"Através
do portal, em meio às ruínas da cidade afundada, Malone percebeu a
figura de enormes feições - um rosto, ou a distorção de um rosto. As
partes superiores daquela face eram lisas como a cúpula de um crânio
humano, mas embaixo dos olhos, o rosto pulsava e se enrodilhava entre
tentáculos. As pálpebras do tamanho de velas desfraldadas permaneciam
fechadas, felizmente, mas tremiam como se fossem abrir."
Um assunto um tanto quanto batido mas inevitável de se abordar é o fato de a obra de H. P. Lovecraft possuir tons de racismo e xenofobia que podem ser (adequadamente) taxados como muito errados nesses tempos atuais em qualquer época. Talvez o cavalheiro de Providence, no período em que residiu em Brooklyn, Nova York, sendo um provinciano dono de uma personalidade bucólica, ficasse deveras incomodado com o caldeirão de diferentes povos e culturas que afluíam na cidade, imigrantes vindos de todas as partes do mundo. O preconceito pode ser percebido como bastante explícito em histórias como Herbert West: Reanimador, O Chamado de Cthulhu, A Rua, A Sombra de Innsmouth e O Horror em Red Hook, e mesmo levando-se em conta que Lovecraft agiu meramente como um homem de seu tempo, onde tais idéias eram veiculadas como 'normais', sua leitura é bastante controversa. Obviamente, revisões são necessárias, seja ela realizada na própria cabeça do leitor, seja em obras como A Balada do Black Tom.
Victor Lavalle
"-
Carrego um inferno dentro de mim - rosnou Black Tom. - E quando descobri
que ninguém tinha compaixão por mim, quis arrancar árvores, espalhar o
caos e a destruição ao meu redor e depois me sentar e desfrutar da
ruína. - Então, você é um monstro - comentou Malone. - Fizeram de mim um monstro."
A Balada do Black Tom é uma releitura de O Horror em Red Hook, mas vista de outro ângulo, o dos supostos vilões da história de Lovecraft. Esse, digamos, 'remix' de O Horror em Red Hook funciona em dois níveis: como homenagem e como crítica à obra de Lovecraft, dando voz e imprimindo alguma humanidade aos párias e excluídos que são retratados como aberrações no conto original. Se, segundo alguns estudiosos, as criaturas indefiníveis presentes nas histórias de Lovecraft eram claramente uma representação de sua xenofobia e de seu racismo, em A Balada de Black Tom Lavalle mantém os monstros em segundo plano e escancara todo esse racismo em muitos momentos dolorosos, como, por exemplo, o destino do pai do protagonista, que é o estopim para a transformação do personagem principal. Se Donald Glover aponta a distopia que seu país se tornou para o povo negro no vídeo de This Is America, Lavalle utiliza sua própria história para sinalizar que estes monstros sempre estiveram por aí: a intolerância, o preconceito e o descaso não são novidade.
"- Agora, quanto você disse que o branco vai te pagar? - Quatrocentos dólares. - Tudo isso só pra tocar na festa dele? (...) - Foi o que ele disse. Otis ergueu as mãos e as manteve separadas no ar o máximo que pôde. - Essa é a distância entre o que um homem branco diz a um preto e o que ele realmente quer dizer."
Na história, acompanhamos a trajetória de Tommy Tester, um músico medíocre que vive de pequenos trambiques e sustenta seu pai Otis, impossibilitado de trabalhar. Em uma sociedade ainda mais desigual que a atual, com os negros tendo perspectivas de vida desalentadoras, quase nulas, Tommy sobrevive em meio às poucas oportunidades e ao preconceito brutal que sempre paira sobre sua existência. Após negociar um velho livro com uma estranha senhora, Tommy conhece Robert Suydam, um misterioso homem que o contrata para tocar violão em uma reunião particular em sua mansão. Após essa reunião, e após uma tragédia pessoal na vida de Tommy, ele é enredado nos bizarros planos de Suydam, que incluem acordar um "Rei adormecido que vive no fundo do mar".E nós sabemos a quem ele se refere, certo...?
"Agora,
não sei o que mais acrescentar à próxima parte, pois vou dizer que
gostei do que vi. Certo? ela saiu, e o preto ficou parado lá, paciente
como ele só, e então foi como se uma porta se abrisse. Veja o senhor,
bem ali, onde o portão da casa funerária encosta na propriedade dela?
alguma coisa se abriu bem ali. Digo que é uma porta, mas não era
mesmo uma porta. Era como um buraco, ou um bolsão, e dentro do bolsão
estava vazio, preto. Não sei o que mais dizer disso. Como o céu noturno,
mas sem nenhuma estrela. E o tempo todo minha Elizabeth ficou gritando
na cozinha."
Esta edição conta também com o conto original de Lovecraft, como extra, e com uma tradução o mais fiel possível do texto original, ou sejE, a editora Morro Branco optou por não atenuar o texto, o que sempre é acertadíssimo, seja a obra qual for. Nesse caso em especial, era imprescindível que o teor politicamente incorreto fosse preservado, em contraste ao revisionismo de Lavalle. Incluir a história original no mesmo livro foi uma decisão acertada da editora, que assim entregou todos os subsídios que o leitor precisa para formular suas próprias conclusões a respeito da obra original e a história em questão. Quando vemos um trecho na história de Lavalle que parece tão preconceituoso quanto o original, imediatamente captamos sua crítica ao racismo embutido na prosa Lovecraftiana.
"Quem
poderia culpar a mente de Malone por devastar a verdade? Robert Suydam,
aquele arqui-inimigo - havia matado o senhor Howard e seis policiais,
além de causar danos dolorosos a Malone. No entanto, como um sinal da
natureza justa de Deus, o próprio lacaio preto de Suydam virou-se contra
ele e cortou a garganta do mestre. Por mais horrível que fosse, não era
essa a verdade? Os pretos simplesmente não são tão malignos, explicou o
especialista. Sua simplicidade era seu dom e sua maldição."
Racismo esse que, anos depois, 'evoluiu' para uma espécie de elitismo, um noção de predileção pela alta cultura anglo-saxônica, a única cultura refinada e sofisticada o suficiente para ser apreciada e reverenciada - segundo Lovecraft. Lavalle também se dá conta desta percepção que Lovecraft embutiu em sua obra em seus últimos anos de vida, tão errônea quanto a anterior, e sutilmente também comenta a respeito em sua história:
"Quem mais além de um homem nascido na riqueza e com educação poderia estar naturalmente preparado para liderar?"
Além do diálogo entre as duas obras, também existem easter eggs em A Balada do Black Tom, como essa singela homenagem abaixo, quando Lavalle insere o autor dento da releitura da obra. Adivinharam quem é???
"Um homem
de Rhode Island, mas que vivia no Brooklyn com sua mulher, mostrou-se
tão persistente que dois policiais foram enviados à sua casa para deixar
claro que não era bem-vindo à Nova York. Talvez sua disposição fosse
mais adequada a Providence. O homem saiu da cidade pouco depois, e nunca
mais voltou."
Por fim, pra quem se interessa por esse aspecto antropológico das histórias de Lovecraft, deixo aqui mais uma recomendação: O Horror Cósmico de HP Lovecraft - Teoria e Prática. O livro é baseado na tese do professor Daniel I. Dutra e é uma análise profunda da obra de Lovecraft e suas correspondências, e ajuda bastante a elucidar toda esta questão do racismo implícito em suas obras. Mais uma publicação magnífica da editora Clock Tower, os cultistas mais alucinados do território nacional. Assim que for devidamente lido, claro que a resenha vai integrar essa série que criamos aqui na Zona. Nossa seção Genealogia Lovecraftiana só vai abordar livros que tenham alguma relação com a mitologia criada por Lovecraft, sejam eles obras que influenciaram o cosmicismo de Lovecraft ou homenagens de autores publicadas após sua morte. Material pra isso não falta, já que o Lovecas está longe de ser esquecido à medida que o tempo passa...
A história talvez não satisfaça ao leitor que está atrás de uma história do cânone Lovecraftiano cheia de fan service e grandes pirotecnias. Já o leitor que procura uma boa história de mistério/horror com comentários sociais incisivos vai curtir essa reinterpretação. A Balada do Black Tom não é (apenas) uma história de horror cósmico, e sim uma revisão do passado recente. E Cthulhu sabe o quanto estamos precisando de revisões do passado...
Quem nunca brincou com alguma coisa (supostamente) sobrenatural na adolescência, essa época da vida em que uma estranha mistura de fanfarronice, curiosidade e falta de noção se manifesta na molecada? Seja tentando contatar espíritos com um compasso, ou com o famigerado Jogo do Copo - a Ouija de pobre - ou comprando um livro de São Cipriano em um sebo qualquer, para, 15 minutos depois, devolver o livro horrorizado pelo conteúdo barra pesada do mesmo (Essa eu já fiz heheh. Mas ei, eu tinha só 14 anos!). E foi assim que o nome "Cipriano" ficou para sempre marcado na minha memória rsrsrs. Mas o que isso tem a ver com essa resenha???? Calma, continuem comigo e vão entender heheheheh...
O livro São Cipriano que eu possuí.... por uns 15 minutos antes de arregar rs
Depois do perverso Ultra Carnem, de César Bravo, e do sangrento Jantar Secreto, de Raphael Montes, a literatura fantástica nacional acaba de ganhar mais um reforço. Gabriel Tennyson desponta com seu romance de estréia magnificamente macabro, envolvendo sociedades secretas, demônios e outros seres mitológicos, ambientado no Rio de Janeiro dos dias atuais e com uma trupe de personagens interessantes.
Deuses Caídos é um thriller de mistério com toques de fantasia urbana e horror sobrenatural. Tudo começa com um misterioso serial killer que vem assassinando evangelistas famosos. E pior: O faz utilizando a Internet para veicular as atrocidades, com um público cada vez cruel e ávido por violência que vem crescendo a cada crime cometido - um sagaz comentário a respeito da perversidade que o anonimato concedido pela Internet confere. O assassino encarna uma figura messiânica que alega realizar uma justiça divina merecida pelas vítimas. Um detalhe: As atrocidades sugerem haver um elemento paranormal envolvido. Isso ameaça o trabalho desempenhado pela Sociedade de São Tomé, um braço da Igreja Católica responsável por manter secreta a existência de criaturas sobrenaturais vivendo entre nós, embora exista todo um submundo de criaturas místicas habitando a cidade do Rio de Janeiro e seus recônditos mais obscuros, da Vila Mimosa até a Ilha do Fundão, passando pela Lapa e Santa Tereza, a Cidade (já nem tão mais) Maravilhosa certamente é o personagem principal do livro.
O membro da Sociedade São Tomé encarregado da captura deste estranho assassino é o veterano Judas Cipriano, um padre badass descendente de São Cipriano (Aquele mesmo do livro de magia negra), que possui estranhos poderes sobrenaturais. Judas é o padre mais improvável possível: Boêmio, beberrão, usuário de substâncias tóxicas, frequentador assíduo dos pontos de travestis da Lapa, e com uma infância bizarra que envolvia maus tratos extremos por parte de seus estranhos pais. Uma espécie de John Constantine carioca. Cipriano é convocado para trabalhar como consultor da Polícia Civil na investigação - atentando para os aspectos sobrenaturais do crime, logicamente - e lhe é designado como assistente a policial Júlia Abdemi, que seria uma pessoa comum, não fosse por seu dom de se comunicar com máquinas (Coisa de uma HQ de Warren Ellis, mas que fica ainda melhor e mais brazuca depois de uma revelação lá no ato final). Juntos, os dois passarão por uma tour de force, durante quatro dias, revirando o submundo místico da Cidade Maravilhosa atrás de pistas para capturar o assassino. E tentando sobreviver às descobertas que realizam.
E aí? Impactados? Eu fiquei. Bastante.
O verdadeiro São Cipriano
Esse
resumo faz o material parecer promissor, não? Um thriller urbano de
investigação, com toques de fantasia macabra, muito gore, demonismo
trevoso, releitura de seres mitológicos sob uma nova roupagem...
Promissor é só o resumo mesmo. O livro em si é FODA. Deuses Caídos é
provido de um ritmo narrativo impecável e um texto fluido. Algo
impressionante, ainda mais se levando em conta que este é o primeiro
livro de Tennyson. "Minhas
influências visuais vieram de
filmes como Silent Hill, Hellraiser, O Labirinto do Fauno e Seven - Os
Sete Crimes Capitais. Se eu tivesse que definir o livro em uma frase,
diria que é uma espécie de Hellboy tão violento quanto os filmes de
Hannibal Lecter.", declarou o autor em uma entrevista.
Gabriel Tennyson
Nosso país é essencialmente pluricultural. Aqui, nesses últimos cinco séculos, tudo se
misturou, se mesclou e foi sincretizado, desde os genes até a religião e
o folclore, e Tennyson soube usar bem o que temos de mais rico: Essa
infinidade de mitos, lendas e referências, inclusive sem perder o senso
de contemporaneidade. Assim, referências da cultura de massa como X-Men, Star Wars, Arquivo X e o BvS de Zack Snyder se mesclam e coexistem junto ao regionalismo de um Cramunhão da Garrafa ou a Vovó Mafalda, por exemplo. Tennyson mastiga e redefine uma nova roupagem para seres mitológicos, fazendo sua existência no Rio de Janeiro em 2018 ser plausível. Elementais da terra, súcubos, golems, fadas do dente, sacis, mapinguaris, dragões chineses, gárgulas, vampiros... Nah, os vampiros foram preservados. Algumas coisas são sagradas hehehe. A única alteração que os vampiros sofreram nessa história foi terem a aparência do José Serra e o modo de falar de Michel Temer, o que, na minha opinião, foi bem adequado.
Já o protagonista Judas Cipriano, sob a ótica dos leitores de quadrinhos adultos, vai lembrar um doppelgänger do já famigerado John Constantine da Vertigo/DC Comics: Um especialista em demonologia e exorcismo, que é frequentemente compelido a manter o mundo nos eixos, servindo de antagonista a entidades perversas que querem acabar com a humanidade. Isso sem mencionar pelo menos dois blefes espetaculares na história, em situações sem escapatória nenhuma. Como Constantine, Cipriano se dá melhor na lábia, ou melhor, no caô, do que propriamente na magia.
Sobretudos são inviáveis na Cidade Maravilhosa. Mas ter um taxista à disposição sempre é bom. Arte de Tim Bradstreet.
Deuses Caídos
chega com os dois pés na porta, pesado e arrebatador desde a primeira
página, contando uma história de mistério sombria e grotesca, sem
amarras ou restrições, e cativante até o final, que não brinca com a inteligência do leitor e ainda acena a possibilidade de um novo e ainda mais interessante recomeço. Pleno outubro, posso falar com tranquilidade que é uma das
gratas surpresas de 2018. Quem ama Hellblazer, Hellboy, Clive Barker e Fantasia Dark em geral pode embarcar sem medo. É só entregar a alma...
“Deuses caídos mistura descrições bizarras com personagens
inusitados e ajuda a criar um tenebroso imaginário brasileiro. Gabriel
Tennyson é uma voz nova e original no terror nacional.” Raphael Montes
"Quando deixamos a Terra, cada um dos 450 tripulantes da Enterprise foi considerado estável.Mas já se passaram dois anos... dois anos de forte pressão. Realizamos sondagens mentais com frequência, mas sabemos que alguns estão mudados. Inclusive alguns podem ter se estragado: só descobriremos quando a rachadura ficar aparente."
Diário de bordo do Capitão James T. Kirk
Considerado um dos melhores episódios da série clássica de Star Trek, o roteiro de “Cidade à beira da eternidade”, penúltimo episódio da primeira temporada, gerou bastante controvérsia entre os envolvidos na criação da série na época. O roteirista Harlan Ellison foi alertado pelo criador da série Gene Roddenberry de que o roteiro necessitava de mudanças devido a restrições orçamentárias. Ellison não concordou e se afastou da série após Roddenberry e os outros roteiristas decidirem fazer as adaptações e gravar o episódio. Com o roteiro original em mãos, Ellison o inscreveu em diversos concursos e ganhou alguns prêmios. A popularização massiva da série anos depois, somado a fama que o roteiro original alcançou, sempre gerou muitas especulações entre os fãs sobre qual versão seria superior.
Décadas depois, a editora IDW adquiriu os direitos de publicação de quadrinhos da franquia e negociou com Ellison a adaptação de seu roteiro, que ficou a cargo de Scott Tipton e David Tipton com arte de JK Woodward sendo publicada em 2014 em cinco partes. A versão nacional ficou por conta da editora Mythos, uma edição em capa dura com o belo acabamento gráfico que esse grande clássico da ficção científica merece.
Ellison e os colaboradores responsáveis pelo projeto. Da esquerda para direita: Scott Tipton, David Tipton, o editor Chris Ryall e JK Woodward.
Na trama, após perseguirem um oficial que trafica drogas dentro da Enterprise até um misterioso planeta, Capitão Kirk e seu grupo descobrem uma estranha cidade, e lá conhecem os guardiões do tempo que dizem que o planeta está no centro do fluxo temporal do universo. Através de um vórtice, qualquer período do tempo poderia ser alcançado e aproveitando ter sido momentaneamente esquecido, o fugitivo se lança no vórtice para escapar, sendo responsável por alterar toda a linha temporal em que Kirk e companhia estavam. Orientados pelos passivos guardiões, Kirk e Spock decidem viajar no tempo para seguir o rastro do criminoso, chegar antes dele no destino final e impedir a mudança. A dupla reaparece em Nova York nos anos 30 em meio a Grande Depressão e lá descobrem que a restituição de sua linha temporal dependerá de que uma enorme tragédia se cumpra.
The Nuncia: Piloto chapado conduzindo a Enterprise, lisergicamente indo onde nenhum homem jamais esteve!
Viagem no tempo? E o alerta de vai dar merda já ta ligado no máximo
Sobre algumas diferenças entre os roteiros: No episódio, após um acidente na Enterprise enquanto investigavam o planeta dos guardiões, Dr McCoy é exposto a superdosagem de um medicamento antiarrítmico. Paranóico e agressivo, o doutor consegue escapar para o planeta abaixo utilizando a sala de teleporte e logo em seguida o vórtice, ocasionando a ruptura da linha temporal em que estavam. Kirk e Spock imediatamente vão atrás de seu companheiro para impedI-lo de causar o dano temporal. Com a adaptação, a perseguição a um oficial criminoso e traidor se transforma no resgate do companheiro momentaneamente insano. Ficou claro que inserir elementos que sugeriam o consumo de drogas dentro da Enterprise não agradou Roddenberry nem um pouco. Os homens e mulheres de sua utopia militar-socialista não poderiam sucumbir a problemas tão mundanos como dependência química e tentativas desesperadas de escapismo de um ambiente confinado e instável.
As motivações tanto para Beckwith quanto para o Dr McCoy de interferir no fluxo temporal mesmo sem saber ao certo o que faziam são bem amarradas nas suas respectivas tramas, com destaque para o roteiro original em que o vilão da história em meio a tantas atitudes ruins, ainda é capaz de um ato de compaixão e empatia em vida.
"As vezes o indivíduo está louco na droga."
Oficial Beckwith metendo o loco dentro da Enterprise
Os diálogos entre Kirk e Spock no roteiro de Ellison parecem carecer da tão conhecida dinâmica entre ambos, mostrando por vezes demais um Spock muito passional e um tanto intolerante, enquanto no episódio isso não é um problema. Por outro lado, no roteiro original dá-se um merecido destaque a Ordenança Janice Rand, personagem muito pouco aproveitada na série. Ela tem um papel fundamental para que Kirk e Spock consigam cumprir sua missão, algo que nunca chegou perto de acontecer no episódio, no qual ela nem participa.
Que mulherão da porra!
Sobre a arte, JK Woodward fez um ótimo trabalho na adaptação do roteiro e criação de cenários, capturou bem a essência e a sensação é de estar mesmo assistindo a um episódio da série clássica. No entanto, peca em algumas cenas que sugerem muito movimento e os personagens se mostram estáticos ou engessados demais. Já as capas de Juan Ortiz são um espetáculo a parte, realmente impressionantes.
Harlan Ellison foi um escritor premiado que publicou inúmeros contos, novelas, roteiros para quadrinhos, cinema, televisão, ensaios, peças de tv e críticas. Nos deixou em junho desse ano, aos 84 anos e sua morte aconteceu durante o sono por causas naturais. No prefácio e posfácio escritos por ele na edição encadernada de "Cidade à beira da eternidade", mostra-se extremamente feliz e satisfeito de finalmente ver seu roteiro sair do papel e transposto para os quadrinhos, com direito a uma participação especial a la Hitchcock como um importante personagem no último capítulo.
Harlan Ellison continuará vivendo através de suas obras e além disso tem a eterna gratidão de todo Trekker que já nasceu ou ainda nascerá.
Leonard Nimoy, Harlan Ellison e William Shatner no set de Star Trek em 1966
Ainda existe algo a ser dito sobre o filme Pantera Negra? Mesmo depois de tantas resenhas, tantas explicações e tantas análises? Como peça de entretenimento provavelmente não. Mas se olharmos para o filme de uma outra maneira? Se analisarmos num contexto um pouco maior? Este texto surgiu como resultado de discussões sobre o filme na redação do Zona Negativa e não trata de sua ligação com o universo cinematográfico da Marvel. Para isso já teve bastante gente abordando o assunto e elaborando milhares de teorias tiradas da cartola para aproveitar o hype do filme. Este texto fala de sua importância como possível instrumento de transformação social através de uma obra de cultura de massa. Trata de seu poder como forma de empoderamento e identificação. Trata de seus aspectos políticos e de sua representatividade. Mostra que é muito mais que um filme divertido com umas lutas legais.
Para início de conversa, precisamos deixar bem claro que Killmonger é um verdadeiro Pantera Negra.
A primeira e ultima cena do filme do Pantera Negra são exatamente no mesmo local e não é por coincidência. Oakland é onde Killmonger nasce é criado, e onde T’Challa inicia a abertura de seu programa de assistência social. Por que digo que não é coincidência? Por Oakland ser o local onde foi fundado o Partido dos Panteras Negras. Mas você sabe quem foram os Panteras Negras e sua importância?
Nem só de Martin Luther King Jr e Malcolm X se resumiu a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos nos anos 60. Existiu também a combativa Angela Davis, o elegante James Baldwin e um grupo que abalou as estruturas do conservadorismo norte americano: o Partido dos Panteras Negras. Com os seus membros armados para se defender, o partido reivindicava o fim da discriminação e violência (principalmente por parte da polícia) sofrida pela população negra norte americana. Além disso, o grupo também tinha um programa de assistência social e alimentação que ajudava os mais carentes. O grupo buscava se defender usando “todos os meios necessários”, que era uma frase que Malcolm X usava em seus discursos e que ganhou uma nova dimensão com o partido.
“Nossa união é sinal de perigo.”
Rincón Sapiência
Segundo o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, os Panteras Negras eram a principal ameaça à segurança interna dos Estados Unidos. A questão que fica é: Era perigoso por ser um grupo que andava armado? Não, meus amigos. Se fosse por esse motivo, um grupo de brancos que andam encapuzados e se declaram “cidadãos de bem” (que aliás, era o nome de seu jornal), armados, queimam cruzes e atendem pelo nome de Ku Klux Klan também seria combatido. Mas eles estão aí há mais de 150 anos sendo um grupo terrorista sem nenhum tipo de repressão e com simpatizantes espalhados pelo país, inclusive ocupando a cadeira presidencial.
"O Cidadão de Bem", jornal da KKK (isso não foi uma risada)
“O cidadão de bem é uma arma de destruição em massa.”
Emicida
O personagem Pantera Negra da Marvel não tem nenhuma ligação com o Partido dos Panteras Negras. T’Challa veio antes do partido, mas a inspiração para o nome do partido não teve ligação nenhuma com o rei de Wakanda criado pela Casa das Idéias. Sua real inspiração foi a 66ª Divisão de Infantaria norte americana durante a Segunda Guerra Mundial, que era chamada de Divisão Pantera Negra e seu agrupamento era composto somente por soldados negros.
T’Challa não compreende as razões de Killmonger e não percebe que seu ódio nasceu do ódio. Sempre relutando pela abertura de Wakanda, preferia manter as coisas como sempre foram e, como rei, cuidar somente de “seu povo”. Por viver isolado do resto do mundo, T’Challa acabou ficando alienado quanto ao que acontece com os seus semelhantes ao redor do globo. Talvez não por culpa dele, mas era difícil ele se entender e se enxergar como um negro e o que isso significava. Afinal de contas, é muito complicado alguém compreender o que é o racismo e seu poder de dano sem nunca ter vivido esse tipo de experiência (também pelo fato de viver dentro da bolha da realeza). Por isso não conseguia enxergar que ele não era só o rei de um povo, mas de toda uma raça. O Pantera Negra poderia ser muito maior que as limitadoras fronteiras de Wakanda. Ambos tinham objetivos claros e passaram o filme buscando alcançá-los. Enquanto Killmonger está tentando, através de todos os meios necessários, colocar fim na opressão que o povo negro sofre, T’Challa, tanto na sua primeira cena quanto na última em Wakanda, está mais preocupado em convencer Nakia a ficar com ele.
“Os verdadeiros líderes devem estar dispostos a sacrificar tudo pela liberdade de seu povo”
Nelson Mandela
466/64 Número do prisioneiro Nelson Mandela
Em alguns momentos sentimos como se fosse um embate entre duas grandes vozes na luta pela igualdade racial nos EUA: Malcolm X e Martin Luther King Jr. Enquanto Killmonger convoca para o enfrentamento, a atitude de T’Challa é mais “conciliadora” e menos intervencionista. Uma das maiores críticas de Malcolm X ao reverendo Martin Luther King Jr. era que seu discurso agradava aos opressores, pois sua resistência não-violenta deixava os negros sem defesas contra um ataque frontal. Ter um negro dócil é o que os opressores sempre quiseram.
“Aleijam as asas do pássaro e depois o condenam por não voar tão rápido quanto eles”
Malcolm X
Malcolm X
Enquanto o discurso de um é inspirador e te faz ter esperança na humanidade, o do outro era combativo e te deixava preparado para reverter a situação através de todos os meios necessários. Mas não podemos contar com a humanidade de humanos, nem com a predisposição para mudar pois, nas palavras de Morpheus em Matrix: “Precisamos entender que a maior parte das pessoas não está pronta para acordar. E muitos são tão inertes, tão dependentes do sistema, que vão lutar para protegê-lo”.
MSP Jeremias - Pele
Mas o antagonista de T'Challa não pode ser mais heróico que o herói. Precisa tirar o foco de suas reivindicações válidas, para seus métodos condenáveis. Ele precisava matar a mulher sem motivo aparente, por exemplo. Mas a frase “O sol nunca vai se pôr no reino de Wakanda”, dita por Killmonger, mostra sim o lado vilanesco do personagem, pois essa era o aforismo usado para definir a extensão do império Britânico, que possuía colônias em todos os continentes do mundo, impondo sua política, cultura, língua e, principalmente, seu domínio pela força. Isso sim é ser vilão!
“De onde eu venho, quando os negros começaram as revoluções, nunca tiveram o poder de fogo ou recursos para lutar contra os opressores. Onde estava Wakanda?”
Killmonger
Dorothy Counts, primeira aluna negra a ser admitida no colégio Harding, no sul dos EUA.
Rudy Bridges, aos 6 anos de idade, sendo escoltada pela polícia para conseguir chegar até a escola em segurança.
Killmonger é um chacal que prestava serviço para a CIA. Sua missão era cometer assassinatos em outros países, causando instabilidade nesses lugares, principalmente em épocas de eleição e mudança de poder. Todos os assassinatos que ele cometeu ao redor do mundo foram em nome da CIA. T’Challa fez o mea culpa em nome de seu pai, mas o agente da CIA não. Se fosse na vida real, o personagem da CIA interpretado por Martin Freeman, o “Branco Amigável”, agora sabendo que Wakanda possui uma imensa quantidade de vibranium, se aproveitaria do fato de que o país deixaria de ser isolado e organizaria um grupo de pessoas para causar instabilidade política no reino, causando a revolta da população (cometer alguns assassinatos pelo caminho), dando um golpe de estado e colocando uma de suas marionetes no poder como fez, por exemplo, com Saddam Hussein, Augusto Pinochet, Castelo Branco, Manuel Noriega e Michel Temer.
Lembram quando surgiu a notícia de que um grupo de fãs da DC estava se organizando para boicotar o filme do Pantera Negra e derrubar sua nota no Rotten Tomatoes? Será que em nenhum momento ninguém parou para pensar que não eram fãs da DC e sim a articulação de grupos racistas? Ou será que é coincidência que depois de DEZESSETE filmes da Marvel os fãs da DC acharam que era hora de fazer um boicote, justamente no protagonizado por um herói negro? Se assumir racista é feio, melhor usar subterfúgios para camuflar seu pensamento. Para quem estava torcendo pelo fracasso do filme, apresento para vocês números: Até o 66º dia de exibição do filme Guerra Infinita nos Estados Unidos foram arrecadados 672 milhões de dólares, enquanto o filme Pantera Negra arrecadou 681 milhões no mesmo espaço de tempo.
Sei que dificilmente alguém teria coragem de se assumir tão racista quanto o personagem de Edward Norton em A Outra História Americana (American History X). Mas assista novamente e veja o discurso do pai dele. Um bombeiro, “um herói”, “cidadão de bem”, que é tão racista quanto o filho. Agora veja como várias pessoas que conhecemos usam EXATAMENTE os mesmos argumentos que ele. Essas pessoas estão em nosso convívio. Estão nas rodas de amigos, nos grupos de whatsapp, no local de trabalho e até nas confraternizações em família. Onde será que erramos como sociedade para permitirmos que esse tipo de pensamento ainda esteja nos rodeando?
“Aprendemos a voar pelos céus como os pássaros, aprendemos a nadar pelos mares como os peixes, mas ainda não aprendemos a caminhar pela terra como irmãos e irmãs”
Martin Luther King Jr.
Martin Luther King Jr.
Para ilustrar melhor, tivemos recentemente dois casos que expõem bem o quanto o preconceito racial está enraizado na sociedade. O cantor César Menotti (da dupla César Menotti e Fabiano), no meio do programa Altas Horas, resolve fazer uma “piadinha” ao contar um caso acontecido em um dos seus shows, em que concluía afirmando que samba era música de bandido. O youtuber Cocielo (com mais de 7 milhões de seguidores no twitter e 16 milhões de inscritos no seu canal do youtube) fez também uma “piadinha inocente” associando a velocidade do jogador da França Mbappé à sua capacidade de fazer um arrastão. O que vemos depois desses casos é a covardia de passar para o ofendido a responsabilidade por não terem “entendido a piada”, que “era só brincadeira” e “foi só um deslize” (assim como fez Willian Waack).
A história sempre se repete: uma legião de fãs e seguidores tentando simplesmente defender o indefensável. É muito mais cômodo manter o seu “ser de admiração” em um pedestal inalcançável de uma “quase divindade” do que admitir que se trata de uma péssima pessoa (não vou nem entrar no mérito da “qualidade” do que essas pessoas produzem). É claro que com isso aparece uma enxurrada de pessoas (brancas) definindo o que é e o que não é racismo, além de determinar se o ofendido deve ou não se sentir ofendido. Como minimizar os efeitos do racismo se é algo que não lhes afeta nem nunca lhes afetou?
“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista.”
Angela Davis
Angela Davis
Ônibus norte-americano com a divisão de área para brancos e negros
Com uma feliz sincronia, outro super-herói ganha destaque em uma adaptação em live action. A série do Raio Negro trata de forma adulta (além de várias outras questões políticas) sobre a questão racial e o que significa ser negro nos Estados Unidos. Longe da temática mais descompromissadas das outras séries da CW, Raio Negro consegue construir um mundo em que as pessoas, diálogos e situações são totalmente críveis (e atuais), levantando situações em que nem mesmo alguém com superpoderes conseguiria resolver. Além do mais, a trilha sonora dos episódios é excelente e chega a fazer parte das cenas (como no segundo episódio, por exemplo). É uma série que infelizmente não está tendo o reconhecimento merecido. Além de citações diretas a Malcolm X e Martin Luther King Jr. ao longo dos episódios, a série toma uma posição muito clara politicamente e usa acontecimentos atuais como o de Charlottesville como pano de fundo de sua trama. Ainda coloca um dos vilões soltando um “Let’s make America great again!”, mandando um recado direto ao comandante da Casa Branca (assim como T’Challa fez em seu discurso da ONU). Num dos episódios, Jefferson Pierce (o Raio Negro) aparece com um moletom do programa de alimentação do Partido dos Panteras Negras. No mesmo episódio descobre os efeitos de uma droga que é desenvolvida pelo governo americano (só pelo efeito causado pela droga já mereceria uma boa discussão, mas vamos deixar pra outro momento).
Jefferson Pierce, o Raio Negro
Nos anos 70 o movimento chamado Blaxploitation colocou nas telas dos cinemas os negros como protagonistas. Eram filmes direcionados a um público que não estava acostumado a se ver nas telas daquela maneira. Filmes de negros, com negros e para negros. Superfly, Shaft (com a marcante trilha sonora de Isaac Hayes), Black Belt Jones, Foxy Brown e Cleopatra Jones nos revelaram artistas como Fred Williamson, Pam Grier, Jim Kelly e Richard Roundtree, por exemplo. O movimento acabou definhando pela enorme quantidade de filmes sendo produzidos em um espaço de tempo cada vez menor (time is money) fazendo cair muito a qualidade das produções, afastando o interesse dos expectadores.
Filme Black Ceasar
Pam Grier
Quem é o homem que arriscaria seu pescoço por um irmão? Isso mesmo.. Shaft!
Em 2009 foi lançado o filme Black Dynamite, uma divertida sátira aos filmes dessa época, com Michael J. White no papel principal e que virou animação no Adult Swim e já tem uma sequência programada para esse ano.
Os anos 80 e 90 representam a ascensão e o fortalecimento do rap com alguns nomes como N.W.A, Public Enemy, Ice T, Run DMC e Tupac Shakur (seus pais pertenceram ao Partido dos Panteras Negras). Suas letras eram carregadas de críticas sociais mostrando a realidade de uma população marginalizada e vítimas da brutalidade policial. O filme Straight Outta Compton: A História do N.W.A e a série da Netflix Hip-Hop Evolution são boas pedidas pra quem gosta e se interessa por rap e Hip- Hop.
RUN DMC
Tupac Shakur
N.W.A + Public Enemy
Infelizmente o mercado mainstream abraçou o rap relegando seu discurso de combate às desigualdades a segundo plano e transformou em uma vazia máquina de ostentação, onde o mais importante é o quanto você pode mostrar que tem mais que o outro, no melhor estilo “fique rico ou morra tentando”. Mas como diz Emicida: “A sociedade vende Jesus, por que não ia vender rap?”.
Spike Lee foi o responsável por inaugurar uma nova leva de filmes focando nas desigualdades sociais e conseqüências do racismo em terras norte-americanas. Faça a Coisa Certa abalou estruturas e colocou a questão do racismo para ser debatido amplamente (para quem gostou de Breaking Bad, procure identificar Gustavo Fring entre os atores). Outros filmes vieram abordando o tema com diversos enfoques diferentes, e outro diretor estreante fez um estrago maior ainda: John Singleton, que apresentou suas credenciais com Os Donos da Rua (Boyz’n The Hood), filme cuja exibição chegou a causar quebra-quebra em alguns cinemas.
Perigo Para a Sociedade, New Jack City e Duro Aprendizado (só para citar alguns), colocaram de volta não só o negro como um personagem central, mas apresentando uma complexidade menos pasteurizada e muito mais dura sobre a realidade. Mas, assim como foi feito com o rap, o mercado resolveu abraçar esses diretores e, com caminhões de dinheiro, comprar suas dignidades e importância no mainstream. John Singleton dirigiu o sofrível remake de Shaft, de 2000, cheio de estereótipos racistas contra os latinos, enquanto Spike Lee aceitou dirigir filmes sem importância alguma, além do dispensável remake de Oldboy. Seu último filme BlacKKKlansman (que está para ser lançado) foi premiado em Cannes e pode ser uma mudança nessa situação.
Spike Lee
Wesley Snipes em The New Jack City
Filme: Duro Aprendizado
A conscientização de um grupo social que sempre foi marginalizado era - e continua sendo - um grande risco para quem sempre exerceu o domínio, o poder e a exclusividade do uso da força. A invisibilização da cultura negra e africana (e sua influência) não é feita por acaso e é propositalmente apagada e ignorada. Ou você acha que a proibição do samba e da capoeira, e a tentativa de criminalização do funk não tem nada a ver com racismo? Ou você acha que é só “piada” quando um cantor de música sertaneja diz que samba é música de bandido?
“O sistema de racismo é muito eficaz. Para eles, um preto a menos é melhor que um preto a mais”
MV Bill
Rosa Parks, em 1955, presa por se recusar a ceder o seu assento a um passageiro branco em um ônibus.
A história nos mostra que o negro e sua cultura sempre foram marginalizados, a não ser que se possa tirar algum proveito disso. Por exemplo: quando Elvis Presley surgiu como um furacão, deixando a sociedade conservadora norte americana estarrecida, era por um motivo bastante específico: ele cantava e dançava como um negro. Lembra daquela entrevista que Elvis deu, falando de suas influências musicais, dando crédito aos músicos negros? Pois é, não tem. Ele veio do Mississipi, berço do blues e resolveu indicar como influência um tal de Carvel Lee Ausborn e mais um monte de caras brancos para agradar aos “cidadãos de bem”. Quando o Public Enemy lança “gracejos” para o “Rei do Rock” na música Fight The Power, não é sem motivo.
"Não foi racismo, não foi intencional", eles disseram.
"Não foi racismo, foi coincidência", eles argumentaram.
Quando vemos a última cena do filme Pantera Negra, em que um menino - ao se deparar com um irmão de cor daquela forma, com orgulho, bala na agulha e tecnologia superior à do homem branco - pergunta quem ele era, pode ser encarado como uma alegoria mostrando os efeitos da completa desconexão com suas raízes, sua cultura e com sua história que vêm sendo apagada há meio milênio. Um povo inteiro transformado em minoria. Uma minoria não numérica, mas de representatividade. Que lhe é permitido ser o atleta renomado, mas nunca um dirigente. Sua figura pode ser sexualizada e fetichizada, mas que não pode ter voz. Que é a última a ser atendida num restaurante, mas a primeira a ser abordada pela polícia. Essa invisibilização estrutural por aqui também é bastante “eficiente”. A importância de Zumbi até hoje é diminuída; a fantástica vida de Luiz Gama é completamente apagada; os irmãos Rebouças se resumem a nome de ruas e túneis; Machado de Assis até fica branco em propaganda de Banco.
“Emancipem-se da escravidão mental. Ninguém além de nós mesmos pode libertar nossa mente.”
Bob Marley
Bob Marley
Hoje já conseguimos ouvir diversas vozes no mainstream tratando das desigualdades sociais promovidas pelo racismo estrutural que está enraizado em nossa sociedade. Ver a série Black Mirror tratando das crueldades promovidas pelo sadismo racista no episódio Black Museum; o filme Corra, mostrando que a sensação de terror já começa a partir da abordagem policial; o fime Cara Gente Branca virar série com o mesmo nome abordando o tema; a ótima série Atlanta, com Donald Glover (O videoclipe This Is America é como um condensado do que é mostrado na série); a série do Raio Negro, já mencionada; até a Grafic MSP do Jeremias (já falamos sobre essa HQ aqui), tocando no assunto pelo olhar de uma criança que aprende desde cedo que a vida vai ser mais difícil que a de seus amiguinhos do bairro do Limoeiro. É claro que não podemos nos iludir e achar que o mundo está em rápida mudança e está finalmente se conscientizando e que todas essas obras não possuem outro objetivo que não o de lucrar em cima de um nicho de mercado que não costuma se ver representado e louco para consumir. Mas estamos aos poucos presenciando a transformação de uma população que sempre foi excluída e está em uma busca pela identidade que sempre lhe foi negada.
Para finalizar: Quem conseguiu identificar os golpes de capoeira que T’Challa deu no filme do Pantera Negra e no Guerra Infinita?