sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

DEADLY CLASS, de Rick Remender e Wes Craig, ou "O Clube dos Cinco versão sementes do Mal."







Por EDUARDO CRUZ



Antes de começarmos, gostaria que você respondesse um pequeno teste. Durante sua adolescência você:



( ) Já fez dramalhão por um problema frívolo;

( ) Já foi enrolado(a) / enganado(a) por um(a) crush;

( ) Já ficou com alguém que você nem queria ficar e até chegou a se arrepender;

( ) Já ficou com alguém por vingança ou despeito;

( ) Já bebeu até perder os sentidos (e provavelmente foi zoados pelos amigos);

( ) Já achou que ninguém nunca iria te querer e você morreria sozinho(a);

( ) Já quebrou a cara confiando em amizades que decepcionaram;

( ) Já desapontou amigos e por pura birra não voltou atrás;

( ) Já ficou de saco cheio da porra toda, com vontade de fugir de casa, da escola, do planeta;

( ) Já se sentiu feio(a) e extremamente inadequado(a).



Se você marcou pelo menos duas dessas acima, parabéns, você teve uma adolescência perfeitamente normal, e além disso, está apto(a) para ler - e provavelmente curtir muito - Deadly Class! A HQ começou a ser publicada esse ano pela Devir, e eu deveria aqui falar um pouco sobre a qualidade da edição, acabamento gráfico, tradução, qualidade do papel, etc, mas não saberia opinar sobre nada disso porque tenho aproveitado algumas promoções de importados que pipocam aqui e ali, e acabei acompanhando a série pelos encadernados gringos - mais baratos do que a edição nacional - , então nesse post vou me ater apenas à obra em si, que lá fora já se encontra na oitava compilação. Mas confiem nesse que vos fala, que já chegou ao quinto volume e afirma: É uma das melhores histórias em quadrinhos em publicação atualmente!
 


Reagan Youth - Reagan Youth (O título do primeiro encadernado)

Já vou começar essa resenha marretando na comparação mais óbvia: Deadly Class é uma espécie de Clube dos Cinco, o filme mais popular e cultuado do diretor John Hughes, o cara que definiu as comédias (e os dramas) teen na década de 80. Mas para além dessa comparação, Deadly Class é ainda mais do que uma mera homenagem. Mais do que reverenciar a um filme oitentista icônico (inclusive o quinto episódio da série live action é uma homenagem DESCARADA a Clube dos Cinco!), é também uma HQ acima da média e com bastante originalidade dentro de sua própria mídia. A comparação inevitável é facilmente justificada: Ambas as obras tratam da vida escolar na adolescência e a chegada da maturidade (e todos os erros que podem ser cometidos até isso acontecer - quando acontece rs). A diferença é que em Deadly Class os estudantes se matam DE VERDADE.

O Clube dos Cinco (The Breakfast Club 1985)

Adolescents - Kids of the Black Hole

Em Deadly Class acompanhamos os alunos da King’s Dominion Atelier of Deadly Arts, uma escola diferente das outras, que ministra aulas como Combate Não Convencional, Produção e Administração de Venenos, Fundamentos da Psicopatia, Uso de Zarabatana, entre outras disciplinas bastante específicas. A finalidade da escola é muito mais do que educar os filhos dos chefes dos sindicatos do crime organizado de todo o mundo. A instituição foi originalmente concebida com um objetivo bastante subversivo: Formar assassinos, anarquistas e desordeiros sim, porém com o intuito de fazer com que "o camponês possa se levantar contra seus senhores abusivos, dando ao Zé Ninguém uma chance de nivelar as coisas", nas palavras de Mestre Lin, diretor da escola. A trama se passa em São Francisco no ano de 1987 e vemos o jovem Marcus Lopez Arguello, que perdeu os pais devido a um acidente bizarro acarretado por uma medida do então presidente Ronald Reagan, sendo admitido na King's Dominion. Diferente da maioria dos alunos, ele não tem um legado, ou sejE, seus pais não eram líderes de facções criminosas. Na King's Dominion estes alunos são conhecidos como "ratos". Os mais impopulares entre os impopulares.


Aqui, mais do que se preocupar (apenas) com popularidade ou com os bullies, os alunos precisam se preocupar com as panelinhas: Filhotes de Yakuzas, de russos comunistas, do cartel mexicano, de Gangstas de Los Angeles, de mafiosos de New Jersey, de rednecks white power ou até mesmo filhos de membros da CIA. Marcus não se enquadra em nenhum dos grupos nessa panela de pressão em ebulição, o que torna sua sobrevivência na escola ainda mais difícil do que o normal. Motivado a se vingar pela perda dos pais, será que ele vai conseguir realizar seu objetivo de se formar e matar o presidente Reagan antes de ele próprio ser eliminado?


Agora, sei que vocês devem estar pensando que essa é mais uma série de adolescentes fodões altamente treinados que matam exércitos inteiros só com uma faca, mas não é o caso aqui. Lembrem-se que os alunos da King's Dominion são adolescentes. Garotos(as).
E mané, como essa garotada garoteia...
Pensem em todas as garoteadas e vacilos que vocês deram dos 14 aos 20 anos e multipliquem por dez, adicionando metralhadoras, venenos, explosivos e katanas no meio. Todos os elementos típicos de uma adolescência cheia de sofrências (a maioria frívolas, mesmo para os alunos dessa escola barra pesada), todos os clichês e dramas adolescentes são representados de forma muito natural pelo texto de Remender, com o melhor complemento possível: a arte de Wes Craig. Com um traço dinâmico que confere uma vibe única à história, Craig é um excelente fisionomista, construindo dezenas de personagens diversos entre si, mas o que realmente faz cair o cu da bunda são as composições de certas páginas, riquíssimas em detalhes. Ah, além disso Craig ilustra uma viagem de ácido como poucos rs.



Homenagem ao falecido Frank Miller detected!



Deadly Live Action!

Deadly Class foi adaptada para a TV com distribuição da Sony Pictures Television, e enquanto vocês lêem este texto, a primeira temporada já se encaminha para seu final. A série é exibida lá fora pelo canal Syfy e, apesar das necessárias e inevitáveis adaptações, o material original foi preservado em sua grande parte, e o que foi alterado não compromete: Diferente de Preacher, por exemplo, que difere da HQ ao ponto de ser completamente descaracterizada em pontos chave, o live action de Deadly Class chega em muitos momentos até mesmo a complementar a trama da HQ original! Sim, vemos mais das aulas bizarras, cenas de ação tão bem produzidas quanto as retratadas na HQ e o desenvolvimento dos personagens, o tempo de tela de cada um, muito bem distribuído, o que faz com que não seja uma daquelas séries morosas de assistir, onde não acontece quase nada em 45 minutos de episódio. Além disso, a série tem o tom um pouco mais sombrio do que a HQ, que tinha muitos momentos à la John Hughes, mas sem perder o humor em certos momentos... Sendo direto e reto, ficou tão bom quanto o material original, o que não é nenhuma surpresa, visto que o próprio Remender está envolvido nos roteiros e na produção. Além disso, os irmãos Russo (da série Community, Capitão América: Guerra Civil (2016), Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019)) também têm um dedo nessa série. Ou sejE, está tudo em boas mãos.





"You came to the Wong place, kid."

E é isso aí pe-pe-pe-pe-pessoal! Não canso de ficar surpreso com como a Image consegue publicar material muito superior à Vertigo atualmente. Se eu tivesse que escolher entre dar uma chance a uma série nova da Image ou uma da Vertigo, tipo Sala Imaculada ou Os Nomes, daria novamente esse tiro no escuro, que foi exatamente como vim a descobrir Deadly Class. E não me arrependi.



Eu só queria um pretexto pra botar 'Love Like Blood' do Killing Joke pra tocar em um post desde que começamos o blog. Senhor Remender, obrigado por me dar essa desculpa batizando o sétimo encadernado com o título de uma das músicas mais fodas dos ricos anos 80!





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

HELLBOY - ESTRANHAS MISSÕES, de Mike Mignola + Vários escritores, ou "Um dia com gibi novo de Hellboy é sempre um bom dia... Só que dessa vez não é gibi!"








Por EDUARDO CRUZ



Aqui na Zona Negativa temos um ditado... não, mais que um ditado, um credo: "Um dia com um gibi novo do Hellboy é sempre um bom dia!". A editora Mythos tem feito um ótimo trabalho de publicação dos títulos do personagem há quase 20 anos, e após toda a saga principal do Garoto do Inferno ser publicada, e depois novamente republicada, dessa vez em formatos de luxo, para onde partir? Oras, Hellboy tem uma base de fãs sólida em todo o mundo, e a criação máxima de Mike Mignola dispensa análises profundas e cagação de regra: Hellboy é só diversão, muita mitologia e folclore do mundo todo envolvidos. Ah, e muito quebra pau com monstros, demônios e aberrações em geral, nazistas tomando surras homéricas, tiros, explosões, e bom, já deu pra entender heheheh....


Pouca gente sabe, mas esse é o primeiro esboço de Hellboy rabiscado pelo Mignola...


Com toda a trajetória do Vermelhão publicada desde Sementes da Destruição, história de estréia do personagem, até o mais recente volume de Hellboy no Inferno, estamos quase emparelhados com a cronologia norte americana do título. O que não quer dizer que ainda não tenha uma tonelada de material paralelo para publicar. Entre spin offs, minisséries, one-shots especiais e antologias, o universo de Hellboy e o Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal ainda tem muita história para contar! A Mythos acaba de lançar aqui um desses títulos paralelos, a antologia em prosa (vou repetir, é em PROSA!) Hellboy - Estranhas Missões, uma coletânea de histórias do Vermelhão e seu elenco de apoio, de autoria de vários escritores. 


O livro, que é o primeiro de quatro antologias em prosa, reúne 14 contos fora da cronologia do personagem, alguns deles de autores bastante conhecidos do público, como Greg Rucka (Gotham Central) ou Stephen Bissette (um dos principais artistas da lendária fase de Monstro do Pântano conduzida por Alan Moore), e alguns nem tão conhecidos assim do público brasileiro, como a escritora Poppy Z. Brite (The Matrix Comics) e Nancy A. Collins (que escreveu uma fase meio fraquinha também no Monstro do Pântano). Mignola escreve um conto a quatro mãos com Christopher Golden, além de ter escrito a introdução do livro, e é claro, as ilustrações internas, todas em preto e branco.




 Os 14 contos que compõem Hellboy - Estranhas Missões são:

  • CORVOS AMEDRONTADOS (Por Rick Hautala e Jim Connolly) - Esse é pra abrir muito bem a antologia! Uma história contada em flashback pelo próprio Hellboy em um bar, numa noite escura e chuvosa. À medida que o Vermelhão se embriaga, vai narrando uma missão passada para outra freguesa do bar, também bêbada, de como ele e alguns colegas tiveram de lidar com um serial killer... cujo espírito acabou migrando para um espantalho. Bom conto, com uma boa dose de suspense e a personalidade de Hellboy trabalhada à perfeição.

  • UMA MÃE CHORA À MEIA-NOITE (Por Philip Nutma) - Um conto ambientado em duas épocas diferentes, envolvendo dois encontros de Hellboy com a assombração mexicana tradicionalmente conhecida como La Llorona; o primeiro deles durante sua infância, nos anos 60, no Novo México, e o outro já adulto, enquanto auxilia um amigo com o desaparecimento de seu filho. De partir o coração.

  • FOLIE À DEUX (Por Nancy Holder) - O ano é 1967, durante a Guerra do Vietnã. Após entrevistar dois soldados traumatizados em um hospital no Japão, Hellboy descobre que um xamã vietnamita invocou um demônio para dar cabo dos soldados que invadiram seu país natal. Mais uma missão que só o Vermelhão pode dar conta.

  • UMA NOITE NA PRAIA (Por Matthew J. Costello) -  Hellboy enfrenta monstros marinhos que vivem nas proximidades do parque de diversões de Coney Island, em Nova York. Participação de Abe Sapien, é claro! Um conto com direito à homens-peixe monstruosos e cultistas humanos, esse vai colocar um sorriso na galera do Team Lovecraft ;)

  • POLÍTICA DOS DEMÔNIOS (Por Craig Shaw Gardner) - Hellboy vai ao auxílio de um velho amigo dos tempos da Segunda Guerra, em um possível caso no Senado Federal, em Washington. Logo ele descobre o que há por trás das estranhas ocorrências envolvendo políticos se comportando de maneira estranha e violenta...

  • TIVE O FILHO DO PÉ-GRANDE (Max Allan Collins) - Um desaparecimento em um parque florestal de Iowa leva Hellboy e Abe Sapien a investigarem uma possível aparição do... Pé Grande! Sim, era esse o crossover que a gente estava esperando há anos rsrsrsrs. Ou será que não é o que parece??? 

  • QUEBRA-CABEÇA (Por Stephen R. Bissette) - Um funcionário de um hospital em Paris encontra uma cabeça preservada de um alquimista herege executado na idade média, que lhe promete riqueza e poder em troca de pequenas quantidades de sangue. Um conto do artista da fase áurea do título do Monstro do Pântano da DC, Quebra-Cabeça surpreende pela construção do clima, passagens perturbadoras e um clímax típico de uma história "clássica" de Hellboy. Além de mais um final de partir o coração aqui...

  • ONDE SEU FOGO NÃO É EXTINTO (Por Chet Williamson) - Investigando incêndios em várias filiais de uma igreja fundamentalista, Hellboy começa a se perguntar se a igreja não seria na verdade uma fachada para atividades satânicas. Mas então quem estaria incendiando as igrejas???


  • O NUCKELAVEE (Por Christopher Golden e Mike Mignola) -  Hellboy precisa auxiliar o último remanescente de uma família escocesa, que está convencido de que morrerá em breve e o Nuckelavee, uma entidade maléfica que está atrelada ao passado de sua família, está vindo para buscar sua alma.


  • PARA LONGE VOOU A OSTENTAÇÃO (Por Brian Hodge) - Investigando o terrível assassinato de um grupo que reencenava uma batalha medieval na área rural da Inglaterra, Hellboy bate de frente com uma lenda viva: O monstro Grendel, do épico poema Beowulf!

  • UM CONTO DE FADAS SOMBRIO (Por Nancy A. Collins) - A abdução de várias crianças em Nova York faz o Bureau suspeitar de um culpado sobrenatural, que Hellboy identifica como uma Cailleach Bheur, ou Bruxa Azul, uma criatura do mundo das fadas andando à vista dos novaiorquinos desavisados. Mais uma história de Hellboy raiz aqui!

  • QUEIME, BEBÊ, QUEIME (Por Poppy Z. Brite) - Este conto acompanha a adolescente Liz Sherman, dotada de poderes pirocinéticos, e mostra um pouco do que aconteceu com ela após o acidente decorrente do descontrole de seus poderes que matou sua família e vizinhança, vagando sem destino, até seu ingresso no Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal. Perdoem o trocadilho, mas esse é morno rs.

  • A VINGANÇA DA MEDUSA (Por Yvonne Navarro) - O desaparecimento dos habitantes de uma pequena vila localizada em uma ilha da Grécia coloca Hellboy na investigação do caso. Ele suspeita que, de alguma forma, a mitológica Medusa ressuscitou.

  • ENTREGUE (Por Greg Rucka) - Nesse conto Hellboy tem sua famosa pistola roubada em um passeio por Nova York. Enquanto faz a busca da arma, ele acaba se vendo às voltas com um estranho negociante que deseja fazer um acordo com o B.P.D.P., oferecendo à agência de Hellboy algumas relíquias macabras. Este conto tem um pezinho (ou um casco? heheheh) nos mythos Lovecraftianos, já que Rucka citou tudo quanto é livro diabólico fictício, menos o manjado Necronomicon mesmo...

O acabamento dessa edição ficou bem bonito, com uma respeitável capa dura e logotipo em alto-relevo e dourado, para não destoar das luxuosas Edições Históricas, também publicadas pela Mythos. Apenas uma ressalva, que não é um problema exclusivo da Mythos: Trechos aqui e ali com pequenos erros ortográficos, carecendo de uma revisão mais apurada. Fora isso, esse primeiro volume de Hellboy em prosa é uma coisa linda do Satanás!


Mas eu sei, no fim das contas o que vocês querem saber é: "Um Livro de contos em prosa do Hellboy funciona?"

A resposta curta é SIM. A escolha dos autores para figurar na antologia se provou acertada e no geral, todos captaram bem a personalidade do Vermelhão, colocando-o em situações familiares para os leitores da HQ. Claro que, como toda antologia, o resultado pode ser bem irregular, e aqui não é diferente: existem contos bons, contos muito bons, um par de contos comoventes, um par de contos marromeno e um ou outro meio morno. O que determina a qualidade de cada história é o quanto cada escritor conseguiu capturar, se valendo apenas de texto, de todas as nuances de uma história de Hellboy, e principalmente, preservar a personalidade do mesmo. Está tudo lá. A prova definitiva de que Hellboy funciona em qualquer mídia, só depende mesmo de quem está executando a coisa. 

Agradeçam a Mike Mignola. Sua mão de pedra, digo, de ferro com relação ao controle de sua obra é o que garante esses bons 20 anos de consistência em sua obra - fala sério, já conheceram alguém que não gosta de Hellboy? Eu nunca! - e mais bons dias com boas HQs (e livros!) do Hellboy ainda estão por vir.


Não faz parte desse livro, mas achei engraçada heheheheh...


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CROSSED, de Garth Ennis e Jacen Burrows, ou "É melhor jair se acostumando com o colapso da humanidade"






Por EDUARDO CRUZ




A Panini pode atrasar (muito), pode errar (pra kct!), mas dessa vez parece que o timing foi perfeito! Como visto na CCXP 2018, a Panini surpreendeu geral e mostrou cojones, finalmente anunciando a publicação de Crossed aqui no Brasil! O impossível aconteceu e a HQ mais insana, violenta, profana, cruel e pessimista já produzida vai ter os quatro primeiros volumes publicados por aqui. O quê, nunca ouviu falar em Crossed? Compreensível. O título é publicado nos EUA até hoje pela Avatar Press, uma pequena editora que surgiu por volta de 1996, mas só estourou mesmo na segunda metade da década de 2000, quando começou a publicar HQs autorais de nomes de peso como Alan Moore (Neonomicon, Providence), Warren Ellis (Verão Negro, Herói Nenhum, Superdeus) e Garth Ennis, que publicou pela Avatar essa pérola da perversidade humana, uma HQ tão barra pesada que provavelmente faria Karen Berger, a mãe loira do selo Vertigo, expulsar Ennis de seu escritório aos pontapés por tanta profanação e perversidade em tão poucas páginas. Pouca coisa da Avatar foi publicada aqui, mas parece que a Panini começa a investir pesado em títulos da editora, como Cinema Purgatório, e agora Crossed.



Crossed é uma história de apocalipse zum... Não, isso está errado, não são zumbis. É o seguinte: Pensem em uma infecção que se alastra através de mordidas, transmissão de fluidos e qualquer outra forma de contágio que George Romero possa ou não ter imaginado em seus filmes didáticos. Em questão de minutos, os infectados desenvolvem uma grande ulceração repugnante, uma ferida aberta em formato de cruz no rosto, tornando-os inconfundíveis das pessoas saudáveis. Além disso, os infectados perdem todas as inibições e qualquer traço de moralidade ou compaixão, além do instinto de auto-preservação, porém sem perder a cognição, a coordenação motora e a agilidade, sendo assim capazes dos atos mais perversos, mas ainda sabendo, por exemplo, operar máquinas e veículos, só que para fazer as maiores atrocidades possíveis com elas. É como se o id, totalmente desbalanceado e finalmente livre das restrições do ego e do superego, estivesse livre para realizar todos os atos sombrios a si mesmo ou a outros. Tudo de cruel que você possa ter pensado, mas chutado de volta pro canto escuro da sua mente sem nunca ter feito, como "O que acontece se eu colocar um bebê no microondas?" ou "Quantas facadas posso dar nas minhas partes íntimas antes de sangrar até morrer?", "Quanto tempo leva pra se matar alguém a golpes de pênis de cavalo?" (sim, isso está na HQ rs) ou simplesmente falar as coisas mais horríveis e dolorosas para alguém que você ama. Pura maldade. 

Sim, aquilo na mão dele é um pênis de cavalo. É aqui que você desiste de ler essa resenha rs...





Mas é violência gratuita????


Esta primeira mini série se passa dez meses após o início da epidemia e acompanha um pequeno grupo de sobreviventes, reunidos ao acaso, que liderados por uma mulher, empreendem uma marcha para o Alasca, o local mais isolado possível naquele hemisfério do globo. Ao longo das dez edições, vemos muitos flashbacks mostrando como cada personagem foi parar ali e também vemos sua fuga de um pequeno grupo de infectados dotados de mais auto controle e determinação que outros doentes, determinados a caçar os sobreviventes.



O resultado disso é a HQ mais gráfica e cheia de gore já produzida, por muitas vezes contendo cenas altamente perturbadoras de atos de brutalidade e violência que alguns leitores jamais imaginariam ver em um gibi, inclusive de natureza sexual: Ser pego por um grupo de infectados invariavelmente significa um estupro coletivo, para, inevitavelmente se juntar às hordas de infectados, caso seja poupado(a). Fora a violência sexual, o catálogo de barbaridades desfiado nas páginas da HQ mostra o quão longe a imaginação humana pode ir quando se dedica tempo demais pensando desgraceiras: Várias capas de Crossed foram censuradas em diversos países por retratarem cenas impactantes demais. Por várias vezes me peguei em uns devaneios perturbadores, saindo da leitura e entrando numa bad trip imaginando as cenas e situações da HQ na vida real. É de tirar o sono...




Crossed faz The Walking Dead parecer um gibi da Disney, e acredito que 90% dos leitores não estão prontos para uma história desse tipo, mas pra quem tem estômago para ler além da maldade, desmembramentos e mutilações existe todo um cenário riquíssimo para reflexões e debates a respeito da natureza humana, imperfeita desde sempre, porém mais deturpada do que nunca nos dias atuais, desviada ao seu potencial máximo à medida que o século XXI avança em sua inexorável marcha rumo a um colapso em várias frentes. As relações humanas cada vez mais esvaziadas e desprovidas de significância, tornando o ser humano cada vez menos humano, sem empatia, sem compaixão, alguns inclusive pedindo pela tortura e morte de seus semelhantes.... peraí, será que dá pra concluir que já temos alguns desses infectados entre nós então? Infelizmente eles não têm  a cara marcada, mas o padrão mental já é praticamente o mesmo. Tsc, que bosta de constatação...








Em situações limite todo mundo vira monstro?

Em tempos monstruosos todos se tornam monstros e vemos muitas situações que reforçam esse dito no decorrer de Crossed, como a professora do jardim de infância que recorreu ao canibalismo para proteger as crianças de sua turma que ficaram sob sua responsabilidade, ou o serial killer que pede um pouco de compreensão agora que não é mais a pior coisa à solta por aí. Mas como dá pra ver no noticiário todos os dias, nem é preciso tanta coisa pra tudo descambar pra barbárie. Quanto mais nos aproximamos da beira do abismo, mais certeza eu tenho de que não vai ser necessária nenhuma infecção para começarmos a ver algumas dessas situações na vida real... Por mais desconfortável e perturbador que seja admitir isso, já existem algumas pessoas considerando Crossed tão profética quanto Idiocracy ou Mad Max. Acho que virei uma delas.







Um pequeno parêntese...

A violência de Crossed, desmedida e sem causa aparente pode lembrar o enredo de alguns filmes, como o clássico ¿Quién puede matar a un niño?, produção espanhola de 1976, dirigido por Narciso Ibañez Serrador. A película conta a história de um casal de férias que vai a uma pequena ilha mediterrânea. Lá descobrem que todos os adultos foram assassinados e as crianças são movidas apenas por atos de violência sem qualquer explicação ou motivo. Um filme que causou controvérsia na época de seu lançamento, mas ganhou status cult alguns anos depois.


¿Quién puede matar a un niño? (1976)

Também fica fácil associar Crossed ao New French Extreme, termo cunhado para designar alguns filmes transgressores de diretores franceses (duh) da virada do século XXI que resgata toda a intensidade gore de filmes de horror dos anos 70. Produções como Irreversível (2002), Fronteira(s) (2007), A Invasora (2007) e Mártires (2008), que têm como característica comum um enredo encharcado de violência explícita, muito gore e sanguinolência, mortes grotescamente criativas e uma conclusão geralmente pendendo para o pessimismo extremo. Não são filmes que qualquer um aguenta assistir. Assim como Crossed não é um gibi pra qualquer garoto de 14 anos folhear...

Haute Tension (2003)


Irreversible (2002)


À l'intérieur (2007)


Martyrs (2008)



"Não leve as coisas tão a sério, daqui a 100 anos estaremos todos mortos mesmo..."

Apesar do conteúdo pesadíssimo, Crossed fez sucesso e teve outras sequências publicadas abordando outros ângulos e personagens desse universo pavoroso. Logo após a mini série inicial, Seguiram-se as mini séries Crossed: Family Values, Crossed: Psychopath, cada uma consistindo de apenas um arco cada, e em seguida Crossed: Badlands, que chegou a 100 edições (e que a Panini deve completar por aqui em 2037). Todas essas mencionadas acima tiveram uma alta rotatividade de artistas e roteiristas, incluindo o retorno de Ennis em alguns arcos de Crossed: Badlands, além de David Lapham (Balas Perdidas), Kieron Gillen (Phonogram, The Wicked + The Divine) e Max Bemis (Cavaleiro da Lua), entre outros. Achou pouco? Também há o spin-off Crossed: Wish You Were Here, que durou cerca de quatro volumes. 





Pra acabar de estourar a cabeça de quem já acompanhava a série, em 2015 a Avatar publicou Crossed + 100, uma história ambientada 100 anos após os acontecimentos da mini série original, de autoria de Alan Moore! Crossed + 100 intensifica os elementos de uma história já instigante criando um mundo futurista perigosíssimo, com os costumes e conhecimentos do passado (nosso tempo presente) perdidos ou fragmentados, em que os sobreviventes, que vivem em pequenas comunidades isoladas umas das outras, tentam remontar um quebra cabeça histórico escavando arquivos em bibliotecas, casas e prédios abandonados. 

  


A civilização de sobreviventes que Moore desenvolve em Crossed + 100 é mais uma vez, a demonstração do 'algo mais' do roteirista em ação, aquela camada de realismo e/ou consistência acima da média que ele sempre consegue incutir em seus melhores trabalhos. Vemos uma civilização fragmentada que, apesar de forçada a um retrocesso tecnológico e acuada pelos infectados - um risco que nunca passou - estranhamente possui características mais progressistas que nossa sociedade atual, em especial com relação à orientação sexual: a monogamia inexiste e não raro vemos os personagens se envolvendo com pessoas de ambos os sexos (nada como um problema DE VERDADE batendo à sua porta pro povo parar de se preocupar com o cu alheio, né?;>)). Além disso, o aspecto patriarcal da sociedade enfraqueceu a ponto de vermos posições de líderes espirituais exclusivas do sexo masculino como, por exemplo, o Imame dos muçulmanos, sendo ocupadas por mulheres, entre outros pequenos detalhes que nos levam a uma conclusão: O futuro imaginado pelo Barbudão é uma baderna gayzista-feminista-maconhista huahuahuahuha...


Ô jovem... larga esse Walking Dead caído que aqui tem tigre também!
Além da fauna composta de animais selvagens de zoológicos destruídos que agora vivem em meio às ruínas das cidades, Moore conseguiu fazer com que os próprios infectados se tornassem um perigo ainda maior, com uma reviravolta MUITO sinistra que eleva a periculosidade deles a um novo nível. Frieza, calculismo e perversidade horripilantes no que Moore concebeu para algo que já era bem barra pesada. Além disso, preciso deixar registrado aqui o desafio à parte que é ler essa HQ, haja visto que o Bruxão, como lhe é peculiar, extrapolou a língua inglesa, criando uma nova forma do idioma, o que é perfeitamente plausível, já que se passaram 100 anos e as linguagens estão sempre em transformação. Ler o inglês que Moore cria em Crossed + 100 é tão desafiador quanto ler o primeiro conto de A Voz do Fogo, primeiro livro em prosa do autor, uma história protagonizada por uma pessoa do período neolítico que se expressava sem utilizar verbos e advérbios, entre outros elementos gramaticais aos quais estamos habituados. A língua era algo mais, digamos, tosco. Tenho pena do tradutor de Crossed + 100 quando resolverem publicá-la aqui heheheh...



Quando um tradutor morre e vai parar no Inferno, ele é condenado a traduzir isso por toda a eternidade...
Se você nunca fez como Nietzsche e encarou o proverbial abismo e tampouco viu o abismo lhe encarando de volta, a leitura de Crossed pode equivaler a essa experiência e mostrar que a humanidade não é assim tão humana quanto pensa. Fica aqui o meu alerta pra quem não gosta de histórias pesadas, com teor violento e/ou pessimista. Passem longe de Crossed para manter seu mundo cor de rosa intacto. A quem permanece curioso, desejo meus mais sinceros votos para que vocês mantenham o conteúdo de seus estômagos do lado de dentro durante a leitura dessa HQ. Não se esqueçam que eu avisei, meus amores...




segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

INVENTE ALGUMA COISA, de Chuck Palahniuk, ou "A primeira regra na Zona Negativa é falar do Palahniuk SEMPRE QUE POSSÍVEL!"








Por EDUARDO CRUZ


FUCK YEAH! Após bastante tempo sem um bom livro novo do cultuado Chuck Palahniuk lançado no Brasil (Na-nã-não, Maldita, Condenada e Clímax não contam como bons livros do autor rs), finalmente a editora Leya soltou um material promissor de um dos nossos grandes favoritos aqui na Zona Negativa (apesar do Maldita, Condenada e Clímax heheheheh). Invente Alguma Coisa, de 2015, é uma coletânea de contos do autor, com toda aquela bile mega cáustica expurgando das páginas e com a mira sempre apontada para as patologias geradas pela sociedade de consumo, para as relações entre pessoas disfuncionais, para nossa realidade, que já alcançou um grau distópico de absurdos, tudo isso em histórias com muito sarcasmo, escatologia sem pena de qualquer sensibilidade que o leitor possa ter, humor negro da pesada e não raro com muitas passagens contendo detalhes um tanto gráficos demais para o público sensível e todas de uma intensidade perturbadora. Sim, ler um livro desse cara é uma experiência que marca o leitor de forma indelével. Acham exagero meu??? Pois perguntem aos milhares de malucos que participam ou já participaram de algum clube da luta clandestino heheheheheh...


O escritor Tom Spanbauer, com quem Palahniuk aprendeu seu ofício de escritor em oficinas literárias, afirma que o tamanho ideal de um conto é de cerca de cinco a seis páginas. Claro que isso pode variar muito, de acordo com o desenvolvimento e o rumo a ser dado ao conto, e como o autor trabalha as nuances, narrativas, etc. Tem gente que precisa de regras estritas em tudo para viver, outros, nem tanto. Cagação de regras à parte, dá pra concordar que, quando bem executado, um conto pode ser muito mais impactante e "bem no alvo" do que um calhamaço de 600 páginas. SE bem executado. O que nem sempre é o caso, e até mesmo Palahniuk pode derrapar, e muito, nessa execução.

"Compra aí moço, pra ajudar lá em casa..."

Invente Alguma Coisa não é o primeiro livro de contos do autor. Seu primeiro livro de contos foi Assombro (que já resenhamos AQUI), uma interessante experiência onde ele cria diversas vozes em torno de um tema central. Uma antologia recheada de um punhado de pseudônimos, cada um com o seu tom, e todos unidos por algo em comum: A prosa dodói do tio Chuck. Ali o leitor pode sentir o punch de uma história curta do autor e se preparar para possíveis traumas decorrentes da leitura de um conto como Tripas, por exemplo, história que ficou famosa por fazer alguns americanos desmaiarem em sessões de leitura em livrarias durante a turnê de divulgação de Assombro. Já a proposta de Invente Alguma Coisa é mais solta: O livro é composto por vinte e três contos, a maioria sem ligação entre si, alguns publicados previamente na Internet ou em revistas literárias, antologias e coletâneas, mas claro, todos sem perder de vista a veia da Ficção Transgressional com a qual estamos tão familiarizados.

Os contos que integram Invente Alguma Coisa são:

Toc-Toc - Um jovem, levado pela máxima do senso comum "Rir é o melhor remédio" tenta salvar seu pai doente terminal com o repertório de piadas do próprio velho. Repertório esse extremamente tóxico, recheado de piadas politicamente incorretas, sexistas,  xenófobas e ofensivas em geral, numa tentativa desesperada de cura através de humor doentio. Um conto sobre o politicamente incorreto acompanhado de uma descida em espiral rumo à demência. Bom aquecimento.

Eleanor - A história de um redneck que ganha uma bolada no seguro e se muda com sua pitbull, a tal Eleanor, para a Califórnia. Sério, não acontece lá muita coisa além disso, e até mesmo uma tentativa de assassinato não esquenta as coisas. Conto beeeeem fraquinho.

Como a macaca se casou, comprou casa e encontrou a felicidade em Orlando - Uma fábula contemporânea, onde apesar dos protagonistas todos serem retratados como animais, mostra uma situação bem humana: A macaca, uma exímia vendedora, enfrenta o desafio de sua vida ao ter que promover um produto impossível de ser consumido. Dá pra reconhecer a marca do autor, mas, sei lá, falta alguma coisa. Talvez eu tenha ficado (mal) acostumado demais às revelações impactantes no ato final, ou aos personagens estranhos. Esse conto parece alguém tentando imitar a prosa de Palahniuk.

Zumbis - A nova moda entre a garotada inteligente, de futuro promissor e descolada é fazer downgrade de QI. Pra quê viver num mundo tão complicado, com guerras, fome, doenças, desespero? É melhor "ser e não ser ao mesmo tempo". Como? Muito simples: Pegue um desfibrilador cardíaco, cole um eletrodo de cada lado da testa e ZAP! Eletrolobotomia caseira. Adeus problemas! Esse é o novo hype da garotada. Um conto sobre alienação juvenil e o medo de amadurecer.

Perdedor - Uma fraternidade universitária possui uma estranha tradição: Chapados de LSD, os estudantes competem em um game show de auditório na TV. Acompanhamos um desses calouros na disputa para adivinhar o preço de itens comuns de supermercado, enquanto o ácido o faz repensar sua vida durante a gravação do programa. Será que vai dar bad? Bom conto, que evoca uma reflexão sobre a inutilidade do entretenimento de massas.

O garotão do sultão - Aaaaaaaaaaahhhhhhh, agora achei o Palahniuk aqui! Um fazendeiro, após a morte do cavalo da filha, resolve comprar um animal substituto, só não sabe o que novo equino tem um passado negro... na indústria pornô! Aqui é Palahniuk de raiz, com tudo que tem direito: A construção lenta e envolvente, os detalhes escabrosos que deixam o leitor de queixo caído, a surpresa no final, o comentário ácido sobre a sociedade... check, check, check!

Romance - Um rapaz gordinho e nada atrativo, após levar um pé na bunda de sua namorada, conhece uma menina atraente e muito, digamos, intensa, impulsiva e estranha. Contrariando todas as expectativas, os dois se envolvem romanticamente, apesar das advertências dos amigos dele. Todos acham que há alguma coisa errada com a mulher perfeita que ele arrumou, e que pode ser mais sério que todo o álcool e drogas que a moça consome. Aqui Palahniuk subiu o nível. Sabe aqueles memes no estilo "quem rir vai pro inferno"? Pois é, quem ler este conto aqui também vai, direto e sem escalas!

Canibal - Um conto sobre jovens colegiais e seu preconceito estudantil de segmentar pessoas em grupos de acordo com sua popularidade, e os segredos sórdidos que os jovens "perfeitos" tentam manter escondidos no armário. Existe uma cena escatológica neste conto envolvendo uma sessão de sexo oral um tanto.... sangrenta. A construção e desenrolar da cena até que lembra o conto Tripas, mas não tão inspirado quanto. Bem morno.

Por que o Coiote nunca tinha dinheiro para o parquímetro? - Mais uma fábula. Aqui, o Coiote, que vive em um bairro barra pesada e trabalha em um subemprego para sustentar a família que ele não desejava ter formado, se vê às voltas com um dilema extra conjugal com a Flamingo, que se prostitui em sua vizinhança.

Fênix - Uma mãe, longe de casa a negócios, surta pelo telefone com o marido e a filha pequena. Bom suspense, desenvolvimento ok, conclusão ok... e pouco original para o padrão Palahniuk. Um conto de Chuck Palahniuk que soa mais como outro escritor querendo emular Chuck Palahniuk...

Fatos da vida - Um pai explica a seu filho aquela perguntinha que constrange a maioria dos pais: "Como eu nasci?". Só que esse pai em especial não se faz de envergonhado e conta com excesso de detalhes como foi que papai e mamãe fizeram a criança. Com todos os pormenores embaraçosos, em um drive in, e com direito a um acidente bizarro e muitas testemunhas. A história parece divertida, não? Mas na execução é apenas mais um conto onde Palahniuk foi no piloto automático. Pena...

Televendas - Uma história sobre vendas por telemarketing, racismo e xenofobia. Tio Chuck maneirou na bizarrice aqui, mas nem por isso é um conto ruim, muito pelo contrário. Tudo que os personagens falam aqui poderia ter saído da boca do seu vizinho, ou de um parente seu, e isso sim é aterrorizante...

O príncipe sapo - O conto abre singelamente com um casal de adolescentes dando uns malhos, ela já pronta pro sexo, enquanto ele, ainda vestido, insiste em falar com a menina sobre práticas de modificações genitais mundo afora - daquelas baseadas na nossa estranha realidade e que Palahniuk gosta de descrever de forma bem.... detalhada rs. Tudo para preparar a menina antes de baixar as calças e mostrar a ela seu próprio experimento caseiro de modificação genital, com o intuito de maximizar o prazer. E assim, do nada, caí no meio do conto de body horror mais grotesco que já li, com um final que evolui para sci-fi apocaliptico, como se viciados em krokodil escrevessem um roteiro de Rick & Morty. Se eu puder ser ainda mais descritivo, peguem a visão: Imaginem o braço do personagem Tetsuo na animação Akira.


Só que não é o braço, sacaram? Só esse conto aqui já vale o peso do livro em ouro, crianças. Surpreendente e perturbador ao extremo! Chamem Takashi Miike ou Shinya Tsukamoto para dirigir a adaptação disso! Palahniuk em sua melhor forma. Melhor conto do livro, e ouso dizer, um dos melhores do autor!


Fumaça - Aqui vemos Palahniuk brincando com uma idéia recorrente já há algum tempo em sua obra, como pudemos ver em Clube da Luta 2: As palavras (e por conseguinte as idéias) são contagiosas. Sim, são organismos que querem habitar em outros organismos: Nós! Elas estão vivendo dentro de nós nesse exato momento e sempre que abrimos a boca, um mero "bom dia" é um vetor de contágio! Por isso não escreva. Não leia. Não fale. Por precaução, melhor nem pensar. Comecem agora!

Tocha - Um assassinato ocorrido em um festival de cultura alternativa estilo Burning Man é investigado por um monitor e mediador de conflitos do evento. O homem, que é um Zé-ninguém no mundo lá fora, mas uma prestigiada figura de autoridade dentro do festival, descobre que o assassino está mais perto do que ele imaginava e que pode não haver apenas uma vítima... Uma história de mistério acompanhada de um interessante comentário a respeito destes festivais de cultura alternativa e as propostas de se reimaginar o mundo que ocorrem ali dentro.

Liturgia - O conto é estruturado como se fosse um relatório de uma companhia de seguros ou de uma associação de moradores, e versa sobre os eventos ocorridos em um condomínio de luxo envolvendo um misterioso material orgânico de origem humana, que desencavado por animais selvagens e por bichos de estimação dos moradores, acaba espalhado por toda parte, gerando transtornos para a vizinhança, não habituada a situações desconfortáveis e bizarras como esta. A idéia é a cara do autor, mas o conto é mais um daqueles em que faltou alguma coisa...

Por que o Porco-da-terra nunca chegou à lua? - O Coelho, Porco-da-terra e o Galo, cansados do bullying a que são repetidamente submetidos, resolvem adotar uma tática: Se tornar alunos que não irão mais destacar nos estudos. Quanto mais burro e indolente, melhor! Só que o plano dá terrivelmente errado... 
Mais uma das fábulas de Chuck, essa possui uma breve ligação com o conto Como a macaca se casou, comprou casa e encontrou a felicidade em Orlando, apenas um easter egg que situa as fábulas em um mesmo universo. Bom conto, com um final triste.

Pega - Uma história de fantasmas muito da sem graça que começa do nada e não vai a lugar nenhum. Isso é realmente um conto do Palahniuk ou entrou errado nesse livro? Sério, isso parece um rascunho inacabado...

Expedição - Aí vc pega o livro novo do Palahniuk e vai direto pro tal alardeado conto ambientado no universo de Clube da Luta, e mais: Que o próprio Tyler Durden daria as caras! Não sei se o que vou falar a seguir vai animar ou desesperar vocês: Expedição está mais para Clube da Luta 2. Ambientado na Hamburgo do início do século XX, o protagonista é um trabalhador com uma vida tediosa que empreende expedições à zona do baixo meretrício, investigando e catalogando as desventuras da humanidade, as histórias dos quebrados e abandonados. Até que um dia conhece um estranho que o leva a uma jornada de autoconhecimento e ao olho do furacão de uma crise geracional. Um conto cheio de camadas e pleno de simbologias do início ao fim, que aborda o abandono paterno, algo que hoje em dia está em voga chamar de "aborto masculino".

Mr. Elegante - Sabem aqueles contos que já se tornaram uma marca inconfundível do Palahniuk? Histórias abordando usos e costumes que jamais poderíamos imaginar para profissões e atividades incomuns? Dessa vez acompanhamos a dura rotina dos strippers masculinos: Os truques, segredos e armadilhas do ofício narrados pelo protagonista que, como em toda história do Palahniuk  que se preze, sofre de uma estranha condição médica e por conta dela acaba por criar uma situação bizarra, à qual fica eternamente acorrentado. Conto divertido, se você for levar em conta o humor dodói do autor heheheheh...

Túnel do amor - Nesse conto vemos um massoterapeuta que atende uma clientela muito específica, ainda que efêmera: O profissional é responsável por proporcionar conforto a doentes terminais, fazendo de qualquer eutanásia um spa relaxante! Palahniuk ainda dá uma de Stephen King e insere a já famosa história-dentro-da-história aqui. Bom conto, mas deixa uma impressão de que seria mais desenvolvido, e daí acaba! 

Inclinações - Jovens são internados por seus pais em uma clínica a fim de terem sua "inversão sexual" corrigida. Sim, um conto de Palahniuk abordando a polêmica cura gay! Fui cheio de expectativas aqui, imaginando o quão corrosivo e esmagador Palahniuk seria nessas páginas, mas infelizmente tudo parece meio no piloto automático: A construção dos personagens, as surpresas, a reviravolta, o obrigatório choque grotesco... Talvez se fosse um de seus primeiros trabalhos o impacto fosse maior, mas não há qualquer novidade ou reinvenção aqui, apenas uma fórmula, já conhecida do público, sendo (re)aplicada sem muita inspiração.

Como a judia salvou o natal - Um conto sobre um amigo oculto entre colegas de uma loja de departamentos que evolui para preconceito, paranóia e troca de presentes ofensivos. Mais um conto que poderia ter sido mais rico, mas que não cresceu muito...




E com esse lançamento a editora Leya dá mais um passo rumo a publicação de quase toda a bibliografia de Palahniuk por aqui na íntegra, faltando apenas os romances Rant (2007), Pigmy (2009), Tell-All (2010) e Adjustment Day (2018), ainda inéditos aqui, além de Cantiga de Ninar (2002), anteriormente publicado pela editora Rocco e que os fãs suplicam há anos por um reprint. A editora mantém o padrão das publicações anteriores do autor, em livros de capa cartão com um projeto gráfico enxuto e sem muitas das extravagâncias atuais, em que o acabamento luxuoso acaba supervalorizando um livro conteúdo questionável. A tradução fica por conta do onipresente Érico Assis. Esse cara não come nem dorme? Não é possível, ele tá em todas!!! rsrsrs.

Edição de bolso gringa de Invente Alguma Coisa

Invente Alguma Coisa  é bem irregular em termos de qualidade e, no decorrer de sua leitura, detectamos um certo desgaste na prosa de Palahniuk, dono de um texto único que conquistou uma base de fãs sólida desde sua estréia literária, mas que lamentavelmente em algumas histórias desse livro, consegue parecer um cover de si mesmo. O livro de contos anterior, o supramencionado Assombro, consegue render muito mais, entreter muito mais, chocar muito mais, carregar metáforas mais cirurgicamente precisas e poderosas. Entretanto isso não tira o brilho das (pouquíssimas) histórias realmente boas contidas no Invente Alguma Coisa, as quais irão ressoar muito tempo nas paredes do seu crânio, entrando na mente como um soco. Quantos vocês aguentam?