sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ESTAÇÃO PERDIDO, de China Miéville, ou “Nova Crobuzon é aqui!”









Por RICARDO CAVALCANTI





Sabe aquela sensação de descobrir algo e sentir vontade de contar para todo mundo? Pois é, isso me aconteceu quando “descobri” China Miéville. Ao ouvir falar sobre o autor, logo me interessei em procurar sua obra e ver se era realmente tudo o que disseram e quais os motivos para ele ter se tornado um nome referência no chamado New Weird. Após a leitura e resenha de A Cidade e a Cidade, resolvi encarar o livro que é considerado pelo público e pela crítica, a obra prima de China Miéville: Estação Perdido. Trazida pela Boitempo Editorial, foi lançada originalmente em 2000 (quando Miéville tinha apenas vinte e oito anos), sendo o primeiro de uma trilogia, que incluem ainda A Cicatriz e O Conselho de Ferro, que serão lançados também pela Boitempo. A obra fez um grande sucesso e conseguiu atrair a atenção para este - até então - iniciante autor
 



Esbanjando uma qualidade na escrita digna de grandes autores, Miéville constrói um mundo com tons de fantasia, steampunk, ficção científica e com boas doses de grotesco e bizarro. Ou seja: o gênero New Weird em sua essência. Numa cidade em que um prefeito que não tem escrúpulos de fazer acordos com quem quer que seja, máfias agindo impunemente e milícias que “mantêm a ordem”, ao mesmo tempo em que trabalhadores fazem uma greve para reivindicar melhores condições de trabalho e recebem em troca toda a força de repressão estatal. Até aí, nada de incomum. Agora parta do ponto em que tudo isso se passe no planeta Bas-Lag, numa cidade chamada Nova Crobuzon, repleta de doenças e parasitas, com humanos convivendo com homens-pássaro, insetos humanóides, homens-cacto, aranhas gigantes, pessoas punidas com implantes de objetos inanimados em seus corpos, imigrantes alienígenas sofrendo discriminação (no melhor estilo Distrito 9), um autômato que passa a ter consciência, uma mariposa sugadora de mentes, e tudo isso no meio de um ambiente urbano, sujo, repleto de problemas e com uma nova droga de origem desconhecida
 








A história começa com Yagareck, um Garuda, que é um ser meio homem e meio pássaro, chegando na cidade de Nova Crobuzon. Enquanto entra na cidade, vai mostrando todo asco que sente por aquele local deplorável. Apesar de toda repugnância que sente, sua chegada tem um propósito: encontrar o cientista Isaac Dan der Grimnebulin, que é um cientista que mantém pesquisas, no mínimo, incomuns. Isaac mantém um romance secreto com Lin, uma artista da raça khepri em que os indivíduos do sexo feminino possuem um corpo semelhante ao de uma mulher (humana) e uma cabeça insetóide. Lin se comunica com Isaac através de sinais
 




Isaac era conhecido como “...o cientista pária, o pensador de má reputação que havia abandonado um cargo lucrativo de professor, para realizar experiências ofensivas demais e brilhantes demais para as mentes medíocres que dirigiam a universidade.” Ygareck acredita que Isaac seria capaz de fazê-lo voltar a voar - após ter tido suas asas arrancadas por conta de uma condenação em um julgamento. Isaac encara a proposta do garuda como um grande desafio e busca ampliar os seus conhecimentos sobre as possíveis formas de fazer Yagareck voar
 



A história vai ganhando uma crescente e os problemas vão tomando proporções cada vez maiores. China consegue nos guiar por Nova Crobuzon mostrando o ponto de vista de cada um dos seres que existem nessa caótica cidade. Logo em seu segundo livro, Miéville resolveu demonstrar toda sua capacidade de escrita, nos presenteando com um bombardeio descritivo, que nos coloca no meio da trama como se estivéssemos lá, sentindo os cheiros dos esgotos, o vento frio na pele, o gosto do ar, os odores misturados com lodo, fumaça, urina... Ao fim da jornada, nenhum personagem está da mesma maneira que começou. Todos sofrem algum tipo de transformação, seja ela física ou psicológica (ou os dois)
 

 

Estação Perdido é um grande mosaico de histórias, mesclando as vidas, realidades e vivência de cada um dos personagens. Tudo isso se dá de uma maneira extremamente prazerosa. A sensação de ler é como a de pegar a estrada e fazer uma longa viagem em cima de uma moto. Você quer chegar ao seu destino mas, ao mesmo tempo, quer continuar aproveitando cada momento da viagem, sentindo cada cheiro e percebendo cada detalhe. Quem já teve a oportunidade de fazer isso sabe o prazer que é. Se você não está tão familiarizado com esta sensação, então deixo um pequeno trecho (texto completo aqui) do comentário do cantor, escritor, músico e poeta Fausto Fawcett sobre a obra. 

Não é um livro, é um Exu das Mestiçagens Vorazes, das encruzilhadas orgânicas, animalescas, espirituais, mentais e mecânicas, maquínicas, encarnado num objeto literário prestes a se transformar em viral perturbador. É um mergulho na promiscuidade das três instâncias que determinam a vida humana e que, na visão de China Miéville, respondem pelos nomes de mundo oculto/taumatúrgico, mundo material e mundo social/sapiencial. Mundos espirituais se entremeando com mundos humanos cheios de integração/desintegração social e de psicologia em ruínas se entrelaçando, por sua vez, com criaturas que são mosaicos de vísceras, montagens orgânicas, anatomias cubistas inoculadas com alguma inteligência artificial, mas todos se comunicando, se fundindo, se fodendo num interminável e intenso cruzamento de tecnologias antigas e recentes, e tudo é gambiarra prodigiosa movida a vapor, com fiações desencapadas, gatilhos e disjuntores criando seres transpassados prosaicamente por raciocínios humanos, dimensões sobrenaturais e frequências invisíveis. Taumatúrgons, autoconsciência, elétrons e demônios. O básico.



Parece uma loucura delirante, um devaneio insano de Fausto Fawcett? Ok, entendo que ele pode ser enérgico demais para os que chegam desavisados. Mas e se eu te falasse que o que ele disse é exatamente o que se encontra no livro? Para melhor sintetizar então, ninguém melhor que o escritor “gente boa”, amigão da vizinhança e amado por milhões de leitores pelo mundo, Neil Gaiman:


Com seu novo romance, o colossal, intricado e visceral Estação Perdido, Miéville se desloca sem esforço entre aqueles que usam as ferramentas e armas do fantástico para definir e criar a ficção do século que está por vir


Assim como em A Cidade e a Cidade, mais uma vez a edição merece um destaque pela excelente tradução. Desta vez, ficou a cargo de José Baltazar Pereira Júnior (que também traduziu Tempos Difíceis de Charles Dickens para a Boitempo). Pela forma com que Miéville escreve, o tradutor poderia cair facilmente em uma armadilha e acabar descaracterizando a obra ou simplificando a forma de escrita do autor (perdendo com isso a grande força do texto), ou aproveitando a obra para esbanjar todo seu virtuosismo na tradução (tentando aparecer mais que o próprio autor e correndo o risco de tornar a leitura maçante e cansativa). Mas esse não foi o caso José Baltazar Pereira Júnior, que nos trouxe uma tradução excelente, digna da obra.




A arte da capa ficou por conta de Fábio Cobiaco (que também ilustrou a capa de A Cidade e a Cidade). Ilustrador vencedor do Prêmio Jabuti por sua arte na obra de ficção científica V.I.S.H.N.U., que saiu pela pela Cia. dos Quadrinhos e mais recentemente Mayo, pela Editora Mino, Cobiaco conseguiu dar uma interessante identidade visual de forma que, mesmo sendo diferente, é possível identificar que os dois livros possuem alguma ligação (A Cidade e a Cidade e Estação Perdido).





É um livro excelente, e quando termina a gente se sente um pouco órfão, tendo que abandonar aquela cidade e seus personagens. Só espero que A Cicatriz, o segundo livro da trilogia que se passa no mundo Bas-Lag, não demore muito para sair. Mesmo sem eu nunca ter me interessado muito por histórias com alguma ligação com o gênero Fantasia, sabia que era apenas um dos elementos utilizados na obra. Não é de se admirar que essa grande mistura do que é o chamado New Weird ganhou na Inglaterra um solo fértil para se expandir e disseminar pelo mundo esse novo gênero. A terra da Rainha sempre é o catalisador de significativas transformações no campo das artes nessas últimas décadas, revelando grande nomes na literatura como George Orwell, Anthony Burgess, Neil Gaiman, J.R.R. Tolkien, Alan Moore, etc. Se resolvermos falar de música então.... Beatles, Rolling Stones, Queen, Led Zeppelin, Sex Pistols, todo o movimento Punk, Spice Girls…não, espera!! Essa última saiu errado...rs.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

MULTIVERSO, de Grant Morrison + vários artistas, ou "Um passeio clandestino a bordo da Ultima Tul!"



Por EDUARDO CRUZ




Quem me conhece um pouquinho sabe que dos quadrinhos mainstream, o que eu mais curto são as histórias de realidades alternativas. Seja Marvel ou DC, desde moleque sempre fui fissurado nas histórias que recontavam continuidades e reimaginavam o status quo de personagens familiares a nossa vida inteira, mas de formas radicalmente diferentes. Fosse o "O que aconteceria se...", da Marvel, o "Túnel do tempo" na DC, ou até mesmo a horrorosa iniciativa conjunta "Amálgama", eu não perdia um, independente da qualidade das histórias, que sempre flutuou bastante. Sei lá, essa coisa de mesmo personagem, background diferente sempre foi uma das coisas que eu considerei - e ainda considero, se bem executado - um dos melhores exercícios de
Batman + Wolverine + Anos 90 = Garra Sombria
imaginação nos quadrinhos. Por isso, quando Grant Morrison anunciou The Multiversity há uns anos atrás, por volta de 2010, e não se tocou mais no assunto por um bom tempo, os leitores se conformaram em tratar a HQ como uma lenda. Ou melhor, como se fosse um dos muitos projetos do Guillermo Del Toro que nunca chegam a sair do papel. Mas por fim The Mutiversity acabou saindo em 2014 e concluído em 2015.

















"'The Multiversity'  tem sido um trabalho de amor por quase oito anos de produção, e traz consigo um irrefreável supergrupo de artistas – Reis, Sprouse, Oliver, Quitely, Stewart e outros – com um elenco de personagens inesquecíveis das 52 terras alternativas do Multiverso conhecido da DC!
Prepare-se para conhecer a Liga Da Justiça Vampira da Terra-43, os Cavaleiros da Justiça da Terra-18, Superdemônio, Doc Destino, os super-filhos de Superman e Batman, os furiosos Retaliadores da Terra-8, os Cavaleiros Atômicos da Justiça, Dino-Cop, Irmã Milagre, Lady Quark, a legião de Silvanas, os Novos Nazistas Reichsmen da Terra-10 e o mais recente, o maior super-herói da Terra Primordial – VOCÊ!
Composta por sete aventuras completas – cada uma em um universo paralelo diferente – uma história em duas partes, e um guia compreensível para os muitos mundos do Multiverso, ‘The Multiversity’ é mais do que apenas uma série em quadrinhos em várias partes, é a expansão de um cosmos, uma experiência de abalar a alma que coloca você na linha de frente da batalha por toda a Criação, contra os destruidores demoníacos conhecidos como A Aristocracia!
Mas cuidado! Poder tem um preço, e no coração deste conto épico aguarda o amaldiçoado e maligno gibi chamado ‘Ultra Comics’…
Quão segura é a SUA cabeça?
Junte-se a nós, se for ousado, por ‘The Multiversity’ 

Grant Morrison
 
Tenho que confessar pra vocês que apesar de ter lido as scans cópias digitais desse ótimo trabalho do escocês pirado na época em que as edições saíram, eu queria mesmo era manusear uma edição que coletasse toda a mini série Multiverso. Pegar nas mãos, ler na sequência, de trás pra frente, pular duas edições para trás ou pra frente para conferir os detalhes e 'coincidências', decifrar símbolos ocultos e pistas escondidas à plena vista... enfim, ler esse gibi do jeito que ele foi concebido pra ser lido! Então, SIM, posso dizer, na minha opinião, que foi a HQ mas esperada para se ter um exemplar físico em mãos nos últimos dois anos. E pelo menos a mim não decepcionou! Não me sinto tão ansioso e animado assim para ter uma HQ em mãos desde O Dossiê Negro da Liga Extraordinária, uma bela HQ escrita pelo melhor amigo de Morrison, um tal de Alan Moore...



Mas por se tratar de uma HQ do Morrison, certamente tem um monte de leitores loucos para ler isso, mas ao mesmo tempo morrendo de medo de entender bulhufas. O que é natural, visto a fama de Grant Morrison como contador de histórias. Sim, não vou mentir, ele é um tanto quanto... complicado. Ele utiliza recursos narrativos que a maioria dos roteiristas não costuma utilizar e eleva seus roteiros a um grau de complexidade e detalhismo maníacos, e em Multiverso ele se superou! Sim, a HQ exige que se conheça alguma coisa da cronologia da DC, exige que se leiam alguns trabalhos anteriores de Morrison e principalmente, exige muita atenção aos detalhes espalhados ao longo das nove edições que compõem a mini série. O que pretendo fazer aqui nesse post é só pegar você, leitor, pela mão e guiar pelo Multiverso, mostrar que apesar de complexa, é uma excelente história, e até mesmo os haters do Morrison precisam admitir, foi feita com muito esmero e dedicação, do jeito que só um verdadeiro fã da DC poderia montar! Em linhas gerais, e sem spoilers, claro, vou mostrar o quão fortemente esta história amarra a atual cronologia multiversal da DC Comics. 

 


 


Para aqueles que são famintos por cada referência em cada balão, recordatório e quadrinho, recomendo muito o trabalho que o site Terra Zero desenvolveu em cima da mini série, um estudo profundo página a página, esmiuçando o máximo de observações e referências da mini série. Além desse e desse artigos, a equipe do site gravou vários podcasts enfocando as edições de Multiverso, totalizando várias horas de informações utilíssimas e pontuais que fazem sua releitura ser ainda mais gratificante. Mas se vocês não tiverem paciência pra desbravar tão a fundo assim o multiverso por agora, continuem comigo aqui. Se você só quer mesmo um empurrãozinho pra tirar as dúvidas sobre quanto ter ou não esse encadernado, cola aqui comigo, e em linhas gerais vamos ver do que se trata?






Leitura prévia recomendada:


O RUN DE MORRISON EM HOMEM ANIMAL

A Panini publicou na íntegra um dos primeiros trabalhos de Morrison na DC, e na proposta do título Morrison já começa a desgastar a grande muralha do pós-crise, sinalizando ainda existir dimensões fora do continuum regular da DC, como o limbo, onde personagens esquecidos ou apagados da cronologia ainda existiam. Basicamente, é o aquecimento, a obra que determinou o tom de Grant Morrison em todos os seus anos na DC. Tão seminal quanto o Monstro do Pântano de Alan Moore.


CRISE FINAL

Particularmente, acho uma história mediana, e isso se deve em grande parte aos desencontros editoriais dentro da própria DC, que fez com que o destino de Batman no fim da mini série fosse confuso, e até mesmo divergisse de outras publicações que saíram na época. Quase como erros de continuidade, mas em uma HQ rs. Mas o importante a ser observado aqui é o monitor Nix Uotan, que desempenha um papel fundamental em Multiverso, e a primeira aparição do Capitão Átomo da Terra 4, que ressurge em Multiverso no capítulo Pax Americana.


SUPERMAN - À PROVA DE BALAS
Esse encadernado da Panini reúne as edições #0 a #18 de Action Comics da fase Novos 52, que recontava a origem de Clark Kent/Superman. Mas esse NÃO É o Superman que interessa, e sequer aparece em Multiverso! Em Action Comics #9, Morrison interrompe o arco de Clark Kent e nos apresenta uma Terra paralela na história 'A Maldição do Superman'. Ali conhecemos Calvin Ellis, presidente dos EUA daquela Terra, e sua identidade secreta.... Superman!!! Note que em Multiverso, o arquétipo do Superman sempre vai estar presente nas histórias, e cada Terra paralela tem o seu, mesmo que não dê pra identificar de forma tão óbvia (Minha dica é: olhem para a essência do personagem, e não para o "S" no peito!), mas o Superman que vale na mini série toda é o presidente Ellis, uma dupla homenagem ao ex presidente Barack Obama e ao roteirista Warren Ellis, amigo de Morrison, e que ajudou a criar e consolidar alguns conceitos hoje largamente usados na cronologia da DC, como a Sangria, o espaço interdimensional que permeia o multiverso.
Calvin Ellis, o Superhomão da porra que vale em The Multiversity
Ah, também é nessa edição de Action Comics que vemos pela primeira vez um Cubo de Transmatéria, um dispositivo de viagem interdimensional que desempenha um papel fundamental em Multiverso!



Essa edição de Multiverso encadernada pela Panini Books se divide em:



MULTIVERSO #1


A primeira edição de Multiverso nos introduz à trama principal, além de apresentar os antagonistas e os heróis de várias Terras que irão se unir para descobrir a extensão da ameaça e combatê-la, formando uma espécie de Liga da Justiça Multiversal, que possui entre seus membros Calvin Ellis, o Superman da Terra 23, o Trovejante, um aborígene que faz as vezes de Thor em seu universo original, e o Capitão Cenoura, uma versão cartoon do Superman. Destaque para as Terras 7 e 8, que são versões dos universos Marvel, tanto o regular quanto a Ultimate. E sim, é claro que Morrison aproveitou pra devastar essas Terras, talvez como vingança pela sua amarga estada como empregado da Marvel Comics heheheheh...





SOCIEDADE DOS SUPER-HERÓIS: CONQUISTADORES DO CONTRAMUNDO


Essa edição se passa na Terra 20, um mundo de heróis com uma pegada de história pulp muito marcante, vide as versões do Senhor Destino, Sinestro e Parallax, entre outros, que figuram nesta edição. Aqui vemos a Sociedade dos Super-Heróis, uma espécie de versão  pulp da Sociedade da Justiça da América, às voltas com sua contraparte maligna da Terra 40. A impressão é de se estar lendo uma aventura do Indiana Jones, mas na DC Comics. Uma homenagem ao período das revistas pulp tão bacana quanto o que Ellis fez em Planetary, com seu Doc Brass e companhia. Os artistas dessa edição são a dupla Chris Sprouse/Karl Story, que também foram responsáveis pela arte da série Tom Strong, um gibi de Alan Moore que homenageava... as HQS PULP!!! Assim fica difícil te defender, ô Morrison rsrsrsrs... 
Paralelo a isso, percebemos a Aristocracia se infiltrando nesse mundo, através das revistas "amaldiçoadas". E em quantos outros mais?

Pura mágica... veja as estrelinhas!




OS JUSTOS 


Essa história aparentemente não tem relação alguma com a trama principal, mas aqui também nota-se infecção multiversal da Aristocracia, logo abaixo da superfície da história principal, causando confusão e desorientação entre alguns personagens ao longo da trama. Nessa Terra alternativa, a Terra 16, os filhos dos maiores super heróis do mundo são uma geração mimada, egocêntrica e frívola, que sequer podem ser considerados heróis, já que o legado do falecido Superman, um exército de robôs, resolve toda e qualquer crise, fazendo qualquer ameaça e mega evento parecerem tão perigosos quanto uma breve chuva passageira. Em meio a isso também temos um triângulo envolvendo os filhos do Batman, Superman e Lex Luthor dessa Terra. E note as HQs da Aristocracia se infiltrando nesta realidade também... Os Justos é uma crítica de Morrison à geração dos Millennials, jovens superprotegidos a vida inteira que entram na vida adulta despreparados para lidar para praticamente tudo à sua volta.





PAX AMERICANA: NO QUAL QUEIMAMOS


E aqui está a grande polêmica de Multiversity! ou pelo menos, uma delas heheheh. O momento da vingança de Morrison, o prato que ele saboreou frio, colherada a colherada, ou melhor, página a página! Passada na Terra 4, a trama de Pax Americana, sem mais delongas, nada mais é do que a versão de Watchmen, obra de Alan Moore (a obsessão suprema de Morrison), numa releitura feita por Morrison e ilustrada por Frank Quitely, utilizando os personagens da Charlton, como não foi possível para Moore em 1986, por questões legais. Aqui, em uma legítima situação de "faz-melhor-então", Morrison "melhora" a trama, deslocando o contexto de Guerra Fria para o contexto atual de terrorismo internacional e conspirações governamentais, com direito ao assassinato de ninguém menos que o presidente dos EUA.
A trama, fora uma cena onde o Capitão Átomo segura uma Ultra Comics #1 na mão, mostra pouca ligação com o arco principal - a invasão da Aristocracia - o que só reforça a impressão de que Morrison já tinha esse roteiro pronto há bastante tempo, tendo feito algumas poucas modificações para que Pax Americana se adequasse e se interligasse ao restante da mini série. 

Página de Pax Americana.

Página de Promethea, de Alan Moore.
A alfinetada em Moore se torna completa na composição das páginas em relação a Watchmen: Enquanto em Watchmen a maioria das páginas é organizada em uma grade de nove painéis, Morrison optou por organizar Pax Americana em grades de oito painéis. Como explica o artista Frank Quitely: "Música, e vibração.... vibrações musicais, as oitavas, a repetição do número oito ao longo da história, e padrões de criação que conduzem os olhos do leitor pela página em uma direção específica.".

Página de Pax Americana

Página de Pax Americana

Página de Promethea, de Alan Moore




NOVAS AVENTURAS NO MUNDO DO TROVÃO


Esta história se passa na Terra 5, e envolve os integrantes da família Shazam, e tem um clima mais, digamos, puro, mas sem ser piegas ou datado. Nessa realidade, um exemplar de Sociedade dos Super-Heróis cai nas mãos do Dr. Silvana, o que o inspira a entrar em contato com suas traiçoeiras contrapartes ao longo do Multiverso, recrutando um exército de Doutores Silvana. Juntos, arquitetam um plano que culmina no aprisionamento do Mago Shazam, na Pedra da Eternidade, e o roubo de seus poderes. Cabe à Família Marvel Resgatar O Mago Shazam e Fawcett City.
Uma história bem mais leve que as outras edições da mini série, com um clima super heróico, nostálgico e otimista, que conta com a arte do competentíssimo Cameron Stewart (Seaguy, Clube da Luta 2), essa edição coloca os mortais mais poderosos do universo DC no olho do furacão, lá no clímax, em Multiverso #2. Mas estou me adiantando...






LIVRO-GUIA


Em mais um show de metalinguagem, Morrison nos premia com uma história-dentro-da-história: Na Terra 51 vemos Kamandi, Tuftan e Ben Boxer investigando uma misteriosa tumba, e dentro dela, encontram o tal guia do Multiverso. Enquanto isso, na Terra 42, a legião dos Silvanas ataca a Liga da Justiça desta Terra, só restando o Batman deste mundo e uma outra versão, da Terra 17. Enquanto ambos tentam ativar um cubo de transmatéria para pular para outra Terra e escapar do exército de robôs-Silvana, eles encontram o guia do Multiverso, que contém, além do mapa do Multiverso e um guia com todas as 52 Terras, uma história onde vemos... Kamandi, Tuftan e Ben Boxer investigando uma misteriosa tumba!!!
Entendeu? Não? Bom, leia, mas coloque algodão no nariz pro seu cérebro não escorrer para fora rs. No momento em que os personagens que acompanhamos abrem o livro guia do Multiverso, nós acessamos exatamente o que eles estão lendo. Sim, o careca maluco nos transforma em voyeurs e lemos o guia por cima dos ombros de Kamandi e dos Batmen!

Página do Livro Guia de Multiverso

Página do Livro Guia de Multiverso

Página de A Liga Extraordinária: O Dossiê Negro, de Alan Moore

Página de A Liga Extraordinária: O Dossiê Negro, de Alan Moore




MASTERMEN


Seria essa edição mais uma vingança Morrisoniana? Essa história se passa na Terra 10, onde um certo foguete com um certo bebê Kriptoniano cai em um país ocupado pelos alemães, e acaba, naturalmente, sendo criado pelo próprio Hitler. Overman, como é conhecido nesta Terra, mantém a supremacia do regime ariano, mas tem uma pedra em seu sapato: o grupo de terroristas conhecidos como Tio Sam e os Combatentes da Liberdade
Outra edição que parece não ter relação nenhuma com o plot principal, e sim uma alfinetada no (ex) amigo de Morrison, Mark Millar, que escreveu a já clássica Superman - Entre a Foice e o Martelo, uma história de realidade alternativa onde o bebê Kal-El cai na Rússia comunista. Diz a lenda que apesar de ser assinada por Millar, quem propôs boa parte da história e desenvolveu o final foi Morrison, que não recebeu crédito algum. Só restou a ele se vingar, plagiando uma história roubada dele mesmo rs.





ULTRA COMICS



Olha, não sei se sou capaz de elaborar decentemente uma descrição dessa edição aqui, então fiquem com a minha conversa com o Ricardo assim que terminei a primeira leitura de Multiverso, ainda bastante impactado, como dá pra perceber:

E: Bicho, que viagem! Primeiro, não se pegam todos os detalhes em uma única leitura. Da segunda vez q vc lê percebe q certos balões de fala eram atribuídos a personagens q vc não notou da primeira vez!
Segundo: Toda Terra tem um Superman, mesmo que você não reconheça ele de cara, e é SEMPRE o conceito de Superman que ajuda as Terras doentes.
Terceiro: A tal Ultra Comics, o penúltimo gibi do encadernado, que viagem!!! o Morrison conseguiu algo inédito. Você REALMENTE faz parte da história! O Intellectron, da Aristocracia fala diretamente com você! O tempo todo você é avisado para não virar as páginas mas você já foi infectado, e esse gibi é uma ponte pra essas criaturas invadirem a NOSSA realidade! Um grau assustador de interação com o que deveria ser apenas um gibi!! Tudo gira em torno da Ultra Comics! O resto é o Morrison brincando de "Túnel do Tempo" e porradaria super heróica, além é claro, das alfinetadas no Moore kkkkkkkkk

R: Que maneiro! Só comprei o meu ontem!

E: Velho, eu até que entendi a proposta na primeira vez que li, mas só fiquei impactado na segunda leitura ontem! Pareceu uma droga! Realmente mexeu com minha cabeça hauahuahuahua. Metaficção. História dentro da história. E em fractais, do jeito q o Morrison gosta! Aí hoje de manhã o que eu fiz, além de terminar a Y volume 4? Li o tal do gibi amaldiçoado de novo! rs
Mané, depois que eu terminar esse post, vou ler alguma coisa leve, tipo Promethea. Huahuahuahuahauahuahua!!!

R: kkkkkk
R: Qual gibi amaldiçoado?

E: O Ultra Comics! A oitava edição da Multiverso!!

R: Ah sim...

E: Por deus, homem, você não prestou atenção em nada do que eu falei lá em cima???
ELES JÁ PEGARAM VOCÊ!!!
ESTÃO BATENDO NA PORTA!! NÃO DEIXE ELES ENTRAREM!!!

R: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!!!!!!!!!!!!





Nessa edição, ocorre "apenas" a batalha épica entre a Aristocracia e os super heróis combinados do Multiverso DC. Porradaria. Porradaria. Porradaria. E será que a Aristocracia é a única ameaça a ser combatida? Ou tem algo mais ameaçando o Multiverso? Só lendo pra descobrir...


Depois dessa sobrevoada, parece muito complicado e rocambolesco toda essa montanha russa através de 52 mundos paralelos e tal, mas Multiverso pode ser resumida a: A Aristocracia é uma raça de parasitas cósmicos (por isso aquela alusão aos cupins no começo e no final da história, supostamente ao acaso. Mas espere! Essa é uma HQ do Morrison, então nada é coincidência nessas 500 páginas hehehe) que invade o multiverso DC. Eles são oriundos de alguma parte fora do multiverso e foram atraídos por emanações de idéias negativas e sonhos arruinados. A Aristocracia deseja clamar a posse de todas as mentes do multiverso, o que os levará a controlar todos os pensamentos e histórias da existência. Controle absoluto. Para isso, eles usam a tal HQ amaldiçoada, Ultra Comics #1 como um vetor para infectar o Multiverso, e simultaneamente lançam um ataque ao Planetário dos Monitores. Por conta disso, vários heróis de universos diferentes são forçados a se unir para encarar esta ameaça multidimensional. E basicamente é isso. O resto são digressões Morrissonianas, toneladas de referências e aquela teoria bacana, já citada em sua autobiografia, Superdeuses, onde Morrison postula que as revistas em quadrinhos são vitrines onde vislumbramos outros universos, dimensões inferiores, tudo existe, e a ficção de um mundo é a realidade de outro.




E é só isso. Mas como toda boa viagem, o passeio é muito mais gratificante que o destino em si. E ao longo da nove edições teremos um tour pelo multiverso DC, recheado de simbologias, arquétipos (principalmente do Superman e Flash, mas não restrito apenas a eles), metalinguagem, metaficção, legado e muitos embates grandiosos, porque afinal de contas a gente compra gibizinho é pra ver a porrada comer solta hehehehe. 



Alguns diriam que Multiverso é mais uma declaração de amor de Morrison pela DC, além de uma sofisticadíssima crítica a todo o mercado de quadrinhos contemporâneo: lança farpas para a indústria, o corpo editorial, os leitores que querem só mais do mesmo, os fanboys babacas que odeiam tudo.... pouca coisa escapou da metralhadora de Morrison nesse trabalho, e está tudo lá, espalhado nas camadas, e quem tem olhos pra ver, verá! rs. Outros diriam que é um grande fan service, um Túnel do Tempo/Elseworlds de 500 páginas, sob o pretexto de Morrison poder produzir sua própria versão de Watchmen, marcando assim mais um ponto na eterna treta Moore/Morrison.





Acredito que o mais gratificante para o Morrison mesmo foi fazer seu remake de Watchmen, e me processem por isso, mas ele melhorou a proposta de Moore na parte da execução formal, além de REALMENTE integrar seu Watchmen ao multiverso da DC, o que Moore não pôde fazer na época, por uma questão legal.


Mas tenha você a bagagem necessária ou não para entender todas as referências, acho que dá pra gente concordar que é uma HQ bem acima da média, e a única coisa que chegou perto disso nas grandes editoras foram os Vingadores/Novos Vingadores do Jonathan Hickman nesses últimos tempos. Uma pena. Mas tenho certeza que em alguma outra Terra se produzem gibis assim todos os meses. Só espero conseguir vibrar na frequência certa para conseguir me transportar pra lá. Ou.... alguém me empresta uma esteira cósmica?