quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

H. P. LOVECRAFT - MEDO CLÁSSICO VOLUME 1, ou "Manda mais Lovecraft que tá pouco!!!"




Por EDUARDO CRUZ


E eis que o gigante, ou melhor, a caveira, finalmente acordou!!! Desde seu surgimento, a editora Darkside Books nos deu algumas belas surpresas e se firmou, com muita justiça, como A editora de livros do gênero horror do atual cenário editorial nacional. Mas lá no fundo, faltavam algumas coisas ainda. Faltava, para a editora que nos apresentou tantos bons nomes do horror e fantasia com teor mais dark, um retorno às raízes, ao clássico. Aí, esses caras, que realmente têm um contato bem mais estreito com seu público alvo do que a maioria das editoras por aí, leram nossos pensamentos e iniciaram a coleção Medo Clássico, que já conta com Frankenstein, de Mary Shelley e um volume com contos de Edgar Allan Poe. 


Os primeiros volumes da coleção Medo Clássico já chegaram assustando! Mas era só o começo...

Mas assim como eu, vocês também tinham aquela sensação de que faltava mais alguém? pois é, não falta mais. O novo volume da coleção Medo Clássico é com ele mesmo, o nosso ídalo aqui na Zona, Agapê Lovecraft!

Quem acompanha a gente sabe que nem precisamos de desculpas pra falar do Lovecraft, e já falamos de outras edições da obra desse autor fantástico AQUI e AQUI, além de comentar uma ótima HQ que homenageia seu legado literário, a fantástica Providence, de Alan Moore. 

Alan Moore, um monstro reverenciando outro monstro, que escrevia histórias de monstro...
Ao contrário do que acontece lá fora, aqui no Brasil nenhuma editora realizou a façanha de publicar toda a obra de Lovecraft na íntegra, embora os dois tijolos que já resenhamos sejam bem superiores ao tratamento editorial que esse autor tinha há duas ou três décadas atrás. Pelo fato de a obra de Lovecraft ser de domínio público, de vez em quando tem pintado uma edição aqui, outra ali de diversas editoras, como a Hedra, a Clock Tower, Martin Claret, ex Machina. E dessa vez foi a vez da Darkside. E eles fizeram. E fizeram à moda Darkside Books! O primeiro volume de H. P. Lovecraft - Medo Clássico vem em duas edições: A Edição Cósmica, que é essa ilustração em cores fluorescentes e uma lombada que brilha, digamos, blasfemamente (heheh não resisti) no escuro, e a Edição Miskatonic, que lembra um livro profano, com relevos e detalhes rebuscados, além da arte monstruosa da capa. O conteúdo interno é absolutamente O MESMO, por isso não se desesperem, não é que a Darkside tenha lançado dois livros do Lovecraft ao mesmo tempo: é o MESMO livro, mas com capas variantes.

EDIÇÃO PSICODÉLICA CÓSMICA
EDIÇÃO MISKATONIC
Mas e o conteúdo? bom, como o relapso Lovecraft não tem produzido nada de novo desde... 1937, não há grandes surpresas na seleção de contos. Acho que a intenção aqui foi servir de leitura introdutória para os neófitos do autor, porque é o feijão com arroz que encontramos nos 9 contos selecionados para esse primeiro volume, entre eles: Dagon, O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, Herbert West Reanimator, O Depoimento de Randolph Carter... enfim, o obrigatório. O diferencial fica por conta dos extras, que incluem, entre outras coisas, algumas anotações e originais de Lovecraft e um texto de autoria de Robert Bloch (autor de Psicose) intitulado Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. instigante, não? Além disso, a edição conta com sensacionalmente grotescas ilustrações do artista gaúcho Walter Pax, que em 2014 lançou, via financiamento coletivo, o livro Love - A arte Que Não Deveria Ser.




O sumário deste primeiro volume.
Eu diria que é um ótimo começo.

Essa edição da Darkside serve mais como uma porta de entrada (ou um portal, como Yog Sothoth) pra quem quer conhecer Lovecraft e não sabe por onde começar, ou para os fanáticos que não resistem a um belo acabamento gráfico, e por uma edição com anotações no rodapé, e textos extras - que são sempre bem vindos. Essa é mais uma edição que trata a obra desse autor com o primor e reconhecimento que ele merecia em vida, mas nunca teve, infelizmente. Será que dessa vez Lovecraft vai ter toda sua obra publicada na íntegra por uma editora brazuca? Só Azatoth pode responder, mas é melhor deixar ele quieto...

Que venha o segundo volume!!!!


 


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

OS PRÓPRIOS DEUSES, de Isaac Asimov, ou "A humanidade estaria mais segura sem a presença do homem"


  Por RICARDO CAVALCANTI

 

A humanidade necessita de novas fontes de energia. Hoje dependemos muito do petróleo e seus derivados, que nada mais é que um recurso limitado de energia e que é consumida em escala cada vez maior. Responsável por guerras, golpes, assassinatos, disputas políticas e econômicas, o “ouro negro” é fonte de imensurável riqueza para um grupo muito restrito. A melhor solução é buscar outras fontes de energia, de preferência, renováveis. No último século, buscaram-se novas fontes de energia que pudessem ser usadas em grande escala. Energia eólica, solar, hidrelétrica e biomassa, por exemplo, não são capazes de substituir o petróleo. A energia nuclear poderia assumir esse papel, mas sabemos que costuma causar sérios problemas. Pegando como base a questão energética que é um tema tão preocupante para a humanidade, Isaac Asimov nos traz o que é considerado um dos clássicos do autor: Os Próprios Deuses. Lançado originalmente em 1972, foi o vencedor do prêmio Nebula daquele ano e do Hugo Award no ano seguinte. De toda obra do Bom Doutor, este é um dos livros em que o sexo está mais presente. 

 

 

Antes da edição lançada pela Aleph, Os Próprios Deuses já havia sido lançado por aqui anteriormente com o nome de “O Despertar dos Deuses”, e sai agora com o seu título traduzido literalmente (The Gods Themselves). Este título se origina de uma frase do alemão Friedrich Von Schiller “Contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” em sua obra A Donzela de Orleans, que trazia uma diferente versão para a vida e morte de Joana d’Arc (Donzela de Orleans, ou Virgem de Orleans também são formas de se referir à heroína e mártir francesa). A história é dividida em três partes e cada uma recebe como título, um fragmento da expressão de Von Schiller. 

 

 

Na primeira parte, chamada de “Contra a estupidez...”, conhecemos Frederick Hallan, um físico nada excepcional, que se depara com a transmutação da matéria se transformando em energia diante de seus olhos. Por estar no local certo na hora certa, não precisou fazer nada, a não ser pegar para si a descoberta, aproveitando para ganhar fama, poder e dinheiro com a chamada Bomba de Elétrons - uma fonte de energia limpa, com custo muito baixo e que poderia suprir as necessidades da terra por centenas de anos. Benjamin Allan Denison, que trabalhava no escritório em frente, sabia das limitações de Hallan como cientista, acompanhou de perto a ascensão daquele cientista medíocre ao status de grande nome de seu tempo e ganhador do Prêmio Nobel, simplesmente por estar no lugar certo na hora certa. Peter Lamont, um até então admirador do Pai da Bomba Eletrônica, tenta provar que tal bomba pode ser muito perigosa e acaba encontrando muita resistência por parte de quem poderia fazer algo, mesmo que essas pessoas não se simpatizassem com Hallan, por conta de sua postura de arrogância e prepotência. 

 

 

Na segunda parte, chamada de “...os próprios deuses...” entendemos o motivo de este livro ser tão admirado. Com a primeira parte bastante ágil, a segunda gera certo estranhamento inicial. Mas logo esse sentimento se dissipa, ao entendermos um pouco os para-seres daquela realidade paralela. Asimov nos apresenta e desenvolve seres que são, principalmente, conceitos. Os Racionais, os Parentais, os Emocionais e os Duros são alguns dos seres que fogem do senso comum em retratar outros serem com característica humanoide. São seres que não possuem forma definida; podem transpassar a matéria e se fundir a um outro ser, por exemplo. São estes para-Seres que desenvolvem a maneira de trocar energia entre os universos. Também naquele universo, encontram um cenário parecido com o da terra. Enquanto uns se beneficiam da troca de energia entre as duas realidades, um desses seres sente o perigo dessa troca aparentemente inofensiva de energia entre as terras paralelas. A forma com que é feita a comunicação entre as terras paralelas, é praticamente uma poesia com toques de fantasia e ficção científica. 

 

Na terceira parte, estamos de volta à nossa realidade, no capítulo que recebe o nome de “...lutam em vão?”. A Lua já estava sendo colonizada, tendo pessoas que já nasceram em solo lunar e que nunca chegaram a pisar na Terra. Os Terráqueos são considerados uma civilização ultrapassada e de serem dotados de inteligência inferior. Esta nova sociedade que se firmou desenvolvendo costumes próprios foi ficando cada vez mais distante culturalmente da Terra. Benjamin Alan Denison, que foi desprezado e humilhado por Hallan, encontra na Lua uma forma de encontrar isolamento e distanciamento de tudo que havia acontecido, buscando um novo começo e encarando como uma oportunidade de esquecer tudo. Logo que chega conhece Selene, uma espécie de “garçonete-sensual-inteligente-cientista” (que parece mais uma personagem criada pela mente fantasiosa de algum adolescente, ou uma espécie de fetiche para satisfazer os sonhos secretos do próprio autor). Paralelamente, grupos clandestinos conspiradores que buscam fomentar a independência da Lua em relação à Terra (em tempos de Catalunha querendo se separar da Espanha ou sul do Brasil querendo se separar do resto do país e raciocínios sendo desenvolvidos separando argumentos de lógica, conseguimos contextualizar bem a sociedade em solo lunar). 

 

 

São três historias que se passam em momentos distintos, que se ligam pela influência de Hallan e sua Bomba Eletrônica através do tempo (e mundos), repletas de ambição, vaidade, egoísmo, arrogância e ganância, ignorando os riscos em lidar com uma energia tão poderosa. 

 

 

Asimov tratou de alguns temas em seu livro Escolha a Catástrofe (que pode ser encontrado com facilidade em qualquer sebo virtual) e entre eles, fala um pouco sobre a energia atômica. Não se trata de uma ficção, mas sim de uma reflexão sobre as várias formas com que a humanidade pode se extinguir e mostrando que algumas delas podem ser causadas pelo próprio homem. No capítulo em que ele classifica como “Catástrofes do Quinto Grau”, menciona os riscos de uma energia atômica. Mesmo o homem sabendo de todo o risco e potencial destrutivo deste tipo de energia, isso não o impediu de desafiar os limites provocando acidentes com efeitos devastadores, como em Chernobyl, o vazamento na usina de Angra e mais recentemente, em Fukushima, no Japão. Com tantas situações semelhantes, continuamos com a pergunta: “contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” 

 

Chernobyl

 



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

GHOST WORLD, de Daniel Clowes, ou "O terrível Limbo entre a adolescência e a vida adulta"





Por EDUARDO CRUZ


Existem momentos da vida que são, sei lá... meio nebulosos. Tem aquela época por volta dos dez ou onze anos, em que não somos mais crianças, mas também não dá pra ser classificado como "adolescente" ainda. Não nos encaixamos em mais lugar nenhum, e parece que até pessoas que sempre foram próximas a nós a nossa vida inteira não sabem mais como lidar conosco. Dadas as condições normais de temperatura e pressão, essa época, curta mas ao mesmo tempo interminável, pode variar de difícil a dolorosa, podendo chegar a ser traumática na vida de algumas pessoas. Aí você finalmente entra na adolescência, encontra sua manada e - espera-se - as coisas melhoram um pouco. Você pensa: "Crescer é foda!", e torce pra nunca mais vivenciar algo parecido. Até que no fim da adolescência, você passa por tudo de novo. Só que não é exatamente igual. É pior. Você termina o ensino médio, vai procurar trabalho, mas ninguém te contrata porque se exige experiência, e não dá pra adquirir experiência se ninguém te contrata. Os relacionamentos, tanto de amizades como familiares ou conjugais ficam mais complicados, mas ainda falta experiência para lidar com essas complicações do sempre imprevisível fator humano nesse quesito também, e apesar de se perceber como não mais um(a) adolescente, você ainda se sente a anos luz dos adultos. E pensa, mais uma vez: "É, crescer é foda!". Dessa vez com uma nota extra de fúria e frustração.

Daniel Clowes, por Daniel Clowes

Essas áreas cinzentas da vida são confusas, e o quadrinista indie Daniel Clowes, conhecido por Graphic Novels como Wilson, Paciência e Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, todas já publicadas no Brasil, produziu sua obra prima, que enfoca justo esse momento delicado de ingresso à vida adulta. Essa HQ se chama Ghost World. E se você ainda não leu, faça uma favor a si mesmo(a) e leia!








Ghost World, originalmente publicada no ano de 1989 em capítulos na revista Eightball - título onde Clowes publicava suas histórias autorais -, conta a história de Enid Coleslaw e Rebecca Doppelmeyer, duas amigas de infância que terminado o ensino médio, se vêem às voltas com os muitos dilemas desta fase de transição, passando por uma crise existencial e tentando adaptar sua amizade a esse admirável mundo novo do pós ensino médio. O que, a princípio parecia ser todo um universo de possibilidades, acaba se tornando uma torrente de decepções, incertezas, apego à antigas memórias, medo de mudanças, busca da identidade própria e uma sucessão de personagens bizarros gravitando em torno das meninas, e que o próprio autor, no final da HQ, afirma serem pessoas reais. Enid é inteligente, sarcástica e intensa, enquanto Rebecca é um tanto blasé e conformista em certos momentos. Apesar da vontade de permanecerem unidas, cada uma tem um caminho a trilhar.










Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, publicada entre 1989 a 1993. O Twin Peaks das HQs.

A graphic novel já havia sido publicada anteriormente no Brasil, com o título Mundo Fantasma pela editora Gal, em formato americano e sem extras, apenas com a história principal. Já a edição especial de 20 anos da editora Nemo vem lotada de extras, com uma introdução do próprio Clowes e tradução do onipresente Érico Assis, além de uma seção com material promocional do filme e outros produtos relacionados à HQ, páginas com esboços originais, capas de edições gringas... tudo compilado em formato magazine (25cm x 19cm) de 144 páginas. Uma edição definitiva desse tesouro da nona arte.

Alguns dos extras da edição da Nemo, que incluem esboços...

... Notas explicativas do próprio Clowes...

... Algumas capas da revista Eightball...

.... E artes promocionais de merchandising.
 


Em 2001, a HQ foi adaptada pelo diretor Terry Zwigoff (que também assina o excelente documentário Crumb, de 1994, sobre a vida e obra de Robert Crumb, o papa dos quadrinhos underground dos EUA), e que aqui no Brasil ganhou o título Ghost World - Aprendendo a Viver :>P. O filme é bastante fiel à HQ, com a adição do personagem Seymour, um quarentão esquisitão, o arquétipo do loser, colecionador de discos antigos de blues, que é interpretado por Steve "Mr. Pink" Buscemi. Em alguns momentos o tom do filme me remeteu à série de TV My So Called Life, ou Minha Vida de Cão, estrelada por Claire Dames Claire Danes e o pior Coringa de todos Jared Leto, e que foi cancelada depois de apenas 19 episódios por ser inteligente demais...



Filme completo. Mas dublado. Foi mal aí...



A Scarlett que me desculpe, mas sou mais a Thora...
Ainda sobre Ghost World - Aprendendo a Viver (e essa mania de bolarem subtítulos esdrúxulos para os filmes aqui, hein? Nossa...), o destaque vai para a trilha sonora, repleta de pérolas obscuras do blues, jazz e até música indiana! Cool sem ser seboso rs.



Sem tramas exageradamente complexas, com uma abordagem sensível e intimista, a HQ Ghost World foca em gente comum (bom, pelo menos a maioria heheh), dúvidas e incertezas com o pé no chão, fala das dificuldades do amadurecimento sem divagar em filosofismos prolixos, e ponderando, acima de tudo, que "Crescer é foda..."











sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ESTAÇÃO PERDIDO, de China Miéville, ou “Nova Crobuzon é aqui!”









Por RICARDO CAVALCANTI





Sabe aquela sensação de descobrir algo e sentir vontade de contar para todo mundo? Pois é, isso me aconteceu quando “descobri” China Miéville. Ao ouvir falar sobre o autor, logo me interessei em procurar sua obra e ver se era realmente tudo o que disseram e quais os motivos para ele ter se tornado um nome referência no chamado New Weird. Após a leitura e resenha de A Cidade e a Cidade, resolvi encarar o livro que é considerado pelo público e pela crítica, a obra prima de China Miéville: Estação Perdido. Trazida pela Boitempo Editorial, foi lançada originalmente em 2000 (quando Miéville tinha apenas vinte e oito anos), sendo o primeiro de uma trilogia, que incluem ainda A Cicatriz e O Conselho de Ferro, que serão lançados também pela Boitempo. A obra fez um grande sucesso e conseguiu atrair a atenção para este - até então - iniciante autor
 



Esbanjando uma qualidade na escrita digna de grandes autores, Miéville constrói um mundo com tons de fantasia, steampunk, ficção científica e com boas doses de grotesco e bizarro. Ou seja: o gênero New Weird em sua essência. Numa cidade em que um prefeito que não tem escrúpulos de fazer acordos com quem quer que seja, máfias agindo impunemente e milícias que “mantêm a ordem”, ao mesmo tempo em que trabalhadores fazem uma greve para reivindicar melhores condições de trabalho e recebem em troca toda a força de repressão estatal. Até aí, nada de incomum. Agora parta do ponto em que tudo isso se passe no planeta Bas-Lag, numa cidade chamada Nova Crobuzon, repleta de doenças e parasitas, com humanos convivendo com homens-pássaro, insetos humanóides, homens-cacto, aranhas gigantes, pessoas punidas com implantes de objetos inanimados em seus corpos, imigrantes alienígenas sofrendo discriminação (no melhor estilo Distrito 9), um autômato que passa a ter consciência, uma mariposa sugadora de mentes, e tudo isso no meio de um ambiente urbano, sujo, repleto de problemas e com uma nova droga de origem desconhecida
 








A história começa com Yagareck, um Garuda, que é um ser meio homem e meio pássaro, chegando na cidade de Nova Crobuzon. Enquanto entra na cidade, vai mostrando todo asco que sente por aquele local deplorável. Apesar de toda repugnância que sente, sua chegada tem um propósito: encontrar o cientista Isaac Dan der Grimnebulin, que é um cientista que mantém pesquisas, no mínimo, incomuns. Isaac mantém um romance secreto com Lin, uma artista da raça khepri em que os indivíduos do sexo feminino possuem um corpo semelhante ao de uma mulher (humana) e uma cabeça insetóide. Lin se comunica com Isaac através de sinais
 




Isaac era conhecido como “...o cientista pária, o pensador de má reputação que havia abandonado um cargo lucrativo de professor, para realizar experiências ofensivas demais e brilhantes demais para as mentes medíocres que dirigiam a universidade.” Ygareck acredita que Isaac seria capaz de fazê-lo voltar a voar - após ter tido suas asas arrancadas por conta de uma condenação em um julgamento. Isaac encara a proposta do garuda como um grande desafio e busca ampliar os seus conhecimentos sobre as possíveis formas de fazer Yagareck voar
 



A história vai ganhando uma crescente e os problemas vão tomando proporções cada vez maiores. China consegue nos guiar por Nova Crobuzon mostrando o ponto de vista de cada um dos seres que existem nessa caótica cidade. Logo em seu segundo livro, Miéville resolveu demonstrar toda sua capacidade de escrita, nos presenteando com um bombardeio descritivo, que nos coloca no meio da trama como se estivéssemos lá, sentindo os cheiros dos esgotos, o vento frio na pele, o gosto do ar, os odores misturados com lodo, fumaça, urina... Ao fim da jornada, nenhum personagem está da mesma maneira que começou. Todos sofrem algum tipo de transformação, seja ela física ou psicológica (ou os dois)
 

 

Estação Perdido é um grande mosaico de histórias, mesclando as vidas, realidades e vivência de cada um dos personagens. Tudo isso se dá de uma maneira extremamente prazerosa. A sensação de ler é como a de pegar a estrada e fazer uma longa viagem em cima de uma moto. Você quer chegar ao seu destino mas, ao mesmo tempo, quer continuar aproveitando cada momento da viagem, sentindo cada cheiro e percebendo cada detalhe. Quem já teve a oportunidade de fazer isso sabe o prazer que é. Se você não está tão familiarizado com esta sensação, então deixo um pequeno trecho (texto completo aqui) do comentário do cantor, escritor, músico e poeta Fausto Fawcett sobre a obra. 

Não é um livro, é um Exu das Mestiçagens Vorazes, das encruzilhadas orgânicas, animalescas, espirituais, mentais e mecânicas, maquínicas, encarnado num objeto literário prestes a se transformar em viral perturbador. É um mergulho na promiscuidade das três instâncias que determinam a vida humana e que, na visão de China Miéville, respondem pelos nomes de mundo oculto/taumatúrgico, mundo material e mundo social/sapiencial. Mundos espirituais se entremeando com mundos humanos cheios de integração/desintegração social e de psicologia em ruínas se entrelaçando, por sua vez, com criaturas que são mosaicos de vísceras, montagens orgânicas, anatomias cubistas inoculadas com alguma inteligência artificial, mas todos se comunicando, se fundindo, se fodendo num interminável e intenso cruzamento de tecnologias antigas e recentes, e tudo é gambiarra prodigiosa movida a vapor, com fiações desencapadas, gatilhos e disjuntores criando seres transpassados prosaicamente por raciocínios humanos, dimensões sobrenaturais e frequências invisíveis. Taumatúrgons, autoconsciência, elétrons e demônios. O básico.



Parece uma loucura delirante, um devaneio insano de Fausto Fawcett? Ok, entendo que ele pode ser enérgico demais para os que chegam desavisados. Mas e se eu te falasse que o que ele disse é exatamente o que se encontra no livro? Para melhor sintetizar então, ninguém melhor que o escritor “gente boa”, amigão da vizinhança e amado por milhões de leitores pelo mundo, Neil Gaiman:


Com seu novo romance, o colossal, intricado e visceral Estação Perdido, Miéville se desloca sem esforço entre aqueles que usam as ferramentas e armas do fantástico para definir e criar a ficção do século que está por vir


Assim como em A Cidade e a Cidade, mais uma vez a edição merece um destaque pela excelente tradução. Desta vez, ficou a cargo de José Baltazar Pereira Júnior (que também traduziu Tempos Difíceis de Charles Dickens para a Boitempo). Pela forma com que Miéville escreve, o tradutor poderia cair facilmente em uma armadilha e acabar descaracterizando a obra ou simplificando a forma de escrita do autor (perdendo com isso a grande força do texto), ou aproveitando a obra para esbanjar todo seu virtuosismo na tradução (tentando aparecer mais que o próprio autor e correndo o risco de tornar a leitura maçante e cansativa). Mas esse não foi o caso José Baltazar Pereira Júnior, que nos trouxe uma tradução excelente, digna da obra.




A arte da capa ficou por conta de Fábio Cobiaco (que também ilustrou a capa de A Cidade e a Cidade). Ilustrador vencedor do Prêmio Jabuti por sua arte na obra de ficção científica V.I.S.H.N.U., que saiu pela pela Cia. dos Quadrinhos e mais recentemente Mayo, pela Editora Mino, Cobiaco conseguiu dar uma interessante identidade visual de forma que, mesmo sendo diferente, é possível identificar que os dois livros possuem alguma ligação (A Cidade e a Cidade e Estação Perdido).





É um livro excelente, e quando termina a gente se sente um pouco órfão, tendo que abandonar aquela cidade e seus personagens. Só espero que A Cicatriz, o segundo livro da trilogia que se passa no mundo Bas-Lag, não demore muito para sair. Mesmo sem eu nunca ter me interessado muito por histórias com alguma ligação com o gênero Fantasia, sabia que era apenas um dos elementos utilizados na obra. Não é de se admirar que essa grande mistura do que é o chamado New Weird ganhou na Inglaterra um solo fértil para se expandir e disseminar pelo mundo esse novo gênero. A terra da Rainha sempre é o catalisador de significativas transformações no campo das artes nessas últimas décadas, revelando grande nomes na literatura como George Orwell, Anthony Burgess, Neil Gaiman, J.R.R. Tolkien, Alan Moore, etc. Se resolvermos falar de música então.... Beatles, Rolling Stones, Queen, Led Zeppelin, Sex Pistols, todo o movimento Punk, Spice Girls…não, espera!! Essa última saiu errado...rs.