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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Genealogia Lovecraftiana #001: A BALADA DO BLACK TOM, de Victor Lavalle






Por EDUARDO CRUZ



"Através do portal, em meio às ruínas da cidade afundada, Malone percebeu a figura de enormes feições - um rosto, ou a distorção de um rosto. As partes superiores daquela face eram lisas como a cúpula de um crânio humano, mas embaixo dos olhos, o rosto pulsava e se enrodilhava entre tentáculos. As pálpebras do tamanho de velas desfraldadas permaneciam fechadas, felizmente, mas tremiam como se fossem abrir."


Um assunto um tanto quanto batido mas inevitável de se abordar é o fato de a obra de H. P. Lovecraft possuir tons de racismo e xenofobia que podem ser (adequadamente) taxados como muito errados nesses tempos atuais em qualquer época. Talvez o cavalheiro de Providence, no período em que residiu em Brooklyn, Nova York, sendo um provinciano dono de uma personalidade bucólica, ficasse deveras incomodado com o caldeirão de diferentes povos e culturas que afluíam na cidade, imigrantes vindos de todas as partes do mundo. O preconceito pode ser percebido como bastante explícito em histórias como Herbert West: Reanimador, O Chamado de Cthulhu, A Rua, A Sombra de Innsmouth e O Horror em Red Hook, e mesmo levando-se em conta que Lovecraft agiu meramente como um homem de seu tempo, onde tais idéias eram veiculadas como 'normais', sua leitura é bastante controversa. Obviamente, revisões são necessárias, seja ela realizada na própria cabeça do leitor, seja em obras como A Balada do Black Tom.


Victor Lavalle

"- Carrego um inferno dentro de mim - rosnou Black Tom. - E quando descobri que ninguém tinha compaixão por mim, quis arrancar árvores, espalhar o caos e a destruição ao meu redor e depois me sentar e desfrutar da ruína.
 - Então, você é um monstro - comentou Malone.
 - Fizeram de mim um monstro."

A Balada do Black Tom é uma releitura de O Horror em Red Hook, mas vista de outro ângulo, o dos supostos vilões da história de Lovecraft. Esse, digamos, 'remix' de O Horror em Red Hook funciona em dois níveis: como homenagem e como crítica à obra de Lovecraft, dando voz e imprimindo alguma humanidade aos párias e excluídos que são retratados como aberrações no conto original. Se, segundo alguns estudiosos, as criaturas indefiníveis presentes nas histórias de Lovecraft eram claramente uma representação de sua xenofobia e de seu racismo, em A Balada de Black Tom Lavalle mantém os monstros em segundo plano e escancara todo esse racismo em muitos momentos dolorosos, como, por exemplo, o destino do pai do protagonista, que é o estopim para a transformação do personagem principal. Se Donald Glover aponta a distopia que seu país se tornou para o povo negro no vídeo de This Is America, Lavalle utiliza sua própria história para sinalizar que estes monstros sempre estiveram por aí: a intolerância, o preconceito e o descaso não são novidade.

"- Agora, quanto você disse que o branco vai te pagar?
 - Quatrocentos dólares.
 - Tudo isso só pra tocar na festa dele? (...)
 - Foi o que ele disse.
Otis ergueu as mãos e as manteve separadas no ar o máximo que pôde.
 - Essa é a distância entre o que um homem branco diz a um preto e o que ele realmente quer dizer."

Na história, acompanhamos a trajetória de Tommy Tester, um músico medíocre que vive de pequenos trambiques e sustenta seu pai Otis, impossibilitado de trabalhar. Em uma sociedade ainda mais desigual que a atual, com os negros tendo perspectivas de vida desalentadoras, quase nulas, Tommy sobrevive em meio às poucas oportunidades e ao preconceito brutal que sempre paira sobre sua existência. Após negociar um velho livro com uma estranha senhora, Tommy conhece Robert Suydam, um misterioso homem que o contrata para tocar violão em uma reunião particular em sua mansão. Após essa reunião, e após uma tragédia pessoal na vida de Tommy, ele é enredado nos bizarros planos de Suydam, que incluem acordar um "Rei adormecido que vive no fundo do mar".E nós sabemos a quem ele se refere, certo...?


"Agora, não sei o que mais acrescentar à próxima parte, pois vou dizer que gostei do que vi. Certo? ela saiu, e o preto ficou parado lá, paciente como ele só, e então foi como se uma porta se abrisse. Veja o senhor, bem ali, onde o portão da casa funerária encosta na propriedade dela? alguma coisa se abriu bem ali. Digo que é uma porta, mas não era mesmo uma porta. Era como um buraco, ou um bolsão, e dentro do bolsão estava vazio, preto. Não sei o que mais dizer disso. Como o céu noturno, mas sem nenhuma estrela. E o tempo todo minha Elizabeth ficou gritando na cozinha."
 
Esta edição conta também com o conto original de Lovecraft, como extra, e com uma tradução o mais fiel possível do texto original, ou sejE, a editora Morro Branco optou por não atenuar o texto, o que sempre é acertadíssimo, seja a obra qual for. Nesse caso em especial, era imprescindível que o teor politicamente incorreto fosse preservado, em contraste ao revisionismo de Lavalle. Incluir a história original no mesmo livro foi uma decisão acertada da editora, que assim entregou todos os subsídios que o leitor precisa para formular suas próprias conclusões a respeito da obra original e a história em questão. Quando vemos um trecho na história de Lavalle que parece tão preconceituoso quanto o original, imediatamente captamos sua crítica ao racismo embutido na prosa Lovecraftiana.

"Quem poderia culpar a mente de Malone por devastar a verdade? Robert Suydam, aquele arqui-inimigo - havia matado o senhor Howard e seis policiais, além de causar danos dolorosos a Malone. No entanto, como um sinal da natureza justa de Deus, o próprio lacaio preto de Suydam virou-se contra ele e cortou a garganta do mestre. Por mais horrível que fosse, não era essa a verdade? Os pretos simplesmente não são tão malignos, explicou o especialista. Sua simplicidade era seu dom e sua maldição."
Racismo esse que, anos depois, 'evoluiu' para uma espécie de elitismo, um noção de predileção pela alta cultura anglo-saxônica, a única cultura refinada e sofisticada o suficiente para ser apreciada e reverenciada - segundo Lovecraft. Lavalle também se dá conta desta percepção que Lovecraft embutiu em sua obra em seus últimos anos de vida, tão errônea quanto a anterior, e sutilmente também comenta a respeito em sua história:


"Quem mais além de um homem nascido na riqueza e com educação poderia estar naturalmente preparado para liderar?"


Além do diálogo entre as duas obras, também existem easter eggs em A Balada do Black Tom, como essa singela homenagem abaixo, quando Lavalle insere o autor dento da releitura da obra. Adivinharam quem é???


"Um homem de Rhode Island, mas que vivia no Brooklyn com sua mulher, mostrou-se tão persistente que dois policiais foram enviados à sua casa para deixar claro que não era bem-vindo à Nova York. Talvez sua disposição fosse mais adequada a Providence. O homem saiu da cidade pouco depois, e nunca mais voltou."


Por fim, pra quem se interessa por esse aspecto antropológico das histórias de Lovecraft, deixo aqui mais uma recomendação: O Horror Cósmico de HP Lovecraft - Teoria e Prática. O livro é baseado na tese do professor Daniel I. Dutra e é uma análise profunda da obra de Lovecraft e suas correspondências, e ajuda bastante a elucidar toda esta questão do racismo implícito em suas obras. Mais uma publicação magnífica da editora Clock Tower, os cultistas mais alucinados do território nacional. Assim que for devidamente lido, claro que a resenha vai integrar essa série que criamos aqui na Zona. Nossa seção Genealogia Lovecraftiana só vai abordar livros que tenham alguma relação com a  mitologia criada por Lovecraft, sejam eles obras que influenciaram o cosmicismo de Lovecraft ou homenagens de autores publicadas após sua morte. Material pra isso não falta, já que o Lovecas está longe de ser esquecido à medida que o tempo passa...


A história talvez não satisfaça ao leitor que está atrás de uma história do cânone Lovecraftiano cheia de fan service e grandes pirotecnias. Já o leitor que procura uma boa história de mistério/horror com comentários sociais incisivos vai curtir essa reinterpretação. A Balada do Black Tom não é (apenas) uma história de horror cósmico, e sim uma revisão do passado recente. E Cthulhu sabe o quanto estamos precisando de revisões do passado...




quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

H. P. LOVECRAFT - MEDO CLÁSSICO VOLUME 1, ou "Manda mais Lovecraft que tá pouco!!!"




Por EDUARDO CRUZ


E eis que o gigante, ou melhor, a caveira, finalmente acordou!!! Desde seu surgimento, a editora Darkside Books nos deu algumas belas surpresas e se firmou, com muita justiça, como A editora de livros do gênero horror do atual cenário editorial nacional. Mas lá no fundo, faltavam algumas coisas ainda. Faltava, para a editora que nos apresentou tantos bons nomes do horror e fantasia com teor mais dark, um retorno às raízes, ao clássico. Aí, esses caras, que realmente têm um contato bem mais estreito com seu público alvo do que a maioria das editoras por aí, leram nossos pensamentos e iniciaram a coleção Medo Clássico, que já conta com Frankenstein, de Mary Shelley e um volume com contos de Edgar Allan Poe. 


Os primeiros volumes da coleção Medo Clássico já chegaram assustando! Mas era só o começo...

Mas assim como eu, vocês também tinham aquela sensação de que faltava mais alguém? pois é, não falta mais. O novo volume da coleção Medo Clássico é com ele mesmo, o nosso ídalo aqui na Zona, Agapê Lovecraft!

Quem acompanha a gente sabe que nem precisamos de desculpas pra falar do Lovecraft, e já falamos de outras edições da obra desse autor fantástico AQUI e AQUI, além de comentar uma ótima HQ que homenageia seu legado literário, a fantástica Providence, de Alan Moore. 

Alan Moore, um monstro reverenciando outro monstro, que escrevia histórias de monstro...
Ao contrário do que acontece lá fora, aqui no Brasil nenhuma editora realizou a façanha de publicar toda a obra de Lovecraft na íntegra, embora os dois tijolos que já resenhamos sejam bem superiores ao tratamento editorial que esse autor tinha há duas ou três décadas atrás. Pelo fato de a obra de Lovecraft ser de domínio público, de vez em quando tem pintado uma edição aqui, outra ali de diversas editoras, como a Hedra, a Clock Tower, Martin Claret, ex Machina. E dessa vez foi a vez da Darkside. E eles fizeram. E fizeram à moda Darkside Books! O primeiro volume de H. P. Lovecraft - Medo Clássico vem em duas edições: A Edição Cósmica, que é essa ilustração em cores fluorescentes e uma lombada que brilha, digamos, blasfemamente (heheh não resisti) no escuro, e a Edição Miskatonic, que lembra um livro profano, com relevos e detalhes rebuscados, além da arte monstruosa da capa. O conteúdo interno é absolutamente O MESMO, por isso não se desesperem, não é que a Darkside tenha lançado dois livros do Lovecraft ao mesmo tempo: é o MESMO livro, mas com capas variantes.

EDIÇÃO PSICODÉLICA CÓSMICA
EDIÇÃO MISKATONIC
Mas e o conteúdo? bom, como o relapso Lovecraft não tem produzido nada de novo desde... 1937, não há grandes surpresas na seleção de contos. Acho que a intenção aqui foi servir de leitura introdutória para os neófitos do autor, porque é o feijão com arroz que encontramos nos 9 contos selecionados para esse primeiro volume, entre eles: Dagon, O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, Herbert West Reanimator, O Depoimento de Randolph Carter... enfim, o obrigatório. O diferencial fica por conta dos extras, que incluem, entre outras coisas, algumas anotações e originais de Lovecraft e um texto de autoria de Robert Bloch (autor de Psicose) intitulado Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. instigante, não? Além disso, a edição conta com sensacionalmente grotescas ilustrações do artista gaúcho Walter Pax, que em 2014 lançou, via financiamento coletivo, o livro Love - A arte Que Não Deveria Ser.




O sumário deste primeiro volume.
Eu diria que é um ótimo começo.

Essa edição da Darkside serve mais como uma porta de entrada (ou um portal, como Yog Sothoth) pra quem quer conhecer Lovecraft e não sabe por onde começar, ou para os fanáticos que não resistem a um belo acabamento gráfico, e por uma edição com anotações no rodapé, e textos extras - que são sempre bem vindos. Essa é mais uma edição que trata a obra desse autor com o primor e reconhecimento que ele merecia em vida, mas nunca teve, infelizmente. Será que dessa vez Lovecraft vai ter toda sua obra publicada na íntegra por uma editora brazuca? Só Azatoth pode responder, mas é melhor deixar ele quieto...

Que venha o segundo volume!!!!


 


domingo, 9 de abril de 2017

GRANDES CONTOS, de H. P. Lovecraft, ou “Meu amor, o Horror Rastejante”





Por EDUARDO CRUZ






A literatura de horror ocidental teve um ponto de virada no início do século XX, quando houve uma transição do horror gótico para o horror cósmico, e isso se deu quase que graças a um escritor somente: Howard Philips Lovecraft (ou agápê Lovecraft pros íntimos rs). Essa virada aconteceu a partir do momento em que alguns autores de horror passaram a não mais basear suas histórias em mitos e lendas, no folclore ou em qualquer outra base já existente, mas sim criar do zero toda uma cosmogonia onde o ser humano tinha muito pouca ou nenhuma relevância, e onde criaturas de proporções e poderes incomensuráveis, comparáveis a deuses eram o horror absoluto, ampliando em muito o escopo e o alcance do gênero, levando o horror a um direcionamento impensado até então. Nas palavras do próprio Lovecraft: "As efabulações sobre temas mundanos e o lugar-comum não satisfazem as mentes mais criativas e sequiosas de novos estímulos".



Como muitos artistas que não tiveram reconhecimento em vida, mas postumamente se tornaram referências incontestáveis em suas respectivas áreas, como Van Gogh, Oscar Wilde, Edgar Allan Poe, Rembrandt, entre outros, o legado de H. P. Lovecraft está cada vez mais popular. Considerado um dos escritores mais influentes do século XX, foi um dos fundadores do nicho de Horror Cósmico, ou Cosmicismo, junto com autores como August Derleth, Robert Bloch, Frank Belknap Long e Robert E. Howard, com quem trocava muitas correspondências, e ajudou originar uma espécie de universo compartilhado que hoje conhecemos como “Os Mitos de Cthulhu”. A popularidade de Lovecraft só cresce, apesar de já termos deixado o século XX para trás faz alguns anos, mas sua presença ainda se faz sentir, direta ou indiretamente no cinema, videogames, quadrinhos, RPGs, card games e até na música! Se não o era antes, nos dias atuais H. P. Lovecraft é leitura obrigatória em matéria de horror, a fonte onde muitos nichos da cultura pop bebem até hoje para produzir horror impactante e de qualidade.

Cthulhu, o filho mais famoso de Lovecraft
O Horror Cósmico é um nicho literário que retrata o universo como um lugar vasto e hostil, ou na melhor das hipóteses, indiferente ao ser humano. Conceitos como civilização, amor, democracia, IPTU, religião, família, hambúrguer gourmet, guerra, ascensão profissional, gasolina barata, amor verdadeiro, política, sexo.... esqueça! Em uma história de Lovecraft percebemos a total indiferença a qualquer crença, ideologia ou atividade humana, e o próprio lugar do ser humano no universo é irrelevante. Tais conceitos e construtos sociais são como uma pequena jangada no oceano turbulento e caótico que é o universo. Por essa mesma razão Lovecraft não é indicado para qualquer pessoa que simplesmente goste de ler. Suas histórias geralmente são carregadas de cinismo, nada romantizadas e com um alto teor de pessimismo, onde além do horror gráfico, não raro vivenciamos situações de horror psicológico nas tramas, e sua ambientação lenta que conduz a um ápice (melhor dizendo, à beira do abismo ;>)) quase sempre desastroso e com muito terror psicológico são mais uma razão para afirmarmos que a prosa de Lovecraft não é para qualquer leitor.


É claro que não estamos sozinhos em um universo Lovecraftiano tão vasto e hostil: essa oposição direta a valores como o Iluminismo e o Humanismo traz a reboque a noção de que dividimos nosso espaço neste universo com entidades, seres e monstros ancestrais, um verdadeiro panteão de criaturas extradimensionais - a maioria delas com propósitos insondáveis à nossa compreensão - algumas mais antigas do que a própria humanidade, algumas tão poderosas que foram cultuadas como deuses por humanos no passado, tendo reinado sobre a Terra há milhões de anos atrás. Algumas apenas dormentes, esperando o momento de retornar e reclamar nosso mundo para si novamente. Essas sim as verdadeiras responsáveis por intervenções tanto entre os humanos, quanto no restante do universo. Não somos donos de nossos próprios destinos, e segundo Lovecraft, até mesmo a criação de nossa espécie é trabalho desses seres! Seus protagonistas, geralmente jogados de encontro a revelações dessa amplitude acabam enlouquecendo ou recorrendo ao suicídio, tamanho o abalo que tais conhecimentos provocam na psique frágil dos indivíduos.



E por falar em conhecimentos que podem destruir, não posso esquecer de mencionar a criação mais famosa de Lovecraft, depois do próprio Cthulhu, o livro profano Necronomicon. O antigo tomo cheio de conhecimento blasfemo que incautos costumam usar para invocar essas entidades, e cujo desfecho sempre é trágico foi mais uma contribuição para a construção dos Mitos de Cthulhu, termo cunhado após a morte de Lovecraft pelo escritor August Derleth. Posteriormente, o Necronomicon deixou de ser um elemento usado apenas por Lovecraft e seus amigos escritores, e hoje encontra-se agregado na cultura pop, com maior destaque para os filmes de “Evil Dead”, de Sam “Homem Aranha que vale” Raimi. O Necronomicon foi tão bem inserido nos Mitos de Cthulhu, e posteriormente na cultura pop (Lovecraft inclusive escreveu um falso ensaio sobre as origens do livro!) que até hoje alguns acreditam que este livro realmente existe, e sendo autêntico ou não, pode-se comprar um exemplar no Ebay e até mesmo no Mercado Livre.










Acima, alguns dos Necronomicon "legítimos" que circulam pelas internetes...

O Necronomicon de "Evil Dead"

Essas são as principais razões para o trabalho de Lovecraft ser considerado tão singularmente sólido em termos técnicos e em qualidade também, com muita consistência e atenção aos elementos inseridos nas tramas, principalmente os de cunho psicológico, a grande cartada na obra do escritor.

Esse meme resume bem o que é uma história de H. P. Lovecraft:
"E eles viveram felizes par... BRINCADEIRA, ELES TODOS MORRERAM OU ENLOUQUECERAM"

No exterior, o reconhecimento póstumo a Lovecraft já existe há décadas, e cada vez que eu entrava no site da Amazon ou dava uma olhada na seção de livros importados da Livraria Cultura, me batia uma certa tristeza, afinal lá fora existem edições imensas e completas da obra de Lovecraft, algumas com anotações de rodapé que oferecem informações que enriquecem muito o entendimento do leitor com relação a detalhes obscuros, inclusive em relação ao contexto sócio cultural da época em que a história foi escrita. Entre as mais impressionantes, posso citar “The New Annotaded H. P. Lovecraft”, com prefácio de Alan Moore! Já aqui no Brasil a situação é um pouco mais limitada. Fora a Editora Iluminuras, que lançou alguns volumes no final dos anos 90, a independente Clock House, que lançou um livrão robusto de contos do autor, porém com uma divulgação pequena, já esgotado, e mais recentemente os livros da editora Hedra, com belos acabamentos gráficos, nunca tivemos tanto H. P. Lovecraft quanto gostaríamos em nossas prateleiras.

Uma compilação norte-americana com introdução do Barbruxão em pessoa!
Isso me lembra que "Providence" vai sair esse ano!!! \o/





Mas ao que parece, alguma mente iluminada por Azatoth na editora Martin Claret se deu conta dessa carência, e em um único lançamento retificou essa mancada do mercado editorial brasileiro com essa magnífica compilação. A antologia “Grandes Contos” é um tijolo impressionante, seja pelo seu número de páginas (quase 1100!), seja pelo seu acabamento em capa dura, seja pelo nível na seleção das histórias. Muito do que Lovecraft produziu de relevante, inclusive vários poemas e alguns ensaios, constam nesta edição, num total de 45 trabalhos do autor. Além da capa, com uma ilustração bem adequada ao tema, onde predomina um tom de amarelo doentio e com os indefectíveis tentáculos de Cthulhu se insinuando pelos cantos e pelas sombras da ilustração, as páginas internas - com um papel de gramatura excelente - são tingidas de verde nas extremidades, o que provoca uma associação imediata aos tais livros arcanos e blasfemos que vez por outra Lovecraft cita em suas histórias. Nota 10 para esse acabamento gráfico!


Os contos que integram esse tijolão monstruoso são:

A fera na caverna
O alquimista
A tumba
Dagon
Além das muralhas do sono
Old Bugs
A transição de Juan Romero
A Nau Branca
A Rua
A maldição que atingiu Sarnath
A árvore
Os gatos de Ulthar
Do além
Nyarlathotep
O pântano da Lua
Os outros deuses
A música de Erich Zann
Hipnos
O que vem com a Lua
Azathoth
Entre as paredes de Eryx
O cão de caça
O medo à espreita
O festival
Debaixo das Pirâmides
O horror em Red Hook
O chamado de Cthulhu
A chave de prata
A estranha casa alta na névoa
A busca onírica da desconhecida Kadath
O caso de Charles Dexter Ward
A cor que veio do espaço
O descendente
A história do Necronomicon
O povo antigo
O horror em Dunwich
Nas montanhas da loucura
A sombra sobre Innsmouth
Através dos portais da chave de prata
O perverso clérigo
O livro
A sombra vinda do tempo
O Assombrador das trevas
O navio misterioso
O horror sobrenatural na literatura


Eu poderia até reclamar um pouco, dizendo que ficaram de fora contos sensacionais, como por exemplo “Herbert West – Reanimator” e “O modelo de Pickman”, mas com um livro caprichado assim, com essa quantidade de contos reunida em um único volume e com esse acabamento gráfico belíssimo, sinto até uma ponta de culpa. Então esqueçam que eu disse isso! “O horror de Dunwich”, “A sombra sobre Innsmouth”, “A sombra vinda do tempo”, “Nas montanhas da loucura”, “O caso de Charles Dexter Ward” e “A cor que veio do espaço” compilados em um mesmo tomo já fazem dessa coletânea algo excepcional!



Então é isso aí, seus Shoggoths!! SejE você um mero curioso que conhece a reputação do Lovecraft, mas nunca teve acesso ao material dele, ou mesmo um leitor já iniciado, mas que porventura tem pouca coisa do escritor em sua estante, “Grandes Contos” é indicado para ambos os casos. Um bom começo pros iniciantes, e um volume respeitável na estante pros freaks que curtem horror clássico de qualidade. Uma antologia com um escritor desse calibre, com esse número de páginas e essa seleção de contos? Não precisa nem pensar a respeito! Caia dentro de uma promoção bacana e entregue suas alma para todas as blasfêmias e horrores inomináveis saídos da mente (mas será que seriam só imaginação mesmo???) de um dos maiores - na minha opinião pessoal o maior! – autores de horror de todos os tempos!!!



Obs.: Pra quem quiser se aprofundar em uma visão geral da obra de Lovecraft e os Mitos de Cthulhu, sugiro esse blog, que foi uma das minhas fontes para essa resenha. É um post um pouco extenso, mas rico o suficiente para que mesmo os novatos tenham uma compreensão básica e abrangente do legado Lovecraftiano na literatura e na cultura pop.