Publicado originalmente em 1956, esse conto pode ser encontrado em compilações como "Nove Amanhãs" (1959), "Sonhos de Robô" (1969) e "O Melhor de Isaac Asimov" (1973). É um de vários contos estrelando supermegahipercomputador chamado Multivac.
Considerado um dos melhores e mais ambiciosos contos do autor, "A Última Pergunta" é um instigante misto de religião, ciência e filosofia, com um final surpreendente.
Então, sem mais encheção de linguiça, vamos ao conto!
A ÚLTIMA PERGUNTA
Isaac Asimov, 1956
A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia
21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à
luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a
álcool, e aconteceu da seguinte forma...
Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac.
Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por
trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco
computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano
geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano
solitário poderia sequer tentar entender.
Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum
ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma
adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e
superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível.
Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as
necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os
dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar
da glória que era Multivac.
Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que
permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas,
os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração.
Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas
viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência
crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.
No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder
questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que
não passava de teoria tornou-se real.
A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala
planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio,
girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma
milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo
passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.
Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e
Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em
segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas
onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac.
Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos,
Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio,
eles não tinham a intenção de incomodá-lo.
Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar
na companhia do outro e da bebida.
"É incrível quando você pára pra pensar…," disse Adell. Seu rosto
largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente,
enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. "Toda a energia
que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se
nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro
líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo.
Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e
eternamente."
Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria
contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e
os utensílios. "Eternamente não," ele disse.
"Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert."
"Isso não é eternamente."
"Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está
satisfeito?"
Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se
assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da
sua bebida. "Dez bilhões de anos não é a eternidade"
"Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?"
"O carvão e o urânio também iriam."
"Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação
Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos
preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e
urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac."
"Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso"
"Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós," disse
Adell nervosamente, "Ele fez tudo certo".
"E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar
para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões
de anos, mas e depois?" Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o
companheiro. "E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol"
Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e
os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se
abriram, disse, "Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando
o nosso estiver acabado, não está?"
"Não, não estou pensando."
"É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o
personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um
grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando
uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra."
"Entendi," disse Adell. "Não precisa gritar. Quando o sol se
for, as outras estrelas também terão se acabado."
"Pode estar certo que sim" murmurou Lupov. "Tudo teve início na
explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando
as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as
gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de
anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um
trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu
máximo, e é tudo."
"Eu sei tudo sobre a entropia," disse Adell, mantendo a sua
dignidade.
"Duvido que saiba."
"Eu sei tanto quanto você."
"Então você sabe que um dia tudo terá um fim."
"Está certo. E quem disse que não terá?"
"Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que
precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`."
Era a vez de Adell contrariar. "Talvez nós possamos reconstruir as coisas
de volta um dia," ele disse.
"Nunca."
"Por que não? Algum dia."
"Nunca"
"Pergunte a Multivac."
"Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso
não pode ser feito."
Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para
construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma
questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem
nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude
mesmo depois de sua morte?
Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira:
A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?
Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos
distantes pararam.
E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a
respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de
Multivac. Cinco palavras foram impressas: "DADOS INSUFICIENTES PARA
RESPOSTA SIGNIFICATIVA."
Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam
do incidente.
* * *
Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor
se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração
de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um
disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no
televisor.
"Este é X-23," disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas
se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.
As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela
primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de
tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe,
gritando, "Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!"
"Quietas, crianças." Disse Jerrodine asperamente. "Você tem
certeza Jerrodd?"
"E por que não teria?" Perguntou Jerrodd, observando a protuberância
metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala,
desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a
nave.
Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal.
Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer
questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um
destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias
Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.
Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis
compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras
"ac" na extremidade de Microvac significavam "automatic
computer" em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.
Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor. "Não tem
jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra."
"Por que, meu deus?" inquiriu Jerrodd. "Nós não tínhamos nada
lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma
pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto
terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado."
E, depois de uma pausa reflexiva, "No ritmo em que a raça tem se
expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem
interestelar."
"Eu sei, eu sei", disse Jerrodine com descaso.
Jerrodete I disse prontamente, "Nosso Microvac é o melhor de todos."
"Eu também acho," disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.
Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o
deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de
seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando
centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados
de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em
tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores,
foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos
ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.
Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu
Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo
Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC
Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da
viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.
"Tantas estrelas, tantos planetas," pigarreou Jerrodine, ocupada com
seus pensamentos. "Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de
novos mundos, como nós estamos agora."
"Não para sempre," disse Jerrodd, com um sorriso. "A migração
vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as
estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar."
"O que é entropia, papai?" Jerrodette II perguntou, interessada.
"Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo.
Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle
remoto, lembra?"
"Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?"
"As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas
estiverem acabadas, não haverá mais pilhas."
Jerrodette I se prontificou a responder. "Não deixe, papai. Não deixe que
as estrelas se apaguem."
"Olha o que você fez," sussurrou Jerrodine, exasperada.
"Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?" Jerrodd sussurrou de
volta.
"Pergunte ao Microvac," propôs Jerrodette I. "Pergunte a ele
como acender as estrelas de novo."
"Vá em frente," disse Jerrodine. "Ele vai aquietá-las."
(Jerrodette II já estava começando a chorar.)
Jerrodd se mostrou incomodado. "Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a
Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar."
Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, "Imprima a resposta".
Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, "Viram?
Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque
se preocupar."
Jerrodine disse, "E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós
estaremos em nosso novo lar."
Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS
INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.
Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.
* * *
VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em
pequena escala da Galáxia e disse, "Me pergunto se não é ridículo nos
preocuparmos tanto com esta questão."
MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. "Creio que não. No presente ritmo de
expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco
anos."
Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos
perfeitos.
"Ainda assim," disse VJ-23X, "hesitei em enviar um relatório
pessimista ao Conselho Galáctico."
"Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós
precisamos chacoalhá-los um pouco."
VJ-23X suspirou. "O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a
nossa espera. Talvez mais."
"Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo.
Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma
da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar
tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo
pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a
população dobra a cada dez anos…"
VJ-23X interrompeu. "Devemos agradecer à imortalidade por isso."
"Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito
que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos
problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a
morte, sobrepujou todas as outras conquistas."
"No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida."
"Nem um pouco." Respondeu MQ-17J, emendando. "Ainda não. Eu não
estou velho o bastante. Você tem quantos anos?"
"Duzentos e vinte e três, e você?"
"Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população
dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma
outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais
duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos
um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de
galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?
VJ-23X disse, "Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto
quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as
populações de uma galáxia para outra."
"Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de
energia solar por ano."
"Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha
produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas
duas."
"Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim.
Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira
ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que
nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão."
"Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás
interestelar."
"Ou a partir do calor dissipado?" perguntou MQ-17J, sarcástico.
"Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao
AC Galáctico."
VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu
Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.
"Parece-me uma boa idéia," ele disse. "É algo que a raça humana
terá de enfrentar um dia."
Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas
polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço
com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio
hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.
MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a
chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma
rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de
submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares.
Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de
mil pés de comprimento.
De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, "Poderá um dia a
entropia ser revertida?"
VJ-23X disse, surpreso, "Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa
pergunta."
"Por que não?"
"Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir
uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas."
"Existem árvores no seu mundo?" Perguntou MQ-17J.
O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela
do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA
RESPOSTA SIGNIFICATIVA.
VJ-23X disse, "Viu!"
Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao
conselho galáctico.
* * *
A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos
incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia
visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas,
cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse,
virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o
espaço.
Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão
nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade
material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso,
poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de
humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos
indivíduos.
Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos
emaranhados de outra mente.
"Sou Zee Prime, e você?"
"Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?"
"Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?"
"Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não
é?"
"Verdade, já que todas as Galáxias são iguais."
"Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna
diferente."
Zee Prime disse, "Em qual delas?"
"Não posso responder. O AC Universal deve saber."
"Vamos perguntar? Estou curioso."
A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e
se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo
plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres
imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam
livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o
bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma
delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a
espécie humana.
Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: "AC Universal! Em qual Galáxia
nasceu o homem?"
O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus
receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto
desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.
Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo
de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante
difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.
"Como pode o AC Universal ser apenas isso?" Zee Prime perguntou.
"A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar
as suas proporções."
Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC
Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e
construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era
inserida.
O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas
com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e
uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.
Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro.
"ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM."
Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.
"Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, "E
alguma dessas é a estrela original do homem?"
O AC Universal disse, "A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO.
AGORA É UMA ANÃ BRANCA."
"Os homens que lá viviam morreram?" perguntou Zee Prime, sem pensar.
"UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO."
"Sim, é claro," disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de
perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se
entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.
Dee Sub Wun disse, "O que houve?"
"As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já
está morta."
"Todas devem morrer, não?"
"Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente
morrer, e você e eu partiremos junto com eles."
"Vai levar bilhões de anos."
"Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a
morte das estrelas pode ser evitada?"
Dee Sub Wun disse perplexo, "Você perguntou se há como reverter a direção
da entropia!"
E o AC Universal respondeu: "AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA
RESPOSTA SIGNIFICATIVA."
Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais
atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na
estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.
Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir
uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas
ainda podiam ser construídas.
* * *
O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um.
Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em
seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos
perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos
haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.
"O Universo está morrendo."
O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito
já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas
consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.
Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por
processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus
momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças
resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova
estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um
dia.
O Homem disse, "Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que
resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos."
"Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada,
uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu
máximo."
"Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico."
O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma
parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo
que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não
faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.
"AC Cósmico," disse o Homem, "como é possível reverter a
entropia?"
O AC Cósmico disse, "AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA
SIGNIFICATIVA."
O Homem disse, "Colete dados adicionais."
O AC Cósmico disse, "EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS.
MEUS PREDECESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE
TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES."
"Haverá um dia," disse o Homem, "em que os dados serão
suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias
concebíveis?"
O AC Cósmico disse, "NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS
CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS."
"Você vai continuar trabalhando nisso?"
"VOU."
O Homem disse, "Nós iremos aguardar."
* * *
As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após
dez trilhões de anos de atividade.
Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade
mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.
A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não
ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita,
agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao
zero absoluto.
O Homem disse, "AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode
ser feito?"
O AC disse, "AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."
A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda
assim, no hiperespaço.
* * *
A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC
continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido
respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez
trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças
com o AC do que o homem com o Homem.
Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira
também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.
A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.
No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de
todas as maneiras possíveis.
Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.
Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.
Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não
importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.
Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir.
Cuidadosamente, AC organizou o programa.
A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que
agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.
E AC disse:
"FAÇA-SE A LUZ!"
E fez-se a luz.