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segunda-feira, 21 de maio de 2018

SUICIDAS, de Raphael Montes, ou "O lado oculto da playboyzada carioca."







Por EDUARDO CRUZ




"Acredito que existe uma força oculta que nos empurra em direção ao precipício. Uma hora você chega à beirada e percebe que precisa enfrentá-la, apesar das dificuldades...
Mas alguns não conseguem, e preferem se jogar...
Eu preferi me jogar. Analisando as opções, antevendo as perspectivas, percebi que nada mais fazia sentido: estava fadado a um funcionalismo público de merda, esquecido entre papéis, processos e regras de conduta. Não quero isso pra mim. É uma opção. Talvez a morte traga algo que a vida não me proporcionou: reconhecimento, fama, respeito..."



Raphael Montes é um pioneiro. Antes do jogo da Baleia Azul e da série 13 Reasons Why, o escritor carioca já havia abordado o suicídio numa obra de cultura de massas oriunda do século XXI. O tema é explorado pelo autor em Suicidas, seu primeiro livro, de 2012, e que foi republicado em 2017 pela Companhia da Letras. Raphael aproveita para contar uma história com muito suspense, que vai do tenso ao doentio numa simples transição de capítulos, apontando os podres que a high society esconde atrás de suas fachadas impecáveis, com comentários sociais nada sutis. O primeiro livro de Raphael que lemos aqui na Zona foi Jantar Secreto, grotescamente arrebatador do início ao fim e com as críticas sociais afiadíssimas. Como eu falei lá naquela resenha, Jantar Secreto foi um dos melhores livros que li em 2017.


"Na verdade, todos temos medo de morrer, daquela incerteza escondida de saber se voltaremos vivos para casa, se teremos mais uma noite de sono, mais uma noite de sexo, assistiremos a mais um bom filme ou conseguiremos terminar aquele livro. Afinal, tudo acaba. E ninguém morre vazio de sonhos. O morto é enterrado com seus projetos, desejos, tudo... Num átimo, o tudo vira nada, e é isso. A vida continua. Deus aperta o "stop", e acabou sua vez neste mundinho.
De certa forma, o suicídio deturpa todo esse projeto predeterminado de vida e morte. Seria como se você mesmo roubasse o controle das mãos do Divino e apertasse o "stop na hora que quisesse. Assim, roubaria Dele o direito de mandar na sua vida. Legal, não?"

Mas eu sabia que estava fazendo errado e precisava dar um confere nesse romance de estréia do rapaz, visto que Suicidas é elogiadíssimo desde sempre. Então, depois do gostinho bom que Jantar secreto deixou - heheheheh - Fui à cata do Suicidas.





A história de Suicidas narra os eventos antes, durante e depois de uma fatídica partida de roleta russa entre nove jovens, todos bem nascidos, privilegiados, de classe média/alta, e aparentemente sem motivos para fazer algo do tipo. O livro se divide em três linhas narrativas diferentes: O diário de Alessandro, personagem principal, encontrado em seu quarto após os eventos do jogo de roleta russa, onde ele registrava os acontecimentos do dia a dia. Aqui conhecemos os personagens da história e os eventos que conduziram ao jogo fatal. A segunda linha narrativa é o registro de tudo que se passou durante o jogo de roleta russa em si: os insultos trocados, as mortes, uma a uma, e outros eventos grotescos (até mesmo uma perturbadora cena de necrofilia!), incluindo um acontecimento que muda drasticamente o andamento da partida! aqui estão as cenas cruentas e polêmicas da história. A terceira e última linha narrativa se passa cerca de um ano depois e é a transcrição de uma reunião organizada pela delegada encarregada do caso, que junta as mães dos jovens para uma leitura do diário do jogo de roleta russa, a fim de tentar trazer à luz algum detalhe desapercebido. Reações incomuns, silêncios desconfortáveis e possíveis pistas, tudo está lá. Junte essas três linhas e caminhamos para um final realmente surpreendente à la Os Suspeitos (Lembram do Keyser Soze?).

 "Suicidas, Alê. É isso que somos. Suicidas! Covardes demais para enfrentar a merda do mundo. Covardes demais para acabar com nossa própria vida sozinhos. Precisamos disto aqui, sabe? Desta merda toda. Deste porão, desta bosta de cerveja quente, da companhia de pessoas tão fodidas quanto nós... Nem pra meter uma bala na cabeça temos coragem."
 


Com um timing para o suspense digno de um Hitchcock e um tino para o humor negro que deixaria Tarantino ou Palahniuk orgulhosos, Raphael Montes já mostrou que não é autor de um sucesso só. Não opta pelo caminho fácil do grotesco gratuito, o choque pelo choque, e mostra horrores além do óbvio, desmascarando convenções sociais familiares de nosso cotidiano e expondo as farsas e hipocrisias grotescas da tradicional família brasileira frente a situações que surgem em seu próprio seio e que ela não é capaz de compreender: homossexualidade, gravidez indesejada, abuso de drogas, depressão. Esperamos aqui na Zona que o autor ainda tenha muitas histórias perturbadoras para contar. Certamente os esqueletos nos armários dos cidadãos de bem não vão faltar como combustível e inspiração para novas prosas...

Até tu, Bátemã???


"A caneta riscando o papel sem parar. Sem omissões ou interferências, com todos os detalhes. Eu não posso modificar nada. Estou aqui para narrar a realidade imunda deste porão, onde deficientes pedem permissão para estourar os miolos e apaixonados fodem defuntas. Esse é o microcosmo a que me entrego a poucas horas - talvez minutos - de encarar a morte. Aqui está o ser humano plenamente dotado de livre-arbítrio. Não há regras. Não há limites. O álcool e as drogas deixam as máscaras caírem, os verdadeiros rostos se revelam diante de um público também despido de normas. Racionais, mas antes de tudo, animais."



quinta-feira, 26 de abril de 2018

ENTERRE SEUS MORTOS, de Ana Paula Maia








Por EDUARDO CRUZ

“A estrada atrás de si é tão similar quanto a que está à sua frente. De certa forma, tudo parece o mesmo, não importa a direção para a qual se mira.”

Eu gostaria de poder afirmar aqui que discorrer sobre a obra de Ana Paula Maia é fácil, ainda mais porque o Ricardo já desbravou essa trilha aqui na Zona Negativa quando soltou aquele post da Saga dos Brutos, onde comentou, de uma só vez, a trilogia Carvão Animal, De Gados e Homens e Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos. Mas isso não seria verdade. Nunca é fácil ingressar no universo "ficcional" de Ana Paula Maia. Uma voz única no panorama literário nacional, sua obra obriga o leitor a olhar de frente e bem de perto o sofrimento dos negligenciados, os embrutecidos, os ignorados pelo sistema, aqueles que sentem a porrada diária de se viver nesse status quo de desigualdade social no qual estamos imersos há... sei lá, quando eu nasci esse cabaré já estava aí, funcionando a pleno vapor, queimando gente feito carvão e convertendo isso em dinheiro no bolso de alguns poucos.



A prosa de Ana Paula não consiste de histórias para elevar o espírito, exaltando a apenas a beleza, como alguns apalermados por aí acham que deve ser a função da arte. Se você se arma de coragem e estômago para embarcar nessas histórias, tem que estar de coração aberto para sentir um bom bocado de dor, abandono e sofrimento, e dar uma bela mordida nesse pão azedo que os mais desprovidos comem todos os dias. Quando comem. A autora dá voz, rosto, nome e passado para personagens sem perspectiva de futuro, os miseráveis desse Brasil onde já é institucionalizado o mantra "Uns com muito e muitos com quase nada". 


Em Enterre Seus Mortos, acompanhamos novamente Edgar Wilson, personagem recorrente em outros livros da autora. Wilson, sendo o estereótipo do excluído, sem passado nem futuro, sempre está às voltas com trabalhos que mais ninguém faz. E esse é o foco de Ana Paula, comprometida em contar histórias que ninguém mais conta. Histórias dos invisíveis. Dos lixeiros, dos matadores de porcos e bois, e dos trabalhadores que recolhem carcaças de animais. Neste romance Edgar Wilson está ganhando a vida, como sempre em um local indeterminado e desolado desse Brasilzão, ao lado de Tomás, um ex-padre excomungado. Eles trabalham para uma firma responsável por recolher carcaças de animais atropelados pela estrada. Raspar do asfalto, recolher os pedaços, jogar na caçamba, levar para o depósito e triturar os restos. Esta é a rotina de Wilson, até o dia em que ele encontra um corpo de uma mulher enforcada na mata. Não faz parte de sua função, mas Wilson recolhe o cadáver, devido às condições precárias dos órgãos responsáveis: o rabecão está quebrado. Brutalizado, mas não desumanizado, Wilson se incomoda com o fato de um ser humano ser assim abandonado no final de sua existência, com "as carnes expostas ao vexame". Para evitar que os abutres acabem com o corpo, o leva ao depósito de seu trabalho, guardando-o em um velho freezer, à espera de uma resolução por parte das autoridades competentes. Para piorar, alguns dias depois encontram outro corpo em condições parecidas, dessa vez de um homem. E, bom, a partir daí não vou detalhar muito mais a história para não estragar surpresas. Só adianto que Edgar Wilson e Tomás, contrariados com tamanho descaso, tentam, por conta própria, dar um fim digno aos cadáveres. 

"Desde que os recolheu, tornou-se responsável por eles. De certa forma isso o faz se sentir menos miserável, porém não mais feliz. Nenhuma pessoa é capaz de se lembrar da hora de seu nascimento, mas o momento da morte, a todos é conhecido."




A autora tem utilizado o personagem Edgar Wilson desde os romances anteriores para conduzir o leitor por seus cenários. Entretanto, não é obrigatório ler os livros anteriores, nem há uma ordem de leitura para a obra de Ana Paula Maia. Cada história é fechada em si, e Wilson é a nau em que a autora nos coloca para trafegar por esses panoramas desesperadoramente desolados de suas histórias, como se nós não tivéssemos a fibra para suportar os acontecimentos que ela narra por nós mesmos. E ela está certa. Nós não aguentamos. Edgar Wilson é casca grossa, e é o muro que nos protege da porrada crua que é a sua prosa. É o filtro sem julgamentos morais, que atenua o impacto. Ou melhor, os impactos. Muitos deles, do início ao fim.


Um ponto interessante é a autora ter focado em algo que não é muito abordado nos livros anteriores: a religião. Porém, como o tom geral da história, a religião aqui não é um elemento positivo, nem evoca espiritualidade autêntica, e sim apenas uma ferramenta de manipulação e alienação. Aqui foi onde li alguns dos comentários mais ácidos sobre o panorama religioso em regiões periféricas, onde a bíblia é grotescamente deturpada a favor das conveniências do "líder espiritual". Inclusive a cena final do livro é a mais poderosa metáfora do nosso neopentecostalismo atual que eu já vi até hoje! Fiquei embasbacado com a mensagem. E concordo. Bravo, moça.

"(...) Enquanto isso, uma parte dos fiéis se tornou evangélica e, portanto, uma horda de homens autointitulados pastores da fé disputa territorialmente a conversão de uma alma à sua própria igreja. O livre comércio religioso apoiado em idéias de prosperidade não apenas no céu, mas também na vida terrena, aliado aos três pilares que o sustentam - culpa, medo e ganância - , construiu um novo sistema em que não somente as penitências resultam em gratidão dos céus, mas também o antigo modelo "eu pago, eu recebo".

“Encurvados aos pés de um Cristo irado cheio de juízo e de fúria, eles apontam suas Bíblias como quem aponta uma pistola. Falam de almas perdidas, mas desejam o sangue e as vísceras. Revestem-se de uma autoridade divina que insistem ter recebido de Deus e falam em línguas estranhas, uma espécie de idioma sobrenatural que somente os escolhidos podem compreender. Tudo o que não está debaixo desse manto divino é maldito e condenado nos séculos vindouros a um inferno setorizado.”

O Brasil simbólico que Ana Paula Maia retrata é um espelho que, apesar de brutal e distorcido, ainda assim mostra os contornos corretos do verdadeiro Brasil, o país do descaso, do horror e absurdo naturalizados, entranhados em todas as classes. Acrescente a este panorama de esterilidade e desolação o binômio desespero + ignorância, e uma dose de religião. Alguma dúvida de que o resultado é desastroso e lamentável? É nesse Brasil, de povoados esparsos e interligados por trilhas e estradas, que aquele bicho que vemos, de passagem, agonizando na rodovia é a nossa sanidade enquanto nação.



“Não há nada no céu: nem fúria, nem anjos, nem santos. É um céu vazio, completamente sem cor e som. Inerte.”



Enterre Seus Mortos é um livro que segue poderoso e impactante literalmente até a última página. Um livro angustiante e ácido, mas ter estômago para lê-lo e processar tudo contido nessas páginas é recompensador.




P.S.: Senhorita Ana Paula Maia, eu me lembro de nos outros livros ter lido algumas vezes sobre Edgar Wilson nunca ter visto neve de verdade na vida e essa ser a maior vontade do personagem. O que você fez na última cena do livro foi simplesmente cruel, moça....




domingo, 22 de janeiro de 2017

ULTRA CARNEM, de César Bravo, ou "Tudo que eu quiser, o cara lá de baixo vai me dar!"









Por EDUARDO "A BESTA" CRUZ



"Na disputa entre o Céu e o Inferno nós somos o prato principal"



Quem gosta do gênero de horror sofre. Encontrar, independente da nacionalidade, um bom autor de histórias de horror, e eu digo horror com tutano (grafismo e violência - dentro do contexto, claro), dentes (mais gore e violência por favor!) e espinhos (uma dose de crítica social, sempre!) é um tanto quanto trabalhoso. Quem, como eu, está sempre procurando novidades nesse gênero, às vezes esbarra em becos sem saída, falsas promessas e narrativas que estão aquém das expectativas e hypes. Frustrante? Bastante. Ninguém gosta de chegar ao final de um livro (ou uma HQ) e se dar conta que as horas investidas passeando por aquela obra poderiam ser bem melhor empregadas lendo alguma outra. Mesmo assim, seja na música, cinema, literatura, os tiros no escuro têm que ser dados, o empreendedorismo para conhecer as novidades não pode morrer. Aos teimosos que não têm medo de arriscar pegar algo para ler, escutar ou assistir, conhecendo pouco ou nada a respeito da obra/autor, a recompensa às vezes chega na forma de excelentes surpresas.

Peguemos como exemplo o autor César Bravo: Esse paulista  de Monte Alto publica seus contos há bastante tempo de forma independente (mais em facebook.com/cesarbravoautor, ou no blog coisasdobravo.blogspot.com.br), mas "Ultra Carnem" é seu primeiro livro físico. Não que ele precisasse disso para obter reconhecimento e estabelecer uma base de fãs, coisas que Bravo já conquistou há bastante tempo. Com seu estilo que reverencia mestres como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Clive Barker, mas ao mesmo tempo situa o leitor num cotidiano bem brasileiro, e sem maneirar na violência e em imagens intensas e pavorosas, não é de se admirar que esse autor esteja cada vez mais em evidência. Com este primeiro lançamento do autor pela Darkside Books, César Bravo dá um sopro de vida em um subgênero pra lá de esgotado e batido do horror - o satanismo e a demonologia - e devolve todo o grafismo, crueldade e perversidade que esse nicho da literatura de horror exige - e merece.




1 - O ABANDONO:
"Havia alguém ali. A figura conseguia ser mais negra que a noite. Era alta, ocupava toda a abertura do vão da porta. A coisa também tinha olhos. Eram intensos, brilhavam como brasa. Notando o padre mais perto, o visitante recuou um passo para fugir da luz. Apesar do medo que sentia, do coração aos pulos dentro do peito, Giordano avançou em sua direção"

Ultra Carnem (do latim "além da carne") se passa na cidade de Três Rios, interior de São Paulo. o livro é estruturado em quatro partes, mais um epílogo que amarra toda a trama. Tudo começa quando Vladimir Lester, um menino cigano, é enviado ao orfanato da cidade, aos cuidados do Padre Giordano. O menino foi expulso de sua tribo por razões desconhecidas para o padre, porém nada aparenta para ter merecido tal sina. Lester é introspectivo e não se integra com os outros meninos, e prefere ficar confinado em um quarto, com suas pinturas e esculturas. O menino utiliza uma misteriosa tinta para produzir suas pinturas, e o sentimento de xenofobia por parte de outras crianças do orfanato acaba culminando em um trágico episódio de bullying onde tomamos conhecimento do Mal que Vladimir Lester traz consigo. As consequências deste conto de abertura, um flashback no início do século XIX, irão reverberar através de todo o restante da história. 


2 - GÊNESIS:
"Nôa ainda estava à janela. Olhava para o lado de fora, para as formigas proletárias que trafegavam esperando um pé divino vir pisoteá-las. Crianças, velhos, adultos - eram todos feitos da mesma argamassa: aceitação e agonia."

No conto seguinte, já nos dias atuais, conhecemos Nôa, um jovem pintor sem talento, obcecado com a história do menino cigano pintor. Nôa roubou um livro em uma loja de curiosidades que contava fragmentos da  tenebrosa história de Vladimir Lester, e no ápice de sua obsessão, (digna de um personagem de H.P. Lovecraft, daqueles que só param quando já viram demais, e já estão à beira da insanidade), empreende uma caça aos artefatos do menino: as pinturas, a escultura da ciganinha - a relíquia favorita do garoto, e sua tinta especial. Seguindo pistas e investigando os fatos do passado, Nôa segue em uma caça ao tesouro diabólica neste conto, que flui ainda melhor que a abertura do livro, com um clímax que não deixa a desejar.


3 - O PAGAMENTO:
"Ele a usou como lata de lixo, santo Deus!
O tórax era mantido separado por uma trava de volante. Lá dentro, havia papel, latas de cerveja e guimbas de cigarros. O Açougueiro até defecou dentro dela. "

Neste terceiro conto acompanhamos Marcos, um técnico de informática à beira da falência, que mal consegue sustentar sua mulher, com a qual já não se entende mais, e seu filho Randy (em homenagem ao guitarrista Randy Rhoads), portador de necessidades especiais. Após realizar um serviço de reparos para uma lojinha de curiosidades - a mesma onde Nôa rouba o livro no conto anterior - sua dona, não tendo o dinheiro que Marcos lhe pede pelo serviço prestado, o paga de outra forma. Logo, Marcos consegue tudo que sempre desejou. Mas suspeita que o preço seja alto demais. Nessa história, Bravo exercita seu lado Clive Barker e nos dá cenas repugnantes, perpetradas pelo personagem conhecido como "O açougueiro". Cada vez que O Açougueiro aparece, o livro sobe para censura 90 anos, como se pode constatar no trecho ali em cima. Mais um conto onde não paramos de virar as páginas até chegar a seu ápice sangrento e arrepiante.


4 - O INFERNO:
"- Quem são eles? - perguntou, notando que os homens dentro da cela continuavam acuados.
- Negociantes.  Estão aqui embaixo porque passaram a perna em todo mundo lá em cima. Aqui você tem corruptos,  advogados inescrupulosos, investidores da bolsa, traficantes de mulheres... Não os borra-botas que sujam as mãos. Eles são os cabeças, se é que você me entende. Lá em cima, eles só tinham ouro e poder, aqui embaixo só tem uns aos outros. Eles discutem o tempo todo. Quase sempre a discordância evolui para a violência. É quando fica mais engraçado. Eles se mordem, furam os próprios olhos com suas canetas caras, depois acordam e fazem tudo outra vez. De novo, de novo e de novo."

Na quarta e última parte do livro vemos que os três contos anteriores se entrelaçam e desembocam neste aqui. Lucrécia, uma garçonete que escuta uma conversa que não deveria ser escutada por ninguém deste mundo, acaba sendo cooptada pelo próprio Diabo para auxiliar o Inferno a angariar almas e voltar a equilibrar a disputa com a concorrência. Lucrécia, que teve uma vida amarga e plena de sofrimentos, tragédias pessoais e escolhas erradas, aceita servir a Lúcifer por não simpatizar com o outro lado, por se sentir abandonada por Deus a sua vida inteira. Aprendemos que temos que nos levantar e recomeçar quando caímos, mas Lucrécia teve uma vida inteira de quedas brutais, até esta queda derradeira ao inferno. Nesse conto, Bravo solta a imaginação e vemos infernos dentro de infernos, amálgamas culturais do submundo, como funcionam as hierarquias, suas criaturas, a motivação de Lúcifer e suas legiões para desempenharem seu trabalho sem fim e até o destino de alguns personagens que apareceram nos contos anteriores.


5 - OS TRÊS REINOS:

O epílogo de "Ultra Carnem" fecha as pontas soltas dos protagonistas restantes, porém deixando um gancho sem forçar a barra para um possível retorno. Se foi intenção do autor, aguardemos por isso com prazer. Afinal, o Inferno está sempre querendo aumentar o número de seus ocupantes...



Apesar de certos momentos um tanto quanto previsíveis - como a identidade do personagem Lúcio, a narrativa é bastante fluida e o autor constrói com facilidade e desenvoltura tanto seus personagens quanto cenários extremamente críveis, o que facilita ainda mais a imersão nesse mistério macabro de quase 400 páginas. Do hotel barato de periferia sujo, insalubre e perigoso, e acredite, Bravo descreveu um com perfeição (não pergunte como sei disso - Ok, só digo uma coisa: Rua das Marrecas, RJ kkk) até o Inferno multicultural e amalgamado com muita competência no último conto, César Bravo nos leva com tremenda facilidade ao longo de sua história, suas linhas de tempo, dimensões infernais ou uma árida cidadezinha "no cu do mundo" sem se perder, nem perder o interesse do leitor. Os personagens são desenvolvidos ao ponto de este não ser um livro de horror gratuito. Ou melhor, o horror se passa em níveis diversos que não só o horror gráfico descrito em suas páginas. Vemos horror na história de Lester, que reflete a xenofobia, em especial o preconceito com o povo cigano, ou o horror do abandono infantil na realidade do orfanato, ou ainda a dificuldade que é viver de arte em nosso país, dilema que Nôa enfrenta antes de ser tocado pelo inferno. Ou ainda Lucrécia, que reflete a profunda descrença, desânimo e cinismo frente às porradas que a vida dá. Não raro as motivações dos protagonistas esbarram diversas vezes nos pecados capitais da Divina Comédia, de Dante, o que gera um sentimento ambíguo durante a leitura, já que apesar de haver a possibilidade de se apegar a esse ou aquele personagem, talvez todos estejam invariavelmente condenados.

A parte gráfica do livro é o "Padrão Darkside": muito capricho e tudo pensado em perfeito alinhamento com a temática da história, com símbolos pagãos e desenhos que parecem saídos de manuais medievais de demonologia entre os contos, e na parte interna das capas uma pintura que lembra Bosch, com seu "Jardim das delícias terrenas", mas só a parte do Inferno, claro rs. O simples manuseio de "Ultra Carnem" não é para os fracos de estômago ou de espírito. 




Bosch feelings...
Por um instante achei que tinha o livro de São Cipriano nas mãos. De novo.


Aceitem um conselho: não leiam nada dessas páginas intermediárias em voz alta


E se você acha que o Diabo não é tão feio quanto pintam, é porque não viu o Diabo pintado por Vladimir Lester, ou melhor, pelo César Bravo!

Ah, e quando for começar a leitura, não esqueça de ligar na playlist do Spotify, elaborada pelo próprio autor, para uma imersão completa em sua viagem ao inferno...




Por hoje é só, pe-pe-pessoal!!!




sexta-feira, 25 de novembro de 2016

MISTÉRIOS DO MAL, de Carlos Orsi, ou “O horror de ser brasileiro”




Por EDUARDO CRUZ



De Lovecraft a Poe, passando por King, Barker, Shelley, Rice, Quiroga, Machen, Bloch... enfim, temos um leque gigantesco de opções quando decidimos mergulhar na literatura de horror estrangeira. Dos medalhões óbvios aos obscuros subestimados e novos talentos surgindo aqui e ali, o leitor que souber onde procurar fica abastecido com um estoque de boas histórias do gênero ad infinitum. Agora, aumentando a dificuldade do jogo, se refinássemos um pouco essa busca por literatura de horror, mas nos limitássemos apenas a autores nacionais? Será que teríamos um resultado satisfatório, tanto em quantidade como em qualidade? Admito, para a minha profunda vergonha, que não conheço a maioria dos autores nacionais de ficção científica e/ou terror além do nome, salvo quando tenho a sorte de esbarrar em um ou outro eventualmente em coletâneas e antologias, como a “Ficção de polpa”, que apresentou vários novos talentos em meia dúzia de volumes.  Posso não ter lido nenhum livro de André Vianco, o novo queridinho do horror brasileiro, ou conhecer a temática do horror produzido por André Bozzetto Jr. Mas um autor eu conheço bem: Carlos Orsi.


Carlos Orsi
Orsi, além de escritor, não só de contos, como também de romances, é um jornalista especializado em ciência e tecnologia. Mantém um blog de ciência, cultura e atualidades. Vários de seus contos foram publicados em diversas revistas do gênero, como a Isaac Asimov Magazine, Sci Fi News, Dragão Brasil, e também em antologias de contos, como a já citada “Ficção de polpa”, “Imaginários vol.1”, “Vaporpunk”, “Dieselpunk”, “Solarpunk” e “Rehearsals for Oblivion”, uma antologia de contos norte americana que presta tributo a “O Rei de Amarelo”, de Robert W. Chambers.



Meu primeiro contato com a obra de horror de Carlos Orsi foi há cerca de dez anos. Navegando na internet, não me lembro ao certo como fui parar em um site - e é sempre assim que essas histórias tenebrosas se começam, não é mesmo? - onde conheci “Baal-Zabub” (em breve na Amazon, segundo Orsi comentou com a Zona!), um conto com uma forte influência de H. P. Lovecraft, e com a mesma escala épica de horror cósmico. Fiquei impressionadíssimo com a qualidade da prosa - tanto que quase montei e apresentei um monólogo na faculdade inspirado neste conto - e meu radar para o que Carlos Orsi produz de ficção científica e horror não desligou desde então. Com o tempo, encontrei alguns de seus livros: “Tempos de fúria” (que tem o conto “Planeta dos mortos”, a melhor história de zumbis já cometida aqui no Brasil!) e “Campo total”, ambos coletâneas de contos de Orsi. Esse ano, a editora Draco lança “Mistérios do Mal”, uma coletânea com doze contos. A maioria, como o autor explica no prefácio, datando da segunda metade dos anos 90. Como Orsi é um favorito perene aqui na Zona Negativa, é claro que já lemos e mastigamos esse singelo banquete de atrocidades...

Então, vamos aos contos de “Mistérios do Mal”?



  • Rex Ex Machina: Um conto passado durante os anos de chumbo da ditadura militar, onde, por influência de uma estranha mulher, uma equipe de teatro monta uma peça de “O rei de amarelo”, um clássico da literatura de horror.  História com suspense envolvente, que te prende até o final imprevisível. Admito que muitas referências passaram em branco para mim, pois ainda não li “O rei de amarelo”, falha de caráter que pretendo corrigir em breve, para em seguida reler esse conto. Mesmo assim, gostei bastante.

  • O Mal de um Homem: Um conto sobre um funcionário de uma escola, sua obsessão com a bibliotecária, a descida em espiral rumo ao delírio e à loucura e uma vingança morbidamente cômica ao final. Me senti culpado por rir ao fim da história rs.

  • A Engrenagem Vulgar: Um membro de uma ordem religiosa, com o corpo modificado de formas estranhas para servir à sua fé, se vê às voltas com os dilemas de sua missão “sagrada” e o antagonismo com um antigo companheiro de mosteiro. História muito boa, ao final deu vontade mandar um email pro autor, suplicando para que ele considere a possibilidade de escrever um livro inteiro aprofundando esta trama.
  • O Planeta Vermelho: Um conto futurista, o cenário é o planeta Marte (obóviamente), com um processo de colonização correndo a pleno vapor, até que uma descoberta arqueológica abala as fundações não apenas da nova casa da humanidade, como de todo o sistema solar. Orsi nos entrega um conto cativante com base nos mitos de H. P. Lovecraft, especificamente a entidade Yog-Sothoth. É claro que com uma criatura dessa amplitude envolvida, nada pode acabar bem...
  • A Maldição do Ang Mbai-aiba: Um conto sobre os experimentos de necromancia de um criminoso nazista, refugiado em uma mansão oculta na mata atlântica, e um livro maldito contendo conhecimentos arcanos capazes de acordar os mortos! Ótimo conto!
  • Noite de Samhain: Mais um conto de vingança, mais um flerte com entidades Lovecraftianas. Desta vez Shub-Niggurath, uma das entidades mais terríveis dos mitos de Cthulhu. O final desse conto é extremamente perturbador, e não desejo o destino do protagonista nem ao meu pior inimigo...
  • A Fábrica: Um conto sobre arquiteturas especificamente concebidas para drenar a energia vital dos seres humanos, roubo de cérebros, conhecimentos arcanos e criaturas extradimensionais tão terríveis que apenas o conhecimento de sua existência pode levar um homem à loucura. Deixou gosto de “quero mais”.
  • Estranhos no Ninho: E se o Brasil tivesse recebido outros imigrantes, alguns inclusive não humanos? Neste conto Orsi brinca com o mito da Striga, um misto de bruxa e vampiro, oriunda do folclore europeu. Como de costume, a construção do suspense que leva ao clímax é o que faz a prosa de Carlos Orsi tão prazerosa de se ler.
  • Projeto Cassandra: Um conto sobre alienígenas completamente fora da curva! Aqui descobrimos finalmente o porquê de todas essas abduções que ocorrem há décadas em nosso planeta. Um exercício de imaginação dentro de um gênero já tão cansado. Os fãs de Arquivo X em especial vão se sentir nostálgicos no fim do conto rs....
  • Ora pro Nobis: Uma caçada a um serial killer força um delegado e um padre a formarem uma parceria para investigar o crime, porém detalhes bizarros em cada cena de cada novo crime os fazem acreditar cada vez mais na existência de anjos. E isso não é nada bom... afinal, no antigo testamento, quem eram as criaturas que faziam o trabalho sujo de Deus mesmo?
  • Criaturas da Noite: Após um bizarro assassinato dentro de uma comunidade carente, um repórter se aprofunda em sua investigação dos fatos e descobre O QUE é o assassino. Horror e subtexto pleno de comentário social. Muito bom.
  • Aprendizado: Um conto de fantasia, em um mundo imaginário, onde um grupo de estudantes desafia a visão dominante sobre a configuração de seu mundo, e empreendem uma viagem para conhecer os verdadeiros limites de seu universo. Porém, essa é uma viagem que seria melhor não ter sido feita. Apesar do flerte com a fantasia, Orsi não esquece que esta é uma coletânea de horror e mancha tudo de vermelho no final do conto.

Considero o forte de Orsi o desenvolvimento de seus personagens e da própria história. Além disso, a construção do suspense que leva à conclusão de seus contos também têm um ritmo excelente. Junte isso com sua imaginação para o grotesco, que provavelmente se deve em boa parte à influência de Lovecraft, e temos aí um dos melhores escritores deste gênero em atividade no Brasil. Aqui na Zona já estamos ansiosos pela próxima coletânea de contos, amiguinhos...

De João do Rio a Carlos Orsi, o Horror nacional está sim em excelentes e terríveis mãos!