quinta-feira, 24 de maio de 2018

O LIVRO DA LEI + ALEISTER CROWLEY, a biografia quadrinizada + O Legado da Besta na Cultura Pop.








Por EDUARDO CRUZ



"O tolo bebe, e se embebeda; o covarde não bebe. O homem sábio, bravo e livre bebe, e dá glórias ao Mais Alto Deus."



Edward Alexander Crowley, ou Aleister Crowley, como era mais conhecido fez de (quase) tudo: Enxadrista, alpinista, dramaturgo, poeta, ocultista nato, viajante andarilho, divulgador da Ioga no ocidente, estudioso da Cabala, viciado em cocaína e heroína, suposto espião a serviço da Coroa Britânica, taxado pela imprensa da época como o homem mais depravado de sua época, fundador da filosofia da Thelema, mago invocador de demônios e espíritos, arauto do Novo Aeon, um mero charlatão dado a escândalos... Digam o que disserem do Crowley, aí está um cara que certamente vivenciou a vida ao máximo! "Todo homem e toda mulher é uma estrela", ele afirmava em seus tratados, e tentou atingir o potencial máximo que lhe foi permitido, seja para o bem ou para o mal. Embora eu suspeite que conceitos como "Bem" e "Mal" não se apliquem a Crowley. Sua concepção de prática mágica, ou “Magick”, como “a ciência e arte de causar mudanças de acordo com a vontade” é estudada por iniciantes e iniciados e são incontáveis as ordens místicas que utilizam seus conceitos e postulados como base. Além disso, sua esfera de influência atinge lugares inusitados até os dias de hoje: Considerado uma celebridade antes mesmo do termo existir, o mago é citado, referenciado e reverenciado dentro da cultura de massas, seja na música, nas histórias em quadrinhos, filmes, livros... Isso sim é poder, bitches!!!


Crowley nasceu no seio de uma família cristã e sempre teve problemas com uma criação nesses padrões. Era obrigado a ler um capítulo da bíblia por dia. Perdeu o pai, dono de uma cervejaria, aos 11 anos de idade e tinha uma péssima relação com a mãe, que chegava ao cúmulo de chamá-lo de "A Besta", alcunha que acabou perdurando pelo resto de sua vida. A característica mais marcante de Crowley sempre foi bater de frente com os valores morais e religiosos do seu tempo, sendo um proto-libertarianista, defendendo a liberdade sexual, pessoal e espiritual, e a sua regra de "Faz o que tu queres" posteriormente se tornaria o mantra da filosofia Thelêmica. Em 1897, impelido por aquelas questões maiores da existência humana, Crowley abandona Cambridge para se dedicar ao ocultismo. No ano seguinte, ingressa na Ordem da Aurora Dourada, onde, após iniciado, aprende os fundamentos da magia ritualística e como utilizar drogas em rituais. Logo, uma dissidência o leva a entrar em choque com o mestre da ordem, o ocultista S. L. MacGregor Mathers, considerado muito autoritário por alguns membros. Após algumas tentativas de conciliação, o choque de egos entre Crowley e Mathers o leva a abandonar a Aurora Dourada em definitivo.


Encruzilhadas, reais ou simbólicas, são um dos elementos essenciais para os praticantes de magia. E é aqui que Crowley atinge a sua encruzilhada: Em 1904, um dos momentos chave de sua vida, em uma viagem de lua de mel ao Cairo acompanhado de sua esposa, Rose Edith Kelly, ele entrou em contato com uma entidade chamada Aiwass, que afirmava ser o porta voz de Hórus. Durante três dias, entre 8 e 10 de abril de 1904, entre o meio-dia e as 13 horas, Aiwass ditou para Crowley o que viria a ser conhecido como o Liber Al Vel Legis, ou O Livro da Lei. Crowley relatou que a voz vinha por sobre seu ombro esquerdo, como se Aiwass estivesse posicionado em um dos cantos da sala, com um timbre firme e expressivo, mas ao mesmo tempo tenro.



Crowley com sua primeira esposa, Rose Edith Kelly, e sua filha
Nuit Ma Ahathoor Hecate Sappho Jezebel Lilith Crowley
O Hexagrama Unicursal, principal símbolo da Thelema

Mas o que vem a ser o Livro da Lei? dividido em três partes, a primeira ditada por Nuit, a deusa egípcia do céu noturno, a segunda por Hadit, autodenominado o complemento de Nuit, sua noiva, e a terceira por Ra-Hoor-Khuit, a Criança Coroada e Conquistadora, o livro seria um poderoso grimório, que fala sobre a vindoura Era de Aquário, o Aeon de Hórus, uma era que supostamente se iniciaria com a queda das religiões patriarcais e com uma compreensão maior acerca do (auto)conhecimento espiritual e autogovernança do indivíduo. Seu conteúdo é extremamente críptico, enigmático, deixando abertura para as mais diversas interpretações. Isto é plenamente intencional: O Liber Al Vel Legis é para ser lido individualmente, e a apreensão de seu conteúdo, a forma como ele será compreendido vai depender exclusivamente das percepções e vivências pessoais de cada um que o ler. É um mesmo livro que se torna tantos livros quanto existem leitores para ele. Os Thelemitas não encorajam textos explicativos ou assembléias e reuniões para se interpretar passagens do mesmo, a fim de evitar a criação de dogmas em cima dele, um vício de todas as grandes religiões. Assim sendo, não há interpretação incorreta do Livro da Lei e seu "sacramento", na falta de um termo melhor, se dá na esfera pessoal de cada um. O único autorizado a fazer alguns comentários a respeito do livro foi o próprio Crowley, que utilizou a Cabala como uma espécie de pedra de Roseta para interpretar os versos crípticos. 




No final do ano passado, a editora Chave lançou uma belíssima edição do Liber Al Vel Legis, que traz um ótimo prefácio, rico em informações complementares, páginas de reproduções dos manuscritos originais de Crowley, os comentários dele quanto ao Liber Al Vel Legis e um poema de Crowley traduzido por Fernando Pessoa, um notório entusiasta da obra do magista. Coisa fina. O livro, que possuía uma edição anterior rara e esgotada no Brasil há muitos anos, é uma segunda chance para aqueles, que como eu, andavam loucos atrás de um exemplar físico. A edição é incontestavelmente produzida com muita atenção a cada detalhe, desde a capa até a tradução. Além disso, é uma edição bilíngue Português/inglês.


"Observem por si mesmos a deterioração do sentido de pecado, o crescimento da inocência e da irresponsabilidade, as estranhas modificações do instinto reprodutivo com a tendência de transformar-se em bissexual ou epiceno, a confiança infantil no progresso combinada com medo apavorante da catástrofe, contra a qual ainda pouco desejamos tomar precauções.

Considere o afloramento das ditaduras, apenas possível quando o crescimento moral está em seus estágios iniciais, e a prevalência de cultos infantis como o Comunismo, o Fascismo, o Pacifismo, dos Modismos da Saúde do Ocultismo em quase todas as suas formas, religiões sentimentalizadas ao ponto da extinção na prática.

Considere a popularidade do cinema, do rádio, da loteria esportiva e das competições de adivinhação, todos instrumentos para confortar crianças intratáveis, sem semente de propósito neles.

Considere o esporte, os entusiasmos e raivas infantis que ele desperta, nações inteiras perturbadas por disputas entre meninos.

Considere a guerra, as atrocidades que acontecem diariamente e não nos comovem e pouco nos preocupam.

Somos crianças.

Como este novo Éon de Hórus se desenvolverá, como a Criança irá crescer, isso cabe a nós determinar (...)"
O Livro da Lei, página 37 


 


Ainda relacionado a Crowley, a Chave lançou pouco tempo depois, no início desse ano, em parceria com a editora Veneta, uma biografia em quadrinhos do mago inglês. A HQ, intitulada simplesmente Aleister Crowley, tem um projeto gráfico similar à edição do Liber Al, e mostra a história de Crowley desde o nascimento em sua família rica família de fanáticos religiosos, a sofrida infância e adolescência nas escolas de elite, a descoberta da magia e a vida de escândalos que o transformaram em uma das maiores celebridades de seu tempo e o alvo favorito dos tabloides ingleses que o definiram como “O homem mais perverso do mundo”. De autoria de Martin Hayes e RH Stewart, a HQ lembra muito Do Inferno, de Alan Moore, mais precisamente nos remete ao artista de Do Inferno, Eddie Campbell, uma arte em preto e branco "suja", hachurada, de linhas fortes. Uma ressalva que eu tenho com a biografia quadrinizada é pelo fato de Crowley, que teve uma vida tão diversa, viajou muito, exerceu incontáveis atividades e experimentos místicos ter tudo isso resumido a cento e poucas páginas. É o resumo do resumo. O atenuante aqui é que metade do livro é de notas explicativas, mais uma similaridade com Do Inferno. As notas explicativas maximizam o aproveitamento da leitura e contextualizam muitos fatos que poderiam passar em branco se só lêssemos a HQ.








"A evolução promove suas mudanças de maneiras antissocialistas. O homem "anormal" que prevê as tendências do tempo e adapta as circunstâncias de modo inteligente é motivo de riso, é perseguido, e frequentemente destruído pelo rebanho; mas ele e seus herdeiros, quando a crise vem, são sobreviventes."

O Livro da Lei, página 39



UMA BESTA POP

Por fim, Crowley morreu em 1947 (mesmo ano da queda do objeto voador em Roswell. Coincidência??? Desculpe, não trabalhamos com coincidências aqui hehehehe), pobre e quase sem seguidores. Mas a sua grande obra já havia sido concluída: A maneira como ele praticava Magia inspirou muitos outros estudantes e diletantes e possibilitou a formação do neopaganismo como o conhecemos hoje, além de deixar profundas marcas na cultura. Para uma figura tão peculiar, Aleister Crowley se tornou uma presença perene e bem influente na cultura pop. Não dá pra ler uma dúzia de livros, HQs ou filmes, ou mesmo escutar músicas sem esbarrar em uma menção direta ou indireta, homenagem ou referência ao Crowley real, tamanho é o fascínio que a Besta exerce em quem estuda sua vida e obra. Abaixo temos alguns exemplos bem famosos, e outros nem tanto. Essas referências pinçadas aqui não são sequer a ponta do iceberg, e uma pesquisa mais extensa faria o post ficar umas cinco vezes maior do que é, então vamos parar por aqui rs. “A influência de Crowley na cultura moderna é tão disseminada quanto a de Freud ou Jung”, diz o jornal inglês The Guardian, e os exemplos abaixo comprovam a influência da Besta dentro do panorama das artes.

Crowley na montagem da capa do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.


HISTÓRIAS EM QUADRINHOS:

Por ter sido vilipendiado por tantos anos pela imprensa de seu país natal, Crowley acabou se tornando quase uma figura folclórica. Uma espécie de Toninho do Diabo, mas com o charme britânico que o nosso representante do Cramulhão não possui. Por isso, nada mais natural do que a profusão de citações a Crowley se concentrar com mais frequência em obras da cultura popular britânica. A Invasão Britânica, que nos anos 80 apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinhistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana ;>). 

“No mundo das ciências ocultas do século XX, Crowley é uma espécie de Einstein”   
Alan Moore

  • Sandman - Logo primeira história do Sandman de Neil Gaiman, o personagem-título da série, Sonho, é capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, Burgess é rival). 



  • Belas Maldições - Ainda de autoria de Gaiman, no divertidíssimo Belas Maldições, livro escrito a quatro mãos com Terry Pratchett, Crowley é o nome de um dos protagonistas. O demônio se junta ao anjo Aziraphale na tentativa de impedir o fim dos tempos.

David Tennant e Michael Sheen caracterizados como Crowley e Aziraphale na vindoura adaptação de Belas Maldições

  • John Constantine: Hellblazer - Crowley aparece também em Hellblazer, mais precisamente na fase de Paul Jenkins. No arco Massa Crítica, o mago está há anos vivendo em um local ermo, à beira de um rio, tendo um espaço de deslocamento limitadíssimo, pois só pode andar em cima de pentagramas de proteção traçados no chão para protegê-lo de ser arrastado para o inferno pelo Primeiro dos Caídos. John, é claro, acaba com a pouca alegria que ainda restava ao coitado...




  • Requiem - Cavaleiro Vampiro - Na HQ escrita pelo inglês Pat Mills e ilustrada por Olivier Ledroit (que já resenhamos AQUI!), em uma espécie de pós-vida bizarro e maligno, Crowley é o responsável pelo Banco de Sangue em uma sociedade governada por vampiros, e aparece em toda a sua glória com uma aparência que faz jus à alcunha de A Besta...

Crowley retratado na HQ Requiem - Cavaleiro Vampiro.
Arte por Olivier ledroit


  • Asilo Arkham - Falando de  outro expoente da Invasão Crowleyana, digo, Britânica, não posso esquecer de mencionar Grant Morrison, que assume que boa parte de sua obra tem influência nos escritos de Crowley e o considera o Picasso da Magia. Em sua graphic novel Asilo Arkham, Crowley é mencionado explicitamente. Na história, Amadeus Arkham, fundador do manicômio mais famoso de Gotham City, se encontra com Carl Gustav Jung e Aleister Crowley em suas viagens quando jovem. Além disso vemos o Tarô de Toth, concebido pelo próprio Crowley, sendo manuseado por um personagem. Morrison também escreveu uma peça de teatro sobre Crowley em 1990, intitulada Depravity.

Arte por Dave McKean

 
  • A Liga Extraordinária - Século - E não poderíamos deixar de linkar Alan Moore, a ponta de lança da Invasão Britânica, bruxo de Northampton a Aleister Crowley! Em Século, história da Liga Extraordinária, o mago negro Oliver Haddo, personagem criado pelo escritor W. Somerset Maugham para o livro The Magician, é baseado em Aleister Crowley e reutilizado por Moore na HQ, dando trabalho para Mina Harker e seus companheiros por um século inteiro!


Arte por Kevin O'Neill


Arte por Kevin O'Neill


  • Do Inferno - Moore também cita Crowley em Do Inferno, HQ semi fictícia que discorre a respeito dos crimes de Jack, O Estripador. O garoto juvenil Aleister dá as caras como um menino bem insolente em uma rápida aparição.


Arte por Eddie Campbell


  • Promethea - Nessa série, que um crítico já definiu como “um gibi da Mulher-Maravilha escrito por Aleister Crowley”, Aleister aparece em alguns momentos, entre eles em uma edição dedicada ao Tarô, onde Crowley conta, no rodapé das páginas, uma piada que segundo Moore, sintetiza o que é a Magia. Mais à frente, enquanto a protagonista explora a Árvore da Vida na Cabala, Crowley aparece transfigurado como mulher, em uma esfera metafísica superior.


Arte por J. H. Williams III


  • Herói Nenhum - Nessa HQ de Warren Ellis e Juan Jose Ryp, há uma breve menção à Crowley e sua Abadia de Thelema, em uma de minhas leituras recentes, enquanto fazia esse post. Deve ser só coincidência...



CINEMA:

  • The Devil Rides Out -  Esse livro de Dennis Wheatley foi adaptado para o cinema em 1968. As Bodas de Satã, título nacional, é uma produção britânica, dirigida por Terence Fisher e roteirizado por Richard Matheson (autor de Eu sou A Lenda, que já resenhamos AQUI), tem Christopher "Drácula Saruman" Lee como o "mocinho" e o ator Charles Gray no papel de Mocata, um perverso aristocrata mestre em magia negra, o Crowley da vez...

 As Bodas de Satã (1968). Completo e legendado.

  • La Herencia Valdemar - Esse filme espanhol de 2010, além de brincar com os Mythos Lovecraftianos, tem uma participação muito especial: Aleister Crowley é retratado no filme como um mago embusteiro que executa um ritual que acaba dando muito, muito errado... Tão errado que no final o próprio Cthulhu aparece!


  • Perdurabo (Where Is Aleister Crowley?) - Esse média metragem escrito e dirigido por Carlos Atanes se passa na Abadia de Thelema, na Sicília, durante o ano de 1939.



MÚSICA:

  • Led Zeppelin - O guitarrista Jimmy Page era aficionado pela obra de Crowley, a ponto de o vinil do álbum Led Zeppelin III trazer inscrito "Faz o que tu queres". Além disso, Page comprou uma mansão que já pertenceu a Crowley e onde gravaram algumas cenas do filme-concerto The Song Remains The Same.




  • Ozzy Osbourne - Mr. Crowley - A letra diz tudo. A homenagem do Príncipe das Trevas Ozzy à Besta Crowley. Coisa Linda. até rolou uma lagriminha de sangue aqui...



  • David Bowie - Quicksand - O Camaleão também se rendeu à Besta e canta nos versos iniciais: "I'm closer to the Golden Dawn...". Mais direto, impossível...



  • Marilyn Manson - Holly Wood (In The Shadow Of The Valley Of Death) - O quarto álbum de Manson tem o mesmo teor de qualquer álbum de sua carreira: O artista está sempre atacando a hipocrisia da sociedade em que vive, criticando a idolatria às armas, o culto à violência, a cultura do medo, e os demais perigos do conservadorismo extremo. Tio Crowley ficaria orgulhoso, mas piraria mesmo é com as fotos do encarte deste álbum, onde Manson e banda encenam as cartas do tarô, uma das obsessões de Crowley, que chegou a desenvolver seu próprio tarô.



  • Klaxons - Magick - O título dispensa explicações. O primeiro álbum dos Klaxons é recheado de temas de ficção científica hard e um pouco de Thelema também. É, eu sei que eu já recomendei os Klaxons no post de The Filth, que é uma HQ de ficção científica insana do Morrison. Mas não foi o Arthur C. Clarke quem disse que "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia"? Touché!





  • Def FX - (I'll Be Your) Majick - Essa banda australiana é cheia de diversas influências, que vão do eletrônico noventista a guitarras de metal, passando por vocais de Riot Grrls dos anos 90, carregado de psicodelia, rock industrial e... bem, ouçam e tirem suas próprias conclusões sobre esse som anárquico. Apesar da palavra "Majick" estar grafada de forma diferente do termo cunhado por Crowley, não há dúvidas quanto à referência, concordam?



E, claro, não posso deixar jamais de citar onde a influência de Aleister Crowley mais se faz sentir na cultura popular brasileira, embora as gerações mais novas não façam idéia disso: As letras das músicas de Raul Seixas! O roqueiro baiano, em parceria com nosso Constantine tapuia, o "mago" Paulo Coelho, não compuseram uma, nem duas canções baseadas na filosofia Thelêmica, mas VÁRIAS! Entre elas, Sociedade Alternativa, Novo Aeon e A Lei.

Sociedade Alternativa

Novo Aeon
Nos quadrinhos, a principal forma narrativa ficcional da contracultura, Crowley começou a aparecer aqui e ali a partir dos anos 1970. Mas a chamada Invasão Britânica, que, nos anos 1980, apresentou ao mundo uma nova geração de quadrinistas do Reino Unido, quase pode ser chamada também de Invasão Crowleyana. O “Sandman” de Neil Gaiman surge nos quadrinhos ao ser capturado por engano em um ritual desastroso do mago Roderick Burgess, criado à imagem de Crowley (de quem, na HQ, é um rival). E em “Belas Maldições”, de Gaiman e Terry Pratchett, Crowley é o nome de um dos protagonistas: o demônio que se junta ao anjo Aziraphale na tentativa de impedir o fim dos tempos.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2017/11/30/%E2%80%98O-Livro-da-Lei%E2%80%99-marco-do-ocultismo-e-da-cultura-pop

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A Lei

Excluindo-se o aspecto da Magia, para o benefício dos céticos, Aleister Crowley, para além de qualquer julgamento moralista, seja sob o padrão moral de seu tempo ou dos dias de hoje, estava décadas à frente do tempo em que viveu e personificou o pioneiro em várias atitudes e conceitos que seriam posteriormente associados a diversos movimentos ao longo dos séculos XX e XXI, como a afronta a valores pequeno-burgueses típica do punk; a auto imagem como sendo a própria obra do artista, uma característica de diversos performers contemporâneos; o advento do acesso da Ioga às massas; a liberação sexual, que eclodiu décadas após a morte de Crowley e reverbera até os dias de hoje. Aleister Crowley parece realmente ter sido o precursor de novos valores, de uma maré de mudança pela qual a humanidade vai passar, e que parece estar cada vez mais próxima. Ele bem que nos avisou...




E finalizando, não poderia deixar de citar os teoremas! Dentro da filosofia Thelêmica, foram elaborados certos teoremas para a prática da Magia. Esses teoremas, expostos de forma clara e sucinta, são um dentre as muitas pequenas revoluções que o inglês provocou no ato de se praticar Magia. Que tal experimentá-los? Verdadeiras palavras mágicas. Comentem lá embaixo como foram suas invocações a Glycon, Asmodeu e Choronzon hehehehe... 


TEOREMAS:
1. Todo ato intencional é um Ato Mágico.

2. Todo ato bem sucedido obedeceu ao postulado.

3. Todo fracasso prova que um ou mais dos requisitos do postulado não foram preenchidos.

4. O primeiro requisito para se causar qualquer mudança é preenchido através do entendimento qualitativo e quantitativo das condições.

5. O segundo requisito para se causar qualquer mudança é a habilidade prática de direcionar corretamente as forças necessárias.

6. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”.

7. Todo homem e toda mulher têm um curso, dependendo parcialmente de si próprios e parcialmente do ambiente, curso esse que é natural e necessário para cada um. Qualquer pessoa que seja forçada para fora de seu próprio curso, quer através do não entendimento de si própria, ou por meio de oposição externa, entra em conflito com a ordem do universo e, assim, sofre.

8. Um homem cuja vontade consciente esteja em choque com a Verdadeira Vontade está desperdiçando sua força. Ele não pode esperar influenciar o seu ambiente eficientemente.

9. Um homem que esteja realizando a sua Verdadeira Vontade tem a inércia do Universo a lhe assistir.

10. A Natureza é um fenômeno contínuo, apesar de nós não sabermos, em todos os casos, como as coisas são conectadas.

11. A Ciência nos capacita a tomar vantagem da continuidade da Natureza, pela aplicação empírica de certos princípios, cuja interação envolve diferentes ordens de idéias, conectadas entre si de uma maneira além de nossa atual compreensão.

12. O homem é ignorante da natureza de seu próprio ser e poderes. Mesmo a idéia que ele próprio tem sobre suas limitações é baseada na experiência passada, e, em seu progresso, todo passo estende seu império. Não há, portanto, razão alguma para que se assinalem limites teóricos para o que ele possa ser, ou para o que ele possa fazer.

13. Todo homem está mais ou menos ciente de que sua individualidade compreende diversas ordens de existência, mesmo quando ele acredita que seus princípios mais sutis são meramente sintomas de mudanças ocorridas no seu veículo grosseiro. Pode-se assumir que uma ordem similar seja estendida a toda a natureza.

14. O homem é capaz de ser e de usar tudo aquilo que ele percebe, pois tudo o que ele percebe é, de um certo modo, uma parte do seu ser. Ele pode, assim, subjugar todo o Universo do qual ele esteja consciente à sua Vontade individual.

15. Toda força no Universo é capaz de ser transformada em qualquer outro tipo de força, através do uso dos meios adequados. Há, portanto, um suprimento inexaurível de qualquer tipo particular de força de que venhamos precisar.

16. A aplicação de qualquer força afeta todas as ordens de existência que há no objeto ao qual é aplicada, quaisquer dessas ordens sejam diretamente afetadas.

17. Um homem pode aprender a usar qualquer força de modo a servir a qualquer propósito, tirando vantagem dos teoremas acima.

18. Ele pode atrair a si mesmo qualquer força do Universo, tornando-se um receptáculo apropriado a ela, estabelecendo uma conexão com ela e arranjando condições tais que a natureza dela a compila a fluir até ele.

19. O senso do homem acerca de si próprio, como separado de, e oposto a, o Universo, é uma barreira para que ele conduza as correntes universais. Isto o deixa ilhado.

20. O homem somente pode atrair e empregar as forças para as quais ele esteja realmente preparado.

21. Não há limites para o número de relações de qualquer homem com o Universo em essência; pois, tão logo o homem se torne uno com qualquer idéia, os meios de medida deixam de existir. Mas o seu poder para utilizar essa força é limitado por sua força e capacidade mentais, bem como pelas circunstâncias de sua condição humana.

22. Todo indivíduo é essencialmente suficiente para si mesmo. Mas ele é insatisfatório para si mesmo, até que estabeleça a sua relação correta com o Universo.

23. Magia é a Ciência de entender-se a si próprio e suas condições. É a Arte de aplicar este entendimento à ação.

24. Todo homem tem o direito incontestável de ser o que é.

25. Todo homem deve fazer Magia cada vez que ele age, ou mesmo pensa, posto que um pensamento é um ato interno, cuja influência acaba afetando a ação, mesmo que não seja assim naquele momento.

26. Todo homem tem um direito, o direito à autopreservação, a completar-se ao máximo.

27. Todo homem deveria fazer da Magia a chave mestra da sua vida. Deveria aprender suas leis e viver por elas.

28. Todo homem tem o direito de preencher a sua própria vontade sem ter medo de que isto possa vir a interferir com a vontade dos outros; pois se ele estiver em seu próprio lugar, será culpa dos outros, se interferirem com ele.




segunda-feira, 21 de maio de 2018

SUICIDAS, de Raphael Montes, ou "O lado oculto da playboyzada carioca."







Por EDUARDO CRUZ




"Acredito que existe uma força oculta que nos empurra em direção ao precipício. Uma hora você chega à beirada e percebe que precisa enfrentá-la, apesar das dificuldades...
Mas alguns não conseguem, e preferem se jogar...
Eu preferi me jogar. Analisando as opções, antevendo as perspectivas, percebi que nada mais fazia sentido: estava fadado a um funcionalismo público de merda, esquecido entre papéis, processos e regras de conduta. Não quero isso pra mim. É uma opção. Talvez a morte traga algo que a vida não me proporcionou: reconhecimento, fama, respeito..."



Raphael Montes é um pioneiro. Antes do jogo da Baleia Azul e da série 13 Reasons Why, o escritor carioca já havia abordado o suicídio numa obra de cultura de massas oriunda do século XXI. O tema é explorado pelo autor em Suicidas, seu primeiro livro, de 2012, e que foi republicado em 2017 pela Companhia da Letras. Raphael aproveita para contar uma história com muito suspense, que vai do tenso ao doentio numa simples transição de capítulos, apontando os podres que a high society esconde atrás de suas fachadas impecáveis, com comentários sociais nada sutis. O primeiro livro de Raphael que lemos aqui na Zona foi Jantar Secreto, grotescamente arrebatador do início ao fim e com as críticas sociais afiadíssimas. Como eu falei lá naquela resenha, Jantar Secreto foi um dos melhores livros que li em 2017.


"Na verdade, todos temos medo de morrer, daquela incerteza escondida de saber se voltaremos vivos para casa, se teremos mais uma noite de sono, mais uma noite de sexo, assistiremos a mais um bom filme ou conseguiremos terminar aquele livro. Afinal, tudo acaba. E ninguém morre vazio de sonhos. O morto é enterrado com seus projetos, desejos, tudo... Num átimo, o tudo vira nada, e é isso. A vida continua. Deus aperta o "stop", e acabou sua vez neste mundinho.
De certa forma, o suicídio deturpa todo esse projeto predeterminado de vida e morte. Seria como se você mesmo roubasse o controle das mãos do Divino e apertasse o "stop na hora que quisesse. Assim, roubaria Dele o direito de mandar na sua vida. Legal, não?"

Mas eu sabia que estava fazendo errado e precisava dar um confere nesse romance de estréia do rapaz, visto que Suicidas é elogiadíssimo desde sempre. Então, depois do gostinho bom que Jantar secreto deixou - heheheheh - Fui à cata do Suicidas.





A história de Suicidas narra os eventos antes, durante e depois de uma fatídica partida de roleta russa entre nove jovens, todos bem nascidos, privilegiados, de classe média/alta, e aparentemente sem motivos para fazer algo do tipo. O livro se divide em três linhas narrativas diferentes: O diário de Alessandro, personagem principal, encontrado em seu quarto após os eventos do jogo de roleta russa, onde ele registrava os acontecimentos do dia a dia. Aqui conhecemos os personagens da história e os eventos que conduziram ao jogo fatal. A segunda linha narrativa é o registro de tudo que se passou durante o jogo de roleta russa em si: os insultos trocados, as mortes, uma a uma, e outros eventos grotescos (até mesmo uma perturbadora cena de necrofilia!), incluindo um acontecimento que muda drasticamente o andamento da partida! aqui estão as cenas cruentas e polêmicas da história. A terceira e última linha narrativa se passa cerca de um ano depois e é a transcrição de uma reunião organizada pela delegada encarregada do caso, que junta as mães dos jovens para uma leitura do diário do jogo de roleta russa, a fim de tentar trazer à luz algum detalhe desapercebido. Reações incomuns, silêncios desconfortáveis e possíveis pistas, tudo está lá. Junte essas três linhas e caminhamos para um final realmente surpreendente à la Os Suspeitos (Lembram do Keyser Soze?).

 "Suicidas, Alê. É isso que somos. Suicidas! Covardes demais para enfrentar a merda do mundo. Covardes demais para acabar com nossa própria vida sozinhos. Precisamos disto aqui, sabe? Desta merda toda. Deste porão, desta bosta de cerveja quente, da companhia de pessoas tão fodidas quanto nós... Nem pra meter uma bala na cabeça temos coragem."
 


Com um timing para o suspense digno de um Hitchcock e um tino para o humor negro que deixaria Tarantino ou Palahniuk orgulhosos, Raphael Montes já mostrou que não é autor de um sucesso só. Não opta pelo caminho fácil do grotesco gratuito, o choque pelo choque, e mostra horrores além do óbvio, desmascarando convenções sociais familiares de nosso cotidiano e expondo as farsas e hipocrisias grotescas da tradicional família brasileira frente a situações que surgem em seu próprio seio e que ela não é capaz de compreender: homossexualidade, gravidez indesejada, abuso de drogas, depressão. Esperamos aqui na Zona que o autor ainda tenha muitas histórias perturbadoras para contar. Certamente os esqueletos nos armários dos cidadãos de bem não vão faltar como combustível e inspiração para novas prosas...

Até tu, Bátemã???


"A caneta riscando o papel sem parar. Sem omissões ou interferências, com todos os detalhes. Eu não posso modificar nada. Estou aqui para narrar a realidade imunda deste porão, onde deficientes pedem permissão para estourar os miolos e apaixonados fodem defuntas. Esse é o microcosmo a que me entrego a poucas horas - talvez minutos - de encarar a morte. Aqui está o ser humano plenamente dotado de livre-arbítrio. Não há regras. Não há limites. O álcool e as drogas deixam as máscaras caírem, os verdadeiros rostos se revelam diante de um público também despido de normas. Racionais, mas antes de tudo, animais."



sexta-feira, 18 de maio de 2018

Graphic MSP – JEREMIAS: PELE, de Rafael Calça e Jefferson Costa



Por RICARDO CAVALCANTI


Os personagens de Mauricio de Sousa sempre fizeram parte da minha vida, desde a infância até a vida adulta. É um prazer ver que esses personagens podem se tornar multidimensionais e tratar de variados assuntos. A iniciativa do projeto Graphic MSP alcança a maturidade ao tocar em um assunto espinhento em seu 18º título. Tratar de preconceito racial de forma direta, dura e seca e mesmo assim se mostrar uma história forte e inspiradora é o grande mérito da dupla Rafael Calça e Jefferson Costa (roteirista e desenhista, respectivamente). As situações do roteiro e a arte mostram situações que estão longe de confirmar o mantra que alguns gostam de repetir: “Não existe racismo no Brasil”.

Os nossos tempos de criança sempre nos reservam memórias marcantes. Mas nem sempre nos damos conta de como algumas delas podem nos marcar pelo resto da vida. Romantizamos nossa infância com lembranças alegres e divertidas, mas escondemos de nós mesmos aquelas que nos machucam. Palavras e atitudes que nos ferem e que podem nos destruir, nos enfraquecer, acabar com nossa autoestima e nos fazer carregar traumas que podem se transformar em diversos tipos de sentimentos, como revolta, raiva, medo, tristeza, depressão e etc. É nesse momento que a importância da família é essencial para nossa formação. Nesse quesito, a Graphic MSP do Jeremias nos dá uma aula.


Como todas as Graphic MSP, a história é precedida de uma introdução feita por Maurício de Sousa; desta vez como forma de um mea culpa por ser a primeira vez que o personagem protagoniza uma história. Nas páginas nos deparamos com outros personagens: Astronauta e sua nave, Cebolinha e Cascão implicando com a Mônica, a Magali de olho numa enorme melancia, o Rolo dormindo no ônibus...

Jeremias é uma criança que gosta de ler quadrinhos do Batman Guardião da Noite, é estudioso, inteligente, tem uma família carinhosa e sonha em ser astronauta. Mas nem tudo é fácil para ele, pois começa a ter contato com um tipo de reação contra ele, que na condição de criança, ainda não compreende. Mas as diversas formas com que Jeremias vai sendo diminuído, ridicularizado e xingado começa a reduzir a sua tolerância com aquilo tudo, até o momento em que acaba sendo levado a brigar na escola. A apatia da professora e do diretor da escola e a vergonha de tocar no assunto, acaba levando a uma dolorosa conversa/discussão com seu pai.


Jeremias tem a grande sorte de poder contar com pais que tocam no assunto, fazendo-o conseguir enxergar as dificuldades que enfrentará na vida e os caminhos a serem trilhados. O seu crescimento precisa ser antecipado, pois a cor da sua pele precisa deixá-lo preparado para tudo que virá.

Crianças não são racistas por conta própria. Seu caráter e seus valores são nada mais que a reprodução de situações presenciadas por elas. Se encontrar alguma criança com alguma atitude discriminatória, pode ter certeza que ela “aprendeu” a se enxergar em uma suposta “posição superior”. No ano em que se completam 130 anos da assinatura da lei que aboliu a escravidão no papel, ainda convivemos com situações que provam que na prática, a mentalidade escravagista ainda está muito presente. 

 

As formas de racismo e preconceitos surgem no seio familiar e se fortalecem já nas primeiras relações sociais, como na escola. Nesse ambiente encontramos gente despreparada e incapaz de perceber sua responsabilidade e uma estrutura que ajuda a perpetuar o preconceito fingindo que o racismo não existe. O despreparo de alguns professores é tão grande, que vemos “educadores” se orgulhando de bater no peito e dizer que não gostam de ler livros (é sério isso!), ou outros que se dizem estar acostumados a lidar com o racismo (na visão de um branco acostumado a achar normal chamar alguém de negão), mas sem um pingo de empatia. Pode parecer que estou só jogando conversa fora, mas estou mencionando diretamente dois youtubers conhecidos. Escolas costumam tratar esse tema da maneira mais fácil: ignorando que o racismo exista. A própria Graphic MSP mostra a forma como a escola costuma agir em situações como essa. Certamente os autores passaram por situações semelhantes para conseguir retratar um quadro de maneira tão certeira.



Infelizmente é uma realidade que ainda reside em nossa sociedade e precisamos SIM tratar muito desse assunto. Enquanto continuarmos vendo cada vez mais gente sem vergonha de se mostrar racista, tratando como mimimi, vitimismo ou se referir a algo como “coisa de preto” (nas palavras de William Waack) e não tendo nenhum tipo de punição para isso, só mostra como vivemos em uma sociedade doente.



Palmas para os autores Rafael Calça e Jefferson Costa pela excelente obra, para Sidney Gusman pela iniciativa e para Mauricio de Sousa por continuar sendo tão relevante para o quadrinho nacional. Maurício de Sousa é muito maior e melhor que Stan Lee. Isso é fato!


segunda-feira, 14 de maio de 2018

BLACK HAMMER: ORIGENS SECRETAS, de Jeff Lemire e Dean Ormston, ou "O estranho e fantástico filhote de um cruzamento entre Astro City e Umbrella Academy..."






Por EDUARDO CRUZ




Cara, eu odeio os nostálgicos sentimentais. As pessoas que reclamam que não existem HQs hoje em dia que sejam boas como as de 30 anos atrás, se lastimando que os roteiristas realmente bons não existem mais, que "Hoje é tudo uma merda". Geralmente são os mesmos que repetem, como um disco quebrado, que do final dos anos 80 pra cá quase nada relevante aconteceu na música, que "Hoje é tudo uma merda", vivendo nesse loop de negatividade, enxergando o copo meio vazio, e a parte meio cheia com água de esgoto. Mas o que anda em falta mesmo, tanto em HQs como na música, é disposição e paciência pra garimpar, procurar, pesquisar e encontrar suas pepitas. Mas parece que tem gente que prefere mesmo é ficar reclamando sobre como hoje está tudo uma merda do que fazer algo bom. Ou pelo menos, procurar alguém que faça melhor.

Quem não mete as caras e vai pesquisar coisa melhor merece isso...

Eu poderia fazer um mega postzaço indicando algumas pepitas dos anos 90 que fariam vocês verem essa década com outros olhos, demonstrando por A+B que não foi só de Vanilla Ice, P.O. Box, Ace of Base, Jordi, É o Tchan e Latino que os anos 90 foram feitos. Mas hoje não vou falar de música. A pepita do dia é uma HQ autoral do queridinho do pós 2000 pra cá, o canadense Jeff Lemire. O autor, de raízes indie, já trabalhou com super heróis por um tempo, tendo escrito o Homem-Animal para a DC, Gavião Arqueiro, Velho Logan e Cavaleiro da Lua na Marvel. Tendo trabalhado com essas visões tão diversas de personagens de outras editoras, é natural que Lemire tenha acabado criando seus próprios super heróis, tão únicos e ainda assim, tão reconhecíveis e referenciáveis a outros personagens clássicos, e tão bizarros quanto a situação em que estes mesmos heróis estão inseridos. Black Hammer é uma HQ da Dark Horse Comics, que foi - merecidamente - ganhadora do Eisner de 2017 de Melhor série original, mas se vocês estão pensando que vem aí mais uma Liga da Justiça genérica, podem esquecer essa possibilidade. Só posso definir Black Hammer como a cria bizarra que resultaria de uma sessão de sexo tórrida entre The Umbrella Academy e Astro City!




A HQ conta a história de sete heróis, que após salvar o mundo de um adversário terrivelmente poderoso (que lembra bastante o Darkseid, só pra deixar o leitor esperto quanto à periculosidade da criatura, já que esse é um universo ficcional novo, sem cronologia conhecida pelo leitor, e com décadas de cronologia implícita, que vamos descobrindo aos poucos, capítulo a capítulo) aparecem em uma comunidade rural, uma mistura de limbo e prisão, da qual não conseguem sair, e que eles sequer têm certeza de que encontra-se situada em nossa dimensão! Agora, funcionando como uma família disfuncional, os heróis precisam buscar uma forma de escapar deste estranho local, escondendo seus poderes da população do lugar, vivendo uma vida medíocre, além de terem que encarar seus próprios infernos pessoais.

Déjà vu.

Era de Ouro, Era de Prata, Era das Trevas...


Mas quem são os heróis de Black Hammer?



ABRAHAM SLAM:

Um misto de Capitão América e Batman, Abraham Slam já era um veterano prestes a se aposentar quando ocorreu o evento que os lançou nesse limbo. Slam é o único humano comum, sem nenhum tipo de poder, e também o único a se sentir contente na atual situação, vivendo uma vida "normal". Pena que seus companheiros não concordam...



























MENINA DE OURO: 

Essa é fácil, não? A Menina de Ouro é uma alusão óbvia  à Família Marvel (Shazam para os íntimos) e à família Miracleman, é claro (que já era uma alusão aos Shazam), com direito a palavra mágica de transformação e tudo o mais. O problema é que na atual situação ela não envelhece, sendo uma mulher adulta no corpo de uma menina de 9 anos, o que, como se pode imaginar, rende muitos problemas. ZAFRAM!




























BARBALIEN: 

Barbalien é um nativo de Marte que veio para a Terra em uma missão diplomática que deu errado, e é a mescla entre o Caçador de Marte e o Guerreiro, ambos da DC. Mesmo antes do confinamento e perfeitamente disfarçado entre os humanos, o marciano tem seus segredos e se sente terrivelmente deslocado, por não poder ser quem ele realmente é. E isso em mais de um sentido...

 

























CORONEL WEIRD: 

Um astronauta que se envolveu em um acidente no espaço, o Coronel Weird é um mix entre Adam Strange, o aventureiro cósmico da DC Comics, e o Doutor Estranho, da Marvel, circulando em uma dimensão estranha conhecida como Metazona. Weird está sempre transitando entre a Metazona e o local onde ele e seus companheiros estão cativos e não vivencia tempo e espaço como nós: Ele transita por momentos aleatórios do passado e do futuro, e parece saber coisas que ainda nem imaginamos. Claro que uma experiência assim faz com que a pessoa não seja totalmente sã... Coronel Weird tem uma espécie de sidekick robô, a sentimental Talkie Walkie.


 

























MADAME LIBÉLULA:

Madame Libélula tem poderes de origem mística, e lembra um cruzamento entre o Guardião da Cripta, das antigas HQs de terror da EC Comics, e a Ravena, dos Novos Titãs, que sempre tinha problemas com a perda de controle de seus poderes, causando  problemas tanto quanto resolvendo-os.




























BLACK HAMMER:

Falecido. Ainda não sabemos exatamente como aconteceu, mas foi seu sacrifício que impediu nosso mundo de ser destruído pelo terrível Antideus.









O tom em Black Hammer é referencial o tempo inteiro, mais ou menos como vemos em Astro City, onde muitas histórias já aconteceram, mas ainda não foram apresentadas a nós, leitores. A sensação é a de existirem muitas lacunas a serem preenchidas, então aguardemos os próximos volumes para essa colcha de retalhos se expandir...



Sobre a arte de Dean Ormston, só posso dizer que estou impressionado! O desenhista melhorou bastante desde a época em que desenhava as mensais de Os Livros da Magia, da Vertigo. O traço de Ormston, bem como suas composições de páginas evoluíram muito dos anos 90 para cá e isso assentou muito bem em Black Hammer. Também integra a equipe criativa o lendário colorista Dave Stewart, que já ganhou nove prêmios Eisner, é um veterano dos primórdios da Dark Horse, e já trabalhou em Hellboy, Conan, The Goon, The Umbrella Academy, entre muitos muitos muitos outros títulos.

Fichas de personagens não aproveitados. Bateu nostalgia das fichas nos formatinhos da Abril...

Esboços de Dean Ormston

Este primeiro volume, Black Hammer: Origens secretas, reúne as primeiras seis edições originais e conta ainda com um posfácio do Lemire explicando a concepção e execução da HQ, fichas de perfis da construção de personagens e esboços originais de Dean Ormston. Eu devo confessar que estava preocupado com a cara desse encadernado, já que a editora Intrínseca não tem muita experiência em publicar HQs. Pensei: "Poha, lá vem mais um gibi até que bacana, mas em formato paraguaio, com tradução ruim e papel pior ainda...". Estou feliz em descobrir que estou errado em tudo: O encadernado da Intrínseca é em formato americano, papel couché, todos os extras da edição americana, sem cortes. O trabalho da Intrínseca aqui surpreendeu muito, e positivamente! Essa edição está no padrão da Panini. Digo, o padrão da Panini quando acerta...

 

Momento Steve Ditko!

Mais um déjà vu do bom aqui! Precisa explicar qual é essa referência???

Coloque Cleyton na sua história, e não tem como errar!

Essa HQ vai acertar em cheio quem curte títulos como Patrulha do Destino, Astro City ou Umbrella Academy. Equipes de super heróis fora do padrão apolíneo-perfeitão-ianque, personagens sofrendo com problemas bem palpáveis e realistas, ao mesmo tempo em que precisam enfrentar ameaças surreais. Se vocês têm preguiça de procurar alguma nova HQ para ler, aceitem essa humilde sugestão. E aproveitando, se quiserem uma sugestão de música também, posso afirmar que esse artista ai embaixo foi o melhor e mais completo dos anos 90. Viu como não é difícil garimpar ouro puro????




Arte de Fábio Moon