quarta-feira, 7 de setembro de 2016

NAMELESS, de Grant Morrison e Chris Burnham, ou “O Manifesto Feminista de Mr. Morrison”




Por EDUARDO CRUZ



 Ler uma história em quadrinhos de Grant Morrison nem sempre é algo fácil. Esse roteirista escocês, conhecido por fazer parte da Invasão Britânica de roteiristas dos anos 80, raramente faz concessões à indústria de quadrinhos para formatar suas histórias, tornando-as mais acessíveis e palatáveis (leia-se mastigadas e superficiais) para o grande público, preferindo, ao invés disso andar na contra mão: forçando a fruição de histórias em quadrinhos a patamares não alcançados antes, utilizando recursos estilísticos de narrativa ousados e originais, quase como se quisesse formar novas gerações de leitores com HQs ainda mais estranhas do que as que ele próprio leu quando mais jovem. Morrison escreve como se quisesse, sozinho, derrubar todo o paradigma de como fazer (e ler) quadrinhos. Porém, uma vez que você se ajusta à freqüência vibracional do autor, suas histórias podem ser tão divertidas e recompensadoras quanto qualquer boa HQ que você já tenha lido e que não tenha as toneladas de loucura e (aparente) caos que o carequinha utiliza para veicular suas idéias.
         
"Espelho espelho meu, existe mago mais foda que eu?", pergunta Morrison. O espelho, sem querer se indispor com seu dono, permaneceu calado até o fechamento desse post.

          Lançado ano passado lá fora em uma mini série de seis edições pela Image Comics (mais conhecida atualmente como “Nova Vertigo” ;>) ), “Nameless” abre a história com Xibalba (o “local do medo” na mitologia maia), um gigantesco asteróide em rota de colisão com a Terra. Como se isso não fosse problema suficiente, o asteróide, de quilômetros de extensão, tem um símbolo místico esculpido em sua superfície, e já neste primeiro momento percebe-se que não se trata de um fenômeno tão natural ou aleatório quanto possa parecer a princípio.
 
Acontece que Xibalba é um fragmento do planeta perdido Marduk, o quinto planeta de nosso sistema solar, originalmente localizado entre Marte e Júpiter, e destruído há 65 milhões de anos no fim de uma guerra cósmica entre os habitantes de Marduk e “deuses” extradimensionais, imensamente poderosos, que repudiam todas as formas de vida (Olha os “Arcontes” de “Os Invisíveis” de novo aí, gente!). Uma guerra que ficou marcada em nosso inconsciente coletivo e que permanece registrada em nossa memória genética, de tão devastador que foi este evento, uma guerra entre o bem e o mal. Um ocultista freelancer conhecido apenas como “Sem nome” (porque conhecer o nome de algo é ter poder sobre aquilo. Um princípio básico da magia, que John Constantine, por exemplo, aprendeu amargamente em Newcastle) é recrutado por um consórcio de bilionários futuristas para uma missão desesperada. Junto com outros especialistas em diversas áreas, empreendem uma expedição ao asteróide para evitar a catástrofe que se aproxima, e no processo, desvendar seus mistérios, a proverbial curiosidade que matou o gato, e ao que parece, vai levar toda a humanidade junto.

Na dúvida, apele pros mitos de Cthulhu!

 À medida que se aproxima da Terra, Xibalba demonstra um domínio psíquico sobre todos em nosso planeta e também sobre os astronautas que estão a caminho de explorá-lo. O protagonista sem nome, como nós, leitores, é incapaz de distinguir pesadelo de realidade, e o efeito que essa narrativa provoca é desorientação, beirando o desconforto.

Alguém aí com saudades de "Crossed"???
 A partir daí, a expedição acaba despertando forças terríveis, mais precisamente um refém daquela guerra travada há milhões de anos, uma das criaturas, ainda aprisionada. A destruição do planeta Marduk foi o que assegurou o fechamento da passagem entre o nosso universo e o dos “deuses”. A única criatura do lado de lá que restou em nosso universo, jaz aprisionada no asteróide Xibalba, mas não completamente adormecida. Uma criatura incorpórea, de poder imensurável, imortal, onisciente e onipotente. Um ser que poderíamos chamar de... DEUS.

E nós estamos presos neste universo, sozinhos com Ele...

E dá-lhe referências ao Lovecraft....
          Seria muito tentador, com base na sinopse, reduzir “Nameless” a um mix de “Armageddon” mais “Gravidade” mais “O enigma do horizonte”, mas como é uma HQ da grife Grant Morrison, nada é o que parece ser na primeira leitura e rótulos superficiais e reducionistas tornam-se inúteis para “colocar na caixinha” esta excelente HQ.

Grant Morrison escolhe uns lugares estranhos pra guardar o frasco de desodorante...

 O próprio Morrison comentou, à época do lançamento da HQ que a história enveredaria por um tom pessimista e visceral, uma declaração de desprezo pela espécie humana, bem diferente do clima heróico e otimista que o autor já nos ofereceu em obras como “Grandes astros - Superman” ou “Happy”, por exemplo. Nas palavras do próprio Morrison:



Uma perturbadora viagem para os limites sem esperança do niilismo e da crueldade cósmica (...)

Nos meus quadrinhos de super-herói, eu tendo a ser uma líder de torcida do espírito humano, mas Nameless me dá a rara oportunidade de articular um longo e sarcástico desprezo pela nossa espécie, com suas egoístas e sentimentais ilusões suicidas, e sua ganância.”



         “Nameless” está para “Providence” assim como “Pax Americana” está para “Watchmen”. Eu explico: pros amiguinhos que curtem uma polarização, é notória a rixa entre o barbruxão Alan Moore e o carequinha Grant Morrison (na época ainda com seu corte de cabelo estilo Beatles), cujo pivô foi um Roteiro de Miracleman - que aliás, finalmente viu a luz do dia e chegou a sair aqui esse ano pela Panini no especial Miracleman Anual - que fez Moore dar um chega pra lá em seu aspirante a colega, na época. Esse ressentimento pela desancada de Moore à pessoa de Morrison parece refletir no trabalho e na escolha de temas de Morrison. Assim como ele aproveitou para escrever sua própria versão de “Watchmen” no Capítulo “Pax Americana” da mini série “The Multiversity”, agora ele envereda pelo horror cósmico com “Nameless”, mais ou menos na mesma época que Moore lançou sua própria mini série/carta de amor ao horror Lovecraftiano, “Providence”, pela Avatar Press. Coincidências? Claro que sim! Afinal o universo é regido por puro caos e não há um propósito definido para nada rs

         De minha parte, acho tudo isso uma grande bullshitagem. Os dois têm espaço garantido em minha estante (e em meu coraçãozinho negro kkkk). Moore e sua maestria como contador de histórias, assim como Morrison, também se mostra pleno de recursos narrativos que ajudaram esta mídia a crescer, dialogar com seu tempo e dar seus respiros ao longo dos anos.

Claro, como todo texto de Morrison, “Nameless” está recheado de referências obscuras, que exigem do leitor mais ávido, aquele que quer tirar aproveitamento máximo do trabalho, uma pesquisa paralela para se inteirar a respeito de termos e conceitos que o escocês maluco joga pra amarrar sua história. Conceitos como os mitos de Lovecraft, alfabeto Enoquiano, mitologia maia e polinésia, a cabala, e o mais interessante de tudo, feminismo! No apêndice de “Nameless”, ele expõe e explica várias passagens da HQ, o que ajuda a clarificar muita coisa e dar pelo menos um ponto de partida para pesquisas mais aprofundadas. Mais uma vez citando Morrison e sua conclamação ao fim do patriarcado:



“Na filosofia Gnóstica, Sofia ou Sophia (“sabedoria”) representa a fagulha de ignição do princípio divino feminino, aprisionada no universo material falsificado de uma consciência demiúrgica insana conhecida como Sabaoth, Ialdabaoth ou em alguns casos Samael, o deus cego. Este senhor da lama (matéria) delirante, desaprovador e ciumento é o ser a que tradicionalmente nos referimos como “Deus”.”

Sobre o significado da cena final da mini série, Morrison tira o véu da metáfora:

(...) Aqui vemos Maat, a Filha da Verdade, assumindo sua ascendência e tomando o controle das energias do Aeon, finalmente pondo um fim à miséria de seu irmão louco e belicoso.

Basicamente, esta HQ inteira é uma convocação às garotas para se erguerem, matarem o arquétipo de rock star-super herói-guerreiro e salvarem o mundo!”.

 


       Isso pode distrair e até espantar leitores incautos, aqueles que desconhecem o teor e o direcionamento do trabalho do Grant Morrison. O fato de Morrison usar muitas abstrações e o intervalo sonho/”realidade”, sempre entrecortado, como se fatiado e disposto em camadas ao longo dos capítulos, para evidenciar que a percepção do tempo para “Deus” não se dá da mesma forma que a percepção humana pode ser confuso até mesmo para os iniciados, o que exige uma segunda leitura a fim de organizar todo esse caos. Assim, esses recursos não utilizados habitualmente na maioria das HQs podem confundir e assustar quem está apenas atrás de uma história de terror. Mais hermético, impossível. Mas é assim que Morrison gosta. E nós aqui na Zona também.

Enfim, para os que estão acostumados ao estilo do Morrison de narrativa, vocês sabem onde estão se metendo e vai ser mais uma viagem divertida, e muito bem amparada por um artista muito detalhista e competente. Chris Burnham – que trabalhou anteriormente com Morrison em “Corporação Batman” - se equipara a monstros como Frank Quitely e Geoff Darrow. MAS ATENÇÃO! UM ALERTA AOS SENSÍVEIS: A arte de Chris Burnham, formidável, alcançou aqui, amparada no roteiro de Morrison, níveis de perversidade, grafismo e gore só vistos antes em “Crossed”, de Garth Ennis. Não estou exagerando. Estejam avisados.

Corporação Batman, trabalho anterior da dupla Morrison / Burnham

Ouch! Isso deve doer...

Promoção do ZN: encontre o Mickey Mouse e ganhe uma mariola! (Promoção válida enquanto durarem nossos estoques)

Gore, gore, gore...


No mais, tudo vai ficar bem. Pode confiar. Não, não olhe pra lua agora, tudo vai ficar bem....



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

...Interrompemos nossa programação normal para uma teoria sobre os Warriors...



 Por EDUARDO CRUZ


 
Os amiguinhos das antigas vão se lembrar do filme a que me refiro, um sucesso dos fins de noite no domingo maior, quando ainda éramos moleques e já tinha passado da hora de dormir, mas nossa teimosia em permanecer acordado nos brindou com essa pérola. A influência desse filme ainda é percebida até hoje pelos mais novos em algumas produções e The Warriors, conhecido aqui como "Selvagens da noite"  acabou virando um filme cult, mesmo que as pessoas insistam em só lembrar de “Laranja Mecânica” como maior expoente do gênero....




O filme, objeto de culto, é sobre um grande encontro de gangues que dá errado, com a culpa recaindo sobre um pequeno grupo, a gangue dos Guerreiros, oriundo de Coney Island, e todo o perrengue que esse grupo de coitados tem que passar para atravessar a cidade e voltar para casa inteiros, com todas as gangues de NY atrás deles. Um filme de Walter Hill, baseado no livro do escritor Sol Yurick, que por sua vez se inspirou no texto “Anábase”, do historiador grego Xenofonte.

Mas não vou usar esse espaço para escrever um texto a respeito do filme ou do livro dos Warriors. Nosso outro zelador da Zona Negativa, Ricardo C., já fez isso neste texto, ameaçando com garrafadas e correntes qualquer infeliz que ousasse fazer isso antes dele aqui na redação da Zona. Não quero esgotar o assunto, e sim apontar uma direção, que apesar de subjetiva e meramente especulativa de minha parte, foi bem divertido de imaginar e rendeu boas discussões entre nós aqui da Zona.


 Após tantos anos assistindo “The Warriors” sucessivamente (esse é um daqueles filmes que não consigo ficar sem assistir pelo menos duas vezes por ano, tão divertido e bem executado que ele é), seria de se esperar que um filme de 1979, revisto tantas vezes não guardasse mais nenhuma surpresa, nem desse margem a mais nenhuma interpretação que já não tenha sido feita antes nos últimos 37 anos. Contudo, porém, todavia e entretanto, às vezes a mente trabalha sozinha, involuntária aos nossos atos conscientes, sem nunca parar, concatenando fatos, trívias, pequenos fragmentos de informações, cozinhando um caldo que às vezes transborda e nos obriga a derramá-lo sobre os outros heheheh.....

Minha extrapolação, a teoria que tem pulado feito uma pulga dentro da minha cachola após assistir ao filme pela 16.539ª vez é a seguinte:  Luther, o membro da gangue dos Rogues que atirou no Cyrus pelo motivo mais gratuito possível, e responsável direto pela tempestade de merda que os Warriors tiveram que enfrentar durante toda uma noite, trabalharia para o governo do EUA! da CIA ou NSA, ou qualquer outra agência governamental maligna que vocês queiram ou possam imaginar heheh...

 


Observemos o contexto histórico de “The Warriors”: os movimentos pelos direitos civis, a ascensão do movimento de contracultura, a ressaca pós Vietnã e o escândalo do caso Watergate. É notório que na vida real o governo norte americano infiltrou agentes em várias movimentos e grupos da sociedade estadunindense, como no partido dos panteras negras, por exemplo, a fim de detectar e se necessário, abafar possíveis insurreições e revoltas sociais dentro de seu próprio território. Enfim, a boa e velha paranóia do complexo industrial militar, utilizando o dinheiro dos impostos dos cidadãos como melhor lhes convém para a manutenção do status quo....




Logo, através de um trabalho de inteligência, a agência que estaria cuidando disso, fosse qual fosse, ficaria ciente de uma mega reunião de gangues no Bronx, arquitetada pelo líder de uma delas, um líder extremamente carismático, e portanto perigoso para o sistema, visto que até ali ele havia sido bem sucedido em convocar e reunir em um mesmo local diversas gangues, algumas com sérias rivalidades geradas e nutridas ao longo dos anos entre si, com uma proposta de unificação absoluta. A polícia não teria chance, o crime organizado não teria chance, e em última instância o governo não teria chance, caso a idéia de Cyrus se propagasse pela América afora.  

Esta mesma agência governamental teria acionado seu contato local, Luther, que tem sua "Gangue" (na verdade, um bando de perdidos apatetados que foram cooptados para acreditar que são integrantes de uma gangue verdadeira?), os Rogues.  Atentos a este possível levante contra o sistema, por parte do tal Cyrus, enviam seu agente para “tratar a ocorrência”, no melhor estilo Kennedy. Temerosos com esse incipiente golpe de estado, concluíram que um assassinato resolveria tudo. Afinal, depois que você faz isso até com um presidente, o resto é fácil. Em seguida, bastava incluir um bode expiatório (os desafortunados Guerreiros) na equação, e justificar pra sua gangue de doidões que estariam fazendo isso pra ver o circo pegar fogo, porque, como ele mesmo diz: "I like doin’ stuff like that! (Eu gosto de fazer coisas assim!)". Semelhante a um assassinato político para desestabilizar uma republiqueta de bananas, mas em nível doméstico e urbano. O modus operandi da CIA, disfarçado como “mais uma ocorrência policial em NY”.

“Warriors, come out and play with uncle Sam!”

 Para reforçar a tese, revendo a cena em que Luther liga pra alguém e fala um tanto irônico sobre o "acidente" no Bronx com Cyrus, podemos enxergar esta cena como uma conversa encriptada: na realidade ali Luther estaria se reportando a seus superiores em Langley (CIA) ou em até mesmo em Washington (NSA), no melhor estilo de filmes de espião, através de frases-código e palavras chave, informando que cumpriu sua missão a contento.

Arô! É da puliça?

Infiltrar agentes dos poderes em exercício entre revoltosos é uma estratégia comum para minar manifestações populares, como pudemos ver nas manifestações populares de 2013 (aquelas em que o gigante acordou, levantou, foi dar uma mijada e dormiu de novo), onde (alegadamente) infiltrados descoordenaram qualquer ação de protesto e inclusive as invalidaram, utilizando de violência, minando o levante popular. Esse método truculento também é visto no especial “Democracia”, da Juiz Dredd Megazine, lançado em 2014. O bom e velho “Dividir e conquistar”. Nunca falha.

Para mim, faz todo sentido e leva a história em uma direção diferente sem perder nada do que foi mostrado no enredo, nem entrar em conflito. Foi o que eu, (e outros para quem expus esse delírio) achei mais interessante.

Ô LOCO!! É ESSA FERA AÍ, BICHO!!!
 Talvez minha imaginação tenha se excedido dessa forma justamente por ter certas partes da trama tão em aberto, que acabei preenchendo-as assim "na minha cronologia pessoal" rs ;>). Sempre me incomodou um pouco o fato de Luther executar Cyrus apenas porque sim. O que os rogues ganhariam com isso? Ah, então ele é psicopata? Acho isso meio batido. Fico mais contente com essa tese que brotou para enriquecer uma trama que por si só já é excelente. Me deixem com meus delírios hehehe.

Eu sei, eu sei, é uma teoria meio Fox Mulder, em que os verdadeiros vilões são sempre eles: O sistemão, the  Man, us hômi! Mas se for parar pra analisar que desde sua criação, agências governamentais como CIA e a NSA (e outras mundo afora, mas aqui estamos em NY!) foram responsáveis por planos até mais esdrúxulos do que minha teoria, vide as tentativas de assassinato de Fidel Castro que beiram o cômico. Assim fica fácil usar a suspensão de descrença, e o mais bacana: com base em eventos que ocorreram de fato no mundo real, para apreciar mais uma camada oculta em um filme que já é excelente por si só.

Queria dividir essa teoria aqui na Zona.

Reflitam. Comentem, expandam, me mostrem os furos no raciocínio, me xinguem, me paguem um chope pra gente conversar mais um pouco a respeito. Como eu disse, é apenas uma teoria minha. Não existe nada oficial nesse sentido sequer implícito na história original, é apenas um delírio alimentado pelo plot básico do filme, confrontado com o contexto da época.

“Vocês... SACARAM???”






quarta-feira, 24 de agosto de 2016

EVANGELHO DE SANGUE, de Clive Barker, ou “Não me chame de Pinhead, eu odeio esse apelido!!!”



                                                                           Por EDUARDO CRUZ


Atenção: Para não aborrecer os amiguinhos, esse texto não possui spoilers!




Quando pensamos em Clive Barker, geralmente nos vem à memória sua criação máxima (pelo menos no quesito popularidade): “Hellraiser”. Pinhead, seus cenobitas e a caixa de LeMarchand são o gatilho automático que nos leva a uma associação imediata ao nome de seu criador, mas, pelo menos aqui em nossas terras, pouco mais se conhece do trabalho deste autor inglês além disso. O que também é relativamente desconhecido por aqui é o fato de que Barker é um artista multimídia: escritor, roteirista, cineasta, produtor de cinema, roteirista de quadrinhos (além de expandir o universo de Hellraiser em HQs, criou a linha Razorline, dentro do selo Epic, que seria mais ou menos como a Vertigo da Marvel, também conhecido como o “Barkerverse"), dramaturgo, artista plástico e até desenvolvedor de games.
 
Preview da linha Razorline pelo selo epic

  Para quem está familiarizado com a obra do autor, sabe que sua prosa não tem filtros para suavizar as cenas extremas e brutais que ele cria, com doses generosas de erotismo e escatologia, visões tenebrosas e cenários pessimistas, onde muitas vezes seus protagonistas não têm a menor chance de escapatória, restando a resignação perante o poderoso e absoluto horror do desconhecido. O próprio Stephen King afirmou nos anos 80: "Eu vi o futuro do Horror… E seu nome é Clive Barker". Com um padrinho desses, não poderia ter começado melhor.

Clive Barker
 
Não podemos reclamar que a obra dele nos é completamente desconhecida, mas as poucas vezes em que editoras brasileiras se aventuraram a lançar livros dele são esparsas e não deram conta de sua extensa bibliografia, e mesmo os livros que saíram aqui, como a cobiçada (e ótima) série “Livros de sangue” ou “O desfiladeiro de medo” se tornaram o santo Graal entre seus fãs e colecionadores, alcançando preços exorbitantes nas internetes por falta de alguma editora que os republique.

Retificando velhos erros (como diria Jakita Wagner em Planetary, “Quem é que fala assim hoje em dia???”), a editora Darkside, que tem nos surpreendido positivamente já faz alguns anos com seu catálogo pavoroso, lançou no ano passado o livro “Hellraiser” (bem, antes tarde do que nunca!), com uma edição tão caprichada e primorosa que arrancou elogios – merecidíssimos! - do próprio pai da criança: Barker afirmou ser uma das mais belas edições de “Hellraiser” já publicadas até hoje.

A belíssima edição de "Hellraiser" da Darkside Books
 
Mas não estou aqui pra falar de um livro de 30 anos atrás, e sim de sua sequência, “O evangelho de sangue”. Publicada no ano passado lá fora, retornamos ao universo de tormentos do titio Barker. A trama começa em um sensacional prólogo, quando um pequeno grupo de magos se reúne em um mausoléu para trazer um deles de volta a vida, e discutirem a respeito da entidade que está assassinando todos os magos da Terra, um a um, com o intuito de roubar seus livros e objetos de poder. Logo descobrimos quem está por trás disso: o próprio Pinhead, – que aliás, odeia este apelido! - o Sacerdote do Inferno em pessoa, que arquitetou um plano para acumular poder e dar um golpe de estado no próprio inferno!



Paralelamente, Harry D’Amour se encontra em sua rotina de serviços estranhos, em que tem de eliminar evidências e objetos de um mago diletante recém falecido, para que sua família não descubra no que este aparentemente idôneo cidadão se envolvia em vida (uma boa analogia para isso é aquele acordo que você firmou com um amiguinho para, no caso de sua morte, apagar toda a pornografia de seu computador antes que sua mãe ou irmão mais novo vejam o tipo de pornografia bizarra que você curtia hehehe). O serviço “de rotina”, na verdade se revela uma armadilha, que acaba culminando no seqüestro de sua amiga e companheira de trabalho, Norma, uma poderosa médium capaz de se comunicar com os mortos. Com norma nas mãos do Sacerdote do Inferno, Cabe a D’Amour e alguns amigos mergulharem de cabeça no inferno para uma insana missão de resgate.

Brinde desse post: Uma caixa LeMarchand para você montar e brincar! Até nunca mais!

 Agora, aqui cabe um parêntese para falarmos um pouco do protagonista de “Evangelho de sangue”, o detetive Harry D’Amour. Um investigador particular, um detetive do oculto. Melhor seria, para efeitos de comparação, defini-lo como um cruzamento de Mike Hammer com John Constantine, como se escritores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler, ou Mickey Spillane adicionassem pitadas de ocultismo e demonologia ao noir que permeia suas obras, no gênero conhecido lá fora como American Crime Novel. A primeira aparição de D’Amour na bibliografia de Barker se deu no sexto volume de Livros de Sangue (Editora Civilização Brasileira, 1996), no excelente conto “A última ilusão”.   
De lá pra cá, D’Amour figurou rapidamente no livro “The great and secret show” (não publicado no Brasil); em seguida novamente em um conto, chamado “The lost souls” (também inédito no Brasil); retornou em uma participação maior no livro “Everville” (também inédito no Brasil) e finalmente antagonizou com Pinhead em “Evangelho de sangue”. Além disso, o personagem deu as caras na publicação em quadrinhos de Hellraiser, da editora americana BOOM! Studios (Se não me engano, essas edições saíram aqui no Brasil no encadernado “The dark watch”). Também não posso me esquecer de mencionar que Harry D’Amour foi interpretado pelo ator Scott Bakula no filme “O mestre das ilusões”, de 1995, dirigido pelo próprio Barker, e que adapta livremente o conto “A última ilusão”. Não que para curtir “Evangelho de Sangue“ o leitor seja obrigado a ter lido as aparições prévias do detetive do oculto nas outras histórias de Barker. Eu pessoalmente só li “A última ilusão”, e já me foi o suficiente pra ficar animado quando soube que D’Amour seria o personagem que nos conduziria em “Evangelho de sangue”. Bateu aquela sensação de rever um velho conhecido, tão consistente é o desenvolvimento de D’Amour no conto. Porém, mesmo alguém que não tenha lido nada dele antes não ficaria perdido, já que Barker o apresenta e desenvolve muito bem no decorrer do livro, inclusive com um flashback fantástico de D’Amour ainda como policial em Nova Iorque, e os eventos tenebrosos que o levaram a sair da força policial, numa ocorrência infernal para Constantine nenhum botar defeito. Vejamos cada história de Harry D’Amour como um caso da longa e sinistra carreira do detetive do sobrenatural, e “Evangelho de sangue” é o caso que mais exigiu do personagem até agora, inclusive, forçando o personagem a uma transição, uma mudança de rumo interessante, que nos faz aguardar com expectativa o próximo volume.

O personagem Harry D'Amour no filme "O mestre das ilusões"

 Seguindo Harry e seu pequeno grupo de amigos fiéis, os Atormentadores, à medida que avançam em busca de Norma, vislumbramos a pavorosa geografia infernal, que em muitas passagens descritas por Barker lembram as pinturas de Wayne Barlowe, um artista que nos dá a impressão de ter visitado o inferno algumas vezes, dada a quantidade de detalhes mórbidos em suas paisagens do Abismo. Além disso, Barker esmiúça as relações políticas no inferno, e onde a ordem de Pinhead se encaixa neste contexto. Também vemos o Lúcifer mais astuto e poderoso desde o arco “Estação das brumas”, publicado na HQ Sandman, de Neil Gaiman.

Wayne Barlowe, um pintor dos infernos

 Quanto a pontos desfavoráveis do livro, tenho apenas um a ressaltar, na verdade uma crítica positiva para a nossa amada editora da caveirinha: o texto careceu de revisão. A todo momento, esbarramos em erros de revisão durante a leitura, algumas palavras com letras trocadas ou palavras no plural sem o “s” aqui e ali, mas nada que desabone a obra em si. Repito: Isso é somente uma crítica construtiva, algo que outros internautas por aí têm enfatizado, e que tem ocorrido com certa freqüência em várias publicações de diversas editoras. Pelo volume de livros publicados, é perfeitamente compreensível, mas se a gente não reclamar de alguma coisa, não tem graça heheheh...... Se bem que com uma capa dessas, dá até uma certa sensação de culpa de falar de qualquer probleminha que a edição possa ter rs

Essa capa, senhoras e senhores..... essa capa.....

 Encerro por aqui conclamando a todos os leitores de horror: roguemos à editora Darkside, para que seja fulminada pelo feixe de luz negra de Lorde Leviatã, e que tenhamos mais e mais obras de Clive Barker publicadas por aqui. Ele ainda tem tantas visões para nos mostrar....





sexta-feira, 12 de agosto de 2016

THE BOJEFFRIES SAGA, de Alan Moore e Steve Parkhouse, ou “Meu avô é um deus Lovecraftiano!”



Por EDUARDO CRUZ







A maioria dos leitores de quadrinhos, após um contato inicial com o trabalho de Alan Moore, (“O Rouxinol de Northampton” para os íntimos ou “O Autor original” para os desafetos rs) acaba, por razões óbvias, se encantando com a qualidade de seus trabalhos e não raro, enveredam em uma pesquisa arqueológica para escavar trabalhos anteriores do bruxo (Não fazemos isso com todos os autores, diretores e músicos de que gostamos???). Em se tratando de Alan Moore, essa brincadeirinha arqueológica em torno de sua obra pode render ótimas surpresas, como se pode conferir em “The Bojeffries Saga”.

Alguns anos antes da tal “Invasão Britânica”, a estratégia iluminada da DC Comics de olhar do outro lado da poça do atlântico e importar talentos do Reino Unido para dar um revamp em alguns de seus personagens de segunda linha, já sem brilho (na verdade, alguns sem brilho desde sua criação, mas nada que um Moore, Morrison, Milligan ou Gaiman não resolvam, porque, meus amigos, não existe personagem ruim, o que existe é a mulher que não conhece os produtos Jequiti! - ou algo assim), Moore já batalhava no mercado de HQs Inglesas. Começou como cartunista na revista musical Sounds, e logo em seguida dedicou-se exclusivamente como roteirista em títulos como a Doctor Who Weekly, Marvel UK, 2000A.D. e a Warrior, onde produziu V de Vingança, Miracleman e  as primeiras histórias de “The Bojeffries saga” (em 1983, contudo outros arcos seriam produzidos depois, mas com o fim da Warrior, estes foram publicados em diversas revistas, sem regularidade definida), com arte de Steve Parkhouse, um dos pilares das HQs britânicas, com mais trabalhos no currículo do que eu disponho de espaço aqui para listar.

Alguns anos depois, em 2008, Moore resolveu retomar a história do clã Bojeffries, enquanto dava um break dos roteiros de “A Liga Extraordinária”, HQ que produz em conjunto com Kevin O’Neil, a fim de dar uma conclusão apropriada, uma história de despedida, por assim dizer.



Uma HQ de humor, algo raro na bibliografia de Moore, “The Bojeffries Saga” nos traz o dia a dia da família Bojeffries, uma espécie de Família Monstro residente num bairro de casas populares em Northampton, típicas de classe operária britânica, as famosas council houses. Seria um plot banal, se não fosse por um detalhe bizarro: alguns membros dessa família suburbana “banal” nem humanos são! A saber: Jobremus Bojeffries, o patriarca da família; Ginda Bojeffries, a filha, um brucutu ameaçador; Reth Bojeffries, irmão de Ginda; O bebê, que produz energia atômica suficiente para iluminar a Inglaterra e o País de Gales; Tio Raoul Zlüdotny, um lobisomem aparvalhado que adora os poodles da vizinhança (no sentido gastronômico mesmo); Tio Festus Zlüdotny, um vampiro inepto e Vovô Podlasp, uma criatura muito antiga, amorfa e poderosíssima que quando irritado, brada palavras como “Y-YUG FNATAGH! N’GAR! YULLOTH RHUGAH! H’RRUN SHLUGATH! IËI CTHLUR-XOTEP”, numa ostensiva homenagem ao vocabulário profano inventado por H. P. Lovecraft, escritor do qual Moore é admirador confesso.

Vovô resolve o problema do aluguel atrasado.


 Como toda boa sátira, a família Bojeffries foi apenas um palco para apontar e rir da feiúra cotidiana da cinzenta Inglaterra, com tons abertamente autobiográficos, que remetem diretamente à infância de Moore:
"Eu e o desenhista Steve Parkhouse estamos tentando captar a sensação das coisinhas bem imbecis da Inglaterra que lembramos de quando éramos criança... Resumindo tudo à fantasia de uma paisagem inglesa na qual havia lobisomens e mutantes. É engraçado dizer, mas é mais pessoal que muitas HQs que já fiz." Vinte anos depois, ele ressaltou a mesma questão: "Bojeffries foi importante pelo fato de ser uma das coisas mais pessoais que já fiz... parece muito surrealista para americanos, enquanto, para mim, é uma das coisas que fiz na qual fiquei mais próximo de descrever o sabor que tinha uma infância de classe operária em Northampton." Em alguns momentos, The Bojeffries Saga é simplesmente a infância de Alan Moore com os nomes trocados e leve hipérbole para fins de comédia."
(PARKIN, Lance. Mago das Palavras: A Vida Extraordinária de Alan Moore, Ed. Marsupial, 2016, p.104)

Apesar de ser um dos primeiros trabalhos de Moore, a HQ é impregnada de um espírito anárquico, de um jovem Alan Moore querendo se divertir e contar histórias, como o infeliz destino de Trevor Inchmale, um cobrador que examinando registros, descobre que os Bojeffries não pagam o aluguel há mais de um século, ou a saída à noite do tio Raoul, que graças a um colega de trabalho com uma agenda velha, confunde as fases da lua, o que dá a Raoul a certeza de que ele pode sair de casa para uma social sem se transformar, mas adivinhem? É noite de lua cheia! Ou as desventuras românticas de Ginda Bojeffries e até mesmo uma ópera! Sim, uma história “cantada” em formato de ópera pelo “elenco” da HQ. Moore ousa nos formatos desde sempre.

Todo o poder de sedução de Ginda Bojjeffries...


A história final, escrita em 2008, no estilo de documentário para a TV, algo como “Por onde andam os Bojeffries?”, é hilariante e, pasmem, acaba numa edição de Big Brother Inglaterra!

Ainda não lançado no Brasil (mas não desanimem, perceberam como nos últimos 3 anos saíram TONELADAS de material do Moore por aqui, muita coisa inédita?), o encadernado publicado em conjunto pelas indies Top Shelf (EUA) e Knockabout Comics (ENG), compila TODAS as histórias da família Bojeffries criadas pela dupla, inclusive a derradeira de 2008, tão ácida com seu contexto sociocultural quanto as originais o foram em seu tempo.

Uma ópera light... o que quer que isso signifique...

Uma rara oportunidade de ver os primórdios do barbruxão, em um tempo em que ele ainda não era o Mago Supremo, mas já ensaiava seus primeiros passos rumo a narrativas que revolucionariam a mídia das histórias em quadrinhos, mas isso é uma história pra outro dia, crianças, e eu vou voltar pro meu caixão porque já está amanhecendo...  CHEERS!!!
"Alan Moore knows the score!"