sexta-feira, 4 de novembro de 2016

NEUROMANCER, de William Gibson, ou “Matrix versão 0.5”

Por EDUARDO CRUZ




“A matrix tem suas raízes em games de fliperama primitivos.”



William Gibson é um sujeitinho peculiar. Não entende a fundo de informática, sistemas computacionais e derivados, como ele mesmo admite, e ainda assim escreveu um livro cuja trama descreve indivíduos que utilizam máquinas para invadir sistemas de dados e que se passa em boa parte no ciberespaço. E o fez de forma envolvente e muito consistente. E de quebra ainda ajudou a fundar um nicho na literatura de ficção científica. Esse livro ganhou alguns prêmios, entre eles um Hugo, um Nebula e um Philip K. Dick, prêmios máximos da literatura de FC e fantasia. O livro? Neuromancer. Se você não conhece nem nunca ouviu falar, deveria. Muitos dos conceitos que vou expor adiante e que você certamente já viu por aí em cinema, quadrinhos, animação e até na música já são produtos de mentes que absorveram este impacto inicial da obra de Gibson e seus congêneres, e nos devolveram na forma de obras como “Matrix”, “Ghost in the Shell”, "Transmetropolitan" etc, em uma espécie de
retroalimentação antropofágica cultural. Parece que a realidade e a cultura popular têm cada vez mais se inspirado na obra prima de Gibson (ou será que a ficção de Gibson é que tem se infiltrado cada vez mais em nossa realidade? Hmmmmmm....), que com “Neuromancer” ajudou a criar uma vertente na cultura popular contemporânea que conhecemos como Cyberpunk.

Cyberpunk é o conceito que exprime, sob uma ótica pessimista, comentários a respeito da relação do homem com sua tecnologia, da natureza humana, a expansão da percepção da realidade com o auxílio da tecnologia, o caráter subversivo da relação do indivíduo frente ao sistema, a exploração do ciberespaço como ambiente de interação entre seres humanos e inteligências artificiais, entre outros pontos.

Arte de Josan Gonzalez
Os “heróis” das histórias sempre são indivíduos centrados em seus próprios interesses, párias nesta sociedade
que, se promovem o bem comum, é apenas por efeito colateral involuntário da realização das próprias maquinações. A conectividade é onipresente e as grandes
corporações desempenham o papel dos governos no controle absoluto desse sistema e, portanto, invariavelmente, são os grandes vilões.
"Transmetropolitan", de Ellis e Robertson
Gibson não foi o autor a cunhar esse termo, mas ajudou muito a popularizá-lo em sua obra, ao lado de outros escritores, como Bruce Sterling, John Shirley, Neal Stephenson,
entre outros. Se pudéssemos resumir o cyberpunk em uma frase, seria “Alta tecnologia, baixo custo de vida” (high tech, low life).


Arte conceitual da adaptação cinematográfica de "Neuromancer", projeto abandonado

Pimeiro livro de uma trilogia (composta pelas sequências Count Zero e Mona lisa Overdrive), em Neuromancer, acompanhamos o anti-herói Case, um ex-cowboy (cowboy=hacker) impossibilitado de exercer seu ofício, envenenado por seus patrões após uma tentativa malfadada de roubá-los. Case foi envenenado com uma micotoxina, que danificou seu sistema nervoso central e o impossibilitou de conectar-se à Matrix, a alucinação virtual coletiva gerada por computador, onde cowboys saqueiam sistemas de informação de empresas e bancos, atrás de lucro e fama.


Capa de uma edição americana de Neuromancer
Seus antigos chefes o deixam escapar com o dinheiro roubado, pois sabiam que Case o gastaria completamente, sem conseguir se curar. Desde então, Case passa seus dias em Chiba City, consumindo drogas, financeiramente quebrado, praticando crimes e trapaças para sustentar seus vícios, em uma espiral descendente previsível, que mais cedo ou mais tarde o levaria à morte, e é nessa condição que Molly o encontra e a trama se inicia, com uma cura para os danos de Case em vista.
Molly Millions, uma samurai urbana com implantes de lâminas sob as unhas, é contratada por Armitage, um veterano de guerra, para auxiliá-lo em uma missão: formar uma equipe que consiga realizar um serviço de infiltração e roubo de um item misterioso em Villa Straylight, onde residem os Tessier-Ashpool, um clã tecnológico fundador da megacorporação homônima. Um detalhe: Villa Straylight encontra-se na parte mais protegida de Freeside, uma estação espacial orbitando ao redor da Terra. Com a adição de Peter Riviera, um junkie psicótico com implantes holográficos que podem projetar qualquer imagem em três dimensões, que ele utiliza tanto para performances artísticas como para táticas diversivas, e um construto simulando a personalidade e perícia do falecido Pauley McCoy, vulgo Dixie Flatline, antigo mentor de Case, um lendário cowboy que o ensinou os truques da profissão, e que agora não é mais do que uma ROM confinada em um cartucho.
Dixie Flatline, um "personagem" que só existe
dentro de um cartucho. Simulacros,
construtos de memória...
Um fantasma na máquina.
Equipe completa, partem rumo a Freeside para completar sua missão, mas nada é tão simples quanto parece e forças ocultas podem pôr tudo a perder.

Case e Molly, arte de Juan "Metabarões" Gimenez

Talvez a melhor parte da experiência de ler Neuromancer, apesar seus 32 aninhos de idade seja essa sensação de estranhamento e familiaridade que sentimos simultaneamente enquanto passeamos por suas páginas. Temas como interações via realidade virtual, drones assassinos, ataques de hackers, inteligências artificiais, modificações prostéticas, implantes cibernéticos, interação entre homem e máquina, subculturas desconhecidas da grande massa, grandes corporações e sindicatos criminosos exercendo poder acima do estado.... ou sejE, nem dá mais pra considerar “Neuromancer” uma ficção especulativa, pelo contrário: o lixo, as ruas sujas, tecnologia descartada por todos os cantos, máquinas obsoletas, cabos de fibra ótica pelo chão, os restos que a sociedade de consumo descarta, ansiosa pela próxima novidade a ser adquirida, caos social, o meio ambiente à beira de um colapso... são muitos os elementos abordados na trama que já são parte integrante de nosso quotidiano.
Ou será que uma cena como pessoas andando apressadas de lá para cá, em uma metrópole suja e perigosa, com seus dispositivos modernos de comunicação, conectadas com o mundo, mas ignorando moradores de rua dormindo na calçada” é algo distante demais, pertencente exclusivamente ao gênero cyberpunk da ficção? Isso me remete a um diálogo que li em “Os invisíveis”: “O futuro constantemente manda fragmentos seus ao passado, infiltrando-se em nosso presente. Logo não saberemos mais o que é passado, presente e futuro.” A tecnologia que Gibson nos oferece nas suas descrições é deliciosamente low-tech em relação à nosso momento atual, com algumas exceções, como por exemplo os implantes holográficos de Peter Riviera e o próprio Wintermute, a inteligência artificial, autônoma até um certo ponto (mas ei, não somos todos autônomos até um certo limite? ;>).
Essa tecnologia que Gibson nos apresenta em Neuromancer é puro retrofuturismo: ambientada em um futuro possível, porém tão anacrônica e até obsoleta em alguns aspectos em relação a nosso estágio tecnológico atual, como podemos ver em alguns momentos, por exemplo, no uso de fitas cassete para armazenamento de dados, ou um ou outro dispositivo descrito ao longo do livro.


Cena de "Johnny Mnemonic"

Tão rico, cheio de detalhes – e até flertes com o surrealismo em sua prosa! - e desorientador quanto caminhar nas ruas de Night City, Chiba City, Istambul e outros cenários do próprio livro, alguns leitores reclamam que a narrativa é confusa demais em certas partes.
Sim, pode ser uma leitura bem intensa e caótica, e tenho certeza que essa era justamente a intenção de Gibson, quando ele nos leva por passagens que transitam da Matrix para o mundo real, para logo em seguida cairmos de pára quedas em uma vivência de SimStim (Simulated Stimuli = Estímulos Simulados), um dispositivo que Case utiliza que o permite ver e sentir em tempo real as ações de outra pessoa, numa espécie de link telepático criado por tecnologia, tudo separado apenas por parágrafos diferentes, sem maiores explicações.

Minha primeira leitura do livro foi marcada por essa confusão e desorientação, mas
estejam avisados: esse é o ritmo de Neuromancer em sua quase totalidade, e talvez uma segunda leitura, ou uma leitura beeeeem lenta e atenta aos detalhes, sem pressa de virar a próxima página seja o ideal para o aproveitamento máximo da história sem perder o fio da meada apenas porque em algum momento da história, do nada, Case “flipa” da Matrix para o dispositivo de SimStim compartilhado com Molly, alterando bruscamente o cenário e o ponto de vista da história, enxergando pelos olhos dela, como num game em primeira pessoa. Isso é parte da experiência anfetamínica que é ler esse clássico da literatura cyberpunk!

"Johnny Mnemonic", de 1995
reproduz com perfeição a estética Cyberpunk.
Não, eu não disse que o filme é ótimo, eu só disse que
reproduz com perfeição a estética do Cyberpunk.

A edição de aniversário de 30 anos de Neuromancer, publicada pela editora Aleph inclui três contos de Gibson, publicados pouco antes de Neuromancer, no início da década de 80. São eles: Johnny Mnemonic (primeira aparição da “samurai das ruas”, Molly Millions), “Hotel New Rose” e “Queimando Cromo”. O livro também traz uma longa entrevista concedida pelo escritor em 1986, onde ele detalha a concepção de “Neuromancer”. Em 2016 a Aleph reeditou “Neuromancer”, desta vez com uma capa magnífica de Josan Gonzalez, um artista em sintonia perfeita com o espírito cyberpunk da obra. Porém esta edição não possui os extras da edição anterior, somente a história principal, um posfácio de Adriana Amaral, jornalista e conselheira científica da ABRCiber - Associação Brasileira dos Pesquisadores em Cibercultura, onde comenta a potência do imaginário de “Neuromancer” nas origens da cibercultura, e um pequeno glossário ao final do livro.


Se isso não remete a Cyberpunk,
experimente escutar vendo as imagens do post rs


De qualquer forma, essa é a chance de se expurgar do pecado que é não ter lido "Neuromancer" e conhecer uma ótima história, onde a leitura vai forçar links em sua cabeça o tempo todo, ecos de familiaridade, "vi coisa parecida em algum filme...". Talvez você até lembre dos nomes na referência cruzada... talvez até dê pra fazer uma lista! "Matrix", "Elysium", "A Origem", "Blade Runner", "Estranhos Prazeres", "Freejack"...

Você conhece uma vida inteira de derivados, alguns bons, outros nem tanto.

É hora de acessar a fonte.









Indicações da Zona: Cyberpunk

  • Literatura:
Além das continuações de “Neuromancer, que são “Count Zero” e “Mona Lisa Overdrive”, podemos encontrar algumas obras desse gênero traduzidos em português, como “Snow Crash”, de Neal Stephenson, e alguns livros de Philip K. Dick, como “Andróides sonham com ovelhas elétricas?” e “Fluam minhas lágrimas, disse o policial. Como exemplares da literatura cyberpunk nacional, temos o "Piritas Siderais", de Guilherme Kujawski, e "Santa Clara Poltergeist", de Fausto Fawcett (pois é, aquele mesmo!).




  • Cinema:
No cinema, além dos onipresentes “Matrix” e “Blade Runner”, podemos indicar também “Johnny Mnemonic”, “964 Pinocchio”, “Rubber’s Lover”, “Electric Dragon 80000v” e o sensacional "Tetsuo, the Iron Man".


  • Mangá/anime:
Em mangá/anime, ótimos exemplares de cyberpunk: “Ghost in the Shell”, "Biomega", "Battle Angel Alita" e “Akira” (Que resenhamos AQUI!!!).


  • HQs:
"Transmetropolitan", "Ronin", "100%" (Vertigo), "Hard Boiled", "Tank Girl".

terça-feira, 1 de novembro de 2016

O HOMEM QUE CAIU NA TERRA



RICARDO CAVALCANTI


     Estamos acostumados a ter contato com alienígenas na ficção. Os transmorfos, como o de "O Enigma do Outro Mundo", de John Carpenter, ou os de "Invasores de Corpos", de 1978 de Philip Kaufman (refilmagem de "Vampiros de Almas", de 1956); os superinteligentes, como o Brainiac da DC Comics, ou alienígenas preocupados com a preservação da Natureza, como o Klaatu de "O Dia em que a Terra Parou" (1951 e 2008) ou, o melhor de TODOSTODOSTODOS: o inimigo do Spectreman, Dr. Gori (o pai da neurolinguística).

Meu objetivo é a conquista!!!!!

    Neste ano, a Darkside Books lançou "O Homem que Caiu na Terra", de Walter Tevis, publicado originalmente em 1963, e que foi adaptado para o cinema em 1976, tendo no papel do "imigrante" do planeta Anthea, uma figura tão singular quanto o personagem do livro. Mas hoje não iremos tratar das similaridades e diferenças entre as duas obras. Só vamos aproveitar as imagens do filme, descaradamente, para ilustrar este post.

Quem consegue identificar quem é o David Bowie nessa foto?
Errou quem respondeu. São dois alienígenas.
 
    
    Na obra, temos o alienígena chamado David Bowie, digo, Thomas Jerome Newton, que chega à Terra para cumprir uma missão. Um ser do planeta Anthea, meio sem jeito, tentando agir com naturalidade como um homem qualquer. Era fisicamente um homem, mas não um humano. Usou sua superioridade mental para desenvolver inovações tecnológicas (que estavam muito avançadas para a época) e gerar riqueza o mais rápido possível. Afinal de contas, sua missão deveria ser cumprida em um prazo de cinco anos e envolvia dinheiro, MUITO dinheiro. Para isso, acabou se tornando um acumulador de capital, explorando a mão de obra operária, oprimindo os trabalhadoresnbgzjgfanysuiyf8zzmnnvmbkmjh jghagk ajyrt viva la revolucion kixfnurgknz qafdhjdhj hdlkhfkdycnqwey hrajhalshdfjnmb......


    Me desculpem, pessoal. Um comunista invadiu os escritórios da Zona Negativa, mas ele já foi devidamente deportado para Cuba. Voltamos com nossa programação normal...

    Seu plano não envolvia terraformar o planeta, ou uma invasão de seres que iriam nos dominar e escravizar. Pelo menos não de forma declarada. Envolto ao mistério do que Thomas Jerome Newton realmente estava desenvolvendo com toda aquela tecnologia, vamos percebendo o quanto o nativo do planeta Anthea vai se familiarizando e incorporando cada vez mais os hábitos e os costumes terrestres, se tornando mais humano que humano, demasiado humano.
Obs.: Eu sei, essa comparação não tem sentido nenhum. Foi só para fazer uma simbiose com Nietzsche e Rob Zombie...rs


Trailer de "The man who fell to earth" (1976)

    Aos poucos nosso personagem vai experimentando uma realidade bastante presente na vida de muitos humanos: a depressão. Esse sentimento que pode fazer definhar uma mente brilhante, macular um coração puro e destruir sonhos e esperanças, toma conta do personagem, que encontra companhia na bebida e na solidão.

    Assim como alguém que comete um crime perfeito, Newton sente a necessidade de dizer quem ele é e o que veio fazer aqui. Com isso, temos a confirmação de que a história não trata de seres espaciais, civilizações alienígenas ou viagens interplanetárias. Trata-se na verdade, de um indivíduo questionando sua vida e sua existência. Seus questionamentos e dúvidas começam a consumir suas convicções. Quando se passa tanto tempo sem ser quem realmente é, quem você se torna? Consegue ainda se reconhecer no espelho? 


Polêmica!!

   O livro traz ainda questionamentos e observações interessantes:

“A humanidade não pode ter direito de escolher a sua própria forma de destruição?”

   Ou um retrato de uma sociedade idêntica a nossa:

“...Com exceção de Farnsworth, que pertencia a outra classe ainda mais rara, que era dos ricos de verdade, todos os homens que Newton conhecera eram desta classe média. Todos eram muito parecidos e, se você os pegasse de surpresa antes do aperto de mão amigável ou da máscara habitual de presunção e charme jovial, tinham um ar meio abatido, um pouco perdido.”


    A história se desenvolve de maneira fluida e em nenhum momento se torna cansativa ou monótona. As suas 224 páginas facilitam essa dinâmica.

    No fim das contas, a minha sensação é de que existia muita coisa que poderia ser mais explorada no livro. Mas como fui com a expectativa muito alta (ou muito errada), acabei não me empolgando muito com o desfecho da história. Mas isso não significa que seja uma perda de tempo ou, para usar a expressão da moda, “um lixo”. Longe disso!

    Mas como diz o ditado: “você só se decepciona se cria expectativas”.

   Talvez, se você olhar com atenção, esse Antheano pode fazer mais parte da sua vida que você possa imaginar...