terça-feira, 22 de novembro de 2016

VERÃO NEGRO, de Warren Ellis e Juan Jose Ryp, ou "Uma forma mais rápida e barata de Impeachment"

Por EDUARDO CRUZ







Primeiramente, e aproveitando o tema da história, FORA TEMER!

Em segundo lugar, me recuso a gastar linhas, talvez um parágrafo inteiro ou dois apresentando Warren Ellis aqui. Gostaria de acreditar que ele dispensa apresentações. Gostaria também de passar direto para a HQ em questão e não citar que Ellis é um dos principais componentes da "segunda onda" da invasão britânica, o evento que mudou a cara das histórias em quadrinhos na década de 80, e que reverbera no que é produzido na nona arte até hoje. Que apesar de não ter surgido no mesmo momento que Alan Moore, Neil Gaiman ou Grant Morrison, ainda assim Warren Ellis tem seu lugar garantido como uma das cabeças responsáveis por essa renovação conceitual dos comics e é um dos pilares da Vertigo e por onde mais tenha passado, sempre dando preferência a pequenos trabalhos autorais, que permitem maior liberdade criativa em editoras de menor porte ou pequenos selos, como a Avatar Press, Wildstorm ou Image Comics, e que inclusive escreve algumas edições para a Marvel até hoje, o que, pela qualidade do que costuma entregar, não é nenhum demérito. Também gostaria de não precisar dizer que ele é o autor de três, talvez quatro (isso sendo moderado e conservador, porque convenhamos: Transmetropolitan, The Authority, Planetary, Frequência Global, Gravel, Fell, Verão Negro, No Hero, Supergod e Injection já formam sozinhas um Top 10 em qualquer ordem que você queira elencá-las!) de dez HQs que a garotada deveria ler para considerar que tem uma bagagem sólida e decente de boas histórias. Também não vou mencionar que ele já tem dois livros em prosa lançados: seu sensacional début Crooked Little Vein (ainda inédito no Brasil), um insano mix de história de detetive com road trip, recheado com situações absurdas e personagens bizarros, e Máquina de armas, um romance policial um pouco mais contido. Gostaria de não precisar ter que apresentar Warren Ellis e partir direto pra resenha de Verão Negro, mas diabos, acabei falando tudo isso mesmo assim.

Warren Ellis
Ellis é um entusiasta de ciência e tecnologia, e sempre dá um jeito de inserir as teorias e descobertas científicas mais recentes nos enredos de suas histórias, além de disparar suas reflexões ácidas a respeito de política em seu blog pessoal e nas redes sociais. Esta mescla de ciência e política permeia a grande maioria de suas obras autorais, assim como seus comentários socioculturais e críticas aos governos estabelecidos. Esse senso crítico, essa verve em enfiar o dedo na ferida utilizando uma mídia aparentemente inócua, como a maioria das pessoas pressupõe que as histórias em quadrinhos sejam, aliada ao senso de desprezo que a maioria dos roteiristas britânicos cultiva pelos super heróis norte americanos, espalhafatosos e santarrões, renderam muitas boas criações, como o grupo Authority, uma equipe de super humanos sem rabo preso com nenhum governo.


Essa vai pro povo que se alimenta de referências...

Pois bem, em 2007, em um desses inúmeros projetos autorais, Ellis iniciou com Verão Negro uma espécie de “Trilogia super heróica”, composta por três mini séries com um tema em comum: como super-humanos lidam com as relações políticas humanas? Quando você é portador de poderes superiores, é correto passar por cima das leis e decidir fazer justiça com as próprias mãos? Podemos dizer que Verão Negro, No Hero e Supergod pela temática análoga seriam o Watchmen de Warren Ellis? Foi a impressão que tive desde que a primeira mini série da tal trilogia saiu, e essa impressão não se desvaneceu até hoje, quase uma década depois. Ellis utilizou sua trilogia super heróica para fazer um comentário a respeito do panorama geopolítico de nossos tempos, e também de tempos ainda por vir, de um futuro próximo, apontando logo ali na esquina, uma reflexão sobre relações humanas, super humanidade e política. Segundo o próprio Ellis:

"Como se define um criminoso? Em que ponto um ato passa a ser criminoso e você deve buscar justiça? Se sua compulsão ética [como super-herói] é sair do sistema jurídico para praticar ou vingar crimes, o que você faria num país em que o presidente é considerado responsável por uma guerra ilegal que tomou milhares de vidas?".

Capa do hardcover da mini série

Um dos últimos remanescentes de uma equipe de super-heróis do passado, conhecido como “As Sete Armas”, o poderoso John Horus choca o mundo ao invadir o Salão Oval da Casa Branca e exterminar sem piedade o presidente dos Estados Unidos (na época da mini série George W. Bush, retratado morto em uma das capas principais da mini) e seus conselheiros. Para Horus, o governo era corrupto e em sua luta contra o mal, esta era uma ação necessária. Logo em seguida, ele convoca o povo a realizar novas eleições sem fraude. Na vida real o ex-presidente Bush foi acusado de fraudar o resultado da eleição e se eleger assim mesmo. A mídia em peso satirizou o episódio ocorrido na apuração dos votos na Flórida, estado em que seu irmão Jeb Bush era governador na época. Que coincidência, hein? Mas de Michael Moore ao Saturday Night Live, esse episódio não passou em brancas nuvens. 

John Horus mata a cobra e convoca novas eleições.

As autoridades resolvem revidar caçando Horus e todos os seus antigos companheiros de equipe, que se presume, o estão apoiando. Na tentativa de protegerem-se e encontrar Horus para tirar satisfações, além de jogados no meio de uma briga que não provocaram, seus ex-companheiros de equipe desencadeiam uma onda de violência como poucas vistas nos quadrinhos, e que só se agrava ainda mais quando descobrem que estão sendo caçados por seu antigo mentor, Frank Blacksmith, que julgavam estar morto, e por uma nova leva de operativos modificados por ele. 

O hiperdetalhismo de Juan Jose Ryp


Agora, um breve parêntese aqui pra falar do símbolo mais legal que Ellis utilizou em toda a história: o deus Hórus


Na mitologia egípcia, Hórus é o deus dos céus e simboliza a realeza, o poder e a luz. Tem cabeça de falcão e corpo humano. Os egípcios utilizavam um amuleto conhecido como Olho de Hórus, que acreditava-se trazer proteção, força e coragem. Os egípcios também acreditavam que os faraós eram encarnações de Hórus, por ser associado à realeza, zelando por seu povo, trazendo a luz, combatendo o mal e trazendo o equilíbrio à terra. E é aí que as analogias ficam interessantes, pois o personagem homônimo de Ellis, assassina o equivalente à realeza visando recuperar um equilíbrio e justiça que ele julgava perdidos, e os olhos de John Horus, que são os dispositivos que ele criou como parte de seu sistema de armas, mais do que apenas um talismã, são um maquinário de enorme poder, e como podemos ver na mini série, deram trabalho para o exército heheheh... Agora, de volta à nossa programação normal...

 
O Olho de Hórus, um talismã de força e poder...

A história se alterna entre eventos no presente e flashbacks com cada membro das Sete Armas, cada um deles um especialista em uma área de tecnologia. Todos desenvolveram suas próprias armas e implantes, e nos flashbacks vemos suas motivações para se tornarem vigilantes super humanos. Cada membro do grupo preenche um arquétipo das superequipes de heróis de quadrinhos, porém, de certa forma mais realistas, ou pelo menos com uma abordagem inédita com relação à fonte de seus poderes. Temos o músculo da equipe, a velocista, a voadora, entre outros. Ellis aborda mais uma vez o transhumanismo ao retratar a forma como os integrantes das Sete Armas modificam seus corpos para se tornarem mais do que humanos. Verão Negro nos apresenta uma história espetacular. Sangrenta, brutal e crítica, com muita porradaria, sangue, mutilações, explosões e violência desmedida até a última página. A arte hiperdetalhista de Juan Jose Ryp é fantástica e temos várias e várias splash pages de soldados sendo mortos, confrontos insanos, veículos destruídos.... essa é uma HQ que nem demora tanto tempo para ser lida do começo ao fim, mas que nos obriga o tempo todo a parar a leitura para observar os detalhes da arte. Se tivesse que fazer apenas uma ressalva, seria com relação a toda a ação e violência ofuscarem o questionamento moral que Ellis propõe no mote da história: a discussão em torno da validade moral do ato de John Horus é soterrada por todas as sequências de ação e violência subseqüentes, e o leitor que esperar um maior desenvolvimento da parte filosófica da trama, sinto muito, mas vai ficar levemente desapontado. Ainda assim, baixando as expectativas em relação a isso, é uma ótima história, divertida e com muitas idéias boas, para ser lida e relida, ou pelo menos para “ler as figuras” rs.

Hiperviolência...

E lembra que eu disse que o Ellis fez uma trilogia? Também resenhamos "No Hero" e "Supergod". 

Ah, e só pra não perder o costume: FORA TEMER!!! John Horus, me faz um favorzinho...?

"Captured Ghosts", documentário sobre a vida e obra de Ellis.



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

SUPERMAN - ENTRE A FOICE E O MARTELO, de Mark Millar + Dave Johnson + Killian Plunkett, ou “Superman Comunistinha de Iphone... Vai pra Cuba!!!”







RICARDO CAVALCANTI





Por muitos anos, uma das HQs mais pedidas para ser incluída na lista de republicações da Panini era “Superman – Entre a Foice e o Martelo”. Finalmente, depois de um longo e tenebroso inverno siberiano, resolveram atender aos milhares de pedidos, súplicas e lamentações de seus leitores. A revista que estava inflacionada no mercado de quadrinhos usados “raros”, finalmente poderá voltar ver a luz do sol. Para quem não teve a oportunidade de ler na época, ou estava esperando a versão encadernada (a versão anterior havia saído em três edições), está é uma grande oportunidade de adquirir esta grande obra.




Nascido da definição do super homem de Nietzsche (da mesma forma que surgiram Miracleman e SHAZAM. Leia Assim Falava Zaratustra, por exemplo, e comprove), Superman é um dos personagens mais complicados que existem para se obter êxito em criar boas histórias. Ele é muito mais um conceito que apenas músculos e força. É a perfeita definição de o que é um super herói. Infelizmente nem todos os autores conseguem captar sua essência e acabam, por muitas vezes, transformando-o em um brucutu que é somente um amontoado de músculos, força bruta, descerebrado e sem nenhuma virtude. Ver o personagem quebrando o pescoço de Zod, matando o Coringa ou virando uma espécie de motoqueiro badass, é quase um crime contra tudo o que ele representa.
Me recuso a falar sobre isso..

Ou isso.


Felizmente, de tempos em tempos surgem umas histórias que conseguem captar o personagem em toda sua essência: Grandes Astros Superman (uma história fantástica, que é na verdade uma declaração de amor de Grant Morrison ao personagem); Superman - Paz na Terra (em que ele vê que mesmo com seus superpoderes não pode solucionar alguns problemas comuns e mais humanos do nosso dia a dia); Reino do Amanhã (Apesar de não ser uma história só do Superman, sua presença imponente mostra quem ele é e o que representa) e Entre a Foice e o Martelo, são alguns exemplos mais famosos. 



Para quem acreditava que o Superman comunista era somente uma skin do jogo Injustice - Gods Almong Us, refere-se, na verdade, a uma história auto contida que fazia parte da linha Elseworlds (que conhecemos aqui como "Túnel do Tempo"), e apresentava histórias fechadas que não faziam parte do "universo e cronologia regulares" dos heróis, dando mais liberdade aos autores para reimaginar a mitologia e o universo desses personagens. 

Por aqui, recebemos uma enxurrada de histórias do Batman, como: "Batman - O Corsário"; "Tempestade de Sangue"; , "Batman & Houdini - A Oficina do Diabo" e "Um Conto de Batman - Gotham City 1889" etc. Esta última, inclusive, em que o Batman caça Jack, O Estripador, vai ganhar uma adaptação e será um dos próximos longas animado da DC.





Enquanto Philip K. Dick, com seu "O Homem do Castelo Alto" imagina um mundo em que os países do eixo venceram a segunda guerra mundial, Mark Millar, em "Entre a Foice e o Martelo" imagina como seria se, ao invés de cair nos Estados Unidos, a nave com o pequeno Kal-El chegasse à terra com 12 horas de diferença, caindo na Ucrânia, durante o regime comunista da antiga União Soviética.





O escocês Mark Millar (Nemesis, Superior, O Legado de Jupiter) é o autor de quadrinhos que teve mais obras adaptadas por Hollywood. Suas historias normalmente parecem ter saído de uma tela de cinema: Os Supremos, que serviu de base para o filme dos Vingadores; Old Man Logan, que gerou o único filme bom do Wolverine; Guerra Civil; Kick-Ass; O Procurado e Kingsman, que já tem sua continuação a caminho.


I'M RICH, BABE!


Lançada em 2003, essa obra só pôde sair pois não tínhamos mais a presença da ameaça comunista e já havia sido criado um novo vilão mundial a ser combatido. Com o fim da segunda guerra mundial, uma outra guerra se iniciou e que permeou boa parte da segunda metade do século passado. A divisão do mundo e a disputa militar, política e econômica entre Estados Unidos e União Soviética, beirava a uma guerra nuclear que extinguiria a vida no planeta. O mundo estava em ebulição.




Durante a guerra fria ter algum tipo de discussão sobre socialismo e capitalismo era quase proibitivo. Seja pelo assunto tabu, que despertava "paixões" de um lado ou de outro, seja pela falta de conhecimento dos principais pontos de vista de cada regime e seus reais interesses (ainda bem que hoje temos acesso a todo tipo de informação, nos proporcionando discussões racionais, sadias, avançadas e embasadas).




Para quem se interessa pelo assunto [Costinha Mode On], aproveito para dar uma dica de série que retrata bem aquele período: Deutschland 83. Uma série alemã de suspense e espionagem que se passa no início dos anos 80, no período pré-Gorbachev. Diferentemente do que estamos acostumados a ver nas produções americanas, a sensação do perigo de um ataque nuclear é sentida de uma maneira diferente e muito próxima. Afinal de contas, o "perigo mora ao lado", literalmente. Vale muito a pena! [Costinha Mode Off].




Na HQ, a descoberta de um super homem alienígena comprometido com os ideais comunistas, causa uma sensação de terror em boa parte de população. O anúncio do governo soviético é alarmante:



Superman: Estranho visitante de outro mundo, que pode mudar o curso de poderosos rios, dobrar o aço com as próprias mãos... e que, como campeão dos proletários, trava uma interminável batalha por Stalin, o socialismo e a expansão internacional do Pacto de Varsóvia.”




Inicialmente, o Homem de Aço só quer ajudar as pessoas, preferindo ficar longe das implicações políticas, afinal de contas, ele é só mais um proletário. Após a morte de Josef Stalin, Superman acaba se vendo obrigado a assumir o controle do partido.




Após duas décadas de domínio e controle mundial do "Homem do Amanhã da Rússia", quase todos os países do mundo se tornaram seus aliados. Apenas dois ainda resistem e mantêm o sistema capitalista, mesmo estando à beira de um colapso fiscal e social.






Nesse cenário, vemos um Lex Luthor que, após ver o surgimento daquela figura tão poderosa, passa a ter somente um propósito na vida: derrotar o Superman. O homem mais inteligente da terra não pode ter sua importância diminuída por um ser de outro planeta. Para isso, ele não mede esforços. Com o apoio financeiro do governo americano, Luthor cria vários seres na tentativa de conseguir exito em seu objetivo. Bizarro, Parasita e Metallo são só algumas das "armas" criadas com esse fim. Na verdade, o que ele deseja não é apenas derrota-lo: ele quer SER o Superman. Apesar dos constantes embates ideológicos entre os dois, existe uma relação de admiração mútua. A vida dos dois nunca esteve tão ligada.

Sean Connery, é você???


Como o Grande Irmão, da obra de George Orwell, Superman possui o domínio total sobre tudo que acontece. Seus opositores e os que incitavam a desobediência sofrem uma espécie de lobotomia e são transformados em "robôs" a serviço do Superman. Nesse sistema absolutista-totalitário imposto por ele, Batman é a foça do caos, agindo como um anarco-terrorista contra o regime, sendo uma antítese ao que o Homem de Aço representa e defende.







Enquanto isso, a Mulher Maravilha (que nutre um amor secreto pelo Homem de Aço), deixa Themyscira, se converte ao comunismo e passa a lutar ao lado do Superman pela igualdade no mundo dos homens.



" - Então, como estava a América?" 

" - Enojante, Superman. Simplesmente enojante. Estamos em 1978 e ainda há crianças dormindo nas ruas por lá"

As páginas estão recheadas de easter eggs. É muito divertido ficar procurando por eles ao longo da história. Referências ao filme do Richard Donner, a Morte do Superman, a Sala de Justiça do desenho dos Superamigos e até o Elvis podem ser encontrados sem muitas dificuldades. Depois de ler a revista, você pode voltar as páginas e ficar só lendo as figuras.



Mas o Superman apanha do Batman em TODAS as realidades???
Não dá para ignorar o excelente trabalho do desenhista Dave Johnson e do colorista Paul Mounts. Eles conseguiram captar a essência da ambientação na Rússia. A escolha das cores e do traço nos lembram os cartazes de propaganda do partido soviético da época da guerra fria. 
 


E você se achando muito moderno com sua barba hipster


Desconstruir um ícone e, ainda assim, mantê-lo um ícone é uma tarefa complicada. A forma com que a história se desenrola em nenhum momento nos faz deixar de acreditar que aquele é o Superman que conhecemos. Não só ele, mas todos os personagens tem o seu arco (mesmo que seja curto) e sua importância. Confesso que me empolguei bastante com a aparição do Hal Jordan e o momento do Juramento dos Lanternas Verdes.






A história passa longe do maniqueísmo a que estamos acostumados. A divisão entre bem e mal; certo e errado; vilões e mocinhos; fica tudo em segundo plano. São indivíduos agindo de acordo com suas convicções, fazendo suas escolhas da maneira que acreditam ser a correta e, mesmo não concordando, ao se pôr no lugar do personagem, é possível entender suas atitudes. Esse tipo de profundidade não costuma ser muito comum nas HQs do mainstream. 
 

Uma das maravilhas que só o capitalismo pode nos proporcionar


Com um final que nos pega de surpresa, ao fim da leitura vemos que não estamos simplesmente lendo numa ótima história em quadrinhos. Estamos diante de uma excelente história de ficção científica, sem deixar nada a desejar. Me senti extremamente culpado por ter esquecido do quanto essa história é boa.

A nova edição de Superman - Entre a Foice e o Martelo, além de conter a história completa neste volume em capa dura, também tem vários extras, com destaque para os esboços e artes conceituais dos artistas Dave Johnson, Killian Plunkett e até Alex Ross, que embarcou no projeto para dar uma mãozinha com esse desenvolvimento dos personagens nesta realidade alternativa. Uma bela edição, que nem os colecionadores de lombada vão poder botar defeito!



Esboços do camarada Alex Ross

Esboços do camarada Killian Plunkett

Esboços do camarada Dave Johnson
A Zona Negativa agradece ao Caio Oliveira pela arte do Bat-batedor de panelas com a camisa verde e amarela. Afinal de contas, a nossa bandeira jamais será vermelha... a não ser que venha acompanhado de listras azuis e estrelas brancas para combinar (ironia aqui pra quem não entendeu).






Agora faça uma pausa na sua leitura de O Capital, agarre sua garrafa de vodka, estacione seu Lada no meio da Praça Vermelha e acompanhe o camarada Superman sobrevoando o céu de Moscou
.





CUIDADO!!
Os comunistas estão em todos os lugares!!



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ROVER RED CHARLIE, de Garth Ennis e Michael Dipascale, ou “Mad Rex – Dentada da Fúria”

Por EDUARDO CRUZ






Imagine uma HQ pós apocalíptica escrita por Garth “Preacher-Hellblazer-Justiceiro” Ennis. É, eu sei que ele já nos deu várias (ótimas!) histórias dentro desse gênero antes: Chronicles of Wormwood, Apenas um Peregrino, Crossed, até mesmo o especial “Justiceiro – O fim”. O que estas HQs tinham em comum, além de sempre culminarem na destruição da sociedade, dos costumes e de tudo que conhecemos? O ponto de vista era sempre o do ser humano (mesmo o anticristo Danny Wormwood em “Chronicles of Wormwood” era demasiadamente humano para uma cria de Satanás em pessoa). Mas com esse tema um tanto quanto esgotado na cultura popular desde os últimos anos da guerra fria, quais histórias restavam contar, que rumo faltava ser tomado para termos uma HQ considerada inédita dentro do gênero? Qual era a abordagem a ser feita, a perspectiva a ser explorada, o ângulo nunca antes pensado em uma história de “fim do mundo”? Ennis respondeu a esta pergunta escrevendo “Rover Red Charlie”, uma mini série publicada pela editora americana Avatar Press em 6 edições, em parceria com o artista Michael Dipascale, onde vislumbramos mais um possível fim do mundo, porém dessa vez pelos olhos de três cachorros de estimação, os três protagonistas que dão nome à mini série.



A história gira em torno do trio de protagonistas, Rover, um beagle com “sotaque“ britânico; Red, um golden retriever; e Charlie, um border collie que tinha a função de cão guia antes da grande tragédia. Os três são colhidos em meio a um evento apocalíptico não definido (ou pelo menos não compreendido pelos cães, e portanto incompreensível para nós, que estamos de carona no ponto de vista dos cães durante toda a história), onde os “alimentadores”, como os cães chamam os humanos,  são tomados por um frenesi assassino - bem semelhante ao que vemos em Crossed, outra mini série de Ennis - matando-se uns aos outros. Nesse cenário infernal, sem compreender porque o mundo está se despedaçando em fogo, sangue e ira, e seus companheiros bípedes tomados pela loucura, os cãezinhos precisam superar obstáculos perigosos, como todo o caos acarretado pela situação, ataques de traiçoeiros gatos, envenenamento radioativo, e o principal deles, Hermann, um buldogue gigantesco que persegue nosso bravo trio até o fim em busca de vingança. Já que não conseguem encontrar nenhum “alimentador” que não tenha enlouquecido, Rover, Red e Charlie decidem pôr as patinhas na estrada, sempre na direção onde o sol se põe, em busca do “grande respingo”, como os cães chamam a costa do Oceano Pacífico, o refúgio do apocalipse, onipresente em histórias do gênero, o tal “lugar melhor”, para fugir de todo o horror.

Quase uma revisitação de "Crossed"...

CAOS!!! HORROR!!! DESTRUIÇÃO!!!! TOTÓ!!!!

Essa abordagem sessão da tarde, de “história-de-animais-de-estimação-perdidos-que-precisam-encontrar-o-caminho-para-casa” também não é algo inédito em HQs adultas, vide o sensacional “WE3”, do duo Grant Morrison/Frank Quitely, uma fábula sci-fi adulta sobre a pureza inerente em todos os seres vivos, com exceção do homem, o grande conspurcador da natureza e da criação em geral, com sua ferramenta mais terrível: a ciência, sempre usada para os fins mais abomináveis possíveis. Tanto em “WE3” quanto em “Rover Red Charlie”, ao optar por dar a capacidade de enxergarmos a comunicação entre os animais verbalmente, os dois autores optaram por emular ao máximo a personalidade inerente de cada animal, ou seja, você lê os balões com os diálogos em inglês, porém, não confunda isso com uma tentativa de antropomorfização por parte dos autores: os cães ainda cheiram os rabos uns dos outros, os gatos continuam traiçoeiros e desconfiados e as galinhas burras e assustadas. Não há uma tentativa de humanizar os animais como em uma fábula de La Fontaine. As palavras podem ser humanas, mas o processo de cognição ainda é o de um cão, ou de um gato. O artista Michael DiPasquale acertou em sua decisão de não cartunizar as expressões faciais dos cães, o que respeitou a estrutura do roteiro de Ennis. Folhear “Rover Red Charlie” e ver seus desenhos realistas é meio como ver a quadrinização de “A incrível jornada”, da Disney, ou todos os seus genéricos, porém não se engane: um exame mais detalhado da HQ mostra o teor adulto da história, e toda a violência, sangue e mutilação de uma HQ da “Grife Garth Ennis”. A edição encadernada tem uma introdução de Alan Moore bem interessante, onde ele discorre brevemente sobre diferentes HQs que têm animais como seus protagonistas e seus respectivos diferenciais narrativos. Ótimo texto. Poderia ser mais extenso, mas talvez o barbruxão estivesse com preguiça no dia em que o escreveu. Ou pode ser ainda que estivesse finalizando mais um volume de “A liga extraordinária”, ou talvez nos retoques finais de “Jerusalém”, seu romance com um milhão de palavras, que vai ser maior que a bíblia. Assim sendo, está perdoado rs.

Aí você reclama "Ãin, uma HQ do Ennis sem sexo..." e eu te repondo:
TOMA TEU SEXO ANIMAL, FERA!!!

Apesar de não conviver com um cão em minha casa há quase uma década, sempre enxerguei a relação entre uma pessoa e seu animal de estimação não como uma relação de posse, por isso o termo “dono” sempre me foi estranho para designar essa parceria. O relacionamento de um ser humano que escolhe compartilhar sua vida com um animal não difere para mim de uma amizade ou de um parentesco, pois há afeto envolvido em qualquer uma destas situações. A objetificação de um animal de estimação é absurda e me pergunto quanto tempo vamos levar para mudar esta forma de pensamento. Atitudes do tipo só confirmam a máxima de que o ser humano é o animal mais f*&%#o da criação...

Bem, talvez o segundo mais f@#$%o....



Se quiser sair da mesmice por algumas horas, Rover Red Charlie é a pedida, seja você amante de cães, gatos, iguanas, cacatuas, sapos, ratos.....


Mondo cane.