontece TUDO que se pode esperar de uma verdadeira missa negra!), conserva com perfeição o ritmo do livro no que tange à investigação de Angel e todos os eventos tétricos que acontecem pelo caminho, bem como mantém o final macabro, que escancara o inferno bem na nossa cara. Se não tiver paciência para ler o livro, - o que eu acho um pecado, até mesmo no inferno – o filme também não decepciona. Muito pelo contrário. O Louis Cyphre interpretado por Robert De Niro é magnífico, com doses cavalares de mordacidade, sarcasmo e deboche pela criação divina, e seu joguinho com Angel lembra muito um gato brincando com uma barata: sádico, atrevido e agindo como se tivesse todo o tempo do mundo. A cena em que Harry Angel, (interpretado pelo galã hoje deformado Mickey Rourke) encontra Cyphre em uma igreja dá o tom de um dos melhores Cramulhões já interpretados no cinema. Nota 10! AdEvogado do Diabo??? Al Pacino se cagaria de medo do Cabrunco do Robert De Niro! 

"Há religiões suficientes para os homens se odiarem, mas não o bastante para se amarem."
Louis Cyphre



 

Robert De Niro como Louis Cyphre e Mickey Rourke no papel de Harry Angel

No Brasil, Coração Satânico foi publicado em 1987 pela editora Best Seller e estava esgotado há vários anos, sendo considerado uma raridade entre os colecionadores. Mas uma nova edição foi lançada pela Darkside Books, atualmente uma das editoras mais expressivas nesse nicho de horror, que resgatou o livro do Fosso Sem Fundo para publicá-lo em mais uma magnífica edição, com acabamento e projeto gráfico irrepreensíveis, o que já é uma marca registrada da editora. Eis uma edição pra Sete-Peles nenhum botar defeito!

Capa da primeira edição brasileira de Coração Satânico, de 1987

Uma história fantástica, poderosa e carregada de simbolismos. Um híbrido perfeito entre os gêneros policial e horror. Não se esqueçam de matar uma galinha e acender umas velas pretas para dar graças por essa bênção, pessoal.