"Dia 6 de dezembro de 1982, às 14h:17, houve o lançamento de um novo modelo de bomba na região de Kanto, no sudeste do Japão. Nove horas depois a Terceira Guerra Mundial foi oficialmente declarada."
Criado por Katsuhiro Otomo, Akira é um dos marcos da ficção científica oriental e também uma enorme referência na cultura pop mundial. Obteve destaque no mercado ocidental, sendo publicado na Europa e depois nos EUA pelo selo Epic Marvel, da Marvel Comics em 1988. Mas para que isso ocorresse, grandes mudanças foram feitas a partir do modelo japonês publicado pela Kodansha. No caso norte americano, o próprio Otomo recomendou o famoso colorista Steve Oliff, pioneiro em colorização digital que usou como base para as edições americanas a aquarela das primeiras páginas do mangá original. Ainda mais impactante que as cores, a inversão no modo de leitura, do oriental direita-para-esquerda para o ocidental esquerda-para-direita, também inverteu as páginas e as adaptações ficaram a cargo de Otomo e sua equipe. Tudo para facilitar a aceitação junto ao público leitor de quadrinhos norte americano, afinal os tempos eram outros e o mangá não tinha o peso e a popularidade que tem hoje mundialmente. Essa adaptação aos moldes americanos, que não era exclusiva daquela época, ainda é feita constantemente, principalmente no cinema e seriados de TV. Em dezembro de 1990, a editora Globo lançou o primeiro número de Akira no Brasil utilizando como base a edição da Marvel, em 68 páginas, formato americano, papel couchê e arte de capa própria, tendo sua conclusão em março de 1998 no número 38.
Capa da edição número 1 da Epic Marvel...
Sou muito mais a capa brazuca da primeira edição da Globo!
Comparativo entre as versões + uma das muitas cenas fodas de ação em alta velocidade
As onomatopéias também não ficaram de fora do cuidadoso processo de adaptação pro ocidente
Nascido em 1954 na província de Miyagi, Otomo cresceu em um período conturbado no Japão e essa vivência teve bastante influência em sua maior obra. A ocupação americana pós segunda guerra durou sete anos (1945-1952) e empreendeu diversas reformas políticas e sociais, incluindo uma nova constituição. Após esse período, veio a retomada da economia japonesa e das relações exteriores recuperando parte de sua soberania como nação, pois ainda sofria o veto de manutenção de forças militares, além de ter que pagar indenizações para os países vizinhos agredidos durante a guerra. Com o desenrolar da Guerra Fria, os EUA posicionam mais tropas no Japão e estimulam a perseguição aos comunistas e a criação de forças para autodefesa. Essas idéias foram bem-vindas pelos conservadores, mas causaram protestos e insatisfação das classes trabalhadoras, estudantis, comunistas e socialistas. Otomo cresceu nesses anos de revoltas e insatisfações contra o governo, em que um período de efervescência da Guerra Fria gerava o medo de um holocausto nuclear mundial, revivendo o recente trauma dos bombardeios a Hiroshima e Nagasaki na sociedade japonesa.
Depois de ser admitido na ONU, renovar tratados com os EUA e pagar as indenizações aos países vizinhos, em 1964 as Olimpíadas de Tóquio representaram uma nova esperança para o povo japonês, com homenagens as vitimas do holocausto e manifestações de apelo a paz mundial. Esse marcante evento influenciou Otomo em Akira, onde as Olimpíadas também são um símbolo de retomada da esperança para o povo de Neo-Tokyo após a detonação da bomba e da Terceira Guerra Mundial.
A subcultura Bosozoku, centrada na pilotagem e personalização de motocicletas, onde seus integrantes eram em geral jovens com menos de vinte anos de idade (idade da maioridade legal no Japão) que pilotavam motocicletas personalizadas, muitas vezes sem capacete e se envolvendo em pilotagens arriscadas, fazendo barulho e atravessando sinais vermelhos, serviram como inspiração para Shotaro Kaneda e as demais gangues em Akira. Posteriormente, a estética de filmes americanos como Blade Runner, Videodrome, Laranja Mecânica e 2001: Uma Odisséia no Espaço também o inspiraram para compor a futurista Neo-Tokyo.
Membros de gangues Bosozoku foram retratados em vários mangás/animes além de Akira
Brigas generalizadas entre gangues rivais eram comuns e portar bastões de beisebol, bandeiras ou espadas de madeira era necessário quando a porrada estancava .
Born to be Wild made in Japan
KANEEEDDAAAA!!??!!?
Trailer de Burst City (1982), do diretor Sogo Ishii
Crazy Thunder Road (1980), também de Sogo Ishii
No ano de
2019, 38 anos após o fim da terceira guerra mundial, a reconstruída Neo-Tokyo é
o cenário onde a trama ocorre. Uma cidade caótica, violenta, dominada por
megacorporações, militarizada, com um sistema educacional ineficiente que não
se conecta com toda uma geração pós-guerra de jovens órfãos, que sem rumo e
perspectivas decai para marginalidade formando gangues que dividem a cidade em
territórios e tem na violência e nas corridas em alta velocidade as válvulas de
escape para descontar suas frustrações e tédio cotidianos. Os personagens
centrais, Shotaro Kaneda e Tetsuo Shima, amigos desde a infância, fazem parte
da mesma gangue e estudam na mesma escola técnica. Em uma noite se envolvem em acidente ao avistarem uma criança de estranha aparência na estrada. Logo, o exército aparece e Tetsuo é levado em uma ambulância para local desconhecido. A estranha criança desaparece. Kaneda e seus amigos começam a investigar o que pode ter ocorrido depois que Tetsuo desaparece, reencontram a criança e se envolvem em um conflito entre membros de um grupo da resistência e o exército pela posse de Takashi, ou número 26, a estranha criança, que começa a exibir poderes psíquicos.
Ao cruzar com Kei e Ryu, da resistência, Kaneda começa a entender o que esta acontecendo, sobre quem é o Coronel e o projeto militar que utiliza crianças em experimentos para criação de super humanos do qual Tetsuo agora faz parte, colocando os amigos em rota de colisão.
Elemento sempre presente na trama, as cápsulas são tanto o símbolo da gangue de Kaneda e Tetsuo, que utilizam cápsulas do que parece ser anfetamina pra terem onda e alto desempenho, tanto como inibidores que de certa forma controlam a alta atividade cerebral e diminuem as fortes dores de cabeça que as crianças especiais apresentam, além de gerar o interesse dos dois grupos em Kaneda, depois que ele toma posse de uma dessas. Uma provável alusão à popularização e glamorização do consumo desenfreado de cocaína e esteróides nos anos 70 e 80, visando desenvolvimento de desempenhos além do limite humano.
Hora da balinha!
"God for health, Bad for education" (Reprodução: pinterest.com)
Superdosagem? Que se foda!
Dia difícil? Seus problemas acabaram! (Publicidade dos anos 70)
Antes mesmo da conclusão do mangá, em 1988 foi lançado o longa metragem com orçamento milionário e participação direta de Otomo nos roteiros e produção, sendo escrito um final diferente para o mangá anos depois. O filme revolucionou em termos de qualidade da animação, fazendo uso de 120 frames por segundo, gerando um hiper detalhismo inédito pra época, além de uma trilha sonora marcante. O filme foi exibido nos cinemas do Brasil e posteriormente sucesso nas videolocadoras (lembram delas?), e foi o primeiro contato de muita gente com a obra e animes em geral.
Um dos pôsteres do filme e o jovem Otomo na época do lançamento
VHS lançado no Brasil pela Europa Home Video (Reprodução: mercadolivre.com)
A volta do mangá para o Brasil pela JBC, sendo publicado no inédito formato
original, deixou os fãs extasiados. A periodicidade foi comprometida devido a
remasterização do material e longos processos de aprovação da edição nacional
por parte da equipe de Otomo no Japão. Anunciado em 2015, o primeiro volume
saiu em junho de 2017, enquanto o segundo já se encontra entre nós cerca de
pouco mais de um ano depois. A coleção, que tem tratamento de luxo que o título
merece, contará com 6 volumes, e todos estamos ansiosos pra ter isso completo
por aqui. Se continuar nesse ritmo ainda vai demorar um tempão pouco,
mas a espera certamente vai valer a pena.
Que lindeza!! <3
Otomo e a edição japonesa que é o padrão a ser seguido estritamente pelos licenciadores
Comemorando 30 anos do lançamento do filme agora em 2018, Akira é uma das obras mais influentes da ficção científica no multimídia, além de um dos principais expoentes do que viria a se tornar o subgênero cyberpunk. Inspirou grande parte dos mangás e animes produzidos nos anos 90 como Neon Genesis Evangelion, Ghost in the Shell, Bubblegum Crisis, Battle Angel Alita, Cowboy Bebop e pós anos 2000 como Blame e Psycho Pass. No cinema do ocidente, filmes como Matrix e a animação Animatrix, O Vingador do Futuro, Screamers, Poder Sem Limites, Destino Especial e séries como Stranger Things e Altered Carbon.
Notícias sobre a adaptação de um live action de Akira para as telonas são comuns desde meados dos anos 2000 quando a Warner adquiriu os direitos, mas como nunca chegou a ir pra frente, o filme virou uma espécie de lenda urbana. Inúmeros diretores, roteiristas e produtores manifestaram interesse em adaptar a obra, mais recentemente o diretor Taika Watiti, declarando publicamente que faria uma adaptação direta dos mangás, mas ainda não se sabe ao certo se um projeto está realmente em andamento.
Taika Watiti, o nome da vez?? ( Reprodução: ovicio.com.br )
Sendo uma atração a parte, a memorável trilha sonora de Akira, feita por Geinoh Yamashirogumi serviu como base para o artista Bwana lançar um album chamado "Capsule's Pride" lançado em 2016. Partes da trilha, diálogos, ruídos e efeitos foram extraídos e reciclados de forma bem inteligente, recontando de forma linear os eventos passados na animação. Vale conferir, o resultado ficou excelente!
Uma coisa é certa, tanto o anime quanto o mangá são uma incrível experiência estética aliada a uma narrativa que é diferente em cada mídia e mesmo assim obtém bons resultados, cada um funcionando, e muito bem, à sua maneira. Algo que pouco se vê nos dias de hoje, com adaptações cada vez mais problemáticas, mesmo quando os próprios criadores da obra original estão envolvidos. Além de manter-se como uma história de vanguarda, a obra prima de Otomo ainda previu as Olimpíadas de Tóquio de 2020 trinta anos antes! Só espero que as previsões parem por aí, porque as coisas podem não acabar muito bem se tudo se realizar ao pé da letra...
"Se as pessoas que amamos são roubadas de nós, o jeito de mantê-las vivas é continuar amando-as. Os prédios queimam, as pessoas morrem, mas o amor verdadeiro é para sempre."
E eis que assim, meio que de repente, finalmente sai no Brasil um clássico das HQs independentes: O Corvo, de James O'Barr! Essa HQ, originalmente publicada em 1989 lá fora, e após algumas tentativas malfadadas de outras editoras para publicação aqui no Brasil, finalmente ganha uma edição definitiva peloo selo Darkside Graphic Novel, da Darkside Books, com introdução do próprio autor e 30 páginas extras que, como O'Barr explica na introdução, simplesmente não possuía a perícia técnica para fazê-las como ele queria na época. O Corvo é mais um daqueles gibis essenciais, uma verdadeira injeção de ânimo em termos de quadrinhos autorais, em uma época em que os autorais ainda eram relegados ao underground, e por que não dizer, uma das obras que ajudou a elevar o nível - e muito! - nesse segmento das HQs autorais.
Calma! Não me enganei e tirei foto da HQ errada não! Os anos 80 foram assim mesmo, amiguinhos...
Mas do que trata o enredo desse clássico das HQs independentes? O Corvo narra a vingança além-túmulo empreendida por Eric Draven, um jovem assassinado por uma gangue de criminosos viciados, tão perversos que beiram o caricato, não fosse a crueldade desmedida que cada um deles é capaz de executar. Draven é morto, mas antes presencia a gangue violentando sua noiva Shelly, para, por fim também acabarem com a vida da moça. Tempos depois, Draven está de volta do mundo dos mortos, guiado por um misterioso corvo, e em busca de vingança. Draven assume uma pintura de guerra baseado nas máscaras teatrais gregas da comédia e tragédia e começa seu acerto de contas, no melhor estilo John Woo, com muitas balas, facadas e golpes de katana, matando membro por membro da gangue de marginais, num crescendo de violência que culmina no cabeça da gangue, T-Bird. Tudo isso embebido em um clima gótico, com direito a citações a torto e à direito de letras de bandas de pós-punk e autores como Baudelaire e Rimbaud. Então, antes de começar a leitura, sugiro que vocês coloquem sua playlist de Darkwave para rolar, a melhor ambientação possível para esse gibi.
"Eric grita e grita e bate a cabeça contra a parede até que sirenes fantasmas cruzam sua visão. Tudo que ele quer é dor. Dor e ódio Sim, o ódio. Mas nunca o medo. O medo é para o inimigo. O medo e os tiros."
"Tive a esperança de que, se botasse toda a minha fúria assassina no nanquim e no papel, de algum jeito, por mágica, toda a dor, toda mágoa e toda tendência autodestrutiva que se seguiu iam virar fumaça." James O'Barr
A premissa básica parece um tanto simplória e meio batida, mas como toda obra de arte que vale a pena ser analisada e apreciada, O Corvo nasceu de um bocado de dor e sofrimento. Na introdução escrita por O'Barr nesta edição da Darkside Books, ele explica que a idéia da HQ surgiu de uma tragédia pessoal que o assombrou por muito tempo: Quando jovem, ele pediu carona a uma namorada, que acabou morrendo atropelada por um motorista bêbado antes de encontrá-lo. Atormentado por dor, culpa, mágoa, e pensamentos autodestrutivos, produzir esse gibi foi a maneira de O'Barr se purgar de todo o sofrimento e desespero da perda. Além, é claro, da culpa esmagadora... Para mim, essa história pessoal por trás da HQ justifica toda a ultraviolência contida na história. A maneira que Eric Draven se porta,
tanto na HQ como no filme, com todo aquele deboche e jocosidade, como se para
disfarçar toda a imensurável dor de ser ceifado antes da hora e de forma
injusta e seguir em frente, reflete a dor de O'Barr ali, estampada em cada página. Nas palavras de Nietzsche: "A arte existe para que a verdade não nos destrua", e O Corvo é um bom exemplo da validade dessa citação.
Em 1994, O Corvo ganhou uma adaptação cinematográfica, que em minha opinião, é pouco lembrada e bastante subestimada. Dirigido pelo cineasta australiano Alex Proyas (do também subestimado Cidade das Sombras, que na época infelizmente foi ofuscado pelo de tema similar, porém muito mais pirotécnico Matrix), esse filme foi minha semi obsessão na época de seu lançamento, tanto pela história quanto pelo trágico acidente ocorrido durante a produção: O protagonista, interpretado por Brandon Lee, filho da lenda viva Bruce Lee, morreu durante as filmagens do longa metragem, alvejado por uma arma de festim mal regulada. Sim, também acho que foi tão estranho quanto o que aconteceu com o próprio Bruce Lee, o que me fez pensar a vida inteira se a maldição dos Lee não seria real.
Brandon Lee (01/02/1965 - 31/03/1993)
Ao rever o filme para escrever essa resenha, já com a leitura da HQ fresca na memória, dá pra perceber o quanto O Corvo foi um filme importante nessa trajetória das adaptações de histórias em quadrinhos para cinema e merece ser mencionado com mais frequência. Bastante fiel ao plot da HQ, não há demonstrações ostensivas de que se tratava de uma adaptação de quadrinhos. Muitos diretores entendiam erroneamente, em uma era pré Marvel Studios - salvo pouquíssimas exceções, como esta - que um filme oriundo de uma HQ não precisava de seriedade nem carga dramática. Aqui não há situações que desprezam a inteligência da audiência. Os efeitos especiais são datados, afinal já fazem 24 aninhos, né? E, mesmo assim, isso não compromete o filme de forma alguma. Apenas um filme honesto, contando uma história da melhor maneira possível. E foi o que bastou. Uma pérola cult, que inclusive consegue fluir melhor que a própria HQ em vários momentos. Tudo com as bênçãos de O'Barr, que também assina o roteiro da adaptação.
O filme conserva todo o clima dark de tristeza e violência oriundos da HQ, além de ser visualmente belíssimo, com recursos que a mídia cinema pode criar de uma forma única: Enquadramentos fora do convencional; sets riquíssimos em detalhes, compondo uma cidade suja, escura e desolada que faria Gotham City parecer a Barra da Tijuca; uma estética neogótica que permeia o filme do começo ao fim e que em vários momentos cria cenas de beleza soturna na tela. Ah, e uma trilha sonora fabulosa, composta por nomes como The Cure, Nine Inch Nails, Rage Against The Machine e The Jesus And Mary Chain. Numa época em que a gente ainda frequentava lojas de discos e consumia música por meio de suporte material, a trilha sonora do O Corvo era um dos CDs mais disputados lá por 1995, 1996...
Uma das trilhas sonoras mais cobiçadas dos anos 90...
Voltando à HQ, uma curiosidade é que a arte é totalmente à mão, apenas lápis, nanquim e retículas para fazer os tons de cinza. Algo cada vez mais raro nos dias de hoje, em que muitos artistas já possuem seus portfólios totalmente em suporte digital. O Corvo é uma HQ 100% artesanal, com um pé no fanzine, sem computadores em nenhuma etapa de sua feitura. O traço de O'Barr é preciso e detalhista, algo entre Vince Locke e Michael Zulli, para fins de comparação. Retratando a cidade suja e violenta, como não poderia deixar de ser. Mas esse traço sujo e rascante tem como contraponto algumas sequências oníricas, um simbolismo típico de sonhos, onde Eric observa um cavalo preso em arame farpado, sem nada poder fazer para salvá-lo, uma poderosa metáfora para a impotência frente à tragédia, tanto de Eric quanto do próprio James. Nessas sequências o traço é suavizado, quase como uma aguada em tons de cinza, porém a suavização só ocorre em nível visual mesmo. A angústia, melancolia e tristeza permanecem presentes ao longo de cada página, e nem sempre sutil. Quem já ouviu Joy Division conhece a sensação...
Uma história sobre a aceitação da inevitabilidade da morte e sobre o perdoar a si próprio, O Corvo é um daqueles trabalhos viscerais, feito não só com as mãos, mas com muito coração e alma. Pode conferir, está tudo no papel...
“Fazendo uma estimativa conservadora,
matei sessenta e um bilhões, esterilizei noventa planetas, desmoralizei
completamente outros quinhentos. Eliminei os seguidores de quarenta
religiões que existiam.”
Dando continuidade à grande Saga (com "S" maiúsculo mesmo!) de Duna, recebemos o exemplar do segundo volume, Messias de Duna, e como a especiaria precisa continuar fluindo, estamos de volta para continuar a análise dessa epopéia cósmico-feudal-messiânico-futurista aqui na Zona Negativa! Não temos o mau hábito de ficar jogando spoilers aqui, mas nesse caso é inevitável, já que Messias de Duna é continuação direta de Duna. Vamos tentar manter spoilers no mínimo aqui pra preservar todas as boas surpresas do livro. Então sigam em frente por sua conta e risco.
A história desse livro se passa cerca de doze anos após o final de Duna, volume anterior e primeiro de uma série de seis livros. Paul Atreides, ou Paul Muad'Dib, como foi nomeado pelos Fremen, agora é o Imperador do Universo, após um levante dado contra a hegemonia do Imperador anterior. Arrakis se torna a capital do Império e Paul sente, figurativamente, todo o peso da coroa, enfrentando politicagens, intrigas, subornos, chantagens, traições, e para piorar, sua habilidade de visualizar possíveis futuros o tempo todo sempre o levando ao limite da sanidade. Imagine cada ação que você desempenha, cada mínimo gesto, causando milhares de possíveis desdobramentos, e você ser capaz de ver cada possibilidade, uma a uma... É, não é mole ser o Muad'dib, mas alguém precisa fazê-lo. Para complicar ainda mais, vemos o retorno de um personagem dado como morto no volume anterior, alguém com quem Paul tinha um forte laço fraterno, porém agora retornando como um desconhecido, talvez até mesmo como inimigo...
"(...) O poder costuma isolar aqueles que o detêm em demasia. Por fim, acabam perdendo o contato com a realidade... e tombam."
Por ser a capital do Imperium, o povo de Arrakis, mais especificamente os Fremen, difundem suas crenças religiosas Universo afora, e claro, elas não são bem aceitas por todos. E falando em insatisfeitos, é lógico que existem os descontentes com essa mudança na balança de poder, cuja chave é o controle do Mélange, a substância mais valiosa do Universo. Conspiradores tramam a queda de Paul, e.... será que é por isso que ele anda tendo tantas visões de seus filhos sofrendo de mortes trágicas? para piorar, também surgem visões de um jihad cósmico, um verdadeiro banho de sangue ao redor do Universo, tudo em nome de Muad'Dib, contra aqueles que não aceitam o Imperador-deus de Arrakis. Paul Atreides é escravo da própria lenda que criou em torno de si mesmo, escravo de seu imenso poderio, atrelado ao volátil fervor messiânico. É claro que isso não vai acabar bem. Além disso, mais uma vez vemos o dilema determinismo x causalidade sendo magistralmente trabalhado por Herbert aqui.
Messias de Duna pode não ter o escopo épico ou as cenas de ação e batalhas intensas do livro anterior, mas as tramas são tão cuidadosamente construídas aqui que a sensação que fica é de esse segundo volume ser uma espécie de prelúdio para o próximo volume da saga, dada a quantidade de situações orquestradas e pontas soltas deixadas aqui e que se encaminham para a sequência, e também por uma tensão crescente ao longo do livro, que prenuncia que algo catastrófico vai acontecer a qualquer momento. O primeiro livro foi ótimo por motivos diferentes, mas este não fica devendo em nada. Então, lá vamos nós FRENETICAMENTE direto para o próximo volume... Até a resenha de Filhos de Duna!
Não??? Então vão lá, peguem as 75 edições, leiam e voltem a esse post. Vou ficar esperando aqui.
Prontos?
Então vamos lá:
Quem lembra da biblioteca do Sonhar? A biblioteca onde estão armazenados todos os livros que foram sonhados, mas nunca chegaram a ser escritos, que nunca vieram a existir no tal do "mundo real". O reino de Morpheus tinha neste espaço o receptáculo perfeito para tudo que poderia ter sido, mas não foi, artisticamente falando. Por N motivos, projetos podem afundar, dar errado ou nunca acontecer. Parcerias azedam e inviabilizam a realização ou conclusão do trabalho. Artistas morrem antes de concluir suas obras. Empresas vão à falência e publicações são abruptamente interrompidas. Algumas coisas nunca chegam a atingir seu pleno potencial e são finalizadas prematuramente. Um (péssimo) exemplo é o Grandes Astros Batman & Robin, de Frank Miller e Jim Lee. Que poderia nem ter sido concebido, para começo de conversa. Ainda assim, esse aborto da natureza respirou e se arrastou por nove edições até finalmente alguém na DC finalmente ter o bom senso de desligar os aparelhos dele. E olha que eu sou fã do Bátemã rs!!!. Agora, um exemplo de uma ótima HQ que morreu antes da conclusão - bem mais agradável do que falarmos de um gibi onde a Morcega derrota o Lanterna Verde pintando um quarto todo de amarelo - é Desolation Jones.
O Absolute Desolation Jones está na prateleira de baixo, ao lado do Omnibus de Grandes astros Batman & Robin :>P
Michael "Desolation" Jones é um agente aposentado do MI6, o Serviço secreto Britânico, que após cair em desgraça por embriaguez em serviço e má conduta, não tem outra escolha senão servir como cobaia em um projeto secreto, o Teste Desolação. Ele é, aparentemente, o único sobrevivente de um experimento que o obrigou, entre outras coisas, a ficar sem dormir e assistindo a cenas de morte e violência por um ano inteiro. O experimento deveria aprimorá-lo, mas dá terrivelmente errado, e Michael é "aposentado", sendo exilado pelo resto de sua vida em um local designado para outros como ele. E qual o melhor lugar para esconder ex operativos de agências de inteligência que foram cobaias de experimentos de aprimoramento mal sucedidos? Qual cidade do mundo tem a maior concentração de esquisitões por metro quadrado??? Isso mesmo, Los Angeles, Califórnia! Existe toda uma comunidade de ex espiões de diversas agências com aprimoramentos bizarros vivendo na Cidade dos Anjos, todos legalmente invisíveis, mas sem permissão de abandonar a cidade. Michael presta serviços de investigação particular entre os de sua comunidade. Esse primeiro (e único) arco aborda um dos serviços de Jones: Ele é contratado por um coronel para investigar quem teria roubado de sua
coleção particular um item de valor inestimável, o Santo Graal da sacanagem cinematográfica: Os filmes pornográficos
caseiros de... Adolf Hitler!
"Isso é L. A., querido. É com os de aparência normal que a você precisa ficar esperto."
Admito que também não acho a trama lá muito original, já que ela segue a manjada cartilha noir do investigador durão, com mulheres fatais, o McGuffin cobiçado por todos, reviravoltas inesperadas e etc, mas o que faz de Desolation Jones genial é a criatividade de Ellis, que sempre tende ao bizarro, para enriquecer essa trama, acrescido à doses brutais de realismo, violência explícita e temas contemporâneos: Jones investiga o submundo pornográfico de Los Angeles em busca do tal filme pornô roubado, e por conta disso há uma cena interessantíssima com uma atriz pornô explicando para Jones um lado de sua profissão que poucos conhecem, os bastidores da indústria, e que poderia ter sido extraído de uma entrevista, de tão cru que é o diálogo.
Outro ponto que não poderia deixar de mencionar fica por conta dos ex operativos exilados em Los Angeles: Eles não possuem poderes úteis e impressionantemente glamourosos como vemos em X-Men, por exemplo. São todos vítimas de experimentos que deram terrivelmente errado, e que não passam de uma grande inconveniência para seus portadores. Alguns variam do extremamente bizarro ao pateticamente inútil, como por exemplo Jeronimus Corneliszoon, empresário de Jones, que deveria ser o soldado perfeito, com necessidade de se alimentar apenas quatro vezes ao ano. Seu estômago, modificado pela CIA, o obriga a consumir vastas quantidades de proteína, e por isso ele é o único operativo autorizado a sair de L.A. para comer vacas. Inteiras e em pleno campo aberto, ajudando assim a perpetuar as bizarras lendas de mutilação de gado América afora. Também há Emily Crowe, que como resultado de um experimento da CIA para criar a armadilha sexual definitiva, emite o tempo inteiro feromônios que provocam repulsa e medo irracional em todos à sua volta, com exceção de Jones, que não é afetado, provavelmente por causa do Teste Desolação. O cárcere de Emily é bem menor que o dos outros agentes, já que ela mal sai de sua casa. Uma personagem que desperta consternação no leitor.
O próprio Jones é um amontoado de problemas: O experimento fez com que ele tivesse uma compleição frágil, cheio de cicatrizes, pele cinzenta e cabelos brancos. Jones evita luz solar e sofre de dores crônicas e impotência sexual. Ainda assim, é bastante perigoso, com reflexos acima do normal e seu treinamento do MI6. Psicologicamente, ele é incapaz de sentir medo ou remorso, e se necessário, recorre ao homicídio sem maiores problemas, às vezes de mãos nuas. Além disso, Jones sofre de alucinações, vendo anjos seminus ou ensanguentados pairando sobre a cidade. "Soldadinhos quebrados", como Corneliszoon se refere à sua comunidade em um determinado momento. Esses agentes descartados são uma pequena faceta do abuso de poder e os absurdos a que a corrida armamentista pode chegar. Por conta de sua condição, Jones acha que mais nada pode feri-lo, e descobre da pior maneira que ainda pode se machucar um pouco mais.
"Ganhar uma luta não se trata de ser o mais forte ou o boxeador mais esperto, se trata de ser o mais disposto a foder permanentemente com o outro cara." Amém, brother...
Desolation Jones durou oito edições, sendo que as primeiras seis compõem o arco Made In England, com arte de J. H. Williams III e Jose Villarrubia e o arco seguinte, To Be In England, do qual só saíram as duas primeiras edições, com arte de Danijel Zezelj. O motivo disso foi a perda dos roteiros originais: O computador de Ellis deu pau e ele perdeu vários roteiros sem backup, incluindo Desolation Jones e alguns outros trabalhos. Depois disso, o desânimo foi tão grande que ele nem tentou reescrever. A série foi descontinuada na oitava edição. O encadernado lançado pela DC não inclui as edições #7 e #8, as duas primeiras do arco incompleto, apenas as seis edições do arco Made In England.
A arte de J. H. Williams III (Promethea, Batwoman, Sandman: Prelúdio) é um show à parte. Seus layouts de páginas são alucinantes e sobrenaturalmente criativos, tornando a tarefa de virar cada página um esforço. O colorista é Jose Villarrubia, colaborador de longa data de Williams, e em perfeita sintonia com o traço do desenhista. Ellis foi presenteado por ter esses dois frente à arte de Desolation Jones. O título chegou a ser indicado a seis prêmios Eisner (Melhor nova série, melhor arco de história, melhor escritor, melhor desenhista, melhor colorista e melhor letreirização). Apenas Villarrubia ganhou o Eisner de melhor colorista, mas Desolation Jones merecia bem mais...
Lembra daquela página fodástica de Promethea? Coisa do Williams...
Uma mescla entre romances detetivescos do Mike Hammer de Mickey Spillane e do Sam Spade de Dashiell Hammett, somado ao clima weirdo da Los Angeles de Vício Inerente de Thomas Pynchon e ainda uma pegada de jornalismo gonzo, que também é a cara de Los Angeles. Adicione a isso pornografia (L.A. é a capital do pornô mundial!) e drogas (segundo Marilyn Manson, L.A. é a capital mundial das drogas) e, lógico, toda a inventividade, insanidade e violência que um Warren Ellis extremamente inspirado pode entregar, e dá pra ter uma boa idéia do que esperar de Desolation Jones. Não podemos esquecer de mencionar a parceria com Williams, os dois afinadíssimos para fazer essa Los Angeles tão bizarra ser tão crível. Ellis é um cara que escreve a história das HQs agora, nesse exato momento, enquanto eu escrevo esse texto e enquanto vocês o lêem. Então, não esperem pelo cinquentenário da morte dele para atestar sua genialidade. Vá atrás de uma boa história do Ellis AGORA! Acredite, até os gibis incompletos desse cara valem muito a leitura...
"Essa cidade encontra uma nova maneira de partir meu coração todo fuckin' dia..."
"Uma vez, quando éramos escravos e estávamos famintos, comemos o conteúdo do estômago de um menino morto. Dissemos que era diferente de comer o menino. Mas agora eu sei a verdade. Era a mesma coisa."
Vencedora do prêmios Hugo Awards e British Fantasy Awards de melhor
história em quadrinhos de 2017, a série da Image Comics criada pela roteirista
Marjorie Liu (NYX, X-23) e a desenhista Sana Takeda (X-Men, Ms. Marvel, X-23) é uma das gratas surpresas publicadas no
Brasil em 2018.Em
um mundo alternativo que mistura elementos de fantasia épica e steampunk, a
Federação Humana e os Reinos Arcânicos entraram em guerra após anos de
coexistência amistosa. Uma frágil trégua é estabelecida após a Batalha de Constantine, que ceifou inúmeras vidas de ambos os lados. Acompanhamos o início da jornada da protagonista, Maika Halfwolf, passados cinco anos desde o início do período de trégua.
O esquecimento é amigo da barbárie.
Maika
Halfwolf é uma arcânica de aparência bem similar a humana, que após sobreviver
a guerra, decidiu ir atrás de respostas sobre seu passado. Boa parte da memória de sua
infância foi perdida, depois de uma expedição com sua mãe e alguns outros
estudiosos ao deserto a procura de um antigo artefato. Algo deu tremendamente
errado por lá ao fazerem experimentos com o artefato, o que vitimou a mãe de
Maika e marcou a própria de forma permanente. Encontrada por saqueadores no
deserto, foi vendida como escrava e mantida em um campo de concentração por uma
senhora de escravos que leiloava crianças arcânicas para a alta sociedade
humana. Durante o violento período de guerra, foi libertada mas a
inquietante vontade de descobrir sobre si mesma e as incomuns habilidades que
adquiriu após o evento no deserto a faz partir em uma jornada extremamente
arriscada.
A fome que anseia por alimento é a mesma que impulsiona a busca por algo que nos complete como indivíduo.
A primeira edição desse volume, que tem um número maior de páginas, já captura
o leitor mostrando a grande habilidade narrativa da dupla para desenvolvimento
de cenário e personagens, criando um mundo onde o leitor não demora a emergir, e
abordando temas como preconceito racial, escravidão, estado teocrático
opressor, enfrentamento de monstros internos e os problemas de uma geração
pós-guerra alimentada pelo ódio e preconceito em um mundo onde muros dividem
territórios Humanos e Arcânicos. Enquanto Maika tenta entender e controlar a
criatura obscura que vive em seu interior e se manifesta através do seu
antebraço amputado, ela coloca seu arriscado plano inicial em prática e as
consequências poderão desencadear o reinício da guerra. Ambos os lados buscam
conhecimento e acesso a poderes de deuses antigos adormecidos (Alô,
Lovecraft!), e a linhagem da jovem pode ser a chave para o controle desses
poderes.
As parceiras no crime, Sana Takeda e Marjorie Liu respectivamente, afiadíssimas na execução dessa bela obra.
Praticamente
todas as personagens de destaque e coadjuvantes são femininas, mulheres de
personalidades marcantes, física e mentalmente diferentes, algumas ocupando
cargos de poder, sendo elas militares de variadas patentes, líderes religiosas,
um esquadrão de inquisidoras, uma primeira-ministro, chefes-guerreiras, rainhas
e conselheiras, o que denota neste mundo uma forte característica de sociedade
matriarcal, tanto do lado humano quanto do Arcânico. Além disso, apêndices ao
fim de cada edição trazem trechos de palestras do Professor Tam Tam, um gato
falante erudito contemporâneo, que elucidam questões históricas e conectam
ainda mais o leitor ao mundo conhecido. E há de se concordar com Neil Gaiman,
que diz que Monstress traz alguns dos melhores gatos dos quadrinhos, como o
Mestre Ren.
O audaz Mestre Ren ,com seu par de caudas, nunca perde uma oportunidade de citar os poetas.
Monstress
é uma bela mistura dos estilos e tradição dos quadrinhos ocidentais e orientais
com uma sinergia vibrante entre roteiro e arte. A edição da Pixel tem um belo
acabamento gráfico que já impressiona na capa dura texturizada em verniz. A série está em
seu terceiro volume nos EUA e ficamos na torcida para que o ótimo tratamento
dado a esse título promissor continue por aqui.
Achou que não ia ter Zona Negativa no FIQ??? Achou errado, otário! Aproveitamos esse centésimo post da Zona Negativa (SIM, já chegamos aos 100 posts! Quem diria que nosso papo furado aqui iria render tanto, hein??? rsrsrs...) para dar um aviso de última hora: A Zona Negativa estará neste sábado e domingo em Belo Horizonte, no décimo oitavo Festival Internacional de Quadrinhos para curtir o evento. Fiquemligados no Instagram da ZN (@zonanegativa2014) para as novidades e stories que vamos largar enquanto estivermos por lá. Lançamentos, novidades e encontros com os artistas que estão sacudindo o cenário nacional de quadrinhos, tudo isso em nosso Instagram e Facebook o fim de semana inteiro!
E sabem o que isso significa? que nas próximas semanas provavelmente teremos uma tonelada de materiais para resenhar, de tudo que conseguimos apurar de mais interessante no melhor evento de quadrinhos brasileiro atualmente!
Então, Bê Agâ, preparem o torresmo, a cerveja e os pães de queijo, porque a gente vai invadir esse trem bão aí!!! E então, prontos para mais cem posts...???