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segunda-feira, 21 de maio de 2018

SUICIDAS, de Raphael Montes, ou "O lado oculto da playboyzada carioca."







Por EDUARDO CRUZ




"Acredito que existe uma força oculta que nos empurra em direção ao precipício. Uma hora você chega à beirada e percebe que precisa enfrentá-la, apesar das dificuldades...
Mas alguns não conseguem, e preferem se jogar...
Eu preferi me jogar. Analisando as opções, antevendo as perspectivas, percebi que nada mais fazia sentido: estava fadado a um funcionalismo público de merda, esquecido entre papéis, processos e regras de conduta. Não quero isso pra mim. É uma opção. Talvez a morte traga algo que a vida não me proporcionou: reconhecimento, fama, respeito..."



Raphael Montes é um pioneiro. Antes do jogo da Baleia Azul e da série 13 Reasons Why, o escritor carioca já havia abordado o suicídio numa obra de cultura de massas oriunda do século XXI. O tema é explorado pelo autor em Suicidas, seu primeiro livro, de 2012, e que foi republicado em 2017 pela Companhia da Letras. Raphael aproveita para contar uma história com muito suspense, que vai do tenso ao doentio numa simples transição de capítulos, apontando os podres que a high society esconde atrás de suas fachadas impecáveis, com comentários sociais nada sutis. O primeiro livro de Raphael que lemos aqui na Zona foi Jantar Secreto, grotescamente arrebatador do início ao fim e com as críticas sociais afiadíssimas. Como eu falei lá naquela resenha, Jantar Secreto foi um dos melhores livros que li em 2017.


"Na verdade, todos temos medo de morrer, daquela incerteza escondida de saber se voltaremos vivos para casa, se teremos mais uma noite de sono, mais uma noite de sexo, assistiremos a mais um bom filme ou conseguiremos terminar aquele livro. Afinal, tudo acaba. E ninguém morre vazio de sonhos. O morto é enterrado com seus projetos, desejos, tudo... Num átimo, o tudo vira nada, e é isso. A vida continua. Deus aperta o "stop", e acabou sua vez neste mundinho.
De certa forma, o suicídio deturpa todo esse projeto predeterminado de vida e morte. Seria como se você mesmo roubasse o controle das mãos do Divino e apertasse o "stop na hora que quisesse. Assim, roubaria Dele o direito de mandar na sua vida. Legal, não?"

Mas eu sabia que estava fazendo errado e precisava dar um confere nesse romance de estréia do rapaz, visto que Suicidas é elogiadíssimo desde sempre. Então, depois do gostinho bom que Jantar secreto deixou - heheheheh - Fui à cata do Suicidas.





A história de Suicidas narra os eventos antes, durante e depois de uma fatídica partida de roleta russa entre nove jovens, todos bem nascidos, privilegiados, de classe média/alta, e aparentemente sem motivos para fazer algo do tipo. O livro se divide em três linhas narrativas diferentes: O diário de Alessandro, personagem principal, encontrado em seu quarto após os eventos do jogo de roleta russa, onde ele registrava os acontecimentos do dia a dia. Aqui conhecemos os personagens da história e os eventos que conduziram ao jogo fatal. A segunda linha narrativa é o registro de tudo que se passou durante o jogo de roleta russa em si: os insultos trocados, as mortes, uma a uma, e outros eventos grotescos (até mesmo uma perturbadora cena de necrofilia!), incluindo um acontecimento que muda drasticamente o andamento da partida! aqui estão as cenas cruentas e polêmicas da história. A terceira e última linha narrativa se passa cerca de um ano depois e é a transcrição de uma reunião organizada pela delegada encarregada do caso, que junta as mães dos jovens para uma leitura do diário do jogo de roleta russa, a fim de tentar trazer à luz algum detalhe desapercebido. Reações incomuns, silêncios desconfortáveis e possíveis pistas, tudo está lá. Junte essas três linhas e caminhamos para um final realmente surpreendente à la Os Suspeitos (Lembram do Keyser Soze?).

 "Suicidas, Alê. É isso que somos. Suicidas! Covardes demais para enfrentar a merda do mundo. Covardes demais para acabar com nossa própria vida sozinhos. Precisamos disto aqui, sabe? Desta merda toda. Deste porão, desta bosta de cerveja quente, da companhia de pessoas tão fodidas quanto nós... Nem pra meter uma bala na cabeça temos coragem."
 


Com um timing para o suspense digno de um Hitchcock e um tino para o humor negro que deixaria Tarantino ou Palahniuk orgulhosos, Raphael Montes já mostrou que não é autor de um sucesso só. Não opta pelo caminho fácil do grotesco gratuito, o choque pelo choque, e mostra horrores além do óbvio, desmascarando convenções sociais familiares de nosso cotidiano e expondo as farsas e hipocrisias grotescas da tradicional família brasileira frente a situações que surgem em seu próprio seio e que ela não é capaz de compreender: homossexualidade, gravidez indesejada, abuso de drogas, depressão. Esperamos aqui na Zona que o autor ainda tenha muitas histórias perturbadoras para contar. Certamente os esqueletos nos armários dos cidadãos de bem não vão faltar como combustível e inspiração para novas prosas...

Até tu, Bátemã???


"A caneta riscando o papel sem parar. Sem omissões ou interferências, com todos os detalhes. Eu não posso modificar nada. Estou aqui para narrar a realidade imunda deste porão, onde deficientes pedem permissão para estourar os miolos e apaixonados fodem defuntas. Esse é o microcosmo a que me entrego a poucas horas - talvez minutos - de encarar a morte. Aqui está o ser humano plenamente dotado de livre-arbítrio. Não há regras. Não há limites. O álcool e as drogas deixam as máscaras caírem, os verdadeiros rostos se revelam diante de um público também despido de normas. Racionais, mas antes de tudo, animais."



quinta-feira, 26 de abril de 2018

ENTERRE SEUS MORTOS, de Ana Paula Maia








Por EDUARDO CRUZ

“A estrada atrás de si é tão similar quanto a que está à sua frente. De certa forma, tudo parece o mesmo, não importa a direção para a qual se mira.”

Eu gostaria de poder afirmar aqui que discorrer sobre a obra de Ana Paula Maia é fácil, ainda mais porque o Ricardo já desbravou essa trilha aqui na Zona Negativa quando soltou aquele post da Saga dos Brutos, onde comentou, de uma só vez, a trilogia Carvão Animal, De Gados e Homens e Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos. Mas isso não seria verdade. Nunca é fácil ingressar no universo "ficcional" de Ana Paula Maia. Uma voz única no panorama literário nacional, sua obra obriga o leitor a olhar de frente e bem de perto o sofrimento dos negligenciados, os embrutecidos, os ignorados pelo sistema, aqueles que sentem a porrada diária de se viver nesse status quo de desigualdade social no qual estamos imersos há... sei lá, quando eu nasci esse cabaré já estava aí, funcionando a pleno vapor, queimando gente feito carvão e convertendo isso em dinheiro no bolso de alguns poucos.



A prosa de Ana Paula não consiste de histórias para elevar o espírito, exaltando a apenas a beleza, como alguns apalermados por aí acham que deve ser a função da arte. Se você se arma de coragem e estômago para embarcar nessas histórias, tem que estar de coração aberto para sentir um bom bocado de dor, abandono e sofrimento, e dar uma bela mordida nesse pão azedo que os mais desprovidos comem todos os dias. Quando comem. A autora dá voz, rosto, nome e passado para personagens sem perspectiva de futuro, os miseráveis desse Brasil onde já é institucionalizado o mantra "Uns com muito e muitos com quase nada". 


Em Enterre Seus Mortos, acompanhamos novamente Edgar Wilson, personagem recorrente em outros livros da autora. Wilson, sendo o estereótipo do excluído, sem passado nem futuro, sempre está às voltas com trabalhos que mais ninguém faz. E esse é o foco de Ana Paula, comprometida em contar histórias que ninguém mais conta. Histórias dos invisíveis. Dos lixeiros, dos matadores de porcos e bois, e dos trabalhadores que recolhem carcaças de animais. Neste romance Edgar Wilson está ganhando a vida, como sempre em um local indeterminado e desolado desse Brasilzão, ao lado de Tomás, um ex-padre excomungado. Eles trabalham para uma firma responsável por recolher carcaças de animais atropelados pela estrada. Raspar do asfalto, recolher os pedaços, jogar na caçamba, levar para o depósito e triturar os restos. Esta é a rotina de Wilson, até o dia em que ele encontra um corpo de uma mulher enforcada na mata. Não faz parte de sua função, mas Wilson recolhe o cadáver, devido às condições precárias dos órgãos responsáveis: o rabecão está quebrado. Brutalizado, mas não desumanizado, Wilson se incomoda com o fato de um ser humano ser assim abandonado no final de sua existência, com "as carnes expostas ao vexame". Para evitar que os abutres acabem com o corpo, o leva ao depósito de seu trabalho, guardando-o em um velho freezer, à espera de uma resolução por parte das autoridades competentes. Para piorar, alguns dias depois encontram outro corpo em condições parecidas, dessa vez de um homem. E, bom, a partir daí não vou detalhar muito mais a história para não estragar surpresas. Só adianto que Edgar Wilson e Tomás, contrariados com tamanho descaso, tentam, por conta própria, dar um fim digno aos cadáveres. 

"Desde que os recolheu, tornou-se responsável por eles. De certa forma isso o faz se sentir menos miserável, porém não mais feliz. Nenhuma pessoa é capaz de se lembrar da hora de seu nascimento, mas o momento da morte, a todos é conhecido."




A autora tem utilizado o personagem Edgar Wilson desde os romances anteriores para conduzir o leitor por seus cenários. Entretanto, não é obrigatório ler os livros anteriores, nem há uma ordem de leitura para a obra de Ana Paula Maia. Cada história é fechada em si, e Wilson é a nau em que a autora nos coloca para trafegar por esses panoramas desesperadoramente desolados de suas histórias, como se nós não tivéssemos a fibra para suportar os acontecimentos que ela narra por nós mesmos. E ela está certa. Nós não aguentamos. Edgar Wilson é casca grossa, e é o muro que nos protege da porrada crua que é a sua prosa. É o filtro sem julgamentos morais, que atenua o impacto. Ou melhor, os impactos. Muitos deles, do início ao fim.


Um ponto interessante é a autora ter focado em algo que não é muito abordado nos livros anteriores: a religião. Porém, como o tom geral da história, a religião aqui não é um elemento positivo, nem evoca espiritualidade autêntica, e sim apenas uma ferramenta de manipulação e alienação. Aqui foi onde li alguns dos comentários mais ácidos sobre o panorama religioso em regiões periféricas, onde a bíblia é grotescamente deturpada a favor das conveniências do "líder espiritual". Inclusive a cena final do livro é a mais poderosa metáfora do nosso neopentecostalismo atual que eu já vi até hoje! Fiquei embasbacado com a mensagem. E concordo. Bravo, moça.

"(...) Enquanto isso, uma parte dos fiéis se tornou evangélica e, portanto, uma horda de homens autointitulados pastores da fé disputa territorialmente a conversão de uma alma à sua própria igreja. O livre comércio religioso apoiado em idéias de prosperidade não apenas no céu, mas também na vida terrena, aliado aos três pilares que o sustentam - culpa, medo e ganância - , construiu um novo sistema em que não somente as penitências resultam em gratidão dos céus, mas também o antigo modelo "eu pago, eu recebo".

“Encurvados aos pés de um Cristo irado cheio de juízo e de fúria, eles apontam suas Bíblias como quem aponta uma pistola. Falam de almas perdidas, mas desejam o sangue e as vísceras. Revestem-se de uma autoridade divina que insistem ter recebido de Deus e falam em línguas estranhas, uma espécie de idioma sobrenatural que somente os escolhidos podem compreender. Tudo o que não está debaixo desse manto divino é maldito e condenado nos séculos vindouros a um inferno setorizado.”

O Brasil simbólico que Ana Paula Maia retrata é um espelho que, apesar de brutal e distorcido, ainda assim mostra os contornos corretos do verdadeiro Brasil, o país do descaso, do horror e absurdo naturalizados, entranhados em todas as classes. Acrescente a este panorama de esterilidade e desolação o binômio desespero + ignorância, e uma dose de religião. Alguma dúvida de que o resultado é desastroso e lamentável? É nesse Brasil, de povoados esparsos e interligados por trilhas e estradas, que aquele bicho que vemos, de passagem, agonizando na rodovia é a nossa sanidade enquanto nação.



“Não há nada no céu: nem fúria, nem anjos, nem santos. É um céu vazio, completamente sem cor e som. Inerte.”



Enterre Seus Mortos é um livro que segue poderoso e impactante literalmente até a última página. Um livro angustiante e ácido, mas ter estômago para lê-lo e processar tudo contido nessas páginas é recompensador.




P.S.: Senhorita Ana Paula Maia, eu me lembro de nos outros livros ter lido algumas vezes sobre Edgar Wilson nunca ter visto neve de verdade na vida e essa ser a maior vontade do personagem. O que você fez na última cena do livro foi simplesmente cruel, moça....




segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

JUNKY, de William Burroughs, ou "O junkie mais influente da cutura pop"




Por EDUARDO CRUZ


"Aprendi a equação junk. Droga pesada não é um meio de aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato. É um meio de vida."



Quando Alan Moore escreveu o personagem Miracleman (ou Marvelman, se preferirem), ele levou o herói a situações às quais Superman, por exemplo, jamais foi exposto. O apogeu disso é exatamente na edição final do run de Moore, quando Miracleman institui uma utopia/ditadura super humana, remodelando o mundo e colocando-o nos trilhos de um futuro sem limites previamente definidos, a fim de extrapolar todas as potencialidades do ser humano. Tio Nietzsche ficaria orgulhoso. Ou absolutamente horrorizado. 
Entre as reformas radicais de todo o sistema estava, obviamente, a reformulação da economia, para que a distribuição de recursos fosse mais justa; a regeneração de todos os criminosos, reintegrando-os à sociedade; a erradicação de todo o armamento nuclear de todas as nações da Terra; o fim dos déspotas e suas ditaduras; a erradicação da fome, dos vícios e do dinheiro, e o mais inusitado e fascinante de tudo: o incentivo à exploração dos espaços interiores dos seres humanos. Pessoas foram incumbidas de mapear as imensidões interiores da mente humana, uma tarefa tão grandiosa e perigosa quanto a de um astronauta, e por isso, foram batizados popularmente na HQ de "Homens do Espaço". Cidadãos que eram considerados párias da sociedade anteriormente; os viciados, nóias e junkies, foram os encarregados de explorar este vasto mundo interior, mapeando a psique humana. Tarefa hercúlea.




E se eu dissesse que existiram psiconautas/narconautas no mundo real? homens e mulheres que, através do consumo de substâncias químicas, olharam para o abismo interior que existe em todos nós e teceram relatos sob a influência dessas substâncias, nos presenteando com suas experiências, para sempre registradas em papel, oferecendo-nos assim um aspecto da natureza humana que muitos temem explorar. Charles Baudelaire é um dos mais notórios destes "Homens do Espaço", com seu Paraísos Artificiais, onde ele relatava suas experiências com narcóticos. Também podemos considerar Hunter Thompson um Homem do Espaço, embora todos os seus relatos fossem acerca de nossa realidade objetiva. Em Medo e Delírio em Las Vegas (que já resenhamos AQUI!), Thompson explorou e fez digressões sobre o mundo exterior, porém alterado quimicamente, e portanto, o fez como um autêntico Homem do Espaço.
E também temos William Burroughs, nossa atração principal da noite.



Quando se fala em Literatura Beat, pensamos automaticamente na trindade Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, os maiores expoentes do gênero. Burroughs, mais velho, e mais culto - com uma graduação em Antropologia em Harvard - e refinado que Kerouac, Ginsberg e companhia, pode ser considerado o mentor do gênero. O texto de Burroughs, apesar de mais lacônico e pessimista que o dos outros beats, foi um dos nomes que ajudou a renovar a literatura norte americana no fim da década de 50/início de 60. Burroughs retrata seu mundo como um romance picaresco, sem atenuar os fatos e com doses, às vezes nada moderadas, de humor negro. Sua postura anárquica inclusive influenciou a contracultura nas décadas posteriores, dos hippies aos punks.


""Por que o senhor precisa de entorpecentes, sr. Lee?" é a pergunta mais formulada pelos psiquiatras estúpidos. A resposta é: "Preciso de junk para levantar da cama de manhã, pra me barbear e tomar café. Preciso de junk pra me manter vivo.""

 


Burroughs tem fãs ilustres, que vão de Mick Jagger a Kurt Cobain, e foi imortalizado como um dos rostos na pequena multidão da capa de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, ao lado de Marilyn Monroe.



Junky é um relato de Burroughs sobre o período em que viveu como usuário de drogas e conviveu com figuras marginalizadas da época, um retrato do underground no início da década de 50. No livro, vemos os perrengues de Burroughs para continuar tendo seu barato diário, os vários tipos de viciados com quem conviveu, suas experiências como traficante pé de chinelo, que exercia para manter o próprio vício e suas tentativas de desintoxicação periódicas. Segundo sinopse da editora:
Cotidiano modorrento, um atestado de dispensa do serviço militar e alguns trambiques. Assim o narrador de Junky descreve sua vida antes das drogas. Nem mesmo as catástrofes da Segunda Guerra Mundial haviam sido merecedoras de sua atenção. Alguns miligramas de morfina causariam mais impacto.
Mescla de confissão - William Burroughs foi dependente de narcóticos por catorze anos - e uma objetividade radical, marcada por uma narração veloz e sem espaço para reflexões psicológicas, o livro marcou a estreia do autor na literatura.
Escrito em 1949, durante uma temporada de Burroughs no México, Junky discorre sobre experiências com morfina, heroína, cocaína, remédios controlados, maconha e tráfico de substâncias ilegais. Não obstante alguns percalços iniciais, que atrasaram a publicação em quatro anos, o livro resultou num sucesso editorial.
Nos Estados Unidos dos anos 1950, as drogas eram um demônio a ser combatido. Em Junky não há lugar para a vergonha, o arrependimento e muito menos a redenção, o que, na época, ia contra tudo o que se considerava útil no tocante à abordagem das drogas na literatura. Recheada de confissões de violência, homossexualismo e teorias extravagantes a respeito dos benefícios filosófico-espirituais da droga pesada, a narrativa causou choque. “Estou melhor de saúde agora, depois de ter tomado drogas pesadas em vários períodos da vida, do que estaria se nunca tivesse me viciado”, afirma o narrador ao se declarar dependente.
O amigo Allen Ginsberg, que se autointitulava “agente” de Burroughs por ter convencido um editor de Nova York a publicar o material que uma fila de profissionais havia rejeitado, festeja na introdução do livro sua “atitude cultural revolucionária”.
Décadas mais tarde, Junky permanece atual. Para além do fato de ter chocado uma época, sua força está na habilidade de Burroughs dar tratamento literário ao que chamou de um “estilo de vida”.
Esta edição, além de ser a versão integral, e não a primeira edição, que saiu cheia de cortes e censuras, conta com um prefácio de Allen Ginsberg, que foi de grande ajuda para que Junky visse a luz do dia: Ginsberg incentivou Burroughs a escrever estas memórias e fez as vezes de agente literário, conseguindo uma editora para publicar o livro do amigo. Sua abordagem, apesar do tema ácido, é a mais suave possível; Burroughs narra os fatos em tom confessional, sem julgamentos morais, humanizando assim essas figuras patéticas que, como disse Philip K. Dick no posfácio/dedicatória de seu livro Um Reflexo na Escuridão: "Se houve algum 'pecado', foi o fato de que essas pessoas quiseram continuar se divertindo para sempre, e elas foram punidas por isso. Entretanto, como eu digo, tenho a impressão de que, se foi isso mesmo, a punição foi grande demais (...)".


"Suas veias tinham quase sumido; bateram em retirada pra perto dos ossos, onde se escondiam da agulha impaciente. Passou a usar as artérias por um tempo, mais profundas e difíceis de atingir que as veias. Para isso, muniu-se de agulhas especiais, mais compridas. Fazia um rodízio de picos entre mãos, braços e pés. Com o tempo, as veias voltam a aparecer. Mesmo assim, Gains tinha de se aplicar sob a pele a metade das vezes, pois não podia esperar. Só fazia isso, porém, depois de meia hora de agonia, espetando, xuxando a carne; a todo instante precisava limpar o "espeto" entupido de sangue."

"Quase pior que a fissura é a depressão que vem junto. Uma tarde, fechei os olhos e vi Nova York em ruínas. Centopeias e escorpiões gigantescos entravam e saíam dos bares, cafeterias e farmácias da rua 42. Crescia mato nas fendas e nos buracos do asfalto. Ninguém à vista."



A vida imita a arte, que imita a vida, que imita a arte...

Oriundo de uma família abastada, Burroughs sempre viveu em um ambiente social e familiar repressivo, onde demonstrações de afeto entre familiares eram mal vistas, e escondeu sua orientação sexual até estar estabelecido em sua carreira literária. Além de Junky, onde ele relata suas experiências com o uso de diversas drogas, em outro livro, intitulado Queer (também publicado na coleção Má Companhia, da Companhia das Letras), Burroughs nos fala sobre uma crise de abstinência que seu pseudônimo, William Lee, tenta curar com álcool com e uma paixão obsessiva por outro homem. Então podemos inferir que tio Bill, levando em conta a moral rígida da época, é duplamente marginal.

"É possível a gente abstrair a maioria das dores - afecções nos dentes, olhos e genitais são mais resistentes - , de forma a experimentá-las como estímulos neutros. Mas da fissura de junk não há escapatória. A fissura de junk é o avesso do barato do junk. O barato do junk é você não poder passar sem ele. Junkies funcionam no tempo junk e no metabolismo junk. Ficam sujeitos ao clima junk. São aquecidos e refrescados pelo junk. O barato junky é ter de viver sob condições junkies. Não dá pra escapar da fissura de junk, do mesmo jeito que ninguém escapa do barato do junk depois de um pico."

Junkybox:

O interessante a se observar em Bill Burroughs é como sua influência transitou da literatura para outros meios. Além de pequenas participações em filmes como Drugstore Cowboy e Segredos e Paixões, Burroughs foi convidado a participar de diversos empreendimentos musicais. Como por exemplo:


  • Burroughs colaborou com a banda R.E.M. em uma nova versão da música Star Me Kitten, originalmente lançada no álbum Songs in the Key of X: Music From and Inspired By the X-Files



  • Burroughs trabalhou com Tom Waits e Robert Wilson na ópera The Black Rider: The Casting of the Magic Bullets, em 1990.



  • Kurt Cobain pediu que Burroughs gravasse a leitura de um de seus contos, The "priest" they called him, e enviasse pelo correio para ser musicado. O texto, originalmente publicado em uma coletânea de contos em 1973, contava uma história de desolação e vício em drogas. Dois meses depois, Cobain juntaria à voz de Burroughs os acordes dissonantes de sua guitarra.



  • Burroughs também aparece no videoclipe Just One Fix, do grupo Ministry.



  • Em 1981 Burroughs gravou o álbum de spoken word intitulado You're the Guy I Want To Share My Money With, com Laurie Anderson e John Giorno.



  • Burroughs também gravou a música Falling In Love Again, cantando-a em alemão ("Ich Bin Von Kopf Bis Fuss Auf Liebe Eingestellt").



  • Burroughs faz uma pequena aparição no clipe de Last Night on Earth, do U2.


Junky pode ser considerado um clássico maldito, pela contundência do tema espinhoso que aborda. Incômodo, mas necessário, sua leitura também nos leva a concluir que desde a época em que foi publicado até os dias atuais pouco mudou com relação à política no trato aos viciados de drogas pesadas, e vemos como a história se repete ciclicamente até os dias atuais: as autoridades sempre se negaram a tratar a situação dos dependentes químicos como uma questão de saúde pública, ao invés disso preferindo abordá-la como uma questão de segurança pública. Enquanto isso, a ignorância e a marginalidade vão ceifando vidas que poderiam ter um rumo bem diferente, se não fosse pela visão carente de compaixão e empatia que permeia os gestores que insistimos em escolher para administrar nossa sociedade...




"Nunca me arrependi da minha experiência com drogas. Acho que estou melhor de saúde agora, depois de ter tomado drogas pesadas em vários períodos da vida, do que estaria se nunca tivesse me viciado. Quando se para de crescer, se morre. Um viciado nunca para de crescer. A maioria dos usuários costuma cortar a dependência periodicamente, o que envolve o encolhimento do organismo e a substituição da células dependentes da droga. Um usuário está em contínuo processo de encolhimento e crescimento no seu ciclo diário de carência e satisfação através da picada."

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

JANTAR SECRETO, de Raphael Montes, ou "E no menu de hoje: Carne de gaivota!"






Por EDUARDO CRUZ



"O paladar é o único sentido isento das questões éticas que governam os demais. Imagine um performer que mutila um animal numa galeria de arte ou um músico que tortura um animal, porque acha o som agradável... Casos impensáveis! Ainda assim, há anos, nós matamos, mutilamos e torturamos animais simplesmente porque eles são saborosos. As pessoas toleram muito sofrimento em sua comida. Em nome do paladar, tudo é possível, meu amigo."

Se já não falei isso antes, lá vai: o terror/horror, pra ser minimamente decente, pra fazer fagulhas, encher a barriga e arrebatar o leitor precisa estar encharcado de crítica social. Esse gênero, independente do recurso narrativo que o autor decida utilizar, por mais grandiosa que seja a ameaça concebida, o antagonista, enfim, todo o horror per se nada mais é do que uma máscara grotesca, surreal, metafísica, brutal, que denuncia, aponta, faz comentários sobre algum outro horror mais corriqueiro, alguma coisa tão naturalizada no cotidiano que sequer enxergamos como horror. Mas que deveria ser vista exatamente dessa forma. Como horror. 

Um dos horrores ocultos da nossa sociedade. Isso a gente não vê no MasterChef.
 



George Romero, o imortal
George Romero, por exemplo, fez isso de forma magistral com seus (quatro primeiros) filmes de zumbis, apontando o consumismo cada vez mais crescente que marcou a geração dos baby boomers, por intermédio de seus zumbis devoradores; Ou H. P. Lovecraft, com seu racismo e xenofobia quase que involuntários, que de certa forma acabaram servindo a esse fim de denunciar um subtexto de segregação entre as camadas de seu cosmicismo; Ou ainda o brasileiro Carlos Orsi, que em seu último livro, Mistérios do Mal (que já resenhamos aqui) também acerta nesse
Carlos Orsi
quesito do comentário social travestido de horror em alguns de seus contos. Enfim, (bons) exemplos de horror atrelado a crítica social não faltam por aí, e saber amarrar um ao outro enriquece muito a história que o autor quer contar, em termos de mordacidade e impacto causado no leitor. Talvez por uma questão de hábito, ou pela diferença nítida de qualidade entre as histórias que possuem esse recurso e as que não possuem, tenho a convicção pessoal de que me parece o jeito certo de escrever horror rs.





Ainda sobre autores que exercem essa fascinante arte do horror e comentário social enredados em perfeita harmonia, falemos um pouco sobre Raphael Montes. Esse carioca, nascido em 1990, estreou no meio literário com Suicidas (2012), seu primeiro romance, seguido de Dias Perfeitos (2014), ambos já com os direitos vendidos para uma adaptação cinematográfica (Muito medo disso. E pelas razões erradas rs). Para a minha infinita vergonha, ainda não havia lido nada do rapaz - apesar de já ver seu nome por aí há bastante tempo - até ler a sinopse de Jantar Secreto, lançado em novembro passado. E só essa sinopse já me deixou pilhado o bastante para cravar meus dentes nesse livro, então aqui estamos nós, prestes a destrinchar essa história. 

1, 2, 3 e VAMOS LÁ!


Em Jantar Secreto acompanhamos a trajetória de quatro amigos de infância, oriundos da cidade de Pingo D'água, no Paraná, que prestam vestibular e vêm estudar no Rio de Janeiro. Dante cursa administração, Miguel estuda medicina, Hugo cursa gastronomia e Leitão estudaria ciências da computação. Alguns anos passam, e todos - com exceção de Leitão - já estão formados, mas o sonho dourado na cidade maravilhosa não saiu bem como o esperado: Dante trabalha como vendedor em uma livraria; Miguel rala pesado fazendo residência em um hospital público e sobrevive graças a uma minguada bolsa do governo; Hugo presta serviços a um pequeno buffet após um incidente que lhe fechou as portas no meio gastronômico e Leitão passa os dias trancado em seu quarto navegando na internet, comendo compulsivamente, fumando maconha, jogando videogame e aplicando pequenos golpes online. Depois de um vacilo feio de um dos quatro, o grupo se encontra seriamente endividado, o que faz com que os amigos corram o risco de serem despejados do apartamento que dividem em Copacabana, quando Leitão propõe uma idéia absurda: promover jantares em seu apartamento para pessoas de fino trato, com a carne mais abundante no planeta, porém extremamente exótica, em um ato inadmissível para a maioria das pessoas: a carne humana. 


“O Brasil já exporta muita coisa. Carnaval, futebol, caipirinha e mulata. Mulher gostosa, puta. Está na hora de exportar gastronomia. Tem gente de sobra no mundo. A China está toda fodida com a superpopulação. A África, a Índia... Já viu quanto mendigo tem por aí? E as favelas? Parecem formigueiros! Ainda tem essa cambada que vagabundeia e vive de subsídio do governo. Bolsa Família, cotas, nem sei mais o quê. Pega essa gente toda e fatia. Faz bife. Carpaccio. Pobre à milanesa. Vai revolucionar a cozinha no mundo. E vai dar uma esvaziada boa, uma limpada.”
 

Apesar da situação extremamente bizarra e dos percalços para conseguirem o... ingrediente principal, o jantar é um sucesso, atraindo membros da nata da elite carioca, entre eles Umberto Marcondes de Machado, um velho playboy decadente que propõe uma sociedade aos rapazes. A partir deste momento, o que já era imoral e impensável alcança níveis blasfemos, tudo em nome do lucro e da vaidade, vemos que nem todos os seres humanos são iguais e que toda refeição tem um preço, pago em dor e sofrimento. 

"(...) Eu comia carne desde criança, não comia? Nunca me importei com o sofrimento do boi, com a tortura do ganso, nunca perdi um segundo de sono em homenagem aos porcos e aos frangos que devorei ao longo de toda a minha existência." 


Que dedos estranhos...


“A verdade é que você não precisa comer carne humana para incentivar atos monstruosos, basta curtir um bife e uma lingüiça que já está dando sua contribuição para o horror.”

Dante é um retrato do jovem no Brasil atual, onde a moral é flexível e a ética é um mero entrave para engrenar em uma carreira de sucesso no mercado de trabalho. O importante é quanto se fatura no fim do dia, não importando o rastro de sangue que se deixa pelo caminho. Um Dante sem um Virgílio para guiá-lo nesse inferno, em uma alusão à Divina Comédia. Hugo é seduzido pelo prestígio e o reconhecimento que seu "trabalho" lhe proporciona, colocando seu ego acima de todo o resto. Leitão é completamente apático e vive apenas o momento, enclausurado em seu quarto, vivenciando o mundo através da Internet e viciado em satisfação imediata e auto gratificação, um traço típico da geração Z, que exige sempre tudo AGORA. Cada um dos amigos reflete uma faceta diferente da condição atual da juventude brasileira contemporânea, à deriva, sem referencial nem ideais - uma característica que os jovens costumavam ter antigamente, lembram? - e tendo que sobreviver no voracíssimo mercado de trabalho. Mas tudo, bem, o mercado é legal, ele se autorregula. Não precisa se preocupar, amiguinho! o capitalismo não mata ninguém!
“Doutor no Brasil não tem doutorado, tem dinheiro.”

A violência extrema ao longo da história, e o fato de Raphael Montes conseguir vender os direitos para a adaptação cinematográfica de livro após livro me fez imaginar: que cineasta brasileiro seria capaz de captar todo essa carnificina, que é o cerne da história, sem perder de vista todo o rico subtexto social da trama? Só me vem à cabeça o diretor Dennison Ramalho, que já cometeu as belas atrocidades Amor Só de Mãe (2003) e Ninjas (2010). Quem já assistiu a algum dos curtas de mais esse talento subestimado, dentre tantos em nosso país, sabe que não tem ninguém mais capacitado por aí. Nosso cinema de horror poderia estar em situação muito melhor, mas acho que estou repetindo aquele velho discurso "valorizem-os-Zés-do-Caixão!" rs...


Amor Só de Mãe (Dennison Ramalho, 2003)





Ninjas (Dennison Ramalho, 2010)


O desenvolvimento dos personagens é excelente, e não há aquela sensação de que ninguém foi mal explorado, dos principais aos secundários, como Cora ou Arthur. Há também menções a cultura pop que ambientam confortavelmente o leitor dentro da trama, pontuais e discretas mas que arrancam uma risadinha ou outra do leitor, como por exemplo, o momento em que Dante diz para si mesmo que "O inverno está chegando", ou quando o autor dá uma alfinetada na fórmula Marvel no gênero de filmes de super-heróis: 


““Combinei com o fofoluxo de ver algum filme de super-herói no cinema pra me distrair.”

“Qual”

“Não sei, tanto faz. É tudo igual.””

O clímax da história é sangrento como nunca vi em nenhum autor nacional. Ou melhor, nunca vi um clímax assim tão sangrento em nada do que li até hoje. Uma cena dantesca - juro que esse saiu sem querer rs! - que faria o Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica se sentir em casa (e sim, há uma serra elétrica na história. Não falta nada!). E ainda com uma playlist altamente inusitada ao fundo tocando enquanto a cena se desenrola, onde as canções se adequam num contraponto perverso ao que está ocorrendo no recinto. Nunca mais vou escutar I Will Always Love You da Whitney Houston, ou Wave do Tom Jobim, Isn't She Lovely? do Stevie Wonder e Every Breath You Take do Police da mesma maneira novamente...
“As pessoas vinculam loucura a maldade e racionalidade a bondade. Segundo estatísticas, doze por cento das pessoas ditas normais são criminosas, assassinas ou perigosas. Enquanto isso, só três por cento das pessoas ditas loucas têm potencial ofensivo considerável. Isso significa que normais matam muito mais do que loucos. Se no mundo houvesse mais loucos, haveria menos violência.”


 
Quando vi o plot básico de Jantar Secreto descrito na Internet, comecei a digerir um monte de possibilidades e fazer conexões e associações. Vejam que bizarro, organizar jantares antropofágicos clandestinos, servidos para a elite carioca, em nome da ostentação e exotismo que a elite adora usar como traço distintivo, o bom e velho ter >>> ser. E ainda mais: os excluídos, os pobres, os negros, literalmente no menu??? isso excitou minha imaginação ao ponto de pensar que genial seria essa imagem grotesca como metáfora perfeita de nossa situação há mais de 500 anos atual. Os abastados sempre consumiram os menos favorecidos nesse país de uma maneira ou de outra, então por que não partir pros finalmentes e fazer as coisas ao pé da letra? Afinal, estamos em um dos países com desigualdade social mais acentuada do mundo! 


“Outro casal que vai curtir férias em Ilha Grande. (...) Mas esses são pretos, estão num Corsa velho e, considerando o que estavam escutando no rádio, são dois fodidos. Ninguém vai sentir falta.”
 
 


“Como entrada, ele preparava ossobucos com a canela e a panturrilha, terrines com o fígado, miolos fritos à milanesa e rins ensopados ou como recheio de tortas de massa folheada. Apesar de duros, os músculos das costas se prestavam para cocções longas, ficando suculentos e cheios de sabor. O tutano dos ossos, retirado da coluna vertebral ou dos ossos longos das pernas, também era aproveitado: virava caldo, jus, redução ou molho. A pele frita ficava deliciosamente crocante e a barriga quando curada, salgada ou defumada chegava ao divino sabor do bacon.”



Criei muitas expectativas com esse livro, e estou surpreso em dizer que Raphael Montes preencheu todas elas e ainda extrapolou algumas mais, e acho que isso nunca me aconteceu antes com livro algum, pelo menos não como com Jantar Secreto. Todo mundo já passou por aquele momento em que força a imaginação a trabalhar ao ler a sinopse de um livro ou filme, tentando imaginar como seria a história, se ficaria satisfeito caso decidisse embarcar naquela história. Algumas vezes, a coisa é exatamente como você imagina em grande parte, e mesmo assim você odiou o livro; às vezes não é nem um pouco como você esperava, e você adora. Em Jantar Secreto o autor evocou várias imagens e símbolos e deu conta dos assuntos que se propôs a tocar: a violência de toda a carne, seja a carne cultivada para consumo, criada e abatida em condições pavorosas (olha o horror da vida real aí!), bem como a carne comercializada no sentido sexual, na atividade da prostituição, como a personagem Cora comenta em uma passagem:

"(...) Puta é a comida a quilo mais barata que existe. Sessenta quilos por seiscentos reais. Sai dez reais o quilo. Onde mais você consegue esse preço?"

Contundente, porém sem ser excessivamente panfletário ou "engachato", Jantar Secreto entra fácil fácil no meu top 5 das melhores leituras de 2017. Um prato cheio! Eu, pessoalmente, estou bem satisfeito com esse banquete, mas com certeza vou repetir qualquer dia desses. Afinal, esse é um gosto adquirido... e viciante!



“Comida não tem nada a ver com razão. Muito menos com consciência. Por que você come carne de vaca, por exemplo? Ou melhor, por que raspou o prato de rosbife? Porque foi criado assim! É uma realidade cotidiana! A carne satisfaz, tem sabor e aparência agradáveis. Logo, comemos! O que tem de errado nisso? Absolutamente nada. Com um pouquinho de esforço, em duas gerações comer carne humana vai ser como devorar ovos e bacon pela manhã.”
 
Parece delicioso...