quarta-feira, 10 de maio de 2017

30 E POUCOS ANOS E UMA MÁQUINA DO TEMPO, ou “Viagem no tempo + Indie rock + Astrofísica = Crise nas infinitas versões de nós dois”



Por EDUARDO CRUZ



"Wayne e eu compartilhávamos daquela aflição comum que assola homens solteiros com perspectivas limitadas e tendências autodestrutivas: víamos nosso passado com tamanho amor e sensação de perda que todo dia à frente era uma facada nas entranhas. Nossos vinte anos tinham sido cheios de rock e coragem. O futuro nos deixou mais velhos, mas a nossa sabedoria era duvidosa. Wayne e eu evitávamos a dor do amanhã com álcool e velhas bandas de rock. Pavement na jukebox, o brilho avermelhado divino dos letreiros de néon e frases que começavam com "Lembra quando..."."




Eu consigo viajar no tempo.

Não, é sério, pessoal! Vocês não conseguem???

Pessoalmente, o gatilho das minhas viagens no tempo é a música. Sempre a música. Pra mim a música funciona como savepoints em um jogo, então se determinada música tocou em determinado momento da minha vida, é só dar o play de novo e consigo reviver a cena em minha cabeça com perfeição. É assim que eu costumo viajar no tempo. A música, seja ela boa (Qualquer uma dos Pixies), ruim (Step By Step – New Kids on The Block), brega (Ordinary World – Duran Duran), tocante (Grace – Jeff Buckley) ...... eu consigo voltar àquele momento, me transportar àquela época inteira, se resumindo a uma canção.


Monique Daviau



Essa é a maneira convencional de viajar no tempo, mas algumas pessoas conseguem o mesmo resultado com filmes, viagens e até mesmo ao sentir o cheiro de um perfume ou com comida. Mas e se realmente fosse possível voltar no tempo, digo, fisicamente? Quais momentos você escolheria?





 30 e Poucos Anos e Uma Máquina do Tempo pode ser resumido à motivação inicial de seu protagonista, Karl Bender: “Se você pudesse voltar no tempo para ver qualquer banda tocar, quais bandas você escolheria?”. Karl é um barman de 40 anos recém completados e que já passou de seus melhores dias há muito tempo, quando ainda era o guitarrista da Axis, uma banda de Indie Rock que alcançou um relativo sucesso com um hit dedicado a moças... cheinhas, lá nos anos 90. Um dia, Karl descobre que um buraco de minhoca surgiu dentro de seu closet, e essa passagem pode transportá-lo pelo tempo. Junto com seu amigo Wayne, Karl começa a cobrar por essas viagens a shows do passado, sempre sem interferir ou alterar nada. Você paga, assiste o show e volta para o presente. Até que Wayne decide interferir e pede a Karl que o envie a 1980, para impedir o assassinato de John Lennon.



"Regra número um da casa: o buraco de minhoca só deveria ser usado para ir a shows de rock do passado. Isso mantinha a experiência pura e livre da tentação de obter uma vida melhor. Além disso, por que precisaríamos de música se nossa vida fosse exatamente como gostaríamos que fosse?
Outras regras da casa: nada de trazer suvenires. Não falar com ninguém no passado. Não tocar em nada. Não beber nem usar drogas. Não fotografar. Não gravar áudio. Não ficar no passado por mais tempo que a duração do show. Não sair do local do show. Sei que você gostaria de ver os carros antigos e as roupas fora de moda e a data na primeira página do jornal na própria pilha de jornais, mas não.
Regras da casa."



Por um erro bisonho de Karl, Wayne acaba parando em 980 ao invés de 1980, sem meios de retornar! Sem o conhecimento técnico para reverter a cagada, Karl decide contatar Lena, uma astrofísica que ele supõe ter interesses em comum por conta de uma foto sua na internet, onde ela veste uma camiseta dos Melvins, uma das bandas favoritas de Karl. A conexão entre os dois é imediata e eles acabam se envolvendo. Porém Lena é uma pessoa complicada, que carrega muitas cicatrizes de seu passado: uma madrasta com quem nunca conseguiu conviver, um estupro sofrido durante um show, sua pesquisa roubada por um colega na universidade, enfim: Lena é uma pilha de problemas, uma grande cicatriz emocional ambulante. Karl decide pôr de lado sua regra de não interferir com o passado e decide ajudar Lena, apagando alguns de seus traumas do passado.




A partir desse ponto as coisas saem de controle e as viagens a shows memoráveis são substituídas por uma revisitação do passado doloroso de ambos, passando por antigos relacionamentos fracassados, parentes falecidos, ex companheiros de banda e outros traumas. Daviau conduz a história de maneira cuidadosa, não forçando demais a barra nos aspectos técnicos dos paradoxos temporais e as conseqüências de cada alteração no passado, utilizando sua pseudociência apenas o suficiente para continuar se mantendo plausível. Apesar de alguns furinhos em alguns pontos na história, mas isso é compensado pelo desenvolvimento: várias linhas temporais se desenrolando, no passado, presente e futuro, derivando reflexões interessantes como “Qual o significado de viajar no passado quando você já vive no passado?” ou “Como seria minha vida se eu tomasse uma decisão diferente a respeito de...“, como se precisássemos de um livro pra essa última questão ficar pairando em nossas cabeças heheheh.....


"Wayne ficou ali parado  me observando chorar. Tentei aproveitar a bondade de vegetação farta e ar adocicado de 980, mas desejava o conforto de escapamento de carros, a dor fácil da existência como eu conhecia em minha vida no bar. Se eu soubesse que tinha provocado dor em alguém, pelo menos eu sabia que teria essa dor devolvida a mim se eu estivesse em casa na cidade, em 2010, aos quarenta anos, com meus anos bons para trás. Eu seria agredido. (...) Meu coração iria sofrer por causa de uma física. Nada na ilha utópica de Wayne conseguia me tocar, e eu não aguentava isso. O que isso dizia sobre Wayne, que ele precisava de uma vida sem solavancos? Você não pode compor música em uma vida dessas. Você não precisa de música. Eu precisava estar onde meu coração pudesse sofrer."




“Tá, mas e todo esse Indie Rock que disseram que pontua a história?” Ora, já no título original (Every Anxious Wave, trecho da letra de Kath, da banda Sebadoh), você vê que tudo está encharcado de Indie Rock ao longo das 300 páginas do livro, e recheado de referência a bandas que vão de Galaxy 500 a The Replacements, passando por Elliott Smith, que francamente eu não conhecia, mas o amor dos personagens Karl e Lena por esse artista (ambos ostentam tatuagens com um trecho de uma letra do Smith) despertou minha curiosidade e corri atrás para apagar essa mancha do meu histórico e conhecê-lo. Na verdade, todos os vídeos espalhados pelo post são músicas referenciadas no livro, então a playlist está espalhada ao longo do texto. Ou vocês podem ouvir essa lista inspiradíssima AQUI nesse link do Spotify, perfeita pra acompanhar a leitura. Obrigado. De nada.






30 e Poucos Anos... é essencialmente como De Volta Para o Futuro, no sentido de que toda a ciência apresentada é somente pra sustentar esse recurso de se usar viagens do tempo na história, mas a alma, o core do livro, o padrinho espiritual é o Alta Fidelidade, de Nick Hornby. Portanto, aos que têm a expectativa de ler uma história mirabolante, com explicações convincentes sobre viagem no tempo, paradoxos temporais impressionantes, reviravoltas de proporções cósmicas e reverberações incomensuráveis no continuum espaço-temporal (como eu, que alimentei todas essas expectativas antes do livro chegar rs), é melhor correr atrás de O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov (qualquer dia desses a gente fala sobre ele aqui na ZN!).





A história tem algumas tramas paralelas bem bacanas, mas que foram pouco desenvolvidas, como a história de Sahlil, senhorio de Karl, que ao descobrir que seu inquilino tem um buraco de minhoca no closet, pede para voltar e conhecer Freddie Mercury, se apaixona, resolve sair do armário (sem trocadilho rs), abandonar a esposa e.... bem, pouca coisa é desenvolvida além desse ponto. Daviau poderia dar um pouco mais de atenção aos coadjuvantes, que tinham todo um potencial inexplorado. É muito bom quando a gente esbarra em um livro que, além de uma ótima trama principal entrega tramas paralelas de personagens menores, mas tão interessantes quanto tudo que está se passando em primeiro plano. Ainda assim, nada mal para um romance de estréia, e não vejo motivos que impeçam Daviau de fazer melhor em seu próximo livro.




30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo é uma história mais intimista, contida ao máximo em seu núcleo de personagens principais (Karl-Lena-Wayne-Glory). Um drama sensível sobre amadurecimento, superação de antigas dores, sobre encontrar seu lugar no mundo (a às vezes ter que rever essa posição!), e sobre a dicotomia “o que realmente precisamos X o que queremos”, que está para o Alta Fidelidade assim como Guerra do Velho está para o Tropas Estelares. Ou sejE, apesar do título, vai agradar mais a quem está atrás de um bom romance do que aos fanáticos por deep Sci-Fi.





Contido, sensível, intimista, mas acima de tudo intenso. Exatamente como aquele showzinho da banda indie de um amigo(a) seu, onde você por acaso, conheceu alguém especial, que já foi embora, mas que sempre volta na memória se certas músicas tocam por perto...



"(...) Mas, depois de algum tempo, percebi que o corpo continua a chorar pela mesma coisa para sempre. O cérebro humano, quando exposto a anos de tristeza, nunca compreende nada nem se aperfeiçoa, e viagens no tempo só pioram as coisas."


Pra fechar, deixo aqui meu Top 5 de shows através da história que eu gostaria de ter assistido:



5 – Daminhão Experiença nos anos 80, qualquer show!

4 – The Cramps, ao vivo no Napa State Mental Hospital, junho de 1978

3 – Impacto Cinco, qualquer show da época do álbum “Lágrimas Azuis”

2 – Faith no More, Brixton Academy, 28/04/1990

1 – Os Pixies, Metro Chicago, 10/08/1989



E a sua lista? Deixe aí nos comentários!!!

domingo, 7 de maio de 2017

A CIDADE E A CIDADE, de China Miéville, ou "Ficção para Enxergar a Realidade Dentro da Realidade"



Por RICARDO CAVALCANTI

 O inglês China Miéville é um dos autores mais badalados do chamado “New Weird” (gênero que está dando uma nova roupagem à “ficção do estranho” ou “ficção do bizarro” desenvolvido por autores como H. P.Lovecraft) e que vem ganhando cada vez mais espaço na ficção científica e fantasia. Apesar de sua aparência ameaçadora, lembrando muito os Hooligans ingleses, ou um Skinhead mais radical, esse escritor prova que nada tem a ver com impressão que se tem à primeira vista, e que a imagem que passa não está nem um pouco ligada à sua personalidade. Miéville é formado em Antropologia Social pela Universidade de Cambridge, com Mestrado e Doutorado em Filosofia do Direito Internacional pela London School of Economics, professor da Universidade de Warwick, além de um ativo militante de esquerda e marxista de carteirinha (para alguns, isso pode soar como um crime).

O autor já teve seu romance “Rei Rato” lançado por aqui pela Tarja Editorial, mas infelizmente está esgotado e, quem tem não se desfaz. Agora temos seu premiado romance “A Cidade e a Cidade” chegando através da Boitempo Editorial, que vai publicar todos os seus livros no Brasil (não existe editora que se encaixe melhor no perfil do autor, que a Boitempo). A obra foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Nébula Award, Arthur C. Clarke Award, Hugo Award (o mais importante do gênero) e World Fantasy Award, só para citar alguns.
O troféu da World Fantasy Award é a reprodução da imagem do nosso amigo H. P. Lovecraft
Todo escritor inglês que se preze, precisava dar uma passadinha na Vertigo para dar a sua contribuição na revista Hellblazer. Com ele não foi diferente. Na edição 250, Miéville escreve a história “O Cair da Neve”, que saiu por aqui na Vertigo #43, lançado pela Panini em junho de 2013. Para a DC Comics, trouxe sua leitura para o mundo dos Novos 52 de “Dial H for Hero” (cultuada HQ dos anos 60), chamada apenas de Dial H. A sinopse já alimenta a nossa curiosidade.O que aconteceria se você descobrisse um poderoso artefato que o transformasse em um super-herói? E se esse dispositivo ameaçasse o mundo inteiro? As capas parecem uma mistura de Homem Animal e Patrulha do Destino do Grant Morrison. Lá fora, chegou a sair uma edição de luxo de 368 páginas com toda a elogiada fase do autor. Ainda nos Novos 52, escreveu um dos episódios de Vilania Eterna, na Revista da Liga da Justiça edição #23.3.



Falar sobre A Cidade e a Cidade não é uma tarefa das mais simples. Como falar sobre uma história em que, qualquer coisa a ser dita, pode acabar se revelando pontos importantes da trama? A própria sinopse da editora, já nos deixa no limite do que deve ser dito. Mas o que podemos dizer sem que isso diminua seu impacto, é que se trata de um romance policial no estilo Noir, que a princípio parece mais uma simples história sobre investigações de um assassinato. A história é narrada pelo investigador Tyador Borlú, detetive da cidade-Estado chamada Besźel, que se depara com o corpo de uma mulher não identificada. Nada de extraordinário em mais um dia de trabalho policial.

Borlú acaba tendo que continuar a investigação e, aos poucos, percebe que muitas pessoas poderiam ter motivação para desejar a morte dela. Algumas pistas começam a surgir e que são um pouco fora do normal. O corpo da mulher foi encontrado em uma cidade, mas ao que tudo indica, o crime aconteceu em outra cidade-Estado, Ul Qoma. A princípio, podemos imaginar que aconteceu algo como a “malandragem” brasileira mostrada no filme Tropa de Elite 2, em que o batalhão da Maré 2 joga o corpo na área de Maré 1 para diminuir seu índice de criminalidade, e vice-versa. Mas as coisas são um pouquinho mais complexas que isso.

São duas cidades muito distantes e muito próximas ao mesmo tempo. Cada uma com sua própria língua, com sua própria moeda, seus próprios costumes, diferentes aeroportos, códigos de discagem internacionais. Tudo completamente diferente e funcionando de forma independente. O que acontece em uma cidade, obviamente não é visto pela outra. Elas não fazem fronteira uma com a outra, mas possuem algo que as liga e conecta. O que ambas têm em comum, além de estarem em um país fictício do Leste Europeu, é apenas um pequeno detalhe: As duas estão no mesmo lugar, ocupando o mesmo espaço físico. As ruas, as praças, os prédios. Os carros andam pelas ruas, desviando dos veículos da outra cidade. Os pedestres fazem o mesmo com os habitantes da outra cidade.


Não se trata de realidade paralela. As duas sabem da existência uma da outra. No entanto, ir de uma cidade para outra, trafegando entre seus limites, não é tão fácil como se possa imaginar. Você me pergunta: “já que as duas cidades estão no mesmo lugar, como elas não vêem a outra cidade?” Bom.. Nesse caso, parte da experiência da leitura está em ir descobrindo com o desenrolar da trama, o funcionamento, a relação e a dinâmica entre as duas cidades e seus habitantes; e como tudo vai fazendo certo sentido, na medida em que a história vai se desenvolvendo.

Com uma excelente narrativa recheada de intrigas, suspense e conspiração, China Miéville ultrapassa as fronteiras de realidades na forma de um romance policial que toma dimensões extraordinárias, construindo uma excelente metáfora para o que acontece no dia a dia em nossas cidades. Mostrando na história (assim como na vida real) que existe um muro invisível e intransponível, separando cidades dentro da cidade; um muro que segrega, afasta e exclui. Não se trata de um proselitismo tendencioso, nem uma doutrinação panfletária. Usar alegorias para apontar as nossas dissonâncias sociais ou fazer uma crítica às desigualdades produzidas a partir de nossa interação com a sociedade é bastante comum na ficção. A sutileza do texto flui de forma orgânica, além de tornar a leitura extremamente prazerosa (seja lá qual for a ideologia política de quem lê). Caso suas convicções destoem da ideologia do autor, não se deixe privar de ter uma experiência em conhecer sua obra. A não ser que prefira passar o seu tempo batendo palma para a notícia de que "recessão e desemprego aumentam o poder de compra", ou ficar fazendo blitz em escolas municipais, para que não seja propagada outra ideologia que não seja a sua.

“A Cidade e a Cidade” pode ser lido com várias perspectivas diferentes. Você pode simplesmente encarar como uma diferente história policial - com todos os elementos necessários para agradar aos amantes do gênero; pode ser lido como um ponto de reflexão social - considerando de que na história, não é nada tão fantasioso quanto parece; Ou você pode usar como um ponto de entrada para as obras do autor. A "BBC Two" anunciou a adaptação do romance para a TV, tendo o ator David Morrissey interpretando Tyador Borlú. O ator interpretou o Governador em The Walking Dead.

Um importante ponto que deve ser destacado, é a fato de a Boitempo ter escolhido o "quase onipresente" Fábio Fernades como o responsável pela tradução desta obra. Especialista em ficção científica, traduziu grande parte das maiores obras do gênero, como Laranja Mecânica, Neuromancer, 2001 - Uma Odisseia no espaço, a Trilogia Fundação, O Homem do Castelo Alto. Só para citar alguns. 

Agora retire a venda dos olhos, saia da cidade e entre na cidade e veja a cidade dentro da cidade, dentro da cidade, dentro da cidade...

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #006: “SÍNDROME”, de Cesar Bravo




Salve, seus alucinados!!



Demos uma breve parada nas resenhas pra dar aquela enchida de lingüiça que deixa a turminha feliz, porque Encheção de lingüiça na Zona Negativa é uma pausa pra ler um conto, e sempre de alto nível!




O alvo da vez é nosso chégas, o escritor César Bravo. O autor do excelente Ultra Carnem resenha completa aqui já era conhecido há bastante tempo na rede por ter lançado vários contos em algumas coletâneas. “Síndrome” é um de seus contos mais recentes, e que temos orgulho de publicar aqui, saído do forno! Deliciosamente insano e violento, - e os freaks leitores de HQs vão sentir uma pegada do "Crossed" de Garth Ennis nele -  o conto mostra a facilidade de Bravo para criar cenários extremamente perturbadores e situações sem saída ou qualquer esperança de uma resolução feliz. Otimistas, estejam  avisados!


Um livro infernal.



Então sem mais delongas, fiquem com essa pérola sangrenta do cancioneiro nacional, e até o próximo post!




Síndrome
César Bravo, 2017



Não sei ao certo como cheguei até aqui. Meu estômago está embrulhado, minha boca está seca e pastosa. Meus olhos não enxergam com clareza. Cada pedaço da vida se tornou tortuoso, permeado por perseguições, revolta e fúria. Não confio em ninguém, minhas costas doem, às vezes perco o controle da bexiga. Quando penso no futuro, vejo um poço sem fundo, um caminho sem luz, uma miséria sem volta.


A cidade cheirando à fuligem e lixo não parece capaz de me ajudar. Suas esquinas sequestram desesperados desabrigados; cães, gatos e ratos são o novo alimento das ruas. Os arranha-céus sorriem de minha insignificância, albergando os homens ricos que têm a triste (?) sorte de se manterem ilesos.


Como muitos, desde o início do que pareceu um quadro depressivo, estive em todos os consultórios médicos da cidade. Cardiovasculares, Neurologistas, Psiquiatras, Psicólogos. Frequentei todas as igrejas, templos e terreiros, usei os medicamentos que pude comprar, gastei meu estômago e meus joelhos no chão; exatamente como me orientaram a fazer. Meu desespero aumentou há dois meses, quando percebi que não era o único. 

Em meu trabalho, meu melhor amigo perdeu a capacidade de dormir. Esse foi o primeiro passo. Em seguida ele se tornou violento, por fim, em um surto da Síndrome, atacou nosso chefe e o enviou ao ambulatório, com a mandíbula quebrada em dois lugares. Não sendo um homem violento (não naquela época), eu preferi o que era certo: procurei ajuda.


Benzodiazepínicos, Clonazepam, Litium, Valium, Lexapro. 


Os medicamentos me levaram a uma espécie de torpor, onde o ontem e o hoje se misturavam, condenando o amanhã. Anestesiado como estava, perdi a confiança de meus amigos, perdi meu emprego — ainda sem imaginar que todos os meus colegas teriam um mesmo diagnóstico em poucos dias.


Ninguém sabe ao certo como a Síndrome começou a afetar a cidade toda — pelas notícias da TV, o mundo todo.


Pessoas se arrastam, as contas do estado estão no vermelho. A violência dá o tom da mudança. 


Semana passada, meu vizinho destruiu um carro de propagandas que o acordou antes do relógio. O “homem das pamonhas” tentou reagir, apanhando um bastão escondido sob um dos bancos. Meu vizinho tinha uma arma, não é difícil supor o resto da história.


Longe das ruas, as casas de repouso e presídios estão abarrotados de corpos confusos e instáveis. Quem tem dinheiro ocupa a primeira, o segundo é o hotel dos pobres. Estima-se que 32% da cidade esteja encarcerado, sob o domínio da Síndrome.


Surgiram várias hipóteses sobre o que parece ser um surto global de estresse e violência. Agrotóxicos, um novo vírus, vibriões; eu acredito na hipótese mais aceitável: a dificuldade em se adequar a uma sociedade fatigada pela pressão. Alguém sugeriu, em uma revista de pouca expressão, que pode ser culpa do alinhamento de alguns planetas, da regência de Saturno, e que uma dessas besteiras de algum modo afetou a maneira que as pessoas enxergam o mundo. Eu penso que só agora enxergamos a verdade — e ela existe em nós desde que o primeiro macaco falou.


As empresas e instituições seguem aos tropeços, com um quadro de funcionários cada vez menor; há fome e desemprego em todos os cantos. Exércitos igualmente adoecidos ocupam as ruas há meses, o consumo de drogas ilícitas superou o tabaco e o álcool.


Estamos em 2028. O sol brilha como um inferno suspenso nos ares, transpiramos o tempo todo, nossas casas não têm energia, a água tratada foi dividida por cotas.



Estou sentado em um praça aqui da cidade, respirando profundamente. A igreja destruída ainda rui à minha frente. Observo seis ou sete pessoas (é difícil contar à distância, meus olhos não enxergam muito bem) entrando em uma discussão. O motivo, não sei claramente, mas duvido que exista algum. A verdade é que todos querem um rosto para bater, uma carne para rasgar. Querem, de algum modo, transferirem parte da dor e agonia que sentem para outra pessoa.


Seguido do estado de apatia inicial, surge a histeria. É o que está acontecendo com aqueles caras. O motivo pode ser um olhar atravessado, uma sensação de perseguição, o rosto feliz de quem ainda não foi afetado pela Síndrome.


Todos estão furiosos.


Daqueles seis — seis não, sete (agora consigo enxergar) —, dois estão no chão. Suas cabeças são pisoteadas pelos outros cinco. Um dos agressores é uma menina, não deve ter mais de quinze anos. Mas ela tem saliva pelo queixo e uma corrente ensanguentada nas mãos. Ela bate contra o homem caído ao chão e rasga sua pele, o outro se levanta e foge. Um dos outros agressores, um homem com a farda da polícia, se afasta e sorri, ciente que um corpo em sete é um bom número nos últimos tempos. Mas ele não resiste, e logo se junta aos outros para golpear o homem que não conseguiu se levantar e correr. O infeliz ao chão não tem mais um rosto. Seu terno está rasgado e sujo de sangue, sua virilha, molhada de urina. Tem algo vazando pela parte de trás de sua cabeça.


Sinto um impulso repugnante de sorrir, e eu bem sei o que significa.


Quando você tem a Síndrome, quando sua vida perdeu o cheiro e a graça, tudo o que resta é a dor dos outros. Porque dói menos quando alguém sobre mais. Procuro em meus bolsos alguma medicação que nunca serviu para merda nenhuma. Antes, encontro minha pistola, presente do meu avô, que nunca a usou para nada melhor que encher uma gaveta. Eu resisto, mas então sinto uma dor aguda no canto direito da cabeça. Golpeio o ponto algumas vezes, sentindo que a dor só aumenta. Um silvo agudo toca e supera os gritos e gemidos da praça. Mas quando envolvo a arma com minhas mãos trêmulas, meu cérebro quase sorri, tudo vai embora, o mundo se cala.


Penso no policial, penso na garota com a corrente ensanguentada nas mãos, penso no homem tatuado que está ao lado, arqueado, recuperando o fôlego com as mãos apoiadas nos joelhos. Os outros não são interessantes, eles parecem satisfeitos com o espancamento e começam a se afastar. Mas os olhos dos três restantes ainda têm traços de sangue, hipervascularizados, isso sempre acontece quando a Síndrome te pega de jeito. Escondendo minha arma na cintura, assovio para eles. Meu cérebro sorri, minha apatia me deixa em paz por alguns segundos. Sei do que preciso agora. Uma canção antiga começa a tocar dentro de mim. Pode ser One in A Million, do Guns and Roses. Penso na minha esposa. Minha pequena também tem a Síndrome, ela está trancada no porão da minha casa há duas semanas, fui obrigado a isso quando ela tentou me esfaquear.


“Depressão”, eles disseram.


“Estresse”, eles disseram.


“Ansiedade”, eles disseram.


Mas eu sei o que a Síndrome significa. Apatia, ódio, involução, extinção. Imagino que a humanidade tenha seguido a direção errada, que nossas mentes estejam poupando a terra mãe de nossa influência cancerígena. E nós sabemos o que deve ser corrigido, chamem de empatia se quiserem. Mas a dor é mais forte; o ímpeto, a vontade de prevalecer e ser mais forte.


Eles estão vindo, e é como se a dor e a ansiedade fossem substituídas por serotonina. De repente minha arma torna-se um Deus. E eu, seu anjo vingador. Hora de executar uma decisão, penso. E me preparo para matar ou ser morto, voltando a essência selvagem da qual fomos feitos. A Síndrome vence outra vez. Sem alarde, sem resistência, sem diagnósticos precisos ou curas possíveis. Seus únicos analgésicos são o ódio e o suicídio, e consigo ser grato por não ter vocação à morte.


As armas disparam, a corrente voa pelos ares, alguém perde meia dúzia de dentes.


No fim, não importa o resultado final.


Estamos sorrindo.










terça-feira, 2 de maio de 2017

MINISTÉRIO DO ESPAÇO, de Warren Ellis + Chris Weston + Laura Martin






Por RICARDO CAVALCANTI





Warren Ellis é um dos autores preferidos do Zona Negativa. Ainda teremos muito para falar por aqui sobre esse britânico com cara de poucos amigos. Já falamos aqui da trilogia composta por Supergod, No Hero e Black Summer. Este último, por sinal, além de dar uma boa apresentação de quem é Warren Ellis, foi um dos que colocou o ZN na condição de “monitorados”. Mas é melhor não tocarmos no assunto. “Eles” estão de olho
 
Warren Ellis sensualizando pra você

O último século foi bastante conturbado. Grandes mudanças ocorreram e influenciaram todo o planeta. Nações disputando domínio sobre as outras através de seus exércitos; ideologias sendo disseminadas; radicalismo sendo propagado, além de conflitos que tomaram proporções globais.

Durante a segunda guerra mundial, o exército alemão mostrou todo o seu potencial de fogo. Com uma forte estrutura criada para o combate, suas armas eram admiradas pela sua eficiência (como toda a engenharia alemã é admirada até hoje). Uma das armas mais perigosas desenvolvidas pelos engenheiros do Führer foi o V2, um foguete com alto poder de destruição e que, sendo lançado a partir da Alemanha, seria capaz de atingir a Inglaterra. Posteriormente, acabou servindo muito como base para os primeiros foguetes que levaram o homem ao espaço.

O pai da exploração espacial foi uma arma balística de destruição em massa.
Seria cômico se não fosse loucura. E me refiro à vida real, não à HQ.

Após o fim do conflito, Estados Unidos e União Soviética disputavam todo o intelecto usado na construção das “maravilhosas” armas de guerra alemã. Todo aquele potencial era valioso demais para ser destruído. Os engenheiros responsáveis foram extremamente úteis no pós-guerra (pouco importa que tenham sido responsáveis por milhares de mortes, né? Afinal de contas, eles eram disputados para criar mais armas que poderiam causar ainda mais mortes). Todo o intelecto e a máquina de guerra alemã serviram aos interesses de americanos e soviéticos durante toda a guerra fria.



Em Ministério do Espaço, Ellis usa todo esse cenário como pano de fundo para desenvolver uma história que parte do ponto em que, a Inglaterra consegue sozinha, tomar posse de todo intelecto dos responsáveis pela máquina de guerra nazista, deixando os americanos e os russos para trás.

O que aconteceria se apenas um país se apoderasse de todo aquele intelecto, que criou todo arsenal de guerra alemão? Jacko Dashwood se torna o responsável pelo sucesso de tal operação para “captar” as mentes criativas dos engenheiros nazistas, sem que houvesse a intervenção de EUA ou URSS. Para dar continuidade aos seus planos, solicita aprovação para aproveitar todo o potencial dos “melhores construtores de mísseis do mundo” para desenvolver um projeto grandioso: Colocar um satélite artificial na órbita da terra munido de bombas atômicas que pudessem atingir qualquer alvo na terra. Esse era apenas o início do que seria a grande dominação do Reino Unido sobre o resto do mundo. No entanto, para que tudo isso fosse possível, precisaria de recursos. O grande mistério fica por conta da origem desses recursos. Um segredo que, a todo tempo, volta para assombrar Dashwood.



A Inglaterra se transforma em uma grande potência militar e tecnológica, abrindo caminho para a exploração também do espaço, criando-se assim - além do ministério do exército, da aeronáutica e da marinha - o Ministério do Espaço. Os avanços tecnológicos alcançam também toda a população, que acaba inserindo novas tecnologias em seu dia a dia. A todo instante, somos apresentados visualmente ao quanto o mundo evoluiu tecnologicamente, nos deixando maravilhados com aquela realidade.

Todo isso graças ao “visionário” Dashwood. Um cara arrogante, pretensioso e ambicioso que, mesmo sendo responsável pelo engrandecimento do Reino Unido e o surgimento do Ministério do Espaço, consegue ser odiado por todos a sua volta.


A arte de Chris Weston é um caso a parte. Weston iniciou sua carreira desenhando o Juiz Dredd para a 2000AD, tendo trabalhado também para a Image, DC, Marvel, sendo ainda responsável pela arte de The Filth, de Grant Morrison. Em Ministério do Espaço, Weston tem seu excelente traço engrandecido pela colorista Laura Martin que usa a mudança de tonalidade das cores para nos ambientar entre as diferentes épocas, sem que fosse necessária uma legenda para isso. Laura Martin - que se chamava Laura Depuy - já mostrou o seu talento em Planetary/Authority (também do Ellis) e Terra 2 da dupla Morrison/Quitely.


A história foi publicada originalmente em três edições, que a Devir nos traz integral em capa dura, papel de ótima qualidade (que valoriza bastante a arte) e com o prefácio do “arroz de festa”, Mark Millar. O que podemos dizer de "Ministério do Espaço" sem entregar algo de relevante, é que acompanhamos uma história de ficção científica com uma boa dose de suspense e que nos surpreende no final com um soco no estômago na última página. Não tem como ser mais atual. Por mais que acreditemos que estamos avançando de alguma forma, no fim da HQ a pergunta que fica é: “Será que estamos realmente evoluindo?”. Se olharmos a nossa volta, vamos perceber que, fora os jetpacks, aquela realidade não está tão distante da nossa.