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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Genealogia Lovecraftiana #002: A TERRA DA NOITE, de William Hope Hodgson








Por EDUARDO CRUZ




"Como podereis saber, como eu sei, a grandeza e o terror das coisas de que falo às claras? Pois nós, com a ridícula duração de nossas vidas não temos grandes histórias para contar, a não ser os poucos detalhes que sabemos dos anos que vão além de poucos milhares. Eu, porém, devo contar-vos nas páginas breves de minha vida aqui, o bastante de minha vida que foi, da vida que tive, dentro e fora da Poderosa Pirâmide, para deixar claro a quem possa ler a verdade daquilo que conto. Porém, as histórias do Grande Refúgio não se ocupavam de poucos milhares de anos, mas de milhões, até perderem-se nas trevas do que concebiam como os primeiros dias da Terra, quando o sol, talvez ainda brilhasse fracamente no céu do mundo. Mas, de tudo que houvera antes, nada sobrara, a não ser mitos e matérias que tinham de ser acatadas com cautela e tidas em dúvida por homens sãos e de sabedoria provada."



E eis que temos mais um livraço a sair do forno em 2018, dessa vez um clássico da literatura pós apocalíptica que levou 106 anos para ser publicado no Brasil! Bom, é como dizem: Antes tarde do que nunca! O livro A Terra da Noite foi originalmente publicado em 1912, mas inexplicavelmente, como muitos outros títulos, nunca ganhou uma edição nacional. A obra é um dos trabalhos mais notáveis do prolífico autor inglês William Hope Hodgson, que além de escrever contos e novelas, produziu ensaios e poemas, mas se destacava mesmo pela sua produção em terror, ficção científica e fantasia, além de se dedicar ao fisiculturismo (?!). Fora A Terra da Noite, Hodgson é conhecido por aqui pelo livro A Casa Sobre o Abismo, que teve uma adaptação em quadrinhos pela Vertigo em 2000, ilustrada pelo nosso queridão Richard Corben (e que foi publicada aqui com o título A Casa do Fim do Mundo pela Ópera Graphica em uma pavorosa edição em formato paraguaio e em preto e branco que me faz espumar de ódio só de lembrar. Nem o prefácio do Alan Moore salva essa publicação!). Hodgson teve uma morte trágica e prematura aos 40 anos, na Primeira Guerra Mundial, e era uma das influências confessas de Lovecraft, com suas histórias de horror estranhas e de escopo grandioso, como a dessa resenha em questão.

William Hope Hodgson


A Terra da Noite é um dos primeiros romances do subgênero Dying Earth (Terra Moribunda), um nicho da Ficção Científica com histórias ambientadas no futuro distante, ao final da vida na Terra ou no fim dos tempos, quando as leis da termodinâmica finalmente irão cessar e a entropia terminará por consumir tudo que existe. Temas como esgotamento dos recursos naturais, a já citada entropia e a esperança de alguma possível renovação predominam, e a diferença do Pós-Apocalíptico para o Dying Earth é que enquanto o primeiro subgênero trata de destruição catastrófica, o segundo aborda a exaustão entrópica da Terra, em um cenário sombrio e pessimista.  

Arte de J. Humphries


Arte de J. Humphries

A trama retrata nosso mundo daqui a milhões de anos no futuro. Nosso sol se apagou e os últimos humanos vivem confinados aos milhões no Grande Reduto, uma gigantesca pirâmide de metal de quilômetros de extensão e altura, no que talvez seja a primeira Arcologia da literatura. Do lado de fora, tudo é frio, estéril e desolado, e como se isso não bastasse, ainda há o cerco ao Reduto por criaturas malévolas e poderes desconhecidos na vastidão de noite eterna, em forma física ou etérea, seres que vão desde infernais cães maiores que cavalos até às colossais Sentinelas, monstros gigantes que observam o Reduto, imóveis há milênios, além de uma miríade de criaturas maléficas indescritíveis. Nosso protagonista, um jovem - e apaixonado - habitante da Pirâmide, resolve atender um distante chamado de socorro e se aventura na paisagem inóspita, enfrentando enormes perigos sobrenaturais. 

Arte de J. Humphries

Arte de Stephen Fabian

Arte de J. Humphries


A Terra da Noite foi publicado via financiamento coletivo pela Editora Clock Tower, uma editora pequena, porém extremamente engajada em trazer para o Brasil publicações clássicas de horror que sabe-se lá por quais razões foram ignoradas até então. Os caras são guerreiros, e se vocês não conhecem o trabalho sensacional que a Clock Tower desenvolve, shame on you! A editora resgata e lança uma luz sobre nichos e autores ainda injustamente ignorados por aqui, sempre relacionados direta ou indiretamente aos mythos de Lovecraft, ou no caso de Arthur Machen e Robert "O Rei de Amarelo" Chambers, influências seminais sem as quais talvez nossos queridos Cthulhu, Yog Sothoth e companhia não tivessem vindo a existir. A editora produz seus livros com muita garra, amor e tesão pela coisa, em um esquema de produção quase artesanal e na base do financiamento coletivo. Colaborei com o financiamento coletivo para a publicação de A Terra da Noite há cerca catorze meses e após tradução e revisões cuidadosas (e alguns problemas de força maior na revisão e com a gráfica), o livro finalmente foi para impressão em junho e entregue em agosto, se tornando assim o livro que mais gerou expectativas em toda a minha vida até agora rsrs. Pessoas são geradas mais rapidamente que os livros da Clock Tower, mas toda essa espera sempre vale a pena, porque no final, você tem em mãos material exclusivo e que costuma esgotar rapidamente! Mas fiquem frios: Denilson Ricci, o cabeça por traz da Clock Tower é extremamente confiável e atencioso, isso eu garanto. Perfeccionismo demanda tempo, garotada...   



“Mas, em todos os que se aventuravam no perigo da Terra da Noite, se inseria, sob a pele do lado interno do antebraço esquerdo, uma pequena cápsula. E, quando a ferida sarava, o jovem podia sair em sua aventura.

O propósito disso era que o espírito do jovem pudesse se salvar, se fosse capturado, pois, então, em honra de sua alma, ele morderia a cápsula e o seu espírito teria, imediatamente, a segurança da morte. Assim, julgai quão tenebrosos  horrendos eram os perigos da Terra da Noite.”


E o livro preenche todas as expectativas! Uma história que, fora um pouquinho de romantismo piegas e uma boa dose de machismo da era Vitoriana - vícios incontornáveis pertencentes à época em que foi produzido - carrega conceitos e elementos incríveis para uma história de Ficção/Fantasia que já tem 106 anos de idade: Idéias muito em voga a partir da segunda metade do século XX, como comunicação por telepatia; um pouco da tecnologia relacionada a eletricidade que Nikola Tesla concebeu é antevista aqui em equipamentos e armas; o conceito de Multiverso, mesmo que com uma nomenclatura diferente, também se faz perceptível; o Último Reduto da humanidade é uma fortaleza mega-arquitetônica que vai despertar em alguns leitores conexões com a Zion de Matrix, ou com a gigantesca nave colonizadora do filme Pandorum e até mesmo com a fortaleza de Immortan Joe em Mad Max - Estrada da Fúria, todas compartilhando a característica em comum de serem uma idealização de seus criadores para a preservação da humanidade. O livro conta com tradução e notas explicativas de José Geraldo Gouvêa, capa e dez ilustrações internas do artista Leander Moura, uma ótima biografia escrita por Filipi C. Pinto, além de mais alguns extras como glossário, notas finais e índice remissivo, além da relação dos nomes de todos que colaboraram com o projeto de publicação do livro (Sim, meu nome também está lá!😄).

Arte de Raymond C. Leung

O fabuloso Diskos, misto de machado medieval e motosserra elétrica, a arma mais confiável do futuro longínquo. Arte de Raymond C. Leung

O livro já foi comparado à obra de Tolkien, e até consigo ver o motivo desta comparação no quesito inventividade e ambição: Hodgson criou um mundo gigantesco e uma cronologia que abarca não milhares, mas milhões de anos, do "presente" do narrador protagonista, no século XVII, até esta era, sem sol e com a Terra moribunda. Além disso, existem outras idéias igualmente ousadas e que refletem todo o pessimismo em se aventurar fora do Reduto, como a tradição de se implantar uma pequena cápsula sob a pele do braço dos exploradores. Na eventualidade de um perigo impossível de se transpor, dentre as inúmeras aberrações e monstros que ocupam este mundo futurista moribundo, e com o intuito de "preservar o espírito", pois a morte física é algo brando perto das alternativas possíveis. Uma espécie de suicídio santificado. Uma solução desesperançada e cínica, que antevia os tempos negros à frente, às portas da Primeira Guerra Mundial. 


Arte de Zdzisław Beksińsk

Os monstros e criaturas são outro ponto de destaque da obra. Por vezes Hodgson representa entidades de imenso poder e com intenções insondáveis, ou simplesmente com uma aparente ânsia irracional por caos e destruição, ou até mesmo uma misteriosa indiferença. E é evidente que Lovecraft bebeu muito da obra de Hodgson como uma referência para compor a "personalidade" das entidades que viria a desenvolver. Forças opostas surgem, e parecem impedir as criaturas mais terríveis e poderosas de acabar com o Último Reduto, porém, essas forças aparentemente benéficas são igualmente misteriosas e insondáveis. Neste mundo existem criaturas que indubitavelmente tencionam destruir os humanos, e existem manifestações de Forças que não parecem compartilhar dessa intenção, embora também não se mostrem ostensivamente benéficas. Mas o mistério e as incertezas que pairam há milhares de anos sobre estes últimos podem ser tão perigosos quanto os primeiros. Em última análise, tudo é hostil e potencialmente perigoso neste mundo.  


“Então, crendo viajar por onde decerto encontraria as estranhas Portas na Noite, tive especial cuidado em meu progresso e me detinha, frequentemente, para ouvir e olhar, atentando para a Noite ao redor. Isto não serviu para evitar que eu encontrasse aquele pavor que assombrava o vácuo, pois, de repente, enquanto andava com todo cuidado, ouvi um distante zumbido descer da noite, ligeiramente atrás de mim, e o zumbido aumentou e ficou mais claro, e produziu aquele Som mais alto ainda. Depois de ouvi-lo, não pude duvidar que outra porta se abria acima, pois o som crescia da maneira como ouves um ruído distante que se aproxima, quando uma porta é aberta, de forma que o som, se produzido naquele lugar, parecera vir de outro. Mas esse som, embora vindo de perto, era como se chegasse de uma eternidade perdida e estranha. Tento explicar isso claramente, e não me culpeis muito por falhar, pois havia um horror tão medonho nisso que mal posso esquecer, e sempre tento fazer com que outros entendam como eu aquela desgraça e terror assombrando a noite.”
 

Arte de J. Humphries

Arte de J. Humphries

Arte de Stephen Fabian

Em seu ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura, Lovecraft descreve A Terra da Noite como "uma das mais potentes obras de imaginação macabra já escritas". Clark Ashton Smith, outro monstro sagrado das pulp fictions, escreveu que "Em toda a Literatura de Fantasia, existem poucos trabalhos tão puramente notáveis, tão puramente criativos quanto A Terra da Noite". Comparações com a prosa de Lovecraft são inevitáveis em certos trechos, como por exemplo a passagem abaixo. A Cor que Veio do Espaço? Não, A Terra da Noite!



“Era um lugar temível e estranho aquela Planície, como se um vácuo azul subisse da Terra por toda a região. A Planície não mostrava chamas, mas ficava oculta em uma estranha luz inconsumível, como uma atmosfera cintilante de cor azulada e fria, que não deitava nenhuma luz definida sobre a Terra da Noite, como deveria, mas uma que brilhava fria e muito assustadora, como um vácuo luminoso e azul. Os arbustos de musgo cresciam até a borda da Planície e pareciam negros e deformados contra a horrenda cintilação.”


Interessante é fazer um exercício de imaginação a respeito de como o cenário do livro de Hodgson pode ser encaixado como um possível futuro do nosso mundo no universo Lovecraftiano, quando as profecias sobre o retorno dos Antigos e outras monstruosidades abissais Cósmicas se concretizassem neste mundo pavoroso. Ler A Terra da Noite sob esse contexto cai como uma luva. Não pertence efetivamente ao cânone Lovecraftiano, porém mesmo assim pode ser deliciosamente lido como tal. Experimentem.

Arte de Sebastian Cabrol

Arte de Barbara Sobczynska

Mas a comparação não se limita apenas a Tolkien, que pode ter em certos momentos um tom muito lúdico e juvenil, o que leva muitos leitores a não se sentirem mais confortáveis ou satisfeitos em ler O Senhor dos Anéis ou O Silmarillion, por exemplo, depois de uma certa idade. O leitor pode se sentir deslocado, excluído, como se aquela obra não mais se comunicasse com ele. Com A Terra da Noite a diferença se faz sentir, pois é uma fantasia sim, e com elementos de ficção científica sim, porém com um tom mais dark (trocadilho não intencional heheheh). A questão do suicídio, já  abordada acima, bem como vários outros dilemas morais que os personagens de uma época tão sombria e difícil são obrigados a enfrentar por vezes surpreendem o leitor, e as cenas de ação.... WOW!!! Tão colossais quanto todas as descrições de cenários arquitetônicos são as batalhas onde milhares morrem em apenas alguns momentos. Pela violência absurda e o escopo grandioso eu incluiria como comparação, além da obra de Tolkien, a Bíblia Sagrada 😂

"Olhei em direção ao Volume e vi que vinha como uma Colina de Negrume sobre a Terra, e já bem próximo. Então, houve uma maravilha, pois, naquele momento, quando todos deveriam partir rápido para salvar suas almas, da terra subiu uma pequena Luz, como a luz crescente desta terra jovem. Ela subiu em um arco de fogo brilhante e frio, luzindo só um pouco, e se estendeu sobre os Dez Mil e os mortos. Nesse instante, o Volume se deteve, retornou e sumiu.

Então, os homens retomaram, depressa, seu retorno à Poderosa Pirâmide. Mas, antes que chegassem em segurança, o Ladrar dos Cães soou ao redor deles, e enfrentaram esse perigo, mas sem desespero, porque já haviam sobrevivido a uma ameaça bem maior. 

Os Cães estavam perto, como via pela Grande Luneta, e contei um cento deles a correr em bando com as grandes cabeças abaixadas. Logo que os Cães chegaram até eles, os Dez Mil se dividiram e houve um espaço entre eles para que pudessem usar plenamente aquele terrível Diskos, e lutaram com as empunhaduras estendidas e vi os Diskos a girar e brilhar e emitir fogo.

Houve grande batalha, pois a Luz que os cobria afastava o Poder de suas almas, mas não os protegia de monstros menores. Em mais de cem mil frestas da Poderosa Pirâmide,, as mulheres choraram e soluçaram e olharam de novo. Nas cidades de baixo se disse, depois, que era possível ouvir o partir e lascar das armaduras quando os Cães corriam por entre os homens a matar, e até o som dos ossos rangendo em seus dentes. Mas os Dez Mil não cessaram de feri-los com os Diskos e, logo, cortaram os Cães em pedaços. Entre os que saíram, houve mil e setecentos abatidos pelos Cães, mas os homens alcançaram a vitória.

Então, o grupo de heróis cansados veio para o abrigo do lar no Vasto reduto, trazendo seus caídos e, também, os jovens mortos, e foram recebidos com imensa honra, muito luto e grande silêncio, pois o caso não admitia palavras, até certo tempo se passar. Houve lamento em cada cidade da Pirâmide, pois não houve tristeza tal em, talvez, mais de cem mil anos."

Arte de Peter Andrew Jones

Eu poderia ficar enaltecendo o quanto essa fantasia dark é excelente até o Sol se apagar, mas acho que vocês já pegaram a idéia. Essa é, definitivamente, uma história que agrada a fãs de vários gêneros. Então, galera do Sci-Fi, galera da Fantasia, e sobretudo galera dos Mythos de Cthulhu, uni-vos na Terra da Noite!!!

"Vi, então, que a Terra da Noite que eu conhecia se ocultava de mim atrás da inclinação. Virei-me e olhei encosta abaixo e tudo em frente era um deserto desolado e escuro, e não parecia ir a lugar nenhum, senão rumo a uma noite eterna. Ali não havia nenhum fogo, nenhuma luz de qualquer tipo, só a Escuridão, e eu poderia senti-la: a Eternidade. Por aquela Escuridão adentro a grande encosta parecia seguir para sempre."
Arte de Raymond C. Leung



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O ARTISTA DA FACA, de Irvine Welsh, ou "Nosso sociopata escocês favorito está de volta! E reabilitado! Mas nem tanto..."







Por EDUARDO CRUZ


"Na argila ou em carne viva, meu talento era ferir pessoas."


Eu não sei vocês, mas de toda aquela turminha de Edimburgo que o Irvine Welsh vem contando histórias nesses últimos vinte e poucos anos, desde Trainspotting, Francis Begbie é o meu favorito! E Welsh já declarou que sente o mesmo. "É mais fácil escrever sobre um personagem interessante", afirmou o escritor em uma entrevista. O hooligan sociopata, com sua personalidade altamente instável e imprevisível, deve ser um personagem recompensador de se escrever, já que alguém assim tão perturbado pode gerar muitas possibilidades dentro de uma trama com suas interações e reações. Francis James "Franco" Begbie é um daqueles personagens que deve praticamente se escrever sozinho dentro de uma história. 

"- A expressão de June assume uma timidez de menina que ele acha grotesca. - "Vou te contar, June, eu não ficaria surpresa se você e Franco acabassem juntos de novo."
- Eu ficaria - diz Franco com brutalidade, pensando: ela é uma porra de simplória. Por que eu não vi isso antes? Provavelmente porque eu era também."


Irvine Welsh veste o traje ficcional para entrar na própria obra e vender supositórios de heroína a um de seus personagens na adaptação cinematográfica de Trainspotting.

A trajetória de Begbie como personagem é bem sólida. Ele pouco mudou ao longo de toda essa grande história da rapaziada do Leith que se iniciou em Trainspotting, sua continuação, Pornô, e no prequel Skagboys, além de um breve, porém divertidíssimo conto na coletânea Requentando Repolhos. Sempre o cara estourado, estivesse alcoolizado ou não, extremamente agressivo e imprevisível, Begbie era o psicótico da turma, o que sempre resolvia tudo na porrada, sendo o terror dos desafetos e em alguns momentos até mesmo dos próprios amigos. Qual não foi minha surpresa então, ao saber que Welsh havia escrito uma história que cronologicamente se passa após Pornô, quando o personagem termina atrás das grades, protagonizada por um Francis Begbie - aparentemente - reabilitado! Logo ele, aquele que a gente tanto ficou esperando para ver o caminhão do carma passando por cima! 

Francis Begbie foi imortalizado no cinema pelo ator Robert Carlyle.
"Em certa época, ele fez planos bem avançados de incendiar a casa vizinha, ocupada por Cha Morrison, sua antiga nêmese. Agora fica assombrado ao pensar ter se importado o suficiente com esse sujeito para considerar essa ação. Que grande crime Morrison cometeu contra ele, ou ele contra Morrison? Nada lhe vem à mente. Foi tudo papo que depois se intensificou, tornando-se uma sequência bizarra de ameaças e contra-ameaças. Tirando isso, não havia base nenhuma para a rivalidade dos dois. Eles fabricaram conjuntamente esse conflito para conferir drama à vida, imaginando-o na realidade brutal."

É uma experiência um tanto inquietante para os leitores de Trainspotting e companhia, eu incluso, quando em O Artista da Faca nos deparamos com um Francis Begbie reabilitado, amadurecido e até mesmo, pasmem, sadio! Mantendo seu sociopata interior sob controle, Begbie vive na Califórnia, casado com sua terapeuta dos tempos de prisão, pai de duas filhas e é um escultor bem sucedido. Sob o pseudônimo Jim Francis, Begbie produz bustos mutilados de celebridades, canalizando assim sua fúria de maneira construtiva. A vida é boa, até que dois acontecimentos abalam o mundo sossegado que jamais imaginaríamos ver Francis Begbie habitando: Dois homens estranhos e perigosos ameaçam a ele e sua família na Califórnia, enquanto na Escócia seu filho mais velho é assassinado. De volta a Edimburgo para o funeral, será que a antiga antiga personalidade de Begbie virá à tona? Seria essa uma história de vingança? Será que Frank Begbie realmente é um cara zen agora? Ou está só muito mais astuto e ardiloso?

"- Tudo bem, Frank? - pergunta Larry.
Segue-se então uma calmaria ameaçadora na energia, como na pista de dança de uma boate lotada, pouco antes de o DJ colocar aquela faixa que vai fazer a pista enlouquecer. E ele percebe que o DJ é ele. Todos esperam que ele coloque a música. Para lançar o punho ou a bota, ou jogar o corpo, ou dar a cabeçada, ou até o grito horripilante pelo salão, o que vai acender o lugar.
- Sempre dizem "escute sua reação instintiva" - diz Franco em voz baixa. - Se eu ouvisse meus instintos, nenhum puto nesta sala estaria respirando. - Ele sorri alegremente. - E isso não seria bom - acrescenta ele."
É bem bacana acompanhar o desenrolar dos acontecimentos a partir do momento em que Begbie pisa em sua cidade natal. Na trilha para desvendar a identidade do(s) assassino(s) de seu filho, fiquei o tempo todo na tensão, esperando pelo estopim que despertaria o Begbie dos velhos tempos. E acontece? Aí vocês têm que ler, não vou roubar de vocês a chance de ficarem estarrecidos como eu fiquei, afinal a arte pode reabilitar, mas não faz milagres hehehehe... Também é muito bom constatar que Welsh manteve sua pegada de sempre. Assim que soube do lançamento de O Artista da Faca, meu sentido de aranha logo gritou "Caça-níquel! Caça-níquel!", mas fico feliz em atestar que estava errado! Welsh mantêm aqui os diálogos espertos e corrosivos sobre a sociedade que caracterizam suas histórias desde sempre, além de avançar com a história de um de seus personagens mais marcantes, não poupando o leitor em alguns momentos pesados. A imprevisibilidade reina, acrescida da tal tensão que já comentei ali em cima, e lá pela metade do livro é que vem o soco no estômago. A trama vai num crescendo cheio de suspense e violência, mas com espaço para situações cômicas, o que não é novidade para quem acompanha a bibliografia de Welsh. Além disso, vislumbramos alguns flashbacks da infância e juventude de Begbie, onde ele reavalia sua amizade com Mark Renton e até onde a família teve influência na formação de nosso sociopata favorito.




Ah, e vocês devem estar se perguntando "Mais alguém da turma de Trainspotting chega a dar as caras?". Sem dar spoilers, aparece sim! A única pista que vou jogar aqui é que é um dos carinhas da foto abaixo. Em quem vocês apostam? rs. Ah, e não vou nem falar da aparição bombástica na última página! Quero continuação já!!!!


Boa parte da arte é embuste. Bravata. Pura pose. E não sou só eu afirmando. Muitos artistas, críticos e estudiosos reforçariam essa declaração. Em muitas situações a intenção do artista é interpretada erroneamente, propostas não são bem compreendidas e o que era para ser bem sucedido se torna um fracasso, ou vice versa, e porcarias inclassificáveis inexplicavelmente recebem status de alta cultura. Mas o que prevalece acima de qualquer questionamento é o poder reabilitador da arte frente à força quase imutável de nossas próprias naturezas, e o quanto somos predestinados a sermos como nossos próprios pais, motes centrais desta história de Welsh. Se até um cara como Francis Begbie pode reescrever a história de sua vida - mesmo que com argila e facas - qual é a sua desculpa?




"Eu era uma das pessoas mais fracas do planeta. Não tinha controle nenhum sobre meus impulsos mais sombrios. Portanto, eu era alimento constante pra prisão. Algum escroto linguarudo fazia merda, tinha de ser dizimado no ato e eu voltava pra cadeia. Assim, esses ninguéns tinham total controle sobre meu destino. Esta foi minha primeira grande revelação: eu era fraco porque não tinha controle de mim mesmo. Melanie tinha controle de si. Pra ficar com alguém igual a ela, pra ter uma vida livre, não num conjunto habitacional no limiar da pobreza, nem mesmo num subúrbio e estropiado por uma vida inteira de dívidas, eu precisava ter a mente livre. Tinha de ganhar controle sobre mim mesmo."


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Genealogia Lovecraftiana #001: A BALADA DO BLACK TOM, de Victor Lavalle






Por EDUARDO CRUZ



"Através do portal, em meio às ruínas da cidade afundada, Malone percebeu a figura de enormes feições - um rosto, ou a distorção de um rosto. As partes superiores daquela face eram lisas como a cúpula de um crânio humano, mas embaixo dos olhos, o rosto pulsava e se enrodilhava entre tentáculos. As pálpebras do tamanho de velas desfraldadas permaneciam fechadas, felizmente, mas tremiam como se fossem abrir."


Um assunto um tanto quanto batido mas inevitável de se abordar é o fato de a obra de H. P. Lovecraft possuir tons de racismo e xenofobia que podem ser (adequadamente) taxados como muito errados nesses tempos atuais em qualquer época. Talvez o cavalheiro de Providence, no período em que residiu em Brooklyn, Nova York, sendo um provinciano dono de uma personalidade bucólica, ficasse deveras incomodado com o caldeirão de diferentes povos e culturas que afluíam na cidade, imigrantes vindos de todas as partes do mundo. O preconceito pode ser percebido como bastante explícito em histórias como Herbert West: Reanimador, O Chamado de Cthulhu, A Rua, A Sombra de Innsmouth e O Horror em Red Hook, e mesmo levando-se em conta que Lovecraft agiu meramente como um homem de seu tempo, onde tais idéias eram veiculadas como 'normais', sua leitura é bastante controversa. Obviamente, revisões são necessárias, seja ela realizada na própria cabeça do leitor, seja em obras como A Balada do Black Tom.


Victor Lavalle

"- Carrego um inferno dentro de mim - rosnou Black Tom. - E quando descobri que ninguém tinha compaixão por mim, quis arrancar árvores, espalhar o caos e a destruição ao meu redor e depois me sentar e desfrutar da ruína.
 - Então, você é um monstro - comentou Malone.
 - Fizeram de mim um monstro."

A Balada do Black Tom é uma releitura de O Horror em Red Hook, mas vista de outro ângulo, o dos supostos vilões da história de Lovecraft. Esse, digamos, 'remix' de O Horror em Red Hook funciona em dois níveis: como homenagem e como crítica à obra de Lovecraft, dando voz e imprimindo alguma humanidade aos párias e excluídos que são retratados como aberrações no conto original. Se, segundo alguns estudiosos, as criaturas indefiníveis presentes nas histórias de Lovecraft eram claramente uma representação de sua xenofobia e de seu racismo, em A Balada de Black Tom Lavalle mantém os monstros em segundo plano e escancara todo esse racismo em muitos momentos dolorosos, como, por exemplo, o destino do pai do protagonista, que é o estopim para a transformação do personagem principal. Se Donald Glover aponta a distopia que seu país se tornou para o povo negro no vídeo de This Is America, Lavalle utiliza sua própria história para sinalizar que estes monstros sempre estiveram por aí: a intolerância, o preconceito e o descaso não são novidade.

"- Agora, quanto você disse que o branco vai te pagar?
 - Quatrocentos dólares.
 - Tudo isso só pra tocar na festa dele? (...)
 - Foi o que ele disse.
Otis ergueu as mãos e as manteve separadas no ar o máximo que pôde.
 - Essa é a distância entre o que um homem branco diz a um preto e o que ele realmente quer dizer."

Na história, acompanhamos a trajetória de Tommy Tester, um músico medíocre que vive de pequenos trambiques e sustenta seu pai Otis, impossibilitado de trabalhar. Em uma sociedade ainda mais desigual que a atual, com os negros tendo perspectivas de vida desalentadoras, quase nulas, Tommy sobrevive em meio às poucas oportunidades e ao preconceito brutal que sempre paira sobre sua existência. Após negociar um velho livro com uma estranha senhora, Tommy conhece Robert Suydam, um misterioso homem que o contrata para tocar violão em uma reunião particular em sua mansão. Após essa reunião, e após uma tragédia pessoal na vida de Tommy, ele é enredado nos bizarros planos de Suydam, que incluem acordar um "Rei adormecido que vive no fundo do mar".E nós sabemos a quem ele se refere, certo...?


"Agora, não sei o que mais acrescentar à próxima parte, pois vou dizer que gostei do que vi. Certo? ela saiu, e o preto ficou parado lá, paciente como ele só, e então foi como se uma porta se abrisse. Veja o senhor, bem ali, onde o portão da casa funerária encosta na propriedade dela? alguma coisa se abriu bem ali. Digo que é uma porta, mas não era mesmo uma porta. Era como um buraco, ou um bolsão, e dentro do bolsão estava vazio, preto. Não sei o que mais dizer disso. Como o céu noturno, mas sem nenhuma estrela. E o tempo todo minha Elizabeth ficou gritando na cozinha."
 
Esta edição conta também com o conto original de Lovecraft, como extra, e com uma tradução o mais fiel possível do texto original, ou sejE, a editora Morro Branco optou por não atenuar o texto, o que sempre é acertadíssimo, seja a obra qual for. Nesse caso em especial, era imprescindível que o teor politicamente incorreto fosse preservado, em contraste ao revisionismo de Lavalle. Incluir a história original no mesmo livro foi uma decisão acertada da editora, que assim entregou todos os subsídios que o leitor precisa para formular suas próprias conclusões a respeito da obra original e a história em questão. Quando vemos um trecho na história de Lavalle que parece tão preconceituoso quanto o original, imediatamente captamos sua crítica ao racismo embutido na prosa Lovecraftiana.

"Quem poderia culpar a mente de Malone por devastar a verdade? Robert Suydam, aquele arqui-inimigo - havia matado o senhor Howard e seis policiais, além de causar danos dolorosos a Malone. No entanto, como um sinal da natureza justa de Deus, o próprio lacaio preto de Suydam virou-se contra ele e cortou a garganta do mestre. Por mais horrível que fosse, não era essa a verdade? Os pretos simplesmente não são tão malignos, explicou o especialista. Sua simplicidade era seu dom e sua maldição."
Racismo esse que, anos depois, 'evoluiu' para uma espécie de elitismo, um noção de predileção pela alta cultura anglo-saxônica, a única cultura refinada e sofisticada o suficiente para ser apreciada e reverenciada - segundo Lovecraft. Lavalle também se dá conta desta percepção que Lovecraft embutiu em sua obra em seus últimos anos de vida, tão errônea quanto a anterior, e sutilmente também comenta a respeito em sua história:


"Quem mais além de um homem nascido na riqueza e com educação poderia estar naturalmente preparado para liderar?"


Além do diálogo entre as duas obras, também existem easter eggs em A Balada do Black Tom, como essa singela homenagem abaixo, quando Lavalle insere o autor dento da releitura da obra. Adivinharam quem é???


"Um homem de Rhode Island, mas que vivia no Brooklyn com sua mulher, mostrou-se tão persistente que dois policiais foram enviados à sua casa para deixar claro que não era bem-vindo à Nova York. Talvez sua disposição fosse mais adequada a Providence. O homem saiu da cidade pouco depois, e nunca mais voltou."


Por fim, pra quem se interessa por esse aspecto antropológico das histórias de Lovecraft, deixo aqui mais uma recomendação: O Horror Cósmico de HP Lovecraft - Teoria e Prática. O livro é baseado na tese do professor Daniel I. Dutra e é uma análise profunda da obra de Lovecraft e suas correspondências, e ajuda bastante a elucidar toda esta questão do racismo implícito em suas obras. Mais uma publicação magnífica da editora Clock Tower, os cultistas mais alucinados do território nacional. Assim que for devidamente lido, claro que a resenha vai integrar essa série que criamos aqui na Zona. Nossa seção Genealogia Lovecraftiana só vai abordar livros que tenham alguma relação com a  mitologia criada por Lovecraft, sejam eles obras que influenciaram o cosmicismo de Lovecraft ou homenagens de autores publicadas após sua morte. Material pra isso não falta, já que o Lovecas está longe de ser esquecido à medida que o tempo passa...


A história talvez não satisfaça ao leitor que está atrás de uma história do cânone Lovecraftiano cheia de fan service e grandes pirotecnias. Já o leitor que procura uma boa história de mistério/horror com comentários sociais incisivos vai curtir essa reinterpretação. A Balada do Black Tom não é (apenas) uma história de horror cósmico, e sim uma revisão do passado recente. E Cthulhu sabe o quanto estamos precisando de revisões do passado...




quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DEUSES CAÍDOS, de Gabriel Tennyson, ou "Aqui no RJ se pronuncia "Conxxxxtantchine"!!!!"







Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA



Quem nunca brincou com alguma coisa (supostamente) sobrenatural na adolescência, essa época da vida em que uma estranha mistura de fanfarronice, curiosidade e falta de noção se manifesta na molecada? Seja tentando contatar espíritos com um compasso, ou com o famigerado Jogo do Copo - a Ouija de pobre - ou comprando um livro de São Cipriano em um sebo qualquer, para, 15 minutos depois, devolver o livro horrorizado pelo conteúdo barra pesada do mesmo (Essa eu já fiz heheh. Mas ei, eu tinha só 14 anos!). E foi assim que o nome "Cipriano" ficou para sempre marcado na minha memória rsrsrs. Mas o que isso tem a ver com essa resenha???? Calma, continuem comigo e vão entender heheheheh... 

O livro São Cipriano que eu possuí.... por uns 15 minutos antes de arregar rs

Depois do perverso Ultra Carnem, de César Bravo, e do sangrento Jantar Secreto, de Raphael Montes, a literatura fantástica nacional acaba de ganhar mais um reforço. Gabriel Tennyson desponta com seu romance de estréia magnificamente macabro, envolvendo sociedades secretas, demônios e outros seres mitológicos, ambientado no Rio de Janeiro dos dias atuais e com uma trupe de personagens interessantes. 



Deuses Caídos é um thriller de mistério com toques de fantasia urbana e horror sobrenatural. Tudo começa com um misterioso serial killer que vem assassinando evangelistas famosos. E pior: O faz utilizando a Internet para veicular as atrocidades, com um público cada vez cruel e ávido por violência que vem crescendo a cada crime cometido - um sagaz comentário a respeito da perversidade que o anonimato concedido pela Internet confere. O assassino encarna uma figura messiânica que alega realizar uma justiça divina merecida pelas vítimas. Um detalhe: As atrocidades sugerem haver um elemento paranormal envolvido. Isso ameaça o trabalho desempenhado pela Sociedade de São Tomé, um braço da Igreja Católica responsável por manter secreta a existência de criaturas sobrenaturais vivendo entre nós, embora exista todo um submundo de criaturas místicas habitando a cidade do Rio de Janeiro e seus recônditos mais obscuros, da Vila Mimosa até a Ilha do Fundão, passando pela Lapa e Santa Tereza, a Cidade (já nem tão mais) Maravilhosa certamente é o personagem principal do livro.

 


O membro da Sociedade São Tomé encarregado da captura deste estranho assassino é o veterano Judas Cipriano, um padre badass descendente de São Cipriano (Aquele mesmo do livro de magia negra), que possui estranhos poderes sobrenaturais. Judas é o padre mais improvável possível: Boêmio, beberrão, usuário de substâncias tóxicas, frequentador assíduo dos pontos de travestis da Lapa, e com uma infância bizarra que envolvia maus tratos extremos por parte de seus estranhos pais. Uma espécie de John Constantine carioca. Cipriano é convocado para trabalhar como consultor da Polícia Civil na investigação - atentando para os aspectos sobrenaturais do crime, logicamente - e lhe é designado como assistente a policial Júlia Abdemi, que seria uma pessoa comum, não fosse por seu dom de se comunicar com máquinas (Coisa de uma HQ de Warren Ellis, mas que fica ainda melhor e mais brazuca depois de uma revelação lá no ato final). Juntos, os dois passarão por uma tour de force, durante quatro dias, revirando o submundo místico da Cidade Maravilhosa atrás de pistas para capturar o assassino. E tentando sobreviver às descobertas que realizam.

E aí? Impactados? Eu fiquei. Bastante.

O verdadeiro São Cipriano
Esse resumo faz o material parecer promissor, não? Um thriller urbano de investigação, com toques de fantasia macabra, muito gore, demonismo trevoso, releitura de seres mitológicos sob uma nova roupagem... Promissor é só o resumo mesmo. O livro em si é FODA. Deuses Caídos é provido de um ritmo narrativo impecável e um texto fluido. Algo impressionante, ainda mais se levando em conta que este é o primeiro livro de Tennyson. "Minhas influências visuais vieram de filmes como Silent Hill, Hellraiser, O Labirinto do Fauno e Seven - Os Sete Crimes Capitais. Se eu tivesse que definir o livro em uma frase, diria que é uma espécie de Hellboy tão violento quanto os filmes de Hannibal Lecter.", declarou o autor em uma entrevista.

Gabriel Tennyson

Nosso país é essencialmente pluricultural. Aqui, nesses últimos cinco séculos, tudo se misturou, se mesclou e foi sincretizado, desde os genes até a religião e o folclore, e Tennyson soube usar bem o que temos de mais rico: Essa infinidade de mitos, lendas e referências, inclusive sem perder o senso de contemporaneidade. Assim, referências da cultura de massa como X-Men, Star Wars, Arquivo X e o BvS de Zack Snyder se mesclam e coexistem junto ao  regionalismo de um Cramunhão da Garrafa ou a Vovó Mafalda, por exemplo. Tennyson mastiga e redefine uma nova roupagem para seres mitológicos, fazendo sua existência no Rio de Janeiro em 2018 ser plausível. Elementais da terra, súcubos, golems, fadas do dente, sacis, mapinguaris, dragões chineses, gárgulas, vampiros... Nah, os vampiros foram preservados. Algumas coisas são sagradas hehehe. A única alteração que os vampiros sofreram nessa história foi terem a aparência do José Serra e o modo de falar de Michel Temer, o que, na minha opinião, foi bem adequado.   




Já o protagonista Judas Cipriano, sob a ótica dos leitores de quadrinhos adultos, vai lembrar um doppelgänger do já famigerado John Constantine da Vertigo/DC Comics: Um especialista em demonologia e exorcismo, que é frequentemente compelido a manter o mundo nos eixos, servindo de antagonista a entidades perversas que querem acabar com a humanidade. Isso sem mencionar pelo menos dois blefes espetaculares na história, em situações sem escapatória nenhuma. Como Constantine, Cipriano se dá melhor na lábia, ou melhor, no caô, do que propriamente na magia. 

Sobretudos são inviáveis na Cidade Maravilhosa. Mas ter um taxista à disposição sempre é bom.
Arte de Tim Bradstreet.

Deuses Caídos chega com os dois pés na porta, pesado e arrebatador desde a primeira página, contando uma história de mistério sombria e grotesca, sem amarras ou restrições, e cativante até o final, que não brinca com a inteligência do leitor e ainda acena a possibilidade de um novo e ainda mais interessante recomeço. Pleno outubro, posso falar com tranquilidade que é uma das gratas surpresas de 2018. Quem ama Hellblazer, Hellboy, Clive Barker e Fantasia Dark em geral pode embarcar sem medo. É só entregar a alma...

“Deuses caídos mistura descrições bizarras com personagens inusitados e ajuda a criar um tenebroso imaginário brasileiro. Gabriel Tennyson é uma voz nova e original no terror nacional.” Raphael Montes




terça-feira, 5 de junho de 2018

MONSTRESS - DESPERTAR, de Marjorie Liu e Sana Takeda, ou "O novo candidato a ser o próximo Saga."





Por Ray Jr.


"Uma vez, quando éramos escravos e estávamos famintos, comemos o conteúdo do estômago de um menino morto. Dissemos que era diferente de comer o menino. Mas agora eu sei a verdade. Era a mesma coisa."



Vencedora do prêmios Hugo Awards e British Fantasy Awards de melhor história em quadrinhos de 2017, a série da Image Comics criada pela roteirista Marjorie Liu (NYX, X-23) e a desenhista Sana Takeda (X-Men, Ms. Marvel, X-23) é uma das gratas surpresas publicadas no Brasil em 2018. Em um mundo alternativo que mistura elementos de fantasia épica e steampunk, a Federação Humana e os Reinos Arcânicos entraram em guerra após anos de coexistência amistosa. Uma frágil trégua é estabelecida após a Batalha de Constantine, que ceifou inúmeras vidas de ambos os lados. Acompanhamos o início da jornada da protagonista, Maika Halfwolf, passados cinco anos desde o início do período de trégua.


O esquecimento é amigo da barbárie.




Maika Halfwolf é uma arcânica de aparência bem similar a humana, que após sobreviver a guerra, decidiu ir atrás de respostas sobre seu passado. Boa parte da memória de sua infância foi perdida, depois de uma expedição com sua mãe e alguns outros estudiosos ao deserto a procura de um antigo artefato. Algo deu tremendamente errado por lá ao fazerem experimentos com o artefato, o que vitimou a mãe de Maika e marcou a própria de forma permanente. Encontrada por saqueadores no deserto, foi vendida como escrava e mantida em um campo de concentração por uma senhora de escravos que leiloava crianças arcânicas  para a alta sociedade humana. Durante o violento período de guerra, foi libertada mas a  inquietante vontade de descobrir sobre si mesma e as incomuns habilidades que adquiriu após o evento no deserto a faz partir em uma jornada extremamente arriscada.


A fome que anseia por alimento é a mesma que impulsiona a busca por algo que nos complete como indivíduo.


A primeira edição desse volume, que tem um número maior de páginas, já captura o leitor mostrando a grande habilidade narrativa da dupla para desenvolvimento de cenário e personagens, criando um mundo onde o leitor não demora a emergir, e abordando temas como preconceito racial, escravidão, estado teocrático opressor, enfrentamento de monstros internos e os problemas de uma geração pós-guerra alimentada pelo ódio e preconceito em um mundo onde muros dividem territórios Humanos e Arcânicos. Enquanto Maika tenta entender e controlar a criatura obscura que vive em seu interior e se manifesta através do seu antebraço amputado, ela coloca seu arriscado plano inicial em prática e as consequências poderão desencadear o reinício da guerra. Ambos os lados buscam conhecimento e acesso a poderes de deuses antigos adormecidos (Alô, Lovecraft!), e a linhagem da jovem pode ser a chave para o controle desses poderes.


As parceiras no crime, Sana Takeda e Marjorie Liu respectivamente, afiadíssimas na execução dessa bela obra.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn.


Praticamente todas as personagens de destaque e coadjuvantes são femininas, mulheres de personalidades marcantes, física e mentalmente diferentes, algumas ocupando cargos de poder, sendo elas militares de variadas patentes, líderes religiosas, um esquadrão de inquisidoras, uma primeira-ministro, chefes-guerreiras, rainhas e conselheiras, o que denota neste mundo uma forte característica de sociedade matriarcal, tanto do lado humano quanto do Arcânico. Além disso, apêndices ao fim de cada edição trazem trechos de palestras do Professor Tam Tam, um gato falante erudito contemporâneo, que elucidam questões históricas e conectam ainda mais o leitor ao mundo conhecido. E há de se concordar com Neil Gaiman, que diz que Monstress traz alguns dos melhores gatos dos quadrinhos, como o Mestre Ren. 


O audaz Mestre Ren ,com seu par de caudas, nunca perde uma oportunidade de citar os poetas.




Monstress é uma bela mistura dos estilos e tradição dos quadrinhos ocidentais e orientais com uma sinergia vibrante entre roteiro e arte. A edição da Pixel tem um belo acabamento gráfico que já impressiona na capa dura texturizada em verniz. A série está em seu terceiro volume nos EUA e ficamos na torcida para que o ótimo tratamento dado a esse título promissor continue por aqui.

Uma das estupendas capas de Sana Takeda