Mostrando postagens com marcador Warren Ellis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Warren Ellis. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de junho de 2018

DESOLATION JONES, de Warren Ellis + J. H. Williams III + Danijel Zezelj, ou "A melhor HQ jamais finalizada que você vai ler na sua vida!"








Por EDUARDO CRUZ



Alguém aqui já leu Sandman

Não??? Então vão lá, peguem as 75 edições, leiam e voltem a esse post. Vou ficar esperando aqui. 

Prontos? 

Então vamos lá:
Quem lembra da biblioteca do Sonhar? A biblioteca onde estão armazenados todos os livros que foram sonhados, mas nunca chegaram a ser escritos, que nunca vieram a existir no tal do "mundo real". O reino de Morpheus tinha neste espaço o receptáculo perfeito para tudo que poderia ter sido, mas não foi, artisticamente falando. Por N motivos, projetos podem afundar, dar errado ou nunca acontecer. Parcerias azedam e inviabilizam a realização ou conclusão do trabalho. Artistas morrem antes de concluir suas obras. Empresas vão à falência e publicações são abruptamente interrompidas. Algumas coisas nunca chegam a atingir seu pleno potencial e são finalizadas prematuramente. Um (péssimo) exemplo é o Grandes Astros Batman & Robin, de Frank Miller e Jim Lee. Que poderia nem ter sido concebido, para começo de conversa. Ainda assim, esse aborto da natureza respirou e se arrastou por nove edições até finalmente alguém na DC finalmente ter o bom senso de desligar os aparelhos dele. E olha que eu sou fã do Bátemã rs!!!. Agora, um exemplo de uma ótima HQ que morreu antes da conclusão - bem mais agradável do que falarmos de um gibi onde a Morcega derrota o Lanterna Verde pintando um quarto todo de amarelo - é Desolation Jones.

O Absolute Desolation Jones está na prateleira de baixo, ao lado do Omnibus de Grandes astros Batman & Robin :>P


Michael "Desolation" Jones é um agente aposentado do MI6, o Serviço secreto Britânico, que após cair em desgraça por embriaguez em serviço e má conduta, não tem outra escolha senão servir como cobaia em um projeto secreto, o Teste Desolação. Ele é, aparentemente, o único sobrevivente de um experimento que o obrigou, entre outras coisas, a ficar sem dormir e assistindo a cenas de morte e violência por um ano inteiro. O experimento deveria aprimorá-lo, mas dá terrivelmente errado, e Michael é "aposentado", sendo exilado pelo resto de sua vida em um local designado para outros como ele. E qual o melhor lugar para esconder ex operativos de agências de inteligência que foram cobaias de experimentos de aprimoramento mal sucedidos? Qual cidade do mundo tem a maior concentração de esquisitões por metro quadrado??? Isso mesmo, Los Angeles, Califórnia! Existe toda uma comunidade de ex espiões de diversas agências com aprimoramentos bizarros vivendo na Cidade dos Anjos, todos legalmente invisíveis, mas sem permissão de abandonar a cidade. Michael presta serviços de investigação particular entre os de sua comunidade. Esse primeiro (e único) arco aborda um dos serviços de Jones: Ele é contratado por um coronel para investigar quem teria roubado de sua coleção particular um item de valor inestimável, o Santo Graal da sacanagem cinematográfica: Os filmes pornográficos caseiros de... Adolf Hitler!

"Isso é L. A., querido. É com os de aparência normal que a você precisa ficar esperto."


Admito que também não acho a trama lá muito original, já que ela segue a manjada cartilha noir do investigador durão, com mulheres fatais, o McGuffin cobiçado por todos, reviravoltas inesperadas e etc, mas o que faz de Desolation Jones genial é a criatividade de Ellis, que sempre tende ao bizarro, para enriquecer essa trama, acrescido à doses brutais de realismo, violência explícita e temas contemporâneos: Jones investiga o submundo pornográfico de Los Angeles em busca do tal filme pornô roubado, e por conta disso há uma cena interessantíssima com uma atriz pornô explicando para Jones um lado de sua profissão que poucos conhecem, os bastidores da indústria, e que poderia ter sido extraído de uma entrevista, de tão cru que é o diálogo. 



Outro ponto que não poderia deixar de mencionar fica por conta dos ex operativos exilados em Los Angeles: Eles não possuem poderes úteis e impressionantemente glamourosos como vemos em X-Men, por exemplo. São todos vítimas de experimentos que deram terrivelmente errado, e que não passam de uma grande inconveniência para seus portadores. Alguns variam do extremamente bizarro ao pateticamente inútil, como por exemplo Jeronimus Corneliszoon, empresário de Jones, que deveria ser o soldado perfeito, com necessidade de se alimentar apenas quatro vezes ao ano. Seu estômago, modificado pela CIA, o obriga a consumir vastas quantidades de proteína, e por isso ele é o único operativo autorizado a sair de L.A. para comer vacas. Inteiras e em pleno campo aberto, ajudando assim a perpetuar as bizarras lendas de mutilação de gado América afora. Também há Emily Crowe, que como resultado de um experimento da CIA para criar a armadilha sexual definitiva, emite o tempo inteiro feromônios que provocam repulsa e medo irracional em todos à sua volta, com exceção de Jones, que não é afetado, provavelmente por causa do Teste Desolação. O cárcere de Emily é bem menor que o dos outros agentes, já que ela mal sai de sua casa. Uma personagem que desperta consternação no leitor.




O próprio Jones é um amontoado de problemas: O experimento fez com que ele tivesse uma compleição frágil, cheio de cicatrizes, pele cinzenta e cabelos brancos. Jones evita luz solar e sofre de dores crônicas e impotência sexual. Ainda assim, é bastante perigoso, com reflexos acima do normal e seu treinamento do MI6. Psicologicamente, ele é incapaz de sentir medo ou remorso, e se necessário, recorre ao homicídio sem maiores problemas, às vezes de mãos nuas. Além disso, Jones sofre de alucinações, vendo anjos seminus ou ensanguentados pairando sobre a cidade. "Soldadinhos quebrados", como Corneliszoon se refere à sua comunidade em um determinado momento. Esses agentes descartados são uma pequena faceta do abuso de poder e os absurdos a que a corrida armamentista pode chegar. Por conta de sua condição, Jones acha que mais nada pode feri-lo, e descobre da pior maneira que ainda pode se machucar um pouco mais.




"Ganhar uma luta não se trata de ser o mais forte ou o boxeador mais esperto, se trata de ser o mais disposto a foder permanentemente com o outro cara." Amém, brother...



Desolation Jones durou oito edições, sendo que as primeiras seis compõem o arco Made In England, com arte de J. H. Williams III e Jose Villarrubia e o arco seguinte, To Be In England, do qual só saíram as duas primeiras edições, com arte de Danijel Zezelj. O motivo disso foi a perda dos roteiros originais: O computador de Ellis deu pau e ele perdeu vários roteiros sem backup, incluindo Desolation Jones e alguns outros trabalhos. Depois disso, o desânimo foi tão grande que ele nem tentou reescrever. A série foi descontinuada na oitava edição. O encadernado lançado pela DC não inclui as edições #7 e #8, as duas primeiras do arco incompleto, apenas as seis edições do arco Made In England.




A arte de J. H. Williams III (Promethea, Batwoman, Sandman: Prelúdio) é um show à parte. Seus layouts de páginas são alucinantes e sobrenaturalmente criativos, tornando a tarefa de virar cada página um esforço. O colorista é Jose Villarrubia, colaborador de longa data de Williams, e em perfeita sintonia com o traço do desenhista. Ellis foi presenteado por ter esses dois frente à arte de Desolation Jones. O título chegou a ser indicado a seis prêmios Eisner (Melhor nova série, melhor arco de história, melhor escritor, melhor desenhista, melhor colorista e melhor letreirização). Apenas Villarrubia ganhou o Eisner de melhor colorista, mas Desolation Jones merecia bem mais...

Lembra daquela página fodástica de Promethea? Coisa do Williams...


Uma mescla entre romances detetivescos do Mike Hammer de Mickey Spillane e do Sam Spade de Dashiell Hammett, somado ao clima weirdo da Los Angeles de Vício Inerente de Thomas Pynchon e ainda uma pegada de jornalismo gonzo, que também é a cara de Los Angeles. Adicione a isso pornografia (L.A. é a capital do pornô mundial!) e drogas (segundo Marilyn Manson, L.A. é a capital mundial das drogas) e, lógico, toda a inventividade, insanidade e violência que um Warren Ellis extremamente inspirado pode entregar, e dá pra ter uma boa idéia do que esperar de Desolation Jones. Não podemos esquecer de mencionar a parceria com Williams, os dois afinadíssimos para fazer essa Los Angeles tão bizarra ser tão crível. Ellis é um cara que escreve a história das HQs agora, nesse exato momento, enquanto eu escrevo esse texto e enquanto vocês o lêem. Então, não esperem pelo cinquentenário da morte dele para atestar sua genialidade. Vá atrás de uma boa história do Ellis AGORA! Acredite, até os gibis incompletos desse cara valem muito a leitura...

"Essa cidade encontra uma nova maneira de partir meu coração todo fuckin' dia..."

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O LIVRO DA LEI + ALEISTER CROWLEY, a biografia quadrinizada + O Legado da Besta na Cultura Pop.








Por EDUARDO CRUZ



"O tolo bebe, e se embebeda; o covarde não bebe. O homem sábio, bravo e livre bebe, e dá glórias ao Mais Alto Deus."



Edward Alexander Crowley, ou Aleister Crowley, como era mais conhecido fez de (quase) tudo: Enxadrista, alpinista, dramaturgo, poeta, ocultista nato, viajante andarilho, divulgador da Ioga no ocidente, estudioso da Cabala, viciado em cocaína e heroína, suposto espião a serviço da Coroa Britânica, taxado pela imprensa da época como o homem mais depravado de sua época, fundador da filosofia da Thelema, mago invocador de demônios e espíritos, arauto do Novo Aeon, um mero charlatão dado a escândalos... Digam o que disserem do Crowley, aí está um cara que certamente vivenciou a vida ao máximo! "Todo homem e toda mulher é uma estrela", ele afirmava em seus tratados, e tentou atingir o potencial máximo que lhe foi permitido, seja para o bem ou para o mal. Embora eu suspeite que conceitos como "Bem" e "Mal" não se apliquem a Crowley. Sua concepção de prática mágica, ou “Magick”, como “a ciência e arte de causar mudanças de acordo com a vontade” é estudada por iniciantes e iniciados e são incontáveis as ordens místicas que utilizam seus conceitos e postulados como base. Além disso, sua esfera de influência atinge lugares inusitados até os dias de hoje: Considerado uma celebridade antes mesmo do termo existir, o mago é citado, referenciado e reverenciado dentro da cultura de massas, seja na música, nas histórias em quadrinhos, filmes, livros... Isso sim é poder, bitches!!!


Crowley nasceu no seio de uma família cristã e sempre teve problemas com uma criação nesses padrões. Era obrigado a ler um capítulo da bíblia por dia. Perdeu o pai, dono de uma cervejaria, aos 11 anos de idade e tinha uma péssima relação com a mãe, que chegava ao cúmulo de chamá-lo de "A Besta", alcunha que acabou perdurando pelo resto de sua vida. A característica mais marcante de Crowley sempre foi bater de frente com os valores morais e religiosos do seu tempo, sendo um proto-libertarianista, defendendo a liberdade sexual, pessoal e espiritual, e a sua regra de "Faz o que tu queres" posteriormente se tornaria o mantra da filosofia Thelêmica. Em 1897, impelido por aquelas questões maiores da existência humana, Crowley abandona Cambridge para se dedicar ao ocultismo. No ano seguinte, ingressa na Ordem da Aurora Dourada, onde, após iniciado, aprende os fundamentos da magia ritualística e como utilizar drogas em rituais. Logo, uma dissidência o leva a entrar em choque com o mestre da ordem, o ocultista S. L. MacGregor Mathers, considerado muito autoritário por alguns membros. Após algumas tentativas de conciliação, o choque de egos entre Crowley e Mathers o leva a abandonar a Aurora Dourada em definitivo.


Encruzilhadas, reais ou simbólicas, são um dos elementos essenciais para os praticantes de magia. E é aqui que Crowley atinge a sua encruzilhada: Em 1904, um dos momentos chave de sua vida, em uma viagem de lua de mel ao Cairo acompanhado de sua esposa, Rose Edith Kelly, ele entrou em contato com uma entidade chamada Aiwass, que afirmava ser o porta voz de Hórus. Durante três dias, entre 8 e 10 de abril de 1904, entre o meio-dia e as 13 horas, Aiwass ditou para Crowley o que viria a ser conhecido como o Liber Al Vel Legis, ou O Livro da Lei. Crowley relatou que a voz vinha por sobre seu ombro esquerdo, como se Aiwass estivesse posicionado em um dos cantos da sala, com um timbre firme e expressivo, mas ao mesmo tempo tenro.



Crowley com sua primeira esposa, Rose Edith Kelly, e sua filha
Nuit Ma Ahathoor Hecate Sappho Jezebel Lilith Crowley
O Hexagrama Unicursal, principal símbolo da Thelema

Mas o que vem a ser o Livro da Lei? dividido em três partes, a primeira ditada por Nuit, a deusa egípcia do céu noturno, a segunda por Hadit, autodenominado o complemento de Nuit, sua noiva, e a terceira por Ra-Hoor-Khuit, a Criança Coroada e Conquistadora, o livro seria um poderoso grimório, que fala sobre a vindoura Era de Aquário, o Aeon de Hórus, uma era que supostamente se iniciaria com a queda das religiões patriarcais e com uma compreensão maior acerca do (auto)conhecimento espiritual e autogovernança do indivíduo. Seu conteúdo é extremamente críptico, enigmático, deixando abertura para as mais diversas interpretações. Isto é plenamente intencional: O Liber Al Vel Legis é para ser lido individualmente, e a apreensão de seu conteúdo, a forma como ele será compreendido vai depender exclusivamente das percepções e vivências pessoais de cada um que o ler. É um mesmo livro que se torna tantos livros quanto existem leitores para ele. Os Thelemitas não encorajam textos explicativos ou assembléias e reuniões para se interpretar passagens do mesmo, a fim de evitar a criação de dogmas em cima dele, um vício de todas as grandes religiões. Assim sendo, não há interpretação incorreta do Livro da Lei e seu "sacramento", na falta de um termo melhor, se dá na esfera pessoal de cada um. O único autorizado a fazer alguns comentários a respeito do livro foi o próprio Crowley, que utilizou a Cabala como uma espécie de pedra de Roseta para interpretar os versos crípticos. 




No final do ano passado, a editora Chave lançou uma belíssima edição do Liber Al Vel Legis, que traz um ótimo prefácio, rico em informações complementares, páginas de reproduções dos manuscritos originais de Crowley, os comentários dele quanto ao Liber Al Vel Legis e um poema de Crowley traduzido por Fernando Pessoa, um notório entusiasta da obra do magista. Coisa fina. O livro, que possuía uma edição anterior rara e esgotada no Brasil há muitos anos, é uma segunda chance para aqueles, que como eu, andavam loucos atrás de um exemplar físico. A edição é incontestavelmente produzida com muita atenção a cada detalhe, desde a capa até a tradução. Além disso, é uma edição bilíngue Português/inglês.


"Observem por si mesmos a deterioração do sentido de pecado, o crescimento da inocência e da irresponsabilidade, as estranhas modificações do instinto reprodutivo com a tendência de transformar-se em bissexual ou epiceno, a confiança infantil no progresso combinada com medo apavorante da catástrofe, contra a qual ainda pouco desejamos tomar precauções.

Considere o afloramento das ditaduras, apenas possível quando o crescimento moral está em seus estágios iniciais, e a prevalência de cultos infantis como o Comunismo, o Fascismo, o Pacifismo, dos Modismos da Saúde do Ocultismo em quase todas as suas formas, religiões sentimentalizadas ao ponto da extinção na prática.

Considere a popularidade do cinema, do rádio, da loteria esportiva e das competições de adivinhação, todos instrumentos para confortar crianças intratáveis, sem semente de propósito neles.

Considere o esporte, os entusiasmos e raivas infantis que ele desperta, nações inteiras perturbadas por disputas entre meninos.

Considere a guerra, as atrocidades que acontecem diariamente e não nos comovem e pouco nos preocupam.

Somos crianças.

Como este novo Éon de Hórus se desenvolverá, como a Criança irá crescer, isso cabe a nós determinar (...)"
O Livro da Lei, página 37 


 


Ainda relacionado a Crowley, a Chave lançou pouco tempo depois, no início desse ano, em parceria com a editora Veneta, uma biografia em quadrinhos do mago inglês. A HQ, intitulada simplesmente Aleister Crowley, tem um projeto gráfico similar à edição do Liber Al, e mostra a história de Crowley desde o nascimento em sua família rica família de fanáticos religiosos, a sofrida infância e adolescência nas escolas de elite, a descoberta da magia e a vida de escândalos que o transformaram em uma das maiores celebridades de seu tempo e o alvo favorito dos tabloides ingleses que o definiram como “O homem mais perverso do mundo”. De autoria de Martin Hayes e RH Stewart, a HQ lembra muito Do Inferno, de Alan Moore, mais precisamente nos remete ao artista de Do Inferno, Eddie Campbell, uma arte em preto e branco "suja", hachurada, de linhas fortes. Uma ressalva que eu tenho com a biografia quadrinizada é pelo fato de Crowley, que teve uma vida tão diversa, viajou muito, exerceu incontáveis atividades e experimentos místicos ter tudo isso resumido a cento e poucas páginas. É o resumo do resumo. O atenuante aqui é que metade do livro é de notas explicativas, mais uma similaridade com Do Inferno. As notas explicativas maximizam o aproveitamento da leitura e contextualizam muitos fatos que poderiam passar em branco se só lêssemos a HQ.








"A evolução promove suas mudanças de maneiras antissocialistas. O homem "anormal" que prevê as tendências do tempo e adapta as circunstâncias de modo inteligente é motivo de riso, é perseguido, e frequentemente destruído pelo rebanho; mas ele e seus herdeiros, quando a crise vem, são sobreviventes."

O Livro da Lei, página 39



UMA BESTA POP

Por fim, Crowley morreu em 1947 (mesmo ano da queda do objeto voador em Roswell. Coincidência??? Desculpe, não trabalhamos com coincidências aqui hehehehe), pobre e quase sem seguidores. Mas a sua grande obra já havia sido concluída: A maneira como ele praticava Magia inspirou muitos outros estudantes e diletantes e possibilitou a formação do neopaganismo como o conhecemos hoje, além de deixar profundas marcas na cultura. Para uma figura tão peculiar, Aleister Crowley se tornou uma presença perene e bem influente na cultura pop. Não dá pra ler uma dúzia de livros, HQs ou filmes, ou mesmo escutar músicas sem esbarrar em uma menção direta ou indireta, homenagem ou referência ao Crowley real, tamanho é o fascínio que a Besta exerce em quem estuda sua vida e obra. Abaixo temos alguns exemplos bem famosos, e outros nem tanto. Essas referências pinçadas aqui não são sequer a ponta do iceberg, e uma pesquisa mais extensa faria o post ficar umas cinco vezes maior do que é, então vamos parar por aqui rs. “A influência de Crowley na cultura moderna é tão disseminada quanto a de Freud ou Jung”, diz o jornal inglês The Guardian, e os exemplos abaixo comprovam a influência da Besta dentro do panorama das artes.

Crowley na montagem da capa do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.


HISTÓRIAS EM QUADRINHOS:

Por ter sido vilipendiado por tantos anos pela imprensa de seu país natal, Crowley acabou se tornando quase uma figura folclórica. Uma espécie de Toninho do Diabo, mas com o charme britânico que o nosso representante do Cramulhão não possui. Por isso, nada mais natural do que a profusão de citações a Crowley se concentrar com mais frequência em obras da cultura popular britânica. A Invasão Britânica, que nos anos 80 apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinhistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana ;>). 

“No mundo das ciências ocultas do século XX, Crowley é uma espécie de Einstein”   
Alan Moore

  • Sandman - Logo primeira história do Sandman de Neil Gaiman, o personagem-título da série, Sonho, é capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, Burgess é rival). 



  • Belas Maldições - Ainda de autoria de Gaiman, no divertidíssimo Belas Maldições, livro escrito a quatro mãos com Terry Pratchett, Crowley é o nome de um dos protagonistas. O demônio se junta ao anjo Aziraphale na tentativa de impedir o fim dos tempos.

David Tennant e Michael Sheen caracterizados como Crowley e Aziraphale na vindoura adaptação de Belas Maldições

  • John Constantine: Hellblazer - Crowley aparece também em Hellblazer, mais precisamente na fase de Paul Jenkins. No arco Massa Crítica, o mago está há anos vivendo em um local ermo, à beira de um rio, tendo um espaço de deslocamento limitadíssimo, pois só pode andar em cima de pentagramas de proteção traçados no chão para protegê-lo de ser arrastado para o inferno pelo Primeiro dos Caídos. John, é claro, acaba com a pouca alegria que ainda restava ao coitado...




  • Requiem - Cavaleiro Vampiro - Na HQ escrita pelo inglês Pat Mills e ilustrada por Olivier Ledroit (que já resenhamos AQUI!), em uma espécie de pós-vida bizarro e maligno, Crowley é o responsável pelo Banco de Sangue em uma sociedade governada por vampiros, e aparece em toda a sua glória com uma aparência que faz jus à alcunha de A Besta...

Crowley retratado na HQ Requiem - Cavaleiro Vampiro.
Arte por Olivier ledroit


  • Asilo Arkham - Falando de  outro expoente da Invasão Crowleyana, digo, Britânica, não posso esquecer de mencionar Grant Morrison, que assume que boa parte de sua obra tem influência nos escritos de Crowley e o considera o Picasso da Magia. Em sua graphic novel Asilo Arkham, Crowley é mencionado explicitamente. Na história, Amadeus Arkham, fundador do manicômio mais famoso de Gotham City, se encontra com Carl Gustav Jung e Aleister Crowley em suas viagens quando jovem. Além disso vemos o Tarô de Toth, concebido pelo próprio Crowley, sendo manuseado por um personagem. Morrison também escreveu uma peça de teatro sobre Crowley em 1990, intitulada Depravity.

Arte por Dave McKean

 
  • A Liga Extraordinária - Século - E não poderíamos deixar de linkar Alan Moore, a ponta de lança da Invasão Britânica, bruxo de Northampton a Aleister Crowley! Em Século, história da Liga Extraordinária, o mago negro Oliver Haddo, personagem criado pelo escritor W. Somerset Maugham para o livro The Magician, é baseado em Aleister Crowley e reutilizado por Moore na HQ, dando trabalho para Mina Harker e seus companheiros por um século inteiro!


Arte por Kevin O'Neill


Arte por Kevin O'Neill


  • Do Inferno - Moore também cita Crowley em Do Inferno, HQ semi fictícia que discorre a respeito dos crimes de Jack, O Estripador. O garoto juvenil Aleister dá as caras como um menino bem insolente em uma rápida aparição.


Arte por Eddie Campbell


  • Promethea - Nessa série, que um crítico já definiu como “um gibi da Mulher-Maravilha escrito por Aleister Crowley”, Aleister aparece em alguns momentos, entre eles em uma edição dedicada ao Tarô, onde Crowley conta, no rodapé das páginas, uma piada que segundo Moore, sintetiza o que é a Magia. Mais à frente, enquanto a protagonista explora a Árvore da Vida na Cabala, Crowley aparece transfigurado como mulher, em uma esfera metafísica superior.


Arte por J. H. Williams III


  • Herói Nenhum - Nessa HQ de Warren Ellis e Juan Jose Ryp, há uma breve menção à Crowley e sua Abadia de Thelema, em uma de minhas leituras recentes, enquanto fazia esse post. Deve ser só coincidência...



CINEMA:

  • The Devil Rides Out -  Esse livro de Dennis Wheatley foi adaptado para o cinema em 1968. As Bodas de Satã, título nacional, é uma produção britânica, dirigida por Terence Fisher e roteirizado por Richard Matheson (autor de Eu sou A Lenda, que já resenhamos AQUI), tem Christopher "Drácula Saruman" Lee como o "mocinho" e o ator Charles Gray no papel de Mocata, um perverso aristocrata mestre em magia negra, o Crowley da vez...

 As Bodas de Satã (1968). Completo e legendado.

  • La Herencia Valdemar - Esse filme espanhol de 2010, além de brincar com os Mythos Lovecraftianos, tem uma participação muito especial: Aleister Crowley é retratado no filme como um mago embusteiro que executa um ritual que acaba dando muito, muito errado... Tão errado que no final o próprio Cthulhu aparece!


  • Perdurabo (Where Is Aleister Crowley?) - Esse média metragem escrito e dirigido por Carlos Atanes se passa na Abadia de Thelema, na Sicília, durante o ano de 1939.



MÚSICA:

  • Led Zeppelin - O guitarrista Jimmy Page era aficionado pela obra de Crowley, a ponto de o vinil do álbum Led Zeppelin III trazer inscrito "Faz o que tu queres". Além disso, Page comprou uma mansão que já pertenceu a Crowley e onde gravaram algumas cenas do filme-concerto The Song Remains The Same.




  • Ozzy Osbourne - Mr. Crowley - A letra diz tudo. A homenagem do Príncipe das Trevas Ozzy à Besta Crowley. Coisa Linda. até rolou uma lagriminha de sangue aqui...



  • David Bowie - Quicksand - O Camaleão também se rendeu à Besta e canta nos versos iniciais: "I'm closer to the Golden Dawn...". Mais direto, impossível...



  • Marilyn Manson - Holly Wood (In The Shadow Of The Valley Of Death) - O quarto álbum de Manson tem o mesmo teor de qualquer álbum de sua carreira: O artista está sempre atacando a hipocrisia da sociedade em que vive, criticando a idolatria às armas, o culto à violência, a cultura do medo, e os demais perigos do conservadorismo extremo. Tio Crowley ficaria orgulhoso, mas piraria mesmo é com as fotos do encarte deste álbum, onde Manson e banda encenam as cartas do tarô, uma das obsessões de Crowley, que chegou a desenvolver seu próprio tarô.



  • Klaxons - Magick - O título dispensa explicações. O primeiro álbum dos Klaxons é recheado de temas de ficção científica hard e um pouco de Thelema também. É, eu sei que eu já recomendei os Klaxons no post de The Filth, que é uma HQ de ficção científica insana do Morrison. Mas não foi o Arthur C. Clarke quem disse que "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia"? Touché!





  • Def FX - (I'll Be Your) Majick - Essa banda australiana é cheia de diversas influências, que vão do eletrônico noventista a guitarras de metal, passando por vocais de Riot Grrls dos anos 90, carregado de psicodelia, rock industrial e... bem, ouçam e tirem suas próprias conclusões sobre esse som anárquico. Apesar da palavra "Majick" estar grafada de forma diferente do termo cunhado por Crowley, não há dúvidas quanto à referência, concordam?



E, claro, não posso deixar jamais de citar onde a influência de Aleister Crowley mais se faz sentir na cultura popular brasileira, embora as gerações mais novas não façam idéia disso: As letras das músicas de Raul Seixas! O roqueiro baiano, em parceria com nosso Constantine tapuia, o "mago" Paulo Coelho, não compuseram uma, nem duas canções baseadas na filosofia Thelêmica, mas VÁRIAS! Entre elas, Sociedade Alternativa, Novo Aeon e A Lei.

Sociedade Alternativa

Novo Aeon
Nos quadrinhos, a principal forma narrativa ficcional da contracultura, Crowley começou a aparecer aqui e ali a partir dos anos 1970. Mas a chamada Invasão Britânica, que, nos anos 1980, apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana. O “Sandman” de Neil Gaiman surge nos quadrinhos ao ser capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, é um rival). E em “Belas Maldições”, de Gaiman e Terry Pratchett, Crowley é o nome de um dos protagonistas: o demônio que se junta ao anjo Aziraphale na tentativa de impedir o fim dos tempos.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2017/11/30/%E2%80%98O-Livro-da-Lei%E2%80%99-marco-do-ocultismo-e-da-cultura-pop

© 2018 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.


A Lei

Excluindo-se o aspecto da Magia, para o benefício dos céticos, Aleister Crowley, para além de qualquer julgamento moralista, seja sob o padrão moral de seu tempo ou dos dias de hoje, estava décadas à frente do tempo em que viveu e personificou o pioneiro em várias atitudes e conceitos que seriam posteriormente associados a diversos movimentos ao longo dos séculos XX e XXI, como a afronta a valores pequeno-burgueses típica do punk; a auto imagem como sendo a própria obra do artista, uma característica de diversos performers contemporâneos; o advento do acesso da Ioga às massas; a liberação sexual, que eclodiu décadas após a morte de Crowley e reverbera até os dias de hoje. Aleister Crowley parece realmente ter sido o precursor de novos valores, de uma maré de mudança pela qual a humanidade vai passar, e que parece estar cada vez mais próxima. Ele bem que nos avisou...




E finalizando, não poderia deixar de citar os teoremas! Dentro da filosofia Thelêmica, foram elaborados certos teoremas para a prática da Magia. Esses teoremas, expostos de forma clara e sucinta, são um dentre as muitas pequenas revoluções que o inglês provocou no ato de se praticar Magia. Que tal experimentá-los? Verdadeiras palavras mágicas. Comentem lá embaixo como foram suas invocações a Glycon, Asmodeu e Choronzon hehehehe... 


TEOREMAS:
1. Todo ato intencional é um Ato Mágico.

2. Todo ato bem sucedido obedeceu ao postulado.

3. Todo fracasso prova que um ou mais dos requisitos do postulado não foram preenchidos.

4. O primeiro requisito para se causar qualquer mudança é preenchido através do entendimento qualitativo e quantitativo das condições.

5. O segundo requisito para se causar qualquer mudança é a habilidade prática de direcionar corretamente as forças necessárias.

6. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”.

7. Todo homem e toda mulher têm um curso, dependendo parcialmente de si próprios e parcialmente do ambiente, curso esse que é natural e necessário para cada um. Qualquer pessoa que seja forçada para fora de seu próprio curso, quer através do não entendimento de si própria, ou por meio de oposição externa, entra em conflito com a ordem do universo e, assim, sofre.

8. Um homem cuja vontade consciente esteja em choque com a Verdadeira Vontade está desperdiçando sua força. Ele não pode esperar influenciar o seu ambiente eficientemente.

9. Um homem que esteja realizando a sua Verdadeira Vontade tem a inércia do Universo a lhe assistir.

10. A Natureza é um fenômeno contínuo, apesar de nós não sabermos, em todos os casos, como as coisas são conectadas.

11. A Ciência nos capacita a tomar vantagem da continuidade da Natureza, pela aplicação empírica de certos princípios, cuja interação envolve diferentes ordens de idéias, conectadas entre si de uma maneira além de nossa atual compreensão.

12. O homem é ignorante da natureza de seu próprio ser e poderes. Mesmo a idéia que ele próprio tem sobre suas limitações é baseada na experiência passada, e, em seu progresso, todo passo estende seu império. Não há, portanto, razão alguma para que se assinalem limites teóricos para o que ele possa ser, ou para o que ele possa fazer.

13. Todo homem está mais ou menos ciente de que sua individualidade compreende diversas ordens de existência, mesmo quando ele acredita que seus princípios mais sutis são meramente sintomas de mudanças ocorridas no seu veículo grosseiro. Pode-se assumir que uma ordem similar seja estendida a toda a natureza.

14. O homem é capaz de ser e de usar tudo aquilo que ele percebe, pois tudo o que ele percebe é, de um certo modo, uma parte do seu ser. Ele pode, assim, subjugar todo o Universo do qual ele esteja consciente à sua Vontade individual.

15. Toda força no Universo é capaz de ser transformada em qualquer outro tipo de força, através do uso dos meios adequados. Há, portanto, um suprimento inexaurível de qualquer tipo particular de força de que venhamos precisar.

16. A aplicação de qualquer força afeta todas as ordens de existência que há no objeto ao qual é aplicada, quaisquer dessas ordens sejam diretamente afetadas.

17. Um homem pode aprender a usar qualquer força de modo a servir a qualquer propósito, tirando vantagem dos teoremas acima.

18. Ele pode atrair a si mesmo qualquer força do Universo, tornando-se um receptáculo apropriado a ela, estabelecendo uma conexão com ela e arranjando condições tais que a natureza dela a compila a fluir até ele.

19. O senso do homem acerca de si próprio, como separado de, e oposto a, o Universo, é uma barreira para que ele conduza as correntes universais. Isto o deixa ilhado.

20. O homem somente pode atrair e empregar as forças para as quais ele esteja realmente preparado.

21. Não há limites para o número de relações de qualquer homem com o Universo em essência; pois, tão logo o homem se torne uno com qualquer idéia, os meios de medida deixam de existir. Mas o seu poder para utilizar essa força é limitado por sua força e capacidade mentais, bem como pelas circunstâncias de sua condição humana.

22. Todo indivíduo é essencialmente suficiente para si mesmo. Mas ele é insatisfatório para si mesmo, até que estabeleça a sua relação correta com o Universo.

23. Magia é a Ciência de entender-se a si próprio e suas condições. É a Arte de aplicar este entendimento à ação.

24. Todo homem tem o direito incontestável de ser o que é.

25. Todo homem deve fazer Magia cada vez que ele age, ou mesmo pensa, posto que um pensamento é um ato interno, cuja influência acaba afetando a ação, mesmo que não seja assim naquele momento.

26. Todo homem tem um direito, o direito à autopreservação, a completar-se ao máximo.

27. Todo homem deveria fazer da Magia a chave mestra da sua vida. Deveria aprender suas leis e viver por elas.

28. Todo homem tem o direito de preencher a sua própria vontade sem ter medo de que isto possa vir a interferir com a vontade dos outros; pois se ele estiver em seu próprio lugar, será culpa dos outros, se interferirem com ele.




terça-feira, 15 de agosto de 2017

MEIA-NOITE >>>>>>> BATMAN, ou “Como o Batman gay da Wildstorm pode te ensinar a ser macho de verdade!”





Por EDUARDO CRUZ


Nesse exato momento estamos passando por uma época turbulenta no que diz respeito à produção de histórias em quadrinhos (mainstream), em que anda muito em voga a tal da representatividade. Nas HQs têm surgido vários personagens para representar segmentos da população antes ignorados, as tais “minorias” (alguém mais aí detesta esse rótulo? Geralmente as tais “minorias” são numericamente superiores a quem as rotula assim, não é mesmo? Mas nomear algo é ter poder sobre essa coisa, lembrem disso...), como personagens muçulmanos (Kamala Khan, a Miss Marvel, ou Simon Baz, mais um lanterna verde), ou versões femininas de personagens que eram masculinos há décadas, como as novas Thor(a) e a Homa de Ferro. Vocês também devem estar cientes do nó que isso tem dado na cabeça de muitos leitores mais conservadores (acomodados?), que não admitem uma sacudida no status quo dos gibizinhos que lêem, e vão em bando xingar na Internet. Uma mudança de etnia aqui, uma mudança de sexo ali, e a internet desaba! (de novo!).



Polêmicas desnecessariamente exageradas costumam acontecer também vez ou outra com personagens gays. Apesar de não serem novidade nas histórias em quadrinhos, vide o Estrela Polar na Marvel, ou o Extraño, da DC, eles sempre deixaram muito a desejar por geralmente caírem nos clichês ou serem escritos de forma muito superficial, a ponto de a orientação sexual não fazer nenhuma diferença em nada na história. Era sempre um dado mal utilizado, ignorado ou jogado desleixadamente na trama. Esse cenário mudou um pouco depois que Warren Ellis e Bryan Hitch criaram a dupla/casal Apolo e Meia-Noite. 


Claramente inspirados no Batman e no Superman, Apolo e Meia-Noite eram parceiros e integrantes do Stormwatch Black, uma espécie de time auxiliar de serviços sujos do Stormwatch, o supergrupo da Wildstorm, selo da DC comics sem relação com o universo DC, mas que posteriormente foi incorporado a ele. Antes da incorporação ao universo DC, o casal ainda fez parte do Authority, um grupo de meta humanos que fazia justiça sem rabo preso com política, e que teve nomes muito bons a cargo dos roteiros (Warren Ellis novamente, Mark Millar), até passar por outras mãos menos competentes e se tornar mais um gibi de super heróis sem relevância, entre tantos outros. Já incorporado ao universo DC, o personagem chegou a fazer uma parceria (profissional) com o ex Robin e Batman temporário, Dick Grayson (e não, não vou fazer piadas com o duplo sentido do nome Dick aquele viadinho rs).

Batman e Superm..., digo Meia-Noite e Apolo!

Logo, hoje em dia a DC tem (pelo menos!) dois Batmen: o Bruce Wayne que a gente conhece desde 1939 e o Meia-Noite. E não me levem a mal, o Batman é legal à beça, mas o Meia-Noite consegue ser ainda mais cool. 

Duvida? Por isso fiz esse texto, para elencar alguns dos melhores momentos desse personagem, que sem forçação de barra em termos de representatividade, diversidade e "lacração", conquista os leitores, seja qual for a sua orientação sexual heheheh.

Então vamos lá:

1 - ARMAMENTOS E EQUIPAMENTOS:

Diferente do Batman, com seus gadgets hi-tech para qualquer situação, Meia-Noite tem um pequeno arsenal embaixo daquele sobretudo - de preferência instrumentos que causem muita dor rs. Quanto mais medieval, melhor. Pra que sofisticação se o rústico pode ser muito mais divertido?

Aquilo é um mini grampeador??? UI!!!!

2 - CAPACIDADES FÍSICAS:

Diferente do Bátemã, com sua fisiologia humana comum, Meia-Noite tem um sistema imunológico modificado para sobreviver a ambientes hostis, além de velocidade, resistência e força superiores às de um humano comum. Bane não teria a menor chance. Ele é quem seria quebrado ao meio heheheh.




O Meia-Noite aguentando CONSCIENTE uma cirurgia de peito aberto e você aí, chorando com uma topada no dedão... SEJE HÔMI!!!!



3 - TÉCNICAS DE LUTA:

Batman, como até o seu sobrinho de 4 anos sabe, treinou, treinou e treinou, ao longo de anos, diversos estilos e técnicas de artes marciais. Já o Meia-Noite possui aprimoramentos físicos e implantes cerebrais que conseguem prever qualquer tipo de reação que o adversário venha a ter. E se for preciso, ainda luta sujo à beça...



Sambando na cara dazinimiga.



4 - FURTIVIDADE:

Vamos combinar que sem um arpéu ou bombas de fumaça para uma saída estratégica é muito mais difícil ser furtivo. Meia-Noite é furtivo sem nenhum desses brinquedos. Ponto.

Onde está Wally?


5 - TOLERÂNCIA COM ADVERSÁRIOS:

Ao contrário da Morcega, que sempre poupa seus inimigos para voltarem a aterrorizar o mundo, Meia-Noite é mau pra cacete (embora às vezes seus corações - sim, ele tem um coração de back-up rs - amoleçam de vez em quando, mas não fui eu quem contou isso!) e normalmente neutraliza as ameaças com força letal.


"Você provavelmente vai morrer de qualquer maneira, não é?"


"Eu não consigo passar por tantos nazistas assim sem fazer nada."

6 - FRASES DE EFEITO:

Em matéria de frases de efeito, Batman tem momentos memoráveis nesses quase 80 anos de cronologia, mas a tirada mais incisiva da Morcega não se compara ao estrago que Meia-Noite pode fazer apenas com palavras. O membro mais perigoso do Authority  adora soltar suas frases de efeito no melhor estilo de humor deadpan. E às vezes até vence confrontos apenas com diálogo! Certamente a arma mais afiada do Meia-Noite é a sua língua...










Jack Hawksmoor: "Sabe qual é o seu problema? você perdeu o contato com gente comum."
Meia-Noite: "Isso não é verdade. Eu nunca estive em contato com eles, pelo que sou grato toda vez que assisto televisão."





7 - VIDA CONJUGAL E PATERNIDADE:

Nesse quesito o Morcego perdeu feio! Todas essas décadas de vida conjugal atribulada, com a persona promíscua do playboy Bruce Wayne, mais a rotina rigorosa de combatente do crime de seu alter ego renderam muitas e muitas piadinhas maldosas quanto à sexualidade do personagem. Essa imagem tem, recentemente, mudado um pouco graças ao roteirista Tom King, que já colocou a Morcega pra pedir a Mulher Gato em casamento (finalmente desencalhou!). A maior vantagem do Meia-Noite é que ele não dá margem para esse tipo de gracejo maldoso. Essa é a condição do personagem e pronto! Vai encarar? Meia-Noite e Apolo são um casal, são muito bem resolvidos com isso e apesar da fachada rude e psicótica dele, o relacionamento dos dois funciona e vai muito bem, obrigado.





 
Outro ponto em que Batman não é tão bem sucedido quanto a sua contraparte é com relação à paternidade:  enquanto Batman se envolveu com a filha de um de seus maiores inimigos, gerando uma criança problemática e com rompantes de fúria psicótica frequentes, o casal Apolo/Meia-Noite tenta dar uma criação "normal" para sua filha adotiva, Jenny Quantum. Como diz o ditado, "Pai é quem cria".


Enfim, casca grossa, forte, pleno de convicções, com alguma profundidade e desprovido de muitos clichês, Meia-Noite é um personagem que representa a diversidade sem generalizações infantilóides. Em uma entrevista ao Comic Values Annual em 1999, Ellis se referiu ao personagem como "O Sombra, se fosse concebido por John Woo". 

Namore com alguém que olhe para você como o Meia-Noite olha para o Apolo: "NÃO É UM ALVO!"

Finalizando o assunto, e parafraseando o geógrafo Milton Santos: "Não alcançamos o patamar de humanidade. Estamos ainda nos ensaios.". O que demonstra isso com clareza é o fato de em pleno século XXI questões como identidade sexual e a (presumida) prevalência de um gênero sobre o outro ainda fazerem parte da pauta diária da sociedade, quando já deveríamos ter alcançado um nível de desenvolvimento suficiente para essa questão social estar consolidada como um status de igualdade em definitivo e assim focarmos em coisas bem mais importantes, tantas que nem vou começar a enumerar aqui! Ou pra voltar ao campo dos quadrinhos, cito Garth Ennis, que já escreveu antes em Preacher e em mais outras duas ou três histórias a mesma idéia recorrente, mas que vale a pena repetir: "Deveríamos estar nas estrelas agora, e não ainda chafurdando na poeira!"



O mundo mudou. A música mudou. Até as drogas mudaram. Por quê os gibis têm que continuar na mesma? O que eu propus aqui não é uma cagação de regra absoluta, é apenas uma opinião pessoal. Histórias em Quadrinhos, quando bem executadas, são reflexões embaladas em um pacote de arte e entretenimento. E, se toda obra de arte é fruto de seu tempo - e devemos aí incluir Histórias em Quadrinhos como obra de arte SIM -, essa mídia também precisa cumprir o seu papel em representar a realidade, mesmo que com generosas doses de fantasia, abstração e escapismo. O texto acima, apesar de um pouco de zoeira pra deixar tudo mais leve, evoca um pouco das minhas reflexões sobre o tema. Pensem nisso como um exercício de tolerância, e aproveitem para comentar lá embaixo ou em em nossa página do Facebook. Vamos ampliar esse debate. Mas de forma sadia e madura. Afinal, lembrem-se do que aconteceu ao Cabo Kev Hawkins, o último infeliz que chamou titio Meia-Noite e sua cara metade de "viadinhos"...



Respeito às diferenças sempre, amiguinhos... Vou ficando por aqui!!! Um beijo e até a próxima!!!!