terça-feira, 26 de setembro de 2017

OS BIG BOOKS DA PARADOX PRESS, ou "(mais) Dezessete razões para amar a DC!"






Por EDUARDO CRUZ


Quando a gente pensa em selos e subdivisões editoriais na DC Comics, pensamos principalmente na Vertigo. Claro, sendo (no passado) o selo mais bem sucedido da editora, excluindo-se, logicamente, a linha super heroística principal, não é difícil entender porque a maioria das pessoas faz essa associação imediata. Porém, a Vertigo não foi a única investida da DC fora do nicho mainstream de super heróis e afins. Inicialmente o selo Vertigo foi idealizado em 1993 para comportar histórias com teor mais adulto ou sem relação com a cronologia principal da editora, inclusive muitas histórias produzidas antes disso migraram posteriormente para o selo, como Skreemer, ou Hellblazer, por exemplo. Histórias de horror, ficção científica e qualquer outro gênero WTF que simplesmente não se enquadrasse nas Action Comics, Superman e Batman que saíam todos os meses, porém ainda assim títulos com potencial comercial. Vide os sucessos de sempre Sandman, Preacher, Fábulas, Transmetropolitan e por aí vai. As séries são discutidas por leitores ao redor do mundo até hoje, as coletâneas vendem bem até hoje. HQs direcionadas a um público que não o infanto juvenil, e ainda assim êxitos comerciais. Inegavelmente HQs mainstream, mesmo que com palavrões, sexo e violência e questões nada leves.



Mas até aí beleza, hoje em dia qualquer leitor novato conhece a trajetória da Vertigo, o foco das publicações e coisa e tal. O que nem tanta gente sabe é que existiram dois selos, também da DC comics, com propostas similares, que renderam ótimos títulos enquanto existiram. Um deles é o Piranha é um peixe voraz Press, que subsistiu de 1989 a 1993. Sob a batuta do editor Mark Nevelow, o selo foi uma tentativa da DC de publicar HQs alternativas. Para tanto, Nevelow focou não em trabalhar com nomes já estabelecidos da indústria de quadrinhos fazendo HQs alternativas, e sim aglutinar diversos artistas alternativos em projetos de graphic novels ousadas, ecléticas e experimentais. Assim como na Vertigo, os criadores tinham direitos assegurados sobre a obra. Além de várias graphic novels, a série longeva Beautiful Stories for Ugly Children foi um dos carros chefe da linha, e chegou à 32ª edição (e só de falar a respeito me dá vontade de reler tudo hehehe), tendo se encerrado junto com a própria Piranha Press.



"Why I Hate Saturn", do inigualável Kyle Baker!

Isso aqui é HQ sofisticada, não é pra gente da sua laia, não! Voltem pras suas mensais de super heróis! ;>)))


Mas se vocês acham que a história acaba com o fim do Piranha Press, se enganam. Ainda em 1993, Nevelow fica a cargo do selo que seria o sucessor do Piranha Press, batizado Paradox Press, e que teria o mesmo foco do Piranha: graphic novels autorais produzidas por autores independentes, fora do gênero de super heróis, e que não possuíssem os elementos de horror, fantasia e ficção científica da linha Vertigo. Graphic Novels como Uma História de Violência e Estrada para a Perdição, ambas mais famosas por suas versões cinematográficas do que as próprias HQs, são alguns dos títulos mais conhecidos do selo.


Paradox Press


"Uma História de Violência", adaptada para o cinema por David Cronenberg


"Estrada Para a Perdição", adaptada para o cinema por Sam Mendes

Mas o troféu de "material WTF" da Paradox Press fica por conta da série Factoid Books, uma antologia de álbuns divididos em temas. Uma espécie de enciclopédia de fatos, acontecimentos e personalidades bizarras e incomuns. Publicados entre 1994 e 2000, cada volume é um Big Book of... trazendo um tema específico, com várias histórias de 1 a 4 páginas cada, um belo trabalho de pesquisa histórica - o lado B da História da humanidade, pra ser mais preciso -, os volumes são compilados e roteirizados por nomes como John Wagner, Doug Moench, Gahan Wilson, entre outros, com dados VERÍDICOS (exceto pelo de lendas urbanas, por razões óbvias) e todos ilustrados por nomes como Joe Sacco, Arthur Adams, Sergio Aragonés, David Lloyd, Bryan Talbot, Tony Harris, Peter Kuper, Steve Dillon, Paul Pope, J. H. Williams, Kevin Maguire, Seth Fischer, Charles Vess, Dave Cooper e até mesmo um novato chamado Frank Quitely ;>). A lista é imensa e quase todo artista bom (e até uns fraquinhos) que vocês puderem imaginar dos últimos 30 anos desenhou pelo menos uma história em um Big Book da Paradox Press...


Um Quitely em início de carreira ilustrando de lendas urbanas...
... até a sofrida biografia de John Merrick, o Homem Elefante.

A série teve estupendos dezessete volumes publicados, com previsão para um décimo oitavo, The Big Book of Wild Women tendo sido anunciado, mas que nunca chegou a ser lançado. Os volumes da série Factoid Books, por ordem cronológica de publicação, são:



The Big Book of Urban Legends

 


Publicado em 1994, com Robert Boyd, Robert Loren Fleming e Jan Brunvand como escritores, o Big Book das Lendas Urbanas ganhou o Eisner de 1995 de Melhor Antologia. O livro reúne 200 contos reunidos por Brunvand de nosso folclore contemporâneo, as lendas urbanas, todas aquelas histórias que aconteceram com "um amigo de um amigo".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

The Big Book of Weirdos

 

 


Publicado em 1995 and escrito por Carl Posey, o Big Book dos Esquisitões traz a biografia ilustrada de 67 dos maiores excêntricos do mundo. Figuraças como Nikola Tesla, Calígula, Henry Ford, Harry Houdini, o Marquês de Sade, entre outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

The Big Book of Death

 



Publicado em 1995 e escrito por Bronwyn Carlton, o Big Book da Morte já começa mostrando os segredos e bastidores dos métodos de execução - do enforcamento à cadeira elétrica. Em seguida aborda suicídio bizarros, mortes estranhas, métodos de sepultamento e o grande além vida. Também desvenda a origem da guilhotina, mostra como funciona a preservação de corpos por criogenia e nos mostra que até mesmo um queijo pode ser usado como arma fatal (!?!?).

 

 

 

 

 

 

 

The Big Book of Conspiracies

 

 

Publicado em 1995 e escrito por Doug Moench, o Big Book das Conspirações venceu o Eisner de 1996 de Melhor Antologia. O livrão foca em conspirações  e esquemas de encobrimento, como o escândalo Watergate, o escândalo Irã-Contras, e os assassinatos de John F. Kennedy, Malcolm X, Robert Kennedy e Martin Luther King. O livro investiga todos esses esquemas e muitos mais, transitando pelo real e fatos "imaginários" para explicar como forças obscuras - incluindo a CIA, a Maçonaria, os Illuminati e até mesmo os extraterrestres - podem estar conspirando para moldar o mundo segundo seus interesses.

 

 

 

 

 

The Big Book of Freaks 

 



Publicado em 1996 e escrito por  Gahan Wilson, o Big Book das Aberrações traz várias histórias de pessoas com características  ímpares e interessantes, das aberrações de circo à criaturas mitológicas - como ciclopes e gigantes -, os protagonistas do filme maldito Freaks, do diretor Tod Browning e o empresário circense P. T. Barnum, sem esquecer, é claro, de John Merrick, O Homem Elefante.

 

  


 

 

 

The Big Book of Little Criminals

 



Publicado em 1996, o Big Book dos Criminosos Pé-de-Chinelo detalha a biografia de alguns dos meliantes mais incompetentes do mundo, como Shanghai Kelly, que sequestrava homens e os forçava a trabalhar em navios. Também há histórias de falsificadores dos tempos coloniais, o falsário dos diários de Hitler, e um vigarista que quase foi bem sucedido na venda de Portugal (sim, o país!!).

 

 

 

 

 

  

The Big Book of Hoaxes

 



Publicado em 1996, o Big Book dos Embustes aborda os maiores embustes, pegadinhas e esquemas de trapaça da História, incluindo casos notáveis como o de Mary Toft, a "Mamãe Coelha", que convenceu a corte da Inglaterra de ter dado à luz a pelo menos dezesseis coelhos. Outros embustes relatados no livro incluem Charles Ponzi e seus esquemas de enriquecimento rápido, a infame "Princesa Caraboo," os diários de Hitler, e um plano para serrar Manhattan ao meio.

 

 

  

 

 

The Big Book of Thugs

 



Publicado em 1996 e escrito por  Joel Rose, o Big Book dos Bandidos documenta criminosos que conseguem o que querem não por meio da esperteza, e sim através de ação direta e pura força bruta, incluindo os Thuggees (de onde deriva o termo "Thug", do inglês) da Índia, Os Hashishin do Oriente Médio, a "Ohio Gang," e os "Night Terrors", bem como muitas outras gangues e bandos criminosos notórios.

 

 

 

 

 

 

The Big Book of Losers

 



Publicado em 1997 e escrito por Paul Kirchner, o Big Book dos Perdedores é a prova de que o azar dos outros (como Elisha Gray, que inventou um protótipo de telefone antes de Alexander Graham Bell, mas foi esquecido pela história) realmente pode ser divertido.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Big Book of The Unexplained

 



Publicado em 1997 e escrito por  Doug Moench, o Big Book do Inexplicado tem como narrador o espectro de Charles Fort (um escritor falecido e pesquisador de fenômenos anormais). Histórias de animais impossíveis, continentes perdidos, e fenômenos bizarros, como a maldição da múmia, dinossauros vivos, o Monstro do Lago Ness, abduções alienígenas, o Pé-Grande e chuvas de sapos (!?!?!).

 

 

 

 

 

 

The Big Book of Martyrs

 



Publicado em 1997 e escrito por  John Wagner, o Big Book dos Mártires examina as vidas e mortes de mártires cristãos, incluindo São Valentim, Joana D'Arc, Santa Úrsula e São Jorge, com todos os detalhes grotescos de seus martírios. O último capítulo fala de pessoas que foram torturadas por sua fé em tempos mais recentes, demonstrando que o fanatismo religioso não é algo do passado..

 

 

 

 

 

 

The Big Book of Scandal!

 



Publicado em 1998 e escrito por  Jonathan Vankin, o Big Book dos Escândalos chafurda no mundo sórdido das notícias de tablóides em tretas que destruíram carreiras, empresas, casamentos e vidas. Fatty Arbuckle, Charles Chaplin, John DeLorean, Richard Nixon, Oliver North, e O.J. Simpson são alguns dos retratados.

 

 

 

 

 

  


 

The Big Book of Bad

 



Publicado em 1998, o Big Book do Mal é escrito por Anina Bennett, Jonathan Vankin e Paul Kirchner. Esse décimo terceiro volume da coleção examina o mal em diversas formas, como Heinrich Himmler, o arquiteto da "Solução Final" dos nazistas, os depravados imperadores da Roma Antiga, como Calígula e Heliogábalo, além de diversos serial killers. Por fim, o livro dedica espaço a vilões da ficção como Professor Moriarty, Lady Macbeth e Drácula.

 

  

 

 

 

 

The Big Book of The Weird Wild West

 



Publicado em 1998 e escrito por  John Whalen, o Big Book do Velho Oeste Estranho traz mais de sessenta histórias de fatos incomuns, bizarros e simplesmente pavorosos que aconteceram na fronteira norte americana no tempo das diligências. Histórias de personagens do Oeste como George Maledon, "O Príncipe dos Carrascos", homossexualidade entre cowboys (supostamente) machões, e vários dos fantasmas que assombraram o Velho Oeste.

 

 

 

 

 
 

The Big Book of Vice

 



Publicado em 1998 e escrito por  Dave Stern e Steve Vance, o Big Book do Vício examina o álcool, as drogas, o tabaco, sexo e a jogatina. Os temas variam desde a história do tabaco, escravidão sexual, até a origem das máquinas de pinball.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Big Book of Grimm

 



Publicado em 1999 e escrito por  Jonathan Vankin, o Big Book dos Grimm examina os contos de fadas. Vankin transcreve as versões originais, não-Disneyficadas dos contos que os irmãos Grimm coletaram no século XIX, detalhando abuso infantil, incesto, canibalismo, membros mutilados e olhos arrancados.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Big Book of The '70s

 



Publicado em 2000 e escrito por  Jonathan Vankin, o Big Book dos anos 70 documenta dez anos de "cafonice e tumulto". Da música disco à moda do poliéster, o último Big Book da coleção lista as tendências, personalidades, gírias e a insanidade social que infectou a década de 70 (bem como a Guerra do Vietnã e alguns filmes clássicos).













Wild Women

O décimo oitavo volume dos Factoid Books seria The Big Book of Wild Women, programado para 2001, e traria a história de vida de mulheres notáveis que sacudiram o status quo e influenciaram sua sociedade de alguma forma, ultrapassando as fronteiras do comportamento convencional da época. Entre as abordadas, veríamos a deusa dos filmes B Tura Satana, a lendária Cleópatra, a polêmica escritora Anais Nin, e a rainha das Pin-ups Bettie Page. Entretanto, a DC mantém o status da publicação no estágio de "pré-produção", mesmo que boa parte do livro já estivesse pronta na época. Só resta chorar...


Biografia de Zsa Zsa Gabor, do volume que não chegou a ser publicado, The Big Book of Wild Women


A primeira vez que tive contato com um Big Book da Paradox Press foi por mero acaso, láááááá em 2001, remexendo numa das muitas caixas de gibis na lendária Comicmania, uma convenção de quadrinhos que costumava acontecer no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, e tentava manter uma periodicidade anual, embora nem sempre conseguisse isso, infelizmente. Entre os tesouros gringos que o organizador da convenção conseguia trazer, encontrei essa HQ de formato magazine, que prometia ser um compilado das lendas urbanas mais conhecidas já espalhadas por aí. Levei na hora! Uma passada com menos atenção pelas caixas de HQs enfileiradas e talvez eu não tivesse conhecido essa série sensacional, e essa seria uma realidade alternativa mais triste pra mim rs. Passei os cinco anos seguintes caçando e lendo o restante da coleção, e digo com força que essa série é um tesouro a ser descoberto pelas novas gerações! Espero que esse post tenha ajudado a lançar uma luz nesse cantinho escuro da DC Comics.


Uma breve história da vida de Calígula. Arte de John Ridgway.

A clássica lenda urbana do mão de gancho, arte de Hunt Emerson!

Aragonés ilustrando os maiores mistérios sem solução de todos os tempos!



Arte de Arthur Adams

Um material excelente e que vai fascinar os aficionados por História logo na primeira leitura, esses Big Books, apesar de nunca terem ganho reimpressão, são obscuros o suficiente para nunca haver gerado interesse da parte dos especuladores (ainda!), e por isso é possível encontrar a grande maioria dos volumes bem baratinho na internet e mais fácil ainda achar as scans, ainda que em inglês, bastando aos aventureiros mais paciência do que necessariamente dinheiro para a empreitada (se bem que a 5 ou 6 dólares cada livro, vezes dezessete... aí começa a complicar rs). 



Rick Geary ilustrando a história da Ku Klux Klan

Mortes estranhíssimas, todas reais, pode pesquisar!


"Silêncio", de Martin Scorcese??? A DC fez primeiro!!!

Digam o que disserem da produção da DC de hoje em dia, mas iniciativas editoriais como o Piranha Press, Paradox Press, e o Epic da Marvel são os registros - já fossilizados - que demonstram que as grandes editoras um dia já tiveram a coragem para ousar mais, buscar outras fatias do público e do mercado leitor de quadrinhos, o que era tão benéfico para eles quanto para nós. Para quem já começou a ler em plena era Guerra Civil da Marvel e das sucessivas crises da DC pode não fazer diferença, já que nessa época estas iniciativas já estavam todas extintas, mas para quem ainda teve tempo de ver esses magníficos animais nascendo, vivendo mal e mal e morrendo, bate uma ponta de tristeza por presenciar essa diversidade, que já era pouca, minguar ainda mais. Estamos no aguardo aqui por uma nova era de ouro de pirações editoriais e o brilhantismo dos artistas certos para transformar o corriqueiro em fantástico e o fantástico em épico, em novas combinações artísticas e narrativas que tirem essa mídia tão querida da estagnação e das fórmulas repetitivas.


Só eu acho esse logo mais feio do que bater na mãe em noite de natal???



terça-feira, 19 de setembro de 2017

UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA de Robert A Heinlein, ou "Faça Amor, Não Faça Guerra"






Por RICARDO CAVALCANTI





Há muitos anos venho ouvindo falar do livro Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein, que havia ajudado a pavimentar o caminho para o movimento da contracultura que permeou boa parte dos anos 1960/70 e se transformou na marca daquela época. No entanto, a possibilidade de um relançamento por aqui era bastante remota. A última edição havia sido a de 1992 pela editora Record, sendo possível encontrar somente em sebos e em estado de conservação nem sempre muito animador. Felizmente estamos vivendo uma época em que passamos a ter acesso a obras clássicas e icônicas novamente em nossas mãos. Ponto para a Aleph, que vem se mostrando comprometida em trazer obras clássicas da ficção científica e vencedoras de importantes prêmios do gênero. Um Estranho numa Terra Estranha foi vencedora do Prêmio Hugo em 1962 na categoria principal. Robert A. Heinlein compõe a seleta galeria de vencedores da premiação que contêm nomes como: Isaac Asimov, Frank Herbert; Arthur C. Clark, Willian Gibson, China Miéville e Cixin Liu, autores que já chegamos a resenhar uma obra ou outra aqui no Zona Negativa.

Robert Heinlein


Mas o que torna essa obra tão importante? Para responder a isso, precisamos contextualizar um pouco. No ano de lançamento do livro o mundo estava em transformação. A Guerra do Vietnã acontecendo, o Muro de Berlim sendo construído, o fracasso na tentativa da CIA de invasão da Baía dos Porcos, a luta por igualdade racial nos Estados Unidos, Yuri Gagarin indo ao espaço (literalmente), guerra fria e tensão mundial a todo vapor. Momentos de crise costumam gerar transformações na percepção da população de como ela vê o mundo ao seu redor e como ela está inserida nesta realidade. Nesses momentos é que a arte se mostra mais importante, tendo essencial papel na transformação do status quo, seja pelo cinema, música, literatura, ou qualquer outra manifestação artística. A arte pode (e deve) ser transformadora. Bom, vamos ao livro!



Partindo do título, que é uma referência ao Velho Testamento da Bíblia, em Êxodo, capítulo 2 versículo 22, Heinlein já começa mostrando que pretende pisar em terreno perigoso. Mesmo assim, o faz de maneira bastante sutil. Conta a história de Michael Valentine Smith, que nasce em uma nave que estava em uma expedição à Marte e que acaba perdendo contato com a Terra. Sendo o único sobrevivente, acaba sendo criado pelos habitantes do Planeta Vermelho, aprendendo os costumes e a forma de enxergar a vida, que é bastante peculiar e muito diferente da nossa. Uma outra expedição é enviada novamente à Marte, vinte e cinco anos depois, quando se descobre a existência de um sobrevivente, que seria herdeiro de uma grande fortuna. A partir daí acompanhamos sua história e sua adaptação, passando pelo seu entendimento sobre a sociedade encontrada por aqui. Esta interação muda não só Smith, mas também a própria Terra. A trama se passa num futuro pós Terceira Guerra Mundial e que as viagens especiais são mais corriqueiras e simples.



O Homem de Marte”, ou simplesmente “Mike”, depois de chegar a Terra, é recebido por agentes do governo, que tratam logo de deixá-lo internado em um hospital para ficar em “observação”, sem contato com o resto da população (sobretudo do sexo feminino). Enquanto isso, para atender aos interesses da mídia em descobrir mais sobre este curioso humano com experiências tão únicas, é apresentado ao mundo um ator que se passa por Valentine Smith.

Jill, uma enfermeira que é namorada do repórter Ben Claxton, é induzida por ele a ter um contato mais direto com Mike, principalmente após perceberem a farsa por trás do “Homem de Marte” que apareceu na TV. Jill consegue entrar escondida no quarto em que está o verdadeiro Smith e, em um gesto simples e comum (compartilhando um copo com água), acaba criando uma forte ligação entre os dois. Burlando o forte esquema de segurança que estava “protegendo” Mike, Jill consegue retirá-lo do hospital disfarçando-o como um paciente qualquer. Neste momento, vemos o Homem de Marte exibir, pela primeira vez, algumas de suas habilidades que são humanamente incomuns.



Jill acaba escondendo-o na casa de Jubal Harshaw. Jubal é um escritor que está quase aposentado, que gosta de se apresentar como um bon vivant, muito rico e apreciador das coisas boas da vida, além de possuir a mente bastante aberta (principalmente para as coisas que viria a presenciar). É um personagem bastante interessante - e um dos meus preferidos - que vai costurando o desenvolvimento da história de maneira bastante orgânica, sendo o fio condutor de boa parte da trama.



Com uma inteligência acima dos padrões humanos, aliado à inocência quase infantil do personagem, Mike vai buscando grokar a Terra e a sociedade humana (o termo “grokar”, inventado pelo autor, que possui uma grande gama de significados, foi incorporado à língua inglesa após a obra). 
 



Mike passa a transformar a todos ao seu redor. Gerando um sentimento como o de uma espécie de espírito livre, em que toda forma de amor passa a ser válida: sem limites, sem censuras, sem pudores e sem travas morais. O Homem de Marte encara o sexo como algo muito maior que uma união de corpos em busca de prazer; é uma conexão além da carne. Somos apresentados a não apenas uma ideologia de vida, mas uma nova maneira de encarar os  semelhantes e o mundo ao nosso redor; com tolerância filosófica, libertarismo humano e poligamia (que são assuntos que chocam algumas pessoas até hoje). Além disso, aproveita para questionar o comportamentos de algumas instituições religiosas que vão ao encontro de outros interesses, em detrimento da busca pela salvação da alma.






Uma obra que abriu as portas de um novo tempo e chacoalhou a sociedade conservadora da época. (Convenhamos, existe algo mais atrasado que uma mentalidade “conservadora”? Ser conservador é manter as coisas como estão, ficar estagnado e não evoluir!). Encare Um Estranho Numa Terra Estranha de coração aberto. Com a forma de uma sátira sociopolítica, em que são questionados valores preestabelecidos de nossa cultura - além de todo aspecto político e religioso, das relações humanas e como a sociedade se  comporta - mais do que uma simples leitura, o livro é um convite à reflexão. Mesmo que nada mude na forma de pensar ou agir, se ela simplesmente te fizer refletir sobre suas convicções e valores, já vai ter valido a pena. O mundo está precisando de pessoas que pensam de forma independente. Sempre questione, debata, reflita... mas esteja sempre pronto para ter contato com outras opiniões e encarar outros pontos de vista. Ás vezes é preciso distanciamento e tentar enxergar o lugar que você viveu a vida toda com os olhos de um alienígena. Só assim conseguiremos ver o que está escondido em plena vista. Não busque neste livro por respostas - nem conspirações para te manipular a aceitar tudo que está lá - o propósito da obra não é este. Ele somente abre novas linhas de raciocínio para te fazer pensar.



É claro que qualquer obra que incentive o indivíduo a questionar os valores que lhe são impostos goela abaixo e pensar com a própria cabeça (e não engolir opiniões prontas e já formadas) é normalmente transformada em algo subversivo e aliado a uma conduta criminosa. Como o livro foi ganhando uma relevância cada vez maior, passou a incomodar o pensamento conservador da época (que não é muito diferente do que vemos hoje em dia). Como parte do plano para desencorajar a leitura (transformando-a em algo proibitivo e quase ilegal), a obra foi associada ao crime cometido por Charles Manson, que em 1969 invadiu a mansão do diretor de cinema Roman Polanski e assassinou a atriz Sharon Tate, na época esposa do diretor, e grávida dele. O boato plantado, afirmava que o mesmo era fã da obra e, de alguma forma, foi o que o incentivou a cometer o crime. Uma acusação sem muito propósito, visto que Smith era inteiramente contra a violência. Posteriormente, o próprio Manson afirmou desconhecer a obra. Podemos perceber que a prática de espalhar notícias falsas não é exclusividade do nosso tempo. Notícias que estão a serviço da desinformação sempre foram uma forte ferramenta de manipulação. A única diferença de hoje é que fica mais fácil desinformar, pois as bolhas de controle, que são disfarçadas de redes sociais, são um solo fértil para a disseminação desse tipo de prática. Mas não é o momento para falar sobre isso... por enquanto!

Cuidado! Ele pode estar mentindo. Ou não.. ou talvez




Excluindo-se um diálogo entre dois personagens que apresentam um pensamento e forma de raciocínio completamente condenáveis e equivocados, é uma obra que vale a leitura. Em alguns momentos, senti falta de uma presença maior do Homem de Marte. Mas nada que tenha comprometido minha experiência. A versão original tinha cerca de 800 páginas e aproximadamente 220.000 palavras, mas Heinlein acabou sendo forçado a cortar aproximadamente 60.000 palavras, o que acabou não agradando muito ao autor. Após o falecimento de Heinlein, a viúva do autor conseguiu publicar o texto integral sem cortes. Será que ainda teremos esta obra completa nas mãos? Estou aguardando ansioso por esse dia.
 




quinta-feira, 14 de setembro de 2017

SKREEMER, de Peter Milligan + Brett Ewins + Steve Dillon, ou "Arqueologia Vertigo"





Por EDUARDO CRUZ





É sombria. Muito sombria.
A noite ou a HQ?
Ambas, e trabalhar na HQ tomou muitas
noites sombrias.
A semente de uma idéia - Milligan e eu sentados
no cinema assistindo a Era uma vez na América.
A semente de uma idéia.
Gângsteres.
Uma HQ de gângsteres.
Uma HQ futurista de gângsteres.
Torne retrô sci-fi e é isso.
A era está ficando velha.
O mundo é uma lugar perigoso.
No quadrinho ou no planeta?
Em ambos.

Brett Ewins, em texto de introdução de Skreemer 


Já ouviram falar em Finnegans Wake?

Um livro não linear, sem começo e sem fim, onde nada tem necessariamente uma sequência lógica, e eventos não estão obrigatoriamente encadeados entre si. Onde o aleatório predomina. Mais ou menos como a própria vida. Finnegans Wake é uma narrativa aparentemente caótica, um livro que levou 17 anos para ser terminado, onde o autor James Joyce mistura neologismos e funde palavras de idiomas diferentes, uma verdadeira torrente de idéias e palavras criadas por Joyce exclusivamente para que ele expressasse suas idiossincrasias em um fluxo narrativo, e que é o pesadelo de qualquer tradutor! Curiosamente, o Brasil ousou e nós somos um dos poucos países a ter uma tradução de Finnegans Wake. Tarefa que poucos conseguiram sem perder a essência da obra na tradução.

James Joyce

Mas tão complexo quanto traduzir Finnegans Wake é lê-lo: uma obra que atrai e repele leitores com igual intensidade, muitos estudiosos atribuem diversos significados à obra sem chegar a uma conclusão definitiva. Entre tantos significados e leituras há quem diga que não há o que entender e que o livro é pura imersão na linguagem, e há quem enxergue a apreensão e o vislumbre do eterno, fruto da contemplação dos ciclos que se sucedem entre si, eras de homens, deuses e heróis. A mesma eternidade que o personagem-título da HQ, O Skreemer, visa alcançar através da perpetuação de si mesmo projetado em uma linhagem, mantendo o ciclo de vida e morte nos trilhos.

"Fluxo de linguagem", "oceano de palavras vivas"... Será essa a sensação de ler Finnegans Wake?


Aposto que os parágrafos aí em cima assustaram vocês, não? "Que diabos tá acontecendo aqui? o título é de um gibi da Vertigo, mas o texto é uma desgracenta duma aula de literatura??? esse animal tá esclerosado? Isso é alguma pegadinha???". 
Nada disso, macacada. É porque pra compreender melhor Skreemer, a HQ de Peter Milligan (roteiro) e Brett Ewins + Steve Dillon (arte), é preciso pelo menos saber do que se trata(m) o(s) tal(is) Finnegans Wake  (sim, a referência é dupla! e uma dentro da outra, a inception das referências! rsrsrsrs) que são repetidamente citados ao longo de toda a história. Milligan mirou alto e tentou entregar uma história que apesar de curtinha, seria o seu épico de gerações. Inspirado em filmes como Era uma vez na América e Caçada na Noite (também vai ser inevitável pro leitor fazer conexão com O Poderoso Chefão, Os Bons Companheiros e Scarface) e no próprio livro Finnegans Wake, Skreemer conta a história do líder criminoso Veto Skreemer, porém narrada por Timothy Finnegan, um capanga menor na organização de Veto. Tim é encarregado de fazer a segurança da mulher de Veto, ou melhor, a prostituta que Veto escolheu para dar à luz a seu herdeiro. A história é ambientada em Nova York, 38 anos após uma guerra que deixou a civilização em pedaços. Veto é um gigante que sente que a era dos gigantes está chegando ao fim. Ele é o dono de um império criminoso conquistado às custas de muita violência e brutalidade, e para combater essa obsolescência irrefreável que se aproxima no horizonte, Veto Skreemer tem um plano monstruoso até mesmo para os seus padrões execráveis, algo tão terrível quanto o holocausto que assolou o mundo. À medida que esses acontecimentos se desenrolam, caminhando rumo à inevitável conclusão trágica, outros personagens nos dão acesso ao passado de Veto por meio de flashbacks, onde vemos como ele formou sua própria gangue com o auxílio de seus amigos, ainda adolescente, galgando degrau por degrau até se tornar um dos maiores "Presidentes", como são nomeados os líderes criminosos nessa distopia grotesca. Esse recurso dos flashbacks escancara tanto a intimidade dos personagens para o leitor que vemos camadas que chegam a dar a impressão de os conhecermos como pessoas reais, tal a profundidade que o desenvolvimento de Milligan alcança na narrativa.







A HQ foi publicada pela DC comics em 1989, e posteriormente incorporada ao selo Vertigo, o que, levando em conta o teor da história, foi muito adequado. Milligan consegue, através da narrativa que vai e volta em flashbacks, capturar esse espírito de ciclos contido em Finnegans Wake com maestria. O dilema de Veto também é um prato cheio pros filósofos amadores, pois o mafioso padece da velha dicotomia determinismo x acaso, chegando ao ponto de "forçar a mão do destino" em alguns momentos, para que tudo saia conforme ele crê que as coisas devem acontecer. Uma das primeiras histórias da Vertigo, que já nasceu produzindo clássicos! Alôu Marvel!
A arte fica a cargo do imorrível Steve Dillon, que dispensa apresentações, e com seu traço inconfundível também dispensa maiores comentários. Muito se fala sobre Moore, Gaiman, Morrison, Milligan e companhia serem os alicerces do selo Vertigo, no tocante à produção de histórias. Já do lado dos artistas, Steve Dillon é fundamental, e Skreemer mostra que o saudoso artista britânico foi um dos parteiros da Vertigo.







Ué... tradução do Márcio Seixas???

A segunda conexão entre Skreemer e Finnegans Wake é com a música de mesmo nome, uma canção tradicional irlandesa com origem estimada por volta da década de 1850, que relata uma anedota acerca de um pedreiro, Tim Finnegan, que nasceu "amando a malvada (...) e, para aliviar a labuta diária quando podia, tomava a maldita", e que, ao cair de uma escada, fratura o crânio e é dado como morto. Os frequentadores de seu funeral ficam exaltados, uma briga explode no recinto e um pouco de uísque é derramado no rosto do "cadáver" de Finnegan, fazendo com que ele desperte, "voltando à vida" e se unindo às celebrações. O uísque é tanto a causa da ruína quanto da ressureição de Finnegan. Aqui a expressão Finnegans Wake assume duplo sentido: a palavra "wake" tanto pode significar "despertar" quanto "funeral", e Tim Finnegan passa pelas duas situações na letra da canção. Vale lembrar também que a palavra whiskey é derivada da expressão irlandesa uisce beatha, ou "água da vida". E devo acrescentar que essa é a maior verdade que já li na minha vida ;>). A canção tem sido regravada de tempos em tempos por vários grupos, como o Dropkick Murphys, entre outros, e é a canção que o avô do personagem Timothy Finnegan vive cantarolando ao longo de toda a HQ. A canção serviu como base para o livro de James Joyce, com a ressurreição cômica de Finnegan servindo como a metáfora ideal para o ciclo da vida.







Skreemer não é inédito no Brasil: a editora Abril publicou a HQ aqui no começo dos anos 90 em formato americano, em uma mini série em seis edições. Já em 2000 e uns a editora Brainstore perdeu a chance de fazer um belo resgate histórico e cagou tudo: publicou no tal formato paraguaio, em preto e branco, tradução sofrível e uma qualidade tão ruim que se via a arte pixelada nas linhas dos desenhos, se olhasse com um pouco de atenção. A bola caiu no campo da Panini para se fazer justiça e dar o tratamento que Skreemer merece, publicando a obra em edição de luxo, com capa dura, papel couché e até mesmo um pequeno apêndice com a letra de Finnegans Wake, na versão original e também traduzida. Um verdadeiro trabalho de arqueologia da Vertigo, um belo resgate de um pedacinho da história das HQs! A invasão britânica começou AQUI! (também rs).

Se encontrar essa edição de Skreemer em um sebo, FUJA!

Eu ainda poderia falar mais um pouco, como por exemplo, o porquê de Joyce ter optado não colocar apóstrofo em "Finnegans", mas vou parar por aqui! Enfim, digam o que disserem do Finnegans Wake de Joyce: que é um fluxo de genialidade, ou apenas uma tentativa de escrever com muito uísque na cabeça. Whatever. Que sigam os debates inconclusivos até o fim dos tempos. 

Skreemer não deixa nem sombra de dúvida: É brilhante e pronto.