terça-feira, 7 de março de 2017

MISSIONÁRIO: LUA DE SANGUE, de Gordon Rennie, Frank Quitely e Garry Marshall, ou “Expulsando o Satanás NA BALA!!!”

Por EDUARDO CRUZ





O Pastor Cain, também conhecido como “Missionário”, surgiu nas páginas da “Judge Dredd Megazine”, uma publicação que conta histórias de personagens periféricos ambientadas neste universo do Juiz Dredd, em 1993, até que em 1998 migrou para a revista 2000 A.D. Weekly. Uma espécie de Texas Ranger, o Pastor prega a justiça e a palavra divinas enquanto vagueia pela Terra Maldita, a grande área desolada fora das Mega Cidades dos Juízes, colocando os descrentes na linha com uma bíblia e duas armas enormes nos coldres. Assim como os Juízes, Pastor Cain mantém a lei e a ordem entre os mutantes e os excluídos, mas de maneira, digamos, um tanto mais rústica que nas Mega Cidades. O Reverendo tem uma característica bastante peculiar: enxerga seu trabalho como uma missão que lhe foi designada pelo próprio Deus todo poderoso, e entre facadas, bíblias explosivas e muitos, mas muitos tiros, Cain sempre cita passagens bíblicas enquanto trabalha para promover o encontro dos ímpios com o criador. Uma idiossincrasia que lembra bastante o personagem principal de “Apenas um Peregrino”, criação de Garth “Preacher-Hellblazer” Ennis. Ambos os personagens são bem semelhantes nesse sentido, então se você gosta de um, certamente vai curtir o outro.







Esse volume de “Missionário: Lua de sangue”, lançado pela Mythos Books aqui no começo desse ano, compila as primeiras histórias do personagem, a maior parte delas desenhadas por um Frank Quitely (Os Invisíveis, Novos X-Men, Batman & Robin, WE3, Watchmen por GrantMorrison ;>)) em início de carreira, mas já ostentando toda a perícia e detalhismo que faz a fanboyzada babar ao redor do globo. Além de Quitely, nesse volume temos artes de Garry Marshall, porém mais da metade do encadernado de 112 páginas é com a arte de Frank Quitely. Se você fez como eu, e comprou porque 1) É leitor de Juiz Dredd e da 2000 A.D. em geral e 2) é entusiasta do gênio Quitely, não vai se arrepender em nenhuma das circunstâncias. Para quem leu pouca coisa de Juiz Dredd, mas conhece o básico, como o que são as Mega-Cidades e a Terra maldita, também vai curtir a leitura sem a impressão de ter caído de pára quedas no meio da história. Na verdade, assistir aos cinco primeiros minutos do excelente Dredd (2012) já basta. Não, pelamordedeus, não o do Stallone......


Arte de Garry Marshall






Para quem não se sente desconfortável ou se escandaliza quando o assunto é religião, “Missionário: Lua de Sangue” é diversão garantida. A crítica às instituições cristãs, do jeitinho cheio de humor negro e cinismo extremo que só os britânicos sabem fazer, mesclada à violência gráfica, que é marca registrada das HQs do Juiz Dredd, ilustrada por um dos grandes desenhistas de quadrinhos em atividade atualmente, com os hilários e ultraviolentos sermões especiais do Reverendo Caim para levar à frente sua missão contra o maligno, tudo isso embalado nos moldes de um grande faroeste pós-apocalíptico. É o que você encontra nesse volume. Agora, se você é cristão e não é a favor de armas de fogo e explosivos para espalhar a palavra da salvação, pode continuar com o método tradicional de agressão cristã mesmo: 






sexta-feira, 3 de março de 2017

ASSOMBRO, de Chuck Palahniuk, ou "A câmera atrás da câmera atrás da câmera..."

Por EDUARDO CRUZ







"Ela dizia que algumas histórias vão se desgastando ao serem contadas. Esse tipo de história perde logo o efeito dramático, e cada versão parece mais boba e insossa. Já histórias de outro tipo vão desgastando a gente. Quanto mais são contadas, mais fortes ficam. Esse tipo de história só nos lembra de como fomos idiotas. Somos. Sempre seremos."



Existe um livro de Chuck Palahniuk intitulado "Mais estranho que a ficção" (Editora Rocco, 2011), que traz uma série de ensaios, crônicas e perfis com enfoque jornalístico, ou sejE, somente casos 100% reais em suas páginas, inclusive sobre o próprio autor. Pois bem, em um desses ensaios, chamado "Você está aqui", Palahniuk fala sobre eventos realizados em saguões de hotéis, conferências de escritores onde por módicos 50 dólares você dispõe de um tempo que pode variar de 7 a 10 minutos de frente para um agente literário, ou editor, ou executivo de TV ou cinema, e tentar vender seu livro ou roteiro de filme, para capitalizar em cima de uma história de sofrimento pessoal, porque afinal de contas as pessoas adoram uma história de superação "baseada em fatos reais". Uma história de desafio e triunfo sobre as adversidades. E você pode vender os direitos para a Fox, Warner, ou Netflix. Pode ser que Meryl Streep ou Tom Cruise sejam escalados para lhe representar na história da sua vida. E você tem de convencer o executivo na mesa em apenas sete minutos que sua história de abuso sexual durante sua infância ou seu relacionamento de 10 anos com um marido violento valem o investimento. Como naquele programa de antiguidades da TV por assinatura: Pode ser que você tenha um tesouro... ou apenas lixo.

Chuck Palahniuk

Em "Assombro", Palahniuk - é, aquele mesmo de "Clube da Luta"! - parece pegar esse fato e distorcê-lo um pouquinho (mentira, bastante!) em seu mote, onde alguns aspirantes a escritores, após responder a um anúncio misterioso, ingressam em um retiro para artistas, com a promessa de, em 3 meses, saírem de lá com sua obra prima! sem as distrações do mundo real e da rotina do trabalho ou família, todos poderiam focar em produzir um lindo pedaço comercializável de suas próprias almas, na forma de uma história, uma canção, uma pintura... 

Acontece que os internos do retiro acham tudo que produzem muito aquém do esperado, e decidem sabotar sua estada no retiro, criando sua própria história de dificuldade e superação, isolando-se a ponto de fazer o retiro se tornar um cativeiro, seus monitores serem descritos como carrascos, e por aí vai. A coisa escala até um ponto em que, imaginando o melhor e mais impactante modo de conquistar seu futuro público, os escritores em potencial começam a jejuar, não tomar mais banho e chegam às raias do canibalismo e automutilação, tudo na intenção de, quando forem "resgatados", conseguirem passar o máximo possível de credibilidade na história do calvário pelo qual passaram, o que culmina em passagens repletas do humor negro grotesco e violência, além do niilismo e visceralidade, que são as marcas registradas do autor. 

À medida que as semanas passam e as penúrias autoimpostas aumentam, os contos também evoluem no teor de macabro e grotesco, e por isso os dizeres "Um romance de contos" na capa, percebem? Palahniuk delineia crônicas de nossos tempos de loucura globalizada entre as diversas camadas dos contos de "Assombro", e nos mostra até onde as pessoas são capazes de ir em busca de sucesso, seja lá o que essa palavra signifique para cada um. Através dos contos narrados descobrimos também como cada personagem foi parar no retiro de escritores, sua própria derrocada pessoal.


Os Contos são:

  • Tripas (por São Sem-Pança) - Um conto sobre os perigos do amor próprio quando executado de forma excessivamente criativa, e imprudente, e como o poder do tabu pode acabar com a poupança da faculdade de um adolescente curioso. Conto completo nesse post. Quem tiver estômago para ler esse conto, aguenta o restante do livro rs...
  • Pé ante pé (por Mãe Natureza) - Um conto sobre como qualquer coisa da Nova Era pode ser transformada em uma ferramenta mortífera, desde o feng shui e a cristaloterapia até a acupuntura, e sobre como até massagens nos pés podem te fazer gozar... ou te matar.
  • Sala Verde (por Miss América) - Esse conto pisa um pouco no freio ao esmiuçar a realidade de vendedores itinerantes de produtos inúteis em programas de TV locais, desses que ficam anunciando suas tranqueiras em um bloco de programa de TV, e sobre como uma manchete inesperada em rede nacional pode arruinar seu jogo. Parece chato, mas tem todos aqueles detalhes crus que Palahniuk costuma retratar, em uma profissão aparentemente banal. Esse conto é meio morno, mas serviu para contextualizar a personagem dentro da trama principal.
  • Favelando (por Lady Mendiga) - Um conto sobre milionários entediados que se disfarçam de moradores de rua porque, segundo eles, "A pobreza é a nova nobreza", em uma espécie de alpinismo social às avessas. Mas como é um livro do Palahniuk, claro que algo horrível vai acontecer no final...
  • Canção de despedida (por Conde Calúnia) - Um repórter sensacionalista em dificuldades leva seu cão doente para tratamento e descobre que o veterinário era um astro mirim de uma série de TV famosa, vivendo feliz no ostracismo. Em busca de um furo de reportagem, o Conde Calúnia faz algo monstruoso com o pobre doutor...
  • Idade de cachorro (por Brandon Whittier) - Um conto sobre donas de casa de classe média que se voluntariam para cuidar de idosos em asilos, sobre como pessoas são levadas a crer em algo que não é exatamente aquilo que aparenta, e sobre Palahniuk pesquisando sobre doenças raras e estranhas para entregar um plot twist que é um soco no estômago, ao mesmo tempo em que desenvolve e revela mais da trama principal.
  • Ambição (por Duque dos Vândalos) - Um artista medíocre recebe uma proposta irrecusável para atingir a consagração: ele precisa matar outros artistas, com o intuito de manipular o mercado, valorizando assim obras do acervo de certos colecionadores. Até chegar a vez de ele próprio ter seu portfólio supervalorizado. Um bom conto sobre a necrofilia da arte.
  • Pós-produção (por Sra. Clark) - Desenvolvendo um pouco mais um dos personagens - a Senhora Clark - e indiretamente a trama principal, Palahniuk nos mostra os bastidores broxantes de uma produção pornográfica caseira, e como uma câmera pode destruir um relacionamento.
  • Êxodo (por Diretora Negação) - Uma funcionária do serviço social de uma cidade, cansada dos abusos sexuais sofridos pela boneca de treinamento de ressuscitação cardiopulmonar (!?!?!) resolve punir os depravados quando seu departamento recebe mais duas bonecas, dessa vez um menino e uma menina, extremamente realistas anatomicamente, usadas para reconstituição de casos de abuso sexual. Outro conto não indicado para ler durante o almoço e que vai provocar arrepios na espinha, ainda mais quando você ler a palavra "gilete"...
  • Pileque (por Reverendo Ímpio) - Esse conto é uma espécie de gêmeo espiritual de "Clube da Luta", e aqui vemos como alguns militares veteranos pretendem acabar com todas as disputas religiosas do mundo usando batons, perucas, vestidos e muitos, muitos muitos explosivos. Um dos melhores contos do livro! Pros fanboys de "Clube da Luta", é um regalo do autor rs.
  • Ritual (por Casamenteiro) - O narrador desse conto faz uma reminiscência de uma antiga história de  sua família, contada por tios veteranos da Segunda Guerra Mundial, passada em um campo de concentração, e envolvia um oficial alemão, sexo oral forçado e uma navalha. O final traz um inevitável frio na... barriga.
  • Caixa pesadelo (por Sra. Clark) - Continuamos seguindo a Sra. Clark, e o desaparecimento de sua filha Cassandra, que muda radicalmente após olhar pelo visor de um aparato exibido em uma vernissage, uma antiguidade conhecida como "Caixa pesadelo". Seguindo pistas da história do misterioso objeto, o conto coloca mais pulgas atrás da orelha do leitor, por suas relações com a história principal do livro.
  • Crepúsculo civil (por Irmã Justiceira) - O conto mais fraco do livro. Pessoas são mortas no meio da rua por alguém que arremessa bolas de boliche ladeira abaixo. Um conto de bicho papão em sua essência, mas com um desenvolvimento que deixa a desejar. Felizmente é bem curto.
  • Colocação de produto (por Chef Assassin) - Um conto em forma de uma carta escrita pelo protagonista, um cozinheiro que tem como hábito estripar os críticos gastronômicos que porventura falem algo negativo de seu trabalho. A carta é endereçada à marca fabricante de facas favorita do cozinheiro, e nela ele faz uma proposta ao fabricante.... Humor negro na medida!
  • Fala amarga (por Camarada Escárnia) - Quando uma transexual feminina tenta fazer parte de uma reunião de feministas, as oprimidas viram opressoras. Um conto a respeito de gênero e identidade sexual, com aquela dose de humor negro e agressividade que a gente já conhece...
  • Inválido (por Agente Fuxico) - Um conto sobre detetives particulares investigando pessoas que dão o golpe no seguro social, e falsos inválidos que acabam se tornando detetives particulares para investigar outros falsos inválidos. 
  • Dissertação (por Elo Perdido) - Uma história de lobisomem. Por Chuck Palahniuk. A cena da menina de treze anos virando um bichão faminto em pleno vôo quadruplicou minha fobia de avião. Sem mais.
  • Menina dos Olhos (por Sra. Clark) - Esse conto segue mostrando a história da Sra. Clark e sua filha desaparecida, e vemos aqui a relação direta com toda a trama principal se entrelaçando ainda mais.
  • Something's Got to Give (por Condessa da Antevidência) - Uma vidente capaz de ver eventos passados refletidos em objetos antigos entra em um antiquário, onde o vendedor lhe oferece uma memorabília bizarra relacionada a Marilyn Monroe. Idéia interessante, mas o desenrolar deixa um pouco a desejar.
  • Fondue (por Baronesa Congelada) - Nesse conto a personagem da Baronesa relembra um episódio de sua juventude, quando trabalhava no bar de uma pousada meia boca, localizada próximo a poços de águas termais ferventes. Acrescente um cozinheiro bêbado vagando pela área e temos aí um dos contos mais repugnantes do livro. Considero mais grotesco que vísceras, até!
  • Cassandra (por Sra. Clark) - A história da Sra. Clark e sua filha avança mais um pouco, inclusive com uma importante revelação da trama no final do conto. Mas fora essa revelação, o conto serve para Palahniuk exibir todo o seu vasto conhecimento de tanatologia. Bom apetite.
  • Espíritos do mal (por Miss Espirro) - Era uma vez uma menina que era obrigada a viver isolada em uma instalação secreta do governo, pois ela carregava uma doença tão terrível que poderia provocar uma pandemia em nível global. Mas no fundo, o que ela mais queria era ter um namorado. Até que chega o dia em que a instalação recebe outro hóspede assintomático, como ela, e com exatamente a mesma moléstia virulenta que ela! Será a chance da Miss Espirro beijar na boca sem matar alguém?
  • Obsoletos (por Sr. Whittier) - Em uma expedição espacial, a humanidade descobre que, no processo evolutivo espiritual, Vênus é o próximo degrau. E é um lugar maravilhoso e paradisíaco. A humanidade então decide tomar um atalho e emigrar pra lá, não importando se ainda não é o momento certo para a maioria das almas na Terra, e assim o suicídio vira a nova moda mundial. Menos para Adam e Eve, um casal de adolescentes revoltados . O conto mais WTF do livro. Destoa de todo o restante, mas ainda assim é ótimo, pleno de interpretações.


Além dos contos, "Assombro" é entremeado pela história principal, que amarra tudo entre essa avalanche de contos, e também por diversos poemas sobre os personagens. Pessoalmente, não sou grande fã de poemas, mas foi muito bacana ver  um Chuck Palahniuk desenvolvido e seguro a ponto de incluir poemas em um livro de sua autoria! Em minha opinião pessoal, na proposta principal de "Assombro",  Palahniuk não consegue sustentar o tempo todo esta pluralidade de vozes narrativas, e em vários momentos o que temos são os personagens criados por Palahniuk escrevendo exatamente igual a Palahniuk. Se "Assombro" tenta ser um livro esquizofrênico, até conseguiu, isto é, se você considerar que possa existir um tipo de esquizofrenia onde as vozes são todas iguais, apesar de dizerem coisas diferentes rs. Acredito que os fãs do escritor não chegam a se incomodar com isso, e tampouco isso afasta leitores eventuais. Isso não me incomodou de verdade, é somente uma observação de uma limitação de "Assombro", talvez sua única limitação, não conseguir imprimir uma voz mais particular a cada um dos 18 personagens do livro. Dado o tamanho do desafio, não peguemos pesado com o autor. Nem de longe isso prejudicou a experiência de leitura, já que "Assombro" tem uma história principal cheia de suspense, que arrasta o leitor por suas páginas até o final, e também vários contos de horror, porém sem (quase) nenhum apelo sobrenatural, recheado de horrores cotidianos, sem filtros. 
Sempre algo que o amigo de um amigo te contou. 
Algo muito absurdo, mas possível. 
Coisas que médicos vêem nas salas de emergência às 2 da manhã.
Algo que poderia acontecer com você.

O livro, que originalmente havia saído pela editora Rocco aqui no Brasil em 2007, estava esgotado há anos e valia seu peso em ouro na internet, até que a editora LeYa, que já detém os direitos de publicação da obra de Palahniuk por aqui há alguns anos (uma dica, dona LeYa: relancem "Cantiga de Ninar" e "Monstros Invisíveis" pra garotada da geração leite com pêra, ovomaltine e nutella conhecer!!!), o relançou no final do ano passado com uma nova capa. Agora é correr para catar um antes que esgote de novo. "Assombro" é um ótimo livro, com contos curtos que podem ser lidos em apenas um dia ou menos, uma história principal com muito suspense e um bom desfecho. Enfim, um ótimo livro para revisitar daqui a um, dois anos para uma releitura. 


Capa da primeira edição brasileira de "Assombro" (Ed. Rocco)

"Assombro" ainda é uma experiência única. Existem poucos livros com uma proposta semelhante e esse é a evidência de que, ao contrário de muitos outros escritores, Chuck Palahniuk não é um escritor de um livro só. Terminada essa resenha, "Assombro" volta para a minha estante. Mas já temos um encontro marcado ano que vem.


"Quando conseguirmos perdoar o que foi feito a nós...
 Quando conseguirmos perdoar o que fizemos a outros...
Quando conseguirmos deixar todas as nossas histórias para trás, junto com nossos papéis de vilões ou vítimas.
Só então, talvez, consigamos salvar o mundo.
Mas nós continuamos sentados aqui, esperando ser salvos. Continuamos sendo vítimas, na esperança de sermos descobertos enquanto sofremos."


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGUIÇA DE CARNAVAL: "O BEBÊ DE TARLATANA ROSA", de João do Rio






ALALAÔ, GALERA!!!

De passagem aqui só para deixar um conto temático pros foliões da Zona Negativa. Seu autor: Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio. Esse repórter e escritor carioca do início do século XX, com seu estilo de prosa pré-modernista e bastante ácida para os padrões da época, foi o cronista do lado feio da cidade. Suas histórias mostram os vagabundos, os atormentados, as prostitutas, os marginalizados e o grotesco em geral, mas também os dândis e os barões, dentro dos salões nobres de clubes ilustres. O lado oculto, tanto da sociedade burguesa carioca, quanto dos terreiros e cortiços. Tudo com uma bela dose de realismo e repugnância.

João do Rio

Parte integrante do livro "Dentro da Noite", de 1910, em "O bebê de tarlatana rosa" acompanhamos Heitor de Alencar, um dândi (que é como seu bisavô chamava os plêiba) narrando a seus companheiros no clube social a respeito de uma incursão aos antros mais sórdidos possíveis de se visitar durante os quatro dias de carnaval, um flerte de carnaval que não saiu como o esperado, o reverso da luxúria, e fantasias que escondem bem mais do que gostaríamos de descobrir...

Então, muita atenção às bagunças no carnaval amiguinhos. Às vezes, a luxúria carnavalesca pode te levar a beijar um menino achando que é menina, ou vice versa. Mas lendo esse conto, vem à mente aquele velho ditado: nada está tão ruim que não possa piorar...

O quê? tá de ressaca e não consegue ler? 
As letras não param de se mexer na tela? 
Ok, então deixe o Abujamra declamar o conto pra você!




O BEBÊ DE TARLATANA ROSA
João do Rio, 1910


- Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...
E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.
- É uma aventura alegre? indagou Maria.
- Conforme os temperamentos.
- Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus, conta! suplicava Anatólio. Olha que está adoecendo a Maria.
Heitor puxou um largo trago à cigarreta.
- Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma...
- Nem com um, atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da Primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodita.
- Muito bonito! ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andávamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. - "Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias do pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes..." - Que tem isso? Não vamos juntos?"
Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel-arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem-feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: - ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma freqüentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chic e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur; no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e urna voz rouca dizer: "para pagar o de ontem". Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: aonde vais hoje?
- A toda parte! respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor.
- Talvez fosse um homem... soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o Heitor! fez o barão, estendendo a mão.
Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, continuou:
- Não o vi mais nessa noite e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e cai no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
- A quem o dizes!... suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!
- É quando se fica mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfumadas dos fogos de bengala, caiam em sombras - sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confete. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.
- "Os bons amigos sempre se encontram" disse.
O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? Onde? indagou a sua voz áspera e rouca. - Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: - "Aqui não!" Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado ao jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vicio naquela austeridade da noite. - Então, vamos? indaguei. - Para onde? - Para a tua casa. - Ah! não, em casa não podes... - Então por aí. - Entrar, sair, despir-me. Não sou disso! - Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. - Que tem? - Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. - Que máscara? - O nariz. - Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.
Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou: Não! não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.
O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito. - Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. - Disfarça sim! - Não! procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante - uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. - Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu que quiseste...
Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo o mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo em febre.
Quando parei à porta para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...
Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes e resumiu:
- Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do Carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.
E foi sentar-se ao piano.






BOM CARNAVAL!



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ED & LORRAINE WARREN: DEMONOLOGISTAS, ou "Como saber a diferença entre fantasma, aparição, poltergeist e demônio ainda vai salvar sua vida um dia!"

Por EDUARDO CRUZ








"Um fantasma pode assustá-lo", responde Ed. "Um espírito demoníaco vai assustá-lo - e acabará ameaçando a sua vida. Nos estágios iniciais, os fenômenos associados a espíritos tanto humanos quanto inumanos podem ser os mesmos. Ambos os tipos de espírito vão manipular o ambiente físico na tentativa de fazer com que a presença deles seja notada. A diferença é a natureza da atividade associada a cada tipo. Em regra, fantasmas farão coisas à casa, enquanto espíritos demoníacos farão coisas às pessoas. Um tenta assustá-lo para que você saia da casa. O outro tenta assustá-lo para que você enlouqueça (...)"


Sabem, tenho uma confissão a fazer. Nada mais justo, depois desse tempo todo recebendo vocês aqui na Zona, que eu compartilhe alguma intimidade, algo de particular com vocês. Afinal, vocês já são de casa. Então lá vai: Eu tenho uma espécie de compulsão bizarra (não, não é nada sexual, tratem de manter essa mãozinha aí quieta!). Algumas pessoas achariam que seria o caso de, no mínimo, me encher de remédios por conta disso, para que eu tivesse uma vida "normal". Mas é um impulso que me persegue desde que senti pela primeira vez ainda criança, quando ouvia algumas histórias, assistia a certos filmes ou realizava certas "brincadeiras", como o jogo do copo

Eu gosto de sentir medo.

Não qualquer tipo de medo, como "Será que hoje vou ser assaltado no ônibus?" ou "E se alguma coisa caísse do alto desse prédio em construção direto na minha cabeça?". 
Não. Nada tão mundano assim.
Na verdade, só o que satisfaz essa minha compulsão é um pavor intenso, irracional, e de preferência impulsionado por um fato ou evento que a mente racional não consiga explicar. Algo não mensurável ou palpável. Algo como estar sozinho em casa, acordado de madrugada e ouvir barulhos estranhos, ou ter que passar na frente do cemitério à noite. Ah sim, e tem também as histórias de possessão demoníaca.

A possessão demoníaca é algo impressionante e assustador, acredite você ou não na autenticidade do fenômeno. A idéia de ser arrebatado e perder o controle de seu próprio corpo para uma inteligência supostamente autônoma e externa é algo que apavora qualquer pessoa normal, independentemente de qual religião ela pratique, ou até mesmo se não tem nenhum tipo de crença. Muitos preferem não acreditar que algo tão sinistro costuma acontecer, e que nos tempos atuais não há espaço para crenças retrógradas em fantasmas ou espíritos demoníacos, que tudo tem uma explicação racional, científica. Mas não o casal Warren. Eles sabiam bem que a coisa não funcionava desse jeito, e que a realidade que se esconde por baixo da superfície do dia a dia é bem mais sinistra.


Lorraine e Ed Warren

Edward (falecido em 2006) e Lorraine Warren têm investigado estas ocorrências paranormais/sobrenaturais desde a década de 40, e fundaram em 1952 a The New England Society For Psychic Research (A Sociedade de Pesquisas Psíquicas da Nova Inglaterra) para se aprofundarem em suas pesquisas do oculto, e assim se tornaram os primeiros "Caçadores de fantasmas" do século XX. Lorraine é uma médium sensitiva, ou sejE, ela consegue detectar energias no ambiente e determinar se se trata de fato de um espírito de uma pessoa desencarnada ou algo mais sinistro. Edward é um demonologista, que seria algo como um expert em espíritos não humanos. Segundo os Warren, as entidades sobrenaturais se dividem em espíritos de pessoas que um dia foram vivas e entidades espirituais que nunca tiveram uma existência física e existem com o único intuito de se expressarem através de manifestações negativas contra pessoas, incluindo, em último caso a possessão demoníaca. Os Warren os classificavam como "espíritos demoníacos inumanos", no vocábulo popular, "demônios". "Estudar o que esse espírito é, o que ele pode fazer e o que sua existência pode significar é, em última análise, o trabalho e a incumbência do demonologista", nas palavras de Ed. Um demonologista precisa saber identificar o espírito demoníaco, e se for o caso, auxiliar um clérigo ou sacerdote, provendo as condições para que o exorcismo da entidade do local transcorra sem atribulações. O que, pelo que podemos notar em detalhes de alguns casos ao longo da carreira dos Warren (os números de casos assistidos pelo casal varia de 3.500 a 10.000 ocorrências registradas!), nem sempre é possível, e muitas vezes a coisa fica feia. 

Entre as ocorrências investigadas pelo casal, algumas se destacam pela proporção da notoriedade, chegando mesmo a terem sido amplamente divulgadas pela imprensa na época, como o caso Amityville, do qual até nossos avós já ouviram falar, o caso da boneca Anabelle, a assombração de Enfield, entre outros casos escabrosos. Tanta atividade que acabou despertando a atenção de Hollywood e vários desses casos foram adaptados para cinema, em filmes como "Invocação do mal", "Invocação do mal 2", "Annabelle", e uma dúzia de filmes sobre o que diabos aconteceu em Amityville


"(...) como afirma Ed: "Eu e outras testemunhas já vimos as feições de pessoas possuídas se transformarem naquelas de um lobo, de um porco e, mais comumente, de um gorila. Já vi indivíduos possuídos assumirem as feições dos mortos, bem como se transformarem em coisas que poderiam ser descritas apenas como grotescas e macabras. E todas essas mudanças são físicas. A pele e os ossos realmente mudam de forma, depois voltam ao normal, quando o episódio de possessão passa."




Alguns dos casos que o narrador de inglês ruim mostra nesse vídeo 
constam no livro, e com detalhes suficientes para tirar o sono...

Claro que uma carreira tão atípica e tão extensa gera muita informação, a longo prazo. Além de um arquivo composto de registros em escrito, testemunhos, reportagens, milhares de fotos de aparições, gravações em vídeo e fitas com milhares de horas de gravações de vozes de espíritos e pessoas sob possessão demoníaca, os Warren acumularam ao longo de sua carreira objetos através dos quais as pessoas fizeram uso para inadvertidamente ou irresponsavelmente estabelecer contato com entidades demoníacas, trazendo o problema para dentro de suas próprias casas. O tal "Museu do Oculto" dos Warren é uma parafernália sem fim composta de tabuleiros de Ouija, adagas rituais, velas negras, livros de magia negra, máscaras, capas cerimoniais, bolas de cristal, estatuetas de demônios, um caixão, e até a própria Annabelle. Enfim, tudo que se puder imaginar que eles levam embora da cena onde ocorreu a atividade sobrenatural/demoníaca provocada por meros curiosos, na maioria das vezes. Cada objeto é um caso, e conta uma história. Alguns dos objetos guardados no museu são tão impregnados de energia negativa que o simples ato de tocá-los pode desencadear uma manifestação ou até mesmo uma possessão. Os Warren mantém os objetos em sua custódia para que não caiam em mãos incautas novamente. Esse é o acervo do museu.



"Se há uma mensagem que Ed e Lorraine Warren tentam transmitir com clareza é que o oculto é basicamente um acidente esperando para acontecer."


Um tour pelo "museu do Oculto" do casal Warren.
Toque em qualquer objeto e leve como souvenir para casa uma entidade agarrada em você.
Talvez o único museu que não desperte interesse de ladrões.



Em 1980 saía nos EUA o livro "The Demonologist", onde o leitor poderia acompanhar a rotina dos Warren e conhecer mais a fundo os detalhes dos casos pavorosos citados acima, investigados pelo casal: assombrações, possessões... enfim, o dia a dia normal do casal Warren rs. Infelizmente, como muitos outros livros relevantes mas ignorados pelas editoras, não sei por qual razão, "The Demonologist" nunca havia sido lançado no Brasil. Até que no fim do ano passado a Darkside Books fez bonito de novo e o lançou aqui, com o título "Ed & Lorraine Warren: Demonologistas". A edição segue o padrão gráfico muito bem elaborado e sempre alinhado com a temática do livro, um padrão da editora da caveirinha, que consegue lançar bons livros com belíssimas capas. O design do livro simula uma encadernação antiga e desgastada, e conseguiu enganar minha tia, que viu a capa e me perguntou se "Eles mandaram o livro assim estragado pra você???". Então, ao Retina 78, responsáveis pela capa e projeto gráfico da edição, deixo meu mais sincero "Missão cumprida!", amigos ;>)


Projeto gráfico impecável da Darkside Books



Essa é Annelise Michel, possuída por 6 entidades diferentes:
Hitler, Caim, Nero, Fleischmann, Judas e Lúcifer, como cada uma das vozes se denominou. 

Claro, também não estou ignorando as montanhas de evidências que investigadores céticos levantaram contra os Warren ao longo dos anos, afirmando que eles não passavam de charlatões e embusteiros. Nesse campo de estudo, há décadas percebe-se uma constante: todos aqueles que se propõem a comprovar a autenticidade dessas ocorrências conseguem comprová-la, e aqueles  que se propõem a comprovar que causas sobrenaturais não existem também o conseguem. O impasse permanece. Por isso, na pior das hipóteses, "Ed & Lorraine Warren: Demonologistas" é um livro que agrada aos que crêem e também aos céticos, basta decidir lê-lo como um bom terror, ou como um manual de proteção, dependendo da sua inclinação à credulidade ou ceticismo. O livro funciona bem das duas formas. Um excelente livro de terror, daqueles que você lê antes de dormir, mas que vai te fazer hesitar em levantar no meio da madrugada para uma ida ao banheiro. Ótimo também para levar quando for acampar sozinho, ou para passar o tempo naquela viagem de semana santa a parentes que moram no interior, para ler com a janela aberta enquanto espera o sono chegar. Isto é, se você é como eu e gosta de sentir um medo saudável do desconhecido. Agora me dêem licença um instante, vou ali no quarto ao lado verificar porque minha mulher começou a falar aramaico com uma voz cavernosa e está batendo boca com minha sobrinha de 3 anos, que por sua vez está agarrada na parede como uma aranha e falando em grego igual a um velho com asma...


"Qual é o pior caso que Ed e Lorraine já investigaram?
"Isso é uma coisa que eu nunca, nunca falo", admite Ed, ficando de repente muito sério. "O caso foi quase o nosso fim, isso eu garanto. Nós nos vimos levados a um lugar fora deste mundo, um lugar que você nunca acreditaria existir, mesmo que eu o descrevesse. Cada minuto, cada segundo daquelas longas horas foi tão inacreditável, tão incompreensivelmente horrível, que acho que agora conheço o verdadeiro significado de inferno e o valor da vida na Terra."



Um áudio de uma das entidades residentes na casa de Enfield falando com o investigador. 
Ouça às 3 da manhã para conseguir escutar melhor. Boa noite.







Ficou com medinho???
Então, quem você vai chamar???