quinta-feira, 23 de março de 2017

CLUBE DA LUTA, de Chuck Palahniuk, ou “Como recebi o beijo cáustico de Tyler Durden em meu cérebro”, ou “O Manifesto Zen Budista Dinamite”, ou "NeoAnarcoNiilismoEsquizoSexual"

Por Eduardo Cruz





"Aviso: Se você está lendo isso, então isto é para você. Cada segundo perdido lendo este texto inútil é outro segundo a menos da sua vida. Você não tem outras coisas para fazer? A sua vida é tão vazia que você honestamente não consegue pensar numa maneira melhor de vivê-la? Ou você fica tão impressionado com a autoridade daqueles que a exercem sobre você? Você lê tudo o que deveria ler? Você pensa tudo o que deveria pensar? Compra tudo o que lhe dizem pra comprar? Saia do seu apartamento. Encontre alguém do sexo oposto. Pare de comprar tanto e se masturbar tanto. Peça demissão. Comece a brigar. Prove que está vivo. Se você não fizer valer pelo seu lado humano você se tornará apenas mais um numero. Você foi avisado."


Na introdução da mais recente edição “Clube da Luta” lançada aqui, Chuck Palahniuk compara sua prosa ao dinamismo musical e o pragmatismo agressivo do Punk Rock: 

“Toda música punk terminava antes de você se cansar, e todo mundo prestava atenção porque a pessoa tinha poucos segundos para chegar na pista. Enquanto (Billy) Idol explicava essa marca maior do punk, percebi que muitos dos meus contos e capítulos de livros parecem as músicas dele. (...) 
Isso explica por que os capítulos de Clube da Luta são tão curtos, e por que o livro em si termina tão depressa. Escrevi para ser uma coisa que ia ser lida e depois jogada fora. Escrevi quase no mesmo tempo que você vai levar para ler. É uma coisa da época que a gente viveu. Todo mundo estava pegando AIDS e morrendo. Não tinha como um escritor se demorar anos e anos num livro. A velocidade e a conclusão de Clube da Luta é culpa do punk, da AIDS, dos videoclipes. Nem eu, nem meus amigos achávamos que estaríamos vivos depois dos trinta."

Então, podemos inferir que “Clube da Luta” é o presente de uma geração desesperançada para outra. Uma idéia perigosa que está sendo propagada por aí agora mesmo, enquanto você lê esse texto. E, desculpem por isso, mas vamos dar uma mãozinha à essa idéia e propagá-la mais um pouquinho. Desculpem o transtorno, mas o aniversário de 20 anos da publicação do livro obrigou a Zona Negativa a quebrar de uma vez só as duas primeiras regras do Clube da Luta SIM!

Um brinde da Zona Negativa pra você: O jogo de tabuleiro de Clube da Luta!
Não importa quem alcança a linha de chegada primeiro - Tyler SEMPRE vence!!
Imprima e jogue com seu amiguinho imaginário.




É, eu sei que vocês já leram mil resenhas de clube da luta em mil sites diferentes, e não vamos enganar vocês: Não viemos trazer um novo enfoque à tona, reinventar a forma de ler essa obra, defecar uma regra nunca antes defecada, nem uma interpretação que já não tenha sido feita antes, até porque existem poucas coisas, seja na ficção ou na vida real, mais objetivas e de fácil compreensão do que os planos de Tyler Durden para “reescrever” a sociedade – com um grande apagador de nitroglicerina ;>) - e nossos leitores são inteligentes o suficiente para entender a mensagem do livro sem que alguém precise mastigá-la para vocês (exceto pelo final do livro, aquilo eu tive que ler umas quatro vezes pra ter a certeza de que entendi rs).



Pra ser franco, temos uma obrigação para com nós mesmos aqui na Zona, particularmente com relação a “Clube da Luta”. Esse blog, depois de tanto chão, não pode ficar sem uma menção sequer ao clássico da nossa geração, – e um de nossos favoritos de todos os tempos aqui na Zona! - que abriu nossas mentes a socos e pontapés. Como poderíamos não falar do filme / livro que ajudou a expandir nossas mentes e nossa visão da sociedade atual, nos imunizando dessa aceitação bovina e zumbificante de tudo, onde é cada vez mais normal se enquadrar na sociedade apenas sendo um aluno exemplar / empregado modelo / consumidor voraz? Em tempos onde a massificação dita o comportamento geral, o absurdo é visto como normal apenas pelo fato de todo mundo estar fazendo, por mais insano que seja o padrão. Todos fazem e consomem mais ou menos as mesmas coisas, mas interações humanas de verdade são cada vez mais escassas. Por esses motivos foi um despertar ler o mantra proferido pelo profeta da pós-modernidade, Tyler Durden:

"Você não é o seu emprego. Você não é quanto dinheiro você tem no banco. Você não é o carro que você dirige. Você não é o conteúdo da sua carteira. Você não é as calças cáqui que veste. Você é toda merda ambulante do mundo."


Tenha você uma predileção seja pelo livro ou pelo filme, “Clube da Luta” foi o manifesto que nossa geração precisava para não adoecer com esse estado de coisas. E, falando por mim, entre as obras que auxiliaram meu caráter para não cair nas armadilhas do comportamento de manada (bem, pelo menos na maioria das vezes, mas como eu fui um dos que gostou de “Logan”, parece que caí em mais uma rs) ele figura ao lado de “Os Invisíveis” com seu teor libertário e subversivo, isso para os padrões de uma obra de cultura pop. 

Palahniuk conta que teve a inspiração quando se envolveu em uma briga de verdade. Ele estava em um acampamento quando reclamou do volume da música ouvida por algumas pessoas nas barracas ao lado. A reclamação acabou virando uma briga e o escritor foi espancado. Ao voltar ao trabalho na segunda feira, com o rosto completamente arrebentado, ele percebeu como os colegas evitavam mencionar ou perguntar algo a respeito, como se nada tivesse acontecido, e a senhora da limpeza foi a única a lhe perguntar "O que aconteceu?". Pouco depois disso, ele escreveu um conto, que viria a ser o capítulo 6 do livro que conhecemos.




"Cara, eu vejo no clube da luta os homens mais fortes e inteligentes que já viveram. Vejo todo esse potencial, e vejo ele desperdiçado. Que droga, uma geração inteira enchendo tanques de gasolina, servindo mesas, ou escravos do colarinho branco. Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história, cara. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual... nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados."

“Clube da Luta” dissemina mensagens poderosas, como o poder das idéias e o quão destrutivo um indivíduo pode se tornar frente a um sistema que escraviza por meio da cultura do consumismo e do isolamento; o fardo do homem contemporâneo, que ao mesmo tempo em que oprime, é oprimido pelo conceito rígido e limitador do patriarcado milenar; pessoas querendo se conectar com outras pessoas - tema recorrente na obra de Palahniuk - além, é claro, de ser um livro divertidíssimo, com diversas passagens repletas de niilismo e muito humor negro, que são uma característica perene na escrita de Palahniuk. Esse humor negro foi perfeitamente transposto para o filme, e se você for só um pouquinho dodói da cabeça, sabe exatamente onde rir muito.
"A primeira regra do Clube da Luta é: você não fala sobre o Clube da Luta. A segunda regra do Clube da Luta é: você NÃO fala sobre o Clube da Luta. Terceira regra do Clube da Luta: se alguém gritar "Pára!", fraquejar, sinalizar, a luta está terminada. Quarta regra: apenas dois caras numa luta. Quinta regra: uma luta de cada vez, pessoal. Sexta regra: sem camisas, sem sapatos. Sétima regra: as lutas duram o tempo que for necessário. E a oitava e última regra: se esta for a sua primeira noite no Clube da Luta, você tem de lutar."

O livro é narrado de forma não linear e em primeira pessoa. Na história acompanhamos um protagonista sem nome, o que é bem sugestivo dado o estado de esvaziamento desse indivíduo: ele possui uma vida estéril e vazia, adquirindo móveis caros e itens domésticos, entre outros bens supérfluos, e trabalha no departamento jurídico de uma companhia de automóveis. Uma vida medíocre. Seu vazio existencial e sua insônia só são aplacados quando ele começa a freqüentar grupos de ajuda a doentes terminais semanalmente, se fazendo passar por um dos doentes, para conseguir estabelecer uma conexão com outras pessoas. 

Uma mulher chamada Marla passa a freqüentar vários destes encontros, ela também uma falsa doente, e sequer se esforça para parecer autêntica. Nosso narrador, irritado com Marla ameaçando seu monopólio por afeto nos grupos de apoio, não consegue mais se soltar nas sessões e volta a sofrer de insônia. Até o dia em que conhece Tyler Durden. Tyler é tudo que nosso protagonista não é: bonito, ousado, impulsivo e acima de tudo, LIVRE. A personificação da subversão, uma representação do Id

Uma noite, do lado de fora de um bar, Tyler pede que o narrador lhe dê um soco, e eles iniciam uma luta, que é notada por outras pessoas. Pouco tempo depois, o narrador, Tyler e alguns outros interessados, contagiados por esse espírito de "lutas consensuais” acabam formando uma espécie de clube – com regras e tudo! - que sob o pretexto das lutas, visa expurgar estes reflexos condicionados pela sociedade de consumo, e que logo evolui para algo muito maior e subversivo, ameaçando virar toda a civilização de pernas pro ar. Em paralelo acompanhamos os desdobramentos do triângulo Narrador / Tyler / Marla. E vou parar por aqui para evitar maiores spoilers para quem ainda não fez um favor a si mesmo(a) lendo ou assistindo a "Clube da Luta".

Parabéns, você achou um spoiler: Tyler Durden e o Narrador são a mesma pessoa! Suas definições de múltiplas personalidades foram atualizadas com sucesso!


"Todas as formas que você gostaria de ser, este sou eu. Eu tenho a aparência que você queria ter, eu fodo como você gostaria de foder, eu sou esperto, capaz, e o mais importante, eu sou livre de todas as maneiras que você não é."


Lançado em 1996, o livro dividiu a crítica e teve uma recepção inicial morna por parte do público, encalhando nas livrarias, porém mesmo assim despertando interesse o bastante para que uma adaptação cinematográfica fosse realizada. Em 1999, o estúdio 20th Century Fox lança sua adaptação, dirigida por David “Seven” Fincher, com Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter nos papéis de Tyler do Narrador (no filme intitulado “Jack”) e de Marla, respectivamente. O filme não lucrou o esperado nos cinemas, porém vendeu muito bem em DVDs, o que o fez atingir o status de cult movie. Era a publicidade de que o livro de Clube da Luta precisava para alcançar ele também status de cult e atingir o público nunca havia ouvido falar do livro. Daí para os clubes da luta clandestinos na vida real foi um pulo (sim, eles existem! Nunca foi em um? Eu já, mas não posso falar sobre isso ;>)). A vida adora imitar a arte de Palahniuk.

"Esta é a sua vida e ela está acabando, um minuto por vez."

Pouca gente sabe, mas “Clube da Luta” tem um prelúdio: “Excursão" é uma história curta passada antes dos acontecimentos de “Clube da Luta”, e foi publicada no livro “Make Something Up: Stories You Can't Unread”, que vai ser lançado no segundo semestre desse ano aqui no Brasil pela LeYa \o/.

"Escutem aqui, vermes. Vocês não são especiais. Vocês não são um belo ou único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como tudo no mundo."

Em 2004 saía “Fight Club – The Videogame” para Playstation 2 e Xbox, uma decepção gigantesca diante do potencial narrativo que poderia ser desenvolvido, o jogo foi mal recebido e teve críticas ruins por toda parte, tanto da crítica especializada quanto de jogadores domésticos, como eu ou vocês. Apesar de oferecer uma inovação em jogos de luta, onde havia um modo de raios-x (depois copiado em versões mais recentes de Mortal Kombat), em que víamos os ossos do jogador ou do adversário fraturando-se à medida que as lutas avançavam, isso não foi o suficiente para torná-lo sequer um jogo razoável. O game de Clube da Luta poderia ter sido um novo “Bully”, ou um “The Warriors”, ou um “GTA”, com um modo de história riquíssimo e missões relacionadas ao Projeto Desordem e Destruição, mais ou menos como vemos no livro e no filme. Pequenas ações de caos aleatórias para gerar instabilidade social. Mas infelizmente, não passa de um jogo bidimensional onde dois personagens se confrontam em meia dúzia de cenários, sem camisas e sem sapatos (Regra Nº6!), com uma péssima jogabilidade, cheio de bugs e sem nenhum traquejo pra desenvolver uma transmídia marota por parte da desenvolvedora Sierra. Um jogo ruim, inexpressivo, que não sustenta o legado do material de origem. Esqueçam. A regra número 1 da Zona Negativa é: A GENTE NÃO FALA SOBRE O GAME DE CLUBE DA LUTA!


Gameplay do jogo, ruim de doer...




"Apenas depois que você perder tudo é que você está livre para fazer qualquer coisa."

Entre as centenas de referências a Clube da Luta que já vimos por aí, circulando na cultura de massa, a maioria homenagens cômicas, o produto influenciado pela obra que talvez mais se destaque seja a série Mr. Robot. Percebe-se logo no piloto que esta série é uma grande homenagem ao legado subversivo da obra de Palahniuk, e inclusive a série tem seu próprio Tyler Durden, mas não vou estragar a surpresa de ninguém (como estragaram a minha heheh). Se vocês me pedissem para, grosseiramente, resumir “Mr. Robot” em apenas uma frase, acho que eu diria que “É como Clube da Luta, mas com hackers”.

Elliot Alderson é um engenheiro de cibersegurança e hacker brilhante, que sofre de transtorno social e depressão. Elliot não consegue se enquadrar na sociedade e não suporta o rumo que mundo está seguindo. Paralelamente, ele é recrutado por um grupo de hackers ativistas (em uma menção ao Annonymous) que pretende apagar o registro de devedores da maior corporação do mundo, a E Corp. Muito elogiada por público e crítica, a série ganhou um Globo de Ouro e se encaminha para sua terceira temporada. Assisti à primeira temporada, e apesar das semelhanças e homenagens escancaradas, Mr. Robot tem sua própria identidade, e acredito firmemente que pode ter uma longevidade razoável. Como sempre, tudo depende dos roteiristas.


Eu não dei spoilers, mas essa arte promocional deu. Ha-Ha!


"É fácil chorar quando você percebe que todos que ama o rejeitarão ou morrerão. Em uma linha do tempo longa o bastante, a taxa de sobrevivência de todos cairá a zero."
 
Na Comic-Com de San Diego de 2013, Palahniuk anunciou que publicaria Clube da Luta 2, e disse mais: Que não seria um livro em prosa, mas sim uma HQ! 


A editora Dark Horse – a casa do Hellboy! – publicou a mini série de 10 edições entre maio de 2015 e março de 2016. O encadernado, compilando as dez edições saiu aqui no ano passado pela LeYa.

“Clube da Luta 2” se passa dez anos após os acontecimentos do primeiro livro/filme, e nosso narrador agora tem um nome: Sebastian. Ele casou-se com Marla, que vive entediada, secretamente sabota sua medicação, e ambos têm um filho e uma vida muito semelhante a que o protagonista levava no primeiro Clube da Luta: uma rotina suburbana vazia. Até que o filho dos dois desaparece. Sebastian e Marla saem à procura da criança e descobrem que Tyler Durden está de volta, e todos são sugados novamente para a Desordem e Destruição e, bem... fizemos uma resenha completa do Clube da Luta 2 AQUI!

"Mas não vamos a discotecas. Tyler diz que as músicas são muito altas, especialmente as que têm uma base de baixo, que acabam ferrando o biorritmo dele. Na última vez que saímos, Tyler disse que a música alta o deixou constipado. Além disso, o som é tão alto que não dá pra conversar, então, depois de umas duas bebidas, todos se sentem o centro das atenções, mas completamente separados de todas as outras pessoas. Você vira um cadáver em um suspense policial britânico."


Por fim, ainda falando sobre continuações, Palahniuk já declarou que “Clube da Luta 3” está em desenvolvimento e também vai ter o formato de “Clube da Luta 2”: uma HQ serializada em partes. Me fiz a mesma pergunta quando ouvi a primeira notícia sobre a continuação anterior: Pra quê?? 
Mas enfim, vamos aguardar e conferir. Quem sabe dessa vez o sistemão cai geral...




Arte de Cameron Stewart

Arte de Lee Bermejo

“Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá e por um par de anos fica satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois precisa de um bom aparelho de jantar. E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que antes lhe pertenciam passam a possuir você”

Após uma versão com encadernação em brochura e uma encadernação em capa dura, no fim do ano passado, a LeYa lançou uma nova edição de Clube da Luta, dessa vez uma edição de colecionador. O livro, com tiragem limitada de 10.000 exemplares, numerados individualmente, vem em uma capa dura de papel Paraná não revestido, com a arte de capa serigrafada diretamente sobre o papel e contém, além da história original, um prefácio inédito escrito pelo autor, o roteiro original da adaptação cinematográfica (e isso é o que transforma a edição naquele tijolão de 470 páginas! ;>)), bem como a transcrição de uma entrevista, feita em um painel na Comic Con de San Diego de 2014 com Palahniuk, o diretor do filme, David Fincher, Scott Allie, editor-chefe da editora Dark Horse, Gerald Howard, editor de Palahniuk e Cameron Stewart, artista da HQ Clube da Luta 2. 

As edições de Clube da Luta já lançadas no Brasil

Fechando a edição, um ensaio sobre o impacto de “Clube da Luta” na cultura pop até os dias atuais, por Natália Bridi, redatora do site Omelete. 

Sim, eu sei o que você está pensando: "Uma edição de Clube da Luta gourmet???". É uma edição pros entusiastas mais xiitas, daqueles que enxergam e riem da ironia em se comprar uma edição especial mais cara de uma história que propõe um rompimento com a sociedade de consumo. Mas ei, o filme foi produzido pela megacorporação Fox e isso não te impediu de comprar o DVD e dar seu suado $$$ pra eles, certo?

 

"A filosofia de vida de Marla é que ela pode morrer a qualquer momento. A tragédia, ela dizia, é que ela não morrera."

Expoente máximo da Ficção Transgressional, como o próprio Palahniuk denomina seu estilo literário, “Clube da Luta” parece ser o alerta final de que estamos caminhando cada vez mais em direção a uma distopia. A encruzilhada está logo ali, e que direção vamos escolher? Será o Projeto Desordem e Destruição um recurso a ser considerado pelo cidadão como reação a esses tempos cada vez mais opressivos? Será que Tyler está certo e é preciso destruir as posses para que não sejamos possuídos por elas? Sei lá, olhem aí dentro da cabecinha de vocês e me respondam... mas antes, me façam um favor? Algum de vocês poderia me dar um soco? O mais forte que vocês puderem??



"WHERE’S MY MIND?"
Um clássico dos Pixies, eternizado por Tyler Durden, Bob Paulsen e Cia...



sexta-feira, 17 de março de 2017

Trilogia "A SAGA DOS BRUTOS", de Ana Paula Maia


Por  RICARDO CAVALCANTI


Se tem uma coisa que a equipe do Zona Negativa sempre gostou, foi de procurar algo interessante fora do badalado mainstream. A satisfação em descobrir algo escondido embaixo de um monte de obras pasteurizadas que obedecem a uma fórmula de sucesso sempre foi recompensador.

Nem sempre tudo foi muito fácil de se conseguir como hoje em dia. Para se ter uma idéia, se você quisesse ouvir algo que não era tocado nas rádios, ou que aparecia nos programas dominicais na TV, você tinha que encarnar o seu espírito desbravador e sair à caça de lojas de discos que oferecesse algo além das obviedades.
Matéria sobre "De Gados e Homens", lançado na Itália


Com os filmes era a mesma coisa. Caso a locadora mais próxima da sua casa não te oferecesse opções além dos filmes que viriam a ser futuros títulos de Sessão da Tarde, o processo de descoberta era o mesmo. Isso, numa época em que as únicas opções eram as oferecidas pela TV aberta e a TV por assinatura era um privilégio para poucos.

Ler então... Se você não tivesse um bom faro e um bom sebo para garimpar, pouca coisa se conseguia encontrar de relevante. Não existia um caminho das pedras a ser seguido; cada um desenvolvia seu próprio caminho. Além do mais, era preciso usar muita sabedoria para gastar o pouco dinheiro em alguma coisa, já que na maioria das vezes, a gente acabava apostando no escuro. Não era um simples gasto, era como um investimento de alto risco.

Com o aumento do acesso à internet, tivemos um novo mundo se abrindo diante de nossos olhos. Conseguimos acesso a obras dos mais remotos cantos do mundo. Nesse sentido, muito nos ajudou o falecido Putrescine, que era uma fonte inesgotável de pérolas, prontas para serem descobertas, seja qual for o seu gosto. Tivemos a sorte de conseguir grande parte da filmografia sangrenta de Takashi Miike, da crueza do cinema de Takeshi Kitano, além de uma gama gigantesca de coisas sem noção, que é até difícil definir como o Batman filipino, Superman Turco, além de toda picaretagem do cinema produzido na Turquia e na Índia, que copiavam descaradamente as produções de Hollywood.
Matéria sobre "A Guerra dos Bastardos", lançado na Sérvia.


Hoje, graças ao Google, temos uma facilidade maior para encontrar qualquer coisa. Imaginamos que seria o fim da cultura de massa, que a polarização seria a nova forma de consumo de entretenimento, e que tudo estaria caindo no nosso colo, nos cabendo apenas o trabalho de escolher entre as diversas opções. Mas a sensação que se tem é de que sempre aparecem as mesmas coisas, ficando cada vez mais difícil encontrar algo que te impacte e valha realmente a pena.

Mas apesar de o espírito desbravador andar meio velho, cansado e um bocado preguiçoso, a empolgação de descobrir algo bom e que fuja das obviedades com que somos bombardeados, ainda está mais viva do que nunca. Nesse sentido, surgiu um nome de uma autora brasileira que me surpreendeu, não só pela sinopse de seus livros, mas também da reação de seus leitores.




Ana Paula Maia acabou atiçando minha curiosidade e resolvi conferir do que se tratava. Logo fui surpreendido por sua forma de escrita poderosa e extremamente pessoal. Na trilogia "A Saga dos Brutos", temos três histórias divididas em dois livros – "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos", de 2009 (que também tem a história “O Trabalho Sujo dos Outros") e "Carvão Animal", de 2011 - ambos pela editora Record. Seus personagens são embrutecidos pela vida. Não possuem questionamentos que os consomem; não fazem planos para a própria vida. São os bestializados, os excluídos, os marginalizados, os invisíveis perante a sociedade. Aquele que recolhe o lixo da sua casa por anos e anos e você não sabe nem o nome. Os que desentopem os bueiros e de quem ninguém quer chegar perto porque fedem.
Edição francesa de "Carvão Animal"

Ela possui uma escrita direta, sem floreios, sem rodeios, sem pudores. Suas histórias não possuem um final apoteótico, nem uma trama rebuscada que te dá um plot twist no final. Mas não significa que também não seja extremamente impactante.

A autora te insere em uma realidade dura e sem perspectivas. Em comum, seus personagens possuem o mesmo objetivo: sobreviver.
O juízo de valor, mostrando o quanto é reprovável como os personagens conduzem suas vidas e suas decisões (ou suas formas de pensar), poderia ser um caminho fácil a ser trilhado pela autora, mas Ana Paula não te induz, em nenhum momento, o que achar e o que sentir sobre os acontecimentos. Essa função fica a cargo do próprio leitor.

É uma leitura desaconselhável a pessoas sensíveis e que esperam sempre o lado bom da vida, ignorando as mazelas do dia a dia e tudo que não agrada aos sentidos. Como um aperitivo, segue um pequeno trecho de Carvão Animal, para se ter uma idéia do que se trata:

“A gordura funciona como combustível e aumenta a intensidade do fogo, sendo assim, uma pessoa magra demora mais para ser reduzida a cinzas do que uma gorda. O forno crematório atinge uma temperatura de até 1.000°C. Inclusive para os dentes é impossível resistir ao insuportável calor. A fila de corpos a serem cremados é sempre longa. São mantidos congelados até assarem no forno, e moídos os restos empedrados que são finalizados em cinzas de grãos uniformes e suaves.
Enquanto o corpo é carbonizado, as extremidades se contorcem e encolhem. O que já foi humano parece voltar-se para o lado de dentro. A boca escancara e se contrai. Os dentes saltam. “O rosto murcha e torna-se um grito suspenso de horror.”
Edição Sérvia de "De Gados e Homens"


Por conta de suas descrições de situações que podem gerar incômodo, algumas pessoas a comparam com Chuck Palahniuk. Apesar de suas histórias se encaixarem perfeitamente nos contos de Assombro, por exemplo, não acho que seria uma comparação justa. Acabaria a reduzindo a uma cópia; um pastiche. Mas se for para comparar, diria que suas histórias seriam algo como se Beto Brant filmasse com a violência dos filmes dirigidos por Mel Gibson e um bocado de Ruggero Deodato em Holocausto Canibal.


Edição alemã de "A Guerra dos Bastardos"
O personagem Edgar Wilson (recorrente em suas histórias) é a junção de Edgar Alan Poe com do personagem William Wilson, que dá nome a um dos contos do autor, revelando uma de suas influências.

Imagino como deva ser complicado para um autor nacional conseguir publicar alguma coisa por uma grande editora. É mais fácil investir no óbvio, que vai trazer lucro certo, do que apostar num novo nome e apresentá-lo aos seus leitores. Sem contar que o fato de ser mulher deve complicar ainda mais essa situação, enfrentando o machismo cada vez mais forte de homens inseguros e que vêem na mulher uma ameaça a.... sei lá o quê. Principalmente depois de constatarmos que estamos regredindo como sociedade nos últimos anos. Para se ter uma idéia dos obstáculos que uma mulher enfrenta, J. K. Rowling assinava assim para não saberem que era uma mulher escrevendo (só para citar um exemplo!).

Ana Paula Maia conquista seu espaço de forma imponente, com muito sangue e violência. Suas obras já foram publicadas em vários países como, Alemanha, Estados Unidos, Sérvia, França, Itália e Argentina. Mas apesar disso, ainda é relativamente pouco conhecida por aqui. Ou é pelos motivos mencionados no parágrafo anterior, ou é o nosso complexo de vira-latas falando mais alto. Talvez seja um bocado dos dois.

Em 2017 ainda teremos mais de Ana Paula Maia. O
filme Deserto - que foi roteirizado por ela - do diretor Guilherme Weber - e que já coleciona prêmios em vários festivais, deve entrar em circuito comercial ainda esse ano.  


No final de abril sai o seu novo livro, “Assim na Terra como Embaixo da Terra” - também pela editora Record - tratando do sistema carcerário. Com a sua maneira densa e forte de escrever, me expliquem: como não ficar ansioso para vê-la tocando nesse assunto?

Uma última pergunta... Onde eu estava que não a conheci antes?