domingo, 7 de maio de 2017

A CIDADE E A CIDADE, de China Miéville, ou "Ficção para Enxergar a Realidade Dentro da Realidade"



Por RICARDO CAVALCANTI

 O inglês China Miéville é um dos autores mais badalados do chamado “New Weird” (gênero que está dando uma nova roupagem à “ficção do estranho” ou “ficção do bizarro” desenvolvido por autores como H. P.Lovecraft) e que vem ganhando cada vez mais espaço na ficção científica e fantasia. Apesar de sua aparência ameaçadora, lembrando muito os Hooligans ingleses, ou um Skinhead mais radical, esse escritor prova que nada tem a ver com impressão que se tem à primeira vista, e que a imagem que passa não está nem um pouco ligada à sua personalidade. Miéville é formado em Antropologia Social pela Universidade de Cambridge, com Mestrado e Doutorado em Filosofia do Direito Internacional pela London School of Economics, professor da Universidade de Warwick, além de um ativo militante de esquerda e marxista de carteirinha (para alguns, isso pode soar como um crime).

O autor já teve seu romance “Rei Rato” lançado por aqui pela Tarja Editorial, mas infelizmente está esgotado e, quem tem não se desfaz. Agora temos seu premiado romance “A Cidade e a Cidade” chegando através da Boitempo Editorial, que vai publicar todos os seus livros no Brasil (não existe editora que se encaixe melhor no perfil do autor, que a Boitempo). A obra foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Nébula Award, Arthur C. Clarke Award, Hugo Award (o mais importante do gênero) e World Fantasy Award, só para citar alguns.
O troféu da World Fantasy Award é a reprodução da imagem do nosso amigo H. P. Lovecraft
Todo escritor inglês que se preze, precisava dar uma passadinha na Vertigo para dar a sua contribuição na revista Hellblazer. Com ele não foi diferente. Na edição 250, Miéville escreve a história “O Cair da Neve”, que saiu por aqui na Vertigo #43, lançado pela Panini em junho de 2013. Para a DC Comics, trouxe sua leitura para o mundo dos Novos 52 de “Dial H for Hero” (cultuada HQ dos anos 60), chamada apenas de Dial H. A sinopse já alimenta a nossa curiosidade.O que aconteceria se você descobrisse um poderoso artefato que o transformasse em um super-herói? E se esse dispositivo ameaçasse o mundo inteiro? As capas parecem uma mistura de Homem Animal e Patrulha do Destino do Grant Morrison. Lá fora, chegou a sair uma edição de luxo de 368 páginas com toda a elogiada fase do autor. Ainda nos Novos 52, escreveu um dos episódios de Vilania Eterna, na Revista da Liga da Justiça edição #23.3.



Falar sobre A Cidade e a Cidade não é uma tarefa das mais simples. Como falar sobre uma história em que, qualquer coisa a ser dita, pode acabar se revelando pontos importantes da trama? A própria sinopse da editora, já nos deixa no limite do que deve ser dito. Mas o que podemos dizer sem que isso diminua seu impacto, é que se trata de um romance policial no estilo Noir, que a princípio parece mais uma simples história sobre investigações de um assassinato. A história é narrada pelo investigador Tyador Borlú, detetive da cidade-Estado chamada Besźel, que se depara com o corpo de uma mulher não identificada. Nada de extraordinário em mais um dia de trabalho policial.

Borlú acaba tendo que continuar a investigação e, aos poucos, percebe que muitas pessoas poderiam ter motivação para desejar a morte dela. Algumas pistas começam a surgir e que são um pouco fora do normal. O corpo da mulher foi encontrado em uma cidade, mas ao que tudo indica, o crime aconteceu em outra cidade-Estado, Ul Qoma. A princípio, podemos imaginar que aconteceu algo como a “malandragem” brasileira mostrada no filme Tropa de Elite 2, em que o batalhão da Maré 2 joga o corpo na área de Maré 1 para diminuir seu índice de criminalidade, e vice-versa. Mas as coisas são um pouquinho mais complexas que isso.

São duas cidades muito distantes e muito próximas ao mesmo tempo. Cada uma com sua própria língua, com sua própria moeda, seus próprios costumes, diferentes aeroportos, códigos de discagem internacionais. Tudo completamente diferente e funcionando de forma independente. O que acontece em uma cidade, obviamente não é visto pela outra. Elas não fazem fronteira uma com a outra, mas possuem algo que as liga e conecta. O que ambas têm em comum, além de estarem em um país fictício do Leste Europeu, é apenas um pequeno detalhe: As duas estão no mesmo lugar, ocupando o mesmo espaço físico. As ruas, as praças, os prédios. Os carros andam pelas ruas, desviando dos veículos da outra cidade. Os pedestres fazem o mesmo com os habitantes da outra cidade.


Não se trata de realidade paralela. As duas sabem da existência uma da outra. No entanto, ir de uma cidade para outra, trafegando entre seus limites, não é tão fácil como se possa imaginar. Você me pergunta: “já que as duas cidades estão no mesmo lugar, como elas não vêem a outra cidade?” Bom.. Nesse caso, parte da experiência da leitura está em ir descobrindo com o desenrolar da trama, o funcionamento, a relação e a dinâmica entre as duas cidades e seus habitantes; e como tudo vai fazendo certo sentido, na medida em que a história vai se desenvolvendo.

Com uma excelente narrativa recheada de intrigas, suspense e conspiração, China Miéville ultrapassa as fronteiras de realidades na forma de um romance policial que toma dimensões extraordinárias, construindo uma excelente metáfora para o que acontece no dia a dia em nossas cidades. Mostrando na história (assim como na vida real) que existe um muro invisível e intransponível, separando cidades dentro da cidade; um muro que segrega, afasta e exclui. Não se trata de um proselitismo tendencioso, nem uma doutrinação panfletária. Usar alegorias para apontar as nossas dissonâncias sociais ou fazer uma crítica às desigualdades produzidas a partir de nossa interação com a sociedade é bastante comum na ficção. A sutileza do texto flui de forma orgânica, além de tornar a leitura extremamente prazerosa (seja lá qual for a ideologia política de quem lê). Caso suas convicções destoem da ideologia do autor, não se deixe privar de ter uma experiência em conhecer sua obra. A não ser que prefira passar o seu tempo batendo palma para a notícia de que "recessão e desemprego aumentam o poder de compra", ou ficar fazendo blitz em escolas municipais, para que não seja propagada outra ideologia que não seja a sua.

“A Cidade e a Cidade” pode ser lido com várias perspectivas diferentes. Você pode simplesmente encarar como uma diferente história policial - com todos os elementos necessários para agradar aos amantes do gênero; pode ser lido como um ponto de reflexão social - considerando de que na história, não é nada tão fantasioso quanto parece; Ou você pode usar como um ponto de entrada para as obras do autor. A "BBC Two" anunciou a adaptação do romance para a TV, tendo o ator David Morrissey interpretando Tyador Borlú. O ator interpretou o Governador em The Walking Dead.

Um importante ponto que deve ser destacado, é a fato de a Boitempo ter escolhido o "quase onipresente" Fábio Fernades como o responsável pela tradução desta obra. Especialista em ficção científica, traduziu grande parte das maiores obras do gênero, como Laranja Mecânica, Neuromancer, 2001 - Uma Odisseia no espaço, a Trilogia Fundação, O Homem do Castelo Alto. Só para citar alguns. 

Agora retire a venda dos olhos, saia da cidade e entre na cidade e veja a cidade dentro da cidade, dentro da cidade, dentro da cidade...

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #006: “SÍNDROME”, de Cesar Bravo




Salve, seus alucinados!!



Demos uma breve parada nas resenhas pra dar aquela enchida de lingüiça que deixa a turminha feliz, porque Encheção de lingüiça na Zona Negativa é uma pausa pra ler um conto, e sempre de alto nível!




O alvo da vez é nosso chégas, o escritor César Bravo. O autor do excelente Ultra Carnem resenha completa aqui já era conhecido há bastante tempo na rede por ter lançado vários contos em algumas coletâneas. “Síndrome” é um de seus contos mais recentes, e que temos orgulho de publicar aqui, saído do forno! Deliciosamente insano e violento, - e os freaks leitores de HQs vão sentir uma pegada do "Crossed" de Garth Ennis nele -  o conto mostra a facilidade de Bravo para criar cenários extremamente perturbadores e situações sem saída ou qualquer esperança de uma resolução feliz. Otimistas, estejam  avisados!


Um livro infernal.



Então sem mais delongas, fiquem com essa pérola sangrenta do cancioneiro nacional, e até o próximo post!




Síndrome
César Bravo, 2017



Não sei ao certo como cheguei até aqui. Meu estômago está embrulhado, minha boca está seca e pastosa. Meus olhos não enxergam com clareza. Cada pedaço da vida se tornou tortuoso, permeado por perseguições, revolta e fúria. Não confio em ninguém, minhas costas doem, às vezes perco o controle da bexiga. Quando penso no futuro, vejo um poço sem fundo, um caminho sem luz, uma miséria sem volta.


A cidade cheirando à fuligem e lixo não parece capaz de me ajudar. Suas esquinas sequestram desesperados desabrigados; cães, gatos e ratos são o novo alimento das ruas. Os arranha-céus sorriem de minha insignificância, albergando os homens ricos que têm a triste (?) sorte de se manterem ilesos.


Como muitos, desde o início do que pareceu um quadro depressivo, estive em todos os consultórios médicos da cidade. Cardiovasculares, Neurologistas, Psiquiatras, Psicólogos. Frequentei todas as igrejas, templos e terreiros, usei os medicamentos que pude comprar, gastei meu estômago e meus joelhos no chão; exatamente como me orientaram a fazer. Meu desespero aumentou há dois meses, quando percebi que não era o único. 

Em meu trabalho, meu melhor amigo perdeu a capacidade de dormir. Esse foi o primeiro passo. Em seguida ele se tornou violento, por fim, em um surto da Síndrome, atacou nosso chefe e o enviou ao ambulatório, com a mandíbula quebrada em dois lugares. Não sendo um homem violento (não naquela época), eu preferi o que era certo: procurei ajuda.


Benzodiazepínicos, Clonazepam, Litium, Valium, Lexapro. 


Os medicamentos me levaram a uma espécie de torpor, onde o ontem e o hoje se misturavam, condenando o amanhã. Anestesiado como estava, perdi a confiança de meus amigos, perdi meu emprego — ainda sem imaginar que todos os meus colegas teriam um mesmo diagnóstico em poucos dias.


Ninguém sabe ao certo como a Síndrome começou a afetar a cidade toda — pelas notícias da TV, o mundo todo.


Pessoas se arrastam, as contas do estado estão no vermelho. A violência dá o tom da mudança. 


Semana passada, meu vizinho destruiu um carro de propagandas que o acordou antes do relógio. O “homem das pamonhas” tentou reagir, apanhando um bastão escondido sob um dos bancos. Meu vizinho tinha uma arma, não é difícil supor o resto da história.


Longe das ruas, as casas de repouso e presídios estão abarrotados de corpos confusos e instáveis. Quem tem dinheiro ocupa a primeira, o segundo é o hotel dos pobres. Estima-se que 32% da cidade esteja encarcerado, sob o domínio da Síndrome.


Surgiram várias hipóteses sobre o que parece ser um surto global de estresse e violência. Agrotóxicos, um novo vírus, vibriões; eu acredito na hipótese mais aceitável: a dificuldade em se adequar a uma sociedade fatigada pela pressão. Alguém sugeriu, em uma revista de pouca expressão, que pode ser culpa do alinhamento de alguns planetas, da regência de Saturno, e que uma dessas besteiras de algum modo afetou a maneira que as pessoas enxergam o mundo. Eu penso que só agora enxergamos a verdade — e ela existe em nós desde que o primeiro macaco falou.


As empresas e instituições seguem aos tropeços, com um quadro de funcionários cada vez menor; há fome e desemprego em todos os cantos. Exércitos igualmente adoecidos ocupam as ruas há meses, o consumo de drogas ilícitas superou o tabaco e o álcool.


Estamos em 2028. O sol brilha como um inferno suspenso nos ares, transpiramos o tempo todo, nossas casas não têm energia, a água tratada foi dividida por cotas.



Estou sentado em um praça aqui da cidade, respirando profundamente. A igreja destruída ainda rui à minha frente. Observo seis ou sete pessoas (é difícil contar à distância, meus olhos não enxergam muito bem) entrando em uma discussão. O motivo, não sei claramente, mas duvido que exista algum. A verdade é que todos querem um rosto para bater, uma carne para rasgar. Querem, de algum modo, transferirem parte da dor e agonia que sentem para outra pessoa.


Seguido do estado de apatia inicial, surge a histeria. É o que está acontecendo com aqueles caras. O motivo pode ser um olhar atravessado, uma sensação de perseguição, o rosto feliz de quem ainda não foi afetado pela Síndrome.


Todos estão furiosos.


Daqueles seis — seis não, sete (agora consigo enxergar) —, dois estão no chão. Suas cabeças são pisoteadas pelos outros cinco. Um dos agressores é uma menina, não deve ter mais de quinze anos. Mas ela tem saliva pelo queixo e uma corrente ensanguentada nas mãos. Ela bate contra o homem caído ao chão e rasga sua pele, o outro se levanta e foge. Um dos outros agressores, um homem com a farda da polícia, se afasta e sorri, ciente que um corpo em sete é um bom número nos últimos tempos. Mas ele não resiste, e logo se junta aos outros para golpear o homem que não conseguiu se levantar e correr. O infeliz ao chão não tem mais um rosto. Seu terno está rasgado e sujo de sangue, sua virilha, molhada de urina. Tem algo vazando pela parte de trás de sua cabeça.


Sinto um impulso repugnante de sorrir, e eu bem sei o que significa.


Quando você tem a Síndrome, quando sua vida perdeu o cheiro e a graça, tudo o que resta é a dor dos outros. Porque dói menos quando alguém sobre mais. Procuro em meus bolsos alguma medicação que nunca serviu para merda nenhuma. Antes, encontro minha pistola, presente do meu avô, que nunca a usou para nada melhor que encher uma gaveta. Eu resisto, mas então sinto uma dor aguda no canto direito da cabeça. Golpeio o ponto algumas vezes, sentindo que a dor só aumenta. Um silvo agudo toca e supera os gritos e gemidos da praça. Mas quando envolvo a arma com minhas mãos trêmulas, meu cérebro quase sorri, tudo vai embora, o mundo se cala.


Penso no policial, penso na garota com a corrente ensanguentada nas mãos, penso no homem tatuado que está ao lado, arqueado, recuperando o fôlego com as mãos apoiadas nos joelhos. Os outros não são interessantes, eles parecem satisfeitos com o espancamento e começam a se afastar. Mas os olhos dos três restantes ainda têm traços de sangue, hipervascularizados, isso sempre acontece quando a Síndrome te pega de jeito. Escondendo minha arma na cintura, assovio para eles. Meu cérebro sorri, minha apatia me deixa em paz por alguns segundos. Sei do que preciso agora. Uma canção antiga começa a tocar dentro de mim. Pode ser One in A Million, do Guns and Roses. Penso na minha esposa. Minha pequena também tem a Síndrome, ela está trancada no porão da minha casa há duas semanas, fui obrigado a isso quando ela tentou me esfaquear.


“Depressão”, eles disseram.


“Estresse”, eles disseram.


“Ansiedade”, eles disseram.


Mas eu sei o que a Síndrome significa. Apatia, ódio, involução, extinção. Imagino que a humanidade tenha seguido a direção errada, que nossas mentes estejam poupando a terra mãe de nossa influência cancerígena. E nós sabemos o que deve ser corrigido, chamem de empatia se quiserem. Mas a dor é mais forte; o ímpeto, a vontade de prevalecer e ser mais forte.


Eles estão vindo, e é como se a dor e a ansiedade fossem substituídas por serotonina. De repente minha arma torna-se um Deus. E eu, seu anjo vingador. Hora de executar uma decisão, penso. E me preparo para matar ou ser morto, voltando a essência selvagem da qual fomos feitos. A Síndrome vence outra vez. Sem alarde, sem resistência, sem diagnósticos precisos ou curas possíveis. Seus únicos analgésicos são o ódio e o suicídio, e consigo ser grato por não ter vocação à morte.


As armas disparam, a corrente voa pelos ares, alguém perde meia dúzia de dentes.


No fim, não importa o resultado final.


Estamos sorrindo.










terça-feira, 2 de maio de 2017

MINISTÉRIO DO ESPAÇO, de Warren Ellis + Chris Weston + Laura Martin






Por RICARDO CAVALCANTI





Warren Ellis é um dos autores preferidos do Zona Negativa. Ainda teremos muito para falar por aqui sobre esse britânico com cara de poucos amigos. Já falamos aqui da trilogia composta por Supergod, No Hero e Black Summer. Este último, por sinal, além de dar uma boa apresentação de quem é Warren Ellis, foi um dos que colocou o ZN na condição de “monitorados”. Mas é melhor não tocarmos no assunto. “Eles” estão de olho
 
Warren Ellis sensualizando pra você

O último século foi bastante conturbado. Grandes mudanças ocorreram e influenciaram todo o planeta. Nações disputando domínio sobre as outras através de seus exércitos; ideologias sendo disseminadas; radicalismo sendo propagado, além de conflitos que tomaram proporções globais.

Durante a segunda guerra mundial, o exército alemão mostrou todo o seu potencial de fogo. Com uma forte estrutura criada para o combate, suas armas eram admiradas pela sua eficiência (como toda a engenharia alemã é admirada até hoje). Uma das armas mais perigosas desenvolvidas pelos engenheiros do Führer foi o V2, um foguete com alto poder de destruição e que, sendo lançado a partir da Alemanha, seria capaz de atingir a Inglaterra. Posteriormente, acabou servindo muito como base para os primeiros foguetes que levaram o homem ao espaço.

O pai da exploração espacial foi uma arma balística de destruição em massa.
Seria cômico se não fosse loucura. E me refiro à vida real, não à HQ.

Após o fim do conflito, Estados Unidos e União Soviética disputavam todo o intelecto usado na construção das “maravilhosas” armas de guerra alemã. Todo aquele potencial era valioso demais para ser destruído. Os engenheiros responsáveis foram extremamente úteis no pós-guerra (pouco importa que tenham sido responsáveis por milhares de mortes, né? Afinal de contas, eles eram disputados para criar mais armas que poderiam causar ainda mais mortes). Todo o intelecto e a máquina de guerra alemã serviram aos interesses de americanos e soviéticos durante toda a guerra fria.



Em Ministério do Espaço, Ellis usa todo esse cenário como pano de fundo para desenvolver uma história que parte do ponto em que, a Inglaterra consegue sozinha, tomar posse de todo intelecto dos responsáveis pela máquina de guerra nazista, deixando os americanos e os russos para trás.

O que aconteceria se apenas um país se apoderasse de todo aquele intelecto, que criou todo arsenal de guerra alemão? Jacko Dashwood se torna o responsável pelo sucesso de tal operação para “captar” as mentes criativas dos engenheiros nazistas, sem que houvesse a intervenção de EUA ou URSS. Para dar continuidade aos seus planos, solicita aprovação para aproveitar todo o potencial dos “melhores construtores de mísseis do mundo” para desenvolver um projeto grandioso: Colocar um satélite artificial na órbita da terra munido de bombas atômicas que pudessem atingir qualquer alvo na terra. Esse era apenas o início do que seria a grande dominação do Reino Unido sobre o resto do mundo. No entanto, para que tudo isso fosse possível, precisaria de recursos. O grande mistério fica por conta da origem desses recursos. Um segredo que, a todo tempo, volta para assombrar Dashwood.



A Inglaterra se transforma em uma grande potência militar e tecnológica, abrindo caminho para a exploração também do espaço, criando-se assim - além do ministério do exército, da aeronáutica e da marinha - o Ministério do Espaço. Os avanços tecnológicos alcançam também toda a população, que acaba inserindo novas tecnologias em seu dia a dia. A todo instante, somos apresentados visualmente ao quanto o mundo evoluiu tecnologicamente, nos deixando maravilhados com aquela realidade.

Todo isso graças ao “visionário” Dashwood. Um cara arrogante, pretensioso e ambicioso que, mesmo sendo responsável pelo engrandecimento do Reino Unido e o surgimento do Ministério do Espaço, consegue ser odiado por todos a sua volta.


A arte de Chris Weston é um caso a parte. Weston iniciou sua carreira desenhando o Juiz Dredd para a 2000AD, tendo trabalhado também para a Image, DC, Marvel, sendo ainda responsável pela arte de The Filth, de Grant Morrison. Em Ministério do Espaço, Weston tem seu excelente traço engrandecido pela colorista Laura Martin que usa a mudança de tonalidade das cores para nos ambientar entre as diferentes épocas, sem que fosse necessária uma legenda para isso. Laura Martin - que se chamava Laura Depuy - já mostrou o seu talento em Planetary/Authority (também do Ellis) e Terra 2 da dupla Morrison/Quitely.


A história foi publicada originalmente em três edições, que a Devir nos traz integral em capa dura, papel de ótima qualidade (que valoriza bastante a arte) e com o prefácio do “arroz de festa”, Mark Millar. O que podemos dizer de "Ministério do Espaço" sem entregar algo de relevante, é que acompanhamos uma história de ficção científica com uma boa dose de suspense e que nos surpreende no final com um soco no estômago na última página. Não tem como ser mais atual. Por mais que acreditemos que estamos avançando de alguma forma, no fim da HQ a pergunta que fica é: “Será que estamos realmente evoluindo?”. Se olharmos a nossa volta, vamos perceber que, fora os jetpacks, aquela realidade não está tão distante da nossa.

 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A saga FUNDAÇÃO, de Isaac Asimov, ou "Star Wars, eu sou seu pai!"



Por EDUARDO CRUZ







Todo leitor, em alguma altura de sua vida acaba esbarrando em uma série literária, ou várias. Não é de hoje que autores, vendo a proporção que suas histórias tomam ao deitá-las no papel, resolvem dividir suas criações em mais de um volume. Trilogias, quadrilogias, decalogias.... existem séries literárias de todos os tamanhos possíveis, para todos os gostos possíveis. De Duna a Jogos Vorazes, de O Senhor dos Anéis a Harry Potter, de Game of Thrones a Percy Jackson, de Divergente a Cinqüenta Tons de Cinza.
E, é claro, tem a saga Fundação.



Só pra vocês sentirem um pouco do peso dessa saga literária, Fundação ganhou o prêmio Hugo de melhor série de ficção científica e fantasia no ano de 1966. Então, sim, Fundação é incrivelmente relevante e incrivelmente BOM! E se vocês ainda não conhecem, façam um favor a si mesmos e leiam.

Façam como o Senhor Fantástico!

Escrita por Isaac Asimov e publicada originalmente em 8 partes entre 1942 e 1950 na revista Astounding Magazine, Fundação é inspirada no livro História do declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. A trama de Fundação é ambientada em um futuro tão distante que a humanidade, consolidada através do Império Galáctico, esqueceu suas raízes, e seu planeta de origem é um mistério perdido no passado. O Império Galáctico é uma orgulhosa e opulenta instituição composta de mais de um trilhão de seres humanos e espalhada por milhares de planetas em uma teia burocrático-administrativa nunca antes vista. Entretanto, no planeta sede do Império, Trantor, surge Hari Seldon, um matemático que desenvolveu uma ciência conhecida como Psico-história.


Com a Psico-história, um misto de matemática e sociologia, Seldon é capaz de prever os movimentos futuros dos povos, e decreta que o Império Galáctico entrará em colapso dali a 200 anos, jogando toda a humanidade em um período de barbárie, uma Era das Trevas que não seria inferior a 10.000 anos! Afrontando o Império com tal declaração, Seldon corre o risco de ser preso – ou pior ainda, executado! – por traição. No entanto, Seldon, Além de demonstrar o problema, ainda oferece uma solução: Uma enciclopédia (a Enciclopédia Galáctica do Guia do Mochileiro das Galáxias? Tá estabelecida aí a conexão Isaac Asimov / Douglas Adams hehehehehehe) compilando todo o conhecimento necessário para que a humanidade possa se reerguer e restaurar sua antiga glória em no máximo mil anos.

Trantor, planeta sede do Império Galáctico

Ainda afrontados com a audácia de Seldon em duvidar do poderio e infalibilidade imperiais, mas temerosos com o que uma possível execução faria nos ânimos da população, o Império opta por uma espécie de pena alternativa: que Seldon e sua equipe passem o restante de seus dias no ermo planeta Terminus, situado nos confins da galáxia, trabalhando em sua Fundação, compilando a tal enciclopédia. O Império ainda não está totalmente convencido quanto às previsões de Seldon, e ao bani-lo para realizar sua tarefa nos confins da galáxia, pensaram que isso bastaria para não mais precisarem se preocupar com o declínio do Império. No entanto, Seldon também já havia calculado essa possibilidade. Na verdade, percebemos que Seldon, com sua Psico-história estava muitos passos à frente de qualquer coisa que pudessem ter preparado para varrê-lo para baixo do tapete. E aí, meus amigos, nós vemos que a Saga (com “S” maiúsculo mesmo!) está só no início...

Hari Seldon, criador da psico-história

É a partir daí que as coisas ficam bastante interessantes, porque apesar do forte contexto Sci-Fi arraigado na trama, Fundação se destaca muito mais como um livro de relações políticas e relações / interações humanas. O contexto sociológico, de civilização à beira do colapso, está mais atual do que nunca, e depois de entregue toda a premissa que já descrevi acima, o que resta para sustentar Fundação (sem trocadilho rs) são essas relações políticas, situações delicadas, frágeis equilíbrios, alianças forjadas, inimizades declaradas, intrigas, rebeliões, insurreições, traições... E o mais interessante de tudo, ainda nos primeiros livros: as soluções de Hari Seldon para resolver vários impasses políticos decorrentes dessa deterioração do Império Galáctico, muitas vezes solucionando as crises anos depois de seu falecimento! Como ele faz isso? Ora, usando a Psico-história! Os detalhes? Bom, vocês vão ter que ler para descobrir heheheh. O que prende o leitor são os problemas e ameaças, previstas ou não, que surgem pelo caminho e como a Fundação os resolve, com ou sem o auxílio de Seldon.



O que faz de Fundação uma das sagas literárias mais grandiosas já estruturadas por um autor é, acima de tudo, a grandiosidade: Asimov cobre períodos imensos de tempo para contar essa história, pulando algumas gerações de um capítulo para outro, ou até mesmo retrocedendo alguns séculos, até as origens da Psico-história, com Hari Seldon ainda vivo, isso tudo com apenas um objetivo: sempre acompanhar o real protagonista da história: a civilização humana e sua continuidade, e sua resiliência em afirmar e manter seu lugar no Universo. 

 
Asimov conseguiu, através de Fundação, consolidar quase toda a sua obra em um único universo, dando uma aula de criação de universo compartilhado aos estúdios de Hollywood. Mais do que os sete volumes da saga Fundação, vemos indícios desse universo consolidado em Pedra no Céu, Eu, Robô e até mesmo na trilogia robótica, formada por As cavernas de Aço, O Sol Desvelado e Os Robôs da Alvorada. Inclusive, se tiver coragem de selecionar o trecho em branco abaixo, aqui vai um spoiler para vocês terem uma idéia de como tudo está bem amarrado no “Asimoverso”:

O robô-detetive R. Daneel Olivaw, co-protagonista da trilogia robótica aparece em Fundação e Terra, em um papel enorme, sendo ele nada menos que o responsável pelos rumos da humanidade, do Império Galáctico, de TUDO. O robô, com 20.000 anos de existência, tem dado uma mãozinha para a humanidade todo esse tempo, sempre fiel às 3 leis da robótica.

Não disse que o bagulho era grandioso???






E COMO LER A SAGA DA FUNDAÇÃO???


Descobrir a ordem correta de leitura da saga Fundação era algo bem complicado aqui no Brasil, até que a Aleph, editora com um catálogo impressionante de obras de Ficção Científica (ou Ficção Especulativa, se preferirem;>)) botou ordem na casa e publicou todos os sete volumes. Qualquer que seja a ordem que se decida ler esses livros, a única obrigatoriedade é ler os três primeiros livros: 

Fundação (1951), Fundação e Império (1952) e Segunda Fundação (1953). Esses são fundamentais para contextualizar a história. A partir daí, pode-se partir para a leitura de Limites da Fundação (1981) e Fundação e Terra (1986), ou então seguir direto para Prelúdio à Fundação (1988) e Origens da Fundação (1993).

Essa é a trilogia original...

Limites da Fundação (1981) e Fundação e Terra (1986) podem ser lidos logo após a trilogia original, pelo fato de esses dois livros formarem de um novo arco de história envolvendo a Fundação, e cronologicamente ambientados após a trilogia original, sem saltos temporais, e com apenas um protagonista, Golan Trevize, um conselheiro de Terminus. Os dois livros contém tudo que se espera de Asimov: cenários grandiosos, uma história complexa, personagens interessantes, reviravoltas na trama e muito mais do extenso universo de Fundação.

... E mais quatro livros, escritos posteriormente, que formam a heptalogia (ou a Saga Fundação)

Prelúdio à Fundação (1988) e Origens da Fundação (1993) formam juntos um prelúdio da trilogia original, e focam em Hari Seldon e o desenvolvimento de sua Psico-história. Ou sejE, você pode seguir por qualquer uma dessas ordens de leitura, contanto que obrigatoriamente leia a trilogia Fundação (1951), Fundação e Império (1952) e Segunda Fundação (1953) antes de tudo. Obrigado. De nada ;>).

Sequência em cima, prelúdio embaixo. Escolha o seu caminho em fundação!

Na primeira vez em que li Fundação, tive uma impressão muito forte de que essa saga influenciou muita coisa que vi por aí, mas a ambientação espacial, o clima de intrigas e confrontos e sobretudo a semelhança dos nomes de muitos personagens (Hober Malow, Salvor Hardin, Bel Riose, Lathan Devers, Han Pritcher - HAN, MEU DEUS DO CÉU!!! HAN!!! -, Pelleas Anthor, Lorde Stettin...) com os de Star Wars faz com que seja fácil acreditar na possibilidade de que George Lucas, provavelmente influenciado por leituras de sua juventude (além de Fundação, uma pitada de Duna e Senhor dos Anéis, entre muitas outras influências na Space Opera de Lucas) para criar seu próprio universo cinematográfico. Foi uma impressão pessoal minha, e achei muito legal essa possibilidade de Fundação estar por aí, mais entranhado na cultura pop do que percebemos a princípio. Mais subsídios pra essa tretinha aqui, aqui e aqui ;>).

Fundação é, sem dúvida, o trabalho mais ambicioso da carreira de Asimov, que foi bastante cuidadoso em fazer conexões com vários outros livros de sua extensa bibliografia. Uma história muito inteligente, bem engendrada e poderosa, onde nos damos conta que o que o ser humano criou de mais precioso, a prerrogativa de onde se originam as artes, as relações sociais, as leis e tudo mais que justifique nossa espécie é a Civilização.

Vocês só se impressionam com GoT porque nunca leram Fundação rs...