Esse cidadão dispensa apresentações. O escritor que inventou o formato dos contos como os conhecemos agora, autor de clássicos como Os Assassinatos da Rua Morgue, O Barril de Amontillado, O Coração Delator, O Gato Preto, O Poço e o Pêndulo, e do poema O Corvo. Um dos maiores escritores de prosa curta de todos os tempos. Um expoente do horror, inspiração de gente como H. P. Lovecraft. Referência da literatura universal.
Richard Corben.
Falar desse aqui também é chover no molhado. Outro mestre. Um artista que ajudou a dar um rumo e uma cara para a revista Heavy Metal, referencial em quadrinhos de ficção científica e fantasia há mais de 40 anos, além de ter trabalhado nas revistas Creepy e da Eerie, duas das mais famosas HQs de horror de todos os tempos. Ganhou tantos prêmios ao longo de sua carreira que deve usá-los como peso de papel, encosto de porta, etc. Dono de um traço ÚNICO, que como eu já disse aqui nesse post, com ele é "Ame-o ou odeie-o!".
Corben, ao que parece, tem uma obsessão com a obra de Poe (quem nunca?), tendo adaptado vários contos de seu ídolo em diversos momentos de sua carreira, espalhados por várias editoras. Por fim a editora Dark Horse - a casa do Hellboy - publicou uma coletânea com alguns destes contos em 2014, essa mesma que a Editora Mino lança aqui no Brasil. Espíritos dos Mortos tem 216 páginas, capa dura, papel couché e traz 14 adaptações de contos e poemas de Poe por Corben, com a temática central de Edgar Allan Poe: Morte, loucura, miséria e perda. Existem sim, licenças e modificações, todas muito pontuais e compreensíveis. Afinal, na transposição de mídias, da prosa para a história em quadrinhos, adaptações se fazem necessárias. Mas nada que manche o legado de Poe. Corben fez tudo com muito afinco, e acima de tudo, respeito. Quer dizer, exceto pelo fato de haver uma cota de mulher pelada que não era comum nas histórias do Poe, mas isso fica por conta desse "vício" do Corben hahahahahah.
Ainda em relação à arte, percebe-se a progressão do trabalho de Corben. As histórias mais recentes têm uma arte mais polida, detalhada e com cores mais apuradas, o que só ajudou a ressaltar o trabalho de Poe, como se em algum momento Corben tivesse relaxado e se soltado, e isso fez tudo fluir muito melhor.
Essa edição ainda conta com uma galeria de capas
originais e um prefácio assinado por M. Thomas Inge, uma autoridade na obra
de Edgar Allan Poe e em Graphic Novels, onde ele discorre um pouco a respeito das adaptações de contos de Edgar Allan Poe para os quadrinhos nas últimas décadas.
Um puta gibizaço, com todo o acabamento luxuoso que uma obra desse calibre merece, com dois artistas dessa magnitude, trabalhando em colaboração, mesmo que separados por mais de um século. Uma coletânea que agrada tanto os fãs de Poe quanto os fãs de Corben. Não é difícil entender o por quê de eu dizer com 500% de certeza que Espíritos dos Mortos foi um dos melhores lançamentos em terras tupiniquins no ano de 2017 tão logo eu tirei a HQ do plástico. Entrou fácil no meu top 10 de 2017. Façam um favor a vocês mesmos e incluam Espíritos dos Mortos nos seus top 10 de 2018, se vocês deixaram esse passar...
A
humanidade necessita de novas fontes de energia. Hoje dependemos
muito do petróleo e seus derivados, que nada mais é que um recurso
limitado de energia e que é consumida em escala cada vez maior.
Responsável por guerras, golpes, assassinatos, disputas políticas e
econômicas, o “ouro negro” é fonte de imensurável riqueza para
um grupo muito restrito. A melhor solução é buscar outras fontes
de energia, de preferência, renováveis. No último século,
buscaram-se novas fontes de energia que pudessem ser usadas em grande
escala. Energia eólica, solar, hidrelétrica e biomassa, por
exemplo, não são capazes de substituir o petróleo. A energia
nuclear poderia assumir esse papel, mas sabemos que costuma causar
sérios problemas. Pegando como base a questão energética que é
um tema tão preocupante para a humanidade, Isaac Asimov nos traz o
que é considerado um dos clássicos do autor: Os Próprios Deuses.
Lançado originalmente em 1972, foi o vencedor do prêmio Nebula
daquele ano e do Hugo Award no ano seguinte. De toda obra do Bom
Doutor, este é um dos livros em que o sexo está mais presente.
Antes da edição lançada pela Aleph, Os Próprios Deuses já
havia sido lançado por aqui anteriormente com o nome de “O
Despertar dos Deuses”, e sai agora com o seu título traduzido
literalmente (The Gods Themselves). Este título se origina de uma
frase do alemão Friedrich Von Schiller “Contra a estupidez, os
próprios deuses lutam em vão?” em sua obra A Donzela de
Orleans, que trazia uma diferente versão para a vida e morte de
Joana d’Arc (Donzela de Orleans, ou Virgem de Orleans também são
formas de se referir à heroína e mártir francesa). A história é
dividida em três partes e cada uma recebe como título, um fragmento
da expressão de Von Schiller.
Na primeira parte, chamada de “Contra
a estupidez...”, conhecemos Frederick Hallan, um físico nada
excepcional, que se depara com a transmutação da matéria se
transformando em energia diante de seus olhos. Por estar no local
certo na hora certa, não precisou fazer nada, a não ser pegar para
si a descoberta, aproveitando para ganhar fama, poder e dinheiro com
a chamada Bomba de Elétrons - uma fonte de energia limpa, com custo
muito baixo e que poderia suprir as necessidades da terra por
centenas de anos. Benjamin Allan Denison, que trabalhava no
escritório em frente, sabia das limitações de Hallan como
cientista, acompanhou de perto a ascensão daquele cientista medíocre
ao status de grande nome de seu tempo e ganhador do Prêmio Nobel,
simplesmente por estar no lugar certo na hora certa. Peter Lamont, um
até então admirador do Pai da Bomba Eletrônica, tenta provar que
tal bomba pode ser muito perigosa e acaba encontrando muita
resistência por parte de quem poderia fazer algo, mesmo que essas
pessoas não se simpatizassem com Hallan, por conta de sua postura de
arrogância e prepotência.
Na segunda parte, chamada de “...os
próprios deuses...” entendemos o motivo de este livro ser tão
admirado. Com a primeira parte bastante ágil, a segunda gera certo
estranhamento inicial. Mas logo esse sentimento se dissipa, ao
entendermos um pouco os para-seres daquela realidade paralela. Asimov
nos apresenta e desenvolve seres que são, principalmente, conceitos.
Os Racionais, os Parentais, os Emocionais e os Duros são alguns dos
seres que fogem do senso comum em retratar outros serem com
característica humanoide. São seres que não possuem forma
definida; podem transpassar a matéria e se fundir a um outro ser,
por exemplo. São estes para-Seres que desenvolvem a maneira de
trocar energia entre os universos. Também naquele universo,
encontram um cenário parecido com o da terra. Enquanto uns se
beneficiam da troca de energia entre as duas realidades, um desses
seres sente o perigo dessa troca aparentemente inofensiva de energia
entre as terras paralelas. A forma com que é feita a comunicação
entre as terras paralelas, é praticamente uma poesia com toques de
fantasia e ficção científica.
Na terceira parte, estamos de volta
à nossa realidade, no capítulo que recebe o nome de “...lutam em
vão?”. A Lua já estava sendo colonizada, tendo pessoas que já
nasceram em solo lunar e que nunca chegaram a pisar na Terra. Os Terráqueos são considerados uma civilização ultrapassada e de
serem dotados de inteligência inferior. Esta nova sociedade que se
firmou desenvolvendo costumes próprios foi ficando cada vez mais
distante culturalmente da Terra. Benjamin Alan Denison, que foi desprezado
e humilhado por Hallan, encontra na Lua uma forma de encontrar
isolamento e distanciamento de tudo que havia acontecido, buscando um
novo começo e encarando como uma oportunidade de esquecer tudo. Logo
que chega conhece Selene, uma espécie de
“garçonete-sensual-inteligente-cientista” (que parece mais uma
personagem criada pela mente fantasiosa de algum adolescente, ou uma
espécie de fetiche para satisfazer os sonhos secretos do próprio
autor). Paralelamente, grupos clandestinos conspiradores que buscam
fomentar a independência da Lua em relação à Terra (em tempos de
Catalunha querendo se separar da Espanha ou sul do Brasil querendo se
separar do resto do país e raciocínios sendo desenvolvidos
separando argumentos de lógica, conseguimos contextualizar bem a
sociedade em solo lunar).
São três historias que se passam em
momentos distintos, que se ligam pela influência de Hallan e sua
Bomba Eletrônica através do tempo (e mundos), repletas deambição,
vaidade, egoísmo, arrogância e ganância, ignorando os riscos em
lidar com uma energia tão poderosa.
Asimov tratou de alguns temas em
seu livro Escolha a Catástrofe (que pode ser encontrado com
facilidade em qualquer sebo virtual) e entre eles, fala um pouco
sobre a energia atômica. Não se trata de uma ficção, mas sim de
uma reflexão sobre as várias formas com que a humanidade pode se
extinguir e mostrando que algumas delas podem ser causadas pelo
próprio homem. No capítulo em que ele classifica como “Catástrofes
do Quinto Grau”, menciona os riscos de uma energia atômica. Mesmo
o homem sabendo de todo o risco e potencial destrutivo deste tipo de
energia, isso não o impediu de desafiar os limites provocando acidentes
com efeitos devastadores, como em Chernobyl, o vazamento na usina de
Angra e mais recentemente, em Fukushima, no Japão. Com tantas
situações semelhantes, continuamos com a pergunta: “contra a
estupidez, os próprios deuses lutam em vão?”
Philip
K. Dick é O CARA!
Não é a toa que ele é um dos autores “preferidos da casa” aqui na Zona Negativa (como diria o
“Reverendo” Fabio
Massari, nos bons tempos da
MTV). Além disso, é um dos autores de ficção científica com mais
adaptações de suas obras para o cinema. Mesmo quem nunca leu nenhum
de seus livros ou contos, mesmo sem saber certamente já teve
contato com algumas das
inúmeras produções cinematográficas que saíram das páginas e da
mente criativa do autor. Duvida? O Vingador do Futuro, Minority Report, O Pagamento e O Homem Duplo são apenas alguns desses
exemplos.
Como
se não bastasse o cinema, agora a TV está começando a descobrir
que as histórias de PKD podem também ser adaptadas em formato de
série. Já está na segunda temporada a série The Man in the High Castle, baseado no livro O Homem do Castelo Alto, que
mostra uma realidade alternativa em que os nazistas venceram a
segunda guerra mundial. Além disso, uma nova série acabou de
estrear, chamada Philip
K. Dick’s Eletric Dreams,
em que os episódios são baseados em alguns de seus contos. Pelos
primeiros episódios, a série se mostrou bastante promissora.
Apesar
de Philip K. Dick ser um dos nossos autores favoritos aqui no Zona Negativa,
não entendo o por quêde não termos falado sobre ele ainda. Uma omissão inexplicável e
imperdoável que se resolve agora trazendo um dos livros mais
conhecidos do autor e que também serve muito bem como porta de
entrada para esse mundo que Dick construiu. Seu livro Andróides Sonham com Ovelhas
Elétricas? ficou famoso por ganhar uma excelente adaptação nas
mãos do diretor Ridley Scott, batizada de Blade Runner – O
Caçador de Andróides. Blade Runner, juntamente com 2001: Uma Odisséia no Espaço, se tornou umas das mais respeitadas obras de ficção
científica da história do cinema. Assim como o livro de Arthur C.
Clarke e o filme de Stanley Kubrick se fundem e se completam, o mesmo
ocorre com o universo estabelecido por Philip K. Dick, que se amalgama
com a visão do diretor Ridley Scott.
Em Androides
Sonham com Ovelhas Elétricas acompanhamos Rick Deckard, que é um
caçador de recompensas que trabalha para a polícia. Seu sonho de
consumo é poder comprar um animal de verdade, que lhe renderia
status perante a
sociedade. Sua esposa passa boa parte do tempo no emulador de emoções
(seria uma forma de camuflar
seu notório quadro depressivo, ou uma maneira de programar o seu
“cérebro” de androide?),
além de ficar boa parte do tempo assistindo Buster
Gente Fina, que
é uma espécie de programa de
variedades em que o apresentador parece tudo, menos humano (assim
como se vê em qualquer programa de auditório dominical, por
exemplo ;>)).
A
história se situa depois da Guerra Mundial Terminus, que ninguém
mais lembrava quem venceu ou quem perdeu. A Terra ficou coberta por
uma poeira tóxica, fazendo com que aos poucos os animais começassem
a morrer até se tornarem praticamente extintos. Marte é colonizado
e a alta casta da sociedade é incentivada a migrar para colônias
interplanetárias, recebendo um androide orgânico (como os modelos
T-800 de O Exterminador do Futuro) como forma de incentivo e para lhes
auxiliar no que for necessário. Lá, quem faz o trabalho pesado são
os imigrantes ilegais, digo, os androides construídos para este fim.
Os
androides
não são permitidos na Terra,relegados a realizar os
trabalhos a que forem designados nas colônias. Com a chegada ao
mercado de um novo modelo batizado de Nexus
6, muito mais avançados
tecnologicamente, a tarefa de distinguir entre humanos e robôs fica
muito mais complicada, por conta de sua impressionante semelhança
física com os humanos. Quando começam a tomar consciência de suas
reais capacidades e a perceber e entender a realidade em que vivem,
alguns fogem para a Terra a fim de viver como humanos, se
beneficiando dessas características físicas. Após a fuga de alguns desses
andróides,
Deckard é designado para caçá-los, e é quando a história de
desenrola.
Durante
todo o desenrolar da narrativa, o que pulsa em nossas cabeças são
questionamentos do tipo: O que diabos, exatamente, é a humanidade? Ela pode ser emulada? ser humano é nascer humano? Gostos, vontades, desejos, sonhos, ambições... Se somos a soma das
coisas que vivemos e experimentamos, no que nos transformaríamos se memórias
artificiais fossem implantadas em nossas mentes? Não teríamos
como saber que não são lembranças verdadeiras! Você saberia afirmar com certeza absoluta que você é um ser humano, e não um androide com memórias
implantadas para pensar que é um humano??? Você saberia distinguir o
que é real? ou melhor, saberia definir O QUE é realidade? Esses são os questionamentos que costumam permear
as histórias de Philip K. Dick e isso é justamente o que torna suas
histórias tão fascinantes (e indigestas!).
Seria
Deckard um androide tentando ser cada vez mais humano? Seria ele um
humano que não tem mais certezas de sua própria humanidade? A
pergunta do título, que no primeiro momento soa um pouco estranha e
sem sentido, faz com que durante a leitura, criem-se mais
questionamentos que respostas. Não se pode afirmar categoricamente
que Deckard é um androide, nem que ele é humano. O próprio
personagem não tem essa convicção. Seria a consequência de novas
memórias implantadas? Seriam por conta de uma nova programação? Ou
será que ele estava simplesmente esgotado demais, física e mentalmente, para
não conseguir distinguir entre o que é real e o imaginário?
Estaria ele, como androide, emulando o comportamento humano? Pode-se
dizer que sim. Estaria ele, como humano, se aproximando mais do
comportamento de um androide? Também pode-se dizer que sim!
Independentemente da resposta, o que vemos é um ser com suas
convicções abaladas. Seja ele humano ou androide.
Para
aqueles que buscam uma história cheia de tiros, explosões, com
muita ação e correrias vertiginosas pelo futuro, tendo um
protagonista sendo a síntese do conceito de super-herói, esse não
é o livro para você. Ou melhor: talvez esse não seja o autor para
você. As ações e correrias vertiginosas acontecem dentro da psique
dos personagens. Philip K. Dick nos tira da nossa zona de conforto,
nos entregando uma história sensacional de um homem em seu labirinto
psicológico e sua fuga constante para evitar conseguir descobrir
quem é (ou o que é).
Este
é o tipo de livro que cresce a cada leitura. Cada vez você volta
àquele cenário, pode perceber mais sutilezas e nuances do texto, te
fazendo imergir cada vez mais naquele ambiente e, consequentemente,
na mente do autor. Questões filosóficas, ideologias religiosas,
desejo por uma ascensão social, inconformismo com situação
degradante que lhe é imposta, a busca por uma nova vida em um outro
lugar são algumas das questões fazem
pano de fundo para
a história. Talvez a única
coisa que possa ser considerada essencialmente errada na obra (não
por culpa de PKD), é que Deckard identifica quem é e quem não é
humano através da capacidade de mostrar empatia. Hoje está cada vez
mais claro que conseguimos identificar o humano através do ódio.
Afinal, o ser
humano é o único animal capaz de odiar. O ódio que segrega e
agride covardemente é o mesmo que une alguns grupos, como vimos em
Charlottesville ou na reação a qualquer postagem no Facebook
relacionada a questões de direitos humanos, por exemplo. Mas isso
não é discussão para o momento.
Para
comemorar os 50 anos do lançamento de uma das obras mais icônicas
de Philip K Dick, a Editora Aleph resolveu dar um tratamento
caprichado nesta nova edição. Com acabamento em capa dura, com uma bela sobrecapa envernizada e
recheado de extras e ilustrações de diversos artistas (como Dave
Mckean, Elena Gumeniuk, Bianca Pinheiro, Danilo Beyruth e Gustavo
Duarte, por exemplo), além de um texto analisando os vários
cenários pós-apocalípticos criados por PKD. Certamente vai fazer a
alegria dos admiradores do autor e vai servir como um ótimo cartão
de visita para os que ainda não o conhecem.
Neste
ano se comemoram também os 35 anos do lançamento da adaptação
cinematográfica e por conta disso, foi lançada a continuação da
história do filme de 1982.
Confesso que encarei com muito ceticismo essa ideia. Mas felizmente
acabou se mostrando um ponto
fora da curva, revelando uma
obra como se vê pouco hoje em
dia. Além de possuir uma fotografia de encher os olhos, o
filme é cheio de sutilezas e
chega a tocar temas delicados, como escravidão e trabalho infantil.
O que se pode dizer é que o filme é no mínimo corajoso, por escapar
da armadilha de tornar a continuação uma franquia seguindo uma
fórmula de fácil assimilação pelo grande público. Assim como o
filme anterior, Blade Runner 2049 não foi bem nas bilheterias. O que
não é nenhum demérito, pois o melhor filme de 2015, Mad Max:
Estrada da Fúria, também foi um fiasco nas bilheterias,
principalmente se compararmos com o seu custo. Mas como diria Marty
McFly: “Acho que vocês
ainda não
estão preparados para isso, mas seus filhos vão adorar!”
Agora
corra para contemplar os Rios-C cintilando
na escuridão junto ao Portal
de Tannhauser, antes que tudo se perca no tempo, como lágrimas na
chuva.
Há
muitos anos venho ouvindo falar do livro Um Estranho Numa Terra
Estranha, de Robert A. Heinlein, que havia ajudado a pavimentar o
caminho para o movimento da contracultura que permeou boa parte dos
anos 1960/70 e se transformou na marca daquela época. No entanto, a
possibilidade de um relançamento por aqui era bastante remota. A
última edição havia sido a de 1992 pela editora Record, sendo
possível encontrar somente em sebos e em estado de conservação nem
sempre muito animador. Felizmente estamos vivendo uma época em que
passamos a ter acesso a obras clássicas e icônicas novamente em nossas mãos.
Ponto para a Aleph, que vem se mostrando comprometida em trazer obras
clássicas da ficção científica e vencedoras de importantes
prêmios do gênero. Um Estranho numa Terra Estranha foi vencedora do
Prêmio Hugo em 1962 na categoria principal. Robert A. Heinlein
compõe a seleta galeria de vencedores da premiação que contêm
nomes como: Isaac Asimov, Frank Herbert; Arthur C. Clark, Willian Gibson, China Miéville e Cixin Liu, autores que já chegamos a resenhar uma obra ou outra aqui no
Zona Negativa.
Robert Heinlein
Mas
o que torna essa obra tão importante? Para responder a isso, precisamos
contextualizar um pouco. No ano de lançamento do livro o mundo
estava em transformação. A Guerra do Vietnã acontecendo, o Muro de Berlim sendo construído, o fracasso na tentativa da CIA de invasão da Baía dos Porcos, a luta por igualdade racial nos Estados Unidos, Yuri Gagarin indo ao espaço (literalmente), guerra fria e tensão mundial
a todo vapor. Momentos de crise costumam gerar transformações na
percepção da população de como ela vê o mundo ao seu redor e como ela está
inserida nesta realidade. Nesses momentos é que a arte se mostra
mais importante, tendo essencial papel na transformação do status
quo, seja pelo cinema, música, literatura, ou qualquer outra
manifestação artística. A arte pode (e deve) ser transformadora. Bom, vamos ao livro!
Partindo
do título, que é uma referência ao Velho Testamento da Bíblia, em
Êxodo, capítulo 2 versículo 22, Heinlein já começa mostrando que
pretende pisar em terreno perigoso. Mesmo assim, o faz de maneira
bastante sutil. Conta a história de Michael Valentine Smith, que
nasce em uma nave que estava em uma expedição à Marte e que acaba
perdendo contato com a Terra. Sendo o único sobrevivente, acaba
sendo criado pelos habitantes do Planeta Vermelho, aprendendo os
costumes e a forma de enxergar a vida, que é bastante peculiar e
muito diferente da nossa. Uma outra expedição é enviada novamente
à Marte, vinte e cinco anos depois, quando se descobre a existência
de um sobrevivente, que seria herdeiro de uma grande fortuna. A
partir daí acompanhamos sua história e sua adaptação, passando
pelo seu entendimento sobre a sociedade encontrada por aqui. Esta
interação muda não só Smith, mas também a própria Terra. A
trama se passa num futuro pós Terceira Guerra Mundial e que as
viagens especiais são mais corriqueiras e simples.
“O
Homem de Marte”, ou simplesmente “Mike”, depois de chegar a
Terra, é recebido por agentes do governo, que tratam logo de deixá-lo
internado em um hospital para ficar em “observação”, sem
contato com o resto da população (sobretudo do sexo feminino).
Enquanto isso, para atender aos interesses da mídia em descobrir
mais sobre este curioso humano com experiências tão únicas, é
apresentado ao mundo um ator que se passa por Valentine Smith.
Jill,
uma enfermeira que é namorada do repórter Ben Claxton, é induzida
por ele a ter um contato mais direto com Mike, principalmente após
perceberem a farsa por trás do “Homem de Marte” que apareceu na
TV. Jill consegue entrar escondida no quarto em que está o
verdadeiro Smith e, em um gesto simples e comum (compartilhando um
copo com água), acaba criando uma forte ligação entre os dois.
Burlando o forte esquema de segurança que estava “protegendo”
Mike, Jill consegue retirá-lo do hospital disfarçando-o como um paciente qualquer. Neste
momento, vemos o Homem de Marte exibir, pela primeira vez, algumas de
suas habilidades que são humanamente incomuns.
Jill
acaba escondendo-o na casa de Jubal Harshaw. Jubal é um escritor que
está quase aposentado, que gosta de se apresentar como um bon
vivant, muito rico e apreciador das coisas boas da vida, além de
possuir a mente bastante aberta (principalmente para as coisas que viria
a presenciar). É um personagem bastante interessante - e
um dos meus preferidos - que vai costurando o desenvolvimento da
história de maneira bastante orgânica, sendo o fio condutor de boa
parte da trama.
Com
uma inteligência acima dos padrões humanos, aliado à inocência
quase infantil do personagem, Mike vai buscando grokar a Terra e a
sociedade humana (o termo “grokar”, inventado pelo autor, que
possui uma grande gama de significados, foi incorporado à língua inglesa após a obra).
Mike
passa a transformar a todos ao seu redor. Gerando um sentimento como
o de uma espécie de espírito livre, em que toda forma de amor passa
a ser válida: sem limites, sem censuras, sem pudores e sem travas
morais. O Homem de Marte encara o sexo como algo muito maior que uma
união de corpos em busca de prazer; é uma conexão além da carne.
Somos apresentados a não apenas uma ideologia de vida, mas uma nova
maneira de encarar os semelhantes e o mundo ao nosso redor;com
tolerância filosófica, libertarismo humano e poligamia (que são
assuntos que chocam algumas pessoas até hoje). Além disso,
aproveita para questionar o comportamentos de algumas instituições
religiosas que vão ao encontro de outros interesses, em detrimento
da busca pela salvação da alma.
Uma
obra que abriu as portas de um novo tempo e chacoalhou a sociedade
conservadora da época. (Convenhamos, existe algo mais atrasado que
uma mentalidade “conservadora”? Ser conservador é manter as
coisas como estão, ficar estagnado e não evoluir!). Encare Um
Estranho Numa Terra Estranha de coração aberto. Com a forma de uma
sátira sociopolítica, em que são questionados valores
preestabelecidos de nossa cultura - além de todo aspecto político e
religioso, das relações humanas e como a sociedade se comporta - mais do que
uma simples leitura, o livro é um convite à reflexão. Mesmo que
nada mude na forma de pensar ou agir, se ela simplesmente te fizer
refletir sobre suas convicções e valores, já vai ter valido a
pena. O mundo está precisando de pessoas que pensam de forma
independente. Sempre questione, debata, reflita... mas esteja sempre
pronto para ter contato com outras opiniões e encarar outros pontos
de vista. Ás vezes é preciso distanciamento e tentar enxergar o
lugar que você viveu a vida toda com os olhos de um alienígena. Só
assim conseguiremos ver o que está escondido em plena vista. Não
busque neste livro por respostas - nem conspirações para te
manipular a aceitar tudo que está lá - o propósito da obra não é
este. Ele somente abre novas linhas de raciocínio para te fazer
pensar.
É
claro que qualquer obra que incentive o indivíduo a questionar os
valores que lhe são impostos goela abaixo e pensar com a própria
cabeça (e não engolir opiniões prontas e já formadas) é
normalmente transformada em algo subversivo e aliado a uma conduta
criminosa. Como o livro foi ganhando uma relevância cada vez maior,
passou a incomodar o pensamento conservador da época (que não é
muito diferente do que vemos hoje em dia). Como parte do plano para
desencorajar a leitura (transformando-a em algo proibitivo e quase
ilegal), a obra foi associada ao crime cometido por Charles Manson, que em 1969 invadiu a
mansão do diretor de cinema Roman Polanski e assassinou a atriz Sharon Tate, na época esposa do
diretor, e grávida dele. O boato plantado, afirmava que o mesmo
era fã da obra e, de alguma forma, foi o que o incentivou a cometer
o crime. Uma acusação sem muito propósito, visto que Smith era
inteiramente contra a violência. Posteriormente, o próprio Manson
afirmou desconhecer a obra. Podemos perceber que a prática de
espalhar notícias falsas não é exclusividade do nosso tempo.
Notícias que estão a serviço da desinformação sempre foram uma
forte ferramenta de manipulação. A única diferença de hoje é que
fica mais fácil desinformar, pois as bolhas de controle, que são
disfarçadas de redes sociais, são um solo fértil para a
disseminação desse tipo de prática. Mas não é o momento para
falar sobre isso... por enquanto!
Cuidado! Ele pode estar mentindo. Ou não.. ou talvez
Excluindo-se
um diálogo entre dois personagens que apresentam um pensamento e
forma de raciocínio completamente condenáveis e equivocados, é uma
obra que vale a leitura. Em alguns momentos, senti falta de uma
presença maior do Homem de Marte. Mas nada que tenha comprometido
minha experiência. A versão original tinha cerca de 800 páginas e
aproximadamente 220.000 palavras, mas Heinlein acabou sendo forçado
a cortar aproximadamente 60.000 palavras, o que acabou não agradando
muito ao autor. Após o falecimento de Heinlein, a viúva do autor
conseguiu publicar o texto integral sem cortes. Será que ainda
teremos esta obra completa nas mãos? Estou aguardando ansioso por esse dia.