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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

ESPÍRITOS DOS MORTOS, de Edgar Allan Poe + Richard Corben, ou "Dois mestres, um só horror atemporal!"






Por EDUARDO CRUZ



Edgar Allan Poe.


Esse cidadão dispensa apresentações. O escritor que inventou o formato dos contos como os conhecemos agora, autor de clássicos como Os Assassinatos da Rua Morgue, O Barril de Amontillado, O Coração Delator, O Gato Preto, O Poço e o Pêndulo, e do poema O Corvo. Um dos maiores escritores de prosa curta de todos os tempos. Um expoente do horror, inspiração de gente como H. P. Lovecraft. Referência da literatura universal. 

Richard Corben.
Falar desse aqui também é chover no molhado. Outro mestre. Um artista que ajudou a dar um rumo e uma cara para a revista Heavy Metal, referencial em quadrinhos de ficção científica e fantasia há mais de 40 anos, além de ter trabalhado nas revistas Creepy e da Eerie, duas das mais famosas HQs de horror de todos os tempos. Ganhou tantos prêmios ao longo de sua carreira que deve usá-los como peso de papel, encosto de porta, etc. Dono de um traço ÚNICO, que como eu já disse aqui nesse post, com ele é "Ame-o ou odeie-o!".



Corben, ao que parece, tem uma obsessão com a obra de Poe (quem nunca?), tendo adaptado vários contos de seu ídolo em diversos momentos de sua carreira, espalhados por várias editoras. Por fim a editora Dark Horse - a casa do Hellboy - publicou uma coletânea com alguns destes contos em 2014, essa mesma que a Editora Mino lança aqui no Brasil. Espíritos dos Mortos tem 216 páginas, capa dura, papel couché e traz 14 adaptações de contos e poemas de Poe por Corben, com a temática central de Edgar Allan Poe: Morte, loucura, miséria e perda. Existem sim, licenças e modificações, todas muito pontuais e compreensíveis. Afinal, na transposição de mídias, da prosa para a história em quadrinhos, adaptações se fazem necessárias. Mas nada que manche o legado de Poe. Corben fez tudo com muito afinco, e acima de tudo, respeito. Quer dizer, exceto pelo fato de haver uma cota de mulher pelada que não era comum nas histórias do Poe, mas isso fica por conta desse "vício" do Corben hahahahahah.




 Ainda em relação à arte, percebe-se a progressão do trabalho de Corben. As histórias mais recentes têm uma arte mais polida, detalhada e com cores mais apuradas, o que só ajudou a ressaltar o trabalho de Poe, como se em algum momento Corben tivesse relaxado e se soltado, e isso fez tudo fluir muito melhor.



Essa edição ainda conta com uma galeria de capas originais e um prefácio assinado por M. Thomas Inge, uma autoridade na obra de Edgar Allan Poe e em Graphic Novels, onde ele discorre um pouco a respeito das adaptações de contos de Edgar Allan Poe para os quadrinhos nas últimas décadas. 







Um puta gibizaço, com todo o acabamento luxuoso que uma obra desse calibre merece, com dois artistas dessa magnitude, trabalhando em colaboração, mesmo que separados por mais de um século. Uma coletânea que agrada tanto os fãs de Poe quanto os fãs de Corben. Não é difícil entender o por quê de eu dizer com 500% de certeza que Espíritos dos Mortos foi um dos melhores lançamentos em terras tupiniquins no ano de 2017 tão logo eu tirei a HQ do plástico. Entrou fácil no meu top 10 de 2017. Façam um favor a vocês mesmos e incluam Espíritos dos Mortos nos seus top 10 de 2018, se vocês deixaram esse passar...




terça-feira, 26 de dezembro de 2017

OS PRÓPRIOS DEUSES, de Isaac Asimov, ou "A humanidade estaria mais segura sem a presença do homem"


  Por RICARDO CAVALCANTI

 

A humanidade necessita de novas fontes de energia. Hoje dependemos muito do petróleo e seus derivados, que nada mais é que um recurso limitado de energia e que é consumida em escala cada vez maior. Responsável por guerras, golpes, assassinatos, disputas políticas e econômicas, o “ouro negro” é fonte de imensurável riqueza para um grupo muito restrito. A melhor solução é buscar outras fontes de energia, de preferência, renováveis. No último século, buscaram-se novas fontes de energia que pudessem ser usadas em grande escala. Energia eólica, solar, hidrelétrica e biomassa, por exemplo, não são capazes de substituir o petróleo. A energia nuclear poderia assumir esse papel, mas sabemos que costuma causar sérios problemas. Pegando como base a questão energética que é um tema tão preocupante para a humanidade, Isaac Asimov nos traz o que é considerado um dos clássicos do autor: Os Próprios Deuses. Lançado originalmente em 1972, foi o vencedor do prêmio Nebula daquele ano e do Hugo Award no ano seguinte. De toda obra do Bom Doutor, este é um dos livros em que o sexo está mais presente. 

 

 

Antes da edição lançada pela Aleph, Os Próprios Deuses já havia sido lançado por aqui anteriormente com o nome de “O Despertar dos Deuses”, e sai agora com o seu título traduzido literalmente (The Gods Themselves). Este título se origina de uma frase do alemão Friedrich Von Schiller “Contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” em sua obra A Donzela de Orleans, que trazia uma diferente versão para a vida e morte de Joana d’Arc (Donzela de Orleans, ou Virgem de Orleans também são formas de se referir à heroína e mártir francesa). A história é dividida em três partes e cada uma recebe como título, um fragmento da expressão de Von Schiller. 

 

 

Na primeira parte, chamada de “Contra a estupidez...”, conhecemos Frederick Hallan, um físico nada excepcional, que se depara com a transmutação da matéria se transformando em energia diante de seus olhos. Por estar no local certo na hora certa, não precisou fazer nada, a não ser pegar para si a descoberta, aproveitando para ganhar fama, poder e dinheiro com a chamada Bomba de Elétrons - uma fonte de energia limpa, com custo muito baixo e que poderia suprir as necessidades da terra por centenas de anos. Benjamin Allan Denison, que trabalhava no escritório em frente, sabia das limitações de Hallan como cientista, acompanhou de perto a ascensão daquele cientista medíocre ao status de grande nome de seu tempo e ganhador do Prêmio Nobel, simplesmente por estar no lugar certo na hora certa. Peter Lamont, um até então admirador do Pai da Bomba Eletrônica, tenta provar que tal bomba pode ser muito perigosa e acaba encontrando muita resistência por parte de quem poderia fazer algo, mesmo que essas pessoas não se simpatizassem com Hallan, por conta de sua postura de arrogância e prepotência. 

 

 

Na segunda parte, chamada de “...os próprios deuses...” entendemos o motivo de este livro ser tão admirado. Com a primeira parte bastante ágil, a segunda gera certo estranhamento inicial. Mas logo esse sentimento se dissipa, ao entendermos um pouco os para-seres daquela realidade paralela. Asimov nos apresenta e desenvolve seres que são, principalmente, conceitos. Os Racionais, os Parentais, os Emocionais e os Duros são alguns dos seres que fogem do senso comum em retratar outros serem com característica humanoide. São seres que não possuem forma definida; podem transpassar a matéria e se fundir a um outro ser, por exemplo. São estes para-Seres que desenvolvem a maneira de trocar energia entre os universos. Também naquele universo, encontram um cenário parecido com o da terra. Enquanto uns se beneficiam da troca de energia entre as duas realidades, um desses seres sente o perigo dessa troca aparentemente inofensiva de energia entre as terras paralelas. A forma com que é feita a comunicação entre as terras paralelas, é praticamente uma poesia com toques de fantasia e ficção científica. 

 

Na terceira parte, estamos de volta à nossa realidade, no capítulo que recebe o nome de “...lutam em vão?”. A Lua já estava sendo colonizada, tendo pessoas que já nasceram em solo lunar e que nunca chegaram a pisar na Terra. Os Terráqueos são considerados uma civilização ultrapassada e de serem dotados de inteligência inferior. Esta nova sociedade que se firmou desenvolvendo costumes próprios foi ficando cada vez mais distante culturalmente da Terra. Benjamin Alan Denison, que foi desprezado e humilhado por Hallan, encontra na Lua uma forma de encontrar isolamento e distanciamento de tudo que havia acontecido, buscando um novo começo e encarando como uma oportunidade de esquecer tudo. Logo que chega conhece Selene, uma espécie de “garçonete-sensual-inteligente-cientista” (que parece mais uma personagem criada pela mente fantasiosa de algum adolescente, ou uma espécie de fetiche para satisfazer os sonhos secretos do próprio autor). Paralelamente, grupos clandestinos conspiradores que buscam fomentar a independência da Lua em relação à Terra (em tempos de Catalunha querendo se separar da Espanha ou sul do Brasil querendo se separar do resto do país e raciocínios sendo desenvolvidos separando argumentos de lógica, conseguimos contextualizar bem a sociedade em solo lunar). 

 

 

São três historias que se passam em momentos distintos, que se ligam pela influência de Hallan e sua Bomba Eletrônica através do tempo (e mundos), repletas de ambição, vaidade, egoísmo, arrogância e ganância, ignorando os riscos em lidar com uma energia tão poderosa. 

 

 

Asimov tratou de alguns temas em seu livro Escolha a Catástrofe (que pode ser encontrado com facilidade em qualquer sebo virtual) e entre eles, fala um pouco sobre a energia atômica. Não se trata de uma ficção, mas sim de uma reflexão sobre as várias formas com que a humanidade pode se extinguir e mostrando que algumas delas podem ser causadas pelo próprio homem. No capítulo em que ele classifica como “Catástrofes do Quinto Grau”, menciona os riscos de uma energia atômica. Mesmo o homem sabendo de todo o risco e potencial destrutivo deste tipo de energia, isso não o impediu de desafiar os limites provocando acidentes com efeitos devastadores, como em Chernobyl, o vazamento na usina de Angra e mais recentemente, em Fukushima, no Japão. Com tantas situações semelhantes, continuamos com a pergunta: “contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” 

 

Chernobyl

 



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?, de Philip K Dick, ou "Você Realmente É Quem Pensa Que É?""






Por RICARDO CAVALCANTI


Philip K. Dick é O CARA! Não é a toa que ele é um dos autores “preferidos da casa” aqui na Zona Negativa (como diria o “Reverendo” Fabio Massari, nos bons tempos da MTV). Além disso, é um dos autores de ficção científica com mais adaptações de suas obras para o cinema. Mesmo quem nunca leu nenhum de seus livros ou contos, mesmo sem saber certamente já teve contato com algumas das inúmeras produções cinematográficas que saíram das páginas e da mente criativa do autor. Duvida? O Vingador do Futuro, Minority Report, O Pagamento e O Homem Duplo são apenas alguns desses exemplos. 
 



Como se não bastasse o cinema, agora a TV está começando a descobrir que as histórias de PKD podem também ser adaptadas em formato de série. Já está na segunda temporada a série The Man in the High Castle, baseado no livro O Homem do Castelo Alto, que mostra uma realidade alternativa em que os nazistas venceram a segunda guerra mundial. Além disso, uma nova série acabou de estrear, chamada Philip K. Dick’s Eletric Dreams, em que os episódios são baseados em alguns de seus contos. Pelos primeiros episódios, a série se mostrou bastante promissora. 
 



Apesar de Philip K. Dick ser um dos nossos autores favoritos aqui no Zona Negativa, não entendo o por quê de não termos falado sobre ele ainda. Uma omissão inexplicável e imperdoável que se resolve agora trazendo um dos livros mais conhecidos do autor e que também serve muito bem como porta de entrada para esse mundo que Dick construiu. Seu livro Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? ficou famoso por ganhar uma excelente adaptação nas mãos do diretor Ridley Scott, batizada de Blade Runner – O Caçador de Andróides. Blade Runner, juntamente com 2001: Uma Odisséia no Espaço, se tornou umas das mais respeitadas obras de ficção científica da história do cinema. Assim como o livro de Arthur C. Clarke e o filme de Stanley Kubrick se fundem e se completam, o mesmo ocorre com o universo estabelecido por Philip K. Dick, que se amalgama com a visão do diretor Ridley Scott.




Em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas acompanhamos Rick Deckard, que é um caçador de recompensas que trabalha para a polícia. Seu sonho de consumo é poder comprar um animal de verdade, que lhe renderia status perante a sociedade. Sua esposa passa boa parte do tempo no emulador de emoções (seria uma forma de camuflar seu notório quadro depressivo, ou uma maneira de programar o seu “cérebro” de androide?), além de ficar boa parte do tempo assistindo Buster Gente Fina, que é uma espécie de programa de variedades em que o apresentador parece tudo, menos humano (assim como se vê em qualquer programa de auditório dominical, por exemplo ;>)). 
 



A história se situa depois da Guerra Mundial Terminus, que ninguém mais lembrava quem venceu ou quem perdeu. A Terra ficou coberta por uma poeira tóxica, fazendo com que aos poucos os animais começassem a morrer até se tornarem praticamente extintos. Marte é colonizado e a alta casta da sociedade é incentivada a migrar para colônias interplanetárias, recebendo um androide orgânico (como os modelos T-800 de O Exterminador do Futuro) como forma de incentivo e para lhes auxiliar no que for necessário. Lá, quem faz o trabalho pesado são os imigrantes ilegais, digo, os androides construídos para este fim.




Os androides não são permitidos na Terra, relegados a realizar os trabalhos a que forem designados nas colônias. Com a chegada ao mercado de um novo modelo batizado de Nexus 6, muito mais avançados tecnologicamente, a tarefa de distinguir entre humanos e robôs fica muito mais complicada, por conta de sua impressionante semelhança física com os humanos. Quando começam a tomar consciência de suas reais capacidades e a perceber e entender a realidade em que vivem, alguns fogem para a Terra a fim de viver como humanos, se beneficiando dessas características físicas. Após a fuga de alguns desses andróides, Deckard é designado para caçá-los, e é quando a história de desenrola.




Durante todo o desenrolar da narrativa, o que pulsa em nossas cabeças são questionamentos do tipo: O que diabos, exatamente, é a humanidade? Ela pode ser emulada? ser humano é nascer humano? Gostos, vontades, desejos, sonhos, ambições... Se somos a soma das coisas que vivemos e experimentamos, no que nos transformaríamos se memórias artificiais fossem implantadas em nossas mentes? Não teríamos como saber que não são lembranças verdadeiras! Você saberia afirmar com certeza absoluta que você é um ser humano, e não um androide com memórias implantadas para pensar que é um humano??? Você saberia distinguir o que é real? ou melhor, saberia definir O QUE é realidade? Esses são os questionamentos que costumam permear as histórias de Philip K. Dick e isso é justamente o que torna suas histórias tão fascinantes (e indigestas!).
 


Seria Deckard um androide tentando ser cada vez mais humano? Seria ele um humano que não tem mais certezas de sua própria humanidade? A pergunta do título, que no primeiro momento soa um pouco estranha e sem sentido, faz com que durante a leitura, criem-se mais questionamentos que respostas. Não se pode afirmar categoricamente que Deckard é um androide, nem que ele é humano. O próprio personagem não tem essa convicção. Seria a consequência de novas memórias implantadas? Seriam por conta de uma nova programação? Ou será que ele estava simplesmente esgotado demais, física e mentalmente, para não conseguir distinguir entre o que é real e o imaginário? Estaria ele, como androide, emulando o comportamento humano? Pode-se dizer que sim. Estaria ele, como humano, se aproximando mais do comportamento de um androide? Também pode-se dizer que sim! Independentemente da resposta, o que vemos é um ser com suas convicções abaladas. Seja ele humano ou androide. 
 



Para aqueles que buscam uma história cheia de tiros, explosões, com muita ação e correrias vertiginosas pelo futuro, tendo um protagonista sendo a síntese do conceito de super-herói, esse não é o livro para você. Ou melhor: talvez esse não seja o autor para você. As ações e correrias vertiginosas acontecem dentro da psique dos personagens. Philip K. Dick nos tira da nossa zona de conforto, nos entregando uma história sensacional de um homem em seu labirinto psicológico e sua fuga constante para evitar conseguir descobrir quem é (ou o que é).




Este é o tipo de livro que cresce a cada leitura. Cada vez você volta àquele cenário, pode perceber mais sutilezas e nuances do texto, te fazendo imergir cada vez mais naquele ambiente e, consequentemente, na mente do autor. Questões filosóficas, ideologias religiosas, desejo por uma ascensão social, inconformismo com situação degradante que lhe é imposta, a busca por uma nova vida em um outro lugar são algumas das questões fazem pano de fundo para a história. Talvez a única coisa que possa ser considerada essencialmente errada na obra (não por culpa de PKD), é que Deckard identifica quem é e quem não é humano através da capacidade de mostrar empatia. Hoje está cada vez mais claro que conseguimos identificar o humano através do ódio. Afinal, o ser humano é o único animal capaz de odiar. O ódio que segrega e agride covardemente é o mesmo que une alguns grupos, como vimos em Charlottesville ou na reação a qualquer postagem no Facebook relacionada a questões de direitos humanos, por exemplo. Mas isso não é discussão para o momento.



Para comemorar os 50 anos do lançamento de uma das obras mais icônicas de Philip K Dick, a Editora Aleph resolveu dar um tratamento caprichado nesta nova edição. Com acabamento em capa dura, com uma bela sobrecapa envernizada e recheado de extras e ilustrações de diversos artistas (como Dave Mckean, Elena Gumeniuk, Bianca Pinheiro, Danilo Beyruth e Gustavo Duarte, por exemplo), além de um texto analisando os vários cenários pós-apocalípticos criados por PKD. Certamente vai fazer a alegria dos admiradores do autor e vai servir como um ótimo cartão de visita para os que ainda não o conhecem. 
 



Neste ano se comemoram também os 35 anos do lançamento da adaptação cinematográfica e por conta disso, foi lançada a continuação da história do filme de 1982. Confesso que encarei com muito ceticismo essa ideia. Mas felizmente acabou se mostrando um ponto fora da curva, revelando uma obra como se vê pouco hoje em dia. Além de possuir uma fotografia de encher os olhos, o filme é cheio de sutilezas e chega a tocar temas delicados, como escravidão e trabalho infantil. O que se pode dizer é que o filme é no mínimo corajoso, por escapar da armadilha de tornar a continuação uma franquia seguindo uma fórmula de fácil assimilação pelo grande público. Assim como o filme anterior, Blade Runner 2049 não foi bem nas bilheterias. O que não é nenhum demérito, pois o melhor filme de 2015, Mad Max: Estrada da Fúria, também foi um fiasco nas bilheterias, principalmente se compararmos com o seu custo. Mas como diria Marty McFly: “Acho que vocês ainda não estão preparados para isso, mas seus filhos vão adorar!






Agora corra para contemplar os Rios-C cintilando na escuridão junto ao Portal de Tannhauser, antes que tudo se perca no tempo, como lágrimas na chuva. 


 



terça-feira, 19 de setembro de 2017

UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA de Robert A Heinlein, ou "Faça Amor, Não Faça Guerra"






Por RICARDO CAVALCANTI





Há muitos anos venho ouvindo falar do livro Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein, que havia ajudado a pavimentar o caminho para o movimento da contracultura que permeou boa parte dos anos 1960/70 e se transformou na marca daquela época. No entanto, a possibilidade de um relançamento por aqui era bastante remota. A última edição havia sido a de 1992 pela editora Record, sendo possível encontrar somente em sebos e em estado de conservação nem sempre muito animador. Felizmente estamos vivendo uma época em que passamos a ter acesso a obras clássicas e icônicas novamente em nossas mãos. Ponto para a Aleph, que vem se mostrando comprometida em trazer obras clássicas da ficção científica e vencedoras de importantes prêmios do gênero. Um Estranho numa Terra Estranha foi vencedora do Prêmio Hugo em 1962 na categoria principal. Robert A. Heinlein compõe a seleta galeria de vencedores da premiação que contêm nomes como: Isaac Asimov, Frank Herbert; Arthur C. Clark, Willian Gibson, China Miéville e Cixin Liu, autores que já chegamos a resenhar uma obra ou outra aqui no Zona Negativa.

Robert Heinlein


Mas o que torna essa obra tão importante? Para responder a isso, precisamos contextualizar um pouco. No ano de lançamento do livro o mundo estava em transformação. A Guerra do Vietnã acontecendo, o Muro de Berlim sendo construído, o fracasso na tentativa da CIA de invasão da Baía dos Porcos, a luta por igualdade racial nos Estados Unidos, Yuri Gagarin indo ao espaço (literalmente), guerra fria e tensão mundial a todo vapor. Momentos de crise costumam gerar transformações na percepção da população de como ela vê o mundo ao seu redor e como ela está inserida nesta realidade. Nesses momentos é que a arte se mostra mais importante, tendo essencial papel na transformação do status quo, seja pelo cinema, música, literatura, ou qualquer outra manifestação artística. A arte pode (e deve) ser transformadora. Bom, vamos ao livro!



Partindo do título, que é uma referência ao Velho Testamento da Bíblia, em Êxodo, capítulo 2 versículo 22, Heinlein já começa mostrando que pretende pisar em terreno perigoso. Mesmo assim, o faz de maneira bastante sutil. Conta a história de Michael Valentine Smith, que nasce em uma nave que estava em uma expedição à Marte e que acaba perdendo contato com a Terra. Sendo o único sobrevivente, acaba sendo criado pelos habitantes do Planeta Vermelho, aprendendo os costumes e a forma de enxergar a vida, que é bastante peculiar e muito diferente da nossa. Uma outra expedição é enviada novamente à Marte, vinte e cinco anos depois, quando se descobre a existência de um sobrevivente, que seria herdeiro de uma grande fortuna. A partir daí acompanhamos sua história e sua adaptação, passando pelo seu entendimento sobre a sociedade encontrada por aqui. Esta interação muda não só Smith, mas também a própria Terra. A trama se passa num futuro pós Terceira Guerra Mundial e que as viagens especiais são mais corriqueiras e simples.



O Homem de Marte”, ou simplesmente “Mike”, depois de chegar a Terra, é recebido por agentes do governo, que tratam logo de deixá-lo internado em um hospital para ficar em “observação”, sem contato com o resto da população (sobretudo do sexo feminino). Enquanto isso, para atender aos interesses da mídia em descobrir mais sobre este curioso humano com experiências tão únicas, é apresentado ao mundo um ator que se passa por Valentine Smith.

Jill, uma enfermeira que é namorada do repórter Ben Claxton, é induzida por ele a ter um contato mais direto com Mike, principalmente após perceberem a farsa por trás do “Homem de Marte” que apareceu na TV. Jill consegue entrar escondida no quarto em que está o verdadeiro Smith e, em um gesto simples e comum (compartilhando um copo com água), acaba criando uma forte ligação entre os dois. Burlando o forte esquema de segurança que estava “protegendo” Mike, Jill consegue retirá-lo do hospital disfarçando-o como um paciente qualquer. Neste momento, vemos o Homem de Marte exibir, pela primeira vez, algumas de suas habilidades que são humanamente incomuns.



Jill acaba escondendo-o na casa de Jubal Harshaw. Jubal é um escritor que está quase aposentado, que gosta de se apresentar como um bon vivant, muito rico e apreciador das coisas boas da vida, além de possuir a mente bastante aberta (principalmente para as coisas que viria a presenciar). É um personagem bastante interessante - e um dos meus preferidos - que vai costurando o desenvolvimento da história de maneira bastante orgânica, sendo o fio condutor de boa parte da trama.



Com uma inteligência acima dos padrões humanos, aliado à inocência quase infantil do personagem, Mike vai buscando grokar a Terra e a sociedade humana (o termo “grokar”, inventado pelo autor, que possui uma grande gama de significados, foi incorporado à língua inglesa após a obra). 
 



Mike passa a transformar a todos ao seu redor. Gerando um sentimento como o de uma espécie de espírito livre, em que toda forma de amor passa a ser válida: sem limites, sem censuras, sem pudores e sem travas morais. O Homem de Marte encara o sexo como algo muito maior que uma união de corpos em busca de prazer; é uma conexão além da carne. Somos apresentados a não apenas uma ideologia de vida, mas uma nova maneira de encarar os  semelhantes e o mundo ao nosso redor; com tolerância filosófica, libertarismo humano e poligamia (que são assuntos que chocam algumas pessoas até hoje). Além disso, aproveita para questionar o comportamentos de algumas instituições religiosas que vão ao encontro de outros interesses, em detrimento da busca pela salvação da alma.






Uma obra que abriu as portas de um novo tempo e chacoalhou a sociedade conservadora da época. (Convenhamos, existe algo mais atrasado que uma mentalidade “conservadora”? Ser conservador é manter as coisas como estão, ficar estagnado e não evoluir!). Encare Um Estranho Numa Terra Estranha de coração aberto. Com a forma de uma sátira sociopolítica, em que são questionados valores preestabelecidos de nossa cultura - além de todo aspecto político e religioso, das relações humanas e como a sociedade se  comporta - mais do que uma simples leitura, o livro é um convite à reflexão. Mesmo que nada mude na forma de pensar ou agir, se ela simplesmente te fizer refletir sobre suas convicções e valores, já vai ter valido a pena. O mundo está precisando de pessoas que pensam de forma independente. Sempre questione, debata, reflita... mas esteja sempre pronto para ter contato com outras opiniões e encarar outros pontos de vista. Ás vezes é preciso distanciamento e tentar enxergar o lugar que você viveu a vida toda com os olhos de um alienígena. Só assim conseguiremos ver o que está escondido em plena vista. Não busque neste livro por respostas - nem conspirações para te manipular a aceitar tudo que está lá - o propósito da obra não é este. Ele somente abre novas linhas de raciocínio para te fazer pensar.



É claro que qualquer obra que incentive o indivíduo a questionar os valores que lhe são impostos goela abaixo e pensar com a própria cabeça (e não engolir opiniões prontas e já formadas) é normalmente transformada em algo subversivo e aliado a uma conduta criminosa. Como o livro foi ganhando uma relevância cada vez maior, passou a incomodar o pensamento conservador da época (que não é muito diferente do que vemos hoje em dia). Como parte do plano para desencorajar a leitura (transformando-a em algo proibitivo e quase ilegal), a obra foi associada ao crime cometido por Charles Manson, que em 1969 invadiu a mansão do diretor de cinema Roman Polanski e assassinou a atriz Sharon Tate, na época esposa do diretor, e grávida dele. O boato plantado, afirmava que o mesmo era fã da obra e, de alguma forma, foi o que o incentivou a cometer o crime. Uma acusação sem muito propósito, visto que Smith era inteiramente contra a violência. Posteriormente, o próprio Manson afirmou desconhecer a obra. Podemos perceber que a prática de espalhar notícias falsas não é exclusividade do nosso tempo. Notícias que estão a serviço da desinformação sempre foram uma forte ferramenta de manipulação. A única diferença de hoje é que fica mais fácil desinformar, pois as bolhas de controle, que são disfarçadas de redes sociais, são um solo fértil para a disseminação desse tipo de prática. Mas não é o momento para falar sobre isso... por enquanto!

Cuidado! Ele pode estar mentindo. Ou não.. ou talvez




Excluindo-se um diálogo entre dois personagens que apresentam um pensamento e forma de raciocínio completamente condenáveis e equivocados, é uma obra que vale a leitura. Em alguns momentos, senti falta de uma presença maior do Homem de Marte. Mas nada que tenha comprometido minha experiência. A versão original tinha cerca de 800 páginas e aproximadamente 220.000 palavras, mas Heinlein acabou sendo forçado a cortar aproximadamente 60.000 palavras, o que acabou não agradando muito ao autor. Após o falecimento de Heinlein, a viúva do autor conseguiu publicar o texto integral sem cortes. Será que ainda teremos esta obra completa nas mãos? Estou aguardando ansioso por esse dia.