sexta-feira, 17 de março de 2017

Trilogia "A SAGA DOS BRUTOS", de Ana Paula Maia


Por  RICARDO CAVALCANTI


Se tem uma coisa que a equipe do Zona Negativa sempre gostou, foi de procurar algo interessante fora do badalado mainstream. A satisfação em descobrir algo escondido embaixo de um monte de obras pasteurizadas que obedecem a uma fórmula de sucesso sempre foi recompensador.

Nem sempre tudo foi muito fácil de se conseguir como hoje em dia. Para se ter uma idéia, se você quisesse ouvir algo que não era tocado nas rádios, ou que aparecia nos programas dominicais na TV, você tinha que encarnar o seu espírito desbravador e sair à caça de lojas de discos que oferecesse algo além das obviedades.
Matéria sobre "De Gados e Homens", lançado na Itália


Com os filmes era a mesma coisa. Caso a locadora mais próxima da sua casa não te oferecesse opções além dos filmes que viriam a ser futuros títulos de Sessão da Tarde, o processo de descoberta era o mesmo. Isso, numa época em que as únicas opções eram as oferecidas pela TV aberta e a TV por assinatura era um privilégio para poucos.

Ler então... Se você não tivesse um bom faro e um bom sebo para garimpar, pouca coisa se conseguia encontrar de relevante. Não existia um caminho das pedras a ser seguido; cada um desenvolvia seu próprio caminho. Além do mais, era preciso usar muita sabedoria para gastar o pouco dinheiro em alguma coisa, já que na maioria das vezes, a gente acabava apostando no escuro. Não era um simples gasto, era como um investimento de alto risco.

Com o aumento do acesso à internet, tivemos um novo mundo se abrindo diante de nossos olhos. Conseguimos acesso a obras dos mais remotos cantos do mundo. Nesse sentido, muito nos ajudou o falecido Putrescine, que era uma fonte inesgotável de pérolas, prontas para serem descobertas, seja qual for o seu gosto. Tivemos a sorte de conseguir grande parte da filmografia sangrenta de Takashi Miike, da crueza do cinema de Takeshi Kitano, além de uma gama gigantesca de coisas sem noção, que é até difícil definir como o Batman filipino, Superman Turco, além de toda picaretagem do cinema produzido na Turquia e na Índia, que copiavam descaradamente as produções de Hollywood.
Matéria sobre "A Guerra dos Bastardos", lançado na Sérvia.


Hoje, graças ao Google, temos uma facilidade maior para encontrar qualquer coisa. Imaginamos que seria o fim da cultura de massa, que a polarização seria a nova forma de consumo de entretenimento, e que tudo estaria caindo no nosso colo, nos cabendo apenas o trabalho de escolher entre as diversas opções. Mas a sensação que se tem é de que sempre aparecem as mesmas coisas, ficando cada vez mais difícil encontrar algo que te impacte e valha realmente a pena.

Mas apesar de o espírito desbravador andar meio velho, cansado e um bocado preguiçoso, a empolgação de descobrir algo bom e que fuja das obviedades com que somos bombardeados, ainda está mais viva do que nunca. Nesse sentido, surgiu um nome de uma autora brasileira que me surpreendeu, não só pela sinopse de seus livros, mas também da reação de seus leitores.




Ana Paula Maia acabou atiçando minha curiosidade e resolvi conferir do que se tratava. Logo fui surpreendido por sua forma de escrita poderosa e extremamente pessoal. Na trilogia "A Saga dos Brutos", temos três histórias divididas em dois livros – "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos", de 2009 (que também tem a história “O Trabalho Sujo dos Outros") e "Carvão Animal", de 2011 - ambos pela editora Record. Seus personagens são embrutecidos pela vida. Não possuem questionamentos que os consomem; não fazem planos para a própria vida. São os bestializados, os excluídos, os marginalizados, os invisíveis perante a sociedade. Aquele que recolhe o lixo da sua casa por anos e anos e você não sabe nem o nome. Os que desentopem os bueiros e de quem ninguém quer chegar perto porque fedem.
Edição francesa de "Carvão Animal"

Ela possui uma escrita direta, sem floreios, sem rodeios, sem pudores. Suas histórias não possuem um final apoteótico, nem uma trama rebuscada que te dá um plot twist no final. Mas não significa que também não seja extremamente impactante.

A autora te insere em uma realidade dura e sem perspectivas. Em comum, seus personagens possuem o mesmo objetivo: sobreviver.
O juízo de valor, mostrando o quanto é reprovável como os personagens conduzem suas vidas e suas decisões (ou suas formas de pensar), poderia ser um caminho fácil a ser trilhado pela autora, mas Ana Paula não te induz, em nenhum momento, o que achar e o que sentir sobre os acontecimentos. Essa função fica a cargo do próprio leitor.

É uma leitura desaconselhável a pessoas sensíveis e que esperam sempre o lado bom da vida, ignorando as mazelas do dia a dia e tudo que não agrada aos sentidos. Como um aperitivo, segue um pequeno trecho de Carvão Animal, para se ter uma idéia do que se trata:

“A gordura funciona como combustível e aumenta a intensidade do fogo, sendo assim, uma pessoa magra demora mais para ser reduzida a cinzas do que uma gorda. O forno crematório atinge uma temperatura de até 1.000°C. Inclusive para os dentes é impossível resistir ao insuportável calor. A fila de corpos a serem cremados é sempre longa. São mantidos congelados até assarem no forno, e moídos os restos empedrados que são finalizados em cinzas de grãos uniformes e suaves.
Enquanto o corpo é carbonizado, as extremidades se contorcem e encolhem. O que já foi humano parece voltar-se para o lado de dentro. A boca escancara e se contrai. Os dentes saltam. “O rosto murcha e torna-se um grito suspenso de horror.”
Edição Sérvia de "De Gados e Homens"


Por conta de suas descrições de situações que podem gerar incômodo, algumas pessoas a comparam com Chuck Palahniuk. Apesar de suas histórias se encaixarem perfeitamente nos contos de Assombro, por exemplo, não acho que seria uma comparação justa. Acabaria a reduzindo a uma cópia; um pastiche. Mas se for para comparar, diria que suas histórias seriam algo como se Beto Brant filmasse com a violência dos filmes dirigidos por Mel Gibson e um bocado de Ruggero Deodato em Holocausto Canibal.


Edição alemã de "A Guerra dos Bastardos"
O personagem Edgar Wilson (recorrente em suas histórias) é a junção de Edgar Alan Poe com do personagem William Wilson, que dá nome a um dos contos do autor, revelando uma de suas influências.

Imagino como deva ser complicado para um autor nacional conseguir publicar alguma coisa por uma grande editora. É mais fácil investir no óbvio, que vai trazer lucro certo, do que apostar num novo nome e apresentá-lo aos seus leitores. Sem contar que o fato de ser mulher deve complicar ainda mais essa situação, enfrentando o machismo cada vez mais forte de homens inseguros e que vêem na mulher uma ameaça a.... sei lá o quê. Principalmente depois de constatarmos que estamos regredindo como sociedade nos últimos anos. Para se ter uma idéia dos obstáculos que uma mulher enfrenta, J. K. Rowling assinava assim para não saberem que era uma mulher escrevendo (só para citar um exemplo!).

Ana Paula Maia conquista seu espaço de forma imponente, com muito sangue e violência. Suas obras já foram publicadas em vários países como, Alemanha, Estados Unidos, Sérvia, França, Itália e Argentina. Mas apesar disso, ainda é relativamente pouco conhecida por aqui. Ou é pelos motivos mencionados no parágrafo anterior, ou é o nosso complexo de vira-latas falando mais alto. Talvez seja um bocado dos dois.

Em 2017 ainda teremos mais de Ana Paula Maia. O
filme Deserto - que foi roteirizado por ela - do diretor Guilherme Weber - e que já coleciona prêmios em vários festivais, deve entrar em circuito comercial ainda esse ano.  


No final de abril sai o seu novo livro, “Assim na Terra como Embaixo da Terra” - também pela editora Record - tratando do sistema carcerário. Com a sua maneira densa e forte de escrever, me expliquem: como não ficar ansioso para vê-la tocando nesse assunto?

Uma última pergunta... Onde eu estava que não a conheci antes?


quarta-feira, 15 de março de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #004 - "OS NOVE TRILHÕES DE NOMES DE DEUS", de Arthur C. Clarke






Esse post está mais para uma homenagem do que para um "Encheção de linguiça...", porque esse ano é o centenário de nascimento de Arthur C. Clarke. Bem, não vou me alongar quanto a quem foi Clarke porque o Ricardo C. já fez isso nesse post aqui. Essa foi a homenagem dele.


Clarke esperando pelo contato...

Segue agora a minha homenagem nesse post.

Publicado originalmente em 1967, "Os nove trilhões de nomes de Deus", esse é um conto que enfoca o velho diálogo ciência / religião. Foi publicado no Brasil em duas coletâneas: "Sobre o tempo e as estrelas" e "O outro lado do céu". Escrito em um fim de semana chuvoso, J. B. S. Haldane (geneticista e biólogo britânico comentou a respeito: "Você é uma das poucas pessoas vivas que escreveu algo original sobre Deus. Se você se propusesse a escrever uma hipótese teológica, você poderia ser um sério problema público!"


Então sem mais delongas, leiam esse excelente conto de um mestre da FC:





OS NOVE TRILHÕES DE NOMES DE DEUS


Arthur C. Clarke, 1967




O doutor Wagner conseguiu se conter. O negócio parecia lucrativo.

Depois disse:

- O seu pedido é um pouco desconcertante. Que eu saiba, é a primeira vez que um mosteiro tibetano faz encomenda de um calculador eletrônico. Não quero ser curioso, mas estava longe de pensar que semelhante instituição pudesse necessitar desta máquina. Posso perguntar-lhe em que deseja utilizá-la?

O lama ajeitou a saia da sua túnica de seda e pôs sobre a mesa a régua de calcular com a qual acabava de efetuar conversões libra-dólar.
- Com certeza. O calculador eletrônico tipo 5 pode fazer, segundo diz o catálogo, todas as operações matemáticas até 10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras, não números. Vou lhe pedir portanto que modifique o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de colunas de números.
- Não compreendo muito bem...
- Desde que a nossa instituição foi fundada, há mais de três séculos, que nos consagramos a um determinado trabalho. É um trabalho que pode parecer estranho e peço-lhe que me escute com a maior largueza de espírito.
- De acordo.
- É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes possíveis de Deus.
- Perdão?
O lama continuou imperturbavelmente:
- Temos excelentes motivos para crer que todos esses nomes incluem quando muito nove letras do nosso alfabeto.
- E ocuparam-se disso durante três séculos?
- Sim. Tínhamos calculado que precisaríamos de quinze mil anos para terminar o trabalho.
O doutor deu um assobio de vencido, e disse um pouco atordoado:
- OK, agora compreendo porque deseja alugar uma das nossas máquinas. Mas qual é o objetivo da operação?
Durante um fração de segundo o lama hesitou e Wagner receou ter ofendido aquele estranho cliente que acabava de fazer a viagem Lassa - Nova York com uma régua de calcular e o Catálogo da Companhia dos Calculadores Eletrônicos na algibeira da sua túnica cor de açafrão.
- Chame isto de um ritual, se quiser - disse o lama -, mas é uma das bases fundamentais da nossa religião. Os nomes do Ser Supremo, como seja Deus, Júpiter, Jeová, Alá, etc., não passam de etiquetas feitas pelos homens. Certas considerações filosóficas, demasiado complexas para que as possa expor agora, deram-nos a certeza de que, entre todas as permutas e possíveis combinações de letras, se encontram os verdadeiros nomes de Deus. Ora, o nosso objetivo é descobri-los e escrevê-los todos.
- Já compreendo: Começaram por AAAAAAAAA, e acabarão por chegar a ZZZZZZZZZ.
- Simplesmente utilizamos o nosso alfabeto. Evidentemente que será fácil para você modificar a máquina de escrever elétrica, de forma que ela utilize o nosso alfabeto. Mas um problema mais importante será o de preparar os circuitos especiais de forma que eliminem antecipadamente as combinações inúteis. Por exemplo, nenhuma das letras deve aparecer mais de três vezes sucessivamente.
- Três? Quer dizer duas.
- Não. Três. Mas a explicação completa exigiria imenso tempo, mesmo se o senhor compreendesse a nossa língua.
Wagner disse precipitadamente:
- Claro, claro. Siga, por favor.
- Vai ser fácil para adaptar o calculador automático em função deste objetivo. Com um plano bem elaborado, uma máquina desse gênero pode trocar as letras umas a seguir às outras e imprimir um resultado. Desta forma - concluiu calmamente o lama -, aquilo que nos levaria ainda quinze milênios estará terminado em cem dias.
O doutor Wagner sentia que ia perdendo o sentido das realidades. Através das janelas do edifício, os ruídos e as luzes de Nova York perdiam a intensidade. Sentia-se transportado a um mundo diferente. Lá longe, no seu longínquo asilo montanhoso, geração após geração, os monges tibetanos há trezentos anos que elaboravam uma lista de nomes desprovidos de sentido... Não havia então limite para a loucura dos homens? Mas o doutor Wagner não devia deixar transparecer os seus pensamentos. O cliente tem sempre razão...
E respondeu:
- Não duvido que possamos modificar a máquina tipo 5, de forma a imprimir listas desse gênero. A instalação e a conservação é que mais me inquietam. Aliás, não será fácil enviá-la para o Tibete.
- Nós trataremos disso. As peças separadas têm dimensões suficientemente pequenas para serem transportadas por avião. De resto, foi esse o motivo por que escolhemos a máquina. Enviem as peças para a Índia, que nós nos encarregaremos do resto.
- Deseja contratar dois dos nossos engenheiros?
- Sim, para montarem e vigiarem a máquina durante cem dias.
- Vou mandar as instruções à direção do pessoal - disse Wagner enquanto escrevia no bloco de notas. - Mas restam duas questões a resolver...
Antes que tivesse podido terminar a frase, o lama tirou do bolso uma delgada folha de papel:
- Esta é a posição certificada da minha conta no Banco Asiático.
- Muito obrigado. Está muito bem... Mas, se me permite, a segunda questão é de tal maneira elementar que hesito em mencioná-la. Acontece muitas vezes esquecermos qualquer coisa evidente... Têm uma fonte de energia eléctrica?
- Temos um gerador a diesel elétrico de 50 KW de potência. Foi instalado há cinco anos e funciona bem. Facilita-nos a vida no convento. O compramos sobretudo para acionar os moinhos de orações.
- Ah!, sim, evidentemente, eu devia ter pensado nisso....


Do parapeito a vista era vertiginosa, mas habituamo-nos a tudo.
Tinham decorridos três meses e George Hanley já não se impressionava com os 600 metros em vertical que separavam o mosteiro do quadriculado dos campos da planície. Apoiado sobre pedras que o vento arredondara, o engenheiro contemplava com olhar triste as montanhas longínquas de que ignorava o nome. "A operação nome de Deus", como a batizara um humorista da Companhia, era sem dúvida a pior tarefa de louco em que jamais participara.
Semana após semana, a máquina tipo 5, modificada, cobrira milhares de folhas de uma terrível algaravia. Paciente e inexorável, o calculador reunira as letras do alfabeto tibetano em todas as combinações possíveis, esgotando série após série. os monges recortavam certas palavras à saída da máquina de escrever elétrica e colavam-nas com devoção em enormes registros. Dentro de uma semana acabariam.
Hanley ignorava quais seriam os obscuros cálculos que os tinham feito chegar à conclusão de que não deviam estudar conjuntos de dez, vinte, cem, mil letras, e nem pretendia sabê-lo. Nos seus pesadelos sonhava por vezes que o grande lama decidira bruscamente complicar um pouco mais a operação e que o trabalho continuaria até ao ano 2060. Aliás, aquele estranho homenzinho parecia perfeitamente capaz de o fazer. A pesada porta de madeira soou. Chuck vinha ter com ele ao terraço. Chuck fumava, como de costume, um charuto; tornara-se popular entre os lamas distribuindo-lhes "Havanas". Aqueles tipos podiam ser completamente amalucados - pensou Hanley -, mas não eram puritanos. As frequentes expedições à aldeia não tinham sido desprovidas de interesse...
- Ouça, George - disse Chuck -, vamos ter aborrecimentos.
- A máquina escangalhou?
- Não.
Chuck sentou-se sobre o parapeito. Era espantoso, pois habitualmente receava ter vertigens:
- Acabo de descobrir o objetivo da operação.
- Mas já o sabíamos!
- Sabíamos o que os monges queriam fazer, mas não sabíamos porquê.
- Bah!, são uns loucos...
- Escute, George, o velho acaba de me explicar. Eles crêem que assim que tenham escrito todos aqueles nomes (e segundo pensam são cerca de nove trilhões), o objetivo divino será atingido. A raça humana terá realizado a tarefa para que foi criada.
- Então, e depois? Esperam que nos suicidemos?
- Inútil. Quando a lista estiver terminada, Deus intervirá e será o fim.
- Quando terminarmos, será então o fim do Mundo?
Chuck teve um risinho nervoso:
- Foi o que eu disse ao velho. Ele olhou-me de uma forma estranha, como um professor olha para um aluno particularmente estúpido, e disse-me: "Oh, não será assim tão insignificante!..."
George refletiu um instante:
- É um sujeito que visivelmente tem uma idéia fixa, mas, mesmo assim, que importância tem isso? Nós já sabíamos que eram uns loucos.
- Sim. mas não vê o que pode acontecer? Se a lista fica pronta e se as trombetas do anjo Gabriel, versão tibetana, não tocam, eles podem decidir que é por nossa culpa. No fim das contas, era a nossa máquina que eles utilizavam. Não gosto disto...
- Entendo - disse lentamente George -, mas eu já vi tanta coisa! Quando era garoto na Louisiana, apareceu um pregador que anunciou o fim do Mundo para o próximo domingo. Houve centenas de pessoas que acreditaram nele. Alguns chegaram a vender as suas casas. Mas ninguém se enfureceu no domingo seguinte. As pessoas pensaram que ele apenas errara um pouco os cálculos, e muitas delas ainda acreditam nele.
- Caso não tenha percebido isso, chamo-lhe a atenção para o fato de que não estamos na Louisiana. Estamos os dois sozinhos, no meio de centenas de monges. Eu adoro eles, mas preferia estar longe quando o velho lama perceber que a operação falhou.
- Há uma solução. Uma pequena sabotagem inofensiva. O avião chega dentro de uma semana e a máquina acaba o trabalho dentro de quatro dias, à razão de 24 horas por dia. Basta começar a reparar qualquer coisa durante dois ou três dias. Se calcularmos bem, podemos estar lá em baixo, no aeroporto,quando o último nome sair da máquina.


Sete dias mais tarde, enquanto os pequenos pôneis das montanhas desciam o caminho em espiral, Hanley disse:
- Sinto um pouco de remorso. Não fujo por medo, mas porque me dá pena. Não gostaria de ver a cara daqueles pobres homens quando a máquina parar.
- Na minha opinião - disse Chuck -, eles desconfiaram que fugimos, o que os deixou indiferentes. Agora já sabem até que ponto a máquina é automática, e que não precisa de vigilância. E supõem que não haverá nenhum depois.
George voltou-se para trás e olhou.
Os edifícios do mosteiro apareciam em silhueta escura sobre o poente. De vez em quando brilhavam pequeninas luzes sob a massa sombria das muralhas, como as vigias de um navio singrando no mar. Lâmpadas elétricas colocadas sobre o circuito da máquina nº 5.
Que aconteceria ao calculador elétrico? - pensou George. - Na sua fúria e desapontamento os monges iriam destruí-lo? Ou então recomeçariam tudo?
Como se ainda estivesse lá, via o que naquele momento se passava sobre a montanha atrás das muralhas. O grande lama e os seus assistentes examinavam as folhas, enquanto alguns noviços recortavam os nomes barrocos e os colavam no enorme caderno. E tudo aquilo era feito em religioso silêncio. Só se ouviam as teclas da máquina, batendo no papel como se fosse chuva miúda. O próprio calculador, que combinava milhares de letras por segundo, estava completamente silencioso...
A voz de Chuck interrompeu o seu devaneio:
- Lá está ele! Que alegria ver isso!
Semelhante a uma minúscula cruz prateada, o velho avião de transportes DC3 acabava de pousar lá em baixo na pequena pista improvisada. Aquela visão dava vontade de beber um grande copo de whisky gelado. Chuck começou a cantar, mas depressa se calou. As montanhas não o encorajavam.
George consultou o relógio.
- Estaremos lá dentro de uma hora - disse. E acrescentou: - Acha que o cálculo já terminou?
Chuck não respondeu e George levantou a cabeça. Viu o rosto de Chuck muito branco, voltado para o céu.
- Olha - murmurou Chuck.
George, por sua vez, levantou os olhos.
Pela última vez, por cima deles, na paz das alturas, uma a uma as estrelas começavam a extinguir-se...





quinta-feira, 9 de março de 2017

CHOQUES FUTURISTAS, de Alan Moore, ou "O antes de Watchmen que vale!"






Por EDUARDO CRUZ


Alan Moore: O Mago Supremo.
Ilustração de Caio Oliveira
Alan Moore: Mago Supremo das Tretas, Messias e Salvador dos comics nos anos 80, Pai-de-Watchmen, Sacerdote do Deus-Cobra Glycon, Reverendo Prometéico, Bruxo Suburbano... Os epítetos que poderíamos imputar ao Barbruxão de Northampton são muitos, já que Moore não construiu apenas uma carreira, mas também todo um status de lenda em torno de si. Seu trabalho, seja em editoras grandes, como Marvel e DC, ou em editoras menores e até os publicados de forma independente são com freqüência elogiados, e em sua maioria, acima da média do que a indústria produz. Moore sempre explorou o potencial máximo que os quadrinhos poderiam oferecer como mídia, muitas vezes contando histórias de maneira não convencional, em verdadeiras demonstrações geniais de desconstrução, pensamento lateral, exprimindo passagens de tempo fora de modelos convencionais, etc. Um roteirista desse calibre costuma despertar um interesse tão grande por parte dos leitores que quando nos damos conta estamos pesquisando a bibliografia do indivíduo, procurando o que mais ele produziu além do que já conseguimos ler aqui e ali. Pois bem, a Mythos Books, para alegria os arqueólogos Mooreanos, escavou os primórdios da carreira do Rouxinol de Northampton na 2000A.D., a revista britânica seminal, que revelou muitos talentos para o resto do mundo. Gente boa como Grant Morrison, Peter Milligan, Jamie Delano, Garth Ennis, Mark Millar - só pra mencionar os mais populares - já foram roteiristas da casa. Antes da 2000 A.D., Moore só havia escrito para fanzines próprios ou como convidado de outros, e também para a revista britânica Sounds, onde fazia resenhas, entrevistas e tiras que ele próprio desenhava.



A 2000A.D. sempre teve suas séries longas e suas pequenas antologias de histórias curtas, e para o novato Moore sobrou a segunda opção, uma vez que os editores da revista nunca davam uma série longa a roteiristas e desenhistas iniciantes, preferindo deixá-los com algo menor, e que obviamente, na condição de novatos, pudessem ter maior controle, narrativamente falando. 
"Roteiristas e desenhistas começavam as carreiras com histórias fechadas, geralmente de duas a cinco páginas. A maioria dos gibis britânicos tinha espaço para histórias desse tipo, nem tanto pelo espaço que dava aos editores para testar novos talentos, mas por permitir um cronograma mais flexível do que a lista de atrações regulares. Na 2000 AD, essas histórias eram publicadas sob os títulos Choques Futuristas e Distorções Temporais. Futuros escritores de renome, como Neil Gaiman, Grant Morrison e Peter Milligan, fariam sua estréia na 2000 AD escrevendo choques futuristas; era assim que a maioria dos escritores e desenhistas conseguia uma chance na revista." (PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.65)
Desde sempre ousando novos formatos: a página como um dispositivo de tradução




Entre essas seções antológicas de histórias curtas da revista, haviam os Choques Futuristas de Tharg, contos com foco em ficção científica – a alma da 2000 A.D.! –, os Contos Robóticos do Ro-Bocão, uma espécie de Black Mirror com uma pitada de humor negro, e as Distorções Temporais, que como o próprio nome sugere, são contos sobre viagens e paradoxos temporais. Além disso, Moore também já dava o passo seguinte rumo a narrativas mais prolongadas com seu personagem Abelard Snazz, o homem com cérebro duplex, e suas desventuras universo afora. Entre 1980 a 1984, Moore produziu histórias dentro dessas seções na revista, e são essas histórias que o encadernado da Mythos Books compila em sua totalidade. Boa parte dessas histórias curtas saiu anteriormente no Brasil ao longo das vinte e poucas edições da Juiz Dredd Megazine, que a Mythos publicava mensalmente por aqui. O encadernado reúne essas e mais as que não chegaram a ser publicadas por conta do cancelamento da revista.

"Moore tinha uma ambição evidente na 2000 AD: "Na época, eu queria muito, mas muito ter uma série regular. Eu não queria mais curtas. Queria uma série regular, contínua, que rendesse grana fixa. Mas não era o que me passavam. O que me passavam eram histórias de quatro ou cinco páginas nas quais tudo tinha que se resolver naquelas cinco páginas. Em retrospecto, foi a melhor instrução que eu podia ter em termos de construir trama." Moore passou a saborear o desafio de criar novas reviravoltas e estruturas de trama ainda mais elaboradas: "Eu percebi que, depois de alguns anos numa tira semanal que eu fazia, era quase obrigação você aprender a contar uma história em série... Eu havia aprendido a mecânica de contar a história sob encomenda, toda semana, de um jeito que fosse minimamente interessante para manter o leitor entretido e para impedir que o editor a substituísse por algo mais comercial."" (PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.77)






Posteriormente, Moore assumiu a autoria de séries mais longas na revista, e outros materiais dessa mesma época publicados na 2000 A.D. e na Warrior incluem "The Bojeffries Saga", “A Balada de Halo Jones“ (já publicada pela Mythos), “Skizz” e “D.R. & Quinch” (esses dois serão relançados ainda esse ano em volume único!), mas isso é assunto pra outro post ;>).



Não queria ser polêmico, mas esse conto é idêntico ao conto "Caminhões", de Stephen King rs

Com plot twists inspiradíssimos em “Além da Imaginação”, de botar no chinelo até M. Night Shyamalan e com muito humor (algo que Moore deixou um pouco de lado ao longo dos anos), “Choques Futuristas” é um material pros mais diversos gostos, alternando de comédia a ficção científica ao horror, algumas vezes com dois ou mais desses elementos na mesma história, harmoniosamente. Subvertendo clichês e distorcendo a percepção do leitor, Moore nos conduz durante a história, para no final concluir sempre na contramão de tudo que ele levou o leitor a crer até aquele momento, e mesmo um final perturbador é divertido demais. Viradas inteligentes na trama, onde o herói é o escroque, e o monstro não é quem fomos levados a crer a princípio. Onde um cientista de um planeta moribundo envia seu filho em um foguete à Terra, mas o que acontece em seguida é diferente da história que conhecemos Desde Crianças. O conto em formato de fábula sobre um menino glutão que encontra estranhos visitantes. Ou a história do homem reversível, que vive sua vida do momento de sua morte até seu nascimento, nessa ordem! Ou ainda o estranho invasor alien, que nada mais é do que uma idéia que se espalha, infectando as mentes humanas.

Tanto nos Choques futuristas como nas Distorções temporais Moore utiliza conceitos científicos (se eu fosse professor de física, leria o conto sobre entropia e a segunda lei da termodinâmica em sala de aula!) de forma fantástica e profunda, e em certos momentos a piração científica com enredo inteligente, ácido e jocoso lembra muito a animação Rick & Morty.



E também tem Abelard Snazz, um supergênio mutante, com um cérebro de dois andares. O aspecto mais divertido das histórias de Abelard Snazz é que seus apuros, causados sempre por seu enorme ego, aumentam de proporção em relação à última história, em um crescendo onde só mesmo o Dr. Manhattan poderia prever até onde Moore levaria o personagem se tivesse continuado a escrevê-lo por mais tempo.
"Moore descobriu que conseguia criar algumas histórias contínuas dentro do formato de história fechada: "Eu queria muito fazer um personagem que tivesse continuidade. Se você recebia essas curtas com regularidade, uma das opções que se tinha era criar um personagem fixo ou outra forma de continuidade que conectasse as curtas. Em 2000 AD eu havia feito algumas histórias com um personagem chamado Abelard Snazz, 'O Homem do Cérebro Duplex'. Era baseado numa ilusão ótica que eu havia visto de um homem com dois pares de olhos, uma imagem perturbadora." Se fosse bem-aceito, quem sabe ele até podia virar série: "Se eu conseguir apresentar um personagem que ganhe popularidade e conseguir conectar estas histórias pequenas de forma que elas constituam uma narrativa maior, para mostrar que eu consigo dar conta... de um arco maior, então quem sabe isso renda trabalho no futuro. Creio que tenha sido esse o raciocínio mercenário e simplório por trás da estratégia.""(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.78)



Como se Alan Moore não fosse o suficiente para tornar esse “Choques Futuristas” uma pérola, não posso me esquecer de citar os artistas que colaboraram ilustrando as histórias, algumas lendas dos desenhistas britânicos no meio: Steve Dillon, John Higgins, Alan Davis, Bryan Talbot, Dave Gibbons, Garry Leach, Brendan McCarthy....

Quem se habilita??? Ouvi dizer que o salário é bom.

Um volume que agrada tanto a fãs especificamente de Alan Moore como também a fãs de ficção científica em geral, “Choques Futuristas” é divertido e despretensioso, e é um registro de que os primeiros passos do Bruxão já eram bastante inspirados, e foi na 2000 A.D. que ele começou a aprender as manhas de seu ofício e soltar a imaginação em vôos muito maiores...

O resto, como dizem, é história! E quanta história!

Ilustração por Alex Ross

"Não vou dizer que fiz um serviço ótimo, mas parece que funcionou. E essa é a melhor maneira de aprender a escrever: comece com algo que você considera muito pequeno para render uma boa história e aí descubra uma maneira de contar uma boa história dentro desse espaço."(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.65)




terça-feira, 7 de março de 2017

MISSIONÁRIO: LUA DE SANGUE, de Gordon Rennie, Frank Quitely e Garry Marshall, ou “Expulsando o Satanás NA BALA!!!”

Por EDUARDO CRUZ





O Pastor Cain, também conhecido como “Missionário”, surgiu nas páginas da “Judge Dredd Megazine”, uma publicação que conta histórias de personagens periféricos ambientadas neste universo do Juiz Dredd, em 1993, até que em 1998 migrou para a revista 2000 A.D. Weekly. Uma espécie de Texas Ranger, o Pastor prega a justiça e a palavra divinas enquanto vagueia pela Terra Maldita, a grande área desolada fora das Mega Cidades dos Juízes, colocando os descrentes na linha com uma bíblia e duas armas enormes nos coldres. Assim como os Juízes, Pastor Cain mantém a lei e a ordem entre os mutantes e os excluídos, mas de maneira, digamos, um tanto mais rústica que nas Mega Cidades. O Reverendo tem uma característica bastante peculiar: enxerga seu trabalho como uma missão que lhe foi designada pelo próprio Deus todo poderoso, e entre facadas, bíblias explosivas e muitos, mas muitos tiros, Cain sempre cita passagens bíblicas enquanto trabalha para promover o encontro dos ímpios com o criador. Uma idiossincrasia que lembra bastante o personagem principal de “Apenas um Peregrino”, criação de Garth “Preacher-Hellblazer” Ennis. Ambos os personagens são bem semelhantes nesse sentido, então se você gosta de um, certamente vai curtir o outro.







Esse volume de “Missionário: Lua de sangue”, lançado pela Mythos Books aqui no começo desse ano, compila as primeiras histórias do personagem, a maior parte delas desenhadas por um Frank Quitely (Os Invisíveis, Novos X-Men, Batman & Robin, WE3, Watchmen por GrantMorrison ;>)) em início de carreira, mas já ostentando toda a perícia e detalhismo que faz a fanboyzada babar ao redor do globo. Além de Quitely, nesse volume temos artes de Garry Marshall, porém mais da metade do encadernado de 112 páginas é com a arte de Frank Quitely. Se você fez como eu, e comprou porque 1) É leitor de Juiz Dredd e da 2000 A.D. em geral e 2) é entusiasta do gênio Quitely, não vai se arrepender em nenhuma das circunstâncias. Para quem leu pouca coisa de Juiz Dredd, mas conhece o básico, como o que são as Mega-Cidades e a Terra maldita, também vai curtir a leitura sem a impressão de ter caído de pára quedas no meio da história. Na verdade, assistir aos cinco primeiros minutos do excelente Dredd (2012) já basta. Não, pelamordedeus, não o do Stallone......


Arte de Garry Marshall






Para quem não se sente desconfortável ou se escandaliza quando o assunto é religião, “Missionário: Lua de Sangue” é diversão garantida. A crítica às instituições cristãs, do jeitinho cheio de humor negro e cinismo extremo que só os britânicos sabem fazer, mesclada à violência gráfica, que é marca registrada das HQs do Juiz Dredd, ilustrada por um dos grandes desenhistas de quadrinhos em atividade atualmente, com os hilários e ultraviolentos sermões especiais do Reverendo Caim para levar à frente sua missão contra o maligno, tudo isso embalado nos moldes de um grande faroeste pós-apocalíptico. É o que você encontra nesse volume. Agora, se você é cristão e não é a favor de armas de fogo e explosivos para espalhar a palavra da salvação, pode continuar com o método tradicional de agressão cristã mesmo: