segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

INVENTE ALGUMA COISA, de Chuck Palahniuk, ou "A primeira regra na Zona Negativa é falar do Palahniuk SEMPRE QUE POSSÍVEL!"








Por EDUARDO CRUZ


FUCK YEAH! Após bastante tempo sem um bom livro novo do cultuado Chuck Palahniuk lançado no Brasil (Na-nã-não, Maldita, Condenada e Clímax não contam como bons livros do autor rs), finalmente a editora Leya soltou um material promissor de um dos nossos grandes favoritos aqui na Zona Negativa (apesar do Maldita, Condenada e Clímax heheheheh). Invente Alguma Coisa, de 2015, é uma coletânea de contos do autor, com toda aquela bile mega cáustica expurgando das páginas e com a mira sempre apontada para as patologias geradas pela sociedade de consumo, para as relações entre pessoas disfuncionais, para nossa realidade, que já alcançou um grau distópico de absurdos, tudo isso em histórias com muito sarcasmo, escatologia sem pena de qualquer sensibilidade que o leitor possa ter, humor negro da pesada e não raro com muitas passagens contendo detalhes um tanto gráficos demais para o público sensível e todas de uma intensidade perturbadora. Sim, ler um livro desse cara é uma experiência que marca o leitor de forma indelével. Acham exagero meu??? Pois perguntem aos milhares de malucos que participam ou já participaram de algum clube da luta clandestino heheheheheh...


O escritor Tom Spanbauer, com quem Palahniuk aprendeu seu ofício de escritor em oficinas literárias, afirma que o tamanho ideal de um conto é de cerca de cinco a seis páginas. Claro que isso pode variar muito, de acordo com o desenvolvimento e o rumo a ser dado ao conto, e como o autor trabalha as nuances, narrativas, etc. Tem gente que precisa de regras estritas em tudo para viver, outros, nem tanto. Cagação de regras à parte, dá pra concordar que, quando bem executado, um conto pode ser muito mais impactante e "bem no alvo" do que um calhamaço de 600 páginas. SE bem executado. O que nem sempre é o caso, e até mesmo Palahniuk pode derrapar, e muito, nessa execução.

"Compra aí moço, pra ajudar lá em casa..."

Invente Alguma Coisa não é o primeiro livro de contos do autor. Seu primeiro livro de contos foi Assombro (que já resenhamos AQUI), uma interessante experiência onde ele cria diversas vozes em torno de um tema central. Uma antologia recheada de um punhado de pseudônimos, cada um com o seu tom, e todos unidos por algo em comum: A prosa dodói do tio Chuck. Ali o leitor pode sentir o punch de uma história curta do autor e se preparar para possíveis traumas decorrentes da leitura de um conto como Tripas, por exemplo, história que ficou famosa por fazer alguns americanos desmaiarem em sessões de leitura em livrarias durante a turnê de divulgação de Assombro. Já a proposta de Invente Alguma Coisa é mais solta: O livro é composto por vinte e três contos, a maioria sem ligação entre si, alguns publicados previamente na Internet ou em revistas literárias, antologias e coletâneas, mas claro, todos sem perder de vista a veia da Ficção Transgressional com a qual estamos tão familiarizados.

Os contos que integram Invente Alguma Coisa são:

Toc-Toc - Um jovem, levado pela máxima do senso comum "Rir é o melhor remédio" tenta salvar seu pai doente terminal com o repertório de piadas do próprio velho. Repertório esse extremamente tóxico, recheado de piadas politicamente incorretas, sexistas,  xenófobas e ofensivas em geral, numa tentativa desesperada de cura através de humor doentio. Um conto sobre o politicamente incorreto acompanhado de uma descida em espiral rumo à demência. Bom aquecimento.

Eleanor - A história de um redneck que ganha uma bolada no seguro e se muda com sua pitbull, a tal Eleanor, para a Califórnia. Sério, não acontece lá muita coisa além disso, e até mesmo uma tentativa de assassinato não esquenta as coisas. Conto beeeeem fraquinho.

Como a macaca se casou, comprou casa e encontrou a felicidade em Orlando - Uma fábula contemporânea, onde apesar dos protagonistas todos serem retratados como animais, mostra uma situação bem humana: A macaca, uma exímia vendedora, enfrenta o desafio de sua vida ao ter que promover um produto impossível de ser consumido. Dá pra reconhecer a marca do autor, mas, sei lá, falta alguma coisa. Talvez eu tenha ficado (mal) acostumado demais às revelações impactantes no ato final, ou aos personagens estranhos. Esse conto parece alguém tentando imitar a prosa de Palahniuk.

Zumbis - A nova moda entre a garotada inteligente, de futuro promissor e descolada é fazer downgrade de QI. Pra quê viver num mundo tão complicado, com guerras, fome, doenças, desespero? É melhor "ser e não ser ao mesmo tempo". Como? Muito simples: Pegue um desfibrilador cardíaco, cole um eletrodo de cada lado da testa e ZAP! Eletrolobotomia caseira. Adeus problemas! Esse é o novo hype da garotada. Um conto sobre alienação juvenil e o medo de amadurecer.

Perdedor - Uma fraternidade universitária possui uma estranha tradição: Chapados de LSD, os estudantes competem em um game show de auditório na TV. Acompanhamos um desses calouros na disputa para adivinhar o preço de itens comuns de supermercado, enquanto o ácido o faz repensar sua vida durante a gravação do programa. Será que vai dar bad? Bom conto, que evoca uma reflexão sobre a inutilidade do entretenimento de massas.

O garotão do sultão - Aaaaaaaaaaahhhhhhh, agora achei o Palahniuk aqui! Um fazendeiro, após a morte do cavalo da filha, resolve comprar um animal substituto, só não sabe o que novo equino tem um passado negro... na indústria pornô! Aqui é Palahniuk de raiz, com tudo que tem direito: A construção lenta e envolvente, os detalhes escabrosos que deixam o leitor de queixo caído, a surpresa no final, o comentário ácido sobre a sociedade... check, check, check!

Romance - Um rapaz gordinho e nada atrativo, após levar um pé na bunda de sua namorada, conhece uma menina atraente e muito, digamos, intensa, impulsiva e estranha. Contrariando todas as expectativas, os dois se envolvem romanticamente, apesar das advertências dos amigos dele. Todos acham que há alguma coisa errada com a mulher perfeita que ele arrumou, e que pode ser mais sério que todo o álcool e drogas que a moça consome. Aqui Palahniuk subiu o nível. Sabe aqueles memes no estilo "quem rir vai pro inferno"? Pois é, quem ler este conto aqui também vai, direto e sem escalas!

Canibal - Um conto sobre jovens colegiais e seu preconceito estudantil de segmentar pessoas em grupos de acordo com sua popularidade, e os segredos sórdidos que os jovens "perfeitos" tentam manter escondidos no armário. Existe uma cena escatológica neste conto envolvendo uma sessão de sexo oral um tanto.... sangrenta. A construção e desenrolar da cena até que lembra o conto Tripas, mas não tão inspirado quanto. Bem morno.

Por que o Coiote nunca tinha dinheiro para o parquímetro? - Mais uma fábula. Aqui, o Coiote, que vive em um bairro barra pesada e trabalha em um subemprego para sustentar a família que ele não desejava ter formado, se vê às voltas com um dilema extra conjugal com a Flamingo, que se prostitui em sua vizinhança.

Fênix - Uma mãe, longe de casa a negócios, surta pelo telefone com o marido e a filha pequena. Bom suspense, desenvolvimento ok, conclusão ok... e pouco original para o padrão Palahniuk. Um conto de Chuck Palahniuk que soa mais como outro escritor querendo emular Chuck Palahniuk...

Fatos da vida - Um pai explica a seu filho aquela perguntinha que constrange a maioria dos pais: "Como eu nasci?". Só que esse pai em especial não se faz de envergonhado e conta com excesso de detalhes como foi que papai e mamãe fizeram a criança. Com todos os pormenores embaraçosos, em um drive in, e com direito a um acidente bizarro e muitas testemunhas. A história parece divertida, não? Mas na execução é apenas mais um conto onde Palahniuk foi no piloto automático. Pena...

Televendas - Uma história sobre vendas por telemarketing, racismo e xenofobia. Tio Chuck maneirou na bizarrice aqui, mas nem por isso é um conto ruim, muito pelo contrário. Tudo que os personagens falam aqui poderia ter saído da boca do seu vizinho, ou de um parente seu, e isso sim é aterrorizante...

O príncipe sapo - O conto abre singelamente com um casal de adolescentes dando uns malhos, ela já pronta pro sexo, enquanto ele, ainda vestido, insiste em falar com a menina sobre práticas de modificações genitais mundo afora - daquelas baseadas na nossa estranha realidade e que Palahniuk gosta de descrever de forma bem.... detalhada rs. Tudo para preparar a menina antes de baixar as calças e mostrar a ela seu próprio experimento caseiro de modificação genital, com o intuito de maximizar o prazer. E assim, do nada, caí no meio do conto de body horror mais grotesco que já li, com um final que evolui para sci-fi apocaliptico, como se viciados em krokodil escrevessem um roteiro de Rick & Morty. Se eu puder ser ainda mais descritivo, peguem a visão: Imaginem o braço do personagem Tetsuo na animação Akira.


Só que não é o braço, sacaram? Só esse conto aqui já vale o peso do livro em ouro, crianças. Surpreendente e perturbador ao extremo! Chamem Takashi Miike ou Shinya Tsukamoto para dirigir a adaptação disso! Palahniuk em sua melhor forma. Melhor conto do livro, e ouso dizer, um dos melhores do autor!


Fumaça - Aqui vemos Palahniuk brincando com uma idéia recorrente já há algum tempo em sua obra, como pudemos ver em Clube da Luta 2: As palavras (e por conseguinte as idéias) são contagiosas. Sim, são organismos que querem habitar em outros organismos: Nós! Elas estão vivendo dentro de nós nesse exato momento e sempre que abrimos a boca, um mero "bom dia" é um vetor de contágio! Por isso não escreva. Não leia. Não fale. Por precaução, melhor nem pensar. Comecem agora!

Tocha - Um assassinato ocorrido em um festival de cultura alternativa estilo Burning Man é investigado por um monitor e mediador de conflitos do evento. O homem, que é um Zé-ninguém no mundo lá fora, mas uma prestigiada figura de autoridade dentro do festival, descobre que o assassino está mais perto do que ele imaginava e que pode não haver apenas uma vítima... Uma história de mistério acompanhada de um interessante comentário a respeito destes festivais de cultura alternativa e as propostas de se reimaginar o mundo que ocorrem ali dentro.

Liturgia - O conto é estruturado como se fosse um relatório de uma companhia de seguros ou de uma associação de moradores, e versa sobre os eventos ocorridos em um condomínio de luxo envolvendo um misterioso material orgânico de origem humana, que desencavado por animais selvagens e por bichos de estimação dos moradores, acaba espalhado por toda parte, gerando transtornos para a vizinhança, não habituada a situações desconfortáveis e bizarras como esta. A idéia é a cara do autor, mas o conto é mais um daqueles em que faltou alguma coisa...

Por que o Porco-da-terra nunca chegou à lua? - O Coelho, Porco-da-terra e o Galo, cansados do bullying a que são repetidamente submetidos, resolvem adotar uma tática: Se tornar alunos que não irão mais destacar nos estudos. Quanto mais burro e indolente, melhor! Só que o plano dá terrivelmente errado... 
Mais uma das fábulas de Chuck, essa possui uma breve ligação com o conto Como a macaca se casou, comprou casa e encontrou a felicidade em Orlando, apenas um easter egg que situa as fábulas em um mesmo universo. Bom conto, com um final triste.

Pega - Uma história de fantasmas muito da sem graça que começa do nada e não vai a lugar nenhum. Isso é realmente um conto do Palahniuk ou entrou errado nesse livro? Sério, isso parece um rascunho inacabado...

Expedição - Aí vc pega o livro novo do Palahniuk e vai direto pro tal alardeado conto ambientado no universo de Clube da Luta, e mais: Que o próprio Tyler Durden daria as caras! Não sei se o que vou falar a seguir vai animar ou desesperar vocês: Expedição está mais para Clube da Luta 2. Ambientado na Hamburgo do início do século XX, o protagonista é um trabalhador com uma vida tediosa que empreende expedições à zona do baixo meretrício, investigando e catalogando as desventuras da humanidade, as histórias dos quebrados e abandonados. Até que um dia conhece um estranho que o leva a uma jornada de autoconhecimento e ao olho do furacão de uma crise geracional. Um conto cheio de camadas e pleno de simbologias do início ao fim, que aborda o abandono paterno, algo que hoje em dia está em voga chamar de "aborto masculino".

Mr. Elegante - Sabem aqueles contos que já se tornaram uma marca inconfundível do Palahniuk? Histórias abordando usos e costumes que jamais poderíamos imaginar para profissões e atividades incomuns? Dessa vez acompanhamos a dura rotina dos strippers masculinos: Os truques, segredos e armadilhas do ofício narrados pelo protagonista que, como em toda história do Palahniuk  que se preze, sofre de uma estranha condição médica e por conta dela acaba por criar uma situação bizarra, à qual fica eternamente acorrentado. Conto divertido, se você for levar em conta o humor dodói do autor heheheheh...

Túnel do amor - Nesse conto vemos um massoterapeuta que atende uma clientela muito específica, ainda que efêmera: O profissional é responsável por proporcionar conforto a doentes terminais, fazendo de qualquer eutanásia um spa relaxante! Palahniuk ainda dá uma de Stephen King e insere a já famosa história-dentro-da-história aqui. Bom conto, mas deixa uma impressão de que seria mais desenvolvido, e daí acaba! 

Inclinações - Jovens são internados por seus pais em uma clínica a fim de terem sua "inversão sexual" corrigida. Sim, um conto de Palahniuk abordando a polêmica cura gay! Fui cheio de expectativas aqui, imaginando o quão corrosivo e esmagador Palahniuk seria nessas páginas, mas infelizmente tudo parece meio no piloto automático: A construção dos personagens, as surpresas, a reviravolta, o obrigatório choque grotesco... Talvez se fosse um de seus primeiros trabalhos o impacto fosse maior, mas não há qualquer novidade ou reinvenção aqui, apenas uma fórmula, já conhecida do público, sendo (re)aplicada sem muita inspiração.

Como a judia salvou o natal - Um conto sobre um amigo oculto entre colegas de uma loja de departamentos que evolui para preconceito, paranóia e troca de presentes ofensivos. Mais um conto que poderia ter sido mais rico, mas que não cresceu muito...




E com esse lançamento a editora Leya dá mais um passo rumo a publicação de quase toda a bibliografia de Palahniuk por aqui na íntegra, faltando apenas os romances Rant (2007), Pigmy (2009), Tell-All (2010) e Adjustment Day (2018), ainda inéditos aqui, além de Cantiga de Ninar (2002), anteriormente publicado pela editora Rocco e que os fãs suplicam há anos por um reprint. A editora mantém o padrão das publicações anteriores do autor, em livros de capa cartão com um projeto gráfico enxuto e sem muitas das extravagâncias atuais, em que o acabamento luxuoso acaba supervalorizando um livro conteúdo questionável. A tradução fica por conta do onipresente Érico Assis. Esse cara não come nem dorme? Não é possível, ele tá em todas!!! rsrsrs.

Edição de bolso gringa de Invente Alguma Coisa

Invente Alguma Coisa  é bem irregular em termos de qualidade e, no decorrer de sua leitura, detectamos um certo desgaste na prosa de Palahniuk, dono de um texto único que conquistou uma base de fãs sólida desde sua estréia literária, mas que lamentavelmente em algumas histórias desse livro, consegue parecer um cover de si mesmo. O livro de contos anterior, o supramencionado Assombro, consegue render muito mais, entreter muito mais, chocar muito mais, carregar metáforas mais cirurgicamente precisas e poderosas. Entretanto isso não tira o brilho das (pouquíssimas) histórias realmente boas contidas no Invente Alguma Coisa, as quais irão ressoar muito tempo nas paredes do seu crânio, entrando na mente como um soco. Quantos vocês aguentam?




terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Genealogia Lovecraftiana #002: A TERRA DA NOITE, de William Hope Hodgson








Por EDUARDO CRUZ




"Como podereis saber, como eu sei, a grandeza e o terror das coisas de que falo às claras? Pois nós, com a ridícula duração de nossas vidas não temos grandes histórias para contar, a não ser os poucos detalhes que sabemos dos anos que vão além de poucos milhares. Eu, porém, devo contar-vos nas páginas breves de minha vida aqui, o bastante de minha vida que foi, da vida que tive, dentro e fora da Poderosa Pirâmide, para deixar claro a quem possa ler a verdade daquilo que conto. Porém, as histórias do Grande Refúgio não se ocupavam de poucos milhares de anos, mas de milhões, até perderem-se nas trevas do que concebiam como os primeiros dias da Terra, quando o sol, talvez ainda brilhasse fracamente no céu do mundo. Mas, de tudo que houvera antes, nada sobrara, a não ser mitos e matérias que tinham de ser acatadas com cautela e tidas em dúvida por homens sãos e de sabedoria provada."



E eis que temos mais um livraço a sair do forno em 2018, dessa vez um clássico da literatura pós apocalíptica que levou 106 anos para ser publicado no Brasil! Bom, é como dizem: Antes tarde do que nunca! O livro A Terra da Noite foi originalmente publicado em 1912, mas inexplicavelmente, como muitos outros títulos, nunca ganhou uma edição nacional. A obra é um dos trabalhos mais notáveis do prolífico autor inglês William Hope Hodgson, que além de escrever contos e novelas, produziu ensaios e poemas, mas se destacava mesmo pela sua produção em terror, ficção científica e fantasia, além de se dedicar ao fisiculturismo (?!). Fora A Terra da Noite, Hodgson é conhecido por aqui pelo livro A Casa Sobre o Abismo, que teve uma adaptação em quadrinhos pela Vertigo em 2000, ilustrada pelo nosso queridão Richard Corben (e que foi publicada aqui com o título A Casa do Fim do Mundo pela Ópera Graphica em uma pavorosa edição em formato paraguaio e em preto e branco que me faz espumar de ódio só de lembrar. Nem o prefácio do Alan Moore salva essa publicação!). Hodgson teve uma morte trágica e prematura aos 40 anos, na Primeira Guerra Mundial, e era uma das influências confessas de Lovecraft, com suas histórias de horror estranhas e de escopo grandioso, como a dessa resenha em questão.

William Hope Hodgson


A Terra da Noite é um dos primeiros romances do subgênero Dying Earth (Terra Moribunda), um nicho da Ficção Científica com histórias ambientadas no futuro distante, ao final da vida na Terra ou no fim dos tempos, quando as leis da termodinâmica finalmente irão cessar e a entropia terminará por consumir tudo que existe. Temas como esgotamento dos recursos naturais, a já citada entropia e a esperança de alguma possível renovação predominam, e a diferença do Pós-Apocalíptico para o Dying Earth é que enquanto o primeiro subgênero trata de destruição catastrófica, o segundo aborda a exaustão entrópica da Terra, em um cenário sombrio e pessimista.  

Arte de J. Humphries


Arte de J. Humphries

A trama retrata nosso mundo daqui a milhões de anos no futuro. Nosso sol se apagou e os últimos humanos vivem confinados aos milhões no Grande Reduto, uma gigantesca pirâmide de metal de quilômetros de extensão e altura, no que talvez seja a primeira Arcologia da literatura. Do lado de fora, tudo é frio, estéril e desolado, e como se isso não bastasse, ainda há o cerco ao Reduto por criaturas malévolas e poderes desconhecidos na vastidão de noite eterna, em forma física ou etérea, seres que vão desde infernais cães maiores que cavalos até às colossais Sentinelas, monstros gigantes que observam o Reduto, imóveis há milênios, além de uma miríade de criaturas maléficas indescritíveis. Nosso protagonista, um jovem - e apaixonado - habitante da Pirâmide, resolve atender um distante chamado de socorro e se aventura na paisagem inóspita, enfrentando enormes perigos sobrenaturais. 

Arte de J. Humphries

Arte de Stephen Fabian

Arte de J. Humphries


A Terra da Noite foi publicado via financiamento coletivo pela Editora Clock Tower, uma editora pequena, porém extremamente engajada em trazer para o Brasil publicações clássicas de horror que sabe-se lá por quais razões foram ignoradas até então. Os caras são guerreiros, e se vocês não conhecem o trabalho sensacional que a Clock Tower desenvolve, shame on you! A editora resgata e lança uma luz sobre nichos e autores ainda injustamente ignorados por aqui, sempre relacionados direta ou indiretamente aos mythos de Lovecraft, ou no caso de Arthur Machen e Robert "O Rei de Amarelo" Chambers, influências seminais sem as quais talvez nossos queridos Cthulhu, Yog Sothoth e companhia não tivessem vindo a existir. A editora produz seus livros com muita garra, amor e tesão pela coisa, em um esquema de produção quase artesanal e na base do financiamento coletivo. Colaborei com o financiamento coletivo para a publicação de A Terra da Noite há cerca catorze meses e após tradução e revisões cuidadosas (e alguns problemas de força maior na revisão e com a gráfica), o livro finalmente foi para impressão em junho e entregue em agosto, se tornando assim o livro que mais gerou expectativas em toda a minha vida até agora rsrs. Pessoas são geradas mais rapidamente que os livros da Clock Tower, mas toda essa espera sempre vale a pena, porque no final, você tem em mãos material exclusivo e que costuma esgotar rapidamente! Mas fiquem frios: Denilson Ricci, o cabeça por traz da Clock Tower é extremamente confiável e atencioso, isso eu garanto. Perfeccionismo demanda tempo, garotada...   



“Mas, em todos os que se aventuravam no perigo da Terra da Noite, se inseria, sob a pele do lado interno do antebraço esquerdo, uma pequena cápsula. E, quando a ferida sarava, o jovem podia sair em sua aventura.

O propósito disso era que o espírito do jovem pudesse se salvar, se fosse capturado, pois, então, em honra de sua alma, ele morderia a cápsula e o seu espírito teria, imediatamente, a segurança da morte. Assim, julgai quão tenebrosos  horrendos eram os perigos da Terra da Noite.”


E o livro preenche todas as expectativas! Uma história que, fora um pouquinho de romantismo piegas e uma boa dose de machismo da era Vitoriana - vícios incontornáveis pertencentes à época em que foi produzido - carrega conceitos e elementos incríveis para uma história de Ficção/Fantasia que já tem 106 anos de idade: Idéias muito em voga a partir da segunda metade do século XX, como comunicação por telepatia; um pouco da tecnologia relacionada a eletricidade que Nikola Tesla concebeu é antevista aqui em equipamentos e armas; o conceito de Multiverso, mesmo que com uma nomenclatura diferente, também se faz perceptível; o Último Reduto da humanidade é uma fortaleza mega-arquitetônica que vai despertar em alguns leitores conexões com a Zion de Matrix, ou com a gigantesca nave colonizadora do filme Pandorum e até mesmo com a fortaleza de Immortan Joe em Mad Max - Estrada da Fúria, todas compartilhando a característica em comum de serem uma idealização de seus criadores para a preservação da humanidade. O livro conta com tradução e notas explicativas de José Geraldo Gouvêa, capa e dez ilustrações internas do artista Leander Moura, uma ótima biografia escrita por Filipi C. Pinto, além de mais alguns extras como glossário, notas finais e índice remissivo, além da relação dos nomes de todos que colaboraram com o projeto de publicação do livro (Sim, meu nome também está lá!😄).

Arte de Raymond C. Leung

O fabuloso Diskos, misto de machado medieval e motosserra elétrica, a arma mais confiável do futuro longínquo. Arte de Raymond C. Leung

O livro já foi comparado à obra de Tolkien, e até consigo ver o motivo desta comparação no quesito inventividade e ambição: Hodgson criou um mundo gigantesco e uma cronologia que abarca não milhares, mas milhões de anos, do "presente" do narrador protagonista, no século XVII, até esta era, sem sol e com a Terra moribunda. Além disso, existem outras idéias igualmente ousadas e que refletem todo o pessimismo em se aventurar fora do Reduto, como a tradição de se implantar uma pequena cápsula sob a pele do braço dos exploradores. Na eventualidade de um perigo impossível de se transpor, dentre as inúmeras aberrações e monstros que ocupam este mundo futurista moribundo, e com o intuito de "preservar o espírito", pois a morte física é algo brando perto das alternativas possíveis. Uma espécie de suicídio santificado. Uma solução desesperançada e cínica, que antevia os tempos negros à frente, às portas da Primeira Guerra Mundial. 


Arte de Zdzisław Beksińsk

Os monstros e criaturas são outro ponto de destaque da obra. Por vezes Hodgson representa entidades de imenso poder e com intenções insondáveis, ou simplesmente com uma aparente ânsia irracional por caos e destruição, ou até mesmo uma misteriosa indiferença. E é evidente que Lovecraft bebeu muito da obra de Hodgson como uma referência para compor a "personalidade" das entidades que viria a desenvolver. Forças opostas surgem, e parecem impedir as criaturas mais terríveis e poderosas de acabar com o Último Reduto, porém, essas forças aparentemente benéficas são igualmente misteriosas e insondáveis. Neste mundo existem criaturas que indubitavelmente tencionam destruir os humanos, e existem manifestações de Forças que não parecem compartilhar dessa intenção, embora também não se mostrem ostensivamente benéficas. Mas o mistério e as incertezas que pairam há milhares de anos sobre estes últimos podem ser tão perigosos quanto os primeiros. Em última análise, tudo é hostil e potencialmente perigoso neste mundo.  


“Então, crendo viajar por onde decerto encontraria as estranhas Portas na Noite, tive especial cuidado em meu progresso e me detinha, frequentemente, para ouvir e olhar, atentando para a Noite ao redor. Isto não serviu para evitar que eu encontrasse aquele pavor que assombrava o vácuo, pois, de repente, enquanto andava com todo cuidado, ouvi um distante zumbido descer da noite, ligeiramente atrás de mim, e o zumbido aumentou e ficou mais claro, e produziu aquele Som mais alto ainda. Depois de ouvi-lo, não pude duvidar que outra porta se abria acima, pois o som crescia da maneira como ouves um ruído distante que se aproxima, quando uma porta é aberta, de forma que o som, se produzido naquele lugar, parecera vir de outro. Mas esse som, embora vindo de perto, era como se chegasse de uma eternidade perdida e estranha. Tento explicar isso claramente, e não me culpeis muito por falhar, pois havia um horror tão medonho nisso que mal posso esquecer, e sempre tento fazer com que outros entendam como eu aquela desgraça e terror assombrando a noite.”
 

Arte de J. Humphries

Arte de J. Humphries

Arte de Stephen Fabian

Em seu ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura, Lovecraft descreve A Terra da Noite como "uma das mais potentes obras de imaginação macabra já escritas". Clark Ashton Smith, outro monstro sagrado das pulp fictions, escreveu que "Em toda a Literatura de Fantasia, existem poucos trabalhos tão puramente notáveis, tão puramente criativos quanto A Terra da Noite". Comparações com a prosa de Lovecraft são inevitáveis em certos trechos, como por exemplo a passagem abaixo. A Cor que Veio do Espaço? Não, A Terra da Noite!



“Era um lugar temível e estranho aquela Planície, como se um vácuo azul subisse da Terra por toda a região. A Planície não mostrava chamas, mas ficava oculta em uma estranha luz inconsumível, como uma atmosfera cintilante de cor azulada e fria, que não deitava nenhuma luz definida sobre a Terra da Noite, como deveria, mas uma que brilhava fria e muito assustadora, como um vácuo luminoso e azul. Os arbustos de musgo cresciam até a borda da Planície e pareciam negros e deformados contra a horrenda cintilação.”


Interessante é fazer um exercício de imaginação a respeito de como o cenário do livro de Hodgson pode ser encaixado como um possível futuro do nosso mundo no universo Lovecraftiano, quando as profecias sobre o retorno dos Antigos e outras monstruosidades abissais Cósmicas se concretizassem neste mundo pavoroso. Ler A Terra da Noite sob esse contexto cai como uma luva. Não pertence efetivamente ao cânone Lovecraftiano, porém mesmo assim pode ser deliciosamente lido como tal. Experimentem.

Arte de Sebastian Cabrol

Arte de Barbara Sobczynska

Mas a comparação não se limita apenas a Tolkien, que pode ter em certos momentos um tom muito lúdico e juvenil, o que leva muitos leitores a não se sentirem mais confortáveis ou satisfeitos em ler O Senhor dos Anéis ou O Silmarillion, por exemplo, depois de uma certa idade. O leitor pode se sentir deslocado, excluído, como se aquela obra não mais se comunicasse com ele. Com A Terra da Noite a diferença se faz sentir, pois é uma fantasia sim, e com elementos de ficção científica sim, porém com um tom mais dark (trocadilho não intencional heheheh). A questão do suicídio, já  abordada acima, bem como vários outros dilemas morais que os personagens de uma época tão sombria e difícil são obrigados a enfrentar por vezes surpreendem o leitor, e as cenas de ação.... WOW!!! Tão colossais quanto todas as descrições de cenários arquitetônicos são as batalhas onde milhares morrem em apenas alguns momentos. Pela violência absurda e o escopo grandioso eu incluiria como comparação, além da obra de Tolkien, a Bíblia Sagrada 😂

"Olhei em direção ao Volume e vi que vinha como uma Colina de Negrume sobre a Terra, e já bem próximo. Então, houve uma maravilha, pois, naquele momento, quando todos deveriam partir rápido para salvar suas almas, da terra subiu uma pequena Luz, como a luz crescente desta terra jovem. Ela subiu em um arco de fogo brilhante e frio, luzindo só um pouco, e se estendeu sobre os Dez Mil e os mortos. Nesse instante, o Volume se deteve, retornou e sumiu.

Então, os homens retomaram, depressa, seu retorno à Poderosa Pirâmide. Mas, antes que chegassem em segurança, o Ladrar dos Cães soou ao redor deles, e enfrentaram esse perigo, mas sem desespero, porque já haviam sobrevivido a uma ameaça bem maior. 

Os Cães estavam perto, como via pela Grande Luneta, e contei um cento deles a correr em bando com as grandes cabeças abaixadas. Logo que os Cães chegaram até eles, os Dez Mil se dividiram e houve um espaço entre eles para que pudessem usar plenamente aquele terrível Diskos, e lutaram com as empunhaduras estendidas e vi os Diskos a girar e brilhar e emitir fogo.

Houve grande batalha, pois a Luz que os cobria afastava o Poder de suas almas, mas não os protegia de monstros menores. Em mais de cem mil frestas da Poderosa Pirâmide,, as mulheres choraram e soluçaram e olharam de novo. Nas cidades de baixo se disse, depois, que era possível ouvir o partir e lascar das armaduras quando os Cães corriam por entre os homens a matar, e até o som dos ossos rangendo em seus dentes. Mas os Dez Mil não cessaram de feri-los com os Diskos e, logo, cortaram os Cães em pedaços. Entre os que saíram, houve mil e setecentos abatidos pelos Cães, mas os homens alcançaram a vitória.

Então, o grupo de heróis cansados veio para o abrigo do lar no Vasto reduto, trazendo seus caídos e, também, os jovens mortos, e foram recebidos com imensa honra, muito luto e grande silêncio, pois o caso não admitia palavras, até certo tempo se passar. Houve lamento em cada cidade da Pirâmide, pois não houve tristeza tal em, talvez, mais de cem mil anos."

Arte de Peter Andrew Jones

Eu poderia ficar enaltecendo o quanto essa fantasia dark é excelente até o Sol se apagar, mas acho que vocês já pegaram a idéia. Essa é, definitivamente, uma história que agrada a fãs de vários gêneros. Então, galera do Sci-Fi, galera da Fantasia, e sobretudo galera dos Mythos de Cthulhu, uni-vos na Terra da Noite!!!

"Vi, então, que a Terra da Noite que eu conhecia se ocultava de mim atrás da inclinação. Virei-me e olhei encosta abaixo e tudo em frente era um deserto desolado e escuro, e não parecia ir a lugar nenhum, senão rumo a uma noite eterna. Ali não havia nenhum fogo, nenhuma luz de qualquer tipo, só a Escuridão, e eu poderia senti-la: a Eternidade. Por aquela Escuridão adentro a grande encosta parecia seguir para sempre."
Arte de Raymond C. Leung



sexta-feira, 16 de novembro de 2018

BLACK CLOVER, de Yûki Tabata



                                                                                                               Por Ray Junior


"E na quinta folha reside o Demônio."

Asta e Yuno são órfãos que foram criados juntos numa igreja em um vilarejo remoto chamado Hagen, que fica no reino de Clover. Vivem num mundo onde todos possuem poderes mágicos em diferentes níveis, sendo eles o elemento decisivo para estabelecer hierarquias e fazer distinção de grupos. Asta nasceu sem nenhum, enquanto Yuno se mostra um prodígio com imenso poder mágico e talento pra controlá-lo. Ambos aspiram se tornar o Rei Mago, que lidera a Ordem dos Cavaleiros Mágicos do reino. A jornada dos garotos se inicia quando atingem idade suficiente para receber seus grimoire e prestar o exame de admissão da Ordem.

Tudo começa com uma promessa...

Criado e ilustrado pelo mangaká Yûki Tabata, o manga é publicado originalmente na Shonen Jump semanal, licenciado e publicado no Brasil pela editora Panini. Sendo um manga do gênero shounen, Black Clover mantém a estrutura de outras séries de sucesso do gênero e dialoga facilmente com fãs de Fairy Tail, Dragon Ball e Naruto, por exemplo. Por outro lado, seguir rigidamente a fórmula de sucesso de outros, prejudica a narrativa com clichês nesses primeiros capítulos, apesar de uma boa construção de cenário e apresentação dos  personagens centrais,definindo-os com personalidades distintas logo no início, além de cenas de luta empolgantes e um bom timming para as piadas. Infelizmente não é possível evitar o “eu já li isso antes” em determinados trechos e a previsibilidade e falta de inovação, mostram ser um problema que o autor precisará resolver logo de cara.

A mente criminosa por trás de Black Clover

Asta é o típico protagonista de shounen, determinado e focado nos seus objetivos, o sujeito que ouve de todos que nunca irá conseguir mas que usa isso como combustível para seguir em frente e nunca desistir. Apesar da mesma origem humilde, as coisas são muito mais fáceis para Yuno, que funciona como um contraste que valoriza as pequenas conquistas graduais de Asta. Após serem escolhidos por seus grimórios mágicos, o lendário livro do trevo de quatro folhas para Yuno e o surrado grimoire antimagia do trevo de cinco folhas para Asta, ambos passam nos testes para serem admitidos em alguma Ordem Mágica. A respeitada divisão da “Aurora Dourada” (sim, referência a AQUELA Golden Dawn) é o destino de Yuno, enquanto a única opção de Asta são os rebeldes e desajustados “Touros Negros Selvagens”, comandados por um líder igualmente disfuncional. Depois de algumas situações inusitadas, Asta é acolhido pelo restante do grupo e inicia seu treinamento e missões.

"Touros Negros Selvagens", aquele grupo de magos que você respeita


A expectativa boa para Black Clover é que algumas boas pontas na trama se desenvolvam, como o problema do abismo de desigualdade entre classes (a aristocracia detém grande parte do poder da magia e com isso oprime as classes desfavorecidas) e explorar essa questão certamente será uma bola dentro do autor. Aqui temos uma série com potencial mas que precisa urgentemente inovar e apresentar suas próprias características aos fãs.



Elite sendo elite


"Não sei usar magia, mas tenho uma espada gigante que o grimório do cramunhão me deu"


Publicada desde 2015 no Japão, o título tem periodicidade semanal e ainda está em andamento com 16 volumes, já tendo alcançado sucesso para uma adaptação em anime que começou a ser produzida em 2017. A edição da Panini é bimestral, com 192 páginas, pelo preço de R$21,90.