quinta-feira, 22 de setembro de 2016

ATENÇÃO: Você está entrando no território dos Warriors, de Coney Island! Prossiga por sua conta e risco!

Por Ricardo Cavalcanti









Este filme de 1979 de Walter Hill (que também nos trouxe em 1982 o filme 48 Horas, com a estréia de Eddie Murphy no cinema e Ruas de Fogo em 1984, com Willem Dafoe), acabou virando um sucesso cult e foi ganhando cada vez mais fãs ao longo dos anos.



Numa época muito antes de Netflix, PirateBay, YouTube... Não, espera... Muito antes da popularização do VHS, fomos apresentados ao filme The Warriors, ou Selvagens da Noite, se preferir. Filme este que foi responsável por fazer uma molecada ficar acordada até tarde (sem que os pais soubessem, claro) para acompanhar a saga de um grupo de Coney Island (os Guerreiros), lutando por suas vidas, acusados injustamente pela morte do lider da gangue dos Riffs, Cyrus.




Os Riffs, além de possuírem um verdadeiro exército são os mais organizados, contando com uma eficiente rede de informações, que inclui a DJ de uma rádio que monitora a movimentação dos nossos Guerreiros. Por falar nisso, lembrei de uma coisa: (Costinha mode ON) Esse recurso, de utilizar um DJ “acompanhando” um personagem, foi utilizado antes, no filme Vanishing Point, de 1971, que foi chamado em Terras Tupiniquins de “Corrida Contra o Destino” (que acabou virado base para o videoclipe “Show Me How To Live” do Audioslave). Mas deixa eu voltar ao assunto antes que me perca (Costinha mode OFF). Voltando a falar dos Riffs: eles são, claramente, uma referência aos Panteras Negras (Não, amiguinhos. Não estou falando do personagem da Marvel), que nos anos 60, era o principal grupo de luta pelos direitos da população negra. Com seus membros armados e uma organização quase militar, chegaram a ser considerados pelo FBI a principal ameaça à segurança interna dos Estados Unidos.



Voltando ao filme: Cyrus propõe uma trégua e reúne 9 membros das principais gangues de Nova Iorque. Com seu discurso quase messiânico, conclama a união de todas as gangues, pois assim, dominariam não só o crime organizado, mas também toda a polícia. No auge do seu discurso, Luther – líder dos Rogues – atira em Cyrus, no momento em que a polícia chega ao local (Coincidência? Furo no roteiro? Nada disso! Leia a Teoria Warriors, do nosso amigo Eduardo Cruz e você entenderá). Uma confusão generalizada toma conta do local e Luther acusa os Guerreiros pela morte de Cyrus. “Olha ele ali! É o Guerreiro. Ele atirou em Cyrus!”. A partir desse momento, começam os problemas para o grupo de Coney Island.

Assim como todas as gangues da cidade, os Rogues também resolvem perseguir os Guerreiros para que ninguém descubra quem foi o real responsável pelo atentado. A cada esquina, um novo perigo. Uma nova gangue para enfrentar (exceto os Orfãos. Eles não oferecem perigo algum...rs).


Os órfãos, uma turma da pesada.... só que não.

Numa jornada pela sobrevivência a caminho de casa, vamos sendo apresentados aos personagens que nos fascinavam (e ainda fascinam). Como não amar odiar o Ajax, com seu jeito explosivo e rebelde? Como não ficar fascinado com o carismatico Cyrus? Como não acreditar que, SIM, o Cisne era agora o verdadeiro lider dos Guerreiros? Como não ficar ansioso para ver como eles iriam enfrentar os Baseball Furies correndo pelo parque, ou os Punks no banheiro do metrô (para mim, a melhor luta do filme) e ainda conseguir fugir da fúria dos Riffs?






Nem todos os Guerreiros chegam ao seu destino. Algumas baixas ocorrem no caminho. Mas Nada disso é spoiler. É somente o plot do filme. Mesmo que considere spoiler, não vai estragar a sua experiência em assistir o filme. Afinal de contas, já assisti tantas vezes e ainda me empolgo e me divirto.

Ok.... Toma um spoiler então: Ajax vai preso!



A editora Dynamite lançou em 2009, uma HQ que é uma continuação direta do filme. Com a presença de algumas gangues conhecidas do filme, além de outros membros que haviam ficado em Coney Island, “The Warriors, Jailbreak” é dividida em quatro edições, em que os Guerreiros vão se organizar para tirar Ajax da prisão. “Ajax é um de nós. Nós somos tudo que temos”. Afinal de contas, como Cisne aprendeu com Cleon: “Nós nunca deixamos outro Guerreiro para trás”.


The Warriors - Jailbreak, pela Dynamite Comics

Vale a pena ler e revisitar os personagens que assistimos por tantas vezes. É fácil de encontrar para baixar, digo, comprar.

Por mais que você já conhecesse bem a história e os personagens, esse é um daqueles filmes que sempre nos deixava com um gostinho de “quero mais”. Até que, em 2005, a Rockstar lança o game The Warriors para o Playstaion 2.






Sim!! Estava acontecendo!! Você finalmente podia se tornar um Guerreiro e explorar mais daquele mundo. Quando vemos a roda gigante de Coney Island, já sentimos logo: opa!! Isso está legal! Mas quando entra a abertura do jogo tocando a música tema, somos imediatamente catapultados diretamente para o meio daquele universo.

Entre pixações, roubo de toca-fitas, uso de drogas e brigas com outras gangues e a polícia, você vai avançando e ganhando respeito no grupo. O trabalho cuidadoso de ambientação da produtora do game, nos proporcionou uma imersão completa na vida de um Guerreiro.


Desperte o guerreiro em você!

Nos lembrando em muito o estilo GTA, o game vai nos apresentando fatos que antecedem o filme, indo até o enredo original. Esse é um jogo que ainda hoje me diverte bastante, me prendendo por horas e horas.

Ainda assim, a experiência não estava completa.

Na abertura do filme víamos nos créditos iniciais “Based on The Novel by Sol Yurick”. Ou seja, ainda tinha uma peça faltando. Era um livro que nunca havia saído no Brasil e as esperanças de te-lo nas mãos era zero. Se não saiu antes, porque alguém resolveria lançar agora?

Mas surpreendentemente, a Darkside Books nos presenteia com essa pérola esquecida no tempo.





Com uma belíssima edição e com uma capa que lembra o couro dos coletes dos personagens do filme, o livro traz ainda, um prefácio de 36 páginas escrito pelo autor.

O autor, Sol Yurick, trabalhou no Departamento de Bem Estar Social de Nova Iorque e teve contato com uma realidade que não lhe era familiar. Pessoas que viviam na extrema pobreza e que viviam excluídos e marginalizados pela sociedade. Algumas das crianças dessas famílias eram delinquentes e pertenciam a gangues de brigas, em uma quantidade tão grande, que se assemelhavam a verdadeiros exércitos. Com essa realidade na cabeça, surgiu em sua mente a ideia de escrever sobre o assunto.

Apesar de serem personagens de de ficção, não podemos negar que trata de uma realidade muito mais próxima que gostaríamos. A projeção de uma vida sem futuro, acaba com qualquer tipo de “humanidade” em uma pessoa; levando-a, muitas vezes, a encontrarem na violência uma forma de revidar tudo que sofrem, alimentando ainda mais o ódio da sociedade e entrando num círculo vicioso de violência infinita.

Mesmo os nomes dos personagens e do grupo sendo diferentes, conseguimos identificar cada um através de suas personalidades. O livro se passa, principalmente, entre a noite do feriado de 4 de julho e a madrugada do dia seguinte.

Ismael queria que todas as gangues se unissem e mostrassem sua força. Afinal de contas, unidos, eles eram cerca de cem mil, enquanto que na cidade, só haviam vinte mil policiais. Se eles permanecessem desunidos, lutando uns contra os outros, isso ajudaria o sistema. Sendo uma coisa só, eles poderiam dominar tudo e cobrar impostos da cidade e do crime organizado.“Quem liga para nós?” “Os inimigos são os adultos, que nos humilham” - Ismael possuía um ressentimento abaixo da superfície e conseguia manter seus “soldados” sempre carregados de ódio.

Depois de um discurso que motivou a todos, um grande mal entendido ocorreu no meio da multidão, causando brigas e um caos generalizado. Descobrimos então, que nem todos cumpriram a promessa de comparecer sem armas. Ouve-se um tiro e Ismael é atingido. A partir desse momento, acompanhamos a luta dos Dominadores para chegar em casa, em Coney Island.

Por favor, não faça isso no seu exemplar!

Enquanto o filme traz um aspecto quase romântico para a existência das gangues, no livro vemos essa realidade muito mais crua e cruel. Os membros de gangues não são homens adultos. Elas são formadas por adolescentes e pré-adolescentes, tentando mostrar força dentro do grupo, ganhando respeito e provando que não eram mais crianças. Parecia que a qualquer momento apareceria alguém falando como o Dadinho em Cidade de Deus: “Criança? Eu fumo, eu cheiro, já matei e já roubei. Sou sujeito homem!” A violência é algo catártico para eles. Não importando o tipo de violência, nem contra quem é cometida; nos lembrando, por muitas vezes, Alex DeLarge e seus druguis, em Laranja Mecânica.




Sem me aprofundar nos acontecimentos do livro, posso garantir que você pode mergulhar de cabeça na história. Você será envolvido pelo livro e terá sentimentos antagônicos em relação a alguns personagens e suas atitudes. Sem dúvida, uma leitura que vale muito a pena. Principalmente por ser a última peça que faltava no “universo” The Warriors, pelo menos aqui no Brasil.

Obs.: Hollywood já sinalizou algumas vezes que pretende fazer um remake do filme. Obrigado, mas não quero! Definitivamente, vai ser um filme que eu não vou querer ver. Prefiro ficar com o trailer feito por fãs:




Se você não assistiu o filme, não jogou o jogo, não leu o livro e não sabe por onde começar, pode fechar os olhos e escolher qualquer um sem medo. Você estará certamente muito bem acompanhado. Afinal de contas, os Guerreiros não são só bons, ou muito bons... eles são os melhores!

Então, vista seu colete de couro, coloque "Nowhere To Run" bem alto na vitrola e tente chegar à salvo em casa.



COME OUT TO PLAY!!!





sábado, 17 de setembro de 2016

CLUBE DA LUTA 2, de Chuck Palahniuk e Cameron Stewart, ou "Desculpe o transtorno, precisamos falar sobre Clube da Luta 2"

Por EDUARDO CRUZ








Sejam sinceros: quando Chuck Palahniuk anunciou a sequência de seu livro mais conhecido, “Clube da luta”, vocês sentiram um arrepio de medo, se perguntando “Pra quê?”, ou foi só eu? seria mais uma obra sofrendo do mal dessa década, essa urgência em se revisitar obras (comercialmente ou não) bem sucedidas da cultura pop e extrair mais algumas gotinhas de sangue da obra em questão, seja ela uma HQ, um filme ou um livro? ou ainda haveria sim algo mais a ser dito?


Calma, já respondo isso ali embaixo. Sigam comigo.


De volta à Paper Street...


Seja seu primeiro contato com Tyler Durden e sua sombra (ou seria o inverso?) através do livro, ou como no meu caso, do filme, “Clube da luta” foi uma obra explosiva, recebida com a intensidade de um soco no estômago, ou melhor seria dizer, um murro bem no meio do nariz, daqueles que enchem os olhos de lágrimas involuntárias, forçando a reavaliar a situação e repensar o terreno onde se está pisando, antes que o inevitável próximo murro chegue. O teor anarco-niilista da história cai como uma luva nesses tempos, onde o homem comum é cada vez mais esmagado e desumanizado por regras arbitrárias e sem sentido, e as instituições que guiam as massas nada têm a oferecer ao indivíduo senão modos de vida pré fabricados, que o encerram em seu próprio casulo de alienação, consumismo imponderado e conformidade. O personagem Tyler Durden, seu clube da luta, e um pouco mais à frente, seu projeto caos e destruição, partilham da mesma motivação: criar um mundo melhor a partir da destruição do mundo capitalista. Uma ruptura violenta. Para que o novo se instale, é preciso destruir o antigo. Uma alegoria que não poupa na violência e humor negro para transmitir sua mensagem: o homem precisa repensar a maneira com que se relaciona com o planeta, com o próximo e com si mesmo para continuar seu caminho evolucionário, seja ele qual for. Ou então não haverá caminho algum para ninguém. Niilismo, eu repito.





É ano de eleição!


“Clube da luta 2” se situa dez anos após os eventos do primeiro livro - ou filme - e o narrador/protagonista, sem nome na história original, agora conhecido como Sebastian é casado com Marla, a louca dos grupos de apoio. Os dois têm um filho, Júnior. Voltamos ao início do ciclo do primeiro “Clube da luta”: suas vidas são enfadonhas e sem sentido. A persona de Tyler Durden é mantida sob controle com muitos medicamentos. Muitos mesmo. A todo momento vemos pílulas e comprimidos “espalhados” nas páginas por sobre os desenhos, um recurso visual bacana para ilustrar a rotina química na cabeça de Sebastian. Porém, sem o conhecimento de Sebastian, Marla sabota sua medicação, e vemos que Tyler Durden nunca foi realmente embora, e ainda comanda suas ações do Projeto Desordem e Destruição mundo afora “cinquenta minutos, três vezes por semana, nos últimos dez anos…”, durante as consultas a seu psiquiatra, que libera Tyler com o auxílio de hipnose. Um belo dia dentro dessa rotina, acontece um incêndio criminoso, e lá se vão a casa, a mobília, e o Júnior. Exceto por um detalhe: o corpo encontrado nos escombros do incêndio não é o de Júnior, e sim de um dos seguidores de Tyler. Sebastian sabe disso porque Tyler sabe disso. Isso faz com que Sebastian volte à velha casa caindo aos pedaços na Paper Street, esperando na varanda junto a outros candidatos até ser admitido a se tornar um macaco do espaço, um dos recrutas de Tyler no Projeto Desordem e Destruição, se tornando um infiltrado na organização criada por seu alter ego, em busca do paradeiro de Júnior.





Paralelamente a isso, Marla também empreende sua busca por Júnior com o auxílio dos membros do grupo de apoio que ela frequenta, de portadores de síndrome de progeria (crianças com envelhecimento precoce, uma referência ao conto “Anos de cão”, de seu livro “Assombro” - conto esse com uma reviravolta igual ou mais intensa que a do famigerado “Vísceras”!), seguindo os rastros da organização de Tyler.


******** ATENÇÂO: Spoiler aqui!!!


Uma coisa bem interessante, se formos falar do lado bom de existir um “Clube da luta 2”, seria falar do que exatamente seria Tyler Durden. No primeiro livro, fica bem claro que Tyler é um transtorno mental desenvolvido pelo protagonista, uma segunda personalidade, que agia sem conhecimento ou consentimento dele. Em “Clube da luta 2”, Palahniuk foi mais além e lançou um conceito ousado, fazendo uma espécie de retcon de sua obra: Tyler seria um arquétipo, uma idéia transmitida de pai para filho dentro da família de Sebastian, um conceito tão forte, que sobreviveu à gerações de pessoas de carne e osso, indo parar no fim da linhagem, o filho de Sebastian! Tyler Durden é um meme vivo, uma idéia que cultiva pessoas para se perpetuar, e não o contrário.






Chuck reforça uma verdade que vemos por aí em muitas obras: idéias têm mais longevidade que seres humanos, personagens duram mais que seus criadores. Certamente a obra mais popular de Palahniuk suplantou seu criador - dizem que existem clubes da luta de verdade por toda parte! mas você não ouviu isso de mim rs - e ele brinca com isso em uma sequência à la Homem Animal de Grant Morrison, onde a criação encontra o criador, numa cena que é pura metalinguagem.





Criatura vs. Criador: onde já vi isso antes?

********* FIM DOS SPOILERS



Em “Clube da luta 2”, vemos uma sequência de situações, inclusive que se repetem ciclicamente em relação ao primeiro “Clube da luta”, como, além da destruição do lar do protagonista para marcar o início da jornada, os atos de destruição de patrimônio público e particular perpetrados pelos macacos espaciais (aqui veremos uma maneira simples e barata de profanar obras de arte em galerias com seus próprio fluidos corporais 8>0), e várias outras que, sem entregar tudo aqui, vão dar uma sensação de déjà vu em relação ao “Clube da luta” original. Foi como assistir ao novo filme das Caça fantasmas, e perceber que é basicamente a mesma história do original, com poucas diferenças, ou assistir o episódio VII de Star Wars e ver que é uma repaginação do episódio IV, com algumas modificações.





No primeiro livro, a revolução de Durden pregava a transformação do meio, mesmo que através de métodos radicais. Em “Clube da luta 2”, a revolução de Palahniuk nos convoca a uma transformação interna, subjetiva, o que denota-se pela quantidade de metáforas e sequências metalinguísticas e surreais, e que certamente não vão agradar à maioria dos leitores que esperavam a visceralidade e o texto cru do primeiro livro. Porém, a quem se propuser a passar por cima de quaisquer expectativas pré concebidas, pode encontrar suas próprias soluções e respostas em uma obra assim tão aberta. O retorno de personagens do primeiro livro, alguns aparentemente liquidados na trama do primeiro livro, como Robert Paulson, a paciente em estado terminal Chloe e o Cara de Anjo (no filme interpretado por Jared Leto) também é algo que levantou mais um “por quê??” durante a leitura, sinto dizer. No pior de tudo, valeu também pela experiência de, após ler tantos livros do Palahniuk, reconhecer a narrativa dele em uma HQ, sem perder sua característica e ver como ele aproveitou bem as possibilidades que uma HQ permite. Vejamos se ele volta a escrever algum roteiro de HQ no futuro. Em uma forma de arte complexa, em que o criador tem que controlar tanto as palavras quanto cada detalhe visual da cena, ele se saiu bem pra um novato na mídia.

A arte do excelente Cameron Stewart é um show à parte. Criou a caracterização de cada um dos personagens sem se ater aos traços físicos dos atores que os interpretaram no filme. Você sabe quem é cada um deles sem muito esforço. O que a Panini está fazendo que ainda não publicou “Seaguy” por aqui, a HQ que Stewart desenha em conjunto com o roteiro de Grant Morrison?


Jovem! se você compra gibis para ver tetas balançantes, essa é pra você!

Destaque também para as capas de David Mack, ilustrador conhecido principalmente por seu projeto autoral, “Kabuki”, e que fez as capas das séries “Demolidor” e “Alias” da Marvel Comics. Mack, com seu estilo único, é um desses artistas sui generis, aqueles impossíveis de imitar e que ao batermos o olho automaticamente sabemos de quem se trata, como ver um trabalho de Bill Sienckiewicz.


Capas de David Mack


A edição brasileira, da editora Leya, é o que eu e alguns amigos convencionamos chamar de “formato paraguaio”, algo maior que as dimensões de um livro comum e menor que o formato americano, 23cm x 15,5cm, pra ser exato. Capa cartonada e um papel couchê fosco. Além da mini série completa, essa edição nacional tem uma espécie de adendo ao primeiro clube da luta, onde algumas cenas chave são quadrinizadas, e o final do livro, mostrado em imagens pela primeira vez. Pra quem ficou confuso com aquele último capítulo na primeira vez em que leu o livro (como eu hehe ;>) ), falando sobre estar no “Céu” e “Deus” e seus diplomas na parede, agora está tudo ali, mastigado.


Eu particularmente vejo “Clube da luta”, tanto o livro quanto o filme, como o primeiro “Matrix”: uma história perfeitamente autocontida, com um final em aberto excelente, em que soube-se a hora exata de parar de contar a história. Na minha “cronologia pessoal”, assim como existe apenas “Matrix”, sem levar as continuações em conta, creio que vou adotar o mesmo protocolo com relação a “Clube da luta” heheheh


Entendeu ou quer que desenhe?

Então, respondendo à pergunta lá em cima, aqui na Zona disputamos em uma lutinha amigável pra ver quem faria essa resenha. Depois de perder 6 dentes, quebrar o dedo anelar da mão esquerda, fraturar três costelas, estirar o ligamento da patela, além de muitas luxações e hematomas, e de uma provável concussão, a honra da tarefa ficou para mim, o vencedor. Vendo por esse ângulo, acho que não valeu muito a pena. Mas, de qualquer forma, vocês deviam ver como ficou o outro cara...





Então é isso meus macaquinhos do espaço! para quem se dispuser a dar um confere em “Clube da luta 2”, não se esqueçam de raspar suas cabeças, preparar a mala com duas camisetas pretas, dois pares de calças pretas, um par de coturnos pretos, dois pares de meias pretas e um casaco preto pesado. Ah, e não se esqueçam também dos $300 para o seu funeral, e de não falar sobre isso.




quarta-feira, 7 de setembro de 2016

NAMELESS, de Grant Morrison e Chris Burnham, ou “O Manifesto Feminista de Mr. Morrison”




Por EDUARDO CRUZ



 Ler uma história em quadrinhos de Grant Morrison nem sempre é algo fácil. Esse roteirista escocês, conhecido por fazer parte da Invasão Britânica de roteiristas dos anos 80, raramente faz concessões à indústria de quadrinhos para formatar suas histórias, tornando-as mais acessíveis e palatáveis (leia-se mastigadas e superficiais) para o grande público, preferindo, ao invés disso andar na contra mão: forçando a fruição de histórias em quadrinhos a patamares não alcançados antes, utilizando recursos estilísticos de narrativa ousados e originais, quase como se quisesse formar novas gerações de leitores com HQs ainda mais estranhas do que as que ele próprio leu quando mais jovem. Morrison escreve como se quisesse, sozinho, derrubar todo o paradigma de como fazer (e ler) quadrinhos. Porém, uma vez que você se ajusta à freqüência vibracional do autor, suas histórias podem ser tão divertidas e recompensadoras quanto qualquer boa HQ que você já tenha lido e que não tenha as toneladas de loucura e (aparente) caos que o carequinha utiliza para veicular suas idéias.
         
"Espelho espelho meu, existe mago mais foda que eu?", pergunta Morrison. O espelho, sem querer se indispor com seu dono, permaneceu calado até o fechamento desse post.

          Lançado ano passado lá fora em uma mini série de seis edições pela Image Comics (mais conhecida atualmente como “Nova Vertigo” ;>) ), “Nameless” abre a história com Xibalba (o “local do medo” na mitologia maia), um gigantesco asteróide em rota de colisão com a Terra. Como se isso não fosse problema suficiente, o asteróide, de quilômetros de extensão, tem um símbolo místico esculpido em sua superfície, e já neste primeiro momento percebe-se que não se trata de um fenômeno tão natural ou aleatório quanto possa parecer a princípio.
 
Acontece que Xibalba é um fragmento do planeta perdido Marduk, o quinto planeta de nosso sistema solar, originalmente localizado entre Marte e Júpiter, e destruído há 65 milhões de anos no fim de uma guerra cósmica entre os habitantes de Marduk e “deuses” extradimensionais, imensamente poderosos, que repudiam todas as formas de vida (Olha os “Arcontes” de “Os Invisíveis” de novo aí, gente!). Uma guerra que ficou marcada em nosso inconsciente coletivo e que permanece registrada em nossa memória genética, de tão devastador que foi este evento, uma guerra entre o bem e o mal. Um ocultista freelancer conhecido apenas como “Sem nome” (porque conhecer o nome de algo é ter poder sobre aquilo. Um princípio básico da magia, que John Constantine, por exemplo, aprendeu amargamente em Newcastle) é recrutado por um consórcio de bilionários futuristas para uma missão desesperada. Junto com outros especialistas em diversas áreas, empreendem uma expedição ao asteróide para evitar a catástrofe que se aproxima, e no processo, desvendar seus mistérios, a proverbial curiosidade que matou o gato, e ao que parece, vai levar toda a humanidade junto.

Na dúvida, apele pros mitos de Cthulhu!

 À medida que se aproxima da Terra, Xibalba demonstra um domínio psíquico sobre todos em nosso planeta e também sobre os astronautas que estão a caminho de explorá-lo. O protagonista sem nome, como nós, leitores, é incapaz de distinguir pesadelo de realidade, e o efeito que essa narrativa provoca é desorientação, beirando o desconforto.

Alguém aí com saudades de "Crossed"???
 A partir daí, a expedição acaba despertando forças terríveis, mais precisamente um refém daquela guerra travada há milhões de anos, uma das criaturas, ainda aprisionada. A destruição do planeta Marduk foi o que assegurou o fechamento da passagem entre o nosso universo e o dos “deuses”. A única criatura do lado de lá que restou em nosso universo, jaz aprisionada no asteróide Xibalba, mas não completamente adormecida. Uma criatura incorpórea, de poder imensurável, imortal, onisciente e onipotente. Um ser que poderíamos chamar de... DEUS.

E nós estamos presos neste universo, sozinhos com Ele...

E dá-lhe referências ao Lovecraft....
          Seria muito tentador, com base na sinopse, reduzir “Nameless” a um mix de “Armageddon” mais “Gravidade” mais “O enigma do horizonte”, mas como é uma HQ da grife Grant Morrison, nada é o que parece ser na primeira leitura e rótulos superficiais e reducionistas tornam-se inúteis para “colocar na caixinha” esta excelente HQ.

Grant Morrison escolhe uns lugares estranhos pra guardar o frasco de desodorante...

 O próprio Morrison comentou, à época do lançamento da HQ que a história enveredaria por um tom pessimista e visceral, uma declaração de desprezo pela espécie humana, bem diferente do clima heróico e otimista que o autor já nos ofereceu em obras como “Grandes astros - Superman” ou “Happy”, por exemplo. Nas palavras do próprio Morrison:



Uma perturbadora viagem para os limites sem esperança do niilismo e da crueldade cósmica (...)

Nos meus quadrinhos de super-herói, eu tendo a ser uma líder de torcida do espírito humano, mas Nameless me dá a rara oportunidade de articular um longo e sarcástico desprezo pela nossa espécie, com suas egoístas e sentimentais ilusões suicidas, e sua ganância.”



         “Nameless” está para “Providence” assim como “Pax Americana” está para “Watchmen”. Eu explico: pros amiguinhos que curtem uma polarização, é notória a rixa entre o barbruxão Alan Moore e o carequinha Grant Morrison (na época ainda com seu corte de cabelo estilo Beatles), cujo pivô foi um Roteiro de Miracleman - que aliás, finalmente viu a luz do dia e chegou a sair aqui esse ano pela Panini no especial Miracleman Anual - que fez Moore dar um chega pra lá em seu aspirante a colega, na época. Esse ressentimento pela desancada de Moore à pessoa de Morrison parece refletir no trabalho e na escolha de temas de Morrison. Assim como ele aproveitou para escrever sua própria versão de “Watchmen” no Capítulo “Pax Americana” da mini série “The Multiversity”, agora ele envereda pelo horror cósmico com “Nameless”, mais ou menos na mesma época que Moore lançou sua própria mini série/carta de amor ao horror Lovecraftiano, “Providence”, pela Avatar Press. Coincidências? Claro que sim! Afinal o universo é regido por puro caos e não há um propósito definido para nada rs

         De minha parte, acho tudo isso uma grande bullshitagem. Os dois têm espaço garantido em minha estante (e em meu coraçãozinho negro kkkk). Moore e sua maestria como contador de histórias, assim como Morrison, também se mostra pleno de recursos narrativos que ajudaram esta mídia a crescer, dialogar com seu tempo e dar seus respiros ao longo dos anos.

Claro, como todo texto de Morrison, “Nameless” está recheado de referências obscuras, que exigem do leitor mais ávido, aquele que quer tirar aproveitamento máximo do trabalho, uma pesquisa paralela para se inteirar a respeito de termos e conceitos que o escocês maluco joga pra amarrar sua história. Conceitos como os mitos de Lovecraft, alfabeto Enoquiano, mitologia maia e polinésia, a cabala, e o mais interessante de tudo, feminismo! No apêndice de “Nameless”, ele expõe e explica várias passagens da HQ, o que ajuda a clarificar muita coisa e dar pelo menos um ponto de partida para pesquisas mais aprofundadas. Mais uma vez citando Morrison e sua conclamação ao fim do patriarcado:



“Na filosofia Gnóstica, Sofia ou Sophia (“sabedoria”) representa a fagulha de ignição do princípio divino feminino, aprisionada no universo material falsificado de uma consciência demiúrgica insana conhecida como Sabaoth, Ialdabaoth ou em alguns casos Samael, o deus cego. Este senhor da lama (matéria) delirante, desaprovador e ciumento é o ser a que tradicionalmente nos referimos como “Deus”.”

Sobre o significado da cena final da mini série, Morrison tira o véu da metáfora:

(...) Aqui vemos Maat, a Filha da Verdade, assumindo sua ascendência e tomando o controle das energias do Aeon, finalmente pondo um fim à miséria de seu irmão louco e belicoso.

Basicamente, esta HQ inteira é uma convocação às garotas para se erguerem, matarem o arquétipo de rock star-super herói-guerreiro e salvarem o mundo!”.

 


       Isso pode distrair e até espantar leitores incautos, aqueles que desconhecem o teor e o direcionamento do trabalho do Grant Morrison. O fato de Morrison usar muitas abstrações e o intervalo sonho/”realidade”, sempre entrecortado, como se fatiado e disposto em camadas ao longo dos capítulos, para evidenciar que a percepção do tempo para “Deus” não se dá da mesma forma que a percepção humana pode ser confuso até mesmo para os iniciados, o que exige uma segunda leitura a fim de organizar todo esse caos. Assim, esses recursos não utilizados habitualmente na maioria das HQs podem confundir e assustar quem está apenas atrás de uma história de terror. Mais hermético, impossível. Mas é assim que Morrison gosta. E nós aqui na Zona também.

Enfim, para os que estão acostumados ao estilo do Morrison de narrativa, vocês sabem onde estão se metendo e vai ser mais uma viagem divertida, e muito bem amparada por um artista muito detalhista e competente. Chris Burnham – que trabalhou anteriormente com Morrison em “Corporação Batman” - se equipara a monstros como Frank Quitely e Geoff Darrow. MAS ATENÇÃO! UM ALERTA AOS SENSÍVEIS: A arte de Chris Burnham, formidável, alcançou aqui, amparada no roteiro de Morrison, níveis de perversidade, grafismo e gore só vistos antes em “Crossed”, de Garth Ennis. Não estou exagerando. Estejam avisados.

Corporação Batman, trabalho anterior da dupla Morrison / Burnham

Ouch! Isso deve doer...

Promoção do ZN: encontre o Mickey Mouse e ganhe uma mariola! (Promoção válida enquanto durarem nossos estoques)

Gore, gore, gore...


No mais, tudo vai ficar bem. Pode confiar. Não, não olhe pra lua agora, tudo vai ficar bem....