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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CROSSED, de Garth Ennis e Jacen Burrows, ou "É melhor jair se acostumando com o colapso da humanidade"






Por EDUARDO CRUZ




A Panini pode atrasar (muito), pode errar (pra kct!), mas dessa vez parece que o timing foi perfeito! Como visto na CCXP 2018, a Panini surpreendeu geral e mostrou cojones, finalmente anunciando a publicação de Crossed aqui no Brasil! O impossível aconteceu e a HQ mais insana, violenta, profana, cruel e pessimista já produzida vai ter os quatro primeiros volumes publicados por aqui. O quê, nunca ouviu falar em Crossed? Compreensível. O título é publicado nos EUA até hoje pela Avatar Press, uma pequena editora que surgiu por volta de 1996, mas só estourou mesmo na segunda metade da década de 2000, quando começou a publicar HQs autorais de nomes de peso como Alan Moore (Neonomicon, Providence), Warren Ellis (Verão Negro, Herói Nenhum, Superdeus) e Garth Ennis, que publicou pela Avatar essa pérola da perversidade humana, uma HQ tão barra pesada que provavelmente faria Karen Berger, a mãe loira do selo Vertigo, expulsar Ennis de seu escritório aos pontapés por tanta profanação e perversidade em tão poucas páginas. Pouca coisa da Avatar foi publicada aqui, mas parece que a Panini começa a investir pesado em títulos da editora, como Cinema Purgatório, e agora Crossed.



Crossed é uma história de apocalipse zum... Não, isso está errado, não são zumbis. É o seguinte: Pensem em uma infecção que se alastra através de mordidas, transmissão de fluidos e qualquer outra forma de contágio que George Romero possa ou não ter imaginado em seus filmes didáticos. Em questão de minutos, os infectados desenvolvem uma grande ulceração repugnante, uma ferida aberta em formato de cruz no rosto, tornando-os inconfundíveis das pessoas saudáveis. Além disso, os infectados perdem todas as inibições e qualquer traço de moralidade ou compaixão, além do instinto de auto-preservação, porém sem perder a cognição, a coordenação motora e a agilidade, sendo assim capazes dos atos mais perversos, mas ainda sabendo, por exemplo, operar máquinas e veículos, só que para fazer as maiores atrocidades possíveis com elas. É como se o id, totalmente desbalanceado e finalmente livre das restrições do ego e do superego, estivesse livre para realizar todos os atos sombrios a si mesmo ou a outros. Tudo de cruel que você possa ter pensado, mas chutado de volta pro canto escuro da sua mente sem nunca ter feito, como "O que acontece se eu colocar um bebê no microondas?" ou "Quantas facadas posso dar nas minhas partes íntimas antes de sangrar até morrer?", "Quanto tempo leva pra se matar alguém a golpes de pênis de cavalo?" (sim, isso está na HQ rs) ou simplesmente falar as coisas mais horríveis e dolorosas para alguém que você ama. Pura maldade. 

Sim, aquilo na mão dele é um pênis de cavalo. É aqui que você desiste de ler essa resenha rs...





Mas é violência gratuita????


Esta primeira mini série se passa dez meses após o início da epidemia e acompanha um pequeno grupo de sobreviventes, reunidos ao acaso, que liderados por uma mulher, empreendem uma marcha para o Alasca, o local mais isolado possível naquele hemisfério do globo. Ao longo das dez edições, vemos muitos flashbacks mostrando como cada personagem foi parar ali e também vemos sua fuga de um pequeno grupo de infectados dotados de mais auto controle e determinação que outros doentes, determinados a caçar os sobreviventes.



O resultado disso é a HQ mais gráfica e cheia de gore já produzida, por muitas vezes contendo cenas altamente perturbadoras de atos de brutalidade e violência que alguns leitores jamais imaginariam ver em um gibi, inclusive de natureza sexual: Ser pego por um grupo de infectados invariavelmente significa um estupro coletivo, para, inevitavelmente se juntar às hordas de infectados, caso seja poupado(a). Fora a violência sexual, o catálogo de barbaridades desfiado nas páginas da HQ mostra o quão longe a imaginação humana pode ir quando se dedica tempo demais pensando desgraceiras: Várias capas de Crossed foram censuradas em diversos países por retratarem cenas impactantes demais. Por várias vezes me peguei em uns devaneios perturbadores, saindo da leitura e entrando numa bad trip imaginando as cenas e situações da HQ na vida real. É de tirar o sono...




Crossed faz The Walking Dead parecer um gibi da Disney, e acredito que 90% dos leitores não estão prontos para uma história desse tipo, mas pra quem tem estômago para ler além da maldade, desmembramentos e mutilações existe todo um cenário riquíssimo para reflexões e debates a respeito da natureza humana, imperfeita desde sempre, porém mais deturpada do que nunca nos dias atuais, desviada ao seu potencial máximo à medida que o século XXI avança em sua inexorável marcha rumo a um colapso em várias frentes. As relações humanas cada vez mais esvaziadas e desprovidas de significância, tornando o ser humano cada vez menos humano, sem empatia, sem compaixão, alguns inclusive pedindo pela tortura e morte de seus semelhantes.... peraí, será que dá pra concluir que já temos alguns desses infectados entre nós então? Infelizmente eles não têm  a cara marcada, mas o padrão mental já é praticamente o mesmo. Tsc, que bosta de constatação...








Em situações limite todo mundo vira monstro?

Em tempos monstruosos todos se tornam monstros e vemos muitas situações que reforçam esse dito no decorrer de Crossed, como a professora do jardim de infância que recorreu ao canibalismo para proteger as crianças de sua turma que ficaram sob sua responsabilidade, ou o serial killer que pede um pouco de compreensão agora que não é mais a pior coisa à solta por aí. Mas como dá pra ver no noticiário todos os dias, nem é preciso tanta coisa pra tudo descambar pra barbárie. Quanto mais nos aproximamos da beira do abismo, mais certeza eu tenho de que não vai ser necessária nenhuma infecção para começarmos a ver algumas dessas situações na vida real... Por mais desconfortável e perturbador que seja admitir isso, já existem algumas pessoas considerando Crossed tão profética quanto Idiocracy ou Mad Max. Acho que virei uma delas.







Um pequeno parêntese...

A violência de Crossed, desmedida e sem causa aparente pode lembrar o enredo de alguns filmes, como o clássico ¿Quién puede matar a un niño?, produção espanhola de 1976, dirigido por Narciso Ibañez Serrador. A película conta a história de um casal de férias que vai a uma pequena ilha mediterrânea. Lá descobrem que todos os adultos foram assassinados e as crianças são movidas apenas por atos de violência sem qualquer explicação ou motivo. Um filme que causou controvérsia na época de seu lançamento, mas ganhou status cult alguns anos depois.


¿Quién puede matar a un niño? (1976)

Também fica fácil associar Crossed ao New French Extreme, termo cunhado para designar alguns filmes transgressores de diretores franceses (duh) da virada do século XXI que resgata toda a intensidade gore de filmes de horror dos anos 70. Produções como Irreversível (2002), Fronteira(s) (2007), A Invasora (2007) e Mártires (2008), que têm como característica comum um enredo encharcado de violência explícita, muito gore e sanguinolência, mortes grotescamente criativas e uma conclusão geralmente pendendo para o pessimismo extremo. Não são filmes que qualquer um aguenta assistir. Assim como Crossed não é um gibi pra qualquer garoto de 14 anos folhear...

Haute Tension (2003)


Irreversible (2002)


À l'intérieur (2007)


Martyrs (2008)



"Não leve as coisas tão a sério, daqui a 100 anos estaremos todos mortos mesmo..."

Apesar do conteúdo pesadíssimo, Crossed fez sucesso e teve outras sequências publicadas abordando outros ângulos e personagens desse universo pavoroso. Logo após a mini série inicial, Seguiram-se as mini séries Crossed: Family Values, Crossed: Psychopath, cada uma consistindo de apenas um arco cada, e em seguida Crossed: Badlands, que chegou a 100 edições (e que a Panini deve completar por aqui em 2037). Todas essas mencionadas acima tiveram uma alta rotatividade de artistas e roteiristas, incluindo o retorno de Ennis em alguns arcos de Crossed: Badlands, além de David Lapham (Balas Perdidas), Kieron Gillen (Phonogram, The Wicked + The Divine) e Max Bemis (Cavaleiro da Lua), entre outros. Achou pouco? Também há o spin-off Crossed: Wish You Were Here, que durou cerca de quatro volumes. 





Pra acabar de estourar a cabeça de quem já acompanhava a série, em 2015 a Avatar publicou Crossed + 100, uma história ambientada 100 anos após os acontecimentos da mini série original, de autoria de Alan Moore! Crossed + 100 intensifica os elementos de uma história já instigante criando um mundo futurista perigosíssimo, com os costumes e conhecimentos do passado (nosso tempo presente) perdidos ou fragmentados, em que os sobreviventes, que vivem em pequenas comunidades isoladas umas das outras, tentam remontar um quebra cabeça histórico escavando arquivos em bibliotecas, casas e prédios abandonados. 

  


A civilização de sobreviventes que Moore desenvolve em Crossed + 100 é mais uma vez, a demonstração do 'algo mais' do roteirista em ação, aquela camada de realismo e/ou consistência acima da média que ele sempre consegue incutir em seus melhores trabalhos. Vemos uma civilização fragmentada que, apesar de forçada a um retrocesso tecnológico e acuada pelos infectados - um risco que nunca passou - estranhamente possui características mais progressistas que nossa sociedade atual, em especial com relação à orientação sexual: a monogamia inexiste e não raro vemos os personagens se envolvendo com pessoas de ambos os sexos (nada como um problema DE VERDADE batendo à sua porta pro povo parar de se preocupar com o cu alheio, né?;>)). Além disso, o aspecto patriarcal da sociedade enfraqueceu a ponto de vermos posições de líderes espirituais exclusivas do sexo masculino como, por exemplo, o Imame dos muçulmanos, sendo ocupadas por mulheres, entre outros pequenos detalhes que nos levam a uma conclusão: O futuro imaginado pelo Barbudão é uma baderna gayzista-feminista-maconhista huahuahuahuha...


Ô jovem... larga esse Walking Dead caído que aqui tem tigre também!
Além da fauna composta de animais selvagens de zoológicos destruídos que agora vivem em meio às ruínas das cidades, Moore conseguiu fazer com que os próprios infectados se tornassem um perigo ainda maior, com uma reviravolta MUITO sinistra que eleva a periculosidade deles a um novo nível. Frieza, calculismo e perversidade horripilantes no que Moore concebeu para algo que já era bem barra pesada. Além disso, preciso deixar registrado aqui o desafio à parte que é ler essa HQ, haja visto que o Bruxão, como lhe é peculiar, extrapolou a língua inglesa, criando uma nova forma do idioma, o que é perfeitamente plausível, já que se passaram 100 anos e as linguagens estão sempre em transformação. Ler o inglês que Moore cria em Crossed + 100 é tão desafiador quanto ler o primeiro conto de A Voz do Fogo, primeiro livro em prosa do autor, uma história protagonizada por uma pessoa do período neolítico que se expressava sem utilizar verbos e advérbios, entre outros elementos gramaticais aos quais estamos habituados. A língua era algo mais, digamos, tosco. Tenho pena do tradutor de Crossed + 100 quando resolverem publicá-la aqui heheheh...



Quando um tradutor morre e vai parar no Inferno, ele é condenado a traduzir isso por toda a eternidade...
Se você nunca fez como Nietzsche e encarou o proverbial abismo e tampouco viu o abismo lhe encarando de volta, a leitura de Crossed pode equivaler a essa experiência e mostrar que a humanidade não é assim tão humana quanto pensa. Fica aqui o meu alerta pra quem não gosta de histórias pesadas, com teor violento e/ou pessimista. Passem longe de Crossed para manter seu mundo cor de rosa intacto. A quem permanece curioso, desejo meus mais sinceros votos para que vocês mantenham o conteúdo de seus estômagos do lado de dentro durante a leitura dessa HQ. Não se esqueçam que eu avisei, meus amores...




quinta-feira, 12 de julho de 2018

AKIRA, de Katsuhiro Otomo, ou "O pós-apocalipse nuclear japonês reinventado sobre duas rodas"





                                                                                                           Por RAY JUNIOR



"Dia 6 de dezembro de 1982, às 14h:17, houve o lançamento de um novo modelo de bomba na região de Kanto, no sudeste do Japão. Nove horas depois a Terceira Guerra Mundial foi oficialmente declarada."

Criado por Katsuhiro Otomo, Akira é um dos marcos da ficção científica oriental e também uma enorme referência na cultura pop mundial. Obteve destaque no mercado ocidental, sendo publicado na Europa e depois nos EUA  pelo selo Epic Marvel, da Marvel Comics em 1988. Mas para que isso ocorresse, grandes mudanças foram feitas a partir do modelo japonês publicado pela Kodansha. No caso norte americano, o próprio Otomo recomendou o famoso colorista Steve Oliff, pioneiro em colorização digital que usou como base para as edições americanas a aquarela das primeiras páginas do mangá original. Ainda mais impactante que as cores, a inversão no modo de leitura, do oriental direita-para-esquerda para o ocidental esquerda-para-direita, também inverteu as páginas e as adaptações ficaram a cargo de Otomo e sua equipe. Tudo para facilitar a aceitação junto ao público leitor de quadrinhos norte americano, afinal os tempos eram outros e o mangá não tinha o peso e a popularidade que tem hoje mundialmente. Essa adaptação aos moldes americanos, que não era exclusiva daquela época, ainda é feita constantemente, principalmente no cinema e seriados de TV. Em dezembro de 1990, a editora Globo lançou o primeiro número de Akira no Brasil utilizando como base a edição da Marvel, em 68 páginas, formato americano, papel couchê e arte de capa própria, tendo sua conclusão em março de 1998 no número 38.




Capa da edição número 1 da Epic Marvel...


Sou muito mais a capa brazuca da primeira edição da Globo!
 
Comparativo entre as versões + uma das muitas cenas fodas de ação em alta velocidade
As onomatopéias também não ficaram de fora do cuidadoso processo de adaptação pro ocidente



Nascido em 1954 na província de Miyagi, Otomo cresceu em um período conturbado no Japão e essa vivência teve bastante influência em sua maior obra. A ocupação americana pós segunda guerra durou sete anos (1945-1952) e empreendeu diversas reformas políticas e sociais, incluindo uma nova constituição. Após esse período, veio a retomada da economia japonesa e das relações exteriores recuperando parte de sua soberania como nação, pois ainda sofria o veto de manutenção de forças militares, além de ter que pagar indenizações para os países vizinhos agredidos durante a guerra. Com o desenrolar da Guerra Fria, os EUA posicionam mais tropas no Japão e estimulam a perseguição aos comunistas e a criação de forças para autodefesa. Essas idéias foram bem-vindas pelos conservadores, mas causaram protestos e insatisfação das classes trabalhadoras, estudantis, comunistas e socialistas. Otomo cresceu nesses anos de revoltas e insatisfações contra o governo, em que um período de efervescência da Guerra Fria gerava o medo de um holocausto nuclear mundial, revivendo o recente trauma dos bombardeios a Hiroshima e Nagasaki na sociedade japonesa. 

Depois de ser admitido na ONU, renovar tratados com os EUA e pagar as indenizações aos países vizinhos, em 1964 as Olimpíadas de Tóquio representaram uma nova esperança para o povo japonês, com homenagens as vitimas do holocausto e  manifestações de apelo a paz mundial. Esse marcante evento influenciou Otomo em Akira, onde as Olimpíadas também são um símbolo de retomada da esperança para o povo de Neo-Tokyo após a detonação da bomba e da Terceira Guerra Mundial. 

A subcultura Bosozoku, centrada na pilotagem e personalização de motocicletas, onde seus integrantes eram em geral jovens com menos de vinte anos de idade (idade da maioridade legal no Japão) que pilotavam motocicletas personalizadas, muitas vezes sem capacete e se envolvendo em pilotagens arriscadas, fazendo barulho e atravessando sinais vermelhos, serviram como inspiração para Shotaro Kaneda e as demais gangues em Akira. Posteriormente, a estética de filmes americanos como Blade Runner, Videodrome, Laranja Mecânica e 2001: Uma Odisséia no Espaço também o inspiraram para compor a futurista Neo-Tokyo. 



Membros de gangues Bosozoku foram retratados em vários mangás/animes além de Akira


Brigas generalizadas entre gangues rivais eram comuns e portar bastões de beisebol, bandeiras ou espadas de madeira era necessário quando a porrada estancava .
Born to be Wild made in Japan
KANEEEDDAAAA!!??!!?

Trailer de Burst City (1982), do diretor Sogo Ishii

Crazy Thunder Road (1980), também de Sogo Ishii

No ano de 2019, 38 anos após o fim da terceira guerra mundial, a reconstruída Neo-Tokyo é o cenário onde a trama ocorre. Uma cidade caótica, violenta, dominada por megacorporações, militarizada, com um sistema educacional ineficiente que não se conecta com toda uma geração pós-guerra de jovens órfãos, que sem rumo e perspectivas decai para marginalidade formando gangues que dividem a cidade em territórios e tem na violência e nas corridas em alta velocidade as válvulas de escape para descontar suas frustrações e tédio cotidianos. Os personagens centrais, Shotaro Kaneda e Tetsuo Shima, amigos desde a infância, fazem parte da mesma gangue e estudam na mesma escola técnica. Em uma noite se envolvem em acidente ao avistarem uma criança de estranha aparência na estrada. Logo, o exército aparece e Tetsuo é levado em uma ambulância para local desconhecido. A estranha criança desaparece. Kaneda e seus amigos começam a investigar o que pode ter ocorrido depois que Tetsuo desaparece, reencontram a criança e se envolvem em um conflito entre membros de um grupo da resistência e o exército pela posse de Takashi, ou número 26, a estranha criança, que começa a exibir poderes psíquicos.

Ao cruzar com Kei e Ryu, da resistência, Kaneda começa a entender o que esta acontecendo, sobre quem é o Coronel e o projeto militar que utiliza crianças em experimentos para criação de super humanos do qual Tetsuo agora faz parte, colocando os amigos em rota de colisão.

Elemento sempre presente na trama, as cápsulas são tanto o símbolo da gangue de Kaneda e Tetsuo, que utilizam cápsulas do que parece ser anfetamina pra terem onda e alto desempenho, tanto como inibidores que de certa forma controlam a alta atividade cerebral e diminuem as fortes dores de cabeça que as crianças especiais apresentam, além de gerar o interesse dos dois grupos em Kaneda, depois que ele toma posse de uma dessas. Uma provável alusão à popularização e glamorização do consumo desenfreado de cocaína e esteróides nos anos 70 e 80, visando desenvolvimento de desempenhos além do limite humano.


Hora da balinha!

"God for health, Bad for education" (Reprodução: pinterest.com)


Superdosagem? Que se foda!



Dia difícil? Seus problemas acabaram! (Publicidade dos anos 70)

Antes mesmo da conclusão do mangá, em 1988 foi lançado o longa metragem com orçamento milionário e participação direta de Otomo nos roteiros e produção, sendo escrito um final diferente para o mangá anos depois. O filme revolucionou em termos de qualidade da animação, fazendo uso de 120 frames por segundo, gerando um hiper detalhismo inédito pra época, além de uma trilha sonora marcante. O filme foi exibido nos cinemas do Brasil e posteriormente sucesso nas videolocadoras (lembram delas?), e foi o primeiro contato de muita gente com a obra e animes em geral.

Um dos pôsteres do filme e o jovem Otomo na época do lançamento


VHS lançado no Brasil pela Europa Home Video (Reprodução: mercadolivre.com)


A volta do mangá para o Brasil pela JBC, sendo publicado no inédito formato original, deixou os fãs extasiados. A periodicidade foi comprometida devido a remasterização do material e longos processos de aprovação da edição nacional por parte da equipe de Otomo no Japão. Anunciado em 2015, o primeiro volume saiu em junho de 2017, enquanto o segundo já se encontra entre nós cerca de pouco mais de um ano depois. A coleção, que tem tratamento de luxo que o título merece, contará com 6 volumes, e todos estamos ansiosos pra ter isso completo por aqui. Se continuar nesse ritmo ainda vai demorar um tempão pouco, mas a espera certamente vai valer a pena.




Que lindeza!! <3
Otomo e a edição japonesa que é o padrão a ser seguido estritamente pelos licenciadores


Comemorando 30 anos do lançamento do filme agora em 2018, Akira é uma das obras mais influentes da ficção científica no multimídia, além de um dos principais expoentes do que viria a se tornar o subgênero cyberpunk. Inspirou grande parte dos mangás e animes produzidos nos anos 90 como Neon Genesis Evangelion, Ghost in the Shell, Bubblegum Crisis, Battle Angel Alita, Cowboy Bebop e pós anos 2000 como Blame e Psycho Pass. No cinema do ocidente, filmes como Matrix e a animação Animatrix, O Vingador do Futuro, Screamers, Poder Sem Limites, Destino Especial  e séries como Stranger Things e Altered Carbon.
Notícias sobre a adaptação de um live action de Akira para as telonas são comuns desde meados dos anos 2000 quando a Warner adquiriu os direitos, mas como nunca chegou a ir pra frente, o filme virou uma espécie de lenda urbana. Inúmeros diretores, roteiristas e produtores manifestaram interesse em adaptar a obra, mais recentemente o diretor Taika Watiti, declarando publicamente que faria uma adaptação direta dos mangás, mas ainda não se sabe ao certo se um projeto está realmente em andamento.

Taika Watiti, o nome da vez?? ( Reprodução: ovicio.com.br )

Sendo uma atração a parte, a memorável trilha sonora de Akira, feita por Geinoh Yamashirogumi serviu como base para o artista Bwana lançar um album chamado "Capsule's Pride" lançado em 2016. Partes da trilha, diálogos, ruídos e efeitos foram extraídos e reciclados de forma bem inteligente, recontando de forma linear os eventos passados na animação. Vale conferir, o resultado ficou excelente!



Uma coisa é certa, tanto o anime quanto o mangá são uma incrível experiência estética aliada a uma narrativa que é diferente em cada mídia e mesmo assim obtém bons resultados, cada um funcionando, e muito bem, à sua maneira. Algo que pouco se vê nos dias de hoje, com adaptações cada vez mais problemáticas, mesmo quando os próprios criadores da obra original estão envolvidos. Além de manter-se como uma história de vanguarda, a obra prima de Otomo ainda previu as Olimpíadas de Tóquio de 2020 trinta anos antes! Só espero que as previsões parem por aí, porque as coisas podem não acabar muito bem se tudo se realizar ao pé da letra...

(Reprodução: complexogeek.com)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A MENINA QUE TINHA DONS, de Mike Carey, ou "Ser humano não é nascer humano!"






Por EDUARDO CRUZ





Era uma vez uma menina.
Seu nome é Melanie. 
Melanie é uma menina adorável.
Melanie adora ler, é curiosa e vivaz, tem um QI evidentemente elevado, adora estudar e ama mitologia grega, em especial o mito de Pandora, que guardava todos os dons e todos os males em uma caixa.
Melanie é a menina que qualquer um se orgulharia de ter como filha.
Exceto por um detalhe: Melanie carrega um patógeno altamente contagioso e mortal, responsável pela gradual extinção da humanidade. Patógeno esse que transforma seus portadores em feras famintas, que devoram tudo que é vivo.




Ok, eu sei que essa última parte pode ter desanimado um pouco. "Ôrra, gordô, mais um livro de apocalipse zumbi, meu???". Pois é, eu mesmo comecei a ler e já tinha até decidido nem resenhar, porque era no que eu achava que tinha esbarrado: mais uma história de apocalipse zumbi, pós The Walking Dead. Preguiça só de pensar, não é mesmo??? 
Na Verdade, A Menina Que Tinha Dons é mais do que apenas um livro de zumbis, é uma história desesperançada nos moldes de Eu Sou A Lenda (bom, talvez não TÃO desesperançada assim hehehe), com personagens arquetípicos, porém bem interessantes, como o soldado durão, a menina heroína da história, a cientista louca, etc... Descobri o livro por causa do trailer da adaptação cinematográfica, que vi por acaso no YouTube, e claro, decidi dar um confere no material original.







A história se passa em um futuro distópico, cerca de 20 anos após a epidemia que transformou boa parte da humanidade nos Famintos, como os infectados são chamados na história. O agente infeccioso é uma mutação de um fungo, o Ophiocordyceps unilateralis, que infecta certas espécies de formigas, controlando-as enquanto se alimentam delas. E sim, esse fungo existe de verdade!



Percebam que o narrador fala da importância do Cordyceps para o controle populacional de algumas espécies de insetos. 
Agora notem como a espécie humana tem alcançado números desordenados e insustentáveis.
Agora tentem dormir depois dessa minhoquinha que eu pus na cabeça de vocês.
Boa noite hehehe.




Carey extrapola este conceito da "formiga zumbi" e o adapta à espécie humana como premissa de seu livro. O fungo modificado se apossa do sistema nervoso central do infectado e o transforma em uma máquina de mastigar e disseminar a infecção. Mas este é apenas o primeiro estágio da doença. O que vem a seguir é ainda mais nojento e mais perigoso, mas pra saber do que estou falando, leia o livro ;>) 



A história começa em uma base militar de pesquisas científicas na Inglaterra, e seu staff é composto de militares, professores, cientistas... e crianças. As crianças são infectadas, mas são especiais: elas mantêm sua capacidade de raciocínio, verbalização e cognição intactas, até que algo desperte o patógeno e elas virem feras famintas. Normalmente o gatilho é o cheiro, o calor corporal e até mesmo a linguagem corporal dos não infectados. Os professores dão aulas a estas crianças, uma maneira de avaliar a cognição e as reações delas. Tudo parte do trabalho de pesquisa para entender o cérebro infectado e tentar descobrir uma cura.


""Então a criança esteve sentindo nosso cheiro o dia todo e estava ficando meio louca de fome. Ela estava morta de medo de ter um surto e morder um de nós. Particularmente você. E foi por isso que ela queria que eu não lhe contasse nada. Ela não queria que você pensasse nela desse jeito, como um animal perigoso. Ela quer que você pense nela como uma criança de sua turma.""

Tecnicamente, os pesquisadores da base não as consideram humanas. Menos a Srta. Justineau, uma professora que acabou se importando demais com as crianças, especialmente com Melanie. Quando Justineau descobre que Melanie é a próxima a ir para um pavilhão de pesquisa de onde as crianças não voltam mais, a afeição fala mais alto e Justineau tenta resgatar Melanie das mãos da Dra. Caldwell, a pesquisadora chefe da base. O problema é que nesse exato momento a base é atacada por Lixeiros, humanos não infectados que vivem como saqueadores e bárbaros. Justineau, Melanie, a Dra. Caldwell, o Sargento Parks e mais um soldado, o jovem Gallagher, conseguem escapar dos Lixeiros e dos infectados que tomam conta da base, e agora eles têm um longo caminho até Beacon, a última grande cidade fortificada que restou, mas essa jornada suicida no mundo exterior é cheia de perigos e surpresas e muita coisa pode acontecer...


"(...) E, por fim, é tedioso, se algo pode realmente ser ao mesmo tempo assustador e tedioso. Todas as casas são iguais para Gallagher. Escuras. Cheirando a mofo, com carpetes esponjosos, cortinas mofadas e borrifos de bolor preto pelas paredes internas. Atulhadas de milhões de coisas que não fazem nada a não ser atrapalhar seu caminho e quase fazer você tropeçar. É como se antes do Colapso as pessoas costumassem passar a vida toda fazendo casulos para si mesmas com os móveis, objetos de decoração, livros, brinquedos, quadros e todo tipo de merda que conseguissem encontrar. Como se esperassem nascer do casulo como outra coisa. O que alguns acabam sendo, é claro, mas não do jeito que esperavam."

A Menina Que Tinha Dons é o primeiro romance de Mike Carey, que alguns de vocês vão lembrar ser um roteirista de quadrinhos. Carey já escreveu edições de X-Men, Quarteto Fantástico Ultimate, Hellblazer, Lúcifer e a adaptação em quadrinhos de Lugar Nenhum, um livro de Neil Gaiman. Não é exatamente meu escritor favorito desse pessoal da Invasão Britânica, porém, surpreendentemente, devo admitir que meu ranço por esse cara foi embora depois de ler sua estréia como romancista. Carey se mostrou um ótimo contador de histórias, e nos conduz por passagens de medo, adrenalina, tensão, comoção, tudo sem perder a mão até o final inusitado e imprevisível (no bom sentido!). 

Mike Carey





A menina Melanie que Carey constrói é incrível: superdotada, sensível, bastante corajosa e inclusive muito madura e realista a respeito de sua condição inumana. Ela entende que é uma espécie de faminto, pero sin perder la ternura jamás. Aceita isso sem necessariamente se entregar à sua sina. Tenta manter o que ela entende como sua essência. E aí reside a grande ironia de A Menina Que Tinha Dons: em um cenário onde a humanidade está desaparecendo, cabe a uma criatura não humana manter acesa a tocha da humanidade, botando o termo em xeque, como uma condição a ser atingida e não um status garantido por uma prerrogativa biológica. Em outras palavras: ser humano não é nascer humano! Outros personagens, como o sargento Parks, por exemplo, transcendem qualquer clichê possível e vão crescendo e se mostrando muito mais do que parecem a princípio. Na verdade, todo o livro em si vai crescendo no leitor à medida que a história avança, um tanto lenta e filosófica no início, para depois virar uma montanha russa entremeada com momentos de tensão onde você se pega prendendo a respiração, como nas partes em que o grupo é caçado pelos Lixeiros ou os ataques de multidões de infectados que ameaçam o grupo.


No mito de Pandora, que guardava todos os dons e todos os males em sua caixa, após abri-la e deixar escapar tudo, ela só conseguiu manter uma coisa encerrada na caixa: a esperança. Carey usou uma metáfora nada sutil para esse mundo assolado por um mal imenso, e viver em uma situação dessas exige algo que muitos não seriam capazes de fazer: manter a esperança. Uma história tocante sobre o sentimento de proteção que se desenvolve por alguém querido, sobre afeto, crueldade e sensibilidade, A Menina Que Tinha Dons é surpreendente e merece não passar em branco. Caiam dentro dessa história sem ressalvas, mas não se esqueçam de passar o bloqueador E nas axilas, virilhas, rosto e braços, ou eles vão te encontrar pelo cheiro...