quarta-feira, 26 de outubro de 2016

ZÉ DO CAIXÃO, MALDITO - A BIOGRAFIA, de André Barcinski e Ivan Finotti, ou “Coffin Joe é o meu pastor e horror não me faltará”



Por EDUARDO “A BESTA” CRUZ







''O que é a vida?

É o princípio da morte.

O que é a morte?

É o fim da vida.''


Se eu tivesse que definir em apenas uma palavra o cidadão José Mojica Marins, bem, eu não conseguiria! Uma palavra só? Nada justo! Melhor seria se me dessem um estoque ilimitado de adjetivos, isso sim faria maior justiça a Mojica: Paixão, resiliência, garra (com trocadilho mesmo!), criatividade, determinação, coragem, astúcia.... só mesmo essa soma de qualidades para explicar a longevidade da carreira de um cineasta em um país que não valoriza a cultura de um modo geral, ainda menos quando falamos em uma arte tão cara quanto o cinema. Mojica tem uma filmografia extensa, e mesmo assim provavelmente poderíamos somar os orçamentos de todos os filmes em que ele produziu, dirigiu, atuou.... ainda assim essa soma não ultrapassaria o orçamento do último filme dos Transformers. Nesse quesito, deveria ser inaugurada uma cadeira em universidades ensinando o método Mojica de realizar longas metragens com valores irrisórios.

O lado humano de Zé do Caixão....

Lembro do primeiro contato que eu tive com a persona fictícia de Mojica Marins, um personagem que acabou ficando maior e, de certa forma, mais real que o próprio Mojica: O Zé do Caixão. Eu era garoto, e ele participava de um programa do Gugu ou Silvio Santos, um desses programas de TV de domingo à tarde que exploram de forma sensacionalista seus convidados “exóticos”, na guerra para ganhar alguns pontos de audiência. Eu não fazia idéia de quem era aquele maluco de cartola, bradando pragas sinistras para os telespectadores, usando uma capa de Exu caveira e unhas compridas, que mais lembravam garras, mas os mais velhos lá em casa reconheceram a figura, o tal “Zé do Caixão”. Fiquei intrigado com aquela criatura, nunca tinha visto nada parecido com aquilo em minha curta vida antes. Tentei descobrir o máximo possível daquela figura perguntando aos meus tios e avós, mas basicamente, as pessoas só se lembram do José Mojica Marins enquanto Zé do Caixão, e não de seu trabalho, sua filmografia. Esse meu primeiro contato com Mojica, como figura pitoresca - e imagino que eu não seja o único a ter tido esse primeiro contato dessa forma - só demonstra o ostracismo em que se encontrava o cineasta no início dos anos 90, pouco antes de seu reconhecimento no exterior. Zé do Caixão sempre fascinou adultos e crianças, e embora esse nosso lindo país de memória curta não consiga enxergar com acuidade seu imenso valor e contribuição para a cultura popular nacional, uma coisa é certa: ele soube se fazer enxergar. Ponto. Até porque, como o próprio Mojica diz: "Quem não aparece, praticamente desaparece!".

A Lenda e eu
Alguns anos depois, ainda na era do VHS (a maioria dos que lêem esse texto não faz idéia do que foi um VHS rs), esbarrei com “O estranho mundo de Zé do Caixão” escondido em uma locadora (a maioria dos que lêem esse texto nem sabe o que é uma locadora rs) e finalmente consegui ter uma fração de idéia do que era o Zé do Caixão. Mas ainda era uma época de internet discada (a maioria que lê isso nem sabe é internet discada rs), e muito pouca informação atravessava o fio telefônico até o meu PC, comparado com a velocidade e abundância de informação de hoje. Avance mais uns 6 anos e, novamente, em outra locadora empoeirada, encontrei a obra máxima de Mojica: “À meia noite levarei sua alma”, ode suprema à iconoclastia e desobediência do indivíduo perante as normas opressivas da sociedade, o filme que te faz compreender porque Mojica é comparado à Luis Buñuel, e que dá orgulho de ter sido produzido no Brasil.

 À meia noite levarei sua alma (1963)

O estranho mundo de Zé do Caixão (1968)
 
Em “À meia noite levarei a sua alma” vemos o surgimento do personagem Zé do Caixão, o indivíduo que não se conforma com o pensamento de rebanho, um monstro tipicamente brasileiro, que se crê superior à massa, numa distorção Nietzschiana do conceito de Übermensch, com um mantra que tenta executar a qualquer preço: A CONTINUIDADE DO SANGUE! Na busca por gerar o sucessor perfeito, Zé do Caixão era o homem tornado monstro por meio das barbáries que perpetrava em nome de seu objetivo supremo.

José Mojica "Zé do Caixão" Marins e Christopher "Drácula Saruman" Lee

Depois disso, e de alguns anos já usufruindo o reconhecimento no estrangeiro – enquanto aqui a maioria das pessoas ainda o enxergavam apenas como “pitoresco” – foi lançado um Box com 6 filmes altamente relevantes de sua filmografia (como o destruidor “Ritual dos sádicos” ou “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, a continuação do “À meia noite...”) e, paralelamente a isso, a internet melhorou o suficiente para possibilitar o download de mais alguns filmes, e os que não achávamos online, encomendávamos de sites de colecionadores, como o falecido site Putrescine, com um acervo que era uma mina de ouro do cinema nacional. 

À meia noite beberei tua pinga!

Aí, um dia você acorda, passa tudo isso em retrospecto na memória e PAH! se descobre fã de José Mojica Marins. Um fã? Melhor dizendo, um seguidor ávido, fascinado com a visão desse diretor autodidata, que aprendeu cinema assistindo filmes, de dentro da cabine de projeção do cinema de bairro onde seu pai trabalhava como projecionista no subúrbio de São Paulo.

Seguindo o rastro da obra de Mojica assim tão obsessivamente, era evidente que uma hora eu esbarraria em “Maldito”, a biografia de José Mojica Marins, de André Barcinski e Ivan Finotti, outros dois Mojicólatras aficionados (é preciso um para reconhecer um), e foi exatamente o que aconteceu! Era mais uma excelente aquisição para quem estava “estudando” Zé do Caixãologia há quase uma década sem nem se dar conta disso. Não contente em assistir ao máximo de seus filmes que eu pudesse pôr as mãos, eu queria conhecer os percalços dessa vida, o que motivou essa imaginação sem amarras e, quem sabe, conhecer o segredo de sua persistência na execução de sua obra. Os autores fizeram um trabalho de pesquisa bem abrangente, e é uma das biografias mais completas em que já tive o prazer de pôr as mãos.

Capa da primeira edição de "Maldito"

Consegui um autógrafo do Mestre, claro...

Nada contra quem costuma ler biografias de artistas, mas eu sempre preferi apreciar diretamente a arte produzida a ler a respeito dos acontecimentos da vida do artista em questão, com raras exceções, e Mojica é “A” exceção: os esquemas rocambolescos bolados para arrecadar verba para realizar seus filmes, os casos hilários e pitorescos por trás das filmagens, como o roubo das árvores plantadas ao longo do Largo do Arouche, roubadas de madrugada pela equipe de Mojica para compor o cenário da floresta de “À meia noite...”, ou quando Glauber Rocha levanta da cadeira no meio de uma sessão de "À meia noite..." berrando "Putaquipariu, esse cara é um gênio!", seus rolos com mulheres (Mojica chegou a ter 4 mulheres simultaneamente, uma verdadeira maratona de casa em casa para “bater o ponto”!), o infarto sofrido por conta da dieta em época de filmagens (cachaça, salame e alguns comprimidos para se manter acordado), o tardio e merecido reconhecimento da crítica internacional, os prêmios recebidos no exterior.... tudo estava lá, para quem quisesse conhecer mais a fundo o “Mestre” (como era carinhosamente chamado pelos alunos do curso de artes dramáticas fundado e administrado por ele, uma maneira de sempre ter elenco barato à disposição), além da sua obra cinematográfica, os percalços de uma vida que sempre foi febril no tocante a fazer cinema. O livro cobre desde a chegada de seus pais, imigrantes espanhóis, ao Brasil, passando pela infância e adolescência de Mojica, os tempos bons e os ruins, as dificuldades financeiras, a fase em que o diretor teve que trabalhar em produções pornográficas da boca do lixo para sobreviver... enfim, muitas histórias dentro de histórias, e tudo verdade, mesmo que algumas sejam absurdas de acreditar! Tudo isso embalado em um texto ágil e envolvente.

Trecho de 24 horas de sexo explícito (1985)

Em 2015, o canal Space produziu uma mini série em seis episódios adaptando alguns dos principais acontecimentos da vida de José Mojica Marins descritos na biografia. A mini série, intitulada simplesmente “Zé do Caixão”, cobre o início das primeiras experimentações com cinema, passando pelos maiores sucessos, o pesadelo que inspirou Mojica a criar Zé do Caixão, a fase de dificuldades financeiras, onde Mojica só conseguiu trabalhos como diretor em produções eróticas, entre outros causos da vida do diretor, com Matheus Nachtergaele no papel principal. Semelhança estarrecedora. O próprio Mojica declarou ter ficado impressionado ao entrar no set de filmagens e ver Nachtergaele trajado à caráter, como Zé do Caixão. Aproveitando o espaço, deixo aqui uma entrevista com a lenda conduzida pelo pessoal do Podtrash, um podcast altamente especializado em comentar filmes trash e congêneres. Aposto que para o pessoal do podcast, foi um sonho realizado. Inveja branca de vocês, guys heheheh.....


Caracterização perfeita



 A minissérie Zé do Caixão

Infelizmente para as novas gerações, esse fantástico livro, da Editora 34, publicado originalmente em 1998, já estava esgotado havia alguns anos, até que a Darkside Books entra na jogada e apronta novamente. Sim, a editora da caveira não dormiu no ponto e adquiriu os direitos de publicação da biografia para editar um tijolo fantástico de 666 (!!!) páginas. Zé do Caixão, nosso próprio bicho papão bem brasileiro, estava em casa! A diferença do número de páginas em relação à edição anterior permitiu que o livro fosse ainda mais ricamente ilustrado do que sua versão anterior, com fotos ampliadas e muitas outras fotos inéditas. Na verdade, não somente as fotos, mas toda a parte gráfica do livro é impressionante, com uma capa belíssima, que captura seu olhar por muitos minutos. Um pacote à altura para um livro excelente e um tributo mais que apropriado à vida e obra do Mestre, com todo o conceito visual da edição perfeitamente alinhado com a obra de Mojica, ou seja, é um livro dark, imponente, assustador, de meter medo já na capa, e que lembra um grimório de magia. Além disso, “Maldito, a biografia” possui uma extensa seção, esforço hercúleo dos autores em catalogar TODA A OBRA de mojica: seus filmes, curtas metragens, programas de TV, novelizações, histórias em quadrinhos... Todas as produções com um grau de envolvimento de José Mojica Marins constam lá.  Com esse guia em mãos, só posso desejar uma coisa: Bom garimpo!

Fui obrigado a comprar pela segunda vez o mesmo livro rs. Obrigado, Darkside.


Mais um livraço de respeito da Darkside Books...
Termino esse texto rogando uma singela praga aos leitores da Zona: QUE VOCÊ SEJA ACORRENTADO(A) A UMA CADEIRA DE PREGOS DE FERRO FERVENTE, E UMA TEVÊ REPRISANDO O ESPECIAL DE NATAL DO ROBERTO CARLOS COM PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE SIMONE, CANTANDO “ENTÃO É NATAL” ... POR TODA A ETERNIDADE!!!!, caso não corra atrás de seu exemplar de “Maldito – A biografia”.......


Fica aí duvidando de praga do Zé, fica....


BRINCADEIRINHA!!! SEM PRAGAS, VAMOS SÓ PULAR NO SALÃO, ATÉ CAIR!!!!!








terça-feira, 18 de outubro de 2016

CONFISSÕES DO CREMATÓRIO, de Caitlin Doughty, ou “Lições de vida, com a professora morte.”




Por EDUARDO CRUZ




O grande triunfo (ou tragédia horrível, dependendo de como você encara) de ser humano é que nosso cérebro evoluiu ao longo de centenas de milhares de anos para compreender nossa mortalidade. Infelizmente, somos criaturas conscientes. Mesmo que passemos o dia encontrando jeitos criativos de negar nossa mortalidade, por mais poderosos, amados e especiais que nos sintamos, sabemos que estamos fadados à morte e à decomposição. Esse é um peso mental compartilhado por poucas e preciosas espécies na Terra.

Todos temos nossos macetes de profissão, seja ela qual for. Os jargões específicos, línguas estranhas para outros mortais (outro dia, em uma conversa de boteco, testemunhei a um papo entre dois amigos que trabalham em farmácia destilando jargões do meio. Rapaz, como boiei!), suas rotinas de procedimentos no trabalho, aquela tranqüilidade que se alcança depois de se adquirir certa experiência. Em algumas áreas pode ser mais fácil que outras para se atingir esse patamar de profissional experimentado, mas tenho certeza que para Caitlin Doughty não foi moleza: a autora, que trabalhou durante cerca de 6 anos em uma casa funerária na Califórnia, não se limitou a escrever apenas sobre suas experiências na indústria funerária, sobre como barbear cadáveres, como usar o forno crematório, como embalsamar bebês, etc. Caitlin Doughty fez uma profunda incursão acerca de como a morte e os rituais fúnebres são vistos e entendidos em diversas culturas. Permeado de um humor muito sutil e inteligente e cheio de relatos interessantíssimos e repleto de reflexões. “Confissões do crematório” é o primeiro livro do selo Dark Crush, a linha de livros de não ficção da editora Darkside Books. 

“Embora você possa nunca ter ido a um enterro, dois humanos do planeta morrem por segundo. Oito no tempo que você levou para ler essa frase. Agora, estamos em quatorze.”

Mas aí você vai torcer o nariz e me dizer: “Livro de youtuber? Que merda!”. Sim, uma youtuber, mas com algo a dizer, amiguinhos, o que entre o cada vez mais crescente número de canais do site, é algo raro, convenhamos. Afinal, quantos livros você tem em sua estante que expliquem com detalhes o que vão fazer com você assim que você se transformar em um bloco de carne em decomposição?

Caitlin Doughty
“Confissões do crematório”, mais do que simplesmente descortinar os bastidores da indústria funerária estadunindense, também traz curiosidades e reflexões a respeito da morte e seus temas periféricos, como tradições funerárias de outros povos, curiosidades e fatos históricos, mitológicos e filosóficos. Tudo com muito bom humor e sem perder o respeito pelo tema. Interessante também foi constatar com a leitura desse livro que a medicina moderna, além da medicalização do parto, criou também a medicalização da morte: da mesma forma que a medicina retirou o parto das parteiras e de dentro dos domicílios, o momento de falecimento de um ser humano, que costumava ser em sua própria cama, cercado pela família também foi substituído pela assepsia dos quartos hospitalares. Num futuro bem próximo, se depender de nossos parlamentares, até tatuagens vão passar por este processo de medicalização. Mais um processo humano milenar perdido para as demandas comerciais e o status quo da saúde como forma de comércio, mas isso é papo pra outro post....

“Podemos nos esforçar para jogar a morte para escanteio, guardando cadáveres atrás de portas de aço inoxidável e enfiando os doentes e moribundos em quartos de hospital. Escondemos a morte com tanta habilidade que quase daria para acreditar que somos a primeira geração de imortais. Mas não somos. Vamos todos morrer e sabemos disso.


O título original do livro (Smoke gets in your eyes)

Em nossa cultura ocidental contemporânea, somos doutrinados a crer que nossa obrigação é vencer na vida (seja lá o que isso signifique...), vencer a competição e acumular mais riqueza que seu amiguinho, e nesses moldes de pensamento, morrer faz de você o loser supremo. As pessoas se cercam de toda sorte de distrações e ilusões para não encarar a realidade de um processo absolutamente natural de nosso ciclo de vida, tão natural quanto nascer. Parece que nessa época de cultura de massa, o medo da morte acabou degenerando para uma histeria em massa. A postura a ser adotada pela maioria das pessoas é “não pensar a respeito NUNCA!”. Mas, sejamos sinceros: quanto tempo uma pessoa consegue evitar pensar a respeito da morte, até ela meter o pé na porta e se fazer notar, seja com a perda de um bicho de estimação, um amigo, um parente? Essa é uma atitude contraproducente, e iniciativas como o “Confissões do crematório” são excelentes para ajudar a transformar esse senso comum. Pondo de lado julgamentos, encarar a própria mortalidade não é fácil para algumas mentes. A morte é o grande equalizador: ricos pobres, homens, mulheres, crianças.... no final todos sucumbem à essa realidades inescapável, então porque insistimos em fugir da realidade? Podemos inferir, fácil, que essa é uma das maiores causas de sofrimento da humanidade.
Normalmente eu não cito a bíblia nunca, por medo de sofrer uma combustão espontânea, mas pela primeira vez concordamos numa coisa: existe um tempo para nascer, e um tempo para morrer.

Só faltou mesmo um prefácio dessa menina aqui...


“Nunca é cedo demais para começar a pensar na própria morte e na morte das pessoas que você ama […] Aceitar a morte não quer dizer que você não ficar arrasado quando alguém que você ama morrer. Quer dizer que você vai ser capaz de se concentrar na sua dor sem o peso de questões existenciais maiores como “Por que as pessoas morrem?” e “Por que isto está acontecendo comigo?”. A morte não está acontecendo com você. Está acontecendo com todo mundo” 

Não posso deixar de elogiar a parte gráfica do projeto, mas isso está ficando chato. A coisa mais lugar comum no mercado editorial nacional atualmente é elogiar o alto padrão gráfico que a Darkside Books dispensa às suas publicações, o capricho e atenção esquizofrênica aos detalhes, à capa, à arte interna. Façam uma capa feia pra variar um pouco, pessoal! rsrsrsrs




Se você não quer nunca, jamais pensar sobre sua própria mortalidade, ou não quer quebrar os óculos cor de rosa que usa para enxergar a vida, passe longe desse livro. Agora, se você tem estômago para encarar verdades incômodas, siga em frente, e cresça um pouquinho com ajuda dessa dor de ser mortal, de se perceber mortal. No final das contas, não espere nenhuma revelação ou verdade absoluta do “Confissões...” sobre o que reside além do véu da morte. Essa dúvida pertence tanto a nós quanto à autora, e esse livro não promete respostas prontas, como o livro de auto ajuda da semana, só o que ele faz é nos pegar pela mão e nos conduzir por essas reflexões do lado de cá do forno crematório que, mesmo dolorosas, precisam ser ponderadas em algum momento da vida, e que abandonemos o medo e a irracionalidade que ele acarreta, e em silêncio aprendamos com a morte, e a tratemos não com banalidade, mas com naturalidade. Porque a morte está logo ali, virando a esquina, como Raulzito já cantou:







"Somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres."


PS.: Tudo bem não se abalar com a morte, mas se sentir borboletas voando em seu estômago e um aumento de fluxo sanguíneo da região pélvica ao assistir a filmes como Nekromantik e Aftermath, procure ajuda pra ontem, amiguinho(a)!

 Aftermath, de Nacho Cerda (1994)



Nekromantik, de Jorg Buttgereit (1987)



FUI! Até +!!!!








segunda-feira, 17 de outubro de 2016

ENCHEÇÃO DE LINGUIÇA DO BEM #001 - "Bolinhos de Bebê", de Neil Gaiman







É, nós sabemos....
Sabemos que vocês se sentiram abandonados... não, não! sabemos mesmo! calma, não precisa gritar!!!
Sim, sentimos muito e estamos arrependidos por termos sumido tanto tempo sem dar satisfação.
Sim, nós aqui da Zona sabemos o quanto vocês sofreram com a distância, sem nenhum post bacana pra confortar vocês nessa internet violenta de meu Deus....
Sim, nós prometemos que isso nunca mais vai se repetir... sim... sim, vamos dar notícias! sim, a gente vai atender o telefone!!!
É, eu sei que parece desculpa esfarrapada, mas estávamos preparando uma coisa legal pra vocês, estávamos preparando não um, mas vários posts pra VOCÊS! Não, não estávamos de sacanagem no cabaré!! Nós amamos vocês!!!
Tá bom, prometemos não sumir de novo sem dar maiores satisfações..... sim, vocês já disseram que ficaram aflitos, desesperados, sem comer nem dormir!
Não, não precisa voltar pra casa da sua mãe!!! A gente vai se acertar!
Não, não somos monstros desalmados... Se puderem deixar a gente explicar, prometemos que, daqui pra frente, mesmo que não tenhamos post novo, vamos chegar junto e postar algum conto bacana de alguém legal, só pra mostrar que estamos presentes, ali, dando carinho e atenção!
Pra mostrar o quanto estamos arrependidos, trouxemos um continho do Neil "Sandman" Gaiman, pra passar essas próximas horas até o post novo.
Bem na hora da janta.



BOLINHOS DE BEBÊ

Neil Gaiman, 1998


Alguns anos atrás, todos os animais foram embora. Acordamos uma manhã e eles simplesmente não estavam mais lá.
Nem mesmo nos deixaram um bilhete ou disseram adeus. Nunca conseguimos saber ao certo para onde foram.
Sentimos sua falta.
Alguns de nós pensaram que o mundo tinha se acabado, mas não tinha.
Só que não havia mais animais. Não havia gatos ou coelhos, cachorros ou baleias, não havia peixes nos mares, nem pássaros nos céus.
Estávamos sós.
Não sabíamos o que fazer.
Vagueamos por aí, perdidos por um tempo, e então alguém observou que, só porque não tínhamos mais animais, não havia motivo para mudar nossas vidas. Não havia razão para mudar nossa dieta ou parar de testar produtos que podem nos fazer mal.
Afinal de contas, ainda havia os bebês.
Bebês não falam. Mal podem se mexer. O bebê não é uma criatura racional, pensante.
Fizemos bebês.
E os usamos.
Alguns deles, comemos. Carne de bebê é tenra e suculenta.
Esfolamos suas peles e nos enfeitamos com elas. Couro de bebê é macio e confortável.
Alguns deles, usamos em testes.
Mantínhamos seus olhos abertos com fitas adesivas e pingávamos detergentes e shampoos neles, uma gota de cada vez.
Nós os marcamos e os escaldamos. Nós os queimamos. Nós os prendemos com braçadeiras e plantamos eletrodos em seus cérebros. Enxertamos, congelamos e irradiamos.
Os bebês respiravam nossa fumaça e, na veias dos bebês, fluíam nossos remédios e drogas, até eles pararem de respirar ou até o sangue deles não correr mais.
Era duro, é claro, mas necessário.
Ninguém podia negar isso.
Com a partida dos animais, o que mais podíamos fazer?
Algumas pessoas reclamaram, claro. Mas elas sempre fazem isso.
E tudo voltou ao normal.
Só que…
Ontem, todos os bebês se foram.
Não sabemos para onde. Nem mesmo os vimos partir.
Não sabemos o que vamos fazer sem eles.
Mas pensaremos em algo. Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês.
Vamos bolar alguma coisa.

(Extraído de Fumaça e Espelhos: contos e ilusões, Ed. Via Lettera)



Bom apetite e até amanhã.





sexta-feira, 30 de setembro de 2016

GUERRA DO VELHO, de John Scalzi, ou "Jovem, você que completou 75 anos, aliste-se já nas Forças Coloniais de Defesa!"

Por EDUARDO CRUZ






"No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército."


Esse é o trecho que abre "Guerra do velho", primeiro livro de John Scalzi, uma ficção científica militar que é uma homenagem descarada ao clássico "Tropas estelares", mais um bem vindo lançamento da editora Aleph, que não precisava de mais esse pra ter um catálogo incrível. Mas eles fizeram mesmo assim rs. E já começo essa resenha adiantando o seguinte: se você gosta do "Tropas estelares", vai adorar "Guerra do velho"! e, se você não curte "Tropas estelares", pode ser que mesmo assim goste de "Guerra do velho"! O texto de Scalzi é extremamente envolvente e a leitura possui um ritmo absurdamente ágil, mesmo para uma história de ficção científica, um gênero que por vezes, pode ser bem hermético e excludente, dependendo do autor em questão. A leitura em "Guerra do velho" engrena já em suas primeiras páginas e à medida que a história vai avançando, o ritmo aumenta, fazendo com que o livro, de cerca de 360 páginas, seja devorado em uma questão de poucos dias, e até os leitores mais lentos ou com mais dificuldades para conciliar um tempo livre à leitura poderão se surpreender com a velocidade com que se chega ao final,  que, aliás, vai deixar uma tremenda sensação de "quero mais".

Normalmente sou muito ressabiado com séries literárias. Não as vejo com bons olhos. Sem citar nomes (cof, cof, CREPÚSCULO!!, cof, cof!!), pode me chamar de ranzinza, mas a maioria delas, pra mim, não passa de caça níqueis, esperando para serem abocanhados por produtores e estúdios de Hollywood, em troca dos direitos de adaptação para TV e cinema, Bonequinhos e sabe-se lá mais o quê. O céu (e a ganância) é o limite. Não me acostumo com o fato de livros serem usados para gerar uma moda comercial, uma tendência de consumo. Existem raras exceções e essa série, que já está no oitavo volume lá fora, é uma exceção honrosa!

Meus amigos mais próximos devem estar de saco cheio pela quantidade de vezes que recomendei este livro em conversas. Alguns até compraram, possivelmente para se verem livres da minha ladainha. Com um deles até brinquei: "Ei, se você não gostar eu compro seu exemplar e fico com um para dar de presente!". Mas estou seguro que não vou perder essa grana. Meu amigo não vai se desfazer dele. Assim que começar a ler, se é que já não o fez, não há volta. Resta apenas esperar ansiosamente os próximos livros da série, que a editora Aleph já confirmou que vai publicar aqui no Brasil.


The ghost brigades, próximo volume da série a sair no Brasil

Bom, chega de mimimi e vamos à história: Ambientada em um futuro não tão próximo, "Guerra do velho" conta a história de John Perry, um idoso da Terra que havia planejado, junto com sua esposa, se alistar nas Forças Coloniais de Defesa. As FCD são uma instituição poderosa, independente dos governos da Terra, com tecnologia ostensivamente superior à qualquer coisa encontrada no planeta Terra, e que promove o colonialismo humano em nível cósmico, protegendo e garantindo a instalação de colonos humanos em planetas com recursos necessários à espécie humana. Porém, o universo é muito grande e existem incontáveis raças alienígenas, com tecnologia igual ou superior à humana. Por "tecnologia", leia-se "poder de fogo" mesmo. Isso significa que, na maior parte dos casos, é preciso lutar para manter território conquistado. Matar ou morrer. Uma guerra sem fim.

As coisas não saem como planejado para John e Kathy, sua esposa, padece de um AVC antes de completar a idade mínima para o alistamento. Sozinho no mundo, John resolve seguir em frente com seu plano, já que, a seu ver, não lhe resta mais nada pelo que ficar se agarrando em seus últimos anos de existência na Terra. Se despede dos parentes e amigos que restaram e parte rumo ao desconhecido. Muito pouco se sabe a respeito do modo como as FCD conduzem seus negócios universo afora, e para descobrir é preciso se alistar, por um prazo mínimo de 2 anos, que pode ser prorrogado por até uma década! A comunicação entre as colônias e a Terra é restrita e quem parte, seja como colono ou soldado, não pode nunca mais retornar. Por esse motivo, é um grande mistério e motivo de enorme especulação na Terra a forma como as Forças Coloniais de Defesa conseguem transformar um idoso de 75 anos em um soldado apto a lutar contra raças alienígenas perigosíssimas. Alguns suspeitam de terapia de genes, rejuvenescimento, troca de órgãos velhos por novos, mas ninguém na Terra sabe nada de concreto quanto ao procedimento real. Bem, pelo menos até que se assine o documento de alistamento, e bem longe do planeta, seja submetido à verdade: A FCD cultiva corpos novos para seus recrutas idosos e com o auxílio de nanotecnologia, transfere as mentes dos idosos para estes corpos, jovens e enormemente aprimorados em relação a um corpo humano: com desempenhos físicos incríveis como conseguir extrair energia de luz solar, enxergar no escuro, força ampliada, correr 20km em uma hora, ou ficar pelo menos 6 minutos sem precisar respirar, entre outras façanhas, Scalzi aborda temas atuais como pós-humanismo, transhumanismo, etc. Humanidade 2.0. Mas a maioria dos "ex-velhos" pensa logo em outro uso mais urgente para seus novos corpos: S-E-X-O!
"A ferocidade com a qual os recrutas se lançaram ao sexo sem dúvida parecia inadequada se vista de fora, mas fazia todo o sentido pela nossa posição (fosse em pé, deitada ou curvada). Pegue um grupo de pessoas que, em geral, fazia pouco sexo por falta de parceiros ou declínio de saúde ou libido, enfie-as em corpos jovens, novos em folha, atraentes e de alto desempenho e jogue-os no espaço, longe de tudo que conheciam e de todos que amaram. A combinação desses três elementos era uma receita para o sexo. Fazíamos porque podíamos e porque era melhor que a solidão"
Juntamente com este corpo aprimorado geneticamente, a FCD oferece aos recrutas o BrainPal, um computador integrado ao próprio cérebro dos soldados, uma ferramenta incrível utilizada para comunicação não verbal, repasse de dados de batalha, interface com equipamentos e armamentos e até mesmo para fins de entretenimento. Imagine fazer como Perry e armazenar todos os episódios de Looney Tunes em sua cabeça para assistir entre uma missão e outra? Além disso, o sangue desses corpos novos é substituído pelo SmartBlood: um enxame de nanomáquinas que carregam oxigênio com o quádruplo de eficiência da hemoglobina humana, além de impedirem o soldado de morrer por perda de sangue, independente da extensão do ferimento. Nos trechos em que tem de explicar a tecnologia do universo que criou, Scalzi dá um show: não chega realmente a complicar nada (exceto a parte em que um dos personagens explica o funcionamento teórico da propulsão das naves das FCD, aquilo é de entortar o cérebro! ;>)) a ponto de ficar incompreensível, mas também não menospreza a inteligência do leitor. Inclusive, as cenas de batalha que ele constrói se assemelham muito a algumas cenas que Robert Heinlein narra em "Tropas estelares", quando vemos os trajes de combate e suas funcionalidades e opções de armamento. Aquela sensação que o Heinlein, genial, já em 1959 nos passa, de estar imerso em um empolgante jogo de tiro em primeira pessoa, Scalzi consegue reproduzir, com batalhas empolgantes contra as mais variadas raças alienígenas. 


Soldado das FCD Vs. um Consu (fan art)

Aliás, as raças alienígenas são outro destaque de "Guerra do velho". Bastante diferentes entre si tanto fisicamente quanto em costumes, somos brindados com criaturas peculiares como os Consu, uma raça que combate os humanos num misto de competição com propósitos religiosos, e que apesar da superioridade tecnológica, utilizam tecnologia similar a seus oponentes nas batalhas. Os Consu possuem uma crença a respeito de não se macularem em contato com raças "inferiores", e que, quando obrigados a realizarem uma assembléia com os humanos, matam seu próprio emissário ao final da audiência e as instalações utilizadas para o encontro são lançadas no buraco negro mais próximo. Suas definições de esnobismo foram atualizadas. Vemos também os Rraey, uma espécie descrita como mais próxima de um pássaro do que um humanóide, e com um gosto por carne humana; inclusive se especializando em diversos pratos utilizando essa iguaria. Ou os Covandu, bem semelhantes aos humanos, exceto por um detalhe: possuem dimensões liliputianas. Mas não os considere menos perigosos por isso.
"(...) Então, você combate uma criatura dessas assim: pisando nela. Simplesmente põe o pé sobre ela, aplica pressão e pronto. Enquanto você está fazendo isso, o Covandu está disparado sua arma em você e gritando a plenos pulmõezinhos, um guincho que talvez seja impossível de ouvir.
(...) Mas, na maioria das vezes, era apenas pisar. Godzilla, o famoso monstro nipônico, que estava em seu milionésimo remake quando deixei a Terra, teria se sentido em casa." 
Um Rrraey (fan art)


O livro é dividido em atos muito bem definidos, onde passamos pelo ingresso às FCD, o treinamento  com o Sargento-mor Ruiz (um sargentão linha dura que coloca o Sargento Hartman, de "Nascido para matar" no chinelo!) e finalmente as missões a serviço das FCD, e ao longo dessa viagem conhecemos personagens coadjuvantes com quem desenvolvemos uma boa empatia, os amigos que John faz antes mesmo que a troca de corpos aconteça, o "Esquadrão velharia", como o grupo se apelidou. Mas não se apegue a ninguém: assim como em "Tropas estelares", as coisas mudam em uma fração de segundo e vários destes personagens são descartados em fins cruéis. Mas ei, não falei que isso era guerra?

Abordando temas como os valores que nos mantém humanos, amizade, lealdade, honra, ética em relação a outras formas de vida e até mesmo sobre o significado de fazer parte de um relacionamento a dois, "Guerra do velho" surpreende por sua aparente superficialidade, por ser uma história de ficção científica, gênero que sofre preconceito pelos motivos que mencionei lá em cima, mas com muito conteúdo filosófico logo abaixo da (eletrizante) superfície.


Arte da capa da primeira edição americana de "Guerra do velho"

Enfim, se você tiver que ler apenas mais um livro nesse ano, que já está em seus espasmos finais, ou se você quer se iniciar na ficção científica, mas não está atrás de algo hard como William Gibson ou Philip K. Dick, por exemplo, por que não dar uma chance a "Guerra do velho"? Não posso prometer que compro o exemplar de todos que não gostarem, como prometi ao meu amigo, mas acho que nem vai ser necessário....

A propósito, pra finalizar, por que só aceitar idosos para formar um exército? esse trecho do livro responde:
"Esse é um dos motivos pelos quais as FCD selecionam idosos para se tornarem soldados. Não é porque vocês todos estão aposentados e são um peso para a economia. É também porque vocês já viveram o bastante para saber que há mais na vida do que a própria vida. A maioria de vocês criou famílias, teve filhos, netos, e entende o valor de fazer algo além de seus objetivos egoístas. Mesmo se nunca se tornarem colonos, ainda vão reconhecer que as colônias humanas são boas para a raça humana, algo pelo qual vale a pena lutar. É difícil enfiar esse conceito na cabeça de alguém com 19 anos. Mas vocês são experientes. Neste universo, o que conta é a experiência."
Na dúvida do que ler esse ano, não perca "Guerra do velho".