domingo, 28 de maio de 2017

UM PASSEIO EM PROVIDENCE! Via Innsmouth, Red Hook, Dunwich, Carcosa, R’lyeh......


Por EDUARDO CRUZ




Quem não estava escondido embaixo de uma pedra em uma caverna subterrânea ou filosofando com o Dr. Manhattan na superfície de Marte provavelmente já sabe que a Panini finalmente lançou nesse mês de maio a primeira terça parte de Providence, uma mini série em 12 edições que saiu lá fora pela Avatar Press, e que aqui vai sair em 3 encadernados. Ansiosos? 

Podem apostar que eu sim! Pra quem não sabe, Providence é, ao mesmo tempo, prelúdio e continuação de Neonomicon, uma HQ onde Moore presta homenagem a toda a mitologia criada por esse escritor norte americano. E não é segredo nenhum que esse autor, que criou o subgênero de horror cósmico, Howard Phillips Lovecraft, é um de nossos grandes favoritos aqui na Zona Negativa! 






Em Providence acompanhamos a jornada de Robert Black, um repórter nova iorquino, homossexual, que logicamente, devido às pressões da sociedade da época, é obrigado a esconder sua condição, vivendo uma vida diferente sob a superfície. Robert trabalha em um jornal, o New York Herald, porém, sempre se sentiu compelido a escrever seu próprio grande romance, aquele que iria captar e cristalizar com precisão a essência e a época de seu país e seu povo, na América de 1919, às vésperas da Lei Seca e a poucos anos do Crash da Bolsa de Valores que assolaria a nação de um modo sem precedentes.





Em busca de um artigo para seu jornal a respeito de um misterioso livro supostamente amaldiçoado, e ainda abalado com a morte repentina de um ex amante, Robert acaba pondo o pé na estrada e pouco a pouco desbrava todo um submundo de indivíduos à margem da sociedade que trocam informações e conhecimentos sobre ciências ocultas, pessoas atípicas, excêntricos e freaks em geral, e em alguns casos até mesmo indivíduos que não poderíamos classificar exatamente como pessoas. Black, sem se dar conta, acaba empreendendo uma viagem por toda uma América oculta sob a superfície, em uma analogia nada sutil ao próprio universo encoberto a que o protagonista pertence, em uma época em que a palavra “gay” significava apenas “alegre”. A grande diversão nessa homenagem de Moore ao legado Lovecraftiano é acompanhar Black em busca de sua reportagem, peregrinando pelas cidades onde Lovecraft ambientou muitas de suas grandes histórias, se encontrando com os personagens chave dessas histórias, edição a edição, em uma romaria profana, que sabe-se lá como vai ser concluída. Aí, é ter paciência e torcer para que a Panini não demore muito a publicar o restante da série <coff, coff, coff PROMETHEA coff, coff, coff, coff...>.





E aí vem a pergunta: Dá pra ler Providence sem conhecer a obra de H.P. Lovecraft? Olha, até dá, mas devo avisar que MUITAS referências legais vão se perder, e com um trabalho assim fantástico, isso não é nada legal. Um desperdício, eu diria. Por isso, fizemos uma pequena relação das histórias de Lovecraft que o leitor teria que conhecer previamente para aproveitar ao máximo a mini série de Moore. Reitero que isso não é obrigatório e Providence ainda funciona como uma ótima história de mistério/terror por si só. Porém como se trata de uma mini série que é essencialmente referencial, como A Liga Extraordinária, outro grande título de Moore, muitos outros significados e leituras se revelam ao leitor atento que investir só mais um pouquinho de tempo pra ler alguma coisa do material de onde a HQ foi inspirada.







Não fiz uma varredura ampla como aquele gringo maluco que destrinchou o “Dossiê Negro” da Liga Extraordinária TODO, por exemplo. Em cada edição de Providence Moore passeia por um conto ou romance específico de Lovecraft, ou sejE, cada conto de Lovecraft é a espinha dorsal de uma edição, com a mitologia geral Lovecraftiana amarrando tudo. Claro que há muitas outras referências menores entre os diálogos, e não apenas de H. P. Lovecraft, mas não vamos passar um pente tão fino assim, amiguinhos. Nesse post vou indicar somente essas histórias chave, e quem se interessar em se aprofundar mais que fique à vontade. Os cata-piolhos que encontrarem alguma coisa que valha a menção e que porventura eu não tenha citado aqui, por favor, sintam-se à vontade para comentar lá embaixo!





Então arrumem um canto sombrio pra se acomodar para a leitura, preparem sua coletânea de contos de H. P. Lovecraft (Nesse link tem todos os contos citados no post) do lado do encadernado de Providence, entoem uma pequena oração para Yog-Sothoth, acendam os incensos certos, tracem os símbolos apropriados e vamos começar, ou sejam condenados para sempre...







PROVIDENCE #1


Na primeira edição, ainda em Nova York, Black localiza e entra em contato com um certo Dr. Alvarez, que lhe dá algumas pistas para seguir seu caminho. O conto “Vento Frio”, escrito em 1926 e publicado em 1928 na revista Tales of Magic and Mystery, é a história relacionada a este misterioso personagem, que no conto chama-se Dr. Muñoz, um médico que, alegando sofrer de uma rara doença, precisa manter-se resfriado a temperaturas muito baixas. No conto conheceremos um pouco mais do elusivo Dr. Muñoz e como ele ludibriou a morte...







PROVIDENCE #2


Seguindo a história, nessa edição vemos Black se relacionando com personagens como o detetive de polícia Thomas Malone e o comerciante de textos ocultistas Robert Suydam, ambos oriundos do conto “O Horror em Red Hook”, escrito em 1925 e publicado em 1927 na revista Weird Tales. Um mistério policial – onde vemos a xenofobia de Lovecraft vir à tona: o escritor morou por um tempo em Nova York e o grande volume de estrangeiros e imigrantes o incomodava – envolvendo cultos obscuros, sacrifícios de crianças e criaturas estranhas escondidas nos porões do bairro...








PROVIDENCE #3


Continuando a jornada de Black, chegamos a um estranho vilarejo portuário que não consta nos mapas, onde seus habitantes, bastante reservados, têm, em sua grande maioria, feições que se assemelham a peixes, e até mesmo a sapos... e o que são aqueles vultos nadando no mar a que Robert se refere como “focas”? Em “A Sombra de Innsmouth”, história escrita em 1931 e publicada em 1936, conheceremos mais detalhes a respeito deste desolado e malcheiroso vilarejo à beira mar, e os segredos pavorosos escondidos por detrás das portas e janelas fechadas...






PROVIDENCE #4


Fechando este primeiro encadernado nacional de Providence, Robert, no encalço das pistas de sua investigação, conhece a família Whateley. A origem dos Whateley é o conto “O Horror de Dunwich”, escrito em 1928 e publicado em 1929. A bizarra família é composta pelo velho patriarca, sua filha albina, Lavinia (Na HQ de Moore renomeada para “Leticia”), e seus dois filhos: Wilbur (na HQ é conhecido como Willard), um rapaz com feições de bode e uma estranha avidez por conhecimento oculto, e seu irmão gêmeo, que é invisível, e acreditem, talvez seja melhor não ver sua real aparência. Algumas coisas não podem ser esquecidas depois de vistas...






Ainda nesta edição, uma rápida referência ao conto "A Cor Que Caiu do Espaço", a história de invasão alienígena mais estranha, maligna e repugnante já escrita. Esse conto é de 1927, publicado no mesmo ano na revista Amazing Stories





BÔNUS:

Além das óbvias referências e homenagens ao próprio Lovecraft, consegui pescar mais algumas pequenas pérolas nessa primeira leitura de Providence, como uma menção a outro mestre do suspense e horror na literatura: Edgar Allan Poe.



Também há algumas menções ao Rei de Amarelo, livro de 1895, criação de Robert Chambers, uma das influências do próprio Lovecraft como escritor. Quem assistiu à primeira temporada de True Detective faz uma idéia do que vem a ser essa obra de horror cósmico pré-Lovecraft.

O rei de Amarelo

Os apêndices entre as edições, com textos diversos relacionados à trama, como o diário do protagonista, ou um panfleto de igreja, ou um tratado de ocultismo ajudam a imergir o leitor ainda mais na história. Ou pelo menos deveriam: em Providence os apêndices podem ser um tanto cansativos em alguns momentos. Os conteúdos extras que Moore costuma produzir para suas histórias já foram bem melhores, como os de Watchmen, ou O Dossiê Negro da Liga Extraordinária, muito mais interessantes e funcionais para a própria trama principal são OK. Mas entre esses textos, destaco a menção a O Livro dos Lobisomens, do inglês Sabine Baring-Gould, um tratado sobre licantropia publicado em 1889, do qual há uma breve menção, e recomendo a leitura. Afinal, nunca se sabe quando ser capacitado a identificar alguém que se transforme na lua cheia pode vir a ser conhecimento útil ;>).


Enfim, isso é só um ponto de partida para vocês terem uma mínima idéia do que se passa em Providence! Nessas primeiras quatro edições do encadernado, Moore mal arranhou a superfície do vasto cânone de Cthulhu e Cia, e estamos ansiosos por mais!



Quanto mais você se dispuser a chafurdar na bibliografia de Lovecraft, e também de seus colegas escritores, como Robert Bloch, Robert E. Howard, August Derleth e outros, mais e mais referências serão captadas, porque acreditem, se Moore não perdeu a mão, Providence está carregada de referências em suas páginas! A partir daí é você quem decide se vai se aventurar assim tão fundo nesses horrores inomináveis e blasfemos, ou se vai ficar só boiando na superfície mesmo, onde é mais seguro... ou não?



P.S.: Para quem sabe inglês e quiser uma relação enorme das referências contidas na HQ, se aventure nesse site!


segunda-feira, 22 de maio de 2017

CORAÇÃO SATÂNICO, de William Hjortsberg, ou “Um Hellblazer Noir com a melhor história de John Constantine jamais produzida pela Vertigo/DC Comics"




Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA






Não se pode enganar o Diabo.

Isso é um fato. Ou pelo menos, um fato dentro dos universos ficcionais rs. As melhores histórias sobre o assunto são aquelas que comprovam a máxima acima. Não dá pra ter uma história que envolva o próprio Chifrudo como personagem central E ter um final feliz ao mesmo tempo.

O Tinhoso está aí desde sempre. Segundo os teólogos, o Cramulhão é muito mais antigo que o próprio homem, então seria muita presunção crer que uma pessoa, por mais inteligente e experiente que seja, fosse capaz de passar a perna no Pai da Mentira. E é também por causa desse adágio que eu acho perfeitamente compreensível quando alguém não concorda, por exemplo, com o rumo que Garth Ennis deu ao personagem John Constantine, sempre às voltas com ocorrências demoníacas em suas histórias, quando livrou o personagem de um câncer terminal bolando uma trama intrincada onde Constantine ludibria três grandes entidades infernais e ainda lava a alma dando o dedo médio para o Primeiro dos Caídos, no já clássico arco “Hábitos Perigosos”, láááááá nos anos 90, na falecida revista "Vertigo", da editora Abril.


Foi divertido? Foi! 
Foi Massavéio? À beça! 
Ainda me lembro de quando era garoto juvenil e vibrei com essa saída para uma situação que parecia levar ao fim do personagem e ao encerramento do título, mas analisando friamente, quais são as chances de uma pessoa que viveu trinta e poucos anos, ou sessenta, ou mesmo cem, de ter qualquer vantagem estratégica sobre uma inteligência não humana, e que em escala de poder fica abaixo apenas de seu próprio criador que, dizem, é o criador de todo o resto também? rs

Agora, se você admite essa possibilidade, ou melhor, a IMpossibilidade de uma história em que o protagonista engane o Cabrunco e saia inteiro pra se gabar, e fica se perguntando que rumo uma história assim pode tomar, tenho uma ótima recomendação: Coração Satânico, de William Hjortsberg!

"É como se Raymond Chandler tivesse escrito 'O Exorcista'. Fabuloso. Nunca li nada igual."
Stephen King

Na verdade, Coração Satânico foi uma recomendação do Ricardo C., o outro zelador da Zona Negativa. Ele adora tanto o livro quanto o filme, e insistiu que eu lesse a história. Eu conhecia apenas o filme, como 90% das pessoas que ouvem falar em Coração Satânico. “Mas então porque é você escrevendo essa resenha, e não ele, que conhece o livro há muito mais tempo que você?”, vocês vão perguntar. Bem, se a vida fosse justa, seria um texto dele, mas fui tentado pelo Pé-de-Bode, e bati com uma pedra em sua cabeça enquanto ele estava distraído trabalhando em algum outro texto. E assim Caim matou Abel.



A trama de Coração Satânico é ambientada na década de 1950, e a história é narrada em primeira pessoa por seu protagonista, Harry Angel, um detetive particular que é contratado pelo enigmático Louis Cyphre (sacaram?? sacaram????) para localizar o paradeiro de um músico, Johnny Favorite. A princípio, o que parecia ser mais um caso rotineiro degenera lentamente, à medida que a história avança, para mistérios, mortes, rituais sangrentos e tenebrosos de vodu no Central Park à noite, muitos pentagramas invertidos, magia negra e o que parece ser a mão do próprio Príncipe das Trevas encadeando cada vez mais acontecimentos macabros, que culminam em... bem, não vou me estender nos detalhes nem dar spoilers, ou corro o risco de acabar sufocado com meus próprios genitais decepados ;>)

E não se deixem enganar pelo clima de romance policial noir à primeira vista: o que começa como um romance de Mike Hammer, com ruelas escuras, becos esfumaçados, intrigas, mulheres fatais e crimes violentos rapidamente toma contornos  dignos de um arco de John Constantine: Hellblazer à medida que a investigação de Angel avança e ele desvela pouco a pouco o mistério de Johnny Favorite, e paralelamente, mistérios sobre si próprio. O detetive particular da história segue à risca a cartilha do típico detetive do gênero American Crime Novel: durão, fumante inveterado, beberrão, bom de briga e que muitas vezes recorre a métodos e recursos à margem da lei para levar seu trabalho a cabo. 

A revelação do mistério e o clímax da história são superiores e muito mais diabólicos do que muitas das fases de Hellblazer, que em suas 300 edições publicadas, teve seus altos (Jamie Delano, Andy Diggle, Warren Ellis) e baixos (Mike Carey, Denise Mina). É uma história cuja leitura é um deleite, num ritmo nem muito lento, nem corrido demais. A impressão que se tem desde as primeiras páginas é que Hjortsberg tem perfeito controle do ritmo da história que está contando. Eu mesmo li bem mais devagar que o de costume, apenas para que o livro não acabasse tão rápido rs.

Em 1987 foi produzida uma adaptação cinematográfica, roteirizada e dirigida pelo competentíssimo Alan Parker (Mississipi em chamas, Pink Floyd – The Wall, O expresso da meia noite). O roteiro de Parker, apesar das pequenas modificações (como por exemplo, transpor parte da história para o estado da Louisiana, provavelmente para legitimar ainda mais o contexto das religiões africanas na trama, ou mais provavelmente porque certas cenas chave do livro são infilmáveis, como a cena da missa negra que Angel presencia em uma estação de metrô abandonada, onde acontece TUDO que se pode esperar de uma verdadeira missa negra!), conserva com perfeição o ritmo do livro no que tange à investigação de Angel e todos os eventos tétricos que acontecem pelo caminho, bem como mantém o final macabro, que escancara o inferno bem na nossa cara. Se não tiver paciência para ler o livro, - o que eu acho um pecado, até mesmo no inferno – o filme também não decepciona. Muito pelo contrário. O Louis Cyphre interpretado por Robert De Niro é magnífico, com doses cavalares de mordacidade, sarcasmo e deboche pela criação divina, e seu joguinho com Angel lembra muito um gato brincando com uma barata: sádico, atrevido e agindo como se tivesse todo o tempo do mundo. A cena em que Harry Angel, (interpretado pelo galã hoje deformado Mickey Rourke) encontra Cyphre em uma igreja dá o tom de um dos melhores Cramulhões já interpretados no cinema. Nota 10! AdEvogado do Diabo??? Al Pacino se cagaria de medo do Cabrunco do Robert De Niro! 

"Há religiões suficientes para os homens se odiarem, mas não o bastante para se amarem."
Louis Cyphre



 

Robert De Niro como Louis Cyphre e Mickey Rourke no papel de Harry Angel

No Brasil, Coração Satânico foi publicado em 1987 pela editora Best Seller e estava esgotado há vários anos, sendo considerado uma raridade entre os colecionadores. Mas uma nova edição foi lançada pela Darkside Books, atualmente uma das editoras mais expressivas nesse nicho de horror, que resgatou o livro do Fosso Sem Fundo para publicá-lo em mais uma magnífica edição, com acabamento e projeto gráfico irrepreensíveis, o que já é uma marca registrada da editora. Eis uma edição pra Sete-Peles nenhum botar defeito!

Capa da primeira edição brasileira de Coração Satânico, de 1987

Uma história fantástica, poderosa e carregada de simbolismos. Um híbrido perfeito entre os gêneros policial e horror. Não se esqueçam de matar uma galinha e acender umas velas pretas para dar graças por essa bênção, pessoal.





quarta-feira, 10 de maio de 2017

30 E POUCOS ANOS E UMA MÁQUINA DO TEMPO, ou “Viagem no tempo + Indie rock + Astrofísica = Crise nas infinitas versões de nós dois”



Por EDUARDO CRUZ



"Wayne e eu compartilhávamos daquela aflição comum que assola homens solteiros com perspectivas limitadas e tendências autodestrutivas: víamos nosso passado com tamanho amor e sensação de perda que todo dia à frente era uma facada nas entranhas. Nossos vinte anos tinham sido cheios de rock e coragem. O futuro nos deixou mais velhos, mas a nossa sabedoria era duvidosa. Wayne e eu evitávamos a dor do amanhã com álcool e velhas bandas de rock. Pavement na jukebox, o brilho avermelhado divino dos letreiros de néon e frases que começavam com "Lembra quando..."."




Eu consigo viajar no tempo.

Não, é sério, pessoal! Vocês não conseguem???

Pessoalmente, o gatilho das minhas viagens no tempo é a música. Sempre a música. Pra mim a música funciona como savepoints em um jogo, então se determinada música tocou em determinado momento da minha vida, é só dar o play de novo e consigo reviver a cena em minha cabeça com perfeição. É assim que eu costumo viajar no tempo. A música, seja ela boa (Qualquer uma dos Pixies), ruim (Step By Step – New Kids on The Block), brega (Ordinary World – Duran Duran), tocante (Grace – Jeff Buckley) ...... eu consigo voltar àquele momento, me transportar àquela época inteira, se resumindo a uma canção.


Monique Daviau



Essa é a maneira convencional de viajar no tempo, mas algumas pessoas conseguem o mesmo resultado com filmes, viagens e até mesmo ao sentir o cheiro de um perfume ou com comida. Mas e se realmente fosse possível voltar no tempo, digo, fisicamente? Quais momentos você escolheria?





 30 e Poucos Anos e Uma Máquina do Tempo pode ser resumido à motivação inicial de seu protagonista, Karl Bender: “Se você pudesse voltar no tempo para ver qualquer banda tocar, quais bandas você escolheria?”. Karl é um barman de 40 anos recém completados e que já passou de seus melhores dias há muito tempo, quando ainda era o guitarrista da Axis, uma banda de Indie Rock que alcançou um relativo sucesso com um hit dedicado a moças... cheinhas, lá nos anos 90. Um dia, Karl descobre que um buraco de minhoca surgiu dentro de seu closet, e essa passagem pode transportá-lo pelo tempo. Junto com seu amigo Wayne, Karl começa a cobrar por essas viagens a shows do passado, sempre sem interferir ou alterar nada. Você paga, assiste o show e volta para o presente. Até que Wayne decide interferir e pede a Karl que o envie a 1980, para impedir o assassinato de John Lennon.



"Regra número um da casa: o buraco de minhoca só deveria ser usado para ir a shows de rock do passado. Isso mantinha a experiência pura e livre da tentação de obter uma vida melhor. Além disso, por que precisaríamos de música se nossa vida fosse exatamente como gostaríamos que fosse?
Outras regras da casa: nada de trazer suvenires. Não falar com ninguém no passado. Não tocar em nada. Não beber nem usar drogas. Não fotografar. Não gravar áudio. Não ficar no passado por mais tempo que a duração do show. Não sair do local do show. Sei que você gostaria de ver os carros antigos e as roupas fora de moda e a data na primeira página do jornal na própria pilha de jornais, mas não.
Regras da casa."



Por um erro bisonho de Karl, Wayne acaba parando em 980 ao invés de 1980, sem meios de retornar! Sem o conhecimento técnico para reverter a cagada, Karl decide contatar Lena, uma astrofísica que ele supõe ter interesses em comum por conta de uma foto sua na internet, onde ela veste uma camiseta dos Melvins, uma das bandas favoritas de Karl. A conexão entre os dois é imediata e eles acabam se envolvendo. Porém Lena é uma pessoa complicada, que carrega muitas cicatrizes de seu passado: uma madrasta com quem nunca conseguiu conviver, um estupro sofrido durante um show, sua pesquisa roubada por um colega na universidade, enfim: Lena é uma pilha de problemas, uma grande cicatriz emocional ambulante. Karl decide pôr de lado sua regra de não interferir com o passado e decide ajudar Lena, apagando alguns de seus traumas do passado.




A partir desse ponto as coisas saem de controle e as viagens a shows memoráveis são substituídas por uma revisitação do passado doloroso de ambos, passando por antigos relacionamentos fracassados, parentes falecidos, ex companheiros de banda e outros traumas. Daviau conduz a história de maneira cuidadosa, não forçando demais a barra nos aspectos técnicos dos paradoxos temporais e as conseqüências de cada alteração no passado, utilizando sua pseudociência apenas o suficiente para continuar se mantendo plausível. Apesar de alguns furinhos em alguns pontos na história, mas isso é compensado pelo desenvolvimento: várias linhas temporais se desenrolando, no passado, presente e futuro, derivando reflexões interessantes como “Qual o significado de viajar no passado quando você já vive no passado?” ou “Como seria minha vida se eu tomasse uma decisão diferente a respeito de...“, como se precisássemos de um livro pra essa última questão ficar pairando em nossas cabeças heheheh.....


"Wayne ficou ali parado  me observando chorar. Tentei aproveitar a bondade de vegetação farta e ar adocicado de 980, mas desejava o conforto de escapamento de carros, a dor fácil da existência como eu conhecia em minha vida no bar. Se eu soubesse que tinha provocado dor em alguém, pelo menos eu sabia que teria essa dor devolvida a mim se eu estivesse em casa na cidade, em 2010, aos quarenta anos, com meus anos bons para trás. Eu seria agredido. (...) Meu coração iria sofrer por causa de uma física. Nada na ilha utópica de Wayne conseguia me tocar, e eu não aguentava isso. O que isso dizia sobre Wayne, que ele precisava de uma vida sem solavancos? Você não pode compor música em uma vida dessas. Você não precisa de música. Eu precisava estar onde meu coração pudesse sofrer."




“Tá, mas e todo esse Indie Rock que disseram que pontua a história?” Ora, já no título original (Every Anxious Wave, trecho da letra de Kath, da banda Sebadoh), você vê que tudo está encharcado de Indie Rock ao longo das 300 páginas do livro, e recheado de referência a bandas que vão de Galaxy 500 a The Replacements, passando por Elliott Smith, que francamente eu não conhecia, mas o amor dos personagens Karl e Lena por esse artista (ambos ostentam tatuagens com um trecho de uma letra do Smith) despertou minha curiosidade e corri atrás para apagar essa mancha do meu histórico e conhecê-lo. Na verdade, todos os vídeos espalhados pelo post são músicas referenciadas no livro, então a playlist está espalhada ao longo do texto. Ou vocês podem ouvir essa lista inspiradíssima AQUI nesse link do Spotify, perfeita pra acompanhar a leitura. Obrigado. De nada.






30 e Poucos Anos... é essencialmente como De Volta Para o Futuro, no sentido de que toda a ciência apresentada é somente pra sustentar esse recurso de se usar viagens do tempo na história, mas a alma, o core do livro, o padrinho espiritual é o Alta Fidelidade, de Nick Hornby. Portanto, aos que têm a expectativa de ler uma história mirabolante, com explicações convincentes sobre viagem no tempo, paradoxos temporais impressionantes, reviravoltas de proporções cósmicas e reverberações incomensuráveis no continuum espaço-temporal (como eu, que alimentei todas essas expectativas antes do livro chegar rs), é melhor correr atrás de O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov (qualquer dia desses a gente fala sobre ele aqui na ZN!).





A história tem algumas tramas paralelas bem bacanas, mas que foram pouco desenvolvidas, como a história de Sahlil, senhorio de Karl, que ao descobrir que seu inquilino tem um buraco de minhoca no closet, pede para voltar e conhecer Freddie Mercury, se apaixona, resolve sair do armário (sem trocadilho rs), abandonar a esposa e.... bem, pouca coisa é desenvolvida além desse ponto. Daviau poderia dar um pouco mais de atenção aos coadjuvantes, que tinham todo um potencial inexplorado. É muito bom quando a gente esbarra em um livro que, além de uma ótima trama principal entrega tramas paralelas de personagens menores, mas tão interessantes quanto tudo que está se passando em primeiro plano. Ainda assim, nada mal para um romance de estréia, e não vejo motivos que impeçam Daviau de fazer melhor em seu próximo livro.




30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo é uma história mais intimista, contida ao máximo em seu núcleo de personagens principais (Karl-Lena-Wayne-Glory). Um drama sensível sobre amadurecimento, superação de antigas dores, sobre encontrar seu lugar no mundo (a às vezes ter que rever essa posição!), e sobre a dicotomia “o que realmente precisamos X o que queremos”, que está para o Alta Fidelidade assim como Guerra do Velho está para o Tropas Estelares. Ou sejE, apesar do título, vai agradar mais a quem está atrás de um bom romance do que aos fanáticos por deep Sci-Fi.





Contido, sensível, intimista, mas acima de tudo intenso. Exatamente como aquele showzinho da banda indie de um amigo(a) seu, onde você por acaso, conheceu alguém especial, que já foi embora, mas que sempre volta na memória se certas músicas tocam por perto...



"(...) Mas, depois de algum tempo, percebi que o corpo continua a chorar pela mesma coisa para sempre. O cérebro humano, quando exposto a anos de tristeza, nunca compreende nada nem se aperfeiçoa, e viagens no tempo só pioram as coisas."


Pra fechar, deixo aqui meu Top 5 de shows através da história que eu gostaria de ter assistido:



5 – Daminhão Experiença nos anos 80, qualquer show!

4 – The Cramps, ao vivo no Napa State Mental Hospital, junho de 1978

3 – Impacto Cinco, qualquer show da época do álbum “Lágrimas Azuis”

2 – Faith no More, Brixton Academy, 28/04/1990

1 – Os Pixies, Metro Chicago, 10/08/1989



E a sua lista? Deixe aí nos comentários!!!