Mostrando postagens com marcador Boitempo Editorial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Boitempo Editorial. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ESTAÇÃO PERDIDO, de China Miéville, ou “Nova Crobuzon é aqui!”









Por RICARDO CAVALCANTI





Sabe aquela sensação de descobrir algo e sentir vontade de contar para todo mundo? Pois é, isso me aconteceu quando “descobri” China Miéville. Ao ouvir falar sobre o autor, logo me interessei em procurar sua obra e ver se era realmente tudo o que disseram e quais os motivos para ele ter se tornado um nome referência no chamado New Weird. Após a leitura e resenha de A Cidade e a Cidade, resolvi encarar o livro que é considerado pelo público e pela crítica, a obra prima de China Miéville: Estação Perdido. Trazida pela Boitempo Editorial, foi lançada originalmente em 2000 (quando Miéville tinha apenas vinte e oito anos), sendo o primeiro de uma trilogia, que incluem ainda A Cicatriz e O Conselho de Ferro, que serão lançados também pela Boitempo. A obra fez um grande sucesso e conseguiu atrair a atenção para este - até então - iniciante autor
 



Esbanjando uma qualidade na escrita digna de grandes autores, Miéville constrói um mundo com tons de fantasia, steampunk, ficção científica e com boas doses de grotesco e bizarro. Ou seja: o gênero New Weird em sua essência. Numa cidade em que um prefeito que não tem escrúpulos de fazer acordos com quem quer que seja, máfias agindo impunemente e milícias que “mantêm a ordem”, ao mesmo tempo em que trabalhadores fazem uma greve para reivindicar melhores condições de trabalho e recebem em troca toda a força de repressão estatal. Até aí, nada de incomum. Agora parta do ponto em que tudo isso se passe no planeta Bas-Lag, numa cidade chamada Nova Crobuzon, repleta de doenças e parasitas, com humanos convivendo com homens-pássaro, insetos humanóides, homens-cacto, aranhas gigantes, pessoas punidas com implantes de objetos inanimados em seus corpos, imigrantes alienígenas sofrendo discriminação (no melhor estilo Distrito 9), um autômato que passa a ter consciência, uma mariposa sugadora de mentes, e tudo isso no meio de um ambiente urbano, sujo, repleto de problemas e com uma nova droga de origem desconhecida
 








A história começa com Yagareck, um Garuda, que é um ser meio homem e meio pássaro, chegando na cidade de Nova Crobuzon. Enquanto entra na cidade, vai mostrando todo asco que sente por aquele local deplorável. Apesar de toda repugnância que sente, sua chegada tem um propósito: encontrar o cientista Isaac Dan der Grimnebulin, que é um cientista que mantém pesquisas, no mínimo, incomuns. Isaac mantém um romance secreto com Lin, uma artista da raça khepri em que os indivíduos do sexo feminino possuem um corpo semelhante ao de uma mulher (humana) e uma cabeça insetóide. Lin se comunica com Isaac através de sinais
 




Isaac era conhecido como “...o cientista pária, o pensador de má reputação que havia abandonado um cargo lucrativo de professor, para realizar experiências ofensivas demais e brilhantes demais para as mentes medíocres que dirigiam a universidade.” Ygareck acredita que Isaac seria capaz de fazê-lo voltar a voar - após ter tido suas asas arrancadas por conta de uma condenação em um julgamento. Isaac encara a proposta do garuda como um grande desafio e busca ampliar os seus conhecimentos sobre as possíveis formas de fazer Yagareck voar
 



A história vai ganhando uma crescente e os problemas vão tomando proporções cada vez maiores. China consegue nos guiar por Nova Crobuzon mostrando o ponto de vista de cada um dos seres que existem nessa caótica cidade. Logo em seu segundo livro, Miéville resolveu demonstrar toda sua capacidade de escrita, nos presenteando com um bombardeio descritivo, que nos coloca no meio da trama como se estivéssemos lá, sentindo os cheiros dos esgotos, o vento frio na pele, o gosto do ar, os odores misturados com lodo, fumaça, urina... Ao fim da jornada, nenhum personagem está da mesma maneira que começou. Todos sofrem algum tipo de transformação, seja ela física ou psicológica (ou os dois)
 

 

Estação Perdido é um grande mosaico de histórias, mesclando as vidas, realidades e vivência de cada um dos personagens. Tudo isso se dá de uma maneira extremamente prazerosa. A sensação de ler é como a de pegar a estrada e fazer uma longa viagem em cima de uma moto. Você quer chegar ao seu destino mas, ao mesmo tempo, quer continuar aproveitando cada momento da viagem, sentindo cada cheiro e percebendo cada detalhe. Quem já teve a oportunidade de fazer isso sabe o prazer que é. Se você não está tão familiarizado com esta sensação, então deixo um pequeno trecho (texto completo aqui) do comentário do cantor, escritor, músico e poeta Fausto Fawcett sobre a obra. 

Não é um livro, é um Exu das Mestiçagens Vorazes, das encruzilhadas orgânicas, animalescas, espirituais, mentais e mecânicas, maquínicas, encarnado num objeto literário prestes a se transformar em viral perturbador. É um mergulho na promiscuidade das três instâncias que determinam a vida humana e que, na visão de China Miéville, respondem pelos nomes de mundo oculto/taumatúrgico, mundo material e mundo social/sapiencial. Mundos espirituais se entremeando com mundos humanos cheios de integração/desintegração social e de psicologia em ruínas se entrelaçando, por sua vez, com criaturas que são mosaicos de vísceras, montagens orgânicas, anatomias cubistas inoculadas com alguma inteligência artificial, mas todos se comunicando, se fundindo, se fodendo num interminável e intenso cruzamento de tecnologias antigas e recentes, e tudo é gambiarra prodigiosa movida a vapor, com fiações desencapadas, gatilhos e disjuntores criando seres transpassados prosaicamente por raciocínios humanos, dimensões sobrenaturais e frequências invisíveis. Taumatúrgons, autoconsciência, elétrons e demônios. O básico.



Parece uma loucura delirante, um devaneio insano de Fausto Fawcett? Ok, entendo que ele pode ser enérgico demais para os que chegam desavisados. Mas e se eu te falasse que o que ele disse é exatamente o que se encontra no livro? Para melhor sintetizar então, ninguém melhor que o escritor “gente boa”, amigão da vizinhança e amado por milhões de leitores pelo mundo, Neil Gaiman:


Com seu novo romance, o colossal, intricado e visceral Estação Perdido, Miéville se desloca sem esforço entre aqueles que usam as ferramentas e armas do fantástico para definir e criar a ficção do século que está por vir


Assim como em A Cidade e a Cidade, mais uma vez a edição merece um destaque pela excelente tradução. Desta vez, ficou a cargo de José Baltazar Pereira Júnior (que também traduziu Tempos Difíceis de Charles Dickens para a Boitempo). Pela forma com que Miéville escreve, o tradutor poderia cair facilmente em uma armadilha e acabar descaracterizando a obra ou simplificando a forma de escrita do autor (perdendo com isso a grande força do texto), ou aproveitando a obra para esbanjar todo seu virtuosismo na tradução (tentando aparecer mais que o próprio autor e correndo o risco de tornar a leitura maçante e cansativa). Mas esse não foi o caso José Baltazar Pereira Júnior, que nos trouxe uma tradução excelente, digna da obra.




A arte da capa ficou por conta de Fábio Cobiaco (que também ilustrou a capa de A Cidade e a Cidade). Ilustrador vencedor do Prêmio Jabuti por sua arte na obra de ficção científica V.I.S.H.N.U., que saiu pela pela Cia. dos Quadrinhos e mais recentemente Mayo, pela Editora Mino, Cobiaco conseguiu dar uma interessante identidade visual de forma que, mesmo sendo diferente, é possível identificar que os dois livros possuem alguma ligação (A Cidade e a Cidade e Estação Perdido).





É um livro excelente, e quando termina a gente se sente um pouco órfão, tendo que abandonar aquela cidade e seus personagens. Só espero que A Cicatriz, o segundo livro da trilogia que se passa no mundo Bas-Lag, não demore muito para sair. Mesmo sem eu nunca ter me interessado muito por histórias com alguma ligação com o gênero Fantasia, sabia que era apenas um dos elementos utilizados na obra. Não é de se admirar que essa grande mistura do que é o chamado New Weird ganhou na Inglaterra um solo fértil para se expandir e disseminar pelo mundo esse novo gênero. A terra da Rainha sempre é o catalisador de significativas transformações no campo das artes nessas últimas décadas, revelando grande nomes na literatura como George Orwell, Anthony Burgess, Neil Gaiman, J.R.R. Tolkien, Alan Moore, etc. Se resolvermos falar de música então.... Beatles, Rolling Stones, Queen, Led Zeppelin, Sex Pistols, todo o movimento Punk, Spice Girls…não, espera!! Essa última saiu errado...rs.



domingo, 7 de maio de 2017

A CIDADE E A CIDADE, de China Miéville, ou "Ficção para Enxergar a Realidade Dentro da Realidade"



Por RICARDO CAVALCANTI

 O inglês China Miéville é um dos autores mais badalados do chamado “New Weird” (gênero que está dando uma nova roupagem à “ficção do estranho” ou “ficção do bizarro” desenvolvido por autores como H. P.Lovecraft) e que vem ganhando cada vez mais espaço na ficção científica e fantasia. Apesar de sua aparência ameaçadora, lembrando muito os Hooligans ingleses, ou um Skinhead mais radical, esse escritor prova que nada tem a ver com impressão que se tem à primeira vista, e que a imagem que passa não está nem um pouco ligada à sua personalidade. Miéville é formado em Antropologia Social pela Universidade de Cambridge, com Mestrado e Doutorado em Filosofia do Direito Internacional pela London School of Economics, professor da Universidade de Warwick, além de um ativo militante de esquerda e marxista de carteirinha (para alguns, isso pode soar como um crime).

O autor já teve seu romance “Rei Rato” lançado por aqui pela Tarja Editorial, mas infelizmente está esgotado e, quem tem não se desfaz. Agora temos seu premiado romance “A Cidade e a Cidade” chegando através da Boitempo Editorial, que vai publicar todos os seus livros no Brasil (não existe editora que se encaixe melhor no perfil do autor, que a Boitempo). A obra foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Nébula Award, Arthur C. Clarke Award, Hugo Award (o mais importante do gênero) e World Fantasy Award, só para citar alguns.
O troféu da World Fantasy Award é a reprodução da imagem do nosso amigo H. P. Lovecraft
Todo escritor inglês que se preze, precisava dar uma passadinha na Vertigo para dar a sua contribuição na revista Hellblazer. Com ele não foi diferente. Na edição 250, Miéville escreve a história “O Cair da Neve”, que saiu por aqui na Vertigo #43, lançado pela Panini em junho de 2013. Para a DC Comics, trouxe sua leitura para o mundo dos Novos 52 de “Dial H for Hero” (cultuada HQ dos anos 60), chamada apenas de Dial H. A sinopse já alimenta a nossa curiosidade.O que aconteceria se você descobrisse um poderoso artefato que o transformasse em um super-herói? E se esse dispositivo ameaçasse o mundo inteiro? As capas parecem uma mistura de Homem Animal e Patrulha do Destino do Grant Morrison. Lá fora, chegou a sair uma edição de luxo de 368 páginas com toda a elogiada fase do autor. Ainda nos Novos 52, escreveu um dos episódios de Vilania Eterna, na Revista da Liga da Justiça edição #23.3.



Falar sobre A Cidade e a Cidade não é uma tarefa das mais simples. Como falar sobre uma história em que, qualquer coisa a ser dita, pode acabar se revelando pontos importantes da trama? A própria sinopse da editora, já nos deixa no limite do que deve ser dito. Mas o que podemos dizer sem que isso diminua seu impacto, é que se trata de um romance policial no estilo Noir, que a princípio parece mais uma simples história sobre investigações de um assassinato. A história é narrada pelo investigador Tyador Borlú, detetive da cidade-Estado chamada Besźel, que se depara com o corpo de uma mulher não identificada. Nada de extraordinário em mais um dia de trabalho policial.

Borlú acaba tendo que continuar a investigação e, aos poucos, percebe que muitas pessoas poderiam ter motivação para desejar a morte dela. Algumas pistas começam a surgir e que são um pouco fora do normal. O corpo da mulher foi encontrado em uma cidade, mas ao que tudo indica, o crime aconteceu em outra cidade-Estado, Ul Qoma. A princípio, podemos imaginar que aconteceu algo como a “malandragem” brasileira mostrada no filme Tropa de Elite 2, em que o batalhão da Maré 2 joga o corpo na área de Maré 1 para diminuir seu índice de criminalidade, e vice-versa. Mas as coisas são um pouquinho mais complexas que isso.

São duas cidades muito distantes e muito próximas ao mesmo tempo. Cada uma com sua própria língua, com sua própria moeda, seus próprios costumes, diferentes aeroportos, códigos de discagem internacionais. Tudo completamente diferente e funcionando de forma independente. O que acontece em uma cidade, obviamente não é visto pela outra. Elas não fazem fronteira uma com a outra, mas possuem algo que as liga e conecta. O que ambas têm em comum, além de estarem em um país fictício do Leste Europeu, é apenas um pequeno detalhe: As duas estão no mesmo lugar, ocupando o mesmo espaço físico. As ruas, as praças, os prédios. Os carros andam pelas ruas, desviando dos veículos da outra cidade. Os pedestres fazem o mesmo com os habitantes da outra cidade.


Não se trata de realidade paralela. As duas sabem da existência uma da outra. No entanto, ir de uma cidade para outra, trafegando entre seus limites, não é tão fácil como se possa imaginar. Você me pergunta: “já que as duas cidades estão no mesmo lugar, como elas não vêem a outra cidade?” Bom.. Nesse caso, parte da experiência da leitura está em ir descobrindo com o desenrolar da trama, o funcionamento, a relação e a dinâmica entre as duas cidades e seus habitantes; e como tudo vai fazendo certo sentido, na medida em que a história vai se desenvolvendo.

Com uma excelente narrativa recheada de intrigas, suspense e conspiração, China Miéville ultrapassa as fronteiras de realidades na forma de um romance policial que toma dimensões extraordinárias, construindo uma excelente metáfora para o que acontece no dia a dia em nossas cidades. Mostrando na história (assim como na vida real) que existe um muro invisível e intransponível, separando cidades dentro da cidade; um muro que segrega, afasta e exclui. Não se trata de um proselitismo tendencioso, nem uma doutrinação panfletária. Usar alegorias para apontar as nossas dissonâncias sociais ou fazer uma crítica às desigualdades produzidas a partir de nossa interação com a sociedade é bastante comum na ficção. A sutileza do texto flui de forma orgânica, além de tornar a leitura extremamente prazerosa (seja lá qual for a ideologia política de quem lê). Caso suas convicções destoem da ideologia do autor, não se deixe privar de ter uma experiência em conhecer sua obra. A não ser que prefira passar o seu tempo batendo palma para a notícia de que "recessão e desemprego aumentam o poder de compra", ou ficar fazendo blitz em escolas municipais, para que não seja propagada outra ideologia que não seja a sua.

“A Cidade e a Cidade” pode ser lido com várias perspectivas diferentes. Você pode simplesmente encarar como uma diferente história policial - com todos os elementos necessários para agradar aos amantes do gênero; pode ser lido como um ponto de reflexão social - considerando de que na história, não é nada tão fantasioso quanto parece; Ou você pode usar como um ponto de entrada para as obras do autor. A "BBC Two" anunciou a adaptação do romance para a TV, tendo o ator David Morrissey interpretando Tyador Borlú. O ator interpretou o Governador em The Walking Dead.

Um importante ponto que deve ser destacado, é a fato de a Boitempo ter escolhido o "quase onipresente" Fábio Fernades como o responsável pela tradução desta obra. Especialista em ficção científica, traduziu grande parte das maiores obras do gênero, como Laranja Mecânica, Neuromancer, 2001 - Uma Odisseia no espaço, a Trilogia Fundação, O Homem do Castelo Alto. Só para citar alguns. 

Agora retire a venda dos olhos, saia da cidade e entre na cidade e veja a cidade dentro da cidade, dentro da cidade, dentro da cidade...