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quinta-feira, 26 de abril de 2018

ENTERRE SEUS MORTOS, de Ana Paula Maia








Por EDUARDO CRUZ

“A estrada atrás de si é tão similar quanto a que está à sua frente. De certa forma, tudo parece o mesmo, não importa a direção para a qual se mira.”

Eu gostaria de poder afirmar aqui que discorrer sobre a obra de Ana Paula Maia é fácil, ainda mais porque o Ricardo já desbravou essa trilha aqui na Zona Negativa quando soltou aquele post da Saga dos Brutos, onde comentou, de uma só vez, a trilogia Carvão Animal, De Gados e Homens e Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos. Mas isso não seria verdade. Nunca é fácil ingressar no universo "ficcional" de Ana Paula Maia. Uma voz única no panorama literário nacional, sua obra obriga o leitor a olhar de frente e bem de perto o sofrimento dos negligenciados, os embrutecidos, os ignorados pelo sistema, aqueles que sentem a porrada diária de se viver nesse status quo de desigualdade social no qual estamos imersos há... sei lá, quando eu nasci esse cabaré já estava aí, funcionando a pleno vapor, queimando gente feito carvão e convertendo isso em dinheiro no bolso de alguns poucos.



A prosa de Ana Paula não consiste de histórias para elevar o espírito, exaltando a apenas a beleza, como alguns apalermados por aí acham que deve ser a função da arte. Se você se arma de coragem e estômago para embarcar nessas histórias, tem que estar de coração aberto para sentir um bom bocado de dor, abandono e sofrimento, e dar uma bela mordida nesse pão azedo que os mais desprovidos comem todos os dias. Quando comem. A autora dá voz, rosto, nome e passado para personagens sem perspectiva de futuro, os miseráveis desse Brasil onde já é institucionalizado o mantra "Uns com muito e muitos com quase nada". 


Em Enterre Seus Mortos, acompanhamos novamente Edgar Wilson, personagem recorrente em outros livros da autora. Wilson, sendo o estereótipo do excluído, sem passado nem futuro, sempre está às voltas com trabalhos que mais ninguém faz. E esse é o foco de Ana Paula, comprometida em contar histórias que ninguém mais conta. Histórias dos invisíveis. Dos lixeiros, dos matadores de porcos e bois, e dos trabalhadores que recolhem carcaças de animais. Neste romance Edgar Wilson está ganhando a vida, como sempre em um local indeterminado e desolado desse Brasilzão, ao lado de Tomás, um ex-padre excomungado. Eles trabalham para uma firma responsável por recolher carcaças de animais atropelados pela estrada. Raspar do asfalto, recolher os pedaços, jogar na caçamba, levar para o depósito e triturar os restos. Esta é a rotina de Wilson, até o dia em que ele encontra um corpo de uma mulher enforcada na mata. Não faz parte de sua função, mas Wilson recolhe o cadáver, devido às condições precárias dos órgãos responsáveis: o rabecão está quebrado. Brutalizado, mas não desumanizado, Wilson se incomoda com o fato de um ser humano ser assim abandonado no final de sua existência, com "as carnes expostas ao vexame". Para evitar que os abutres acabem com o corpo, o leva ao depósito de seu trabalho, guardando-o em um velho freezer, à espera de uma resolução por parte das autoridades competentes. Para piorar, alguns dias depois encontram outro corpo em condições parecidas, dessa vez de um homem. E, bom, a partir daí não vou detalhar muito mais a história para não estragar surpresas. Só adianto que Edgar Wilson e Tomás, contrariados com tamanho descaso, tentam, por conta própria, dar um fim digno aos cadáveres. 

"Desde que os recolheu, tornou-se responsável por eles. De certa forma isso o faz se sentir menos miserável, porém não mais feliz. Nenhuma pessoa é capaz de se lembrar da hora de seu nascimento, mas o momento da morte, a todos é conhecido."




A autora tem utilizado o personagem Edgar Wilson desde os romances anteriores para conduzir o leitor por seus cenários. Entretanto, não é obrigatório ler os livros anteriores, nem há uma ordem de leitura para a obra de Ana Paula Maia. Cada história é fechada em si, e Wilson é a nau em que a autora nos coloca para trafegar por esses panoramas desesperadoramente desolados de suas histórias, como se nós não tivéssemos a fibra para suportar os acontecimentos que ela narra por nós mesmos. E ela está certa. Nós não aguentamos. Edgar Wilson é casca grossa, e é o muro que nos protege da porrada crua que é a sua prosa. É o filtro sem julgamentos morais, que atenua o impacto. Ou melhor, os impactos. Muitos deles, do início ao fim.


Um ponto interessante é a autora ter focado em algo que não é muito abordado nos livros anteriores: a religião. Porém, como o tom geral da história, a religião aqui não é um elemento positivo, nem evoca espiritualidade autêntica, e sim apenas uma ferramenta de manipulação e alienação. Aqui foi onde li alguns dos comentários mais ácidos sobre o panorama religioso em regiões periféricas, onde a bíblia é grotescamente deturpada a favor das conveniências do "líder espiritual". Inclusive a cena final do livro é a mais poderosa metáfora do nosso neopentecostalismo atual que eu já vi até hoje! Fiquei embasbacado com a mensagem. E concordo. Bravo, moça.

"(...) Enquanto isso, uma parte dos fiéis se tornou evangélica e, portanto, uma horda de homens autointitulados pastores da fé disputa territorialmente a conversão de uma alma à sua própria igreja. O livre comércio religioso apoiado em idéias de prosperidade não apenas no céu, mas também na vida terrena, aliado aos três pilares que o sustentam - culpa, medo e ganância - , construiu um novo sistema em que não somente as penitências resultam em gratidão dos céus, mas também o antigo modelo "eu pago, eu recebo".

“Encurvados aos pés de um Cristo irado cheio de juízo e de fúria, eles apontam suas Bíblias como quem aponta uma pistola. Falam de almas perdidas, mas desejam o sangue e as vísceras. Revestem-se de uma autoridade divina que insistem ter recebido de Deus e falam em línguas estranhas, uma espécie de idioma sobrenatural que somente os escolhidos podem compreender. Tudo o que não está debaixo desse manto divino é maldito e condenado nos séculos vindouros a um inferno setorizado.”

O Brasil simbólico que Ana Paula Maia retrata é um espelho que, apesar de brutal e distorcido, ainda assim mostra os contornos corretos do verdadeiro Brasil, o país do descaso, do horror e absurdo naturalizados, entranhados em todas as classes. Acrescente a este panorama de esterilidade e desolação o binômio desespero + ignorância, e uma dose de religião. Alguma dúvida de que o resultado é desastroso e lamentável? É nesse Brasil, de povoados esparsos e interligados por trilhas e estradas, que aquele bicho que vemos, de passagem, agonizando na rodovia é a nossa sanidade enquanto nação.



“Não há nada no céu: nem fúria, nem anjos, nem santos. É um céu vazio, completamente sem cor e som. Inerte.”



Enterre Seus Mortos é um livro que segue poderoso e impactante literalmente até a última página. Um livro angustiante e ácido, mas ter estômago para lê-lo e processar tudo contido nessas páginas é recompensador.




P.S.: Senhorita Ana Paula Maia, eu me lembro de nos outros livros ter lido algumas vezes sobre Edgar Wilson nunca ter visto neve de verdade na vida e essa ser a maior vontade do personagem. O que você fez na última cena do livro foi simplesmente cruel, moça....




sexta-feira, 17 de março de 2017

Trilogia "A SAGA DOS BRUTOS", de Ana Paula Maia


Por  RICARDO CAVALCANTI


Se tem uma coisa que a equipe do Zona Negativa sempre gostou, foi de procurar algo interessante fora do badalado mainstream. A satisfação em descobrir algo escondido embaixo de um monte de obras pasteurizadas que obedecem a uma fórmula de sucesso sempre foi recompensador.

Nem sempre tudo foi muito fácil de se conseguir como hoje em dia. Para se ter uma idéia, se você quisesse ouvir algo que não era tocado nas rádios, ou que aparecia nos programas dominicais na TV, você tinha que encarnar o seu espírito desbravador e sair à caça de lojas de discos que oferecesse algo além das obviedades.
Matéria sobre "De Gados e Homens", lançado na Itália


Com os filmes era a mesma coisa. Caso a locadora mais próxima da sua casa não te oferecesse opções além dos filmes que viriam a ser futuros títulos de Sessão da Tarde, o processo de descoberta era o mesmo. Isso, numa época em que as únicas opções eram as oferecidas pela TV aberta e a TV por assinatura era um privilégio para poucos.

Ler então... Se você não tivesse um bom faro e um bom sebo para garimpar, pouca coisa se conseguia encontrar de relevante. Não existia um caminho das pedras a ser seguido; cada um desenvolvia seu próprio caminho. Além do mais, era preciso usar muita sabedoria para gastar o pouco dinheiro em alguma coisa, já que na maioria das vezes, a gente acabava apostando no escuro. Não era um simples gasto, era como um investimento de alto risco.

Com o aumento do acesso à internet, tivemos um novo mundo se abrindo diante de nossos olhos. Conseguimos acesso a obras dos mais remotos cantos do mundo. Nesse sentido, muito nos ajudou o falecido Putrescine, que era uma fonte inesgotável de pérolas, prontas para serem descobertas, seja qual for o seu gosto. Tivemos a sorte de conseguir grande parte da filmografia sangrenta de Takashi Miike, da crueza do cinema de Takeshi Kitano, além de uma gama gigantesca de coisas sem noção, que é até difícil definir como o Batman filipino, Superman Turco, além de toda picaretagem do cinema produzido na Turquia e na Índia, que copiavam descaradamente as produções de Hollywood.
Matéria sobre "A Guerra dos Bastardos", lançado na Sérvia.


Hoje, graças ao Google, temos uma facilidade maior para encontrar qualquer coisa. Imaginamos que seria o fim da cultura de massa, que a polarização seria a nova forma de consumo de entretenimento, e que tudo estaria caindo no nosso colo, nos cabendo apenas o trabalho de escolher entre as diversas opções. Mas a sensação que se tem é de que sempre aparecem as mesmas coisas, ficando cada vez mais difícil encontrar algo que te impacte e valha realmente a pena.

Mas apesar de o espírito desbravador andar meio velho, cansado e um bocado preguiçoso, a empolgação de descobrir algo bom e que fuja das obviedades com que somos bombardeados, ainda está mais viva do que nunca. Nesse sentido, surgiu um nome de uma autora brasileira que me surpreendeu, não só pela sinopse de seus livros, mas também da reação de seus leitores.




Ana Paula Maia acabou atiçando minha curiosidade e resolvi conferir do que se tratava. Logo fui surpreendido por sua forma de escrita poderosa e extremamente pessoal. Na trilogia "A Saga dos Brutos", temos três histórias divididas em dois livros – "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos", de 2009 (que também tem a história “O Trabalho Sujo dos Outros") e "Carvão Animal", de 2011 - ambos pela editora Record. Seus personagens são embrutecidos pela vida. Não possuem questionamentos que os consomem; não fazem planos para a própria vida. São os bestializados, os excluídos, os marginalizados, os invisíveis perante a sociedade. Aquele que recolhe o lixo da sua casa por anos e anos e você não sabe nem o nome. Os que desentopem os bueiros e de quem ninguém quer chegar perto porque fedem.
Edição francesa de "Carvão Animal"

Ela possui uma escrita direta, sem floreios, sem rodeios, sem pudores. Suas histórias não possuem um final apoteótico, nem uma trama rebuscada que te dá um plot twist no final. Mas não significa que também não seja extremamente impactante.

A autora te insere em uma realidade dura e sem perspectivas. Em comum, seus personagens possuem o mesmo objetivo: sobreviver.
O juízo de valor, mostrando o quanto é reprovável como os personagens conduzem suas vidas e suas decisões (ou suas formas de pensar), poderia ser um caminho fácil a ser trilhado pela autora, mas Ana Paula não te induz, em nenhum momento, o que achar e o que sentir sobre os acontecimentos. Essa função fica a cargo do próprio leitor.

É uma leitura desaconselhável a pessoas sensíveis e que esperam sempre o lado bom da vida, ignorando as mazelas do dia a dia e tudo que não agrada aos sentidos. Como um aperitivo, segue um pequeno trecho de Carvão Animal, para se ter uma idéia do que se trata:

“A gordura funciona como combustível e aumenta a intensidade do fogo, sendo assim, uma pessoa magra demora mais para ser reduzida a cinzas do que uma gorda. O forno crematório atinge uma temperatura de até 1.000°C. Inclusive para os dentes é impossível resistir ao insuportável calor. A fila de corpos a serem cremados é sempre longa. São mantidos congelados até assarem no forno, e moídos os restos empedrados que são finalizados em cinzas de grãos uniformes e suaves.
Enquanto o corpo é carbonizado, as extremidades se contorcem e encolhem. O que já foi humano parece voltar-se para o lado de dentro. A boca escancara e se contrai. Os dentes saltam. “O rosto murcha e torna-se um grito suspenso de horror.”
Edição Sérvia de "De Gados e Homens"


Por conta de suas descrições de situações que podem gerar incômodo, algumas pessoas a comparam com Chuck Palahniuk. Apesar de suas histórias se encaixarem perfeitamente nos contos de Assombro, por exemplo, não acho que seria uma comparação justa. Acabaria a reduzindo a uma cópia; um pastiche. Mas se for para comparar, diria que suas histórias seriam algo como se Beto Brant filmasse com a violência dos filmes dirigidos por Mel Gibson e um bocado de Ruggero Deodato em Holocausto Canibal.


Edição alemã de "A Guerra dos Bastardos"
O personagem Edgar Wilson (recorrente em suas histórias) é a junção de Edgar Alan Poe com do personagem William Wilson, que dá nome a um dos contos do autor, revelando uma de suas influências.

Imagino como deva ser complicado para um autor nacional conseguir publicar alguma coisa por uma grande editora. É mais fácil investir no óbvio, que vai trazer lucro certo, do que apostar num novo nome e apresentá-lo aos seus leitores. Sem contar que o fato de ser mulher deve complicar ainda mais essa situação, enfrentando o machismo cada vez mais forte de homens inseguros e que vêem na mulher uma ameaça a.... sei lá o quê. Principalmente depois de constatarmos que estamos regredindo como sociedade nos últimos anos. Para se ter uma idéia dos obstáculos que uma mulher enfrenta, J. K. Rowling assinava assim para não saberem que era uma mulher escrevendo (só para citar um exemplo!).

Ana Paula Maia conquista seu espaço de forma imponente, com muito sangue e violência. Suas obras já foram publicadas em vários países como, Alemanha, Estados Unidos, Sérvia, França, Itália e Argentina. Mas apesar disso, ainda é relativamente pouco conhecida por aqui. Ou é pelos motivos mencionados no parágrafo anterior, ou é o nosso complexo de vira-latas falando mais alto. Talvez seja um bocado dos dois.

Em 2017 ainda teremos mais de Ana Paula Maia. O
filme Deserto - que foi roteirizado por ela - do diretor Guilherme Weber - e que já coleciona prêmios em vários festivais, deve entrar em circuito comercial ainda esse ano.  


No final de abril sai o seu novo livro, “Assim na Terra como Embaixo da Terra” - também pela editora Record - tratando do sistema carcerário. Com a sua maneira densa e forte de escrever, me expliquem: como não ficar ansioso para vê-la tocando nesse assunto?

Uma última pergunta... Onde eu estava que não a conheci antes?