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sexta-feira, 11 de maio de 2018

BEASTS OF BURDEN - RITUAIS ANIMAIS, de Evan Dorkin & Jill Thompson, ou "O Stranger Things dos pets!"






Por EDUARDO CRUZ



Grandes ou pequenos
Gordos ou magros
Esse é o destino a que estamos fadados
Fechamos nossos olhos e dormimos
E um ninho de moscas deixamos quando partimos

Tradicional poema canino
Autor desconhecido





Um grupo de animais de estimação de uma vizinhança suburbana aparentemente pacata, reunidos para investigar e resolver ocorrências sinistras e sobrenaturais. Premissa bobinha, né? Eu não perderia meu tempo lendo isso. Ok, tem a arte da diva Jill Thompson, mas mesmo assim não parece ser pra mim, burro velho que sou. Até que li em algum lugar que essa série, da editora Dark Horse, faria um crossover com o Hellboy! Aí, meu coração de verme fanboy (pleonasmo?) bateu mais forte e finalmente prestei atenção em Beasts of Burden! Bom, a tal história com a participação do Hellboy não apareceu nesse primeiro volume, mas não quer dizer que eu tenha me arrependido: Beasts of Burden é um quadrinho soturno, dark, tenso e com momentos de partir o coração e encher os olhos de lágrimas. O mote de "Bichinhos-fofinhos-lutando-contra-perigos" aqui é tão infantil quanto o Rover Red Charlie, de Garth Ennis ou WE3, da dupla Grant Morrison/Frank Quitely. E quem conhece essas HQs sabe que não é gibi pra deixar dando mole pro seu sobrinho de 8 anos pegar e ler hehehe.

WE3. Arte de Frank Quitely

Milk and Cheese
Beasts of Burden é escrita pelo quadrinista indie Evan Dorkin, que é famoso lá fora pela sua Milk and Cheese Comics, uma dupla antropomórfica composta por.... um pedaço de queijo e uma caixinha de leite(!!!), que odeiam a humanidade. Além disso, Dorkin trabalhou aqui e ali na Marvel e na DC. Pouca coisa. O cara é indie até a medula, e é um autor que merece mais atenção por parte das editoras aqui no Brasil. Já Jill Thompson dispensa apresentações. Conhecida de longa data dos leitores brasileiros, a Sra. Brian Azzarello tem muita coisa publicada pela DC Comics, e já fez a arte de Sandman, Os Invisíveis, Orquídea Negra e Mulher Maravilha. Uma ótima equipe criativa.

Arte de Jill Thompson

Arte de Jill Thompson


Na HQ, acompanhamos um pequeno grupo de animais de estimação, composto de cinco cães e um gato, que notam eventos estranhos ocorrendo na vizinhança e são forçados a se unir e tomar parte no combate a lobisomens, fantasmas, deuses egípcios malévolos, cães zumbis e demônios em forma de sapos gigantes. As histórias, apesar de curtas e fechadas em si, possuem um pano de fundo que costura todos esses eventos, aparentemente aleatórios, em algo maior, mas que ainda não se revelou neste primeiro volume. E aquela impressão que eu comentei lá em cima, sobre tudo ser pueril ou vago demais? esqueçam: Dorkin e Thompson constroem um mundo até que complexo e bastante rico, onde o sobrenatural se faz presente o tempo todo. Mas nem só de terror vive essa HQ: existem muitos momentos de humor, momentos de aventura e momentos de sensibilidade de rasgar o coração. Leiam a história da cachorra que pede ajuda aos nossos heróis quadrúpedes e vocês vão saber do que estou falando. Impossível não dar uma pausa para secar as lágrimas antes de avançar para a próxima história do encadernado...


Homenagem dupla a Stephen King. Quem aí lembra de "Cujo" e "O Cemitério"???
O desenvolvimento de personagens é bem bacana: cada um dos bichos possui uma personalidade distinta e bem definida, e Dorkin aproveita essa diversidade de humor e caráter para criar uma interação bem natural, e a belíssima arte aquarelada de Thompson complementa isso maravilhosamente, com a expressividade que ela imprime a cada animal.


Essa edição nacional, publicada pela Pipoca & Nanquim Editora, vem caprichada com o esmero de sempre: Capa dura, detalhes em verniz, papel de alta gramatura no miolo, formato grande (27,8 x 19,8cm). Além de contar com várias páginas de extras, contendo esboços, pin ups, capas alternativas e tal. Podem me chamar de rabugento, mas se o excesso de luxo da edição impacta demais no preço, não fica tão interessante adquirir a HQ, ainda mais em se tratando de uma série contínua, o que envolve começar uma nova coleção, que obrigue o leitor a comprar volumes periodicamente. Não levem a mal, consegui meu exemplar numa promoção por um preço que me deixou bem satisfeito, ainda mais porque já estava até me conformando em deixar Beasts of Burden passar. Mas eu me contentaria do mesmo jeito com uma edição mais simples, em capa cartonada e sem extras mesmo. Na minha opinião, poderia ser menos luxuosa, e consequentemente, mais acessível. Mas que ficou linda, ficou! Parabéns aos envolvidos rs.




Ilustração de Camilo Solano

Dorkin conseguiu criar uma ótima ambientação e um belo fiapo de cronologia e desenvolvimento de personagens em um punhado de histórias, além do cliffhanger bacana no final desse primeiro encadernado. Definitivamente, volto pra uma nova visita em Burden Hill se o Pipoca & Nanquim prosseguir com a publicação de Beasts of Burden, afinal, tô esperando o vermelhão aparecer pra brincar com a bicharada...






terça-feira, 9 de janeiro de 2018

UM PEQUENO ASSASSINATO, de Alan Moore e Oscar Zaráte, ou "A fina arte de se auto-perdoar-se a si mesmo"




Por EDUARDO CRUZ


"Então segui esse caminho tortuoso e ele acabou sendo inspirador. Queria saber o que poderia acontecer se trabalhasse de maneira diferente com um artista. E, sim, acredito que seja um dos meus trabalhos mais literários. É uma das obras mais importantes para mim como escritor, pois estava entrando em um novo território. Sinto que estava tentando criar algo inegavelmente adulto, depois de todos os super-heróis que havia escrito."
Alan Moore 



Em 1991, Alan Moore estava com tudo: Havia conseguido migrar da pequena 2000AD para a gigante DC Comics, ganhando mais e tendo um prestígio cada vez mais crescente entre colegas e leitores. Moore tinha em seu currículo uma ótima passagem pelo título do Monstro do Pântano, colocando o personagem num patamar de importância inédita dentro da editora, status que permanece até os dias atuais, a despeito das tentativas de outros roteiristas menos competentes de reverter isso. Ao fim dos anos 80 Moore também tinha em seu currículo HQs indispensáveis, como Watchmen, V de Vingança, A Piada Mortal e Miracleman. Moore já havia ficado grande. Bem grande. Mas de saco cheio de trabalhar para as grandes editoras escrevendo histórias de super heróis Ianques, vide sua briga com a DC. Então, para onde ir agora? só restava uma direção: Trabalho Autoral!!!


Um Pequeno Assassinato, ao contrário do que a gente pode concluir precipitadamente, é uma idéia que partiu do artista espanhol Oscar Zárate e não de Moore. Claro, a química entre os dois foi excelente e a colaboração redondinha de ambos chegou a esse resultado final, mas o argumento, a essência da história veio a partir de uma idéia do artista. Aqui, o roteirista ajudou, e muito, a polir as arestas e dar uma cara mais "Mooreana" ao produto final, mas não endeusem só o Moore dessa vez. Um Pequeno Assassinato é um legítimo trabalho colaborativo. 


"Além disso, Alan é um ótimo ouvinte. Com ele, voce chega a um ponto em que não sabe mais onde as idéias de uma pessoa começam e as da outra terminam. Por exemplo, ele frequentemente usa coisas que eu não havia expressado e que, no entanto, achava que deveriam estar na história."

Oscar Zárate

A arte de Zárate varia de acordo com a situação: se identificam o tempo presente, os flashbacks e delírios surreais do protagonista pelo visual das cenas, que diferem entre si. A parte da história passada no "presente", por exemplo, é carregada de tons muito quentes e vivos, lembrando muito a escola de arte Fauvista. Já os flashbacks são páginas com a pintura levemente esmaecida. então não vá reclamando que algumas páginas tiveram defeito de impressão. SejE mais sensível!!! :>)))).


 
Todos nós possuímos ideais e convicções pessoais, mas será que realmente nos mantemos fiéis a elas? Estamos preparados para abrirmos mão de nossos princípios? E quando foi a primeira vez que cometemos um deslize moral em nossas vidas? Somente os adultos pecam? Essas são algumas perguntas que surgem na mente do leitor no decorrer da leitura de Um Pequeno Assassinato. Timothy Hole é um publicitário bem sucedido, galgando essa grande espiral ascendente em sua carreira, e ele tem um novo desafio: Precisa desenvolver uma campanha publicitária do refrigerante Coca-Cola Flite em uma Rússia pós queda do regime Comunista, sedenta por todo um mundo de consumo que se abre para sua população. Entretanto, seu processo de criação e inspiração é interrompido por visões de um estranho menino, o qual parece só ser visto por Timothy. Essas visões e os "acasos" da trama acabam por levá-lo a uma revisitação de seu passado, onde ele acaba passando por um processo de auto (re)descoberta, que lhe revela que seu passado não foi assim tão inocente. Seus pequenos pecados, suas negligências, vacilos, as infidelidades, as pessoas que Timothy teve que abandonar ou passar por cima para construir sua carreira... enfim, todos os pequenos assassinatos que ele cometeu ao longo da vida, inclusive - e acima de todos - o de sua própria essência.



Essa edição nacional, publicada pela editora do pessoal do canal Pipoca e Nanquim, é uma belezura. Nos vídeos do YouTube eles alardearam orgulhosamente o layout do gibi, o acabamento primoroso da edição, a capa texturizada e o papel de alta gramatura, tudo com razão. O canal do trio é um dos poucos bons canais do YouTube sobre quadrinhos e cultura pop que realmente agrega informações relevantes para quem assiste, em meio a toda aquela massa amorfa de youtubers mais do mesmo, e na editora deles os rapazes não fizeram diferente! Optando por publicar material pouco conhecido no Brasil, mas com relevância inquestionável, a Editora Pipoca e Nanquim escapa do óbvio e joga uma luz em HQs tão relevantes e de qualidade quanto um Maus da vida, mas que careciam de mais divulgação para cair no gosto do público brasileiro. Bom, no que depender do trio Pipoca e Nanquim, isso vai mudar. Com um catálogo de cinco HQs e um livros publicados, já dá pra se ter uma idéia do que esperar deles. Uma dica: É tudo que as outras editoras não estão dando atenção. Pior pra elas, melhor pro Pipoca e Nanquim. E para nós. Quando os verdadeiros fãs estão no comando, espere por coisa boa.


A euforia no olhar de quem está fazendo bonito e escrevendo um capítulo na história editorial do Brasil...
Uma história despretensiosa e minimalista sobre redenção, sobre perdoar a si mesmo, se reinventar e seguir em frente, Um Pequeno Assassinato é indispensável para os fãs de Alan Moore, essencial para os apreciadores de uma boa HQ independente sem firulas, cronologias e mega sagas e uma das ótimas surpresas de 2017 para quem, assim como eu, tem curiosidade sobre os trabalhos de Moore ainda não publicados no Brasil. Quem sabe agora que o Bruxão anunciou sua aposentadoria dos comics, a gente não consiga alcançar os gringos e ter toda a bibliografia do Rouxinol de Northampton na estante? Depois de ter conseguido completar Miracleman, com a ajuda da Dona Panini, já não duvido de mais nada...

"Também queria sugerir que, de forma geral, da mesma maneira que um indivíduo pode encarar seu passado e se redimir, talvez a mesma coisa possa se aplicar a uma cultura como um todo. Talvez se as grandes potências mundiais, como os Estados Unidos, e em menor escala a Grã-Bretanha, pudessem admitir as coisas que fizeram para chegar onde chegamos, se pudéssemos olhar nossa própria história sombria nos olhos, talvez pudéssemos ter a chance de deixar tudo para trás e avançar para o futuro, para o progresso."
Alan Moore