sábado, 20 de outubro de 2018

PROVIDENCE - VOLUME 2, de Alan Moore e Jacen Burrows. A PEREGRINAÇÃO DO ARAUTO CONTINUA!






Por EDUARDO CRUZ




Salve, salve crias da Grande Cabra Negra da Floresta! Tudo Cthulhu Fhtagn com vocês??? 

Já faz um tempinho, não é? Mais ou menos um ano e dois meses desde o lançamento do primeiro volume de Providence aqui no Brasil via Panini. A mini série, originalmente publicada lá fora em 12 partes, reúne dois monstros: Alan Moore e H. P. Lovecraft, e basicamente é onde vemos Moore viajando na maionese que Lovecraft criou. Altamente referencial, metalinguística e genial, Providence é uma HQ que eu tive que usar de muita força de vontade não apelar pras scans. Sim, até hoje não sei como acaba, e vou descobrir junto com vocês daqui a mais um ano e meio assim que o terceiro encadernado sair. Enquanto isso, que tal se a gente desse mais um passeio por Providence, observando as referências mais importantes desse segundo volume? Reenfatizando que não é preciso ter lido nada de H. P. Lovecraft para apreciar Providence, mãhs quem se dispuser a ler alguns dos contos citados no post do primeiro volume e nesse aqui também certamente vai se divertir muito mais com as as sacadas e referências da obra Lovecraftiana na HQ de Moore e como ele costura tudo junto em uma grande colcha de retalhos alienígena horrenda e repugnante. Sim, é bem mais divertido quando você já conhece o conto original, até para poder ter parâmetros para opinar se a homenagem do Moore foi bem feita (ou não). Então, sem mais delongas, partiu Providence Volume 2?



Este segundo volume de Providence engloba as edições #5, #6, #7 e #8 da mini série original.






PROVIDENCE #5



Nessa edição, sob orientação do patriarca dos Whateley, digo, Wheatley na última edição do encadernado anterior, Black se dirige à cidade de Arkham Manchester, mais precisamente à Universidade Miskatonic Santo Anselmo em busca do Necronomicon Livro de Hali. O bibliotecário da universidade, Doutor Armitage Wantage, encontra-se ausente, porém Black conhece Herbert West Hector North. 



Herbert West é oriundo do conto Herbert West: Reanimador, que gerou uma excelente adaptação cinematográfica em 1985 pelo diretor Stuart Gordon, não posso deixar de mencionar!




O conto originalmente foi publicado entre outubro de 1921 a junho 1922 na revista Home Brew, serializado em 6 partes. A história narra as desventuras de Herbert West e seu colega, estudantes de medicina que pesquisam um soro que revive os mortos, porém com consequências nefastas.

 

Na cena seguinte, Black conhece uma estranha menina que se apresenta como Asenath Waite Elspeth Waide. Elspeth (Asenath na história original) é uma personagem de A Coisa na Soleira da Porta, um dos melhores contos de Lovecraft. A história, sem estragar surpresas, é sobre de troca de corpos, e aquela menina não é definitivamente quem aparenta ser. O conto foi escrito em agosto de 1933 e publicado em janeiro de 1937 na revista Weird Tales, e faz parte dos Mythos de Cthulhu, os contos que formam a mitologia Lovecraftiana que compartilha elementos em comum entre suas histórias.


Em seguida vemos Black procurando por acomodações na cidade, e ele resolve se hospedar em uma casa aos cuidados de uma tal Senhora Macey. No conto Sonhos na Casa da Bruxa, escrito em 1932 e publicado em 1933 na revista Weird Tales, a personagem chama-se Keziah Mason, uma bruxa condenada no julgamentos de Salem do século XVII, que vive até os dias atuais residindo em uma dimensão estranha.


Junto com sua estranha criatura de estimação conhecida como Brown Jenkins, Keziah assombrou os sonhos do protagonista do conto pelo tempo em que este permaneceu em sua casa. Vemos que nesta edição o mesmo acontece com Black algumas páginas à frente.


Em seguida Black vai atrás da fazenda dos Gardners Forresters, onde o tal meteoro mencionado no encadernado anterior caiu. Como já comentado no post do volume anterior, aqui Moore resolve expandir um pouco mais sua referência/homenagem ao conto A Cor que Caiu do Espaço. Este conto é do ano de 1927 e foi publicado na revista Amazing Stories. Neste conto vemos a repugnante degeneração da família Gardner e toda a sua fazenda, após a queda de um estranho meteoro que se dissolve, metamorfoseando-se em uma cor viva, senciente, inclassificável no espectro cromático.... e faminta!





PROVIDENCE #6

Após o contato com a bizarra Senhora Macey e o repulsivo Sr. Jenkins, e ainda muito debilitado depois de experimentar o looping temporal desorientador, Black recorre a Hector North, em cuja casa passa a noite. Na manhã seguinte, após mais um breve encontro com Asenath, ela vai ao encontro de Wantage, mas antes conhece nos corredores da universidade um sujeitinho estranho e agitado, aparentando uma espécie de perturbação nervosa. É o professor Nathaniel Wingate Peaslee Nat Paisley, do conto A Sombra Vinda do Tempo, escrito em 1934 e publicado em 1936 na revista Astounding Stories. No conto, após sofrer de amnésia por cinco anos, o professor Peaslee começa a investigar seus estranhos sonhos e os relatos da estranha personalidade manifestada durante estes cinco anos de amnésia. As investigações o levam a descobrir as ruínas de uma civilização de estranhas criaturas no deserto australiano, que existiu muito antes do surgimento do homem, e como o que ocorreu com ele tem relação com essa descoberta.



Sem maiores referências nesta edição, somente o último contato de Black com Elspeth, no que deve ser a mais bizarra cena de estupro já concebida em uma HQ.







PROVIDENCE #7


Antes da referência Lovecraftiana, cabe aqui uma contextualização histórica: A baderna onde Black parece entrar do nada se trata da greve da Polícia de Boston de 1919. Em resumo, no dia 9 de setembro de 1919, quando o comissário de polícia da época se opôs a criação de um sindicato de policiais, 1.117 policiais iniciaram uma greve reinvindicando melhoras nos salários e nas condições de trabalho. Não tardaram a pipocar tumultos e o caos tomou conta. A guarda nacional foi acionada e sufocou as rebeliões a mando do governador do Estado. É em meio a este caos que black encontra o oficial de polícia Éamon O'Brien, que o ajuda a localizar a casa do fotógrafo e pintor Richard Upton Pickman Ronald Underwood Pitman, o responsável pela foto dos irmãos Whateley no encadernado anterior, lembram?


No conto O Modelo de Pickman, escrita em 1926 e publicada em 1927 na revista Weird Tales, o artista é rechaçado por suas obras, extremamente realistas e abomináveis, e ao final do conto descobrimos que as criaturas retratadas em suas pinturas podem não ser apenas fruto da imaginação de Pickman...


O Modelo de Pickman também já foi adaptado em um episódio da série Night Gallery, de Rod Serling (o mesmo criador da melhor série de todos os tempos, Além da Imaginação) em 1971.


 





PROVIDENCE #8

Por fim, na última edição do encadernado, vemos Robert, orientado por Pitman a procurar mais um indivíduo para auxiliá-lo em sua busca, Randolph Carter Randall Carver. Carter é um personagem recorrente nas histórias de Lovecraft, e figura em algumas histórias do que se convencionou chamar de Ciclo dos Sonhos entre os estudiosos da obra de Lovecraft. O Ciclo dos Sonhos são histórias que mesmo envolvendo os Mythos, combinam elementos de horror e Fantasia, formando uma grande história de escopo épico. Mundos oníricos por onde Carter consegue transitar, e narra os horrores e maravilhas que testemunha. A principal história do Ciclo dos Sonhos é A Busca Onírica por Kadath, novela escrita em 1926 e publicada em 1927. Aqui é o ponto onde muitos elementos da literatura Lovecraftiana se cruzam, como Azatoth, Nyartlathotep e o próprio Richard Upton Pickman, que fazem breves aparições na história. O quadro abaixo faz referência direta à Busca Onírica por Kadath.



Este painel, na página ao lado, é uma referência a uma cena do conto O Depoimento de Randolph Carter, escrito em 1919 e publicado em 1920, na revista The Vagrant. Neste conto Carter narra a ocasião em que acompanhou um amigo estudante de ocultismo até um cemitério abandonado. Este amigo decide profanar e investigar uma tumba antiga e macabra, levando um telefone com fio. Do lado de fora, pelo telefone, Carter ouve tudo que acontece dentro do sepulcro, narrado pelo amigo, até o pavoroso final, quando alguém mais fala ao telefone...



Mais abaixo, este quadro faz menção a outro conto protagonizado por Carter, O Inominável, escrito em 1923 e publicado em 1925 na revista Weird Tales. A história aqui se passa em outro cemitério, dessa vez em Arkham, envolvendo outro amigo muito ousado que também desafia o desconhecido e também se dá mal... Deu pra notar que Carter só tem amigos sem noção, tsc, tsc, tsc...




Neste painel, à esquerda, vemos Whipple Van Buren Philips, avô de H. P. Lovecraft na vida real. 




Philips é mencionado por Pitman na edição anterior, quando mostra a Black a foto dos cabeças da Stella Sapiente, lembram? 



Além disso ele também é mencionado como líder da Stella Sapiente em mais de um momento no encadernado anterior.


Providence #3

Providence #4

O militar de quem Van Buren aperta a mão é uma figura histórica, o General Albert Pike. Pike era um notório maçom e serviu na Guerra da Secessão Norte Americana.


General Albert Pike


Siiiiim, a partir daqui, Moore começa a misturar ficção e história real ainda mais. Podem ir se acostumando porque só piora lá no final da série heheheheh.....



Durante a descida ao Mundo Onírico vemos o ghoul Rei George saudando Black, o que sugere que ghouls transitam livremente entre nosso mundo e o Mundo Onírico. O que não deve ser novidade para quem já leu A Busca Onírica por Kadath.



Sim, é a Ku Klux Klan. Sem comentários aqui heheh. Segue pro próximo quadro...


O cenário da página seguinte faz referência a The Thing in The Moonlight, conto não publicado aqui, baseado em uma carta que descreve um sonho de Lovecraft, e publicada na revista Bizarre em 1941. O conto pode ser lido em inglês AQUI.



Abaixo, referência aos Gatos de Ulthar, também da novela A Busca Onírica por Kadath.


As próximas duas páginas são uma panorâmica das Terras Oníricas de Carter, digo, Carver.


Cenas de The Queen's Enemies, de 1922, conto de autoria de Lord Dunsany, uma das influências confessas de Lovecraft.




Cena de Why The Milkman Shudderes When He Perceives The Dawn, também de Lord Dunsany, publicado no livro de contos Tales of Wonder, em 1916. Na íntegra em inglês AQUI.



 
 
Os apêndices entre as edições, com trechos do diário de Robert Black, continuam não descendo muito bem, travando uma leitura que é fluída nas páginas da HQ, mas estaciona ao final de cada uma das quatro edições quando chega na hora de ler o famigerado diário. Tanto que decidi deixar os apêndices por último, após ler as quatro edições da HQ. O resultado é que levei quatro vezes mais tempo para ler os enfadonhos diários de Robert Black do que as páginas da história principal. Era pra ser um complemento à trama, mas acabou ficando chato pra cacete, seu Moore... Ainda assim sou obrigado a recomendar a leitura. Em meio a tantas redundâncias - afinal, Black comenta no diário eventos que vimos nas páginas anteriores, na HQ - existe um trecho ou outro que lança alguma luz à trama. Pena que é uma fração mínima das catorze páginas de diário contidas em cada edição heheheheh...




Apesar de esse não ser um post analisando profundamente cada referência contida em cada balão de fala do encadernado, resolvi agregar apenas as mais óbvias mesmo, nos moldes do post anterior, citando os contos de Lovecraft que, se lidos, só tem a enriquecer a experiência de leitura da HQ. Agora é esperar mais um ano pelo terceiro e último volume, com uma conclusão que não pode ser nada menos do que apocalíptica, em se tratando de Azatoth, Cthulhu e companhia! Vou dar uma esticada na minha casa de veraneio em R'lyeh e só volto com o alinhamento estelar certo e quando Providence Volume 3 finalmente for publicado. Iä! Iä!







quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Genealogia Lovecraftiana #001: A BALADA DO BLACK TOM, de Victor Lavalle






Por EDUARDO CRUZ



"Através do portal, em meio às ruínas da cidade afundada, Malone percebeu a figura de enormes feições - um rosto, ou a distorção de um rosto. As partes superiores daquela face eram lisas como a cúpula de um crânio humano, mas embaixo dos olhos, o rosto pulsava e se enrodilhava entre tentáculos. As pálpebras do tamanho de velas desfraldadas permaneciam fechadas, felizmente, mas tremiam como se fossem abrir."


Um assunto um tanto quanto batido mas inevitável de se abordar é o fato de a obra de H. P. Lovecraft possuir tons de racismo e xenofobia que podem ser (adequadamente) taxados como muito errados nesses tempos atuais em qualquer época. Talvez o cavalheiro de Providence, no período em que residiu em Brooklyn, Nova York, sendo um provinciano dono de uma personalidade bucólica, ficasse deveras incomodado com o caldeirão de diferentes povos e culturas que afluíam na cidade, imigrantes vindos de todas as partes do mundo. O preconceito pode ser percebido como bastante explícito em histórias como Herbert West: Reanimador, O Chamado de Cthulhu, A Rua, A Sombra de Innsmouth e O Horror em Red Hook, e mesmo levando-se em conta que Lovecraft agiu meramente como um homem de seu tempo, onde tais idéias eram veiculadas como 'normais', sua leitura é bastante controversa. Obviamente, revisões são necessárias, seja ela realizada na própria cabeça do leitor, seja em obras como A Balada do Black Tom.


Victor Lavalle

"- Carrego um inferno dentro de mim - rosnou Black Tom. - E quando descobri que ninguém tinha compaixão por mim, quis arrancar árvores, espalhar o caos e a destruição ao meu redor e depois me sentar e desfrutar da ruína.
 - Então, você é um monstro - comentou Malone.
 - Fizeram de mim um monstro."

A Balada do Black Tom é uma releitura de O Horror em Red Hook, mas vista de outro ângulo, o dos supostos vilões da história de Lovecraft. Esse, digamos, 'remix' de O Horror em Red Hook funciona em dois níveis: como homenagem e como crítica à obra de Lovecraft, dando voz e imprimindo alguma humanidade aos párias e excluídos que são retratados como aberrações no conto original. Se, segundo alguns estudiosos, as criaturas indefiníveis presentes nas histórias de Lovecraft eram claramente uma representação de sua xenofobia e de seu racismo, em A Balada de Black Tom Lavalle mantém os monstros em segundo plano e escancara todo esse racismo em muitos momentos dolorosos, como, por exemplo, o destino do pai do protagonista, que é o estopim para a transformação do personagem principal. Se Donald Glover aponta a distopia que seu país se tornou para o povo negro no vídeo de This Is America, Lavalle utiliza sua própria história para sinalizar que estes monstros sempre estiveram por aí: a intolerância, o preconceito e o descaso não são novidade.

"- Agora, quanto você disse que o branco vai te pagar?
 - Quatrocentos dólares.
 - Tudo isso só pra tocar na festa dele? (...)
 - Foi o que ele disse.
Otis ergueu as mãos e as manteve separadas no ar o máximo que pôde.
 - Essa é a distância entre o que um homem branco diz a um preto e o que ele realmente quer dizer."

Na história, acompanhamos a trajetória de Tommy Tester, um músico medíocre que vive de pequenos trambiques e sustenta seu pai Otis, impossibilitado de trabalhar. Em uma sociedade ainda mais desigual que a atual, com os negros tendo perspectivas de vida desalentadoras, quase nulas, Tommy sobrevive em meio às poucas oportunidades e ao preconceito brutal que sempre paira sobre sua existência. Após negociar um velho livro com uma estranha senhora, Tommy conhece Robert Suydam, um misterioso homem que o contrata para tocar violão em uma reunião particular em sua mansão. Após essa reunião, e após uma tragédia pessoal na vida de Tommy, ele é enredado nos bizarros planos de Suydam, que incluem acordar um "Rei adormecido que vive no fundo do mar".E nós sabemos a quem ele se refere, certo...?


"Agora, não sei o que mais acrescentar à próxima parte, pois vou dizer que gostei do que vi. Certo? ela saiu, e o preto ficou parado lá, paciente como ele só, e então foi como se uma porta se abrisse. Veja o senhor, bem ali, onde o portão da casa funerária encosta na propriedade dela? alguma coisa se abriu bem ali. Digo que é uma porta, mas não era mesmo uma porta. Era como um buraco, ou um bolsão, e dentro do bolsão estava vazio, preto. Não sei o que mais dizer disso. Como o céu noturno, mas sem nenhuma estrela. E o tempo todo minha Elizabeth ficou gritando na cozinha."
 
Esta edição conta também com o conto original de Lovecraft, como extra, e com uma tradução o mais fiel possível do texto original, ou sejE, a editora Morro Branco optou por não atenuar o texto, o que sempre é acertadíssimo, seja a obra qual for. Nesse caso em especial, era imprescindível que o teor politicamente incorreto fosse preservado, em contraste ao revisionismo de Lavalle. Incluir a história original no mesmo livro foi uma decisão acertada da editora, que assim entregou todos os subsídios que o leitor precisa para formular suas próprias conclusões a respeito da obra original e a história em questão. Quando vemos um trecho na história de Lavalle que parece tão preconceituoso quanto o original, imediatamente captamos sua crítica ao racismo embutido na prosa Lovecraftiana.

"Quem poderia culpar a mente de Malone por devastar a verdade? Robert Suydam, aquele arqui-inimigo - havia matado o senhor Howard e seis policiais, além de causar danos dolorosos a Malone. No entanto, como um sinal da natureza justa de Deus, o próprio lacaio preto de Suydam virou-se contra ele e cortou a garganta do mestre. Por mais horrível que fosse, não era essa a verdade? Os pretos simplesmente não são tão malignos, explicou o especialista. Sua simplicidade era seu dom e sua maldição."
Racismo esse que, anos depois, 'evoluiu' para uma espécie de elitismo, um noção de predileção pela alta cultura anglo-saxônica, a única cultura refinada e sofisticada o suficiente para ser apreciada e reverenciada - segundo Lovecraft. Lavalle também se dá conta desta percepção que Lovecraft embutiu em sua obra em seus últimos anos de vida, tão errônea quanto a anterior, e sutilmente também comenta a respeito em sua história:


"Quem mais além de um homem nascido na riqueza e com educação poderia estar naturalmente preparado para liderar?"


Além do diálogo entre as duas obras, também existem easter eggs em A Balada do Black Tom, como essa singela homenagem abaixo, quando Lavalle insere o autor dento da releitura da obra. Adivinharam quem é???


"Um homem de Rhode Island, mas que vivia no Brooklyn com sua mulher, mostrou-se tão persistente que dois policiais foram enviados à sua casa para deixar claro que não era bem-vindo à Nova York. Talvez sua disposição fosse mais adequada a Providence. O homem saiu da cidade pouco depois, e nunca mais voltou."


Por fim, pra quem se interessa por esse aspecto antropológico das histórias de Lovecraft, deixo aqui mais uma recomendação: O Horror Cósmico de HP Lovecraft - Teoria e Prática. O livro é baseado na tese do professor Daniel I. Dutra e é uma análise profunda da obra de Lovecraft e suas correspondências, e ajuda bastante a elucidar toda esta questão do racismo implícito em suas obras. Mais uma publicação magnífica da editora Clock Tower, os cultistas mais alucinados do território nacional. Assim que for devidamente lido, claro que a resenha vai integrar essa série que criamos aqui na Zona. Nossa seção Genealogia Lovecraftiana só vai abordar livros que tenham alguma relação com a  mitologia criada por Lovecraft, sejam eles obras que influenciaram o cosmicismo de Lovecraft ou homenagens de autores publicadas após sua morte. Material pra isso não falta, já que o Lovecas está longe de ser esquecido à medida que o tempo passa...


A história talvez não satisfaça ao leitor que está atrás de uma história do cânone Lovecraftiano cheia de fan service e grandes pirotecnias. Já o leitor que procura uma boa história de mistério/horror com comentários sociais incisivos vai curtir essa reinterpretação. A Balada do Black Tom não é (apenas) uma história de horror cósmico, e sim uma revisão do passado recente. E Cthulhu sabe o quanto estamos precisando de revisões do passado...




quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DEUSES CAÍDOS, de Gabriel Tennyson, ou "Aqui no RJ se pronuncia "Conxxxxtantchine"!!!!"







Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA



Quem nunca brincou com alguma coisa (supostamente) sobrenatural na adolescência, essa época da vida em que uma estranha mistura de fanfarronice, curiosidade e falta de noção se manifesta na molecada? Seja tentando contatar espíritos com um compasso, ou com o famigerado Jogo do Copo - a Ouija de pobre - ou comprando um livro de São Cipriano em um sebo qualquer, para, 15 minutos depois, devolver o livro horrorizado pelo conteúdo barra pesada do mesmo (Essa eu já fiz heheh. Mas ei, eu tinha só 14 anos!). E foi assim que o nome "Cipriano" ficou para sempre marcado na minha memória rsrsrs. Mas o que isso tem a ver com essa resenha???? Calma, continuem comigo e vão entender heheheheh... 

O livro São Cipriano que eu possuí.... por uns 15 minutos antes de arregar rs

Depois do perverso Ultra Carnem, de César Bravo, e do sangrento Jantar Secreto, de Raphael Montes, a literatura fantástica nacional acaba de ganhar mais um reforço. Gabriel Tennyson desponta com seu romance de estréia magnificamente macabro, envolvendo sociedades secretas, demônios e outros seres mitológicos, ambientado no Rio de Janeiro dos dias atuais e com uma trupe de personagens interessantes. 



Deuses Caídos é um thriller de mistério com toques de fantasia urbana e horror sobrenatural. Tudo começa com um misterioso serial killer que vem assassinando evangelistas famosos. E pior: O faz utilizando a Internet para veicular as atrocidades, com um público cada vez cruel e ávido por violência que vem crescendo a cada crime cometido - um sagaz comentário a respeito da perversidade que o anonimato concedido pela Internet confere. O assassino encarna uma figura messiânica que alega realizar uma justiça divina merecida pelas vítimas. Um detalhe: As atrocidades sugerem haver um elemento paranormal envolvido. Isso ameaça o trabalho desempenhado pela Sociedade de São Tomé, um braço da Igreja Católica responsável por manter secreta a existência de criaturas sobrenaturais vivendo entre nós, embora exista todo um submundo de criaturas místicas habitando a cidade do Rio de Janeiro e seus recônditos mais obscuros, da Vila Mimosa até a Ilha do Fundão, passando pela Lapa e Santa Tereza, a Cidade (já nem tão mais) Maravilhosa certamente é o personagem principal do livro.

 


O membro da Sociedade São Tomé encarregado da captura deste estranho assassino é o veterano Judas Cipriano, um padre badass descendente de São Cipriano (Aquele mesmo do livro de magia negra), que possui estranhos poderes sobrenaturais. Judas é o padre mais improvável possível: Boêmio, beberrão, usuário de substâncias tóxicas, frequentador assíduo dos pontos de travestis da Lapa, e com uma infância bizarra que envolvia maus tratos extremos por parte de seus estranhos pais. Uma espécie de John Constantine carioca. Cipriano é convocado para trabalhar como consultor da Polícia Civil na investigação - atentando para os aspectos sobrenaturais do crime, logicamente - e lhe é designado como assistente a policial Júlia Abdemi, que seria uma pessoa comum, não fosse por seu dom de se comunicar com máquinas (Coisa de uma HQ de Warren Ellis, mas que fica ainda melhor e mais brazuca depois de uma revelação lá no ato final). Juntos, os dois passarão por uma tour de force, durante quatro dias, revirando o submundo místico da Cidade Maravilhosa atrás de pistas para capturar o assassino. E tentando sobreviver às descobertas que realizam.

E aí? Impactados? Eu fiquei. Bastante.

O verdadeiro São Cipriano
Esse resumo faz o material parecer promissor, não? Um thriller urbano de investigação, com toques de fantasia macabra, muito gore, demonismo trevoso, releitura de seres mitológicos sob uma nova roupagem... Promissor é só o resumo mesmo. O livro em si é FODA. Deuses Caídos é provido de um ritmo narrativo impecável e um texto fluido. Algo impressionante, ainda mais se levando em conta que este é o primeiro livro de Tennyson. "Minhas influências visuais vieram de filmes como Silent Hill, Hellraiser, O Labirinto do Fauno e Seven - Os Sete Crimes Capitais. Se eu tivesse que definir o livro em uma frase, diria que é uma espécie de Hellboy tão violento quanto os filmes de Hannibal Lecter.", declarou o autor em uma entrevista.

Gabriel Tennyson

Nosso país é essencialmente pluricultural. Aqui, nesses últimos cinco séculos, tudo se misturou, se mesclou e foi sincretizado, desde os genes até a religião e o folclore, e Tennyson soube usar bem o que temos de mais rico: Essa infinidade de mitos, lendas e referências, inclusive sem perder o senso de contemporaneidade. Assim, referências da cultura de massa como X-Men, Star Wars, Arquivo X e o BvS de Zack Snyder se mesclam e coexistem junto ao  regionalismo de um Cramunhão da Garrafa ou a Vovó Mafalda, por exemplo. Tennyson mastiga e redefine uma nova roupagem para seres mitológicos, fazendo sua existência no Rio de Janeiro em 2018 ser plausível. Elementais da terra, súcubos, golems, fadas do dente, sacis, mapinguaris, dragões chineses, gárgulas, vampiros... Nah, os vampiros foram preservados. Algumas coisas são sagradas hehehe. A única alteração que os vampiros sofreram nessa história foi terem a aparência do José Serra e o modo de falar de Michel Temer, o que, na minha opinião, foi bem adequado.   




Já o protagonista Judas Cipriano, sob a ótica dos leitores de quadrinhos adultos, vai lembrar um doppelgänger do já famigerado John Constantine da Vertigo/DC Comics: Um especialista em demonologia e exorcismo, que é frequentemente compelido a manter o mundo nos eixos, servindo de antagonista a entidades perversas que querem acabar com a humanidade. Isso sem mencionar pelo menos dois blefes espetaculares na história, em situações sem escapatória nenhuma. Como Constantine, Cipriano se dá melhor na lábia, ou melhor, no caô, do que propriamente na magia. 

Sobretudos são inviáveis na Cidade Maravilhosa. Mas ter um taxista à disposição sempre é bom.
Arte de Tim Bradstreet.

Deuses Caídos chega com os dois pés na porta, pesado e arrebatador desde a primeira página, contando uma história de mistério sombria e grotesca, sem amarras ou restrições, e cativante até o final, que não brinca com a inteligência do leitor e ainda acena a possibilidade de um novo e ainda mais interessante recomeço. Pleno outubro, posso falar com tranquilidade que é uma das gratas surpresas de 2018. Quem ama Hellblazer, Hellboy, Clive Barker e Fantasia Dark em geral pode embarcar sem medo. É só entregar a alma...

“Deuses caídos mistura descrições bizarras com personagens inusitados e ajuda a criar um tenebroso imaginário brasileiro. Gabriel Tennyson é uma voz nova e original no terror nacional.” Raphael Montes